Definição e Epidemiologia
Em emergências psiquiátricas, o eletrocardiograma (ECG) e o eletroencefalograma (EEG) são exames complementares de natureza funcional, utilizados com o objetivo principal de excluir condições médicas não psiquiátricas que podem se manifestar com sintomas comportamentais ou psíquicos. O seu uso não se destina ao diagnóstico de transtornos psiquiátricos primários, mas sim ao diagnóstico diferencial, sendo ferramentas de triagem para causas orgânicas subjacentes. A indicação é baseada na suspeita clínica, guiada por sinais de alerta na apresentação do paciente.
O ECG avalia a atividade elétrica cardíaca e é empregado rotineiramente na avaliação pré-operatória para eletroconvulsoterapia (ECT) e no monitoramento de efeitos adversos cardiovasculares de psicofármacos. O EEG registra a atividade elétrica cortical e tem maior utilidade na investigação de transtornos convulsivos (especialmente parciais complexos), delirium e estados alterados de consciência que podem mimetizar quadros psiquiátricos.
Não existem dados epidemiológicos específicos sobre a frequência de anormalidades em ECG ou EEG em emergências psiquiátricas, pois sua solicitação é direcionada por critérios clínicos. A prevalência de achados positivos varia conforme a população estudada e os sinais de alerta presentes. Em serviços de emergência geral, estima-se que uma parcela significativa (até 40%) dos pacientes com queixas psiquiátricas agudas possa ter uma condição médica orgânica contribuinte ou causal. No contexto brasileiro, a disponibilidade desses exames no Sistema Único de Saúde (SUS) pode ser limitada, sendo sua solicitação frequentemente realizada em hospitais gerais com leitos de interconsulta psiquiátrica ou em serviços de urgência de maior complexidade.
Os principais fatores de risco para a presença de uma etiologia orgânica detectável por esses exames incluem: idade avançada, história prévia de doença neurológica (epilepsia, AVC) ou cardíaca, uso de substâncias psicoativas, presença de comorbidades clínicas significativas e o surgimento de sintomas psiquiátricos de início súbito ou atípico. O curso clínico de um quadro secundário a uma condição médica geralmente acompanha a evolução da doença de base.
Etiopatogenia e Neurobiologia
A justificativa para o uso do ECG e do EEG reside na fisiopatologia de condições médicas que interferem na função cerebral e cardíaca, podendo produzir sintomas psiquiátricos.
Condições Detectáveis por EEG:
- Epilepsias do Lobo Temporal e Frontal: Descargas elétricas paroxísticas nessas regiões podem gerar sintomas complexos, incluindo automatismos, alterações de consciência, experiências subjetivas (como déjà vu ou medo súbito), alucinações (especialmente olfativas) e comportamentos bizarros que podem ser confundidos com psicose, dissociação ou crises de pânico. A atividade epileptiforme interictal pode, em alguns casos, estar associada a alterações de personalidade ou humor.
- Delirium: Estados tóxico-metabólicos (ex.: hipoglicemia, distúrbios eletrolíticos, insuficiência hepática ou renal) e infecções sistêmicas frequentemente causam uma lentificação difusa e generalizada do ritmo de base no EEG. Esta lentidão é um marcador sensível de disfunção cerebral global e ajuda a diferenciar o delirium de uma demência ou de um transtorno psiquiátrico funcional.
- Lesões Estruturais: Tumores, hematomas subdurais, abscessos ou infartos cerebrais podem gerar focos de atividade lenta (ondas delta ou teta) no EEG, correspondendo à zona de tecido cerebral disfuncional ou lesionado. Embora a neuroimagem seja mais específica para a caracterização anatômica, o EEG pode ser o primeiro exame a sinalizar uma anormalidade focal.
- Efeitos de Substâncias: Diversos fármacos psicotrópicos (especialmente benzodiazepínicos, barbitúricos) e drogas de abuso podem alterar o padrão do EEG, tipicamente aumentando a atividade beta rápida ou, em casos de intoxicação, causando lentificação.
Condições Detectáveis por ECG:
- Efeitos de Psicofármacos:
- Antipsicóticos (típicos e atípicos): Podem prolongar o intervalo QT corrigido (QTc), aumentando o risco de arritmias ventriculares potencialmente fatais, como a torsade de pointes. A avaliação pré-tratamento e o monitoramento periódico do ECG são cruciais, especialmente em pacientes com fatores de risco (idade avançada, sexo feminino, cardiopatia prévia, hipocalemia, hipomagnesemia, uso concomitante de outros fármacos que prolongam o QT).
- Tricíclicos e Tetracíclicos: Em overdose, são notórios por causar bloqueios de condução cardíaca, prolongamento do QRS e do QT, taquicardia sinusal e arritmias. Em doses terapêuticas, podem ter efeitos anticolinérgicos que aceleram a frequência cardíaca.
- Lítio: Pode causar alterações da repolarização (ondas T achatadas ou invertidas), depressão do segmento ST e, mais raramente, disfunção do nó sinusal ou bloqueios cardíacos. O ECG é recomendado antes do início do tratamento, durante ajustes de dose e em suspeita de toxicidade.
- Comorbidades Clínicas:
- Transtornos Alimentares: A hipocalemia secundária a purgações (vômitos, uso de laxantes/diuréticos) em pacientes com bulimia nervosa ou anorexia nervosa subtipo purgativo pode levar a alterações eletrocardiográficas significativas, como achatamento ou inversão da onda T, aparecimento de onda U e prolongamento do intervalo QT, com risco de parada cardíaca.
- Ansiedade e Pânico: Embora a taquicardia sinusal seja comum durante crises, o ECG é essencial para excluir arritmias cardíacas (como taquicardia supraventricular paroxística) ou outras cardiopatias (ex.: prolapso da valva mitral, embora sua associação com pânico seja controversa) que podem simular ou desencadear sintomas de ansiedade.
- Condições Cardíacas Sistêmicas: Arritmias, isquemia miocárdica silenciosa ou síndromes de baixo débito podem se apresentar com fadiga extrema, desânimo, confusão mental ou agitação, mimetizando depressão ou delirium.
Quadro Clínico
O quadro clínico que deve levantar a suspeita para a necessidade de ECG e/ou EEG não é o de uma síndrome psiquiátrica pura, mas sim de uma apresentação atípica ou com elementos sugestivos de organicidade. Os sinais de alerta, conforme destacado no Compêndio de Kaplan & Sadock, incluem:
- Idade de Início Atípica: Surgimento de um primeiro episódio psicótico após os 40 anos; início de anorexia nervosa na meia-idade.
- Curso Clínico Atípico: Início súbito e explosivo de sintomas, sem pródromos; flutuações rápidas no nível de consciência ou no estado mental ao longo do dia.
- Sintomas Focais ou Neurológicos: Alucinações predominantemente olfativas, gustativas ou somatossensoriais; queixas visuais elementares (luzes, cores); automatismos (movimentos repetitivos e sem propósito como mastigar, engolir, coçar); episódios breves de "ausência" ou desconexão com o ambiente.
- Alterações Cognitivas Inesperadas: Dificuldades marcantes de orientação, atenção ou memória em um paciente que se apresenta com um suposto quadro de humor ou ansiedade. Um Miniexame do Estado Mental (MEEM) anormal é um forte indicador.
- Catatonia: A síndrome catatônica (estupor, flexibilidade cérea, negativismo, mutismo, agitação) tem uma alta associação com condições médicas gerais (neurológicas, metabólicas, autoimunes).
- Resposta Atípica ao Tratamento: Falha em responder a múltiplas intervenções farmacológicas adequadas para um suposto diagnóstico primário.
- Ausência de História Familiar: Quando um transtorno com forte componente hereditário (ex.: esquizofrenia, transtorno bipolar) surge sem qualquer histórico familiar positivo.
- Sinais ou Sintomas Somáticos Associados: Cefaleia, febre, incontinência urinária recente, sinais de trauma craniano, sintomas cardíacos (palpitações, síncope, dor torácica).
Avaliação e Diagnóstico
A avaliação em uma emergência psiquiátrica com suspeita de causa orgânica é um processo sequencial que começa com uma anamnese e exame físico meticulosos.
1. Entrevista Clínica e Exame do Estado Mental:
- Anamnese: Deve ser colateral, obtida de familiares, acompanhantes ou prontuários anteriores. Focar no curso temporal dos sintomas, história médica prévia (epilepsia, cardiopatia, diabetes), uso de medicamentos e substâncias, e eventos desencadeantes (trauma, infecção recente).
- Exame do Estado Mental: Avaliação minuciosa do nível de consciência (usando escalas como a de Coma de Glasgow ou a Confusion Assessment Method – CAM), orientação, atenção (teste de subtrair 7 a partir de 100), memória, linguagem e presença de sintomas psicóticos. Procurar por automatismos ou episódios de desconexão durante a entrevista.
2. Exame Físico e Neurológico Completo:
- Incluir verificação de sinais vitais, exame cardíaco e pulmonar, busca por sinais de infecção, desidratação ou trauma.
- Exame neurológico focal: pares cranianos, força muscular, sensibilidade, reflexos, coordenação, marcha e sinais meníngeos.
3. Exames Complementares:
- Laboratoriais Básicos (Sangue e Urina): Hemograma, eletrólitos (sódio, potássio, cálcio, magnésio), glicemia, função renal e hepática, hormônios tireoidianos, dosagem de drogas de abuso, etilismo, lactato, amônia, marcadores inflamatórios.
- Neuroimagem (TC ou RM de Crânio): Indicada de forma mais urgente que o EEG quando há suspeita de lesão expansiva (tumor, hematoma), hemorragia, AVC ou hidrocefalia. O EEG tem maior sensibilidade para disfunção cerebral difusa (delirium) e atividade epileptiforme.
- Eletroencefalograma (EEG):
- Indicações Principais:
- Suspeita de transtorno convulsivo, especialmente epilepsias do lobo temporal ou frontal que cursam com sintomas comportamentais ou psíquicos.
- Avaliação de delirium de causa indeterminada.
- Paciente com alteração aguda e inexplicada do comportamento ou do estado mental.
- Monitorização da atividade convulsiva durante a ECT.
- Interpretação e Limitações: Um EEG normal não exclui epilepsia, pois as descargas podem ser intermitentes. A sensibilidade aumenta com EEG prolongado, sono privado ou monitorização por vídeo-EEG. Achados comuns incluem: lentificação difusa (delirium, tóxicos), descargas epileptiformes pontiagudas (epilepsia), atividade lenta focal (lesão estrutural).
- Indicações Principais:
- Eletrocardiograma (ECG):
- Indicações Principais:
- Avaliação pré-ECT obrigatória.
- Pré-início de medicamentos com risco cardíaco conhecido (lítio, antipsicóticos, tricíclicos).
- Suspeita de toxicidade por psicofármacos (ex.: overdose).
- Pacientes com transtornos alimentares e suspeita de distúrbios eletrolíticos.
- Queixas somáticas cardíacas (palpitações, dor torácica, síncope) em pacientes com diagnóstico psiquiátrico.
- Parâmetros Chave: Frequência e ritmo cardíaco, intervalo PR, duração do QRS, intervalo QT corrigido (QTc), morfologia da onda T e presença de onda U. Valores de QTc > 450 ms em homens e > 470 ms em mulheres requerem atenção; > 500 ms representa alto risco de arritmia.
- Indicações Principais:
- Monitoração por Holter: Útil para investigar sintomas paroxísticos como palpitações, tonturas ou síncope que podem estar relacionados a arritmias e serem interpretados como crises de ansiedade ou pânico.
4. Diagnóstico Diferencial Estruturado:
A tabela abaixo ilustra condições que podem mimetizar emergências psiquiátricas e os exames que auxiliam no diagnóstico diferencial.
| Apresentação Psiquiátrica Suspeita | Condições Médicas a Considerar | Exames Complementares Chave |
|---|---|---|
| Psicose Aguda | Epilepsia do lobo temporal, Encefalite autoimune (ex.: anti-NMDAR), Tumores cerebrais (frontal/temporal), Delirium por infecção/metabólico | EEG, RM de crânio, Líquor, Sorologias |
| Crise de Ansiedade/Pânico | Arritmias cardíacas (TSVP), Hipertireoidismo, Feocromocitoma, Hipoglicemia, Intoxicação por estimulantes | ECG, Holter, TSH, T4 livre, Glicemia, Dosagem de catecolaminas |
| Depressão com Retardo Psicomotor | Hipotiroidismo, Doença de Parkinson incipiente, Tumores cerebrais (frontal), Demências (ex.: frontotemporal) | TSH, T4 livre, RM de crânio, Avaliação neurológica |
| Mania/Agitação Psicomotora | Delirium por infecção/intoxicação, Hipertireoidismo, Lesões cerebrais frontais, Epilepsia do lobo frontal | EEG, Exames laboratoriais, RM de crânio |
| Catatonia | Encefalite, AVC, Distúrbios metabólicos graves (hiponatremia), Doenças autoimunes sistêmicas | EEG, RM de crânio, Exames laboratoriais extensos |
| Sintomas Dissociativos | Epilepsia do lobo temporal, Enxaqueca com aura, Ataques isquêmicos transitórios | EEG, RM de crânio, Avaliação neurológica |
5. Armadilhas Diagnósticas:
- Supervalorizar um Diagnóstico Psiquiátrico Pré-existente: Atribuir qualquer novo sintoma ao transtorno mental conhecido, sem considerar uma nova condição médica.
- Interpretação Inadequada do EEG: Considerar variações normais (ex.: ritmos lentos frontais em adolescentes) como patológicas, ou desconsiderar um EEG normal na vigência de uma história clínica altamente sugestiva de epilepsia.
- Negligenciar o ECG em Pacientes Jovens: Assumir que um paciente jovem e sem história cardíaca não está em risco de prolongamento do QT por medicação.
- Subestimar Transtornos Alimentares: Não solicitar ECG e dosagem de eletrólitos em pacientes com anorexia ou bulimia, mesmo que não pareçam gravemente desnutridos.
Tratamento Farmacológico
O tratamento farmacológico em emergências onde se suspeita de uma causa orgânica é, em primeiro lugar, o tratamento da condição médica subjacente. O uso de psicofármacos deve ser cauteloso e direcionado ao controle de sintomas comportamentais que representem risco, sempre considerando as interações e os efeitos adversos no contexto clínico do paciente.
Princípios Gerais:
- Diagnóstico Etiológico Primeiro: A prioridade é estabilizar a condição médica (corrigir eletrólitos, tratar infecção, controlar crises epilépticas).
- Psicofármacos com Perfil Seguro: Em pacientes com suspeita de comprometimento orgânico cerebral (delirium), evitar drogas com forte ação anticolinérgica (ex.: antidepressivos tricíclicos, antipsicóticos típicos de baixa potência como clorpromazina) e depressoras do SNC (ex.: benzodiazepínicos em altas doses, que podem piorar a confusão).
- Monitoração Rigorosa:
- Antipsicóticos: Para agitação psicótica ou delirium, antipsicóticos atípicos (ex.: risperidona, olanzapina) ou típicos de alta potência (haloperidol) em baixas doses são preferíveis. Sempre verificar o ECG basal e monitorar o QTc, especialmente se usando doses parenterais ou combinando com outros fármacos. A titulação deve ser lenta.
- Lítio: Exige ECG pré-tratamento, função renal e tireoidiana normais. Em idosos ou pacientes com comorbidades, a dose deve ser significativamente menor. A monitoração sérica é obrigatória.
- Antidepressivos Tricíclicos: Devem ser evitados em pacientes com história de cardiopatia, glaucoma ou hipertrofia prostática. Se indispensável, iniciar com dose baixa e monitorar ECG.
- Gestão de Efeitos Adversos Cardíacos:
- Prolongamento do QTc: Se o QTc se aproximar de 500 ms ou aumentar > 60 ms do basal, reconsiderar a necessidade do fármaco, suspender outros medicamentos que prolonguem o QT, corrigir distúrbios eletrolíticos (K+, Mg2+). Em casos graves, pode ser necessária monitoração em unidade coronariana.
No contexto brasileiro, a RENAME (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais) disponibiliza no SUS antipsicóticos como haloperidol e risperidona, e estabilizadores de humor como o carbonato de lítio, todos com necessidade de monitoração conforme descrito. As diretrizes da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) reforçam a importância da avaliação clínica e laboratorial prévia ao uso desses medicamentos.
Tratamento Não Farmacológico
O manejo não farmacológico é fundamental, especialmente em condições como o delirium, e serve de suporte para qualquer emergência com componente orgânico.
- Medidas Ambientais e de Suporte (Delirium): Manter o paciente em ambiente calmo, bem iluminado durante o dia, com objetos familiares (fotos, relógio, calendário). Presença de familiares para reorientação. Estimular ciclos normais de sono-vigília. Evitar contenção física, que pode aumentar a agitação.
- Psicoeducação: Explicar ao paciente e à família a natureza da condição ("isto é uma confusão mental causada pela infecção/medicação, e é temporária"), o plano de investigação e tratamento. Reduzir o estigma e a angústia.
- Eletroconvulsoterapia (ECT): É um tratamento psiquiátrico efetivo para condições primárias como depressão grave resistente, catatonia ou psicose aguda. No contexto deste artigo, o EEG é usado durante a sessão de ECT para monitorar a adequação e duração da atividade convulsiva cerebral induzida, garantindo eficácia e segurança. O ECG é parte da avaliação pré-ECT para avaliar risco cardiovascular.
- Acompanhamento por Equipe Multidisciplinar: Envolvimento de enfermagem especializada, terapia ocupacional (para estimulação cognitiva e funcional) e fisioterapia (para prevenir complicações da imobilidade) é crucial na recuperação.
Manejo Clínico Prático
O fluxo de tomada de decisão em uma emergência psiquiátrica com suspeita de causa orgânica pode ser resumido em etapas:
- Estabilização: Garantir vias aéreas, respiração e circulação (ABC). Conter agitação que represente risco imediato, preferencialmente com medidas não farmacológicas ou medicação segura.
- Avaliação Rápida: Colher história colateral, realizar exame físico/neurológico focado e exame do estado mental. Identificar sinais de alerta.
- Solicitação de Exames Direcionada: Com base na hipótese clínica inicial.
- Sinais de infecção + confusão mental: Laboratoriais + possível EEG (para confirmar lentificação do delirium).
- Comportamentos estereotipados + alteração de consciência: EEG (preferencialmente prolongado ou com sono) + neuroimagem.
- Paciente para iniciar lítio ou antipsicótico com risco cardíaco: ECG basal + eletrólitos.
- Paciente com transtorno alimentar e fraqueza: ECG urgente + dosagem de potássio e magnésio.
- Interpretação no Contexto: Um EEG com lentificação difusa confirma uma disfunção cerebral orgânica, mas não dá o diagnóstico etiológico. Um ECG com QT prolongado exige ação, mas a causa (hipocalemia, fármaco) deve ser buscada.
- Encaminhamento e Continuidade do Cuidado: Muitas condições (encefalites, arritmias complexas, tumores) exigem internação em leito clínico ou neurológico, não psiquiátrico. A interconsulta psiquiátrica permanece ativa para manejo dos sintomas comportamentais. No SUS, a regulação para exames especializados (EEG, Holter) ou internação em hospital geral deve ser articulada pela equipe da emergência ou do CAPS III (que possui leitos para desintoxicação e crises).
Perspectiva do Paciente e Comunicação Clínica
Para o paciente e a família, a súbita mudança no comportamento ou a experiência de sintomas psíquicos atípicos é aterradora. Quando um médico sugere exames como EEG ou ECG, pode surgir confusão ("meu problema é na cabeça, por que ver o coração?") ou medo de que se esteja desacreditando do sofrimento psíquico.
Estratégias de Comunicação:
- Validar a Experiência: "Entendo que o(a) senhor(a) está passando por momentos muito difíceis, com essas sensações estranhas/medo/alucinações. Levo isso muito a sério."
- Explicar a Abordagem "Cérebro-Corpo": "O cérebro é um órgão como qualquer outro. Às vezes, problemas em outras partes do corpo, ou no próprio funcionamento elétrico do cérebro, podem causar sintomas que parecem psiquiátricos. O ECG e o EEG são como ‘mapas’ que nos ajudam a ver se há um problema físico causando isso."
- Enfatizar a Busca por uma Causa Tratável: "Fazer esses exames não significa que não acreditamos em você. Pelo contrário, queremos garantir que não estamos perdendo uma causa tratável, como uma infecção ou um descontrole no coração, que uma vez corrigida, pode fazer seus sintomas melhorarem muito."
- Descrever os Exames de Forma Concreta: "O EEG é indolor. Colocamos uns pequenos sensores no couro cabeludo para ‘escutar’ a atividade elétrica do seu cérebro, como um eletricista testa um fio. O ECG leva 5 minutos, com adesivos no peito para ver o ritmo do coração."
A adesão à investigação e ao tratamento subsequente aumenta significativamente quando o paciente e a família se sentem parceiros no processo, compreendendo a lógica por trás das condutas.
Perguntas Frequentes
1. Para um médico generalista: Quando devo solicitar um EEG em um paciente com crise de ansiedade ou agitação na emergência?
Solicite um EEG quando a apresentação for atípica: se houver episódios breves e estereotipados de desconexão com o ambiente, automatismos (como mastigar sem motivo), alucinações olfativas/gustativas muito vívidas, ou se o nível de consciência flutuar rapidamente. Um histórico prévio de epilepsia ou trauma craniano recente também são indicadores. Na dúvida, uma avaliação psiquiátrica ou neurológica de urgência pode ajudar a direcionar.
2. Um ECG normal antes de iniciar um antipsicótico garante segurança?
Não completamente. Um ECG normal basal é essencial para afastar condições cardíacas pré-existentes e servir de parâmetro. No entanto, a segurança depende da monitoração contínua. Alguns fármacos podem prolongar o QT de forma dose-dependente ou em interação com outros medicamentos. Recomenda-se repetir o ECG após atingir a dose terapêutica e periodicamente em pacientes de risco, além de corrigir sempre distúrbios eletrolíticos.
3. Meu familiar idoso ficou confuso após uma cirurgia. O psiquiatra pediu um EEG. Por quê?
A confusão mental pós-operatória é um delirium clássico. O EEG é uma ferramenta muito sensível para confirmar o diagnóstico, mostrando uma lentificação difusa da atividade cerebral. Isso ajuda a diferenciar o delirium (um problema médico agudo) de uma demência pré-existente ou de um quadro depressivo, guiando o tratamento para as causas corretas (ex.: controle da dor, infecção, ajuste de medicações).
4. Um paciente com diagnóstico de esquizofrenia há anos tem uma piora aguda. É necessário reinvestigar com EEG?
Sim, especialmente se a piora for abrupta, com novos sintomas (ex.: crises de ausência, perda de controle esfincteriano) ou se o paciente não estiver respondendo ao tratamento habitual. Pacientes com transtornos psiquiátricos crônicos não estão imunes a desenvolver condições médicas novas, como epilepsia de início tardio ou um tumor cerebral.
5. O que significa um resultado de EEG "limítrofe" ou "inespecífico"?
Esses termos são comuns em laudos e muitas vezes refletem alterações sutis que não se enquadram em um padrão claramente normal ou patológico (epileptiforme). Podem ser influenciados por medicação, ansiedade durante o exame ou cansaço. O valor do resultado é sempre clínico. Um EEG "inespecífico" em um paciente com alta suspeita de epilepsia justifica a repetição do exame com privação de sono ou monitoração prolongada. Já em um paciente sem sinais de alerta, pode ser considerado normal.
6. No SUS, o acesso ao EEG e Holter é difícil. Como proceder?
A conduta clínica robusta é a primeira linha. Diante de uma suspeita forte de causa orgânica (ex.: delirium, epilepsia), a justificativa clínica detalhada no pedido do exame e a regulação via Central de Leitos ou serviço de interconsulta do hospital geral são os caminhos. Enquanto o exame não é realizado, o manejo deve se basear na hipótese mais provável: tratar infecções suspeitas, corrigir distúrbios metabólicos, e considerar a transferência para um hospital com maior capacidade diagnóstica se o paciente não se estabilizar.
Referências
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. Genebra: OMS, 2022.
- Associação Brasileira de Psiquiatria. Diretrizes para o tratamento da esquizofrenia. 2020.
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.057/2013 – Define a eletroconvulsoterapia e estabelece normas para sua aplicação.
- Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). 2022.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.