O que é e para que serve?
A ziprasidona é um antipsicótico atípico — um tipo de medicamento usado para tratar condições em que o cérebro está processando a realidade de um jeito diferente do esperado, como alucinações, delírios, euforia intensa ou pensamentos muito desorganizados. “Atípico” não significa nada de ruim: é só o nome que os médicos usam para diferenciar essa geração mais moderna de antipsicóticos dos mais antigos.
No Brasil, a ziprasidona é aprovada para tratar esquizofrenia e transtorno bipolar tipo I — tanto nas crises de mania (aqueles períodos de euforia extrema, pouco sono, pensamentos acelerados) quanto como manutenção para evitar que as crises voltem, geralmente em conjunto com lítio ou valproato. Existe também uma versão injetável, usada em hospitais para situações de agitação intensa.
No Brasil, a ziprasidona é encontrada principalmente com o nome comercial Geodon® (cápsulas de 40 mg e 80 mg). Pode haver versões genéricas disponíveis com o próprio nome “ziprasidona”.
Como ele age no seu cérebro?
Pense no seu cérebro como uma cidade enorme, onde os neurônios são moradores que se comunicam o tempo todo mandando mensageiros químicos de uma casa para outra. Dois desses mensageiros são especialmente importantes aqui: a dopamina e a serotonina.
Na esquizofrenia e nas crises de mania, é como se alguns bairros dessa cidade estivessem com o volume no máximo — a dopamina circulando em excesso, causando aquela sensação de que tudo tem um significado especial, que há vozes, que os pensamentos não param. A ziprasidona age como um porteiro nas portas de entrada da dopamina e da serotonina: ela se encaixa nesses receptores (as “fechaduras” nos neurônios) sem abri-los de verdade, apenas bloqueando a passagem. Com isso, o sinal excessivo diminui e o cérebro consegue funcionar de forma mais equilibrada.
O que torna a ziprasidona um pouco diferente de outros antipsicóticos é que ela age em vários tipos de receptores ao mesmo tempo — incluindo alguns de serotonina que ajudam a melhorar o humor e reduzir a ansiedade. Ela também tem um efeito leve de manter a serotonina e a noradrenalina circulando por mais tempo entre os neurônios, parecido com o que fazem alguns antidepressivos. Por isso, além de controlar os sintomas psicóticos, ela pode ajudar com o humor de forma mais ampla.
Quando começa a fazer efeito?
Depende do que estamos esperando. Para agitação e agitação intensa, a versão injetável age em minutos a horas — é por isso que ela é usada em emergências. Para as cápsulas orais, o caminho é mais gradual.
Pense em plantar uma árvore: você rega hoje, mas a sombra vem com o tempo. Nas primeiras 1 a 2 semanas, muitas pessoas já notam que estão dormindo melhor, que a agitação diminuiu um pouco, que os pensamentos estão menos acelerados. Mas o efeito completo — aquela sensação de que o remédio “encaixou” de verdade — costuma aparecer entre 4 e 6 semanas de uso regular.
Nas primeiras semanas, é normal sentir que o remédio ainda não fez tudo que deveria. Isso não significa que ele não está funcionando. O cérebro precisa de tempo para se adaptar ao novo equilíbrio. Se em 6 semanas você não sentir nenhuma melhora, converse com seu médico — pode ser necessário ajustar a dose.
Como tomar corretamente
Com comida — sempre. Esse é o ponto mais importante sobre a ziprasidona. Quando tomada em jejum, o corpo absorve muito menos do remédio (às vezes metade). Não precisa ser uma refeição enorme: um prato de almoço ou jantar normal já é suficiente. Evite tomar só com um biscoitinho ou um cafezinho.
A dose habitual varia bastante dependendo da condição tratada e de como cada pessoa responde, mas geralmente fica entre 40 mg e 160 mg por dia, divididos em duas tomadas (manhã e noite, sempre com refeições). Seu médico vai começar com uma dose menor e ir ajustando conforme necessário — não tente acelerar esse processo sozinho.
Se esquecer uma dose: tome assim que lembrar, desde que ainda falte bastante tempo para a próxima. Se já estiver perto da hora da próxima dose, pule a que esqueceu e siga normalmente. Nunca tome duas doses de uma vez para compensar.
Não pare de tomar por conta própria. Mesmo que você esteja se sentindo muito bem — especialmente se estiver se sentindo muito bem. A melhora é sinal de que o remédio está funcionando, não de que você não precisa mais dele. Parar de repente pode fazer os sintomas voltarem com força.
Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem
Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)
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Sonolência: A ziprasidona age em receptores que regulam o estado de alerta. Muita gente sente mais sono, especialmente nas primeiras semanas. Costuma melhorar com o tempo. Se atrapalhar muito o dia a dia, converse com o médico sobre tomar a dose maior à noite.
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Tontura ao levantar rápido: O remédio relaxa levemente os vasos sanguíneos, fazendo a pressão cair um pouco quando você muda de posição. Levante devagar da cama ou da cadeira, especialmente de manhã. Isso tende a melhorar nas primeiras semanas.
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Náusea: Mais comum no início do tratamento. Tomar com uma refeição completa ajuda bastante a reduzir esse desconforto.
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Boca seca e constipação (intestino preso): Acontece porque o remédio interfere levemente em alguns sinais que controlam a produção de saliva e o funcionamento do intestino. Beba bastante água e mantenha uma alimentação com fibras.
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Agitação ou inquietação nas doses iniciais: Algumas pessoas sentem uma sensação estranha de não conseguir ficar paradas, especialmente com doses baixas. Avise seu médico se isso acontecer — pode ser necessário ajustar a dose.
Menos comuns
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Movimentos involuntários ou rigidez muscular: A ziprasidona bloqueia receptores de dopamina em uma região do cérebro que controla os movimentos. Em algumas pessoas, isso pode causar tremores, rigidez ou movimentos involuntários. É menos comum com a ziprasidona do que com antipsicóticos mais antigos, mas pode acontecer. Avise seu médico se notar qualquer coisa diferente nos seus movimentos.
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Alterações na visão: Visão embaçada ou dificuldade de focar, especialmente no início. Geralmente passageiro.
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Ganho de peso: Ao contrário de muitos outros antipsicóticos, a ziprasidona tem uma das menores taxas de ganho de peso da sua classe. Muitas pessoas não engordam nada. Mas cada organismo reage de um jeito — monitore seu peso e converse com o médico se notar mudanças.
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Alterações no eletrocardiograma (QTc prolongado): A ziprasidona pode causar uma alteração no ritmo elétrico do coração chamada “prolongamento do intervalo QTc”. Na maioria das pessoas saudáveis, isso não causa nenhum sintoma. Mas é por isso que seu médico pode pedir um eletrocardiograma antes ou durante o tratamento. Esse efeito é mais relevante em pessoas que já têm problemas cardíacos.
Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)
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Síndrome Neuroléptica Maligna (SNM): Uma reação rara e grave. Os sinais são: febre alta, músculos muito rígidos, confusão mental e suor excessivo ao mesmo tempo. Se isso acontecer, vá a uma emergência imediatamente — não espere.
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Reação DRESS (erupção cutânea grave com febre): Uma reação alérgica séria que começa como uma erupção na pele, mas pode evoluir para febre, gânglios inchados (caroços no pescoço, axila ou virilha) e rosto inchado. Se aparecer qualquer combinação de erupção na pele com febre, procure atendimento médico urgente.
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Discinesia tardia: Com uso prolongado, alguns antipsicóticos podem causar movimentos involuntários repetitivos, especialmente na boca e na língua. É mais raro com a ziprasidona do que com antipsicóticos antigos, mas pode acontecer. Avise seu médico se notar qualquer movimento que você não consegue controlar.
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Palpitações ou desmaio: Se sentir o coração batendo de forma irregular, muito rápido ou tiver um desmaio, procure atendimento imediatamente — pode estar relacionado ao efeito do remédio no coração.
O que fazer se tiver efeitos colaterais?
Primeiro: a maioria dos efeitos colaterais da ziprasidona aparece nas primeiras semanas e melhora com o tempo, conforme o corpo se adapta. Não entre em pânico se sentir sonolência ou tontura nos primeiros dias.
Ligue para o seu médico se:
– Os efeitos colaterais estiverem atrapalhando muito sua rotina (trabalho, sono, alimentação)
– Você notar qualquer movimento involuntário ou rigidez muscular
– Aparecer qualquer erupção na pele
– Você estiver sentindo palpitações frequentes
Vá a uma UPA ou emergência se:
– Tiver febre alta com rigidez muscular e confusão
– Tiver erupção na pele junto com febre e gânglios inchados
– Sentir o coração batendo de forma muito irregular ou desmaiar
O que NÃO fazer:
– Não pare o remédio de repente sem falar com o médico, mesmo que esteja se sentindo mal com os efeitos colaterais. Parar abruptamente pode piorar os sintomas da doença. O médico pode reduzir a dose gradualmente ou trocar o medicamento de forma segura.
– Não aumente a dose por conta própria achando que vai melhorar mais rápido.
Cuidados importantes
Álcool: Evite. O álcool potencializa a sonolência e a tontura causadas pela ziprasidona, e pode aumentar o risco de quedas e acidentes. Além disso, o álcool em si piora os transtornos que o remédio está tratando.
Outros remédios que afetam o coração: A ziprasidona não pode ser usada junto com vários medicamentos que também alteram o ritmo cardíaco — como alguns antibióticos (moxifloxacino, esparfloxacino), antiarrítmicos (sotalol, quinidina), e outros antipsicóticos mais antigos (tioridazina, clorpromazina). Sempre informe todos os médicos e dentistas que você usa ziprasidona antes de receber qualquer prescrição nova.
Inibidores da MAO (IMAOs): Não use ziprasidona junto com antidepressivos da classe dos IMAOs (como fenelzina ou tranilcipromina), nem nas duas semanas após parar de usá-los. Essa combinação pode causar reações graves.
Remédios para pressão: A ziprasidona pode potencializar o efeito de medicamentos para hipertensão, fazendo a pressão cair demais. Se você usa remédio para pressão, avise seu médico.
Carbamazepina: Esse anticonvulsivante (usado também no bipolar) pode reduzir bastante a quantidade de ziprasidona no sangue, diminuindo sua eficácia. Seu médico precisa saber se você usa os dois juntos.
Gravidez e amamentação: A ziprasidona não é recomendada durante a gravidez, especialmente no terceiro trimestre, pois pode causar efeitos no bebê logo após o nascimento. Se você está grávida, planeja engravidar ou está amamentando, converse com seu médico — ele vai avaliar os riscos e benefícios no seu caso específico.
Idosos com demência: Antipsicóticos como a ziprasidona não são aprovados para tratar agitação em idosos com demência (como Alzheimer). Estudos mostraram que esse uso aumenta o risco de morte nessa população. Se você tem um familiar idoso com demência, converse com o médico sobre as alternativas.
Calor intenso e exercício: A ziprasidona pode dificultar a regulação da temperatura do corpo. Em dias muito quentes ou durante exercícios intensos, tome cuidado para não superaquecer — beba água, fique em ambientes frescos e evite exposição prolongada ao sol.
Perguntas frequentes
Vou engordar tomando ziprasidona?
A ziprasidona é um dos antipsicóticos com menor risco de ganho de peso — é uma das razões pelas quais ela foi desenvolvida. Muitas pessoas não engordam nada. Algumas podem ter uma variação pequena de peso. Diferente de outros antipsicóticos, ela também não costuma alterar o açúcar no sangue nem o colesterol. Mas cada organismo é diferente, então vale monitorar.
Posso beber álcool de vez em quando?
O ideal é evitar. O álcool aumenta a sonolência e a tontura do remédio, e piora as condições que ele está tratando. Se você for a um evento social e quiser tomar uma taça de vinho, converse com seu médico — mas saiba que o risco de se sentir muito tonto ou sonolento é real.
Posso parar de tomar quando me sentir bem?
Não, e esse é um dos pontos mais importantes. Sentir-se bem é sinal de que o remédio está funcionando. Parar por conta própria pode fazer os sintomas voltarem, às vezes de forma mais intensa. A duração do tratamento é definida pelo médico com base na sua condição — para alguns é por alguns meses, para outros é por anos. Essa decisão precisa ser tomada junto com quem te acompanha.
Por que preciso tomar com comida? Não posso tomar em jejum?
Porque sem comida, seu corpo absorve muito menos do remédio — às vezes metade da dose. Isso significa que você estaria tomando o remédio, mas ele não estaria fazendo efeito completo. Não precisa ser uma refeição elaborada, mas precisa ser uma refeição de verdade: almoço, jantar ou um café da manhã reforçado.
A ziprasidona vai me deixar “zumbi” ou sem personalidade?
Não é para isso que ela serve, e não é o que acontece com a maioria das pessoas. Nas primeiras semanas, a sonolência pode ser mais intensa, mas tende a diminuir. O objetivo do remédio é justamente te ajudar a funcionar melhor — não te apagar. Se você estiver se sentindo muito entorpecido ou sem energia, avise seu médico, pois pode ser necessário ajustar a dose.
Referências
- Stahl, S.M. Fundamentos de Psicofarmacologia, 3ª edição. Artmed, 2014.
- Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. Manole, 2021.
- FDA. Geodon (ziprasidone) — Full Prescribing Information. Pfizer Inc. Disponível em: fda.gov
- ANVISA. Bula de Geodon® (ziprasidona). Disponível em: bulario.anvisa.gov.br
Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.