Definição e epidemiologia
Os transtornos de ansiedade constituem um grupo de condições psiquiátricas caracterizadas por medo e ansiedade excessivos e persistentes, acompanhados por alterações comportamentais, cognitivas e somáticas. O DSM-5-TR inclui transtorno de ansiedade generalizada (TAG), transtorno de pânico, agorafobia, fobias específicas, transtorno de ansiedade social e transtorno de ansiedade de separação. A CID-11 segue uma estrutura semelhante, categorizando-os sob "Transtornos de Ansiedade ou Medo Relacionados". A ansiedade patológica distingue-se da ansiedade adaptativa por sua intensidade, duração, prejuízo funcional significativo e desproporcionalidade em relação ao estímulo desencadeador.
A prevalência anual global de transtornos de ansiedade é estimada em torno de 7-10%. No Brasil, estudos epidemiológicos regionais indicam taxas de prevalência de vida que variam de 10% a 20%, sendo o TAG e as fobias específicas os mais comuns. A distribuição por sexo mostra uma predominância feminina, com razão de aproximadamente 2:1. A idade de início varia conforme o transtorno: as fobias específicas e a ansiedade social frequentemente começam na infância ou adolescência, enquanto o TAG e o transtorno de pânico têm pico de início na idade adulta jovem. Fatores de risco incluem história familiar (hereditariedade estimada entre 30-50%), temperamento inibido, experiências adversas na infância, estressores psicossociais agudos ou crônicos e comorbidades clínicas ou psiquiátricas. O curso é geralmente crônico e flutuante, com períodos de exacerbação associados a estressores.
Etiopatogenia e neurobiologia
A etiologia dos transtornos de ansiedade é multifatorial, envolvendo complexas interações entre predisposição genética, vulnerabilidade neurobiológica, fatores psicológicos e influências ambientais. Modelos neurobiológicos destacam o papel de circuitos cerebrais envolvidos no processamento de ameaça e regulação emocional, especialmente o eixo amígdala-hipocampo-córtex pré-frontal. A hiperatividade da amígdala e a conectividade funcional alterada entre esta região e o córtex pré-frontal medial estão associadas a respostas exageradas de medo e dificuldades de extinção da ansiedade.
Quanto aos sistemas de neurotransmissores, a ansiedade envolve desequilíbrios em múltiplos sistemas:
- Sistema GABAérgico: O ácido gama-aminobutírico (GABA) é o principal neurotransmissor inibitório do SNC. A hipofunção do sistema GABAérgico, particularmente através dos receptores GABA-A, está implicada na fisiopatologia da ansiedade. Agonistas desses receptores, como os benzodiazepínicos, exercem efeitos ansiolíticos, sedativos e hipnóticos.
- Sistema Serotoninérgico (5-HT): A serotonina modula a resposta ao estresse e o comportamento emocional. Os subtipos de receptores 5-HT1A estão envolvidos na modulação da ansiedade, com agonistas parciais (como a buspirona) exibindo efeito ansiolítico. Receptores 5-HT2A e 5-HT2C também estão implicados.
- Sistema Noradrenérgico: O locus coeruleus, principal fonte de noradrenalina no cérebro, está hiperativo em estados de ansiedade, levando a sintomas de hipervigilância, taquicardia e sudorese. Agonistas alfa-2 adrenérgicos, como a clonidina e a guanfacina, reduzem a liberação de noradrenalina e podem ter efeito ansiolítico, embora sua sedação e hipotensão sejam limitantes.
- Sistema Histaminérgico (H1): A histamina atua como neurotransmissor no SNC, promovendo vigília e alerta. O bloqueio dos receptores H1 pós-sinápticos no córtex e no sistema de ativação reticular produz sedação e sonolência, efeito explorado por antagonistas H1 sedativos como a hidroxizina.
- Sistema Glutamatérgico: O glutamato, principal neurotransmissor excitatório, pode estar envolvido na mediação de respostas de estresse e ansiedade através de receptores NMDA e AMPA.
Achados de neuroimagem funcional (fMRI, PET) corroboram a hiperatividade da amígdala e do ínsula, bem como a hipoativação do córtex pré-frontal ventromedial em resposta a estímulos ameaçadores. Estudos genéticos apontam para uma herança poligênica, com vários genes candidatos relacionados aos sistemas de neurotransmissores acima descritos.
Quadro clínico
As manifestações clínicas dos transtornos de ansiedade são abrangentes e podem ser organizadas por domínios:
- Humor: Sentimento persistente de apreensão, nervosismo, "estar no limite", medo de perder o controle ou de que algo terrível aconteça. Em alguns casos, ataques de pânico agudos e inesperados.
- Cognição: Preocupações excessivas e incontroláveis (no TAG), pensamentos catastróficos, dificuldade de concentração, sensação de "branco" na mente, hipervigilância.
- Comportamento: Evitação de situações, lugares ou objetos fóbicos; comportamentos de segurança (como checar repetidamente); inquietação psicomotora; paralisia diante de decisões.
- Sintomas Somáticos: Resultam da ativação do sistema nervoso autônomo e incluem taquicardia, palpitações, sudorese, tremores, boca seca, náusea, dor ou desconforto abdominal, tontura, dor de cabeça tensional, tensão muscular, dispneia ou sensação de asfixia.
Os especificadores diagnósticos do DSM-5-TR incluem o nível de insight (ex.: com insight bom, pobre, com crenças delirantes) e a indicação de ataques de pânico como um especificador aplicável a qualquer transtorno de ansiedade.
Avaliação e diagnóstico
- Entrevista Clínica: A anamnese deve focar na natureza, intensidade, frequência, duração e contexto dos sintomas ansiosos. É crucial investigar prejuízo funcional (social, ocupacional), histórico de traumas, uso de substâncias (cafeína, álcool, drogas), comorbidades clínicas (hipertireoidismo, arritmias) e psiquiátricas (depressão, TOC). História familiar de transtornos de ansiedade ou de humor é relevante.
- Exame do Estado Mental: Pode revelar ansiedade aparente (expressão facial tensa, inquietação), discurso acelerado, humor ansioso ou disfórico, pensamentos dominados por preocupações ou medos, e possível prejuízo na atenção e concentração. O insight geralmente está preservado.
- Escalas e Instrumentos: No Brasil, são utilizadas escalas validadas como a Escala de Ansiedade de Hamilton (HAM-A), a Inventário de Ansiedade de Beck (BAI) e a Escala de Transtorno de Ansiedade Generalizada-7 (GAD-7). Para rastreio em atenção primária, o SRQ-20 (Self Reporting Questionnaire) também é útil.
- Exames Complementares: Não existem exames laboratoriais ou de neuroimagem para diagnóstico de transtornos de ansiedade. Sua indicação visa excluir condições médicas que possam simular ou agravar a ansiedade: hemograma, TSH, glicemia, eletrólitos, função hepática e renal. Eletrocardiograma pode ser considerado se houver sintomas cardiovasculares proeminentes.
- Diagnóstico Diferencial:
- Condições Médicas: Hipertireoidismo, feocromocitoma, arritmias cardíacas, asma, doença pulmonar obstrutiva crônica, abstinência de álcool/sedativos.
- Transtornos Psiquiátricos:
- Transtorno Depressivo Maior (a ansiedade é um sintoma comum).
- Transtorno Obsessivo-Compulsivo (ansiedade ligada a obsessões).
- Transtorno de Estresse Pós-Traumático (ansiedade relacionada a lembranças traumáticas).
- Transtorno do Espectro Autista (ansiedade social).
- Esquizofrenia (ansiedade pode preceder episódios psicóticos).
- Armadilhas Diagnósticas: Atribuir sintomas ansiosos unicamente a um "estresse" situacional sem investigar um transtorno formal; não investigar comorbidades clínicas; confundir ataques de pânico com eventos cardiovasculares agudos; subestimar o uso de substâncias como automedicação.
Tratamento farmacológico
O tratamento farmacológico dos transtornos de ansiedade é baseado em evidências e deve ser individualizado. A primeira linha para a maioria dos transtornos de ansiedade (especialmente TAG e transtorno de pânico) são os antidepressivos com ação serotoninérgica e/ou noradrenérgica: Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRSs) e Inibidores da Recaptação de Serotonina e Noradrenalina (IRSNs). Estes requerem semanas para efeito pleno e têm perfil de efeitos adversos distinto.
Neste contexto, os agonistas GABAérgicos (principalmente benzodiazepínicos) e os antagonistas H1 sedativos (como a hidroxizina) ocupam posições adjuvantes ou alternativas, com mecanismos, perfis e indicações específicos.
Agonistas GABAérgicos (Benzodiazepínicos e Fármacos Z)
- Mecanismo de Ação: Ligam-se a um sítio específico no complexo receptor GABA-A, potencializando a ação inibitória do GABA ao aumentar a frequência de abertura do canal de cloro. Isso resulta em hiperpolarização neuronal e redução da excitabilidade cerebral. A subunidade α1 do receptor está mais associada aos efeitos sedativos e amnésicos, enquanto a α2 está ligada ao efeito ansiolítico.
- Indicações na Ansiedade: São de "extrema eficácia para o alívio de ansiedade associada ao TAG", mas seu uso é preferencialmente agudo ou de curta duração devido ao risco de tolerância, dependência e síndrome de abstinência. São indicados para:
- Controle rápido de sintomas ansiosos agudos e graves.
- Tratamento inicial enquanto se aguarda o efeito terapêutico de um antidepressivo.
- Uso intermitente para ansiedade situacional previsível.
- Transtorno de pânico (em combinação com antidepressivos).
- Doses e Titulação: A escolha do benzodiazepínico considera meia-vida e potência. Diazepam (longa meia-vida) e clonazepam (longa meia-vida, alta potência) são usados para controle mais sustentado. Lorazepam e alprazolam (meia-vida intermediária a curta) são usados para crises agudas. A dose deve ser a mínima eficaz, iniciando-se com doses baixas e titulando conforme resposta. O tratamento deve ser por período limitado (semanas).
- Monitoramento e Efeitos Adversos: Sedação, sonolência, tontura, ataxia, comprometimento da memória (especialmente anterógrada), desinibição paradoxal. O uso crônico está associado a tolerância, dependência física e psicológica, e síndrome de abstinência potencialmente grave (ansiedade rebote, insônia, agitação, convulsões) na descontinuação abrupta. Interações medicamentosas com outros depressores do SNC (álcool, opioides) são perigosas. Deve-se evitar em pacientes com histórico de abuso de substâncias.
- Fármacos Z (Zolpidem, Zaleplona, Eszopiclona): São agonistas não benzodiazepínicos do receptor GABA-A, com seletividade pela subunidade α1. São primariamente indicados para insônia, mas podem reduzir a ansiedade noturna. Possuem menor potencial de dependência que os benzodiazepínicos tradicionais, mas não são isentos deste risco.
Antagonistas H1 Sedativos (ex: Hidroxizina)
- Mecanismo de Ação: Bloqueiam competitivamente os receptores histaminérgicos H1 no SNC. A histamina, através do sistema tuberomamilar, promove vigília e alerta. Seu bloqueio produz sedação central pronunciada. A hidroxizina também possui propriedades anticolinérgicas moderadas e inibe a atividade em outros sistemas, contribuindo para seu efeito calmante.
- Indicações na Ansiedade: O cloridrato e o pamoato de hidroxizina são utilizados como ansiolíticos. Sua principal indicação em psiquiatria é para o alívio sintomático da ansiedade, especialmente quando há componente somático proeminente ou insônia associada. É uma alternativa quando se deseja evitar os riscos de dependência dos benzodiazepínicos, ou em pacientes com histórico de abuso de substâncias. Também é usado como adjuvante em situações de agitação.
- Doses e Titulação: A dose oral usual para adultos varia de 50 a 100 mg, divididos em 3 a 4 vezes ao dia, ou em dose única ao deitar para insônia. Os efeitos sedativos têm início em 20 a 60 minutos e duram de 4 a 6 horas. Deve-se iniciar com dose baixa (ex.: 25 mg) para avaliar tolerância, principalmente em idosos.
- Monitoramento e Efeitos Adversos: Sedação e sonolência são os efeitos mais comuns e esperados. Secura da boca (efeito anticolinérgico), tontura, cefaleia e distúrbios gastrointestinais podem ocorrer. Em altas doses ou em indivíduos sensíveis, pode causar confusão mental, especialmente em idosos. O risco de dependência é considerado baixo, mas a tolerância aos efeitos sedativos pode se desenvolver. Precaução em pacientes com glaucoma de ângulo fechado, hipertrofia prostática ou asma brônquica devido ao efeito anticolinérgico.
- Outros Antagonistas H1: A difenidramina é usada como hipnótico e para tratar parkinsonismo induzido por neurolépticos. A prometazina é utilizada por seus efeitos sedativos e ansiolíticos mais potentes. Os anti-histamínicos de segunda geração (fexofenadina, loratadina, cetirizina) têm menor penetração na barreira hematoencefálica e são menos utilizados na prática psiquiátrica.
Comparativo Direto e Lugar na Terapêutica Atual
| Característica | Agonistas GABAérgicos (Benzodiazepínicos) | Antagonistas H1 Sedativos (Hidroxizina) |
|---|---|---|
| Mecanismo de Ação Primário | Potencialização da neurotransmissão GABAérgica inibitória via receptor GABA-A. | Bloqueio dos receptores histaminérgicos H1 no SNC, levando à sedação. |
| Início do Efeito Ansiolítico | Muito rápido (minutos a poucas horas). | Rápido (20-60 minutos). |
| Perfil de Efeitos Adversos | Sedação, ataxia, comprometimento da memória, risco de dependência física/psicológica, abstinência grave, desinibição paradoxal. | Sedação pronunciada, boca seca (anticolinérgico), tontura; baixo risco de dependência. |
| Risco de Tolerância | Alto (desenvolvimento comum com uso prolongado). | Moderado para sedação (pode desenvolver-se tolerância). |
| Potencial de Abuso | Moderado a Alto. | Baixo. |
| Indicação Principal na Ansiedade | Controle agudo de ansiedade severa; uso pontual ou curto prazo; adjuvante inicial a antidepressivos. | Alívio sintomático da ansiedade quando se quer evitar benzodiazepínicos; ansiedade com insônia proeminente; pacientes com histórico de abuso de substâncias. |
| Duração Recomendada | Curto prazo (semanas). | Pode ser usado por períodos mais longos, mas a utilidade pode diminuir com tolerância à sedação. |
| Contexto Brasileiro (RENAME/SUS) | Vários benzodiazepínicos estão na lista do RENAME (clonazepam, diazepam, lorazepam) para ansiedade/insônia, com controle de receita. | Hidroxizina está no RENAME, com acesso facilitado, muitas vezes sem controle de receita especial. |
Lugar na Terapêutica: Os benzodiazepínicos mantêm um papel importante no manejo agudo da ansiedade incapacitante e como ponte terapêutica. No entanto, devido aos seus riscos bem estabelecidos, não são considerados tratamento de primeira linha para o manejo crônico dos transtornos de ansiedade. As diretrizes internacionais e brasileiras (ex.: da Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP) recomendam os ISRS/IRSN como primeira linha, reservando os benzodiazepínicos para situações específicas e por tempo limitado.
Os antagonistas H1 sedativos, como a hidroxizina, ocupam um nicho como alternativa sintomática quando os benzodiazepínicos são contraindicados ou indesejáveis. São particularmente úteis na atenção primária e em contextos onde o risco de desvio ou dependência é uma preocupação. No entanto, sua eficácia é baseada principalmente em seu efeito sedativo, e não possuem ação ansiolítica específica e robusta para formas moderadas a graves de transtornos de ansiedade de longo prazo, como os benzodiazepínicos ou antidepressivos.
Situações Especiais:
- Gestação e Lactação: Ambos devem ser usados com extrema cautela. Benzodiazepínicos estão associados a risco de fissuras palatinas no primeiro trimestre e síndrome de abstinência/flacidez neonatal no terceiro trimestre. A hidroxizina é geralmente considerada de risco mais baixo, mas dados são limitados. A psicoterapia e a sertralina (ISRS) são preferíveis.
- Idosos: São extremamente sensíveis aos efeitos adversos de ambas as classes. Em idosos, benzodiazepínicos aumentam significativamente o risco de quedas, fraturas, confusão e acidentes de trânsito. A hidroxizina, por seu efeito anticolinérgico, pode precipitar confusão mental, retenção urinária e glaucoma. Ambas as classes devem ser evitadas ou usadas em doses muito reduzidas e por períodos mínimos.
- Comorbidades Clínicas: Em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica ou apneia do sono, benzodiazepínicos podem deprimir o drive respiratório. Na insuficiência hepática, o metabolismo de ambos os grupos é prejudicado, exigindo ajuste de dose. A hidroxizina é contraindicada em glaucoma de ângulo fechado e deve ser usada com cautela em pacientes com hipertrofia prostática.
Tratamento não farmacológico
- Psicoterapias com Evidência: A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a psicoterapia com maior nível de evidência para a maioria dos transtornos de ansiedade. Foca na identificação e reestruturação de pensamentos disfuncionais e na exposição gradual a situações evitadas. Outras abordagens eficazes incluem a terapia de aceitação e compromisso (ACT) e a terapia baseada em mindfulness.
- Intervenções Psicossociais: Treinamento em habilidades sociais (para ansiedade social), psicoeducação para paciente e familiares, técnicas de manejo do estresse (relaxamento muscular progressivo, treinamento em respiração diafragmática) e reabilitação psiquiátrica para casos com prejuízo funcional significativo.
- Procedimentos: A eletroconvulsoterapia (ECT) não é tratamento de primeira linha para ansiedade, mas pode ser considerada em casos graves, refratários e com comorbidade depressiva maior. A estimulação magnética transcraniana (TMS) tem protocolos em investigação para TAG e TOC. A estimulação do nervo vago é aprovada para depressão refratária e pode ter algum benefício em transtornos de ansiedade comórbidos.
Manejo clínico prático
A decisão entre usar um benzodiazepínico ou um antagonista H1 como a hidroxizina depende do contexto clínico:
- Iniciar um Benzodiazepínico: Paciente com ansiedade aguda e grave (ex.: ataque de pânico incapacitante, ansiedade pré-cirúrgica), como adjuvante inicial ao se iniciar um ISRS (para cobrir a latência de efeito), ou para uso intermitente e previsível (ex.: fobia específica de voar).
- Iniciar Hidroxizina: Paciente com ansiedade leve a moderada com insônia proeminente, histórico de abuso de substâncias (álcool, benzodiazepínicos), quando se deseja uma medicação sem potencial de abuso, ou em idosos (com cautela extrema) quando os riscos dos benzodiazepínicos são inaceitáveis.
- Trocar ou Combinar: A combinação de hidroxizina com benzodiazepínicos geralmente não é recomendada devido à potencialização excessiva da sedação. Se um paciente em uso de benzodiazepínico de longo prazo precisa ser descontinuado, a hidroxizina pode ser usada como adjuvante para aliviar sintomas de abstinência como insônia e agitação, mas não é a primeira escolha para isso (a preferência é por uma redução gradual do próprio benzodiazepínico, às vezes com auxílio de anticonvulsivantes como a pregabalina).
O monitoramento da resposta deve avaliar redução da intensidade e frequência dos sintomas ansiosos, melhora do funcionamento global e ocorrência de efeitos adversos. Critérios de remissão incluem ausência ou mínima presença de sintomas por um período sustentado (ex.: 6 meses) e retorno ao funcionamento basal.
No contexto brasileiro, o acesso ocorre principalmente via Sistema Único de Saúde (SUS) e farmácias populares. Muitos benzodiazepínicos exigem receita de controle especial (branca), enquanto a hidroxizina geralmente não. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são a porta de entrada especializada no SUS, oferecendo acompanhamento multiprofissional. O RENAME (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais) lista ambos os tipos de medicamentos, garantindo sua disponibilidade no sistema público.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
O paciente com ansiedade frequentemente vivencia um sofrimento intenso e incapacitante, com sentimentos de impotência, medo constante e exaustão física devido aos sintomas somáticos. A preocupação central pode ser o medo de "enlouquecer" ou perder o controle. A busca por alívio imediato é comum, o que pode levar à automedicação ou à demanda por soluções rápidas.
A psicoeducação é fundamental. Deve-se explicar:
- A natureza do transtorno de ansiedade como uma condição médica real, com base em desregulações neurobiológicas.
- O mecanismo de ação das medicações: benzodiazepínicos como "freios" cerebrais de ação rápida, mas com risco de "desgaste" (tolerância) e "dependência"; a hidroxizina como um "sedativo" que ajuda a desligar a hipervigilância, mas que pode causar sonolência.
- A importância da psicoterapia (especialmente TCC) como tratamento fundamental para modificar padrões de pensamento e comportamento.
- Os riscos do uso prolongado de benzodiazepínicos (dependência, dificuldade de descontinuação, prejuízo cognitivo).
- O plano de tratamento: metas realistas, tempo esperado para resposta, necessidade de adesão.
O impacto funcional abrange desde dificuldades de concentração no trabalho até o isolamento social e familiar devido a comportamentos de evitação. A adesão ao tratamento é desafiada por efeitos adversos iniciais (especialmente de antidepressivos), estigma, desesperança e medo da dependência (no caso dos benzodiazepínicos). Estratégias para melhorar a adesão incluem estabelecer uma aliança terapêutica sólida, ajustar doses lentamente, abordar expectativas de forma realista e envolver a família no processo quando apropriado.
Perguntas frequentes
1. Qual é a diferença entre um calmante "forte" (como um benzodiazepínico) e um "mais fraco" (como a hidroxizina)?
Não se trata exatamente de força, mas de mecanismo e perfil. Os benzodiazepínicos têm ação ansiolítica específica e potente, agindo diretamente no sistema cerebral do "medo". A hidroxizina age primariamente como sedativo, "desligando" a vigília excessiva. O primeiro é mais eficaz para crises de pânico e ansiedade intensa, mas carrega risco de dependência. O segundo é uma opção mais segura para ansiedade leve a moderada com insônia, mas seu efeito é mais inespecífico.
2. Tomar hidroxizina todo dia para ansiedade faz mal?
O uso crônico de hidroxizina é geralmente bem tolerado, mas pode levar ao desenvolvimento de tolerância ao seu efeito sedativo, necessitando de aumento de dose para o mesmo efeito. Seus efeitos anticolinérgicos (boca seca, possível prejuízo cognitivo em idosos) devem ser monitorados. Não é considerado uma medicação de primeira linha para o controle da ansiedade a longo prazo, sendo preferíveis os antidepressivos (ISRS/IRSN).
3. Por que o médico tem receio de receitar benzodiazepínicos (como Rivotril®) por muito tempo?
Devido aos riscos bem estabelecidos de: 1) Dependência física e psicológica: o corpo se adapta à medicação, necessitando de doses maiores para o mesmo efeito, e a interrupção abrupta pode causar sintomas graves de abstinência (ansiedade intensa, insônia, tremores, convulsões). 2) Tolerância: a eficácia diminui com o tempo. 3) Efeitos adversos cognitivos: podem causar prejuízo da memória, atenção e coordenação motora, aumentando o risco de quedas (especialmente em idosos) e acidentes.
4. Posso beber álcool se estiver tomando hidroxizina ou um benzodiazepínico?
Não. O álcool potencializa drasticamente os efeitos depressores do SNC de ambas as classes. A combinação pode levar a sedação profunda, depressão respiratória, coma e até morte. É uma interação perigosa e deve ser estritamente evitada.
5. A hidroxizina vicia?
A hidroxizina tem um potencial muito baixo de causar dependência no sentido de craving (fissura) e abuso. No entanto, como qualquer substância com efeito sedativo, pode ocorrer dependência física leve com uso prolongado, com possível sintoma de rebote de insônia ou agitação ao parar abruptamente após uso em altas doses por muito tempo. É considerada uma medicação não-adictiva.
6. Qual é o melhor tratamento para ansiedade a longo prazo?
A combinação de psicoterapia (principalmente a Terapia Cognitivo-Comportamental – TCC) e medicação antidepressiva (como os ISRS – sertralina, escitalopram, paroxetina) é considerada o padrão-ouro para a maioria dos transtornos de ansiedade. Esta abordagem trata tanto os sintomas agudos (com a medicação) quanto as causas subjacentes e os padrões de pensamento disfuncionais (com a terapia), reduzindo o risco de recaída.
7. Existe algum exame de sangue ou de imagem que prove que tenho ansiedade?
Não existem exames laboratoriais ou de imagem específicos para diagnosticar transtornos de ansiedade. O diagnóstico é clínico, baseado na entrevista detalhada e nos critérios estabelecidos no DSM-5 ou CID-11. Exames são solicitados para descartar condições médicas que podem causar sintomas semelhantes (ex.: problemas de tireoide).
8. Meu filho adolescente está com muita ansiedade. Essas medicações são seguras para ele?
O uso de benzodiazepínicos em adolescentes e crianças é geralmente desencorajado, exceto em situações muito específicas e por curtíssimo prazo, devido ao risco de efeitos comportamentais paradoxais (irritabilidade, agressividade) e ao potencial impacto no desenvolvimento cerebral. A hidroxizina pode ser considerada com cautela, mas a primeira linha para ansiedade em jovens é a psicoterapia (TCC) e, se necessário medicação, os ISRS (como a fluoxetina) são os mais estudados e indicados. A avaliação por um psiquiatra da infância e adolescência é essencial.
Referências
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. Genebra: OMS, 2022.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes para o tratamento do transtorno de ansiedade generalizada. [Documento de consenso, acessado em plataformas da ABP].
- Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). 2022.
- Stahl, S.M. Stahl’s Essential Psychopharmacology: Neuroscientific Basis and Practical Applications. 5ª ed. Cambridge University Press, 2021.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.