O que é?
Imagine que você está em uma festa e alguém oferece um comprimido colorido dizendo que é “só para relaxar”. Você toma, mas depois percebe que não sabe exatamente o que era aquilo. Nos dias seguintes, começa a sentir coisas estranhas: seu humor oscila sem motivo, você tem dificuldade para dormir, ou até vê coisas que não estão lá. Ou então, você usa um remédio para dor que comprou sem receita, mas acaba tomando mais do que deveria porque a dor volta rápido demais. Essas situações podem estar relacionadas ao que chamamos de “outros transtornos especificados decorrentes do uso de substâncias”.
Este diagnóstico é como uma gaveta de classificação para situações em que uma substância (que não seja álcool, cigarro, maconha, cocaína, entre outras já bem conhecidas) está causando problemas na vida de alguém, mas não se encaixa perfeitamente nos diagnósticos mais comuns. Pode ser um remédio controlado usado de forma errada, uma droga nova que apareceu no mercado, um produto químico industrial que alguém inalou, ou até mesmo uma substância que a pessoa nem sabe o que é.
A diferença entre um uso recreativo ocasional e um transtorno está no impacto que isso causa na vida da pessoa. Todo mundo já tomou um remédio para dor de cabeça ou experimentou algo novo em uma festa, certo? O problema começa quando esse uso passa a atrapalhar o trabalho, os relacionamentos, a saúde ou a segurança da pessoa – e mesmo assim ela continua usando. É como se o cérebro ficasse “preso” nessa substância, mesmo quando ela claramente está fazendo mal.
No Brasil, não temos números exatos sobre quantas pessoas têm esse diagnóstico específico, porque ele é usado justamente para casos que não se encaixam nas categorias mais comuns. Mas sabemos que os transtornos por uso de substâncias em geral afetam cerca de 5% da população brasileira, com maior incidência entre jovens de 18 a 29 anos. Homens são mais afetados que mulheres, mas essa diferença vem diminuindo nos últimos anos, especialmente com o aumento do uso de medicamentos controlados entre mulheres.
Historicamente, esse diagnóstico surgiu porque os manuais de psiquiatria perceberam que nem todas as substâncias se encaixavam perfeitamente nas categorias existentes. Com o surgimento constante de novas drogas sintéticas e o uso indevido de medicamentos, tornou-se necessário criar uma categoria mais flexível para abrigar esses casos. No Brasil, isso é especialmente relevante porque temos um grande mercado informal de medicamentos e uma diversidade enorme de substâncias sendo usadas de forma recreativa.
Quais são os sintomas?
Para entender se o uso de uma substância está se tornando um problema, os médicos olham para um conjunto de sinais. Vamos traduzir cada um desses sinais para o dia a dia, com exemplos concretos de como eles aparecem na vida real.
1. Uso em quantidades maiores ou por mais tempo do que a pessoa pretendia
O que significa: A pessoa começa usando a substância com um plano em mente (“vou tomar só um comprimido”, “vou usar só hoje”), mas acaba perdendo o controle e usando mais do que queria ou por mais tempo.
Exemplos do dia a dia:
– Você pega um remédio para dormir que o médico receitou, dizendo a si mesmo que vai tomar só por três dias. Mas quando chega no terceiro dia, você pensa “só mais um” e continua tomando por semanas.
– Você vai a uma festa e promete que vai experimentar só um pouco daquela substância nova. Mas acaba usando várias vezes durante a noite, mesmo sabendo que precisa acordar cedo no dia seguinte.
– Você compra um frasco de xarope para tosse porque ouviu que “dá barato”. Planeja usar só um pouco, mas acaba tomando o frasco inteiro em uma noite.
Como diferenciar do normal: Todo mundo já exagerou em alguma coisa uma vez ou outra – como comer um pacote inteiro de biscoitos quando planejava comer só dois. A diferença é que, no transtorno, isso acontece repetidamente com a substância, mesmo quando a pessoa promete a si mesma que não vai fazer de novo.
2. Desejo persistente ou esforços malsucedidos para diminuir ou controlar o uso
O que significa: A pessoa tenta parar ou reduzir o uso, mas não consegue, mesmo quando realmente quer.
Exemplos do dia a dia:
– Você decide que não vai mais usar aquele remédio para ansiedade porque sabe que está exagerando. Mas toda vez que tenta parar, começa a sentir um desconforto tão grande que acaba tomando “só mais um” para aliviar.
– Você promete ao seu parceiro que vai parar de usar aquela substância, mas sempre encontra uma desculpa (“hoje foi um dia estressante”, “só hoje para comemorar”).
– Você marca no calendário o dia em que vai parar, mas quando chega a data, inventa uma razão para adiar (“vou esperar terminar esse projeto no trabalho”).
Como diferenciar do normal: É normal ter dificuldade para mudar hábitos, como parar de comer doces ou reduzir o café. Mas quando se trata de substâncias que causam transtornos, a pessoa sente uma vontade tão forte que parece impossível resistir, mesmo quando sabe que está prejudicando sua vida.
3. Muito tempo gasto para obter, usar ou se recuperar dos efeitos da substância
O que significa: A substância começa a tomar conta da rotina da pessoa, que passa a gastar muito tempo pensando nela, conseguindo-a ou se recuperando de seus efeitos.
Exemplos do dia a dia:
– Você passa horas pesquisando na internet onde conseguir aquela substância, mesmo sabendo que é ilegal ou perigosa.
– Você deixa de fazer coisas importantes (como trabalhar ou estudar) porque está usando a substância ou se recuperando de seus efeitos.
– Você passa o dia inteiro pensando em quando vai poder usar novamente, mesmo quando está fazendo outras atividades.
– Você acorda com ressaca ou mal-estar depois de usar e passa o dia seguinte inteiro se recuperando.
Como diferenciar do normal: Todo mundo gasta tempo com coisas que gosta, como assistir séries ou praticar esportes. A diferença é que, no transtorno, a substância se torna a prioridade número um, deixando outras áreas da vida em segundo plano.
4. Fissura ou forte desejo de usar a substância
O que significa: A pessoa sente um desejo intenso e quase irresistível de usar a substância, como se fosse uma necessidade física.
Exemplos do dia a dia:
– Você está em uma reunião de trabalho e não consegue se concentrar porque só pensa em quando vai poder usar aquela substância novamente.
– Você passa na frente de uma farmácia e sente uma vontade tão forte de entrar e comprar aquele remédio que quase não consegue resistir.
– Você sonha com a substância e acorda com vontade de usá-la imediatamente.
– Você sente um aperto no peito e uma agitação quando está sem a substância, como se algo estivesse faltando.
Como diferenciar do normal: É normal sentir vontade de algo que gostamos, como um doce depois do almoço. Mas a fissura por substâncias que causam transtornos é muito mais intensa e difícil de controlar, como se fosse uma necessidade física real.
5. Uso recorrente resultando em fracasso no cumprimento de obrigações importantes
O que significa: A pessoa começa a falhar em suas responsabilidades no trabalho, na escola ou em casa por causa do uso da substância.
Exemplos do dia a dia:
– Você falta ao trabalho porque está se recuperando dos efeitos da substância ou porque usou na noite anterior e não consegue acordar.
– Você deixa de pagar contas ou esquece compromissos importantes porque está usando ou pensando em usar.
– Você não consegue se concentrar nos estudos porque está sempre pensando na substância.
– Você deixa de cuidar dos filhos ou da casa porque está usando ou se recuperando dos efeitos.
Como diferenciar do normal: Todo mundo tem dias ruins em que não consegue cumprir todas as obrigações. A diferença é que, no transtorno, isso acontece repetidamente por causa da substância, mesmo quando a pessoa sabe que está prejudicando sua vida.
6. Uso continuado apesar de problemas sociais ou interpessoais persistentes
O que significa: A pessoa continua usando a substância mesmo quando ela está causando brigas, discussões ou afastamento de pessoas importantes.
Exemplos do dia a dia:
– Seu parceiro ameaça terminar o relacionamento se você não parar de usar, mas você continua mesmo assim.
– Seus amigos param de convidar você para sair porque sabem que você vai acabar usando e passando mal.
– Sua família se preocupa e tenta ajudar, mas você fica na defensiva e continua usando.
– Você perde amizades importantes porque prioriza a substância em vez de estar presente para as pessoas.
Como diferenciar do normal: É normal ter desentendimentos com pessoas próximas, mas quando a substância é a causa constante desses problemas e a pessoa continua usando mesmo assim, isso indica um transtorno.
7. Redução ou abandono de atividades sociais, profissionais ou recreativas importantes
O que significa: A pessoa deixa de fazer coisas que antes eram importantes para ela por causa do uso da substância.
Exemplos do dia a dia:
– Você para de praticar seu esporte favorito porque prefere usar a substância.
– Você deixa de ir a festas ou encontros com amigos porque eles não aprovam seu uso.
– Você abandona hobbies que antes adorava porque a substância se tornou sua principal fonte de prazer.
– Você para de se dedicar ao trabalho ou aos estudos porque está sempre pensando na substância.
Como diferenciar do normal: É normal mudar de interesses ao longo da vida. A diferença é que, no transtorno, a pessoa abandona atividades que antes eram muito importantes para ela, substituindo-as pelo uso da substância.
8. Uso recorrente em situações fisicamente perigosas
O que significa: A pessoa usa a substância em situações em que isso coloca sua segurança ou a de outras pessoas em risco.
Exemplos do dia a dia:
– Você dirige depois de usar a substância, mesmo sabendo que isso é perigoso.
– Você opera máquinas ou ferramentas perigosas sob efeito da substância.
– Você usa a substância em locais inseguros, como em festas com pessoas desconhecidas.
– Você pratica esportes radicais ou atividades perigosas sob efeito da substância.
Como diferenciar do normal: Todo mundo já fez algo arriscado uma vez ou outra, como dirigir cansado. A diferença é que, no transtorno, a pessoa coloca sua segurança em risco repetidamente por causa da substância.
9. Uso continuado apesar do conhecimento de ter um problema físico ou psicológico persistente ou recorrente causado ou exacerbado pela substância
O que significa: A pessoa continua usando mesmo quando sabe que a substância está causando ou piorando problemas de saúde.
Exemplos do dia a dia:
– Você tem problemas no fígado por causa de um remédio, mas continua tomando mesmo assim.
– Você sabe que a substância está piorando sua ansiedade, mas não consegue parar.
– Você tem crises de pânico depois de usar, mas continua usando porque “ajuda a relaxar”.
– Você desenvolve problemas de memória, mas continua usando porque “vale a pena”.
Como diferenciar do normal: É normal continuar fazendo algo que faz mal quando não sabemos dos riscos (como comer fast food sem saber dos malefícios). A diferença é que, no transtorno, a pessoa continua usando mesmo sabendo claramente que está prejudicando sua saúde.
10. Tolerância
O que significa: Com o tempo, a pessoa precisa de quantidades cada vez maiores da substância para sentir o mesmo efeito.
Exemplos do dia a dia:
– Você começa tomando um comprimido para dormir, mas depois de algumas semanas precisa de dois para conseguir o mesmo efeito.
– Você usava uma pequena quantidade da substância para se sentir bem, mas agora precisa de muito mais para sentir o mesmo prazer.
– Você percebe que os efeitos da substância duram cada vez menos, então precisa usar com mais frequência.
Como diferenciar do normal: É normal que o corpo se adapte a algumas substâncias, como o café. A diferença é que, no transtorno, a pessoa precisa aumentar cada vez mais a quantidade para sentir os mesmos efeitos, o que pode levar a doses perigosas.
11. Abstinência
O que significa: Quando a pessoa para de usar a substância, ela sente sintomas físicos ou psicológicos desconfortáveis.
Exemplos do dia a dia:
– Você tenta parar de usar aquele remédio para ansiedade, mas começa a sentir tremores, suor frio e uma ansiedade tão forte que parece insuportável.
– Você fica alguns dias sem usar a substância e começa a ter dores de cabeça, náuseas e irritabilidade.
– Você acorda de manhã com uma sensação de mal-estar que só passa quando usa a substância novamente.
– Você sente um vazio ou uma agitação tão grande quando não usa que parece que não vai conseguir aguentar.
Como diferenciar do normal: É normal sentir algum desconforto quando paramos de usar algo que estamos acostumados, como café ou açúcar. A diferença é que, no transtorno, os sintomas de abstinência são muito mais intensos e podem incluir sintomas físicos graves, como tremores, suor excessivo ou até convulsões, dependendo da substância.
É importante lembrar que ter alguns desses sintomas isoladamente não significa que a pessoa tenha um transtorno. O que define o diagnóstico é o conjunto de sintomas, a intensidade com que eles aparecem e o impacto que causam na vida da pessoa. Além disso, alguns desses sinais podem ser causados por outras condições, como depressão ou ansiedade, por isso é fundamental uma avaliação profissional para um diagnóstico preciso.
Como se manifesta no dia a dia?
No trabalho ou na escola
Quando o uso de substâncias começa a se tornar um problema, uma das primeiras áreas da vida que costuma ser afetada é o trabalho ou os estudos. Isso acontece porque as substâncias podem alterar nossa capacidade de concentração, memória e tomada de decisões – habilidades essenciais para essas atividades.
No trabalho, você pode perceber que:
– Está sempre atrasado ou faltando: Você acorda com ressaca ou mal-estar depois de usar a substância na noite anterior e não consegue chegar no horário. Ou então, inventa desculpas para faltar porque não está se sentindo bem.
– Tem dificuldade para se concentrar: Você passa horas na frente do computador, mas não consegue terminar nenhuma tarefa porque sua mente está sempre voltando para a substância. Ou então, você se distrai facilmente com qualquer coisa, como se seu cérebro estivesse “embaçado”.
– Comete erros bobos: Você esquece prazos importantes, envia e-mails com erros ou não consegue acompanhar reuniões porque sua mente não está focada. É como se você estivesse trabalhando no “piloto automático”.
– Tem problemas com colegas ou chefes: Você fica irritado facilmente, discute por motivos bobos ou não consegue trabalhar em equipe porque está sempre pensando em quando vai poder usar a substância novamente.
– Perde oportunidades: Você deixa de ser promovido, perde projetos importantes ou até é demitido porque seu desempenho caiu muito. Ou então, você recusa oportunidades porque elas exigiriam que você parasse de usar.
Na escola ou faculdade, os sinais podem ser parecidos:
– Notas caindo: Você começa a tirar notas baixas porque não consegue se concentrar nos estudos ou deixa de entregar trabalhos importantes.
– Faltas frequentes: Você falta às aulas porque está se recuperando dos efeitos da substância ou porque prefere usar a substância em vez de ir para a escola.
– Dificuldade para acompanhar: Você não consegue entender o que está sendo ensinado porque sua mente está sempre em outro lugar. É como se você estivesse assistindo às aulas com um “ruído” constante na cabeça.
– Problemas com professores ou colegas: Você discute com professores, briga com colegas ou se isola porque não consegue se relacionar bem com as pessoas.
– Desistência: Você pensa em trancar o curso ou abandonar os estudos porque não consegue mais lidar com a pressão, e a substância parece ser a única coisa que ajuda.
Nos relacionamentos
Os relacionamentos são outra área que costuma sofrer muito quando o uso de substâncias se torna um problema. Isso acontece porque as substâncias podem alterar nosso humor, nossa capacidade de empatia e nossa disposição para nos conectarmos com as pessoas.
Com a família, você pode perceber que:
– As brigas aumentam: Você discute com seus pais, irmãos ou filhos por motivos bobos, como se estivesse sempre “no limite”. Ou então, você fica na defensiva sempre que alguém menciona seu uso de substâncias.
– A confiança se quebra: Seus familiares começam a desconfiar de você porque você mente sobre onde esteve, com quem estava ou o que fez. Ou então, eles percebem que você não é mais a mesma pessoa e se sentem traídos.
– Você se isola: Você evita encontros familiares, como almoços de domingo, porque sabe que vão perguntar sobre sua vida ou porque não quer que vejam como você está. Ou então, você prefere ficar sozinho usando a substância em vez de estar com as pessoas que ama.
– Os papéis se invertem: Seus filhos começam a cuidar de você, seus pais se preocupam como se você fosse uma criança, ou seus irmãos assumem responsabilidades que deveriam ser suas. É como se você tivesse perdido seu lugar na família.
– A comunicação se torna difícil: Você não consegue conversar sobre assuntos importantes porque está sempre sob efeito da substância ou porque sabe que vão criticar seu uso. Ou então, você evita conversas profundas porque não quer enfrentar a realidade.
Com amigos, os sinais podem incluir:
– Você perde amizades: Seus amigos param de convidar você para sair porque sabem que você vai acabar usando e passando mal. Ou então, eles se afastam porque não aguentam mais suas mudanças de humor ou suas mentiras.
– Você escolhe amigos que usam: Você começa a se relacionar apenas com pessoas que usam a mesma substância que você, porque elas não julgam seu uso. É como se você tivesse trocado seus amigos antigos por uma “turma nova”.
– As amizades se tornam superficiais: Você não consegue mais ter conversas profundas ou significativas porque está sempre pensando na substância. Ou então, você evita falar sobre sua vida porque sabe que seus amigos não vão aprovar.
– Você mente para seus amigos: Você inventa desculpas para não sair com eles, mente sobre onde esteve ou o que fez, ou esconde seu uso porque sabe que eles não vão entender.
– Você se sente sozinho: Mesmo cercado de pessoas, você se sente isolado porque ninguém realmente entende o que você está passando. Ou então, você se afasta porque sente vergonha do que está acontecendo.
Com parceiros românticos, os problemas podem ser ainda mais intensos:
– A intimidade diminui: Você perde o interesse em sexo ou em momentos íntimos porque a substância se torna sua principal fonte de prazer. Ou então, você não consegue se conectar emocionalmente porque está sempre sob efeito.
– A confiança se quebra: Seu parceiro descobre que você mentiu sobre seu uso, escondeu coisas ou gastou dinheiro com a substância sem contar. Ou então, ele sente que você não é mais a pessoa com quem ele se relacionou.
– As brigas se tornam constantes: Vocês discutem por motivos bobos, como se estivessem sempre “pisando em ovos”. Ou então, você fica na defensiva sempre que seu parceiro menciona seu uso.
– O ciúme aumenta: Você ou seu parceiro começam a sentir ciúmes sem motivo, como se estivessem competindo com a substância pelo seu afeto.
– A relação se torna tóxica: Vocês começam a se magoar constantemente, a se manipular ou a se afastar. Ou então, um de vocês assume o papel de “cuidador”, enquanto o outro se torna cada vez mais dependente.
Na rotina
A rotina diária também sofre quando o uso de substâncias se torna um problema. Coisas simples, como dormir, comer ou cuidar de si mesmo, podem se tornar desafios enormes.
No sono, você pode perceber que:
– Seu sono está desregulado: Você dorme demais ou de menos, acorda várias vezes durante a noite ou tem pesadelos relacionados à substância.
– Você usa a substância para dormir: Você toma um remédio ou usa uma substância para conseguir dormir, mas depois acorda no meio da noite e não consegue voltar a dormir sem ela.
– Você dorme em horários estranhos: Você dorme durante o dia e fica acordado à noite porque seu corpo está acostumado com os efeitos da substância.
– Você acorda se sentindo mal: Mesmo depois de dormir, você acorda com dor de cabeça, náuseas ou uma sensação de cansaço que não passa.
Na alimentação, os sinais podem incluir:
– Você perde o apetite: Você não sente fome ou esquece de comer porque está sempre sob efeito da substância. Ou então, você prefere usar a substância em vez de comer.
– Você come demais: Você come compulsivamente, especialmente alimentos gordurosos ou doces, porque a substância aumenta sua vontade de comer.
– Sua alimentação se torna desequilibrada: Você para de comer alimentos saudáveis e passa a comer apenas “besteiras” porque não tem energia para cozinhar ou porque a substância altera seu paladar.
– Você perde ou ganha peso rapidamente: Você emagrece porque não está comendo direito ou engorda porque está comendo demais e não se exercitando.
No autocuidado, você pode notar que:
– Você para de se arrumar: Você deixa de tomar banho, escovar os dentes ou se vestir bem porque não tem energia ou porque não se importa mais com sua aparência.
– Você negligencia sua saúde: Você deixa de ir ao médico, de tomar remédios prescritos ou de cuidar de problemas de saúde porque está sempre pensando na substância.
– Você se machuca com frequência: Você cai, se corta ou se queima porque está sempre sob efeito da substância e não presta atenção ao que está fazendo.
– Você se isola: Você para de sair de casa, de ver a luz do sol ou de fazer atividades que antes gostava porque prefere ficar sozinho usando a substância.
No lazer, os sinais podem ser:
– Você abandona seus hobbies: Você para de praticar esportes, de tocar um instrumento ou de fazer qualquer atividade que antes gostava porque a substância se tornou sua única fonte de prazer.
– Você só se diverte usando a substância: Você não consegue mais se divertir sem ela, como se nada mais fosse interessante ou prazeroso.
– Você se envolve em atividades de risco: Você começa a fazer coisas perigosas, como dirigir em alta velocidade ou praticar esportes radicais, porque a substância diminui sua noção de perigo.
– Você gasta muito dinheiro: Você gasta todo o seu dinheiro com a substância, deixando de lado outras coisas que gostava de fazer, como viajar ou sair com amigos.
Na saúde física
O uso problemático de substâncias também pode afetar o corpo de várias maneiras, dependendo da substância e da quantidade usada. Alguns sinais físicos comuns incluem:
- Problemas de pele: Sua pele pode ficar mais oleosa, com espinhas, ou então muito seca e descamando. Você também pode ter feridas que demoram a cicatrizar.
- Olhos vermelhos ou pupilas dilatadas: Seus olhos podem ficar constantemente vermelhos ou suas pupilas podem ficar muito grandes ou muito pequenas, dependendo da substância.
- Tremores ou movimentos descoordenados: Você pode começar a tremer sem motivo, ter dificuldade para escrever ou para segurar objetos, ou então se movimentar de forma estranha.
- Problemas digestivos: Você pode ter náuseas, vômitos, diarreia ou prisão de ventre com frequência. Ou então, pode perder o apetite ou sentir dores de estômago constantes.
- Dores de cabeça: Você pode ter dores de cabeça frequentes, especialmente quando não usa a substância.
- Problemas respiratórios: Você pode ter dificuldade para respirar, tosse constante ou infecções respiratórias frequentes.
- Dores no corpo: Você pode sentir dores musculares, nas articulações ou no peito sem motivo aparente.
- Problemas cardíacos: Você pode sentir seu coração acelerado, ter palpitações ou pressão alta.
- Problemas no fígado ou nos rins: Dependendo da substância, você pode desenvolver problemas nesses órgãos, que podem ser graves se não tratados.
É importante lembrar que esses sinais físicos podem variar muito dependendo da substância usada. Além disso, alguns desses sintomas podem ser causados por outras condições de saúde, por isso é fundamental uma avaliação médica para entender o que está acontecendo.
O que causa essa condição?
Quando falamos sobre o que causa os transtornos decorrentes do uso de substâncias, é como tentar entender por que algumas pessoas desenvolvem uma relação problemática com certas substâncias enquanto outras não. A resposta não é simples, porque envolve uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Vamos explorar cada um deles de forma detalhada.
Fatores genéticos: a herança que carregamos
Imagine que nosso corpo é como um computador. Os genes são como o hardware – a parte física que já vem de fábrica. Alguns computadores são mais resistentes a vírus, enquanto outros têm sistemas mais frágeis. Da mesma forma, algumas pessoas têm uma predisposição genética maior para desenvolver transtornos por uso de substâncias.
Pesquisas mostram que se você tem um parente de primeiro grau (pai, mãe ou irmão) com transtorno por uso de substâncias, suas chances de desenvolver o mesmo problema são cerca de 4 a 8 vezes maiores do que alguém sem essa história familiar. Isso não significa que você vai desenvolver o transtorno, mas que seu “sistema” pode ser mais vulnerável.
Alguns genes específicos podem influenciar:
– Como seu corpo metaboliza (processa) as substâncias
– Como seu cérebro responde aos efeitos prazerosos das substâncias
– Sua capacidade de controlar impulsos
– Sua sensibilidade aos efeitos negativos das substâncias
Por exemplo, algumas pessoas têm uma variação genética que faz com que o álcool seja metabolizado mais lentamente, causando uma ressaca mais intensa. Isso pode fazer com que elas bebam menos. Outras têm uma variação que faz com que o álcool seja processado mais rápido, o que pode levar a um consumo maior.
Fatores neurobiológicos: o que acontece no cérebro
Nosso cérebro é como uma orquestra complexa, onde diferentes instrumentos (neurotransmissores) tocam juntos para criar uma sinfonia harmoniosa. Quando usamos substâncias, é como se alguém começasse a tocar um instrumento muito alto, desequilibrando toda a orquestra.
As substâncias que causam transtornos têm uma coisa em comum: elas ativam o sistema de recompensa do cérebro, que é responsável por nos fazer sentir prazer. Esse sistema evoluiu para nos recompensar por comportamentos essenciais para a sobrevivência, como comer e se reproduzir. Quando fazemos algo prazeroso, nosso cérebro libera dopamina, um neurotransmissor que nos faz sentir bem.
O problema é que as substâncias podem liberar até 10 vezes mais dopamina do que atividades naturais, como comer ou fazer sexo. Com o tempo, o cérebro se acostuma com esses níveis altos de dopamina e começa a produzir menos dopamina naturalmente. Isso faz com que a pessoa precise usar cada vez mais da substância para sentir o mesmo prazer – é o que chamamos de tolerância.
Além disso, o uso repetido de substâncias pode alterar outras áreas do cérebro:
– Córtex pré-frontal: Essa área é responsável pelo controle de impulsos, tomada de decisões e julgamento. Quando é afetada, a pessoa tem mais dificuldade para dizer “não” à substância, mesmo quando sabe que está fazendo mal.
– Amígdala: Essa área está envolvida nas emoções e na resposta ao estresse. Quando é afetada, a pessoa pode sentir mais ansiedade e ter mais dificuldade para lidar com emoções negativas sem a substância.
– Hipocampo: Essa área é importante para a memória. Quando é afetada, a pessoa pode ter dificuldade para lembrar de coisas importantes ou para aprender novas informações.
Essas mudanças no cérebro explicam por que é tão difícil parar de usar a substância, mesmo quando a pessoa quer muito. É como se o cérebro estivesse “viciado” na substância e não conseguisse mais funcionar normalmente sem ela.
Fatores ambientais: o mundo ao nosso redor
Nosso ambiente – desde a família em que nascemos até a sociedade em que vivemos – tem um papel enorme no desenvolvimento dos transtornos por uso de substâncias. Vamos pensar nisso como um jardim: algumas sementes (nossos genes) têm mais potencial para crescer, mas o que realmente determina se elas vão florescer ou não é o solo, a água e o sol que recebem.
Família:
– Modelos parentais: Se seus pais ou cuidadores usavam substâncias de forma problemática, você pode ter aprendido que esse é um comportamento normal. Ou então, pode ter crescido em um ambiente caótico, onde o uso de substâncias era uma forma de lidar com o estresse.
– Disciplina inconsistente: Famílias onde as regras são confusas ou mudam o tempo todo podem deixar a criança sem limites claros, o que pode levar a comportamentos de risco na adolescência e vida adulta.
– Traumas na infância: Abuso físico, emocional ou sexual, negligência ou violência doméstica aumentam muito o risco de desenvolver transtornos por uso de substâncias. As substâncias podem se tornar uma forma de “automedicação” para lidar com as memórias dolorosas.
Escola e amigos:
– Pressão dos colegas: Na adolescência, a necessidade de pertencer a um grupo pode levar ao uso de substâncias, mesmo que a pessoa não queira. É como se o medo de ser excluído fosse maior do que o medo dos riscos.
– Bullying: Ser vítima de bullying pode levar ao uso de substâncias como forma de lidar com a dor emocional.
– Falta de supervisão: Adolescentes que não têm supervisão adequada dos pais ou responsáveis têm mais chances de experimentar substâncias.
Sociedade e cultura:
– Disponibilidade: Em lugares onde as substâncias são fáceis de conseguir (como perto de escolas ou em festas), o risco de uso problemático é maior.
– Publicidade: A publicidade de bebidas alcoólicas, medicamentos ou até mesmo de comportamentos associados ao uso de substâncias (como festas) pode normalizar o uso.
– Estigma: O estigma em relação às pessoas com transtornos por uso de substâncias pode fazer com que elas se sintam envergonhadas e evitem buscar ajuda.
– Desigualdade social: Pessoas em situação de pobreza ou vulnerabilidade social têm mais chances de desenvolver transtornos por uso de substâncias, seja por falta de acesso a tratamentos, seja por usar substâncias como forma de lidar com o estresse da vida difícil.
Eventos de vida:
– Traumas: Acidentes, perdas, violência ou desastres naturais podem levar ao uso de substâncias como forma de lidar com a dor.
– Estresse crônico: Problemas financeiros, desemprego, relacionamentos abusivos ou pressão no trabalho podem levar ao uso de substâncias como “válvula de escape”.
– Mudanças importantes: Mudar de cidade, começar um novo trabalho ou terminar um relacionamento podem ser gatilhos para o uso problemático de substâncias.
Fatores da gestação e desenvolvimento
Alguns fatores que acontecem antes mesmo de nascermos podem aumentar o risco de desenvolver transtornos por uso de substâncias. É como se nosso “manual de instruções” viesse com algumas páginas faltando ou danificadas.
- Exposição pré-natal: Se a mãe usou substâncias durante a gravidez (como álcool, tabaco ou drogas), o bebê pode nascer com alterações no cérebro que aumentam o risco de desenvolver transtornos por uso de substâncias mais tarde.
- Complicações no parto: Falta de oxigênio durante o parto ou outras complicações podem afetar o desenvolvimento do cérebro.
- Desenvolvimento na primeira infância: Crianças que não recebem cuidados adequados nos primeiros anos de vida (como afeto, estímulos e nutrição) podem ter alterações no desenvolvimento cerebral que aumentam o risco de transtornos por uso de substâncias.
Modelo biopsicossocial: a combinação de fatores
Nenhum desses fatores sozinho causa um transtorno por uso de substâncias. É sempre uma combinação de fatores biológicos (como os genes e o funcionamento do cérebro), psicológicos (como a personalidade e as experiências de vida) e sociais (como a família, os amigos e a sociedade).
Imagine que cada fator é como um ingrediente em uma receita. Algumas pessoas têm mais de um ingrediente (como uma predisposição genética forte e um ambiente familiar difícil), enquanto outras têm menos. Mas é a combinação de todos os ingredientes que determina se a “receita” vai dar certo ou não.
Por exemplo:
– Uma pessoa com predisposição genética para o alcoolismo que cresce em uma família onde o álcool é usado para lidar com problemas tem um risco muito alto de desenvolver um transtorno por uso de álcool.
– Uma pessoa sem predisposição genética, mas que passa por um trauma grave e não tem apoio social, também pode desenvolver um transtorno por uso de substâncias.
– Uma pessoa com predisposição genética, mas que cresce em um ambiente protetor e aprende habilidades saudáveis para lidar com o estresse, pode nunca desenvolver um transtorno.
Mitos sobre as causas
❌ Mito: “Transtorno por uso de substâncias é falta de força de vontade.”
✅ Verdade: É uma condição médica complexa que envolve mudanças no cérebro. Ninguém escolhe ter um transtorno por uso de substâncias, assim como ninguém escolhe ter diabetes ou depressão.
❌ Mito: “Só pessoas fracas ou sem caráter desenvolvem transtornos por uso de substâncias.”
✅ Verdade: Pessoas de todas as classes sociais, níveis de educação e personalidades podem desenvolver transtornos por uso de substâncias. O que determina não é a força de caráter, mas uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais.
❌ Mito: “Se a pessoa realmente quisesse, ela pararia de usar.”
✅ Verdade: Parar de usar substâncias é extremamente difícil porque o cérebro se torna dependente delas. É como pedir para alguém com depressão “sair dessa” – não é uma questão de vontade, mas de tratamento.
❌ Mito: “Transtorno por uso de substâncias é um problema de adultos. Adolescentes não desenvolvem isso.”
✅ Verdade: Adolescentes são especialmente vulneráveis porque seus cérebros ainda estão em desenvolvimento. O uso de substâncias na adolescência pode causar danos permanentes e aumentar muito o risco de desenvolver transtornos na vida adulta.
❌ Mito: “Se a substância é legal (como álcool ou remédios), não pode causar transtornos.”
✅ Verdade: Qualquer substância que altere o funcionamento do cérebro pode causar transtornos, independentemente de ser legal ou ilegal. O álcool, por exemplo, é uma das substâncias mais perigosas em termos de dependência.
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico de “outros transtornos especificados decorrentes do uso de substâncias” pode parecer assustador no começo, mas entender como esse processo funciona pode ajudar a diminuir a ansiedade e preparar você para buscar ajuda. Vamos explicar passo a passo como é feita essa avaliação, quem pode diagnosticar, quanto tempo costuma levar e o que esperar durante o processo.
O processo de avaliação: como tudo começa
O diagnóstico não acontece em uma única consulta. É como montar um quebra-cabeça: o profissional precisa juntar várias peças (sintomas, histórico, exames) para ter uma imagem completa do que está acontecendo.
1. A primeira conversa:
Geralmente, tudo começa quando a pessoa ou alguém próximo percebe que algo não está certo. Pode ser que:
– A pessoa esteja usando uma substância de forma que está prejudicando sua vida, mas não sabe como parar.
– Familiares ou amigos estejam preocupados com mudanças no comportamento.
– A pessoa tenha tido uma experiência ruim com a substância (como uma overdose ou um acidente) e decida buscar ajuda.
A primeira consulta costuma ser uma conversa longa, onde o profissional vai fazer perguntas sobre:
– O uso da substância: O que é usado, com que frequência, em que quantidade, há quanto tempo.
– Os efeitos: Como a pessoa se sente antes, durante e depois de usar. Se há sintomas de abstinência quando não usa.
– O impacto na vida: Como o uso está afetando o trabalho, os relacionamentos, a saúde física e mental.
– O histórico: Se há casos de transtornos por uso de substâncias na família, se a pessoa já teve outros problemas de saúde mental, se houve traumas ou eventos estressantes na vida.
2. Exames e avaliações:
Dependendo da substância e dos sintomas, o profissional pode pedir:
– Exames de sangue ou urina: Para verificar se há substâncias no organismo e avaliar a saúde geral.
– Exames de imagem: Como ressonância magnética ou tomografia, para verificar se há danos no cérebro.
– Avaliações psicológicas: Testes e questionários para entender melhor o estado emocional e cognitivo da pessoa.
– Avaliação de outras condições: Muitas vezes, os transtornos por uso de substâncias vêm acompanhados de outros problemas, como depressão, ansiedade ou transtorno de estresse pós-traumático. O profissional vai avaliar se há outras condições que precisam ser tratadas.
3. Observação ao longo do tempo:
O diagnóstico não é feito com base em uma única consulta. O profissional vai observar como os sintomas evoluem ao longo de semanas ou meses. Isso é importante porque:
– Alguns sintomas podem ser causados por outras condições.
– O padrão de uso pode mudar com o tempo.
– A pessoa pode estar usando mais de uma substância, o que complica o diagnóstico.
4. Consulta com outros profissionais:
Em alguns casos, o profissional pode encaminhar a pessoa para outros especialistas, como:
– Psiquiatra: Para avaliar a necessidade de medicação.
– Psicólogo: Para terapia e avaliação psicológica mais detalhada.
– Clínico geral ou especialista: Para avaliar danos físicos causados pelo uso da substância.
– Assistente social: Para ajudar com questões sociais, como moradia, emprego ou acesso a tratamentos.
Quanto tempo leva para ter um diagnóstico?
O tempo varia muito de pessoa para pessoa, mas geralmente leva algumas semanas ou até meses. Isso acontece porque:
– O profissional precisa ter certeza de que os sintomas não são causados por outra condição.
– Alguns sintomas só aparecem com o tempo, como a abstinência ou a tolerância.
– A pessoa pode não se sentir à vontade para contar tudo na primeira consulta, então o profissional precisa ganhar sua confiança.
Em casos mais graves, como quando a pessoa está em risco imediato (por exemplo, com ideação suicida ou sintomas psicóticos), o diagnóstico pode ser feito mais rapidamente para que o tratamento comece o quanto antes.
Quem pode diagnosticar?
No Brasil, vários profissionais podem fazer o diagnóstico de transtornos por uso de substâncias, mas cada um tem um papel diferente:
- Psiquiatra: É o médico especializado em saúde mental. Ele pode fazer o diagnóstico, prescrever medicamentos e acompanhar o tratamento. É o profissional mais indicado para casos complexos ou quando há outras condições de saúde mental envolvidas.
- Psicólogo: Pode fazer uma avaliação psicológica e ajudar no diagnóstico, mas não pode prescrever medicamentos. É fundamental para o tratamento com terapia.
- Clínico geral: Pode suspeitar do diagnóstico e encaminhar para um especialista. Em algumas cidades, os clínicos gerais que trabalham no SUS têm treinamento para tratar casos mais simples de transtornos por uso de substâncias.
- Enfermeiro psiquiátrico: Em serviços especializados, como os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), os enfermeiros podem ajudar no diagnóstico e no acompanhamento.
- Terapeuta ocupacional: Pode ajudar a avaliar como o uso da substância está afetando a rotina e as atividades diárias da pessoa.
SUS vs. particular: como funciona no Brasil
No Brasil, você pode buscar ajuda tanto pelo Sistema Único de Saúde (SUS) quanto por serviços particulares. Vamos ver como funciona cada um:
SUS:
– Vantagens: Gratuito, acessível em todo o país, com uma rede de atendimento que inclui desde unidades básicas de saúde até hospitais especializados.
– Como acessar:
1. Unidade Básica de Saúde (UBS): É o primeiro passo. Você pode agendar uma consulta com um clínico geral, que vai avaliar sua situação e encaminhar para um especialista se necessário.
2. CAPS (Centros de Atenção Psicossocial): São serviços especializados em saúde mental e transtornos por uso de substâncias. Existem CAPS para adultos (CAPS AD) e para crianças e adolescentes (CAPSi). Eles oferecem atendimento multiprofissional, com psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros.
3. Hospitais psiquiátricos: Em casos graves, como quando a pessoa está em crise ou precisa de desintoxicação, pode ser necessário um internamento em hospital psiquiátrico.
4. Comunidades terapêuticas: São serviços residenciais onde a pessoa fica por um período para se recuperar. Nem todas são públicas, mas algumas têm convênio com o SUS.
– Desafios: As filas de espera podem ser longas, especialmente para psiquiatras e psicólogos. Além disso, a qualidade do atendimento pode variar dependendo da região.
Particular:
– Vantagens: Atendimento mais rápido, com profissionais especializados e mais tempo de consulta.
– Como acessar:
– Você pode procurar diretamente um psiquiatra ou psicólogo particular.
– Alguns planos de saúde cobrem consultas com psiquiatras e psicólogos, mas é importante verificar a cobertura do seu plano.
– Clínicas especializadas em dependência química oferecem tratamentos mais intensivos, como internação e terapias em grupo.
– Desafios: O custo pode ser alto, especialmente para tratamentos mais longos ou internações.
Dica importante: Se você não tem condições de pagar um tratamento particular, não desista. O SUS oferece atendimento gratuito e de qualidade, e muitos profissionais particulares trabalham com valores acessíveis ou até mesmo de forma voluntária em ONGs e projetos sociais.
O que esperar da primeira consulta
A primeira consulta pode ser um pouco assustadora, especialmente se você não sabe o que esperar. Vamos desmistificar esse momento:
1. Chegue com antecedência:
– A primeira consulta costuma ser mais longa, então é bom chegar com uns 15 minutos de antecedência para preencher formulários e se acalmar.
2. Leve informações importantes:
– Uma lista das substâncias que você usa, com que frequência e em que quantidade.
– Um histórico médico, incluindo outras condições de saúde e medicamentos que você toma.
– Uma lista de sintomas que você tem notado, mesmo que pareçam não ter relação com o uso da substância.
– Se possível, leve um familiar ou amigo de confiança. Eles podem ajudar a lembrar de detalhes importantes e dar apoio emocional.
3. Seja honesto:
– Pode ser difícil falar sobre o uso de substâncias, especialmente se você se sente envergonhado ou com medo de ser julgado. Mas lembre-se: o profissional está ali para ajudar, não para julgar.
– Não minimize seus sintomas ou o impacto do uso na sua vida. Quanto mais honesto você for, mais preciso será o diagnóstico e o tratamento.
4. Faça perguntas:
– Não tenha medo de perguntar tudo o que quiser. Algumas perguntas que podem ajudar:
– “O que você acha que está acontecendo comigo?”
– “Quais são as opções de tratamento?”
– “Quanto tempo costuma durar o tratamento?”
– “O que posso fazer para me sentir melhor enquanto isso?”
– “Como posso explicar isso para minha família?”
5. Não espere um diagnóstico na primeira consulta:
– Como já mencionamos, o diagnóstico costuma levar algumas consultas. Na primeira, o profissional vai coletar informações e talvez já dar algumas orientações iniciais.
6. Prepare-se para emoções fortes:
– Falar sobre o uso de substâncias pode trazer à tona emoções difíceis, como culpa, vergonha ou medo. Isso é normal. O profissional está preparado para lidar com essas emoções e ajudar você a processá-las.
Diagnóstico diferencial: o que mais pode ser?
Às vezes, os sintomas de um transtorno por uso de substâncias podem ser confundidos com outras condições. O profissional vai avaliar cuidadosamente para ter certeza de que o diagnóstico está correto. Algumas condições que podem ser confundidas incluem:
1. Transtornos de humor (depressão, transtorno bipolar):
– Como diferenciar: Nos transtornos de humor, os sintomas (como tristeza, irritabilidade ou euforia) acontecem independentemente do uso de substâncias. No transtorno por uso de substâncias, os sintomas melhoram quando a pessoa para de usar.
– Exemplo: Uma pessoa com depressão pode se sentir triste e sem energia mesmo quando não está usando nenhuma substância. Já uma pessoa com transtorno por uso de substâncias pode se sentir deprimida apenas quando está em abstinência.
2. Transtornos de ansiedade:
– Como diferenciar: Nos transtornos de ansiedade, a ansiedade é constante e não está relacionada ao uso de substâncias. No transtorno por uso de substâncias, a ansiedade pode aparecer apenas quando a pessoa está em abstinência ou quando está usando a substância.
– Exemplo: Uma pessoa com transtorno de ansiedade generalizada pode se sentir ansiosa o tempo todo, mesmo quando não está usando nenhuma substância. Já uma pessoa com transtorno por uso de substâncias pode sentir ansiedade apenas quando está tentando parar de usar.
3. Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT):
– Como diferenciar: No TEPT, os sintomas (como flashbacks, pesadelos e evitação) são causados por um trauma específico. No transtorno por uso de substâncias, os sintomas podem ser causados ou piorados pelo uso da substância.
– Exemplo: Uma pessoa com TEPT pode ter pesadelos com um assalto que sofreu, mesmo quando não está usando nenhuma substância. Já uma pessoa com transtorno por uso de substâncias pode ter pesadelos apenas quando está em abstinência.
4. Transtornos psicóticos (como esquizofrenia):
– Como diferenciar: Nos transtornos psicóticos, os sintomas (como delírios e alucinações) acontecem independentemente do uso de substâncias. No transtorno por uso de substâncias, os sintomas psicóticos podem aparecer apenas quando a pessoa está usando a substância ou em abstinência.
– Exemplo: Uma pessoa com esquizofrenia pode ouvir vozes mesmo quando não está usando nenhuma substância. Já uma pessoa com transtorno por uso de substâncias pode ouvir vozes apenas quando está sob efeito da substância.
5. Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH):
– Como diferenciar: No TDAH, os sintomas (como dificuldade de concentração e impulsividade) começam na infância e são constantes. No transtorno por uso de substâncias, esses sintomas podem aparecer apenas quando a pessoa está usando a substância ou em abstinência.
– Exemplo: Uma pessoa com TDAH pode ter dificuldade para se concentrar em uma reunião de trabalho, mesmo quando não está usando nenhuma substância. Já uma pessoa com transtorno por uso de substâncias pode ter dificuldade para se concentrar apenas quando está sob efeito da substância.
6. Transtornos de personalidade:
– Como diferenciar: Nos transtornos de personalidade, os padrões de comportamento (como impulsividade, instabilidade emocional ou dificuldade para manter relacionamentos) são constantes e começam na adolescência ou início da vida adulta. No transtorno por uso de substâncias, esses padrões podem aparecer ou piorar com o uso da substância.
– Exemplo: Uma pessoa com transtorno de personalidade borderline pode ter relacionamentos instáveis e mudanças de humor frequentes, mesmo quando não está usando nenhuma substância. Já uma pessoa com transtorno por uso de substâncias pode ter esses sintomas apenas quando está usando a substância.
7. Doenças físicas:
– Algumas doenças físicas podem causar sintomas parecidos com os de um transtorno por uso de substâncias, como:
– Problemas de tireoide: Podem causar alterações de humor, ansiedade e insônia.
– Doenças neurológicas: Como esclerose múltipla ou epilepsia, podem causar alterações de comportamento e cognição.
– Deficiências nutricionais: Como falta de vitamina B12, podem causar sintomas como depressão e confusão mental.
Por isso, é tão importante fazer uma avaliação completa, que inclua exames físicos e laboratoriais, além da avaliação psicológica.
Tratamento
Receber um diagnóstico de transtorno por uso de substâncias pode ser um momento de muita angústia, mas também é o primeiro passo para uma vida mais saudável e equilibrada. O tratamento desses transtornos é como uma jornada: pode ter altos e baixos, mas com o apoio certo, é possível chegar a um lugar melhor. Vamos explorar as diferentes abordagens de tratamento, desde medicamentos até mudanças no dia a dia.
Medicamentos
Os medicamentos são uma parte importante do tratamento, especialmente nos casos mais graves. Eles podem ajudar a:
– Reduzir os sintomas de abstinência.
– Diminuir a fissura (vontade intensa de usar a substância).
– Tratar outras condições que podem estar contribuindo para o uso, como depressão ou ansiedade.
– Prevenir recaídas.
Vamos conhecer os principais tipos de medicamentos usados e como eles funcionam:
1. Medicamentos para abstinência:
Quando a pessoa para de usar uma substância, pode sentir sintomas de abstinência, que variam dependendo da substância. Alguns medicamentos podem ajudar a aliviar esses sintomas.
- Benzodiazepínicos: São usados principalmente para abstinência de álcool e sedativos. Eles ajudam a acalmar o sistema nervoso e prevenir sintomas graves, como convulsões. Exemplos: diazepam, clonazepam.
- Como funcionam: Eles atuam no mesmo receptor do cérebro que o álcool e os sedativos, mas de forma mais segura e controlada.
-
Cuidados: Esses medicamentos podem causar dependência, por isso são usados apenas por um curto período e sob supervisão médica.
-
Agonistas opioides: São usados para abstinência de opioides (como heroína ou analgésicos fortes). Eles ajudam a aliviar os sintomas de abstinência e reduzir a fissura. Exemplos: metadona, buprenorfina.
- Como funcionam: Eles se ligam aos mesmos receptores no cérebro que os opioides, mas de forma mais lenta e controlada, evitando os efeitos negativos.
- Cuidados: Esses medicamentos também podem causar dependência, mas são considerados mais seguros do que os opioides ilícitos.
2. Medicamentos para reduzir a fissura:
A fissura é uma das partes mais difíceis de lidar no tratamento. Alguns medicamentos podem ajudar a diminuir essa vontade intensa de usar a substância.
- Naltrexona: É usada principalmente para álcool e opioides. Ela ajuda a reduzir a fissura e os efeitos prazerosos da substância.
- Como funciona: Ela bloqueia os receptores de opioides no cérebro, o que diminui os efeitos prazerosos da substância e reduz a vontade de usar.
-
Exemplo: Se uma pessoa em tratamento com naltrexona beber álcool, ela não vai sentir o mesmo prazer que sentiria sem o medicamento, o que pode ajudar a reduzir o consumo.
-
Acamprosato: É usado para álcool. Ele ajuda a restaurar o equilíbrio químico no cérebro que foi alterado pelo uso prolongado de álcool.
- Como funciona: Ele atua nos receptores de glutamato, um neurotransmissor que fica desregulado com o uso de álcool.
-
Exemplo: Uma pessoa que parou de beber pode tomar acamprosato para ajudar a reduzir a ansiedade e a vontade de beber.
-
Bupropiona: É usada principalmente para tabaco, mas também pode ajudar em outros transtornos por uso de substâncias. Ela ajuda a reduzir a fissura e os sintomas de abstinência.
- Como funciona: Ela aumenta os níveis de dopamina e noradrenalina no cérebro, o que ajuda a melhorar o humor e reduzir a vontade de usar a substância.
3. Medicamentos para tratar condições associadas:
Muitas vezes, os transtornos por uso de substâncias vêm acompanhados de outras condições, como depressão, ansiedade ou transtorno de estresse pós-traumático. Tratar essas condições é fundamental para o sucesso do tratamento.
- Antidepressivos: Podem ser usados para tratar depressão ou ansiedade que podem estar contribuindo para o uso da substância.
- Exemplos: Fluoxetina, sertralina, escitalopram.
-
Como funcionam: Eles aumentam os níveis de serotonina no cérebro, o que ajuda a melhorar o humor e reduzir a ansiedade.
-
Estabilizadores de humor: Podem ser usados para tratar transtorno bipolar, que pode estar associado ao uso de substâncias.
- Exemplos: Lítio, valproato, carbamazepina.
-
Como funcionam: Eles ajudam a estabilizar o humor e prevenir episódios de mania ou depressão.
-
Antipsicóticos: Podem ser usados para tratar sintomas psicóticos que podem aparecer com o uso de algumas substâncias, como alucinógenos ou estimulantes.
- Exemplos: Risperidona, quetiapina, olanzapina.
- Como funcionam: Eles bloqueiam os receptores de dopamina no cérebro, o que ajuda a reduzir alucinações e delírios.
4. Medicamentos para prevenir recaídas:
Alguns medicamentos podem ajudar a prevenir recaídas, especialmente em casos de álcool e opioides.
- Dissulfiram: É usado para álcool. Ele causa uma reação desagradável (como náuseas, vômitos e dor de cabeça) se a pessoa beber álcool.
- Como funciona: Ele bloqueia a enzima que metaboliza o álcool, fazendo com que a pessoa sinta os efeitos negativos se beber.
-
Exemplo: Se uma pessoa em tratamento com dissulfiram beber álcool, ela vai se sentir muito mal, o que pode ajudar a evitar o consumo.
-
Naloxona: É usada para opioides. Ela pode reverter uma overdose de opioides e também pode ser usada para prevenir recaídas.
- Como funciona: Ela bloqueia os receptores de opioides no cérebro, o que reverte os efeitos da overdose e reduz a vontade de usar.
Importante sobre medicamentos:
– Não vicia: Os medicamentos usados no tratamento de transtornos por uso de substâncias são diferentes das substâncias que causam dependência. Eles são prescritos em doses controladas e sob supervisão médica, o que reduz muito o risco de dependência.
– Não muda quem você é: Alguns medicamentos podem causar efeitos colaterais, como sonolência ou alterações de humor, mas eles não mudam sua personalidade ou seus valores. O objetivo é ajudar você a se sentir melhor e ter mais controle sobre sua vida.
– Efeitos colaterais: Todo medicamento pode ter efeitos colaterais, que variam de pessoa para pessoa. É importante conversar com o médico sobre quaisquer efeitos que você esteja sentindo. Alguns efeitos colaterais comuns incluem:
– Sonolência ou insônia.
– Náuseas ou vômitos.
– Dor de cabeça.
– Boca seca.
– Alterações de apetite.
– Não pare sem orientação: Parar um medicamento de repente pode causar sintomas de abstinência ou piorar sua condição. Sempre converse com seu médico antes de fazer qualquer mudança na medicação.
Psicoterapia
A psicoterapia é uma parte fundamental do tratamento dos transtornos por uso de substâncias. Ela ajuda a pessoa a entender as causas do uso, desenvolver habilidades para lidar com a fissura e os gatilhos, e reconstruir sua vida sem a substância. Vamos explorar as principais abordagens terapêuticas e como elas funcionam.
1. Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC):
A TCC é uma das abordagens mais usadas e estudadas para o tratamento de transtornos por uso de substâncias. Ela se baseia na ideia de que nossos pensamentos, emoções e comportamentos estão interligados, e que mudar um pode ajudar a mudar os outros.
- Como funciona: A TCC ajuda a pessoa a identificar e mudar padrões de pensamento e comportamento que contribuem para o uso da substância. Por exemplo:
- Pensamentos disfuncionais: “Eu não consigo viver sem isso”, “Todo mundo usa, então não tem problema”, “Eu mereço usar porque tive um dia difícil”.
-
Comportamentos problemáticos: Usar a substância para lidar com o estresse, evitar situações sociais onde a substância não está disponível, mentir sobre o uso.
-
Técnicas usadas:
- Identificação de gatilhos: A pessoa aprende a reconhecer as situações, emoções ou pensamentos que desencadeiam a vontade de usar a substância.
- Treinamento de habilidades: A pessoa aprende novas formas de lidar com o estresse, a ansiedade e outras emoções difíceis sem usar a substância. Isso pode incluir técnicas de relaxamento, resolução de problemas e comunicação assertiva.
- Prevenção de recaídas: A pessoa aprende a identificar os sinais de uma possível recaída e a desenvolver um plano para lidar com eles.
-
Reestruturação cognitiva: A pessoa aprende a questionar e mudar pensamentos disfuncionais que contribuem para o uso da substância.
-
Exemplo prático: Imagine que você costuma usar a substância quando está estressado no trabalho. Na TCC, você aprenderia a:
- Identificar o gatilho: “Quando meu chefe me critica, eu fico estressado e tenho vontade de usar”.
- Questionar o pensamento: “Será que usar vai realmente resolver o problema? Ou vai só piorar as coisas?”
- Desenvolver uma nova estratégia: “Quando meu chefe me criticar, vou respirar fundo, contar até 10 e pensar em uma solução para o problema”.
2. Entrevista Motivacional:
A entrevista motivacional é uma abordagem centrada na pessoa, que ajuda a aumentar a motivação para mudar. Ela é especialmente útil para pessoas que ainda não estão totalmente convencidas de que precisam parar de usar a substância.
-
Como funciona: O terapeuta ajuda a pessoa a explorar suas ambivalências (os prós e contras de usar a substância) e a encontrar suas próprias razões para mudar. A ideia é que a motivação para mudar venha de dentro da pessoa, não de pressão externa.
-
Técnicas usadas:
- Escuta reflexiva: O terapeuta ouve atentamente e reflete o que a pessoa está dizendo, ajudando-a a explorar seus próprios pensamentos e sentimentos.
- Perguntas abertas: O terapeuta faz perguntas que incentivam a pessoa a refletir sobre sua situação, como “O que você gosta no uso da substância?” e “O que você não gosta?”.
- Exploração de valores: O terapeuta ajuda a pessoa a identificar seus valores e objetivos de vida, e a ver como o uso da substância pode estar em conflito com eles.
-
Reforço da autoeficácia: O terapeuta ajuda a pessoa a acreditar em sua capacidade de mudar, destacando suas forças e sucessos passados.
-
Exemplo prático: Imagine que você está em dúvida se quer parar de usar a substância. Na entrevista motivacional, o terapeuta poderia perguntar:
- “O que você gosta no uso da substância?” (Você responde: “Me ajuda a relaxar e me divertir com meus amigos”).
- “E o que você não gosta?” (Você responde: “Às vezes passo mal, gasto muito dinheiro e brigo com minha família”).
- “Como você se vê daqui a cinco anos se continuar usando?” (Você responde: “Provavelmente ainda estarei usando, mas minha saúde e meus relacionamentos podem estar piores”).
- “E como você se vê daqui a cinco anos se parar de usar?” (Você responde: “Posso ter uma vida mais saudável, com mais dinheiro e melhores relacionamentos”).
- “O que é mais importante para você: continuar usando ou ter uma vida melhor?” (Você responde: “Quero ter uma vida melhor”).
3. Terapia de Prevenção de Recaída:
A terapia de prevenção de recaída é uma abordagem específica para ajudar as pessoas a identificar e lidar com os gatilhos que podem levar a uma recaída.
-
Como funciona: A pessoa aprende a reconhecer os sinais de uma possível recaída e a desenvolver estratégias para lidar com eles antes que a recaída aconteça.
-
Técnicas usadas:
- Identificação de gatilhos: A pessoa aprende a reconhecer as situações, emoções ou pensamentos que podem levar a uma recaída.
- Desenvolvimento de um plano de prevenção: A pessoa cria um plano detalhado de como lidar com cada gatilho, incluindo estratégias específicas e pessoas de apoio para contatar.
- Treinamento de habilidades: A pessoa aprende habilidades para lidar com o estresse, a ansiedade e outras emoções difíceis sem usar a substância.
-
Manejo de lapsos: A pessoa aprende a diferenciar um lapso (um uso isolado) de uma recaída (um retorno ao uso problemático) e a lidar com cada um deles.
-
Exemplo prático: Imagine que você identificou que um de seus gatilhos é passar na frente de uma farmácia onde costumava comprar remédios. Seu plano de prevenção poderia incluir:
- Evitar passar na frente da farmácia, escolhendo outro caminho.
- Se não for possível evitar, lembrar-se dos motivos pelos quais você decidiu parar de usar.
- Ligar para um amigo ou familiar de apoio e conversar sobre o que está sentindo.
- Usar uma técnica de relaxamento, como respiração profunda, para lidar com a vontade de usar.
4. Terapia de Grupo:
A terapia de grupo é uma abordagem onde várias pessoas com transtornos por uso de substâncias se reúnem para compartilhar experiências, dar e receber apoio, e aprender novas habilidades.
- Como funciona: Os grupos são geralmente liderados por um terapeuta e podem ter diferentes formatos, como:
- Grupos de apoio: Onde as pessoas compartilham suas experiências e se apoiam mutuamente.
- Grupos de habilidades: Onde as pessoas aprendem e praticam novas habilidades para lidar com o uso da substância.
-
Grupos de prevenção de recaída: Onde as pessoas aprendem a identificar e lidar com os gatilhos que podem levar a uma recaída.
-
Benefícios:
- Redução do isolamento: Muitas pessoas com transtornos por uso de substâncias se sentem sozinhas e envergonhadas. A terapia de grupo ajuda a reduzir esse isolamento, mostrando que outras pessoas passam pelo mesmo.
- Aprendizado com os outros: As pessoas podem aprender com as experiências e estratégias dos outros membros do grupo.
- Prática de habilidades sociais: A terapia de grupo oferece um espaço seguro para praticar habilidades de comunicação, resolução de conflitos e empatia.
-
Responsabilidade: Saber que outras pessoas estão contando com você pode aumentar a motivação para mudar.
-
Exemplo prático: Em um grupo de prevenção de recaída, você pode ouvir uma pessoa compartilhando que teve uma recaída depois de uma briga com o parceiro. Você pode se identificar com a situação e aprender com as estratégias que os outros membros do grupo sugerem para lidar com conflitos sem usar a substância.
5. Terapia Familiar:
Os transtornos por uso de substâncias não afetam apenas a pessoa que usa a substância, mas também sua família e amigos. A terapia familiar ajuda a melhorar a comunicação, resolver conflitos e reconstruir a confiança.
-
Como funciona: A terapia familiar envolve a pessoa com o transtorno e seus familiares (como parceiro, pais, filhos ou irmãos). O terapeuta ajuda a família a entender o transtorno, a lidar com as emoções difíceis e a desenvolver estratégias para apoiar a recuperação.
-
Técnicas usadas:
- Psicoeducação: O terapeuta explica o que é o transtorno por uso de substâncias, como ele afeta o cérebro e o comportamento, e como a família pode ajudar.
- Melhoria da comunicação: A família aprende a se comunicar de forma mais clara e empática, evitando acusações e julgamentos.
- Resolução de conflitos: A família aprende a lidar com conflitos de forma construtiva, sem recorrer a brigas ou ao uso da substância.
- Estabelecimento de limites: A família aprende a estabelecer limites saudáveis, como não encobrir o uso da substância ou não dar dinheiro para a pessoa comprar a substância.
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Planejamento de emergência: A família desenvolve um plano para lidar com situações de crise, como uma recaída ou uma overdose.
-
Exemplo prático: Imagine que sua família está frustrada porque você mentiu sobre seu uso de substâncias. Na terapia familiar, vocês podem:
- Conversar sobre como cada um se sentiu com a mentira.
- Entender que a mentira é um sintoma do transtorno, não uma escolha consciente de magoar a família.
- Desenvolver estratégias para reconstruir a confiança, como check-ins regulares e comunicação aberta.
- Estabelecer limites claros, como não dar dinheiro para você comprar a substância.
6. Terapias Complementares:
Além das abordagens tradicionais, algumas terapias complementares podem ajudar no tratamento dos transtornos por uso de substâncias. Elas não substituem o tratamento principal, mas podem ser um complemento útil.
- Mindfulness e Meditação:
- Como funciona: O mindfulness ajuda a pessoa a se concentrar no momento presente, sem julgamento. Isso pode ajudar a reduzir o estresse, a ansiedade e a fissura.
-
Exemplo prático: Quando sentir vontade de usar a substância, você pode praticar mindfulness, concentrando-se na sua respiração e observando seus pensamentos e emoções sem reagir a eles.
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Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT):
- Como funciona: A ACT ajuda a pessoa a aceitar seus pensamentos e emoções difíceis, em vez de lutar contra eles, e a se comprometer com ações que estejam alinhadas com seus valores.
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Exemplo prático: Em vez de tentar suprimir a vontade de usar a substância, você pode aceitar que essa vontade está presente e, ao mesmo tempo, se comprometer a fazer algo que esteja alinhado com seus valores, como passar tempo com sua família ou ir a uma reunião de apoio.
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Terapia Dialética Comportamental (TDC):
- Como funciona: A TDC combina técnicas de TCC com práticas de mindfulness e aceitação. Ela é especialmente útil para pessoas que têm dificuldade para regular suas emoções.
- Exemplo prático: Você aprende a identificar emoções intensas, como raiva ou tristeza, e a lidar com elas de forma saudável, sem recorrer à substância.
Mudanças no dia a dia
O tratamento dos transtornos por uso de substâncias não se resume a medicamentos e terapia. Mudanças no dia a dia são fundamentais para a recuperação e para reconstruir uma vida saudável e equilibrada. Vamos explorar algumas dessas mudanças:
1. Exercício físico:
O exercício físico é uma das melhores formas de melhorar o humor, reduzir o estresse e aumentar a energia. Além disso, ele pode ajudar a reduzir a fissura e melhorar a saúde física, que muitas vezes é prejudicada pelo uso de substâncias.
- Quais tipos ajudam mais:
- Exercícios aeróbicos: Como caminhada, corrida, natação ou ciclismo. Eles ajudam a liberar endorfinas, que são neurotransmissores que causam uma sensação de bem-estar.
- Exercícios de força: Como musculação ou pilates. Eles ajudam a melhorar a autoestima e a sensação de controle sobre o corpo.
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Exercícios de flexibilidade: Como ioga ou alongamento. Eles ajudam a reduzir o estresse e a melhorar a conexão mente-corpo.
-
Por que ajudam:
- Melhoram o humor: O exercício libera endorfinas, que são neurotransmissores que causam uma sensação de bem-estar e reduzem a ansiedade e a depressão.
- Reduzem o estresse: O exercício ajuda a reduzir os níveis de cortisol, o hormônio do estresse.
- Aumentam a energia: O exercício melhora a circulação sanguínea e a oxigenação do cérebro, o que aumenta a energia e a disposição.
- Melhoram o sono: O exercício ajuda a regular o ciclo do sono, o que é fundamental para a recuperação.
-
Reduzem a fissura: O exercício pode ajudar a reduzir a vontade de usar a substância, especialmente se for feito no momento em que a fissura aparece.
-
Como começar:
- Comece devagar, com atividades que você goste e que sejam fáceis de incorporar na rotina.
- Estabeleça metas realistas, como caminhar 10 minutos por dia, e vá aumentando aos poucos.
- Encontre um parceiro de exercícios, como um amigo ou familiar, para se motivar mutuamente.
- Experimente diferentes tipos de exercício até encontrar um que você goste.
2. Sono:
O sono é fundamental para a recuperação, pois ajuda o cérebro a se recuperar dos danos causados pelo uso de substâncias e melhora o humor, a energia e a capacidade de lidar com o estresse.
- Higiene do sono:
- Rotina: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias, mesmo nos fins de semana.
- Ambiente: Mantenha o quarto escuro, silencioso e fresco. Use a cama apenas para dormir (e para atividades íntimas), não para trabalhar ou assistir TV.
- Alimentação: Evite cafeína, nicotina e álcool perto da hora de dormir. Também evite refeições pesadas ou muito açúcar antes de dormir.
- Exercício: Faça exercício regularmente, mas evite exercícios intensos perto da hora de dormir.
- Relaxamento: Desenvolva uma rotina de relaxamento antes de dormir, como ler um livro, tomar um banho quente ou ouvir música calma.
-
Tela: Evite telas (como celular, TV e computador) pelo menos uma hora antes de dormir, pois a luz azul emitida por elas pode atrapalhar o sono.
-
Dicas específicas para transtornos por uso de substâncias:
- Se você está tendo dificuldade para dormir por causa da abstinência, converse com seu médico sobre medicamentos que possam ajudar.
- Evite cochilos durante o dia, pois eles podem atrapalhar o sono noturno.
- Se você não conseguir dormir, levante-se e faça algo relaxante até sentir sono. Ficar na cama rolando de um lado para o outro pode aumentar a ansiedade.
3. Alimentação:
Uma alimentação saudável é fundamental para a recuperação, pois ajuda o corpo a se recuperar dos danos causados pelo uso de substâncias e melhora o humor, a energia e a capacidade de lidar com o estresse.
- O que a ciência diz:
- Proteínas: As proteínas são importantes para a recuperação do cérebro e dos músculos. Boas fontes incluem carnes magras, peixes, ovos, leguminosas (como feijão e lentilha) e laticínios.
- Carboidratos complexos: Os carboidratos complexos, como grãos integrais, frutas e vegetais, ajudam a manter os níveis de energia estáveis e melhoram o humor.
- Gorduras saudáveis: As gorduras saudáveis, como as encontradas em peixes, nozes, sementes e azeite de oliva, são importantes para a saúde do cérebro.
- Vitaminas e minerais: Vitaminas e minerais, como vitaminas do complexo B, vitamina D, magnésio e zinco, são importantes para a recuperação do cérebro e do corpo.
-
Hidratação: Beber água suficiente é fundamental para a saúde do cérebro e do corpo. A desidratação pode causar fadiga, dor de cabeça e dificuldade de concentração.
-
Dicas práticas:
- Faça refeições regulares, evitando pular refeições ou ficar muito tempo sem comer.
- Inclua uma variedade de alimentos em suas refeições, para garantir que você está recebendo todos os nutrientes de que precisa.
- Evite alimentos processados e ricos em açúcar, pois eles podem causar picos de energia seguidos de quedas, o que pode aumentar a fissura.
- Cozinhe em casa sempre que possível, para ter mais controle sobre o que você está comendo.
- Se você está tendo dificuldade para comer por causa da abstinência, converse com seu médico ou nutricionista sobre suplementos que possam ajudar.
4. Rotina:
Ter uma rotina estruturada é fundamental para a recuperação, pois ajuda a reduzir o estresse, aumentar a sensação de controle e evitar situações que possam levar a uma recaída.
- Como estruturar o dia:
- Acordar e dormir no mesmo horário: Isso ajuda a regular o ciclo do sono e melhora a energia e o humor.
- Refeições regulares: Fazer refeições no mesmo horário todos os dias ajuda a manter os níveis de energia estáveis e reduz a fissura.
- Exercício: Incluir exercício na rotina ajuda a melhorar o humor, reduzir o estresse e aumentar a energia.
- Trabalho ou estudo: Ter uma atividade produtiva durante o dia ajuda a manter a mente ocupada e aumenta a sensação de propósito.
- Tempo para lazer: Incluir atividades prazerosas na rotina ajuda a reduzir o estresse e aumentar a sensação de bem-estar.
-
Tempo para relaxamento: Incluir momentos de relaxamento na rotina ajuda a reduzir o estresse e melhorar a qualidade do sono.
-
Dicas práticas:
- Use uma agenda ou aplicativo para planejar seu dia e se manter organizado.
- Estabeleça prioridades e foque nas tarefas mais importantes primeiro.
- Faça pausas regulares durante o dia para descansar e recarregar as energias.
- Inclua atividades que você goste na sua rotina, para aumentar a motivação.
- Seja flexível e ajuste sua rotina conforme necessário, mas tente manter uma estrutura básica.
5. Técnicas de manejo específicas:
Além das mudanças gerais no dia a dia, algumas técnicas específicas podem ajudar a lidar com os sintomas do transtorno por uso de substâncias.
- Manejo da fissura:
- Distração: Quando sentir vontade de usar a substância, faça algo que distraia sua mente, como assistir a um filme, ler um livro ou conversar com um amigo.
- Respiração profunda: Respire fundo várias vezes, concentrando-se na sua respiração. Isso ajuda a acalmar a mente e reduzir a ansiedade.
- Exercício: Faça uma caminhada, alongamento ou qualquer outro exercício que você goste. O exercício ajuda a liberar endorfinas, que reduzem a fissura.
-
Lembre-se dos motivos: Faça uma lista dos motivos pelos quais você decidiu parar de usar a substância e leia-a quando sentir vontade de usar.
-
Manejo do estresse:
- Mindfulness: Pratique mindfulness, concentrando-se no momento presente e observando seus pensamentos e emoções sem julgamento.
- Relaxamento muscular progressivo: Contraia e relaxe cada grupo muscular do corpo, começando pelos pés e subindo até a cabeça. Isso ajuda a reduzir a tensão muscular e o estresse.
- Visualização: Feche os olhos e imagine um lugar calmo e seguro, como uma praia ou uma floresta. Concentre-se nos detalhes desse lugar, como os sons, os cheiros e as sensações.
-
Escrita terapêutica: Escreva sobre seus sentimentos e pensamentos. Isso ajuda a organizar as ideias e reduzir o estresse.
-
Manejo das emoções:
- Identificação das emoções: Aprenda a identificar suas emoções e a entender o que elas estão tentando lhe dizer.
- Expressão das emoções: Encontre formas saudáveis de expressar suas emoções, como conversar com um amigo, escrever ou praticar arte.
- Regulação das emoções: Aprenda técnicas para regular suas emoções, como respiração profunda, mindfulness ou exercício.
6. Tecnologia assistiva:
A tecnologia pode ser uma grande aliada no tratamento dos transtornos por uso de substâncias. Alguns aplicativos e dispositivos podem ajudar a monitorar o progresso, reduzir a fissura e aumentar a motivação.
- Aplicativos:
- Aplicativos de mindfulness: Como Headspace, Calm ou Insight Timer. Eles oferecem meditações guiadas que ajudam a reduzir o estresse e a ansiedade.
- Aplicativos de acompanhamento: Como Sober Time ou I Am Sober. Eles ajudam a monitorar o tempo de abstinência, oferecem motivação e conectam você a uma comunidade de apoio.
- Aplicativos de terapia: Como Woebot ou Sanvello. Eles oferecem técnicas de terapia cognitivo-comportamental e apoio emocional.
-
Aplicativos de exercício: Como Nike Training Club ou Freeletics. Eles oferecem treinos guiados que ajudam a melhorar o humor e reduzir o estresse.
-
Dispositivos:
- Pulseiras de atividade: Como Fitbit ou Garmin. Elas ajudam a monitorar o sono, o exercício e os níveis de estresse.
- Dispositivos de biofeedback: Como Muse ou emWave. Eles ajudam a treinar a mente para reduzir o estresse e a ansiedade.
Convivendo com o diagnóstico
Receber um diagnóstico de transtorno por uso de substâncias pode ser um momento de muitas emoções: alívio por finalmente entender o que está acontecendo, medo do que vem pela frente, vergonha por precisar de ajuda, ou até mesmo raiva por se sentir “fraco” ou “incapaz”. Todas essas emoções são normais e fazem parte do processo. Nesta seção, vamos falar sobre como conviver com o diagnóstico, tanto para a pessoa que recebeu o diagnóstico quanto para seus familiares e amigos.
Para a pessoa com o diagnóstico
1. Aceitação: o primeiro passo para a mudança
Aceitar o diagnóstico não significa se conformar com a situação, mas sim reconhecer que você tem um problema e que precisa de ajuda para superá-lo. É como quando você quebra um braço: você não escolheu quebrar, mas precisa aceitar que está quebrado para poder se tratar e se recuperar.
- Dicas para aceitar o diagnóstico:
- Não se julgue: Lembre-se de que ter um transtorno por uso de substâncias não é uma questão de força de vontade ou caráter. É uma condição médica, como diabetes ou hipertensão.
- Fale sobre isso: Compartilhar seus sentimentos com alguém de confiança pode ajudar a aliviar o peso da vergonha e do medo.
- Informe-se: Aprender sobre o transtorno pode ajudar a entender que você não está sozinho e que há tratamento disponível.
- Peça ajuda: Não tente lidar com isso sozinho. Busque apoio de profissionais, familiares e amigos.
2. Construindo uma nova identidade
Muitas pessoas que recebem o diagnóstico sentem que perderam uma parte de si mesmas. Afinal, o uso da substância pode ter sido uma parte importante da sua vida por muito tempo. Construir uma nova identidade sem a substância é um processo gradual, mas possível.
- Dicas para construir uma nova identidade:
- Descubra novos interesses: Experimente atividades que você sempre quis fazer, mas nunca teve tempo ou coragem. Pode ser qualquer coisa, desde aprender a tocar um instrumento até fazer voluntariado.
- Reconecte-se com velhos hobbies: Pense em atividades que você gostava antes de começar a usar a substância. Pode ser um esporte, uma arte ou até mesmo cozinhar.
- Defina novos objetivos: Estabeleça metas para o futuro, como voltar a estudar, mudar de emprego ou viajar. Ter objetivos ajuda a dar um sentido à recuperação.
- Celebre suas conquistas: Cada dia sem usar a substância é uma vitória. Celebre suas conquistas, por menores que sejam.
3. Lidando com a fissura e os gatilhos
A fissura (vontade intensa de usar a substância) e os gatilhos (situações, emoções ou pessoas que desencadeiam a fissura) são desafios comuns na recuperação. Aprender a lidar com eles é fundamental para evitar recaídas.
- Dicas para lidar com a fissura:
- Distração: Quando sentir vontade de usar, faça algo que distraia sua mente, como assistir a um filme, ler um livro ou conversar com um amigo.
- Respiração profunda: Respire fundo várias vezes, concentrando-se na sua respiração. Isso ajuda a acalmar a mente e reduzir a ansiedade.
- Exercício: Faça uma caminhada, alongamento ou qualquer outro exercício que você goste. O exercício ajuda a liberar endorfinas, que reduzem a fissura.
-
Lembre-se dos motivos: Faça uma lista dos motivos pelos quais você decidiu parar de usar a substância e leia-a quando sentir vontade de usar.
-
Dicas para lidar com os gatilhos:
- Identifique seus gatilhos: Faça uma lista das situações, emoções ou pessoas que desencadeiam a vontade de usar. Isso pode incluir lugares, datas comemorativas, estresse no trabalho ou brigas com familiares.
- Evite gatilhos quando possível: Se um gatilho é muito forte, como um lugar onde você costumava usar a substância, evite-o até se sentir mais forte.
- Desenvolva um plano: Para cada gatilho, desenvolva um plano de como lidar com ele. Por exemplo, se o estresse no trabalho é um gatilho, seu plano pode incluir técnicas de relaxamento ou conversar com um colega de confiança.
- Peça apoio: Quando estiver em uma situação de gatilho, peça apoio a um amigo, familiar ou profissional. Ter alguém ao seu lado pode fazer toda a diferença.
4. Recaída: um obstáculo, não um fracasso
A recaída é comum no tratamento dos transtornos por uso de substâncias. Ela não significa que você fracassou ou que o tratamento não está funcionando. Pense na recaída como um obstáculo no caminho: você pode tropeçar, mas isso não significa que não possa se levantar e continuar andando.
- Dicas para lidar com a recaída:
- Não se culpe: A recaída faz parte do processo de recuperação. Não se culpe ou se julgue por isso.
- Analise o que aconteceu: Tente entender o que levou à recaída. Foi um gatilho específico? Uma emoção difícil? Falta de apoio?
- Aprenda com a recaída: Use a recaída como uma oportunidade para aprender e fortalecer seu plano de prevenção.
- Peça ajuda: Converse com seu terapeuta, médico ou grupo de apoio sobre o que aconteceu. Eles podem ajudar você a entender o que deu errado e como evitar recaídas no futuro.
- Volte ao tratamento: Não desista do tratamento por causa de uma recaída. Volte a frequentar as consultas, grupos de apoio e outras atividades que fazem parte do seu plano de recuperação.
5. Cuidando da saúde mental
Os transtornos por uso de substâncias muitas vezes vêm acompanhados de outros problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade ou transtorno de estresse pós-traumático. Cuidar da saúde mental é fundamental para a recuperação.
- Dicas para cuidar da saúde mental:
- Fale sobre seus sentimentos: Não guarde suas emoções para si. Fale sobre o que está sentindo com um amigo, familiar ou profissional.
- Pratique o autocuidado: Reserve um tempo para fazer coisas que você gosta e que fazem você se sentir bem, como ler, ouvir música ou tomar um banho relaxante.
- Mantenha uma rotina: Ter uma rotina estruturada ajuda a reduzir o estresse e aumentar a sensação de controle.
- Exercite-se regularmente: O exercício ajuda a melhorar o humor, reduzir o estresse e aumentar a energia.
- Durma bem: O sono é fundamental para a saúde mental. Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias e evite telas antes de dormir.
- Alimente-se bem: Uma alimentação saudável ajuda a melhorar o humor e a energia.
- Evite isolamento: Mantenha contato com amigos e familiares. O isolamento pode piorar os sintomas de depressão e ansiedade.
6. Reconstruindo relacionamentos
Os transtornos por uso de substâncias podem causar danos nos relacionamentos com familiares, amigos e parceiros. Reconstruir esses relacionamentos é um processo gradual, que exige paciência, honestidade e comprometimento.
- Dicas para reconstruir relacionamentos:
- Peça desculpas: Reconheça os danos que causou e peça desculpas sinceramente. Não use desculpas como “eu estava bêbado” ou “não era eu”.
- Seja honesto: Seja honesto sobre seu diagnóstico, seu tratamento e seus desafios. A honestidade ajuda a reconstruir a confiança.
- Mostre mudança: As palavras são importantes, mas as ações falam mais alto. Mostre através de suas ações que você está comprometido com a mudança.
- Respeite os limites: Seus familiares e amigos podem precisar de tempo para reconstruir a confiança. Respeite seus limites e não force a barra.
- Seja paciente: Reconstruir relacionamentos leva tempo. Não espere que tudo volte ao normal de uma hora para outra.
- Peça apoio: Peça aos seus familiares e amigos que o apoiem no tratamento. Explique como eles podem ajudar, seja ouvindo, acompanhando você a consultas ou simplesmente estando presente.
Para familiares e amigos
Quando alguém que amamos recebe um diagnóstico de transtorno por uso de substâncias, é natural sentir uma mistura de emoções: preocupação, raiva, culpa, medo ou até mesmo alívio por finalmente entender o que está acontecendo. Nesta seção, vamos falar sobre como você pode ajudar seu ente querido, sem esquecer de cuidar de si mesmo.
1. Como ajudar de forma efetiva
- Informe-se sobre o transtorno: Aprender sobre o transtorno por uso de substâncias pode ajudar você a entender o que seu ente querido está passando e como melhor apoiá-lo. Leia livros, assista a vídeos ou converse com profissionais.
- Seja empático: Tente se colocar no lugar do seu ente querido. Imagine como deve ser difícil lidar com a fissura, a vergonha e o medo de recair. Evite julgamentos e críticas.
- Ofereça apoio emocional: Deixe claro que você está ali para apoiar, não para julgar. Ouça sem interromper, valide os sentimentos do seu ente querido e ofereça palavras de encorajamento.
- Incentive o tratamento: Incentive seu ente querido a buscar tratamento e a seguir as orientações dos profissionais. Ofereça-se para acompanhá-lo a consultas ou grupos de apoio, se ele se sentir confortável com isso.
- Ajude a criar um ambiente seguro: Remova substâncias e gatilhos do ambiente, como álcool, medicamentos ou objetos associados ao uso. Crie um ambiente que apoie a recuperação.
- Estabeleça limites saudáveis: É importante estabelecer limites claros para proteger sua própria saúde mental. Por exemplo, você pode decidir não dar dinheiro ao seu ente querido se souber que ele vai usar para comprar substâncias.
- Seja paciente: A recuperação é um processo longo e cheio de altos e baixos. Não espere que tudo melhore de uma hora para outra. Celebre as pequenas vitórias e seja paciente com os obstáculos.
2. O que NÃO fazer
- Não minimize o problema: Evite frases como “é só uma fase” ou “todo mundo usa”. Minimizar o problema pode fazer com que seu ente querido não busque ajuda.
- Não assuma responsabilidades que não são suas: É importante apoiar, mas não assumir responsabilidades que são do seu ente querido, como pagar suas contas ou resolver seus problemas.
- Não use culpa ou vergonha: Frases como “você está destruindo nossa família” ou “como você pode fazer isso com a gente?” só aumentam a vergonha e a culpa, o que pode levar a mais uso.
- Não espere mudanças imediatas: A recuperação leva tempo. Não espere que seu ente querido mude de uma hora para outra.
- Não ignore seus próprios sentimentos: É normal sentir raiva, frustração ou tristeza. Não ignore esses sentimentos. Procure apoio para lidar com eles.
3. Como cuidar de si mesmo enquanto cuida do outro
Cuidar de alguém com transtorno por uso de substâncias pode ser emocionalmente desgastante. É fundamental que você também cuide de si mesmo, para não se esgotar ou adoecer.
- Estabeleça limites: Defina limites claros sobre o que você está disposto e capaz de fazer. Não se sinta culpado por dizer “não”.
- Reserve um tempo para si: Reserve um tempo todos os dias para fazer algo que você goste, como ler, praticar um hobby ou simplesmente relaxar.
- Mantenha sua rotina: Não abandone suas atividades e responsabilidades por causa do seu ente querido. Mantenha sua rotina de trabalho, lazer e autocuidado.
- Busque apoio: Converse com amigos, familiares ou um profissional sobre o que você está passando. Participar de grupos de apoio para familiares de pessoas com transtornos por uso de substâncias também pode ajudar.
- Cuide da sua saúde física: Durma bem, alimente-se de forma saudável e faça exercício regularmente. Cuidar da saúde física ajuda a lidar com o estresse.
- Não se isole: Não se afaste de amigos e familiares. O isolamento pode piorar os sentimentos de solidão e desesperança.
- Aceite que você não pode controlar tudo: Você não pode controlar as escolhas do seu ente querido, mas pode controlar como você reage a elas. Foque no que está ao seu alcance.
4. Como explicar para outras pessoas
Explicar o diagnóstico do seu ente querido para outras pessoas pode ser desafiador, especialmente se você se sente envergonhado ou com medo de ser julgado. Lembre-se de que você não precisa compartilhar mais do que se sente confortável.
- Escolha as pessoas certas: Compartilhe a informação apenas com pessoas de confiança, que você sabe que vão apoiar você e seu ente querido.
- Seja honesto, mas não dê detalhes desnecessários: Você pode dizer algo como: “Meu filho está passando por um momento difícil com o uso de substâncias, mas está buscando tratamento. Agradeço se vocês puderem respeitar nossa privacidade.”
- Corrija informações erradas: Se alguém fizer comentários desinformados ou preconceituosos, corrija com educação. Por exemplo: “Na verdade, o transtorno por uso de substâncias é uma condição médica, não uma questão de força de vontade.”
- Peça apoio: Se você precisar de ajuda, não tenha medo de pedir. Por exemplo: “Eu estou precisando de um tempo para mim. Você poderia ficar com meu filho por algumas horas?”
- Lembre-se de que você não está sozinho: Muitas pessoas passam por situações semelhantes. Não se isole por vergonha ou medo.
Quando os sintomas podem piorar?
Os transtornos por uso de substâncias são condições crônicas, o que significa que podem ter períodos de melhora e piora. Alguns fatores podem desencadear uma piora dos sintomas ou uma recaída. Conhecer esses fatores pode ajudar você a se preparar e buscar ajuda quando necessário.
1. Estresse:
O estresse é um dos principais gatilhos para a piora dos sintomas ou recaída. Isso acontece porque o estresse aumenta a fissura e diminui a capacidade de lidar com emoções difíceis.
- Exemplos de situações estressantes:
- Problemas no trabalho ou desemprego.
- Brigas ou conflitos familiares.
- Problemas financeiros.
- Doenças ou problemas de saúde.
-
Perda de um ente querido.
-
Como lidar:
- Técnicas de relaxamento: Pratique técnicas de relaxamento, como respiração profunda, mindfulness ou meditação.
- Exercício físico: O exercício ajuda a reduzir o estresse e melhorar o humor.
- Rede de apoio: Converse com amigos, familiares ou um profissional sobre o que está acontecendo. Não guarde tudo para si.
- Priorize tarefas: Em momentos de estresse, foque nas tarefas mais importantes e deixe as menos urgentes para depois.
2. Eventos traumáticos:
Eventos traumáticos, como acidentes, violência ou abuso, podem desencadear uma piora dos sintomas ou recaída. Isso acontece porque o trauma pode aumentar a ansiedade, a depressão e a necessidade de “automedicação” com a substância.
- Exemplos de eventos traumáticos:
- Acidentes de carro ou outros tipos de acidentes.
- Violência física, emocional ou sexual.
- Abuso ou negligência na infância.
- Perda de um ente querido.
-
Desastres naturais.
-
Como lidar:
- Busque apoio profissional: Um psicólogo ou psiquiatra pode ajudar você a lidar com o trauma e prevenir uma recaída.
- Grupos de apoio: Participar de grupos de apoio para pessoas que passaram por traumas semelhantes pode ajudar.
- Técnicas de grounding: Técnicas de grounding, como focar nos cinco sentidos, podem ajudar a lidar com flashbacks ou pensamentos intrusivos.
- Seja paciente: Lidar com um trauma leva tempo. Não se pressione para “superar” rápido.
3. Mudanças importantes na vida:
Mudanças importantes, como mudar de cidade, começar um novo trabalho ou terminar um relacionamento, podem ser gatilhos para a piora dos sintomas ou recaída. Isso acontece porque as mudanças podem causar estresse, ansiedade e incerteza.
- Exemplos de mudanças importantes:
- Mudar de cidade ou país.
- Começar ou terminar um relacionamento.
- Começar um novo trabalho ou ser demitido.
- Ter um filho.
-
Aposentadoria.
-
Como lidar:
- Planeje com antecedência: Se possível, planeje a mudança com antecedência e prepare-se para os desafios.
- Mantenha sua rotina: Tente manter sua rotina de tratamento, mesmo durante a mudança.
- Busque apoio: Converse com amigos, familiares ou um profissional sobre o que está acontecendo.
- Seja flexível: Esteja aberto a ajustar seu plano de tratamento conforme necessário.
4. Exposição a gatilhos:
A exposição a gatilhos, como lugares, pessoas ou situações associadas ao uso da substância, pode desencadear uma piora dos sintomas ou recaída.
- Exemplos de gatilhos:
- Passar na frente de um bar ou farmácia onde você costumava comprar a substância.
- Encontrar amigos com quem você costumava usar a substância.
- Datas comemorativas, como aniversários ou feriados.
-
Eventos sociais onde a substância está presente.
-
Como lidar:
- Evite gatilhos quando possível: Se um gatilho é muito forte, evite-o até se sentir mais forte.
- Desenvolva um plano: Para cada gatilho, desenvolva um plano de como lidar com ele. Por exemplo, se o gatilho é passar na frente de um bar, seu plano pode incluir atravessar a rua ou ligar para um amigo.
- Peça apoio: Quando estiver em uma situação de gatilho, peça apoio a um amigo, familiar ou profissional.
- Lembre-se dos motivos: Faça uma lista dos motivos pelos quais você decidiu parar de usar a substância e leia-a quando estiver em uma situação de gatilho.
5. Isolamento social:
O isolamento social pode piorar os sintomas e aumentar o risco de recaída. Isso acontece porque o isolamento aumenta a solidão, a depressão e a fissura.
- Exemplos de situações de isolamento:
- Ficar em casa o tempo todo, sem contato com amigos ou familiares.
- Evitar eventos sociais por medo de ser julgado.
-
Perder contato com amigos por causa do uso da substância.
-
Como lidar:
- Mantenha contato: Mesmo que você não se sinta à vontade para sair, mantenha contato com amigos e familiares por telefone, mensagem ou vídeo.
- Participe de grupos de apoio: Grupos de apoio, como os Narcóticos Anônimos (NA) ou Alcoólicos Anônimos (AA), podem ajudar a reduzir o isolamento.
- Volte aos poucos: Se você se isolou por muito tempo, volte aos poucos às atividades sociais. Comece com algo simples, como tomar um café com um amigo.
- Busque ajuda profissional: Se o isolamento estiver piorando seus sintomas, converse com um profissional sobre como lidar com isso.
6. Problemas de saúde mental não tratados:
Problemas de saúde mental não tratados, como depressão, ansiedade ou transtorno de estresse pós-traumático, podem piorar os sintomas do transtorno por uso de substâncias e aumentar o risco de recaída.
- Exemplos de problemas de saúde mental:
- Depressão.
- Ansiedade.
- Transtorno de estresse pós-traumático.
- Transtorno bipolar.
-
Transtornos de personalidade.
-
Como lidar:
- Busque tratamento: Se você tem um problema de saúde mental não tratado, busque ajuda de um psicólogo ou psiquiatra.
- Siga o tratamento: Tome os medicamentos prescritos e siga as orientações do profissional.
- Comunique-se: Converse com seu profissional sobre como seu problema de saúde mental pode estar afetando seu transtorno por uso de substâncias.
- Seja paciente: O tratamento de problemas de saúde mental leva tempo. Não espere resultados imediatos.
Perguntas frequentes
Quando recebemos um diagnóstico como este, é natural que surjam muitas dúvidas. Aqui, vamos responder às perguntas mais comuns que pacientes e familiares fazem sobre os transtornos especificados decorrentes do uso de substâncias.
1. “Eu só uso remédios que o médico receitou. Como posso ter um transtorno por uso de substâncias?”
Essa é uma dúvida muito comum, especialmente porque muitas pessoas associam transtornos por uso de substâncias apenas a drogas ilícitas. No entanto, qualquer substância que altere o funcionamento do cérebro pode causar dependência, mesmo que seja um remédio receitado.
- Como isso acontece:
- Alguns remédios, como ansiolíticos (ex.: diazepam, clonazepam), analgésicos opioides (ex.: codeína, oxicodona) ou estimulantes (ex.: metilfenidato), têm potencial para causar dependência se usados de forma inadequada.
- Mesmo seguindo a receita médica, algumas pessoas desenvolvem tolerância (precisam de doses cada vez maiores para sentir o mesmo efeito) ou abstinência (sentem sintomas desconfortáveis quando param de usar).
-
Outras vezes, a pessoa começa a usar o remédio de forma diferente da prescrita, como tomando doses maiores, com mais frequência ou por mais tempo do que o recomendado.
-
Exemplo prático:
Imagine que você começou a tomar um ansiolítico para lidar com crises de ansiedade. No começo, uma dose baixa era suficiente, mas com o tempo, você percebe que precisa de doses maiores para sentir o mesmo alívio. Além disso, quando tenta parar, sente tremores, suor frio e uma ansiedade tão forte que parece insuportável. Mesmo sabendo que está exagerando, você não consegue parar. Isso pode indicar um transtorno por uso de substâncias. -
O que fazer:
- Se você suspeita que está desenvolvendo um problema com um remédio receitado, converse com seu médico. Ele pode ajustar a dose, trocar o medicamento ou sugerir outras formas de tratamento.
- Não pare de tomar o remédio por conta própria, pois isso pode causar sintomas de abstinência graves. Sempre converse com um profissional antes de fazer qualquer mudança.
2. “Eu só uso substâncias de vez em quando. Como posso ter um transtorno?”
Outra dúvida comum é achar que transtornos por uso de substâncias só acontecem com quem usa diariamente ou em grandes quantidades. Na verdade, o que define o transtorno não é a frequência ou a quantidade de uso, mas sim o impacto que ele causa na vida da pessoa.
- Como isso acontece:
- Mesmo um uso ocasional pode se tornar problemático se a pessoa perde o controle, usa em situações de risco ou continua usando apesar dos problemas que causa.
- Algumas pessoas têm um padrão de uso chamado “binge” (uso intenso em um curto período), que pode ser tão prejudicial quanto o uso diário.
-
O transtorno também pode se desenvolver com substâncias que a pessoa usa esporadicamente, mas que causam problemas significativos quando usadas.
-
Exemplo prático:
Imagine que você usa uma substância apenas nos fins de semana, mas quando usa, acaba dirigindo embriagado, brigando com seu parceiro ou faltando ao trabalho na segunda-feira. Mesmo que você não use todos os dias, o uso está causando problemas sérios na sua vida. Isso pode indicar um transtorno. -
O que fazer:
- Reflita sobre como o uso da substância está afetando sua vida. Se estiver causando problemas, mesmo que você não use todos os dias, pode ser hora de buscar ajuda.
- Converse com um profissional para avaliar se o uso está se tornando problemático e quais são as opções de tratamento.
3. “Eu já tentei parar várias vezes e não consegui. Isso significa que sou fraco?”
Essa é uma das perguntas mais dolorosas que as pessoas fazem, porque carrega uma carga enorme de culpa e vergonha. A resposta é clara: não, você não é fraco. Tentar parar e não conseguir não tem nada a ver com força de vontade ou caráter. Tem a ver com como o cérebro se adapta ao uso da substância.
- Como isso acontece:
- Quando usamos uma substância repetidamente, nosso cérebro passa por mudanças químicas e estruturais. Essas mudanças fazem com que a substância se torne uma prioridade para o cérebro, como se fosse uma necessidade básica, como comer ou beber água.
- Além disso, o cérebro começa a associar a substância a situações, emoções ou pessoas específicas. Essas associações podem desencadear fissura (vontade intensa de usar) mesmo quando a pessoa não quer usar.
-
A abstinência também pode ser muito difícil de lidar. Alguns sintomas, como ansiedade, depressão, insônia ou até convulsões, podem ser tão intensos que a pessoa volta a usar para aliviá-los.
-
Exemplo prático:
Imagine que você está tentando parar de fumar. Toda vez que você vê alguém fumando, sente uma vontade tão forte que parece impossível resistir. Ou então, quando está estressado, a vontade de fumar é tão intensa que você acaba cedendo. Isso não significa que você é fraco, mas sim que seu cérebro está acostumado com a nicotina e está pedindo por ela. -
O que fazer:
- Não se culpe. A dependência é uma condição médica, não uma falha de caráter.
- Busque ajuda profissional. Um médico ou psicólogo pode ajudar você a entender o que está acontecendo e desenvolver estratégias para lidar com a fissura e a abstinência.
- Não desista. Cada tentativa de parar é um passo em direção à recuperação, mesmo que você não consiga na primeira vez.
4. “Meu familiar não admite que tem um problema. O que eu posso fazer?”
Essa é uma situação muito difícil para os familiares, porque parece que não há nada que possa ser feito. No entanto, existem algumas estratégias que podem ajudar a incentivar seu ente querido a buscar ajuda.
- Como isso acontece:
- A negação é um mecanismo de defesa comum em pessoas com transtornos por uso de substâncias. Admitir que têm um problema pode ser assustador e doloroso.
- Além disso, muitas pessoas têm medo de serem julgadas, estigmatizadas ou abandonadas se admitirem que têm um problema.
-
Algumas pessoas também não percebem o impacto que o uso está causando em suas vidas ou nas vidas de seus familiares.
-
O que fazer:
- Escolha o momento certo: Tente conversar quando seu ente querido estiver sóbrio e calmo. Evite conversar durante ou logo após o uso da substância.
- Use “eu” em vez de “você”: Em vez de dizer “Você está destruindo nossa família”, diga “Eu estou muito preocupado com você e com o que está acontecendo”. Isso reduz a defensividade.
- Seja específico: Dê exemplos concretos de como o uso da substância está afetando a vida dele e a sua. Por exemplo: “Eu notei que você tem faltado ao trabalho e isso está me preocupando”.
- Ofereça apoio: Deixe claro que você está ali para apoiar, não para julgar. Pergunte como você pode ajudar.
- Estabeleça limites: É importante estabelecer limites claros para proteger sua própria saúde mental. Por exemplo, você pode decidir não dar dinheiro ao seu ente querido se souber que ele vai usar para comprar substâncias.
- Busque apoio para você: Participar de grupos de apoio para familiares, como o Al-Anon ou Nar-Anon, pode ajudar você a lidar com a situação e aprender estratégias para incentivar seu ente querido a buscar ajuda.
-
Intervenção profissional: Em alguns casos, pode ser necessário uma intervenção profissional, onde um especialista ajuda a família a conversar com o ente querido de forma estruturada e amorosa.
-
O que NÃO fazer:
- Não minimize o problema ou faça piadas sobre o uso da substância.
- Não assuma responsabilidades que são do seu ente querido, como pagar suas contas ou resolver seus problemas.
- Não use culpa ou vergonha para tentar fazer seu ente querido parar de usar.
- Não espere mudanças imediatas. A negação pode levar tempo para ser superada.
5. “O tratamento vai me fazer parar de usar para sempre?”
Essa é uma pergunta importante, porque muitas pessoas têm expectativas irreais sobre o tratamento. A resposta é: o tratamento não é uma cura mágica, mas sim uma ferramenta para ajudar você a ter mais controle sobre sua vida.
- Como o tratamento funciona:
- O objetivo do tratamento não é necessariamente a abstinência total (embora isso seja desejável em muitos casos), mas sim reduzir o uso problemático e melhorar a qualidade de vida.
- Para algumas pessoas, o tratamento pode levar à abstinência total. Para outras, pode levar a um uso mais controlado e menos prejudicial.
-
O tratamento ajuda a pessoa a entender as causas do uso, desenvolver habilidades para lidar com a fissura e os gatilhos, e reconstruir sua vida sem depender da substância.
-
Exemplo prático:
Imagine que você está tentando parar de beber. No começo, pode ser difícil resistir à vontade de beber, especialmente em situações sociais. Com o tratamento, você aprende a identificar os gatilhos que desencadeiam a vontade de beber e desenvolve estratégias para lidar com eles. Com o tempo, a vontade de beber diminui e você consegue passar por situações sociais sem beber. Isso não significa que você nunca mais vai sentir vontade de beber, mas sim que você tem mais controle sobre essa vontade. -
O que esperar:
- Recaídas são comuns: A recaída faz parte do processo de recuperação. Não significa que o tratamento falhou, mas sim que você precisa ajustar suas estratégias.
- O tratamento é um processo: Não espere resultados imediatos. A recuperação leva tempo e exige paciência e comprometimento.
- O tratamento é individualizado: O que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. O tratamento deve ser adaptado às suas necessidades e preferências.
- O tratamento é contínuo: Mesmo depois de parar de usar a substância, é importante continuar com o tratamento para prevenir recaídas e manter a recuperação.
6. “Eu tenho vergonha de contar para as pessoas. Como posso explicar meu diagnóstico?”
A vergonha é uma emoção comum em pessoas com transtornos por uso de substâncias, porque há muito estigma e preconceito em torno desse assunto. No entanto, falar sobre o diagnóstico pode ser libertador e ajudar a reduzir o estigma.
- Por que é difícil falar:
- Muitas pessoas têm medo de serem julgadas, estigmatizadas ou abandonadas se admitirem que têm um problema.
- Algumas pessoas também têm medo de perder oportunidades, como empregos ou relacionamentos, se contarem sobre o diagnóstico.
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Além disso, muitas pessoas não sabem como explicar o diagnóstico de forma clara e sem julgamentos.
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Como explicar:
- Escolha as pessoas certas: Comece compartilhando com pessoas de confiança, que você sabe que vão apoiar você.
- Seja honesto, mas não dê detalhes desnecessários: Você pode dizer algo como: “Eu estou passando por um momento difícil com o uso de substâncias, mas estou buscando tratamento. Agradeço se você puder respeitar minha privacidade.”
- Use uma linguagem simples: Explique o diagnóstico de forma clara e sem jargões médicos. Por exemplo: “Eu tenho um problema com o uso de remédios para ansiedade. Estou aprendendo a lidar com isso com a ajuda de um profissional.”
- Corrija informações erradas: Se alguém fizer comentários desinformados ou preconceituosos, corrija com educação. Por exemplo: “Na verdade, o transtorno por uso de substâncias é uma condição médica, não uma questão de força de vontade.”
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Peça apoio: Se você precisar de ajuda, não tenha medo de pedir. Por exemplo: “Eu estou precisando de um tempo para mim. Você poderia me ajudar com isso?”
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Exemplo prático:
Imagine que você quer contar para seu chefe sobre seu diagnóstico porque está tendo dificuldade para cumprir prazos no trabalho. Você pode dizer algo como: “Eu estou passando por um tratamento para um problema de saúde e, às vezes, isso afeta minha produtividade. Estou trabalhando para melhorar e gostaria de saber se podemos ajustar alguns prazos enquanto eu me recupero.”
7. “Meu familiar está em tratamento, mas ainda usa. Isso significa que o tratamento não está funcionando?”
Essa é uma preocupação comum entre os familiares, porque parece que o tratamento não está fazendo efeito. No entanto, é importante entender que a recuperação é um processo gradual e que recaídas são comuns.
- Por que isso acontece:
- A recuperação não é linear. Pode haver altos e baixos, avanços e recuos.
- Algumas pessoas precisam de várias tentativas antes de conseguir parar de usar completamente.
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O tratamento ajuda a reduzir o uso problemático, mesmo que a pessoa ainda use ocasionalmente.
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O que fazer:
- Não desista: Mesmo que seu ente querido ainda use, o tratamento está ajudando a reduzir os danos e melhorar a qualidade de vida.
- Comunique-se: Converse com seu ente querido sobre o que está acontecendo. Pergunte como você pode apoiar.
- Busque apoio para você: Participar de grupos de apoio para familiares pode ajudar você a lidar com a situação e aprender estratégias para apoiar seu ente querido.
- Ajuste as expectativas: Não espere que seu ente querido pare de usar de uma hora para outra. A recuperação leva tempo.
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Celebre as pequenas vitórias: Mesmo que seu ente querido ainda use, celebre as pequenas vitórias, como ir a uma consulta ou reduzir a quantidade de uso.
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Exemplo prático:
Imagine que seu filho está em tratamento para uso de maconha. No começo, ele usava todos os dias, mas agora usa apenas nos fins de semana. Mesmo que ele ainda use, o tratamento está ajudando a reduzir o uso e melhorar sua qualidade de vida. Além disso, ele está aprendendo a lidar com a fissura e os gatilhos, o que é um passo importante para a recuperação.
8. “Eu não tenho dinheiro para tratamento. O que eu posso fazer?”
Essa é uma preocupação muito real para muitas pessoas, especialmente no Brasil, onde o acesso a tratamentos de saúde mental ainda é limitado. No entanto, existem opções gratuitas ou de baixo custo que podem ajudar.
- Opções gratuitas:
- SUS: O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento gratuito para transtornos por uso de substâncias. Você pode buscar ajuda em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ou em hospitais psiquiátricos.
- Grupos de apoio: Grupos como os Narcóticos Anônimos (NA) ou Alcoólicos Anônimos (AA) são gratuitos e oferecem apoio mútuo.
- Comunidades terapêuticas: Algumas comunidades terapêuticas oferecem tratamento gratuito ou de baixo custo. É importante pesquisar bem antes de escolher uma, pois a qualidade pode variar.
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Universidades: Algumas universidades oferecem atendimento psicológico gratuito ou de baixo custo, realizado por estudantes supervisionados por professores.
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Opções de baixo custo:
- Planos de saúde: Alguns planos de saúde cobrem consultas com psiquiatras e psicólogos. Verifique a cobertura do seu plano.
- Clínicas sociais: Algumas clínicas oferecem atendimento a preços reduzidos, de acordo com a renda do paciente.
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Profissionais em formação: Alguns profissionais em formação, como psicólogos ou psiquiatras, oferecem atendimento a preços reduzidos como parte de sua formação.
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O que fazer:
- Não desista: Mesmo que você não tenha dinheiro, existem opções gratuitas ou de baixo custo que podem ajudar.
- Busque ajuda na UBS: A Unidade Básica de Saúde é o primeiro passo para acessar o tratamento pelo SUS. Lá, você pode agendar uma consulta com um clínico geral, que vai avaliar sua situação e encaminhar para um especialista se necessário.
- Participe de grupos de apoio: Grupos como os NA ou AA podem oferecer apoio emocional e prático, mesmo que você não tenha acesso a um tratamento formal.
- Converse com um profissional: Alguns profissionais oferecem atendimento a preços reduzidos ou até mesmo de forma voluntária. Não tenha medo de perguntar.
9. “Eu tenho medo de recair. Como posso me preparar para isso?”
O medo da recaída é comum em pessoas em recuperação, porque a recaída pode parecer um fracasso. No entanto, é possível se preparar para lidar com a recaída de forma saudável e construtiva.
- Como se preparar:
- Identifique seus gatilhos: Faça uma lista das situações, emoções ou pessoas que desencadeiam a vontade de usar. Isso pode incluir lugares, datas comemorativas, estresse no trabalho ou brigas com familiares.
- Desenvolva um plano de prevenção: Para cada gatilho, desenvolva um plano de como lidar com ele. Por exemplo, se o gatilho é passar na frente de um bar, seu plano pode incluir atravessar a rua ou ligar para um amigo.
- Monte uma rede de apoio: Identifique pessoas que você pode contar em momentos de crise, como amigos, familiares ou profissionais. Tenha os contatos delas sempre à mão.
- Aprenda técnicas de manejo da fissura: Pratique técnicas de relaxamento, como respiração profunda ou mindfulness, para lidar com a vontade de usar.
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Aceite que a recaída pode acontecer: A recaída faz parte do processo de recuperação. Não significa que você fracassou, mas sim que precisa ajustar suas estratégias.
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O que fazer em caso de recaída:
- Não se culpe: A recaída não é um fracasso, mas sim uma oportunidade para aprender e fortalecer seu plano de prevenção.
- Analise o que aconteceu: Tente entender o que levou à recaída. Foi um gatilho específico? Uma emoção difícil? Falta de apoio?
- Aprenda com a recaída: Use a recaída como uma oportunidade para aprender e fortalecer seu plano de prevenção.
- Peça ajuda: Converse com seu terapeuta, médico ou grupo de apoio sobre o que aconteceu. Eles podem ajudar você a entender o que deu errado e como evitar recaídas no futuro.
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Volte ao tratamento: Não desista do tratamento por causa de uma recaída. Volte a frequentar as consultas, grupos de apoio e outras atividades que fazem parte do seu plano de recuperação.
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Exemplo prático:
Imagine que você identificou que um de seus gatilhos é o estresse no trabalho. Seu plano de prevenção inclui técnicas de relaxamento, como respiração profunda, e ligar para um amigo de apoio. Se você tiver uma recaída, em vez de se culpar, você analisa o que aconteceu: “Eu estava muito estressado no trabalho e não usei minhas técnicas de relaxamento. Da próxima vez, vou tentar respirar fundo e ligar para meu amigo antes de usar.”
10. “Como posso ajudar meu familiar a se manter motivado no tratamento?”
Manter a motivação durante o tratamento pode ser desafiador, especialmente quando os resultados não são imediatos. Como familiar, você pode ajudar seu ente querido a se manter motivado de várias formas.
- Como ajudar:
- Celebre as pequenas vitórias: Mesmo que seu ente querido ainda use, celebre as pequenas vitórias, como ir a uma consulta ou reduzir a quantidade de uso.
- Seja um exemplo: Mostre através de suas ações que você acredita na recuperação. Por exemplo, se você também usa substâncias, considere reduzir ou parar o uso para apoiar seu ente querido.
- Ofereça apoio emocional: Deixe claro que você está ali para apoiar, não para julgar. Ouça sem interromper, valide os sentimentos do seu ente querido e ofereça palavras de encorajamento.
- Ajude a criar um ambiente seguro: Remova substâncias e gatilhos do ambiente, como álcool, medicamentos ou objetos associados ao uso. Crie um ambiente que apoie a recuperação.
- Incentive atividades saudáveis: Incentive seu ente querido a praticar exercícios, ter uma alimentação saudável e manter uma rotina estruturada. Essas atividades ajudam a melhorar o humor e reduzir a fissura.
- Participe do tratamento: Se seu ente querido se sentir confortável, participe de algumas consultas ou grupos de apoio. Isso mostra que você está comprometido com a recuperação.
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Seja paciente: A recuperação leva tempo. Não espere que seu ente querido mude de uma hora para outra. Celebre os progressos, por menores que sejam.
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O que NÃO fazer:
- Não minimize os desafios: Evite frases como “é só uma fase” ou “você consegue, é só querer”. Minimizar os desafios pode fazer com que seu ente querido se sinta incompreendido.
- Não assuma responsabilidades que não são suas: É importante apoiar, mas não assumir responsabilidades que são do seu ente querido, como pagar suas contas ou resolver seus problemas.
- Não use culpa ou vergonha: Frases como “você está destruindo nossa família” ou “como você pode fazer isso com a gente?” só aumentam a vergonha e a culpa, o que pode levar a mais uso.
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Não espere mudanças imediatas: A recuperação leva tempo. Não espere que seu ente querido mude de uma hora para outra.
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Exemplo prático:
Imagine que seu filho está em tratamento para uso de maconha. Ele conseguiu reduzir o uso de todos os dias para apenas nos fins de semana. Em vez de focar no fato de que ele ainda usa, celebre a redução: “Eu estou orgulhoso de você por ter reduzido o uso. Isso mostra que você está comprometido com a recuperação.” Além disso, incentive-o a participar de atividades saudáveis, como praticar esportes ou sair com amigos que não usam.
Quando procurar ajuda urgente
Em alguns casos, os transtornos por uso de substâncias podem levar a situações de emergência que exigem ajuda imediata. Saber reconhecer esses sinais pode salvar vidas. Vamos dividir os sinais de alerta em três níveis de gravidade: atenção, urgente e emergência.
Sinais de atenção (procure ajuda profissional o quanto antes)
Esses sinais indicam que a situação está se agravando e que é importante buscar ajuda profissional o mais rápido possível, mesmo que não seja uma emergência imediata.
- Aumento do uso: A pessoa está usando a substância em quantidades maiores ou com mais frequência do que antes.
- Mudanças de humor: A pessoa está mais irritada, ansiosa, deprimida ou apática do que o normal.
- Isolamento: A pessoa está se isolando de amigos e familiares, evitando eventos sociais ou passando mais tempo sozinha.
- Problemas no trabalho ou na escola: A pessoa está faltando ao trabalho ou à escola, tendo dificuldade para cumprir prazos ou sendo advertida por problemas de comportamento.
- Problemas financeiros: A pessoa está gastando mais dinheiro do que o normal com a substância, pedindo empréstimos ou tendo dificuldade para pagar contas.
- Mudanças no sono ou apetite: A pessoa está dormindo demais ou de menos, ou então está comendo demais ou de menos.
- Negligência com a saúde: A pessoa está deixando de tomar medicamentos prescritos, faltando a consultas médicas ou negligenciando sua higiene pessoal.
- Comportamentos de risco: A pessoa está se envolvendo em atividades perigosas, como dirigir sob efeito da substância, praticar sexo sem proteção ou se envolver em brigas.
O que fazer:
– Converse com a pessoa sobre o que você está observando, de forma calma e sem julgamentos.
– Incentive a pessoa a buscar ajuda profissional, como um psiquiatra, psicólogo ou grupo de apoio.
– Ofereça-se para acompanhar a pessoa a uma consulta ou grupo de apoio, se ela se sentir confortável com isso.
– Se a pessoa se recusar a buscar ajuda, converse com um profissional sobre como proceder.
Sinais de urgência (procure ajuda médica imediatamente)
Esses sinais indicam que a situação é grave e que a pessoa precisa de ajuda médica imediata, mas não necessariamente de uma ambulância.
- Sintomas de abstinência graves: A pessoa está apresentando sintomas graves de abstinência, como tremores, suor excessivo, náuseas, vômitos, diarreia, ansiedade intensa, insônia ou alucinações.
- Overdose: A pessoa usou uma quantidade excessiva da substância e está apresentando sintomas como sonolência extrema, dificuldade para respirar, convulsões, perda de consciência ou coma.
- Sintomas psicóticos: A pessoa está apresentando sintomas psicóticos, como delírios (crenças falsas e irracionais) ou alucinações (ver ou ouvir coisas que não existem).
- Ideação suicida: A pessoa está falando em se machucar ou se matar, ou então está se comportando de forma autodestrutiva.
- Comportamentos violentos: A pessoa está se comportando de forma agressiva ou violenta, colocando a si mesma ou outras pessoas em risco.
- Problemas físicos graves: A pessoa está apresentando problemas físicos graves, como dor no peito, dificuldade para respirar, convulsões ou desmaios.
O que fazer:
– Overdose: Se a pessoa estiver inconsciente ou com dificuldade para respirar, ligue imediatamente para o SAMU (192) ou leve-a para o pronto-socorro mais próximo.
– Sintomas de abstinência graves: Leve a pessoa para o pronto-socorro ou para um serviço de saúde mental, como um CAPS ou hospital psiquiátrico.
– Sintomas psicóticos ou ideação suicida: Leve a pessoa para o pronto-socorro ou para um serviço de saúde mental. Se a pessoa estiver em risco imediato, ligue para o SAMU (192) ou para a polícia (190).
– Comportamentos violentos: Se a pessoa estiver colocando a si mesma ou outras pessoas em risco, ligue para a polícia (190) ou para o SAMU (192).
Sinais de emergência (chame uma ambulância imediatamente)
Esses sinais indicam que a situação é uma emergência médica e que a pessoa precisa de ajuda imediata.
- Overdose com risco de vida: A pessoa está inconsciente, não responde a estímulos, tem dificuldade para respirar ou está em parada cardiorrespiratória.
- Convulsões: A pessoa está tendo convulsões (movimentos involuntários e descontrolados do corpo).
- Dor no peito ou dificuldade para respirar: A pessoa está com dor no peito, falta de ar ou outros sintomas que podem indicar um problema cardíaco ou pulmonar.
- Perda de consciência: A pessoa desmaiou e não responde a estímulos.
- Comportamento violento com risco imediato: A pessoa está se comportando de forma violenta e colocando a si mesma ou outras pessoas em risco imediato.
O que fazer:
– Ligue para o SAMU (192) imediatamente. Explique a situação com calma e siga as orientações do atendente.
– Não deixe a pessoa sozinha. Fique com ela até a chegada da ambulância.
– Se a pessoa estiver inconsciente, coloque-a de lado (posição lateral de segurança) para evitar que ela engasgue com vômito ou saliva.
– Se a pessoa estiver em parada cardiorrespiratória, inicie a reanimação cardiopulmonar (RCP) se você souber como fazer. Se não souber, o atendente do SAMU pode orientar você pelo telefone.
– Não tente “acordar” a pessoa com métodos caseiros, como dar café, água fria ou bater nela. Isso pode piorar a situação.
Importante:
– Não espere os sintomas passarem. Em casos de emergência, cada minuto conta.
– Não tenha medo de chamar ajuda. Mesmo que você não tenha certeza se é uma emergência, é melhor chamar ajuda e descobrir que não era do que não chamar e se arrepender depois.
– Não se culpe. Situações de emergência podem acontecer mesmo com pessoas que estão em tratamento. O importante é agir rápido e buscar ajuda.
Referências
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
- National Institute on Drug Abuse (NIDA). Principles of Drug Addiction Treatment: A Research-Based Guide. 3ª ed. 2018.
- Substance Abuse and Mental Health Services Administration (SAMHSA). Treatment Improvement Protocol (TIP) 35: Enhancing Motivation for Change in Substance Use Disorder Treatment. 2019.
- Miller, W. R., & Rollnick, S. Motivational Interviewing: Helping People Change. 3ª ed. New York: Guilford Press, 2012.
- Marlatt, G. A., & Donovan, D. M. Relapse Prevention: Maintenance Strategies in the Treatment of Addictive Behaviors. 2ª ed. New York: Guilford Press, 2005.
- Center for Substance Abuse Treatment. Substance Abuse Treatment: Group Therapy. Treatment Improvement Protocol (TIP) Series, No. 41. 2005.
- Liese, B. S., & Franz, R. K. Group Therapy for Substance Use Disorders: A Cognitive-Behavioral Approach. New York: Guilford Press, 2012.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.