O que é?
Imagine que a infância é como um jardim onde as emoções começam a brotar. Para a maioria das crianças, esse jardim cresce com flores de alegria, folhas de curiosidade e, às vezes, algumas ervas daninhas de medo ou tristeza passageiros. Mas, para algumas, as emoções parecem crescer de um jeito diferente: mais intensas, mais persistentes, como se o solo estivesse sempre úmido demais ou seco demais, dificultando o florescimento saudável.
Os Transtornos Emocionais com Início Especificamente na Infância (F93) são um grupo de condições que aparecem nos primeiros anos de vida e afetam justamente essa “terra emocional”. Eles não são apenas birras, medos passageiros ou fases normais do desenvolvimento. São padrões de emoções e comportamentos que persistem por muito tempo, causam sofrimento e atrapalham a vida da criança — na escola, em casa, com os amigos e até no sono ou na alimentação.
Como diferenciar de reações normais?
Toda criança tem medo de monstros debaixo da cama, fica triste quando um amigo se muda ou se irrita quando não consegue o que quer. A diferença está em três coisas:
1. Duração: O medo, a tristeza ou a ansiedade não passam depois de algumas semanas, mesmo com apoio dos pais.
2. Intensidade: A reação é desproporcional ao que aconteceu. Por exemplo, uma criança com ansiedade de separação pode chorar por horas só de pensar que a mãe vai trabalhar, enquanto outra chora por 10 minutos e logo se distrai.
3. Impacto: A emoção ou o comportamento atrapalha a vida da criança. Ela deixa de ir à escola, brincar com amigos, dormir ou comer direito por causa disso.
Um exemplo clássico é o medo de separação. É normal que bebês de 8 a 14 meses chorem quando os pais saem da sala (a famosa “angústia da separação”). Mas se uma criança de 7 anos ainda tem crises de pânico só de pensar que a mãe vai ao mercado, ou se recusa a dormir na casa de um amigo por medo de que algo ruim aconteça com os pais, isso pode indicar um transtorno de ansiedade de separação (F93.0), um dos tipos mais comuns desse grupo.
Quem é afetado?
Esses transtornos costumam aparecer antes dos 6 anos de idade e são mais comuns do que se imagina:
– Prevalência: Estudos brasileiros e internacionais estimam que 10 a 20% das crianças apresentam algum transtorno emocional na infância. No Brasil, dados do Ministério da Saúde e da Associação Brasileira de Psiquiatria da Infância e Adolescência (ABENEPI) sugerem que cerca de 15% das crianças em idade escolar têm algum diagnóstico desse grupo.
– Gênero: Meninas tendem a desenvolver mais transtornos de ansiedade e depressão, enquanto meninos apresentam mais comportamentos disruptivos (como agressividade), mas isso não é uma regra.
– Idade: Os sintomas costumam ficar mais evidentes quando a criança entra na escola (por volta dos 5-6 anos), porque é quando as demandas sociais aumentam.
Um pouco de história
Antes dos anos 1980, muitos desses problemas eram vistos como “frescura”, “manha” ou “falta de limites”. Médicos e psicólogos acreditavam que crianças não desenvolviam transtornos mentais como os adultos. Foi só com o avanço da psiquiatria infantil e estudos sobre o desenvolvimento cerebral que se percebeu: as emoções das crianças são tão complexas quanto as dos adultos, só que expressas de outra forma.
Hoje, sabemos que ignorar esses sinais pode levar a problemas maiores na adolescência e vida adulta, como depressão, ansiedade crônica ou dificuldades de relacionamento. Por isso, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado fazem toda a diferença.
Quais são os sintomas?
Os transtornos emocionais da infância (F93) se dividem em alguns tipos principais, cada um com seus sintomas característicos. Vamos detalhar cada um deles, explicando o que é normal e o que pode ser sinal de alerta.
1. Transtorno de Ansiedade de Separação (F93.0)
O que é?
É um medo excessivo e persistente de se separar das figuras de apego (geralmente os pais ou cuidadores). A criança sente que algo terrível vai acontecer com ela ou com os pais se ficarem longe.
Critérios diagnósticos traduzidos para o dia a dia:
A. Medo ou ansiedade excessivos e inadequados para a idade em relação à separação das figuras de apego
- Como aparece?
- A criança chora, grita ou faz birra toda vez que os pais saem de casa, mesmo que seja para algo rápido, como ir ao banheiro ou atender a porta.
- Ela recusa ir à escola por medo de ficar longe dos pais, mesmo que não tenha nenhum problema com os colegas ou professores.
- À noite, não consegue dormir sozinha e insiste em dormir na cama dos pais, mesmo depois de anos de ter seu próprio quarto.
- O que é normal?
- Um bebê de 1 ano chorar quando a mãe sai da sala (isso é esperado até os 2-3 anos).
- Uma criança de 4 anos ficar um pouco ansiosa no primeiro dia de escola, mas se acalmar depois de alguns dias.
B. Preocupação persistente e excessiva com a perda das figuras de apego ou com a possibilidade de que algo ruim aconteça a elas
- Como aparece?
- A criança pergunta repetidamente se os pais vão voltar, mesmo que eles já tenham dito que sim.
- Ela tem pesadelos frequentes com os pais morrendo, sendo sequestrados ou se perdendo.
- Fica extremamente agitada quando os pais se atrasam para buscá-la na escola, mesmo que seja por 5 minutos.
- O que é normal?
- Uma criança de 5 anos perguntar “Você volta logo?” quando a mãe sai para trabalhar.
- Ter um pesadelo ocasional com monstros ou separação.
C. Relutância ou recusa persistente em sair de casa sem a companhia das figuras de apego
- Como aparece?
- A criança se recusa a ir a festas de aniversário, passeios ou até consultas médicas se os pais não forem junto.
- Ela não consegue ficar na casa de parentes ou amigos, mesmo que seja por poucas horas.
- Nos casos mais graves, não consegue ficar sozinha em nenhum cômodo da casa, nem para tomar banho ou ir ao banheiro.
- O que é normal?
- Uma criança de 3 anos querer que a mãe fique perto na hora de dormir, mas conseguir brincar sozinha durante o dia.
- Ficar um pouco nervosa na primeira vez que dorme na casa da avó, mas se adaptar depois.
D. Pesadelos repetidos envolvendo o tema da separação
- Como aparece?
- A criança acorda várias vezes por semana chorando e dizendo que sonhou que os pais sumiram ou morreram.
- Ela não consegue voltar a dormir depois do pesadelo sem a presença dos pais.
- Os pesadelos são tão intensos que ela passa a ter medo de dormir.
- O que é normal?
- Ter um pesadelo ocasional e conseguir se acalmar com um abraço.
- Ficar com medo de dormir depois de assistir a um filme assustador, mas passar em alguns dias.
E. Queixas físicas frequentes quando a separação é antecipada ou ocorre
- Como aparece?
- A criança reclama de dor de barriga, dor de cabeça ou náusea toda vez que vai para a escola ou os pais saem de casa.
- Esses sintomas desaparecem quando ela fica em casa com os pais.
- Nos casos mais graves, pode ter crises de pânico (falta de ar, coração acelerado, tremores) só de pensar em se separar.
- O que é normal?
- Ficar com um pouco de dor de barriga antes de uma prova na escola (ansiedade normal).
- Reclamar de dor de cabeça depois de um dia cansativo, mas melhorar com repouso.
2. Transtorno de Ansiedade Social na Infância (F93.2)
O que é?
É um medo excessivo e persistente de situações sociais, como falar com outras crianças, participar de atividades em grupo ou ser o centro das atenções. A criança teme ser julgada, humilhada ou rejeitada.
Critérios diagnósticos traduzidos para o dia a dia:
A. Medo ou ansiedade acentuados em uma ou mais situações sociais em que a criança é exposta à possível avaliação por outras pessoas
- Como aparece?
- A criança se recusa a falar na frente da turma, mesmo que saiba a resposta.
- Ela evita brincar com outras crianças no parquinho ou na escola, preferindo ficar sozinha.
- Fica extremamente nervosa quando precisa fazer uma apresentação na escola, mesmo que seja algo simples.
- O que é normal?
- Uma criança tímida demorar um pouco para se soltar em um ambiente novo.
- Ficar nervosa antes de uma apresentação, mas conseguir fazer depois de um tempo.
B. A criança teme agir de forma a ser avaliada negativamente (por exemplo, ser humilhada, rejeitada ou ofender os outros)
- Como aparece?
- Ela não levanta a mão na aula por medo de dar a resposta errada e ser zoada.
- Recusa convites para festas porque acha que ninguém vai gostar dela.
- Fica paralisada quando precisa pedir algo a um adulto (como ir ao banheiro na escola).
- O que é normal?
- Uma criança ficar com vergonha de cantar na frente dos outros, mas conseguir se soltar com os amigos próximos.
- Não querer dançar em uma festa porque não gosta de dançar (e não por medo de ser julgada).
C. As situações sociais quase sempre provocam medo ou ansiedade
- Como aparece?
- A criança chora, treme ou se esconde quando precisa interagir com outras pessoas.
- Ela inventa desculpas para não ir à escola nos dias de atividades em grupo.
- Nos casos mais graves, pode ter crises de pânico (falta de ar, coração acelerado) só de pensar em uma situação social.
- O que é normal?
- Ficar um pouco nervosa antes de conhecer pessoas novas, mas se soltar depois de um tempo.
- Não gostar de falar em público, mas conseguir fazer quando necessário.
D. As situações sociais são evitadas ou suportadas com intenso medo ou ansiedade
- Como aparece?
- A criança finge estar doente para não ir à escola nos dias de apresentação.
- Ela se esconde atrás dos pais em festas ou reuniões familiares.
- Nos casos mais graves, deixa de ir à escola por medo de interagir com os colegas.
- O que é normal?
- Não gostar de ir a lugares muito cheios, mas conseguir ir se for necessário.
- Preferir brincar sozinha às vezes, mas interagir com os amigos quando quer.
E. O medo ou ansiedade são desproporcionais à ameaça real representada pela situação social
- Como aparece?
- A criança chora e faz birra só de pensar em ir a um aniversário, mesmo que seja de um amigo próximo.
- Ela se recusa a comer na frente dos outros por medo de ser observada.
- Nos casos mais graves, pode desenvolver fobia escolar (medo extremo de ir à escola).
- O que é normal?
- Ficar um pouco nervosa antes de uma apresentação importante.
- Não gostar de ser o centro das atenções, mas conseguir lidar com isso.
3. Transtorno de Rivalidade entre Irmãos (F93.3)
O que é?
É um ciúme excessivo e persistente em relação a um irmão ou irmã, que vai muito além da rivalidade normal entre irmãos. A criança sente que está perdendo o amor dos pais e reage com agressividade, tristeza ou comportamentos regressivos (como voltar a fazer xixi na cama).
Critérios diagnósticos traduzidos para o dia a dia:
A. Reação emocional excessiva ao nascimento de um irmão
- Como aparece?
- A criança chora sem motivo aparente quando os pais dão atenção ao bebê.
- Ela faz birras frequentes quando o irmão é elogiado ou recebe um presente.
- Nos casos mais graves, pode agredir o irmão (morder, bater, empurrar) ou quebrar os brinquedos dele.
- O que é normal?
- Ficar um pouco enciumada quando o irmão nasce, mas se adaptar depois de algumas semanas.
- Ter ciúme ocasional, mas conseguir brincar e interagir com o irmão na maior parte do tempo.
B. Comportamentos regressivos (voltar a agir como um bebê)
- Como aparece?
- A criança volta a fazer xixi na cama, mesmo que já tenha aprendido a usar o banheiro.
- Ela pede para ser amamentada ou carregada no colo como o bebê.
- Nos casos mais graves, pode parar de falar ou fingir que não sabe fazer coisas que já sabia (como comer sozinha).
- O que é normal?
- Ter um retrocesso temporário (como fazer xixi na cama uma vez) depois do nascimento do irmão.
- Pedir mais colo nos primeiros dias, mas voltar ao normal depois.
C. Perturbação do funcionamento social (dificuldade de interagir com outras crianças ou adultos)
- Como aparece?
- A criança se isola e não quer brincar com outras crianças.
- Ela fica agressiva com os amigos ou professores.
- Nos casos mais graves, pode desenvolver sintomas de depressão (tristeza constante, perda de interesse em brincar).
- O que é normal?
- Ficar um pouco irritada nos primeiros dias após o nascimento do irmão, mas voltar a brincar normalmente depois.
4. Outros Transtornos Emocionais da Infância (F93.8)
Essa categoria inclui outros problemas emocionais que não se encaixam nos diagnósticos anteriores, mas que causam sofrimento significativo na criança. Os mais comuns são:
Transtorno de Hiperansiedade
-
O que é?
É uma ansiedade generalizada e excessiva por coisas que a maioria das crianças não se preocuparia. A criança vive em um estado de tensão constante, como se algo ruim fosse acontecer a qualquer momento. -
Como aparece?
- Ela se preocupa demais com coisas pequenas, como se os pais vão se atrasar para buscá-la na escola.
- Tem medo de doenças, acidentes ou desastres naturais sem motivo real.
- Nos casos mais graves, pode ter sintomas físicos (dor de barriga, dor de cabeça, náusea) por causa da ansiedade.
Transtorno de Identidade na Infância
-
O que é?
É uma confusão persistente sobre quem a criança é, suas preferências ou seu lugar no mundo. Não é a mesma coisa que disforia de gênero (quando a criança não se identifica com o gênero atribuído ao nascimento), mas sim uma dificuldade de se reconhecer como indivíduo. -
Como aparece?
- A criança não sabe dizer do que gosta (cor, comida, brinquedo favorito).
- Ela imita excessivamente outras crianças ou adultos, como se não tivesse uma personalidade própria.
- Nos casos mais graves, pode negar sua própria existência (“Eu não existo”, “Eu sou outra pessoa”).
Um aviso importante
Ter um ou dois sintomas desses não significa que a criança tenha um transtorno. O que define o diagnóstico é:
✅ A intensidade (o quanto isso atrapalha a vida da criança).
✅ A duração (se dura mais de 6 meses, na maioria dos casos).
✅ O impacto (se afeta a escola, os relacionamentos ou a saúde física).
Se você reconheceu vários desses sinais em seu filho ou em uma criança próxima, não entre em pânico. Muitas vezes, com apoio profissional, essas dificuldades podem ser superadas. O primeiro passo é observar com atenção e, se necessário, buscar ajuda de um psicólogo ou psiquiatra infantil.
Como se manifesta no dia a dia?
Os transtornos emocionais da infância não afetam só a criança — eles transformam a rotina de toda a família. Vamos ver como esses sintomas aparecem em diferentes áreas da vida.
Na escola
A escola é um dos lugares onde os sintomas ficam mais evidentes, porque é onde a criança precisa lidar com regras, interações sociais e desempenho acadêmico.
Dificuldades comuns:
- Falta de concentração: Crianças com ansiedade ou depressão podem ter dificuldade para prestar atenção na aula porque estão preocupadas com outras coisas (medo de separação, medo de errar, tristeza).
- Exemplo: Uma criança com ansiedade de separação pode passar a aula inteira olhando para a porta, esperando a mãe voltar.
- Recusa escolar: Algumas crianças se recusam a ir à escola por medo de separação, ansiedade social ou bullying.
- Exemplo: Uma criança com fobia social pode inventar dor de barriga toda segunda-feira para não ir à escola.
- Dificuldade em fazer amigos: Crianças com ansiedade social ou rivalidade entre irmãos podem se isolar ou ter dificuldade em compartilhar.
- Exemplo: Uma criança com ansiedade social pode ficar sozinha no recreio, mesmo querendo brincar com os colegas.
- Queda no desempenho: A ansiedade ou a tristeza podem atrapalhar a memória e o raciocínio, levando a notas mais baixas.
- Exemplo: Uma criança que sempre tirava notas boas pode começar a tirar notas ruins porque não consegue se concentrar.
Como a escola pode ajudar?
- Professores atentos: Um professor que percebe que a criança está mais quieta, agressiva ou desatenta pode conversar com os pais e sugerir uma avaliação.
- Adaptações: Em alguns casos, a escola pode fazer adaptações temporárias, como:
- Permitir que a criança ligue para os pais uma vez por dia (em casos de ansiedade de separação).
- Dar mais tempo para provas (se a ansiedade atrapalha o desempenho).
- Incluir a criança em atividades em grupo menores, para que ela se sinta mais segura.
Nos relacionamentos
Os transtornos emocionais da infância afetam profundamente os relacionamentos, tanto com a família quanto com os amigos.
Com os pais e cuidadores
- Apego excessivo: Crianças com ansiedade de separação podem não querer sair do lado dos pais, mesmo em casa.
- Exemplo: A criança segue a mãe pela casa o tempo todo, como se fosse uma sombra.
- Birras frequentes: A ansiedade ou a frustração podem levar a birras intensas e prolongadas.
- Exemplo: Uma criança com rivalidade entre irmãos pode fazer birra toda vez que o irmão recebe atenção.
- Dificuldade em seguir regras: Crianças com transtornos emocionais podem testar limites com mais frequência.
- Exemplo: Uma criança com ansiedade pode se recusar a escovar os dentes porque está com medo de algo que viu na TV.
Com os irmãos
- Ciúme excessivo: Crianças com rivalidade entre irmãos podem agredir ou ignorar o irmão.
- Exemplo: Uma criança pode empurrar o irmão toda vez que ele se aproxima dos pais.
- Imitação forçada: Algumas crianças imitam o irmão em tudo, como se não tivessem uma identidade própria.
- Exemplo: Uma criança de 6 anos pode começar a falar como um bebê só para chamar a atenção.
Com os amigos
- Isolamento: Crianças com ansiedade social ou depressão podem evitar brincar com outras crianças.
- Exemplo: Uma criança pode ficar sozinha no parquinho, mesmo querendo brincar.
- Agressividade: Algumas crianças reagem com raiva quando se sentem rejeitadas.
- Exemplo: Uma criança pode bater em um amigo que não quer brincar do que ela quer.
- Dificuldade em compartilhar: Crianças com transtornos emocionais podem ter dificuldade em dividir brinquedos ou esperar a vez.
- Exemplo: Uma criança pode chorar e fazer birra se outra criança pegar seu brinquedo.
Na rotina (sono, alimentação, autocuidado)
Os transtornos emocionais também afetam os hábitos básicos da criança.
Sono
- Dificuldade para dormir: A ansiedade ou a tristeza podem atrapalhar o sono.
- Exemplo: Uma criança com ansiedade de separação pode demorar horas para dormir porque tem medo de que os pais sumam durante a noite.
- Pesadelos frequentes: Crianças com transtornos emocionais podem ter pesadelos quase todas as noites.
- Exemplo: Uma criança com ansiedade pode sonhar que os pais morrem ou que ela se perde.
- Sono agitado: Algumas crianças se mexem muito durante a noite ou acordam várias vezes.
- Exemplo: Uma criança com hiperansiedade pode acordar assustada várias vezes por noite.
Alimentação
- Perda de apetite: A ansiedade ou a tristeza podem tirar a fome.
- Exemplo: Uma criança pode deixar de comer porque está preocupada com algo.
- Seletividade extrema: Algumas crianças recusam comer certos alimentos por medo ou ansiedade.
- Exemplo: Uma criança pode se recusar a comer alimentos de determinada cor ou textura.
- Comer em excesso: Outras crianças comem demais como forma de aliviar a ansiedade.
- Exemplo: Uma criança pode beliscar comida o dia todo quando está ansiosa.
Autocuidado
- Dificuldade em se vestir ou tomar banho: Crianças com depressão ou ansiedade podem perder o interesse em se cuidar.
- Exemplo: Uma criança pode se recusar a tomar banho porque está triste.
- Regressão: Algumas crianças voltam a fazer xixi na cama ou pedem para ser amamentadas como forma de chamar atenção.
- Exemplo: Uma criança de 5 anos pode voltar a fazer xixi na cama depois do nascimento de um irmão.
Na saúde física
Os transtornos emocionais não afetam só a mente — eles também têm impacto no corpo.
Sintomas comuns:
- Dor de barriga ou náusea: A ansiedade pode causar sintomas físicos, especialmente antes de situações estressantes.
- Exemplo: Uma criança pode ter dor de barriga toda vez que vai para a escola.
- Dor de cabeça: O estresse emocional pode causar dores de cabeça frequentes.
- Exemplo: Uma criança pode reclamar de dor de cabeça todos os dias antes de ir para a escola.
- Cansaço excessivo: A ansiedade ou a depressão podem deixar a criança sempre cansada.
- Exemplo: Uma criança pode dormir 10 horas e ainda acordar cansada.
- Sistema imunológico enfraquecido: O estresse crônico pode deixar a criança mais doente.
- Exemplo: Uma criança com ansiedade pode pegar resfriados com mais frequência.
O que causa essa condição?
Quando uma criança recebe um diagnóstico de transtorno emocional, é natural que os pais se perguntem: “O que fizemos de errado?” ou “Por que isso aconteceu?”. A verdade é que não existe uma única causa — esses transtornos são resultado de uma combinação de fatores, como uma receita em que vários ingredientes se misturam.
Vamos entender cada um deles.
1. Fatores genéticos (a herança familiar)
Imagine que o cérebro é como um computador. Alguns computadores vêm com programas pré-instalados que os tornam mais sensíveis a certos “vírus” emocionais. Da mesma forma, algumas crianças nascem com uma predisposição genética para desenvolver transtornos emocionais.
- Como funciona?
- Se um dos pais tem ansiedade, depressão ou outro transtorno mental, a criança tem 2 a 3 vezes mais chances de desenvolver algo semelhante.
- Não é que a criança “herde” o transtorno, mas sim uma maior sensibilidade emocional.
-
Exemplo: Se a mãe tem ansiedade, a criança pode nascer com um “sistema de alarme” mais sensível, que dispara com mais facilidade.
-
Mito vs. Verdade
❌ Mito: “Se meu filho tem ansiedade, é porque eu passei meus medos para ele.”
✅ Verdade: A genética influencia, mas não determina o diagnóstico. Mesmo com predisposição, a criança pode não desenvolver o transtorno se tiver um ambiente saudável.
2. Fatores neurobiológicos (o que acontece no cérebro)
O cérebro de uma criança com transtorno emocional funciona de um jeito um pouco diferente em algumas áreas. Vamos comparar o cérebro a um painel de controle de um avião:
- Amígdala (o “alarme”): É a parte do cérebro responsável por detectar perigos. Em crianças com ansiedade, esse alarme dispara com mais facilidade, mesmo em situações que não são perigosas.
-
Exemplo: Uma criança com ansiedade de separação pode ter a amígdala ativada só de pensar que a mãe vai sair de casa.
-
Córtex pré-frontal (o “freio”): É a parte responsável por controlar impulsos e tomar decisões. Em crianças com transtornos emocionais, esse freio não funciona tão bem, o que pode levar a birras, agressividade ou dificuldade em se acalmar.
-
Exemplo: Uma criança com rivalidade entre irmãos pode ter dificuldade em controlar a raiva quando o irmão recebe atenção.
-
Neurotransmissores (os “mensageiros”): São substâncias que ajudam as células do cérebro a se comunicarem. Em crianças com transtornos emocionais, alguns desses mensageiros (como a serotonina e o GABA) podem estar desequilibrados, o que afeta o humor e a ansiedade.
- Exemplo: Uma criança com depressão pode ter níveis baixos de serotonina, o que deixa o humor “travado” na tristeza.
3. Fatores ambientais (o que acontece na vida da criança)
O ambiente em que a criança cresce pode aumentar ou diminuir o risco de desenvolver um transtorno emocional. Vamos pensar no ambiente como o clima de um jardim:
– Clima favorável (ambiente saudável): Sol, água na medida certa e cuidado fazem as plantas crescerem fortes.
– Clima desfavorável (ambiente estressante): Muita chuva (estresse), seca (negligência) ou vento forte (traumas) podem prejudicar o crescimento.
Fatores de risco (o que pode piorar)
- Estresse familiar: Brigas constantes entre os pais, divórcio conturbado ou violência doméstica.
- Exemplo: Uma criança que presencia brigas frequentes dos pais pode desenvolver ansiedade ou depressão.
- Traumas: Abuso físico, emocional ou sexual, acidentes, perdas (morte de um familiar, mudança brusca).
- Exemplo: Uma criança que sofreu bullying pode desenvolver ansiedade social.
- Superproteção ou negligência:
- Superproteção: Pais que não deixam a criança enfrentar desafios podem impedir que ela desenvolva resiliência.
- Exemplo: Uma criança que nunca dormiu fora de casa pode ter mais dificuldade em lidar com a separação.
- Negligência: Falta de afeto, abandono ou pais emocionalmente ausentes.
- Exemplo: Uma criança que não recebe atenção dos pais pode desenvolver comportamentos regressivos (como fazer xixi na cama) para chamar atenção.
- Mudanças bruscas: Mudança de cidade, troca de escola, nascimento de um irmão.
- Exemplo: Uma criança que sempre foi filha única pode ter dificuldade em se adaptar à chegada de um irmão.
Fatores de proteção (o que pode ajudar)
- Vínculo seguro com os pais: Crianças que se sentem amadas e seguras têm menos chances de desenvolver transtornos emocionais.
- Rotina estruturada: Horários para comer, dormir e brincar ajudam a criança a se sentir segura.
- Apoio social: Ter amigos, professores e familiares que oferecem suporte.
- Habilidades de enfrentamento: Ensinar a criança a lidar com frustrações e medos desde cedo.
4. Fatores da gestação e desenvolvimento
Alguns fatores antes mesmo do nascimento podem influenciar o desenvolvimento emocional da criança.
- Gestação estressante: Se a mãe passou por muito estresse, ansiedade ou depressão durante a gravidez, isso pode afetar o desenvolvimento do cérebro do bebê.
- Complicações no parto: Falta de oxigênio, parto prematuro ou outras complicações podem aumentar o risco de problemas emocionais.
- Exposição a substâncias: Álcool, drogas ou medicamentos durante a gravidez podem afetar o desenvolvimento cerebral.
- Primeiros anos de vida: Os primeiros 3 anos são fundamentais para o desenvolvimento emocional. Crianças que não recebem afeto, estímulo ou segurança nesse período podem ter mais dificuldades depois.
5. Modelo biopsicossocial (a combinação de tudo)
Na prática, não existe uma única causa para os transtornos emocionais da infância. Eles são resultado de uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais, como um quebra-cabeça em que cada peça importa.
- Biológico: Genética, funcionamento do cérebro, neurotransmissores.
- Psicológico: Personalidade da criança, habilidades de enfrentamento, autoestima.
- Social: Ambiente familiar, escola, amigos, cultura.
Exemplo: Uma criança pode ter predisposição genética para ansiedade (biológico), ter passado por um divórcio conturbado dos pais (social) e não ter aprendido a lidar com frustrações (psicológico). Juntos, esses fatores podem levar ao desenvolvimento de um transtorno.
Mitos sobre as causas (e a verdade por trás deles)
❌ Mito 1: “Transtornos emocionais na infância são frescura ou falta de limites.”
✅ Verdade: Esses transtornos são condições reais, com base biológica e psicológica. Não são “manha” — a criança não consegue controlar esses sentimentos sozinha.
❌ Mito 2: “Se os pais fossem mais presentes, isso não aconteceria.”
✅ Verdade: Mesmo com pais amorosos e presentes, a criança pode desenvolver um transtorno emocional por fatores genéticos ou neurobiológicos. O que os pais podem fazer é buscar ajuda e oferecer apoio.
❌ Mito 3: “Isso é coisa de criança, ela vai superar sozinha.”
✅ Verdade: Alguns medos e ansiedades passam com o tempo, mas outros pioram se não forem tratados. Quanto antes a criança receber ajuda, melhores são as chances de recuperação.
❌ Mito 4: “Só acontece em famílias problemáticas.”
✅ Verdade: Transtornos emocionais podem afetar qualquer criança, independentemente da estrutura familiar. O que importa é como a família lida com o problema.
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico pode ser assustador para os pais, mas também pode ser um alívio: finalmente, há uma explicação para o que a criança está passando e um caminho para ajudá-la. Vamos entender como funciona o processo de diagnóstico no Brasil.
Passo 1: Observação dos sintomas
O primeiro passo é observar a criança com atenção. Os pais, professores ou cuidadores podem perceber que algo não está certo quando:
– A criança chora ou faz birra com frequência sem motivo aparente.
– Ela se recusa a ir à escola ou a participar de atividades sociais.
– Tem dificuldade para dormir, comer ou se concentrar.
– Apresenta comportamentos regressivos (como voltar a fazer xixi na cama).
– Fala sobre medos excessivos ou tristeza constante.
Dica: Anotar quando os sintomas acontecem, quanto duram e o que parece piorá-los ou melhorá-los pode ajudar o profissional a entender melhor o caso.
Passo 2: Consulta com um profissional
O diagnóstico de transtornos emocionais na infância só pode ser feito por um profissional de saúde mental, como:
– Psiquiatra infantil: Médico especializado em transtornos mentais na infância.
– Psicólogo infantil: Profissional que avalia o comportamento e as emoções da criança.
– Neuropediatra: Médico que avalia problemas neurológicos que podem estar relacionados.
Onde buscar ajuda?
- SUS (Sistema Único de Saúde):
- UBS (Unidade Básica de Saúde): O primeiro passo é agendar uma consulta com um pediatra ou médico de família, que pode encaminhar para um especialista.
- CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): Oferece atendimento psicológico e psiquiátrico gratuito. Existem CAPS Infantis (CAPSi) especializados em crianças e adolescentes.
- Ambulatórios de saúde mental: Alguns hospitais públicos têm ambulatórios especializados em psiquiatria infantil.
- Particular:
- Clínicas de psicologia ou psiquiatria infantil.
- Planos de saúde (verificar cobertura para psicólogo e psiquiatra).
Quanto tempo leva para ter um diagnóstico?
Não existe um prazo exato, mas geralmente leva algumas semanas ou meses, porque o profissional precisa:
– Observar a criança em diferentes situações (casa, escola, consultório).
– Conversar com os pais e professores para entender o histórico.
– Descartar outras condições que podem causar sintomas semelhantes (como TDAH, autismo ou problemas neurológicos).
Passo 3: Avaliação detalhada
Durante as consultas, o profissional fará uma avaliação completa, que pode incluir:
Entrevista com os pais
- Histórico da criança: Como foi a gestação, o parto, os primeiros anos de vida.
- Histórico familiar: Se há casos de ansiedade, depressão ou outros transtornos mentais na família.
- Rotina da criança: Sono, alimentação, escola, relacionamentos.
- Sintomas: Quando começaram, com que frequência acontecem, o que os piora ou melhora.
Entrevista com a criança
- Conversa informal: O profissional pode usar brinquedos, desenhos ou jogos para entender como a criança se sente.
- Perguntas diretas: Dependendo da idade, o profissional pode perguntar sobre medos, tristezas ou dificuldades.
- Observação do comportamento: Como a criança interage com os pais, como reage a situações novas.
Avaliação com professores e escola
- Relatório escolar: O profissional pode pedir um relatório da escola sobre o comportamento da criança em sala de aula.
- Conversa com professores: Para entender como a criança se relaciona com os colegas e como lida com as atividades.
Testes e escalas
- Escalas de ansiedade e depressão: Questionários que ajudam a medir a intensidade dos sintomas.
- Exemplo: Escala de Ansiedade para Crianças (SCARED).
- Testes psicológicos: Avaliam habilidades cognitivas, emocionais e sociais.
- Exames complementares: Em alguns casos, o médico pode pedir exames de sangue ou imagem (como ressonância magnética) para descartar outras condições, como problemas neurológicos ou deficiências nutricionais.
Passo 4: Diagnóstico diferencial (o que pode ser confundido?)
Alguns sintomas dos transtornos emocionais da infância podem ser confundidos com outras condições. O profissional precisa descartar essas possibilidades antes de confirmar o diagnóstico.
| Condição | Como se diferencia? |
|---|---|
| TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) | No TDAH, a criança tem dificuldade de concentração e impulsividade, mas não necessariamente ansiedade ou tristeza. |
| Autismo (TEA) | No autismo, há dificuldade na comunicação e interação social, além de comportamentos repetitivos. Nos transtornos emocionais, a criança quer interagir, mas tem medo ou ansiedade. |
| Depressão infantil | A depressão na infância pode ter sintomas semelhantes (tristeza, isolamento), mas costuma ser mais persistente e acompanhada de perda de interesse em atividades. |
| Transtorno de Conduta | Crianças com transtorno de conduta desrespeitam regras e são agressivas, mas não necessariamente por ansiedade ou medo. |
| Problemas neurológicos | Algumas condições neurológicas (como epilepsia ou lesões cerebrais) podem causar mudanças de comportamento. Exames podem ajudar a descartar. |
| Fases normais do desenvolvimento | Medos e birras fazem parte do crescimento. A diferença é a intensidade, duração e impacto na vida da criança. |
Passo 5: Chegada ao diagnóstico
Depois de todas as avaliações, o profissional pode chegar a um dos seguintes diagnósticos (ou a uma combinação deles):
– F93.0 – Transtorno de Ansiedade de Separação
– F93.1 – Transtorno Fóbico na Infância
– F93.2 – Transtorno de Ansiedade Social na Infância
– F93.3 – Transtorno de Rivalidade entre Irmãos
– F93.8 – Outros Transtornos Emocionais da Infância (como hiperansiedade ou transtorno de identidade)
– F93.9 – Transtorno Emocional da Infância Não Especificado
Importante: Às vezes, a criança pode ter mais de um diagnóstico. Por exemplo, uma criança com ansiedade de separação também pode ter depressão.
O que esperar da primeira consulta?
A primeira consulta pode ser um pouco assustadora para os pais e para a criança, mas é um passo importante. Veja o que geralmente acontece:
- Acolhimento: O profissional vai ouvir os pais com atenção, sem julgamentos.
- Conversa com a criança: Dependendo da idade, o profissional pode conversar com a criança de forma lúdica (com brinquedos, desenhos).
- Explicação: O profissional vai explicar o que está acontecendo e quais são os próximos passos.
- Encaminhamentos: Se necessário, pode pedir exames, avaliações com outros profissionais ou começar o tratamento.
Dica: Levar anotações sobre os sintomas e dúvidas escritas pode ajudar a aproveitar melhor a consulta.
E se o diagnóstico for confirmado?
Receber um diagnóstico pode trazer medo, culpa ou alívio. Todas essas reações são normais. O importante é lembrar que:
✅ O diagnóstico não define a criança – ela continua sendo a mesma pessoa, só que agora com um caminho claro para melhorar.
✅ Existem tratamentos eficazes – com apoio profissional, a maioria das crianças melhora significativamente.
✅ Vocês não estão sozinhos – muitas famílias passam por isso e conseguem superar.
O próximo passo é começar o tratamento, que pode incluir terapia, medicamentos (em alguns casos) e mudanças na rotina.
Tratamento
Receber um diagnóstico de transtorno emocional na infância pode deixar os pais com muitas dúvidas: “Meu filho vai precisar tomar remédio?”, “A terapia vai funcionar?”, “O que eu posso fazer em casa?”. A boa notícia é que existem várias formas de tratamento, e a maioria das crianças responde muito bem.
Vamos entender como funciona cada abordagem e o que esperar.
1. Medicamentos
Muitas pessoas têm medo de medicar crianças, mas em alguns casos, os remédios podem ser fundamentais para aliviar o sofrimento e permitir que a criança aproveite a infância.
Quando os medicamentos são indicados?
Os medicamentos são usados quando:
– Os sintomas são muito intensos e atrapalham a vida da criança (ex.: não consegue ir à escola, não dorme, tem crises de pânico).
– A terapia sozinha não está sendo suficiente.
– A criança tem outros transtornos associados, como TDAH ou depressão.
Importante: Nem toda criança com transtorno emocional precisa de remédio. O psiquiatra infantil vai avaliar caso a caso.
Quais medicamentos são usados?
Os remédios mais comuns para transtornos emocionais na infância são:
| Classe de medicamento | Para que serve? | Exemplos | Efeitos colaterais comuns | Tempo para fazer efeito |
|---|---|---|---|---|
| Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS) | Aumentam a serotonina no cérebro, ajudando a regular o humor e a ansiedade. | Fluoxetina, Sertralina, Escitalopram | Náusea, dor de cabeça, sonolência, insônia. | 4 a 6 semanas. |
| Benzodiazepínicos (usados em casos específicos) | Diminuem a ansiedade rapidamente, mas não são indicados para uso prolongado. | Clonazepam, Diazepam | Sonolência, tontura, dependência (se usado por muito tempo). | Imediato (mas efeito passageiro). |
| Estabilizadores de humor | Ajudam a controlar oscilações de humor (usados em casos de depressão ou irritabilidade extrema). | Carbonato de lítio, Ácido valproico | Ganho de peso, tremores, problemas renais (no caso do lítio). | 2 a 4 semanas. |
Observação: Nunca dê remédios para seu filho sem orientação médica. Alguns medicamentos podem ter efeitos colaterais graves se usados de forma incorreta.
Perguntas frequentes sobre medicamentos
1. “Os remédios vão mudar a personalidade do meu filho?”
❌ Mito: Os remédios não “mudam quem a criança é”. Eles ajudam a regular as emoções, como um óculos que ajuda a enxergar melhor.
✅ Verdade: A criança continua sendo a mesma, só que menos dominada pela ansiedade ou tristeza.
2. “Meu filho vai ficar viciado?”
❌ Mito: Os ISRS (como a fluoxetina) não causam dependência. Os benzodiazepínicos (como o clonazepam) podem causar dependência se usados por muito tempo, por isso são prescritos com cuidado.
✅ Verdade: O médico vai acompanhar de perto e, se necessário, reduzir a dose aos poucos para evitar problemas.
3. “Quanto tempo meu filho vai precisar tomar remédio?”
Depende do caso. Algumas crianças tomam por 6 meses a 1 ano e depois conseguem parar. Outras podem precisar por mais tempo, especialmente se o transtorno for crônico.
4. “O que fazer se meu filho tiver efeitos colaterais?”
– Comunique o médico imediatamente.
– Não pare o remédio de uma vez – alguns precisam ser reduzidos aos poucos.
– Efeitos leves (como náusea) costumam passar depois de algumas semanas.
5. “Posso dar remédio natural ou homeopatia?”
Alguns pais recorrem a chás, florais ou homeopatia, mas não há evidências científicas de que esses tratamentos funcionem para transtornos emocionais. O ideal é combinar com o médico antes de usar qualquer coisa.
2. Psicoterapia
A terapia é o tratamento mais importante para os transtornos emocionais da infância. Ela ajuda a criança a entender suas emoções, desenvolver habilidades de enfrentamento e melhorar os relacionamentos.
Abordagens com mais evidência científica
A. Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
O que é?
É a terapia mais usada para crianças com ansiedade e depressão. Ela ensina a criança a identificar pensamentos negativos e substituí-los por pensamentos mais realistas.
Como funciona?
– Para crianças menores (3-7 anos): Usa brincadeiras, desenhos e histórias para ensinar habilidades.
– Exemplo: A terapeuta pode usar um boneco para mostrar como lidar com o medo de separação.
– Para crianças maiores (8+ anos): Usa técnicas de relaxamento, exposição gradual e resolução de problemas.
– Exemplo: Uma criança com ansiedade social pode aprender a respirar fundo antes de falar em público.
Quanto tempo dura?
Geralmente 12 a 20 sessões, mas pode variar.
Por que funciona?
– Ajuda a criança a enfrentar medos de forma gradual.
– Ensina técnicas práticas para lidar com a ansiedade (como respiração diafragmática).
– Melhora a autoestima e a confiança.
B. Terapia de Apego
O que é?
É uma abordagem focada em fortalecer o vínculo entre a criança e os pais, especialmente em casos de ansiedade de separação ou trauma.
Como funciona?
– Sessões com os pais e a criança juntos.
– O terapeuta ensina os pais a responder de forma sensível às necessidades emocionais da criança.
– Usa brincadeiras e interações para melhorar a segurança emocional.
Para quem é indicada?
– Crianças com ansiedade de separação.
– Crianças que passaram por negligência ou abandono.
– Crianças com dificuldade em confiar nos pais.
C. Terapia Familiar
O que é?
Envolve toda a família no tratamento, porque os transtornos emocionais da infância afetam todos.
Como funciona?
– Sessões com pais, irmãos e, às vezes, avós.
– O terapeuta ajuda a família a melhorar a comunicação e reduzir conflitos.
– Ensina estratégias para lidar com as crises (como birras ou recusa escolar).
Para quem é indicada?
– Famílias com muitos conflitos.
– Casos de rivalidade entre irmãos.
– Quando os pais não sabem como ajudar a criança.
D. Terapia Lúdica (Play Therapy)
O que é?
Usa brincadeiras como forma de a criança expressar suas emoções.
Como funciona?
– A criança brinca com bonecos, massinha, desenhos ou jogos.
– O terapeuta observa como ela brinca e ajuda a entender seus medos e angústias.
– Exemplo: Uma criança que tem medo de separação pode brincar de “escola” e mostrar como se sente quando a mãe sai.
Para quem é indicada?
– Crianças menores de 7 anos.
– Crianças que têm dificuldade em falar sobre seus sentimentos.
O que acontece em uma sessão de terapia infantil?
Muitas pessoas imaginam que a terapia infantil é igual à terapia de adultos, mas é bem diferente. Veja como costuma ser:
- Acolhimento: A criança é recebida em um ambiente acolhedor, com brinquedos e materiais lúdicos.
- Brincadeira livre: Nos primeiros minutos, a criança pode brincar do que quiser, enquanto o terapeuta observa.
- Atividade dirigida: O terapeuta propõe uma atividade (desenho, jogo, história) para trabalhar um tema específico.
- Exemplo: Para uma criança com ansiedade de separação, o terapeuta pode propor um jogo em que a criança “deixa o boneco ir embora e depois volta”.
- Conversa: Dependendo da idade, o terapeuta pode conversar com a criança sobre o que ela sentiu durante a atividade.
- Feedback para os pais: No final, o terapeuta conversa com os pais sobre o que foi trabalhado e dá orientações para casa.
Terapia individual vs. grupo vs. familiar
| Tipo de terapia | Vantagens | Desvantagens |
|---|---|---|
| Individual | Foco total na criança, ambiente seguro para falar sobre medos. | Pode ser mais caro, a criança não pratica interações sociais. |
| Grupo | Ajuda a criança a socializar e ver que não está sozinha. | Pode ser difícil para crianças muito ansiosas ou tímidas. |
| Familiar | Melhora a comunicação e reduz conflitos em casa. | Pode ser desconfortável se a família não estiver aberta a mudanças. |
3. Mudanças no dia a dia
Além da terapia e dos medicamentos (quando necessários), pequenas mudanças na rotina podem fazer uma grande diferença no bem-estar da criança.
A. Exercício físico
Por que ajuda?
– Reduz a ansiedade e a depressão: O exercício libera endorfinas, substâncias que melhoram o humor.
– Melhora o sono: Crianças que se exercitam dormem melhor.
– Aumenta a autoestima: Conseguir realizar uma atividade física (como aprender a andar de bicicleta) dá uma sensação de conquista.
Quais atividades são melhores?
– Para ansiedade: Yoga, natação, caminhada.
– Para agressividade: Artes marciais (judô, karatê), futebol, basquete.
– Para depressão: Dança, corrida, brincadeiras ao ar livre.
Dica: Não force a criança a fazer algo que ela não gosta. O ideal é encontrar uma atividade que ela curta.
B. Sono
Por que é importante?
– A falta de sono piora a ansiedade e a irritabilidade.
– Crianças com transtornos emocionais costumam ter dificuldade para dormir.
Dicas para uma boa higiene do sono:
✅ Rotina consistente: Horário fixo para dormir e acordar, mesmo nos fins de semana.
✅ Ambiente tranquilo: Quarto escuro, silencioso e em temperatura agradável.
✅ Evitar telas antes de dormir: A luz azul dos celulares e tablets atrapalha a produção de melatonina (hormônio do sono).
✅ Atividades relaxantes antes de dormir: Leitura, música calma, banho morno.
❌ Evitar: Cafeína (refrigerantes, chocolate), atividades agitadas antes de dormir.
C. Alimentação
O que a ciência diz?
– Açúcar e alimentos processados podem piorar a ansiedade e a hiperatividade.
– Ômega-3 (encontrado em peixes, nozes e linhaça) melhora o humor.
– Probióticos (iogurte, kefir) podem ajudar a reduzir a ansiedade (o intestino e o cérebro estão conectados!).
Dicas:
✅ Incluir: Frutas, verduras, grãos integrais, peixes, ovos.
✅ Evitar: Refrigerantes, doces em excesso, fast food.
✅ Hidratação: Água é fundamental para o funcionamento do cérebro.
D. Rotina estruturada
Crianças com transtornos emocionais se sentem mais seguras quando sabem o que esperar do dia.
Como estruturar a rotina?
– Horários fixos: Para comer, dormir, fazer lição de casa e brincar.
– Previsibilidade: Avisar a criança com antecedência sobre mudanças (“Hoje vamos ao médico depois da escola”).
– Tempo para brincar: O brincar reduz o estresse e ajuda a criança a processar emoções.
Exemplo de rotina:
| Horário | Atividade |
|—————|——————————-|
| 7:00 | Acordar e tomar café da manhã |
| 8:00 – 12:00 | Escola |
| 12:30 | Almoço |
| 13:30 – 15:00 | Lição de casa |
| 15:30 – 17:00 | Brincar (parque, jogos) |
| 18:00 | Jantar |
| 19:00 – 20:00 | Banho e atividades relaxantes |
| 20:30 | Dormir |
E. Técnicas de manejo para os sintomas
Algumas técnicas simples podem ajudar a criança a lidar com a ansiedade e a tristeza no dia a dia.
Para ansiedade:
- Respiração diafragmática: Ensinar a criança a respirar pelo nariz, enchendo a barriga de ar, e soltar pela boca devagar.
- Como fazer: Colocar a mão na barriga e sentir ela subir e descer.
- Técnica do 5-4-3-2-1: Quando a criança estiver ansiosa, pedir para ela nomear:
- 5 coisas que está vendo.
- 4 coisas que está tocando.
- 3 coisas que está ouvindo.
- 2 coisas que está cheirando.
- 1 coisa que está sentindo o gosto.
- Isso desvia o foco da ansiedade e traz a criança para o presente.
Para tristeza:
- Diário de gratidão: Pedir para a criança escrever 3 coisas boas que aconteceram no dia.
- Atividades prazerosas: Incentivar a criança a fazer algo que gosta (desenhar, dançar, brincar com o pet).
Para birras e agressividade:
- Tempo de pausa (time-out): Quando a criança estiver muito irritada, levá-la para um lugar tranquilo para se acalmar.
- Reforço positivo: Elogiar quando a criança consegue se controlar.
Convivendo com o diagnóstico
Receber um diagnóstico de transtorno emocional na infância pode ser um baque para os pais e para a criança. Mas com informação, apoio e paciência, é possível transformar esse desafio em uma oportunidade de crescimento.
Vamos ver como lidar com o diagnóstico em diferentes situações.
Para a pessoa com o diagnóstico (a criança)
Se você é uma criança ou adolescente com um transtorno emocional, saiba que:
✅ Você não está sozinho – muitas crianças passam por isso.
✅ Não é culpa sua – você não escolheu sentir ansiedade ou tristeza.
✅ Você pode melhorar – com ajuda, vai aprender a lidar com esses sentimentos.
O que você pode fazer?
- Fale sobre o que sente
- Não guarde seus medos e tristezas só para você. Converse com seus pais, professores ou terapeuta.
-
Se for difícil falar, desenhe, escreva ou brinque para expressar seus sentimentos.
-
Aprenda técnicas para se acalmar
- Respiração: Quando estiver ansioso, respire fundo pelo nariz e solte pela boca devagar.
-
Distração: Se estiver triste, faça algo que gosta (desenhar, ouvir música, brincar com o pet).
-
Não se compare com os outros
-
Cada criança tem seu próprio ritmo. Não se sinta mal por precisar de mais ajuda.
-
Peça ajuda quando precisar
- Se estiver com medo de ir à escola, peça para um amigo ficar perto de você.
-
Se estiver triste, peça um abraço.
-
Lembre-se: você é mais do que seu diagnóstico
- Você não é “a criança ansiosa” ou “a criança triste”. Você é você, com seus gostos, talentos e personalidade.
Para familiares e amigos
Se você é pai, mãe, irmão, avô, tio ou amigo de uma criança com transtorno emocional, seu apoio é fundamental. Mas também é importante cuidar de si mesmo.
Como ajudar de forma efetiva?
✅ Escute sem julgar
– Quando a criança falar sobre seus medos, não minimize (“Isso é bobagem”, “Para de frescura”).
– Em vez disso, valide os sentimentos: “Eu entendo que isso te assusta. Vamos pensar juntos em como lidar com isso.”
✅ Seja paciente
– Mudanças levam tempo. Não espere que a criança melhore da noite para o dia.
– Celebre pequenas vitórias (“Hoje você conseguiu dormir na sua cama! Parabéns!”).
✅ Mantenha a rotina
– Crianças com transtornos emocionais precisam de previsibilidade. Tente manter horários fixos para comer, dormir e brincar.
✅ Incentive a independência
– Não faça tudo pela criança. Deixe que ela tente (mesmo que erre) para ganhar confiança.
– Exemplo: Se a criança tem medo de dormir sozinha, comece deixando a porta do quarto aberta e vá fechando aos poucos.
✅ Busque apoio profissional
– Terapia familiar pode ajudar a melhorar a comunicação e reduzir conflitos.
– Grupos de apoio para pais (como os do CVV ou associações de saúde mental) podem ser um espaço para trocar experiências.
O que NÃO fazer?
❌ Culpar a criança (“Você está fazendo isso de propósito!”).
❌ Comparar com outras crianças (“Seu primo não tem medo de dormir sozinho, por que você tem?”).
❌ Ignorar os sintomas (“Isso é fase, vai passar”).
❌ Superproteger (“Você não precisa ir à escola hoje, eu fico com você”).
❌ Falar sobre o diagnóstico na frente da criança como se ela não estivesse ali (“Ele tem ansiedade, coitadinho”).
Como explicar para outras pessoas?
Muitas pessoas não entendem o que são os transtornos emocionais da infância e podem fazer comentários inadequados. Veja como explicar:
-
Para familiares e amigos próximos:
“O [nome da criança] está passando por um momento difícil com a ansiedade. Não é frescura, é uma condição real que estamos tratando com terapia. Se você quiser ajudar, pode [sugestão: brincar com ele, convidá-lo para passeios tranquilos].” -
Para a escola:
“Nosso filho tem um transtorno de ansiedade que às vezes dificulta a ida à escola. Gostaríamos de conversar com a professora para pensar em estratégias que ajudem, como [exemplo: permitir que ele ligue para nós uma vez por dia].” -
Para a própria criança (se ela perguntar):
“Às vezes, nosso cérebro fica um pouco confuso e sente medo ou tristeza sem motivo. Mas estamos aprendendo juntos a lidar com isso, e logo você vai se sentir melhor.”
Como cuidar de si mesmo enquanto cuida do outro?
Cuidar de uma criança com transtorno emocional pode ser exaustivo. É normal sentir:
– Culpa (“Será que eu fiz algo errado?”).
– Frustração (“Por que ele não melhora?”).
– Cansaço (“Não aguento mais as birras”).
– Solidão (“Ninguém entende o que estou passando”).
Dicas para não se esgotar:
✅ Tire um tempo para você
– Mesmo que sejam 10 minutos por dia, faça algo que goste (ler, tomar um café, caminhar).
✅ Peça ajuda
– Não tente fazer tudo sozinho. Divida as tarefas com o parceiro, familiares ou amigos.
✅ Converse com outros pais
– Grupos de apoio (presenciais ou online) podem ser um alívio. Saber que não está sozinho faz toda a diferença.
✅ Aceite que você não é perfeito
– Alguns dias serão mais difíceis, e tudo bem. Você está fazendo o seu melhor.
✅ Busque terapia para você
– Se estiver se sentindo sobrecarregado, um psicólogo pode ajudar.
Quando os sintomas podem piorar?
Algumas situações podem desencadear ou piorar os sintomas dos transtornos emocionais na infância. Fique atento a:
⚠️ Mudanças na rotina
– Mudança de escola, cidade ou casa.
– Férias ou feriados (a falta de estrutura pode aumentar a ansiedade).
⚠️ Eventos estressantes
– Separação dos pais, morte de um familiar, doença na família.
– Bullying na escola.
⚠️ Transições
– Entrada na escola, mudança de série, puberdade.
⚠️ Falta de sono ou alimentação inadequada
– Crianças com transtornos emocionais são mais sensíveis a noites mal dormidas ou alimentação desequilibrada.
⚠️ Falta de tratamento
– Se a criança não estiver em terapia ou tomando medicamento (quando necessário), os sintomas podem piorar com o tempo.
O que fazer nesses casos?
– Antecipe a situação: Se souber que uma mudança está por vir (como uma viagem), prepare a criança com antecedência.
– Mantenha a rotina: Mesmo em situações de estresse, tente manter horários fixos para comer e dormir.
– Reforce o apoio: Nesses momentos, esteja mais presente e ofereça segurança.
– Comunique o terapeuta: Se os sintomas piorarem, avise o profissional para ajustar o tratamento.
Perguntas frequentes
Aqui estão algumas perguntas comuns que pais e familiares fazem sobre os transtornos emocionais da infância.
1. “Meu filho vai ter isso para sempre?”
Não necessariamente. Muitas crianças melhoram significativamente com o tratamento e conseguem levar uma vida normal. Algumas até superam completamente os sintomas na adolescência ou vida adulta.
Fatores que influenciam:
✅ Diagnóstico precoce: Quanto antes começar o tratamento, melhores são as chances de recuperação.
✅ Apoio familiar: Crianças que têm pais presentes e pacientes tendem a se recuperar mais rápido.
✅ Adesão ao tratamento: Seguir as orientações do terapeuta e do médico faz toda a diferença.
Exemplo: Uma criança com ansiedade de separação pode, aos poucos, aprender a lidar com a ausência dos pais e, na adolescência, não ter mais sintomas.
2. “Isso é sinal de que meu filho vai ter depressão ou ansiedade na vida adulta?”
Nem sempre. Ter um transtorno emocional na infância não significa que a criança terá problemas na vida adulta, mas aumenta o risco se não for tratado.
O que diminui o risco?
– Tratamento adequado (terapia + medicamento, se necessário).
– Ambiente familiar saudável (menos estresse, mais apoio).
– Habilidades de enfrentamento (aprender a lidar com emoções desde cedo).
Exemplo: Uma criança com ansiedade social que aprende técnicas de enfrentamento na terapia pode, na vida adulta, não ter mais dificuldade em situações sociais.
3. “Devo contar para a escola sobre o diagnóstico?”
Sim, é importante informar a escola, especialmente se o transtorno estiver atrapalhando o desempenho ou a socialização da criança.
Como fazer isso?
– Marque uma reunião com a coordenação e os professores.
– Explique o diagnóstico de forma simples: “Nosso filho tem ansiedade de separação, o que às vezes dificulta a ida à escola. Gostaríamos de pensar em estratégias para ajudá-lo.”
– Peça adaptações, se necessário:
– Permitir que a criança ligue para os pais uma vez por dia.
– Dar mais tempo para provas (se a ansiedade atrapalhar).
– Incluir a criança em atividades em grupo menores.
O que a escola pode fazer?
– Observar o comportamento da criança e comunicar os pais se algo mudar.
– Evitar exposição desnecessária (como chamar a criança para falar na frente da turma se ela tiver ansiedade social).
– Incentivar a socialização de forma gradual.
4. “Meu filho precisa tomar remédio? Não é melhor só terapia?”
Depende do caso. A terapia é sempre a primeira opção, mas em alguns casos, os medicamentos são necessários para aliviar o sofrimento e permitir que a criança aproveite a infância.
Quando o remédio é indicado?
– Quando os sintomas são muito intensos (ex.: crises de pânico, recusa escolar).
– Quando a terapia sozinha não está funcionando.
– Quando a criança tem outros transtornos associados (como TDAH ou depressão).
Vantagens do remédio:
– Alívio rápido dos sintomas (em algumas semanas).
– Melhora a qualidade de vida (a criança consegue dormir, ir à escola, brincar).
– Potencializa a terapia (a criança consegue se concentrar melhor nas sessões).
Desvantagens:
– Efeitos colaterais (náusea, dor de cabeça, sonolência).
– Necessidade de acompanhamento médico (para ajustar a dose).
Exemplo: Uma criança com ansiedade de separação que não consegue ir à escola de jeito nenhum pode se beneficiar de um ISRS (como a fluoxetina) para reduzir a ansiedade e conseguir frequentar as aulas.
5. “Como lidar com as birras e crises em público?”
Birras e crises em público são uma das situações mais difíceis para os pais. Aqui vão algumas dicas:
✅ Mantenha a calma
– Respirar fundo e não reagir com raiva ajuda a criança a se acalmar mais rápido.
✅ Não ceda à birra
– Se a criança estiver fazendo birra para conseguir algo (como um brinquedo), não dê o que ela quer. Isso só reforça o comportamento.
✅ Ofereça alternativas
– “Eu sei que você está chateado, mas não podemos comprar esse brinquedo hoje. Que tal escolhermos um livro para levar?”
✅ Afaste-se do público
– Se possível, leve a criança para um lugar tranquilo (como o carro ou um canto da loja) para se acalmar.
✅ Valide os sentimentos
– “Eu entendo que você está bravo porque não conseguiu o que queria. Quando se acalmar, podemos conversar.”
✅ Elogie quando a criança se acalmar
– “Parabéns por ter se acalmado! Vamos para casa agora.”
6. “Como explicar para meu filho que ele tem um transtorno emocional?”
Depende da idade da criança. O importante é usar uma linguagem que ela entenda e não fazer parecer que é algo ruim.
Para crianças pequenas (3-7 anos):
-
Use histórias ou desenhos:
“Sabe quando a gente fica com medo de monstros embaixo da cama? Às vezes, nosso cérebro fica confuso e sente medo mesmo quando não tem monstro. A terapia vai ajudar a gente a ensinar o cérebro a não ter tanto medo.” -
Compare com algo físico:
“Quando a gente quebra o braço, precisa de gesso para sarar. Quando nosso coração fica triste ou com medo, a terapia é como um gesso para ele.”
Para crianças maiores (8+ anos):
-
Seja honesto, mas tranquilizador:
“Você sabe que às vezes fica muito ansioso quando precisa ir à escola? Isso acontece porque seu cérebro fica um pouco confuso e sente medo sem motivo. A terapia vai te ajudar a entender esses sentimentos e lidar melhor com eles.” -
Explique que não é culpa dela:
“Isso não é frescura, nem é porque você é fraco. É como se seu cérebro fosse um computador que às vezes trava. A gente vai aprender a reiniciar ele.”
Para adolescentes:
-
Fale sobre o cérebro:
“Nosso cérebro tem substâncias que ajudam a regular o humor. Às vezes, essas substâncias ficam desequilibradas, e é por isso que você se sente tão ansioso ou triste. O remédio e a terapia ajudam a equilibrar isso.” -
Dê exemplos de pessoas famosas:
“Sabe a [nome de um cantor/ator que a adolescente gosta]? Ela também teve ansiedade e falou sobre isso. Não é vergonha nenhuma pedir ajuda.”
7. “Meu filho não quer ir à terapia. O que fazer?”
É comum que crianças resistam à terapia, especialmente no começo. Aqui estão algumas estratégias:
✅ Explique o que vai acontecer
– “Na terapia, você vai brincar e conversar com uma pessoa legal que vai te ajudar a se sentir melhor.”
✅ Deixe a criança escolher
– “Você prefere ir hoje ou amanhã?” (Dentro de limites razoáveis.)
✅ Vá junto nas primeiras sessões
– Algumas terapias permitem que os pais fiquem na sala no começo.
✅ Use recompensas
– “Se você for à terapia hoje, depois podemos tomar um sorvete.”
✅ Mostre exemplos de sucesso
– “Lembra do João? Ele também não queria ir, mas agora adora a terapia e está se sentindo muito melhor.”
✅ Não force, mas também não desista
– Se a criança realmente não quiser ir, converse com o terapeuta para ajustar a abordagem.
8. “Como saber se meu filho está melhorando?”
A melhora não acontece de uma hora para outra, mas alguns sinais mostram que o tratamento está funcionando:
✅ Sintomas menos intensos
– A criança chora menos, faz menos birras, consegue dormir melhor.
✅ Mais independência
– Consegue ficar sozinha em casa por alguns minutos, vai à escola sem crise, brinca com amigos.
✅ Melhora no humor
– Sorri mais, tem mais energia, mostra interesse em atividades.
✅ Melhora no desempenho escolar
– Presta mais atenção na aula, faz as lições com mais facilidade.
✅ A criança fala sobre seus sentimentos
– Consegue dizer “Estou triste” ou “Estou com medo” em vez de guardar tudo para si.
Dica: Anote os progressos em um caderno. Isso ajuda a ver a melhora ao longo do tempo.
9. “O que fazer se meu filho falar em se machucar ou morrer?”
Essa é uma situação de emergência. Se seu filho falar em se machucar, morrer ou não querer mais viver, procure ajuda imediatamente.
O que fazer?
1. Mantenha a calma (mesmo que por dentro você esteja apavorado).
2. Não minimize: “Isso é bobagem” ou “Você não vai fazer isso” não ajudam.
3. Pergunte com cuidado:
– “Você está pensando em se machucar?”
– “O que você está sentindo?”
4. Busque ajuda profissional:
– CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): Oferece atendimento de urgência.
– Pronto-socorro psiquiátrico: Alguns hospitais têm atendimento 24 horas.
– CVV (Centro de Valorização da Vida): Ligue para 188 (gratuito) para orientação.
5. Não deixe a criança sozinha até que ela esteja em segurança.
Sinais de alerta:
– Falar em morte ou suicídio.
– Isolamento extremo (não querer ver ninguém).
– Comportamentos de risco (se machucar de propósito, usar drogas).
– Despedidas (dar objetos queridos, dizer “adeus”).
10. “Como lidar com o sentimento de culpa?”
Muitos pais se sentem culpados quando descobrem que o filho tem um transtorno emocional. “Será que eu fiz algo errado?”, “Será que eu poderia ter evitado?”.
A verdade é: você não é culpado.
– Transtornos emocionais têm causas múltiplas (genética, ambiente, desenvolvimento cerebral).
– Você está fazendo o seu melhor como pai/mãe.
– O importante agora é focar no futuro e buscar ajuda para seu filho.
O que fazer com a culpa?
✅ Fale sobre isso
– Converse com o terapeuta, com outros pais ou com um psicólogo.
✅ Lembre-se: você não é perfeito
– Todos os pais cometem erros. O que importa é o amor e o apoio que você dá ao seu filho.
✅ Foque no que você pode fazer agora
– Em vez de se culpar pelo passado, pense em como ajudar seu filho no presente.
✅ Aceite que algumas coisas estão fora do seu controle
– Você não pode controlar a genética ou o desenvolvimento cerebral do seu filho, mas pode controlar como você o apoia.
Quando procurar ajuda urgente
Alguns sinais indicam que a criança precisa de ajuda imediata. Se você observar qualquer um desses sintomas, procure um serviço de emergência ou entre em contato com o CVV (188).
Sinais de alerta vermelho (procure ajuda IMEDIATA)
🚨 Fala em suicídio ou morte:
– “Eu queria morrer.”
– “Ninguém sentiria minha falta se eu sumisse.”
🚨 Comportamentos de automutilação:
– Cortar-se, bater a cabeça na parede, arranhar-se até sangrar.
🚨 Isolamento extremo:
– Recusa-se a sair do quarto, não fala com ninguém por dias.
🚨 Mudanças drásticas de comportamento:
– De repente, fica muito agitado ou muito quieto.
– Para de comer ou come muito mais do que o normal.
🚨 Alucinações ou delírios:
– Fala que ouve vozes ou vê coisas que não existem.
– Acredita em coisas claramente irreais (ex.: “Os aliens vão me levar”).
🚨 Crises de pânico intensas:
– Falta de ar, coração acelerado, tremores, sensação de morte iminente.
🚨 Agressividade extrema:
– Quebra objetos, agride pessoas ou animais sem motivo.
Onde buscar ajuda?
- CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): Oferece atendimento de urgência em saúde mental.
- Pronto-socorro psiquiátrico: Alguns hospitais têm atendimento 24 horas.
- CVV (Centro de Valorização da Vida): Ligue para 188 (gratuito) para orientação.
- SAMU (192): Em casos de risco iminente de suicídio ou automutilação.
Referências
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Doenças (CID-10). 10ª ed. São Paulo: EDUSP, 1997.
- American Psychiatric Association (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
- Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil (ABENEPI). Transtornos Emocionais na Infância: Guia para Profissionais e Familiares. 2020.
- Kendall, P. C. Child and Adolescent Therapy: Cognitive-Behavioral Procedures. 4ª ed. New York: Guilford Press, 2012.
- Barkley, R. A. Defiant Children: A Clinician’s Manual for Assessment and Parent Training. 3ª ed. New York: Guilford Press, 2013.
- Centro de Valorização da Vida (CVV). Prevenção do Suicídio: Manual para Profissionais da Saúde. 2021. Disponível em: www.cvv.org.br.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.