Transtornos devidos ao uso de substâncias não psicoativas (CID-11: 6C4H)

O que é?

Imagine que você está dirigindo um carro. O volante, os pedais e o motor são como o seu cérebro: eles respondem de um jeito previsível quando você os usa corretamente. Agora, pense que alguém coloca um líquido estranho no tanque de gasolina — algo que não deveria estar ali. O carro pode até funcionar por um tempo, mas logo começa a engasgar, falhar ou até parar de vez. É mais ou menos isso que acontece quando uma pessoa usa substâncias não psicoativas de forma problemática: o corpo e a mente reagem de um jeito que não é natural, mesmo que a substância em si não seja “droga” no sentido comum da palavra.

Os transtornos devidos ao uso de substâncias não psicoativas são um grupo de condições em que uma pessoa continua usando uma substância — mesmo que ela não seja considerada uma “droga” tradicional, como álcool, maconha ou cocaína — apesar de esse uso estar causando problemas sérios na vida dela. Essas substâncias podem ser medicamentos de venda livre, produtos químicos do dia a dia (como solventes ou colas), suplementos, chás “naturais” ou até mesmo remédios prescritos para outras condições, mas usados de forma errada.

A confusão aqui é grande: muitas pessoas acham que, se uma substância não é “ilegal” ou não dá “barato”, ela não faz mal. Mas o problema não está só no efeito imediato da substância — está no padrão de uso. Por exemplo:
– Um adolescente que cheira cola de sapateiro todos os dias para “escapar” dos problemas em casa, mesmo sabendo que isso está destruindo seus pulmões e seu desempenho na escola.
– Uma pessoa que toma doses altíssimas de um remédio para emagrecer (como sibutramina) porque acha que “só assim vai conseguir se controlar”, mesmo tendo crises de ansiedade e insônia por causa disso.
– Um idoso que usa um chá “milagroso” para dormir, mas acaba desenvolvendo dependência e não consegue mais dormir sem ele.

Esses casos não são “frescura” nem “falta de força de vontade”. São transtornos reais, reconhecidos pela medicina, que podem causar sofrimento intenso, problemas de saúde e até levar à morte.

Como esse transtorno é diferente de outros?

A maioria das pessoas já ouviu falar de dependência de álcool, cigarro ou drogas ilícitas. Mas os transtornos por uso de substâncias não psicoativas são menos conhecidos e, por isso, muitas vezes minimizados ou ignorados. As principais diferenças são:

  1. A substância não é “óbvia”
  2. Álcool, maconha e cocaína são associados a “vícios” porque todo mundo sabe que eles alteram a mente. Mas uma pessoa pode ficar dependente de um remédio para azia, de um suplemento vitamínico ou até de água (sim, existe um transtorno chamado potomania, em que a pessoa bebe água em excesso e pode morrer por desequilíbrio de sais no corpo).
  3. Exemplo: Um atleta que toma cafeína em pó (vendida como suplemento) em doses altíssimas para melhorar o desempenho pode desenvolver ansiedade, arritmia cardíaca e até convulsões — mesmo que a cafeína seja legal e vendida em qualquer loja de suplementos.

  4. O problema não é só o “barato”

  5. Nas dependências clássicas (como cocaína ou heroína), o foco está no efeito prazeroso ou na fuga da realidade. Já nas substâncias não psicoativas, o problema pode ser:

    • Alívio de um sintoma (ex.: tomar um remédio para dormir todos os dias, mesmo sem receita).
    • Pressão social ou cultural (ex.: usar anabolizantes para “ficar forte” como os influenciadores fitness).
    • Automedicação (ex.: tomar um anti-inflamatório todos os dias para “aguentar” a dor de cabeça causada pelo estresse no trabalho).
  6. O diagnóstico é mais difícil

  7. Como essas substâncias não são “drogas” no senso comum, muitas pessoas (e até profissionais de saúde) não reconhecem o problema. Um médico pode tratar uma gastrite causada pelo uso excessivo de antiácidos, mas não investigar por que o paciente está tomando tantos remédios.
  8. Exemplo: Uma pessoa que toma laxantes todos os dias para emagrecer pode desenvolver danos irreversíveis no intestino, mas o médico pode não perguntar sobre o uso da substância — só tratar os sintomas.

Quem é afetado?

Não há muitos estudos específicos sobre apenas os transtornos por uso de substâncias não psicoativas, porque eles costumam ser agrupados com outras dependências. Mas alguns dados ajudam a entender o cenário:

  • No mundo, estima-se que 1 em cada 20 pessoas tenha algum transtorno por uso de substância (incluindo álcool, drogas e medicamentos). Desse grupo, uma parte significativa usa substâncias não psicoativas de forma problemática.
  • No Brasil, um estudo da Fiocruz (2019) mostrou que 19,4% dos brasileiros já usaram medicamentos sem prescrição médica — e muitos deles desenvolvem padrões de uso prejudiciais.
  • Faixa etária:
  • Adolescentes: Uso de inalantes (como cola de sapateiro, lança-perfume) e suplementos para emagrecer ou ganhar músculos.
  • Adultos jovens: Uso de anabolizantes, remédios para dormir e estimulantes (como Ritalina sem prescrição).
  • Idosos: Dependência de laxantes, antiácidos, analgésicos e remédios para pressão ou diabetes (muitos tomam doses erradas por conta própria).
  • Gênero:
  • Homens: Mais propensos a usar anabolizantes, inalantes e estimulantes.
  • Mulheres: Mais propensas a usar laxantes, diuréticos, remédios para emagrecer e ansiolíticos (como Rivotril).

Por que esse diagnóstico é importante?

Muitas pessoas acham que, se uma substância é vendida em farmácia ou é “natural”, ela não faz mal. Mas o corpo não distingue entre uma droga ilegal e um remédio de venda livre — o que importa é como e quanto você usa. Alguns exemplos de substâncias não psicoativas que podem causar transtornos:

Substância Uso comum Problema quando usada em excesso
Laxantes Prisão de ventre Danos ao intestino, desidratação, dependência
Diuréticos Inchaço, pressão alta Desidratação, problemas renais, arritmia cardíaca
Antiácidos Azia, gastrite Deficiência de nutrientes, osteoporose
Analgésicos Dor de cabeça, dores musculares Danos ao fígado, dependência, sangramentos
Anabolizantes Ganho de músculos Problemas cardíacos, infertilidade, agressividade
Suplementos Falta de vitaminas Overdose de vitaminas (ex.: vitamina A em excesso causa danos ao fígado)
Inalantes Cola, tinta, gasolina Danos ao cérebro, pulmões e coração
Cafeína em pó Energia, foco Ansiedade, insônia, convulsões
Melatonina Insônia Dependência, alterações hormonais

Quais são os sintomas?

Para entender se o uso de uma substância não psicoativa está se tornando um transtorno, os médicos usam critérios baseados no DSM-5 (manual de diagnóstico americano) e na CID-11 (classificação internacional de doenças). Vamos traduzir cada um deles para o dia a dia, com exemplos reais.

Critérios diagnósticos (DSM-5/CID-11) traduzidos

1. Uso em quantidades maiores ou por mais tempo do que o pretendido

O que significa?
A pessoa planeja usar a substância de um jeito (ex.: “Vou tomar só um comprimido para dormir”), mas acaba usando muito mais ou por mais tempo (ex.: “Tomei três e ainda não consegui dormir, então tomei mais dois”).

Exemplos no dia a dia:
João comprou um suplemento de cafeína para estudar para uma prova. Ele planejava tomar uma cápsula por dia, mas, na véspera do exame, tomou cinco de uma vez para ficar acordado a noite toda. No dia seguinte, teve taquicardia e não conseguiu fazer a prova.
Maria começou a tomar um chá “natural” para emagrecer. No começo, tomava uma xícara por dia, mas agora toma quatro xícaras e ainda sente que não está perdendo peso rápido o suficiente. Seu coração dispara e ela tem crises de ansiedade.
Pedro usa um spray nasal para desentupir o nariz quando está resfriado. No começo, usava uma vez por dia, mas agora usa dez vezes ao dia porque sente que não consegue respirar sem ele. Seu nariz está sempre sangrando.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Normal: Usar um remédio para dor de cabeça quando realmente precisa, seguindo a dose recomendada.
Sintoma: Tomar o dobro da dose porque “só assim a dor passa” e fazer isso todos os dias, mesmo sem dor.


2. Desejo persistente ou esforços malsucedidos para diminuir ou controlar o uso

O que significa?
A pessoa sabe que está exagerando e tenta parar ou reduzir, mas não consegue. É como tentar segurar a respiração: você aguenta por um tempo, mas depois precisa voltar a usar.

Exemplos no dia a dia:
Ana toma laxantes todos os dias para “manter o peso”. Ela já tentou parar três vezes, mas sempre volta porque se sente “inchada” e “gorda” sem eles. Seu intestino já não funciona direito sem os remédios.
Carlos usa um remédio para dormir há dois anos. Ele já marcou consulta com um médico para tentar parar, mas desiste na última hora porque tem medo de não conseguir dormir sem o comprimido.
Beatriz cheira cola de sapateiro com os amigos. Ela já prometeu para a mãe que ia parar, mas sempre arruma uma desculpa (“Só hoje”, “É só um pouquinho”) e acaba usando de novo.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Normal: Tomar um remédio para gripe por três dias e parar quando melhora.
Sintoma: Tentar parar de tomar um remédio para ansiedade cinco vezes e sempre voltar porque “sem ele não consigo viver”.


3. Muito tempo gasto para obter, usar ou se recuperar dos efeitos da substância

O que significa?
A substância toma conta da vida da pessoa. Ela gasta horas do dia pensando nela, conseguindo-a ou se recuperando dos efeitos.

Exemplos no dia a dia:
Rafael toma um remédio para emagrecer que só é vendido em uma farmácia longe de casa. Ele gasta duas horas por dia indo e voltando da farmácia, mesmo sabendo que o remédio está prejudicando seu coração.
Juliana usa um spray nasal para desentupir o nariz. Ela leva o frasco para todo lugar (trabalho, faculdade, festas) e usa a cada meia hora, mesmo sabendo que seu nariz está sempre sangrando.
Lucas toma um suplemento pré-treino que contém cafeína. Ele só consegue malhar se tomar o suplemento, e depois fica horas sem dormir, o que atrapalha seu trabalho no dia seguinte.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Normal: Tomar um remédio para dor de cabeça quando necessário e esquecer dele depois.
Sintoma: Planejar o dia em torno do uso (ex.: “Só vou sair de casa depois de tomar meu remédio para ansiedade”).


4. Fissura (desejo intenso ou urgência de usar a substância)

O que significa?
A pessoa sente uma vontade tão forte de usar a substância que é quase impossível resistir. É como quando você está com muita fome e vê um prato de comida: seu cérebro só pensa nisso.

Exemplos no dia a dia:
Fernanda toma um remédio para dormir. Quando chega a noite, ela sente uma ansiedade tão grande que não consegue deitar na cama sem tomar o comprimido. Se não toma, fica horas rolando na cama, suando e com o coração acelerado.
Gustavo usa um spray nasal para desentupir o nariz. Quando está em um lugar onde não pode usar (como no trabalho), ele sente uma coceira insuportável no nariz e fica irritado e distraído até conseguir usar o spray.
Clara toma um chá “detox” para emagrecer. Quando não toma, sente uma vontade incontrolável de tomar, mesmo sabendo que o chá está causando dores de estômago.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Normal: Sentir vontade de tomar um café quando está cansado.
Sintoma: Sentir uma ansiedade tão grande que não consegue pensar em outra coisa até usar a substância.


5. Uso recorrente que resulta em fracasso no cumprimento de obrigações no trabalho, escola ou casa

O que significa?
A pessoa deixa de fazer coisas importantes porque está usando a substância ou se recuperando dos efeitos dela.

Exemplos no dia a dia:
Marcos toma um remédio para dormir que o deixa groque no dia seguinte. Ele falta ao trabalho várias vezes por mês porque não consegue acordar.
Patrícia usa um suplemento pré-treino com muita cafeína. Ela não consegue se concentrar no trabalho porque fica agitada e irritada, e já recebeu advertências do chefe.
Thiago cheira cola de sapateiro com os amigos. Ele não vai mais à escola porque prefere ficar usando a cola e agora está reprovado.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Normal: Faltar ao trabalho uma vez porque tomou um remédio para gripe e dormiu demais.
Sintoma: Faltar ao trabalho várias vezes por mês porque está usando um remédio que causa sonolência.


6. Uso continuado apesar de problemas sociais ou interpessoais causados ou exacerbados pela substância

O que significa?
A pessoa sabe que a substância está prejudicando seus relacionamentos, mas continua usando mesmo assim.

Exemplos no dia a dia:
Daniel toma um remédio para ansiedade que o deixa irritado e agressivo. Sua esposa já pediu várias vezes para ele parar, mas ele continua tomando porque “sem ele não consigo viver”.
Camila usa laxantes para emagrecer. Sua mãe implora para ela parar porque sabe que isso está prejudicando sua saúde, mas Camila não consegue e agora briga com a família todos os dias.
Rodrigo toma anabolizantes para ganhar músculos. Seus amigos não querem mais sair com ele porque ele fica agressivo e paranoico, mas ele não para porque acha que “precisa ficar forte”.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Normal: Tomar um remédio para dor de cabeça mesmo sabendo que pode dar sono, mas avisar a família que vai descansar.
Sintoma: Brigar com a família todos os dias porque o remédio está deixando você irritado, mas não parar de tomar.


7. Redução ou abandono de atividades sociais, ocupacionais ou recreativas por causa do uso

O que significa?
A pessoa deixa de fazer coisas que gostava porque a substância toma todo o seu tempo e energia.

Exemplos no dia a dia:
Aline adorava sair com as amigas, mas agora só pensa em tomar seu chá para emagrecer. Ela parou de ir a festas, cinemas e até ao salão de beleza porque “não tem tempo”.
Bruno era jogador de futebol, mas começou a tomar anabolizantes e agora não joga mais porque fica muito agressivo e os amigos não o convidam mais.
Renata amava cozinhar, mas agora não tem mais paciência porque está sempre tomando remédios para dormir e fica groque o dia todo.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Normal: Deixar de sair uma vez porque está gripado e tomando remédio.
Sintoma: Parar de fazer todas as coisas que gostava porque a substância se tornou mais importante.


8. Uso recorrente em situações fisicamente perigosas

O que significa?
A pessoa usa a substância mesmo sabendo que isso pode colocá-la em risco.

Exemplos no dia a dia:
Eduardo toma um remédio para dormir que o deixa groque. Mesmo assim, ele dirige o carro no dia seguinte e quase bate porque não consegue se concentrar.
Sofia usa um spray nasal para desentupir o nariz. Ela dirige com o spray na mão e já quase causou um acidente porque estava mexendo no frasco enquanto dirigia.
Vinícius toma um suplemento pré-treino com muita cafeína. Ele malha até a exaustão e já desmaiou duas vezes na academia, mas continua tomando.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Normal: Tomar um remédio para dor de cabeça e evitar dirigir se ele causar sonolência.
Sintoma: Dirigir mesmo sabendo que o remédio está prejudicando seus reflexos.


9. Uso continuado apesar de saber que tem um problema físico ou psicológico causado ou piorado pela substância

O que significa?
A pessoa sabe que a substância está prejudicando sua saúde, mas continua usando mesmo assim.

Exemplos no dia a dia:
Gabriela toma laxantes todos os dias para emagrecer. Seu médico disse que ela está desidratada e com o intestino danificado, mas ela não consegue parar.
Felipe toma um remédio para dormir que causa depressão. Ele já tentou suicídio duas vezes por causa disso, mas continua tomando porque “sem ele não consigo dormir”.
Isabela usa um spray nasal que está destruindo seu septo nasal (a parte que divide as narinas). Ela já fez duas cirurgias, mas continua usando porque “não consigo respirar sem ele”.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Normal: Tomar um remédio para gripe mesmo sabendo que pode dar sono, porque é temporário.
Sintoma: Continuar tomando um remédio mesmo depois de o médico dizer que ele está causando danos irreversíveis.


10. Tolerância

O que significa?
A pessoa precisa de doses cada vez maiores para sentir o mesmo efeito. É como quando você toma café todos os dias: no começo, uma xícara é suficiente, mas depois precisa de três para ficar acordado.

Exemplos no dia a dia:
Ricardo começou tomando um comprimido de um remédio para dormir. Agora, toma quatro e ainda não consegue dormir.
Larissa usava um spray nasal por dia. Agora, usa dez e ainda sente o nariz entupido.
Diego tomava uma cápsula de cafeína para malhar. Agora, toma cinco e ainda não sente o mesmo efeito.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Normal: Precisar de um pouco mais de café depois de tomar por alguns meses.
Sintoma: Precisar de dez vezes mais da substância para sentir o mesmo efeito.


11. Abstinência

O que significa?
Quando a pessoa para de usar a substância, seu corpo reage mal, com sintomas físicos ou psicológicos. É como quando você fica muito tempo sem comer e começa a sentir tontura, irritação e fraqueza.

Exemplos no dia a dia:
Marta toma um remédio para ansiedade todos os dias. Quando tenta parar, sente tremores, suor frio e uma ansiedade tão grande que parece que vai morrer.
André usa um spray nasal há anos. Quando tenta parar, seu nariz entope completamente e ele não consegue respirar, então volta a usar.
Carla toma laxantes todos os dias. Quando para, fica dias sem conseguir ir ao banheiro e sente dores fortes na barriga.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Normal: Sentir um pouco de dor de cabeça quando para de tomar café.
Sintoma: Sentir tremores, suor frio e uma ansiedade insuportável quando tenta parar de tomar um remédio.


Importante: Ter alguns sintomas não significa ter o diagnóstico

Muitas pessoas podem se identificar com um ou dois desses sintomas, mas isso não significa que têm um transtorno. Para o diagnóstico, é preciso:
Vários sintomas ao mesmo tempo (pelo menos 2 dos 11 critérios).
Por um período prolongado (geralmente mais de 12 meses).
Causando sofrimento ou prejuízo na vida da pessoa.

Se você ou alguém que você conhece se identificou com vários desses sintomas, é importante procurar ajuda de um profissional de saúde mental (psiquiatra ou psicólogo). Não é “frescura” — é um problema real que pode ser tratado.


Como se manifesta no dia a dia?

Os transtornos por uso de substâncias não psicoativas não afetam só a saúde física — eles transformam a rotina, os relacionamentos e até a personalidade da pessoa. Vamos ver como isso acontece em diferentes áreas da vida.

No trabalho ou na escola

  • Faltas frequentes: A pessoa falta ao trabalho ou à escola porque está usando a substância (ex.: tomando remédios para dormir e não conseguindo acordar) ou se recuperando dos efeitos (ex.: com dor de cabeça por abstinência de cafeína).
  • Queda no desempenho: Ela não consegue se concentrar porque está sempre pensando na substância (ex.: um estudante que não consegue estudar porque está ansioso para tomar seu remédio para ansiedade).
  • Problemas com colegas: A substância pode deixar a pessoa irritada, agressiva ou paranoica (ex.: um funcionário que toma anabolizantes e briga com todo mundo no trabalho).
  • Demissões ou reprovações: Muitas pessoas perdem o emprego ou são reprovadas na escola porque o uso da substância se torna mais importante do que suas obrigações.

Exemplo real:

João trabalhava em um escritório e tomava um remédio para dormir que o deixava grogue no dia seguinte. Ele começou a chegar atrasado todos os dias e não conseguia terminar suas tarefas. Seu chefe deu várias advertências, mas João não conseguia parar de tomar o remédio porque tinha medo de não dormir. No fim, foi demitido.


Nos relacionamentos

  • Brigas constantes: A família e os amigos não entendem por que a pessoa não para de usar a substância, mesmo sabendo que faz mal. Isso gera discussões frequentes.
  • Isolamento: A pessoa deixa de sair com amigos e familiares porque prefere ficar usando a substância (ex.: alguém que toma laxantes para emagrecer e não vai mais a restaurantes com medo de engordar).
  • Desconfiança: Se a pessoa esconde o uso da substância, os familiares podem desconfiar que ela está usando drogas ilícitas, o que piora ainda mais o relacionamento.
  • Dependência emocional: Em alguns casos, a pessoa só consegue se relacionar com quem também usa a substância (ex.: adolescentes que cheiram cola só se aproximam de outros que fazem o mesmo).

Exemplo real:

Maria tomava um chá “detox” para emagrecer e escondia dos pais. Quando eles descobriram, brigaram muito porque achavam que ela estava usando drogas. Maria parou de falar com eles e só saía com amigas que também tomavam o chá. No fim, perdeu o contato com a família.


Na rotina (sono, alimentação, autocuidado)

  • Sono desregulado: Muitas substâncias atrapalham o sono (ex.: cafeína em excesso causa insônia) ou causam dependência (ex.: remédios para dormir que deixam a pessoa grogue no dia seguinte).
  • Alimentação desequilibrada: Algumas substâncias cortam o apetite (ex.: remédios para emagrecer) ou causam compulsão alimentar (ex.: laxantes que deixam a pessoa com fome depois de evacuar).
  • Falta de autocuidado: A pessoa deixa de se arrumar, tomar banho ou cuidar da saúde porque a substância se torna mais importante (ex.: alguém que toma anabolizantes e não liga mais para sua aparência porque só pensa em ganhar músculos).
  • Rotina caótica: O dia é organizado em torno do uso da substância (ex.: alguém que só consegue dormir se tomar um remédio, então planeja tudo para estar em casa na hora de tomar).

Exemplo real:

Pedro tomava um spray nasal para desentupir o nariz. Ele usava o spray a cada meia hora, mesmo sabendo que estava prejudicando seu nariz. Com o tempo, parou de sair de casa porque tinha medo de não conseguir respirar. Deixou de se alimentar direito e emagreceu muito. No fim, precisou ser internado porque seu corpo não aguentava mais.


Na saúde física

Os efeitos variam dependendo da substância, mas alguns problemas comuns são:

Substância Efeitos no corpo
Laxantes Desidratação, danos ao intestino, desequilíbrio de sais no corpo (pode causar arritmia cardíaca).
Diuréticos Desidratação, problemas renais, pressão baixa, tonturas.
Antiácidos Deficiência de nutrientes (como vitamina B12), osteoporose, problemas renais.
Analgésicos Danos ao fígado e rins, sangramentos no estômago, dependência.
Anabolizantes Problemas cardíacos, infertilidade, calvície, agressividade, danos ao fígado.
Inalantes Danos ao cérebro (perda de memória, dificuldade de concentração), problemas pulmonares, arritmia cardíaca.
Cafeína em excesso Ansiedade, insônia, tremores, taquicardia, convulsões.
Melatonina em excesso Dependência, alterações hormonais, sonolência diurna.

Exemplo real:

Lucas tomava anabolizantes para ganhar músculos. No começo, ficou forte e feliz, mas depois começou a ter dores no peito. Foi ao médico e descobriu que seu coração estava fraco por causa dos anabolizantes. Mesmo assim, não conseguiu parar porque tinha medo de perder os músculos. No fim, teve um infarto aos 25 anos.


O que causa essa condição?

Não existe uma única causa para os transtornos por uso de substâncias não psicoativas. Eles surgem de uma combinação de fatores, como:

1. Fatores genéticos (hereditariedade)

Como funciona?
Imagine que o cérebro é como um jardim. Algumas pessoas nascem com sementes mais frágeis — ou seja, têm uma predisposição genética para desenvolver dependência. Se elas forem expostas a uma substância (como um “fertilizante”), essas sementes crescem mais rápido do que em outras pessoas.

Exemplos:
– Se seus pais ou avós tiveram problemas com álcool, drogas ou até mesmo remédios, você pode ter uma maior chance de desenvolver um transtorno por uso de substância.
– Alguns estudos mostram que pessoas com histórico de depressão ou ansiedade na família têm mais risco de desenvolver dependência de remédios para dormir ou ansiolíticos.

Mito vs. Verdade:
Mito: “Se meus pais não tiveram vício, eu também não vou ter.”
Verdade: A genética aumenta o risco, mas não é uma sentença. Mesmo sem histórico familiar, uma pessoa pode desenvolver um transtorno se tiver outros fatores de risco (como estresse ou acesso fácil à substância).


2. Fatores neurobiológicos (o que acontece no cérebro?)

Como funciona?
O cérebro tem um sistema de recompensa, como um videogame: quando você faz algo bom (como comer, se exercitar ou socializar), ele libera dopamina, um neurotransmissor que dá uma sensação de prazer. Algumas substâncias hackeiam esse sistema, fazendo o cérebro liberar muita dopamina de uma vez, como se você tivesse ganhado 1000 pontos no jogo.

Com o tempo, o cérebro se acostuma com essa quantidade de dopamina e para de produzir naturalmente. É como se o videogame desligasse o botão de “recompensa normal” — agora, a pessoa só sente prazer com a substância.

Exemplo:
– Uma pessoa que toma remédios para dormir pode, no começo, dormir bem. Mas, com o tempo, seu cérebro para de produzir melatonina (o hormônio do sono) naturalmente, e ela só consegue dormir com o remédio.
– Alguém que usa laxantes para emagrecer pode, no começo, se sentir “leve”. Mas, depois de um tempo, seu intestino para de funcionar sozinho, e ela precisa dos laxantes para evacuar.

Analogia:
Pense no cérebro como um elástico. Quando você usa uma substância, é como se esticasse o elástico ao máximo. Com o tempo, ele perde a elasticidade e não volta mais ao normal — agora, só fica “esticado” (dependente).


3. Fatores ambientais (experiências de vida)

Como funciona?
O ambiente em que uma pessoa vive pode aumentar ou diminuir o risco de desenvolver um transtorno. Alguns fatores importantes são:

A. Acesso fácil à substância

  • Se uma substância é fácil de conseguir (como remédios de venda livre ou suplementos), o risco de uso problemático aumenta.
  • Exemplo: Um adolescente que encontra laxantes no armário de remédios da mãe pode começar a usá-los para emagrecer.

B. Pressão social ou cultural

  • Mídia e redes sociais: Influenciadores fitness que promovem anabolizantes ou suplementos perigosos sem alertar sobre os riscos.
  • Grupos de amigos: Se todo mundo no grupo usa uma substância (como inalantes ou remédios para emagrecer), a pessoa pode se sentir pressionada a usar também.
  • Cultura do “corpo perfeito”: Muitas pessoas usam laxantes, diuréticos ou remédios para emagrecer porque se sentem pressionadas a ter um corpo magro.

C. Estresse e traumas

  • Pessoas que passaram por abuso, violência, bullying ou perdas têm mais risco de usar substâncias como forma de alívio.
  • Exemplo: Uma pessoa que sofreu abuso na infância pode começar a tomar remédios para dormir para “apagar” as memórias ruins.

D. Falta de informação

  • Muitas pessoas não sabem que remédios de venda livre podem causar dependência. Elas acham que, se não é “droga”, não faz mal.
  • Exemplo: Alguém que toma antiácidos todos os dias porque acha que “azia é normal” pode desenvolver problemas graves no estômago.

4. Fatores psicológicos (como a mente influencia)

Como funciona?
Algumas características psicológicas podem aumentar o risco de desenvolver um transtorno:

  • Impulsividade: Pessoas que agem sem pensar têm mais chance de usar substâncias de forma problemática.
  • Baixa autoestima: Quem não se sente bem consigo mesmo pode usar substâncias para se sentir melhor (ex.: remédios para emagrecer, anabolizantes).
  • Perfeccionismo: Pessoas que exigem muito de si mesmas podem usar substâncias para melhorar o desempenho (ex.: estimulantes para estudar, anabolizantes para malhar).
  • Dificuldade em lidar com emoções: Quem não sabe enfrentar tristeza, raiva ou ansiedade pode usar substâncias como válvula de escape.

Exemplo:

Clara sempre foi muito perfeccionista. Quando entrou na faculdade, começou a tomar Ritalina (um estimulante) sem receita para conseguir estudar mais. No começo, funcionou, mas depois ela não conseguia mais se concentrar sem o remédio. Quando tentou parar, teve crises de ansiedade e precisou de ajuda médica.


5. Modelo biopsicossocial (a combinação de tudo)

Os transtornos por uso de substâncias não psicoativas não têm uma causa única — eles surgem de uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais.

Exemplo de como tudo se conecta:
Biológico: Uma pessoa tem predisposição genética para ansiedade.
Psicológico: Ela é perfeccionista e se cobra muito no trabalho.
Social: Seu chefe exige resultados impossíveis, e ela não tem rede de apoio.
Resultado: Ela começa a tomar um remédio para ansiedade sem receita. No começo, ajuda, mas depois se torna dependente.


Mitos sobre as causas (e a verdade por trás deles)

Mito 1: “Só pessoas fracas ou sem força de vontade desenvolvem dependência.”
Verdade: A dependência não é falta de caráter — é uma doença do cérebro. Assim como uma pessoa com diabetes não consegue controlar o açúcar no sangue só com força de vontade, alguém com dependência não consegue parar só com “força mental”.

Mito 2: “Se a substância é legal, não faz mal.”
Verdade: Muitos remédios e suplementos podem causar dependência e danos graves se usados de forma errada. O que importa não é se a substância é legal, mas como e quanto você usa.

Mito 3: “Só quem usa drogas ‘pesadas’ tem dependência.”
Verdade: Qualquer substância pode causar dependência se usada de forma problemática — até mesmo água, laxantes ou remédios para azia.

Mito 4: “Se eu parar de usar, meu corpo volta ao normal rapidinho.”
Verdade: O cérebro e o corpo levam tempo para se recuperar. Em alguns casos, os danos podem ser permanentes (ex.: danos ao fígado por uso excessivo de analgésicos).


Como é feito o diagnóstico?

Se você ou alguém que você conhece se identificou com os sintomas, o próximo passo é procurar ajuda profissional. Mas como funciona o diagnóstico?

1. Quem pode diagnosticar?

  • Psiquiatra: Médico especializado em saúde mental. É o profissional mais indicado para diagnosticar e tratar transtornos por uso de substâncias.
  • Psicólogo: Pode ajudar a identificar padrões de comportamento e encaminhar para um psiquiatra se necessário.
  • Médico clínico geral ou de família: Pode fazer uma avaliação inicial e encaminhar para um especialista.

No SUS (Sistema Único de Saúde):
– Você pode procurar uma UBS (Unidade Básica de Saúde) ou um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial).
– O SUS oferece tratamento gratuito, incluindo consultas com psiquiatra, psicólogo e, em alguns casos, internação.

No particular:
– Você pode marcar uma consulta diretamente com um psiquiatra ou psicólogo.
– Alguns planos de saúde cobrem o tratamento.


2. O que esperar na primeira consulta?

A primeira consulta costuma durar entre 40 minutos e 1 hora. O profissional vai fazer perguntas detalhadas para entender:
Quais substâncias você usa (remédios, suplementos, chás, etc.).
Com que frequência e em que quantidade.
Há quanto tempo você usa.
Quais problemas o uso está causando (no trabalho, nos relacionamentos, na saúde).
Se você já tentou parar e como foi.

Exemplo de perguntas que o médico pode fazer:
– “Você já tentou reduzir ou parar de usar [substância]? Como foi?”
– “Você sente que precisa de doses cada vez maiores para ter o mesmo efeito?”
– “O uso dessa substância já causou problemas no seu trabalho ou nos seus relacionamentos?”
– “Você sente ansiedade, irritação ou outros sintomas quando não usa?”

Dica:
Seja honesto. Não minimize o uso por vergonha — o médico está ali para ajudar, não para julgar.
Leve uma lista das substâncias que você usa, com doses e frequência.
Anote seus sintomas (ex.: “Quando não tomo o remédio para dormir, fico ansioso e não consigo respirar”).


3. Quanto tempo leva para o diagnóstico?

  • Primeira consulta: O profissional já pode ter uma suspeita diagnóstica.
  • Avaliação completa: Pode levar 2 a 4 consultas, dependendo da complexidade do caso.
  • Exames complementares: Em alguns casos, o médico pode pedir exames de sangue, urina ou imagem para avaliar danos físicos (ex.: fígado, rins, coração).

Exemplo:

Ana procurou um psiquiatra porque não conseguia parar de tomar laxantes. Na primeira consulta, o médico suspeitou de um transtorno por uso de substância. Nas consultas seguintes, ele avaliou os sintomas, pediu exames de sangue (para ver se havia desidratação ou desequilíbrio de sais) e confirmou o diagnóstico.


4. Diagnóstico diferencial (outras condições que podem ser confundidas)

Às vezes, os sintomas de um transtorno por uso de substância podem ser confundidos com outras condições, como:

Condição Como diferenciar?
Transtorno de ansiedade A ansiedade pode levar ao uso de substâncias (ex.: remédios para ansiedade), mas também pode ser causada pelo uso (ex.: abstinência de cafeína). O médico vai avaliar o que veio primeiro.
Depressão A depressão pode causar insônia, levando ao uso de remédios para dormir. Mas também pode ser um efeito colateral do uso excessivo de substâncias.
Transtorno alimentar Pessoas com anorexia ou bulimia podem usar laxantes, diuréticos ou remédios para emagrecer. O médico vai avaliar se o uso da substância está relacionado a uma distorção da imagem corporal.
Transtorno de déficit de atenção (TDAH) Algumas pessoas com TDAH usam estimulantes (como Ritalina) sem receita para melhorar o foco. O médico vai avaliar se o uso é automedicação ou se há um transtorno por uso de substância.
Doenças físicas Algumas doenças (como hipotireoidismo) podem causar fadiga ou ganho de peso, levando ao uso de substâncias para “compensar”. O médico pode pedir exames para descartar causas físicas.

5. E se o diagnóstico for confirmado?

Se o profissional confirmar o diagnóstico de transtorno por uso de substância não psicoativa, não entre em pânico. É um problema tratável, e quanto antes você começar o tratamento, melhores são as chances de recuperação.

O que acontece depois?
– O médico vai explicar o diagnóstico e tirar todas as suas dúvidas.
– Vocês vão combinar um plano de tratamento (que pode incluir medicamentos, terapia e mudanças no estilo de vida).
– Se necessário, o médico pode encaminhar para outros profissionais, como nutricionista, educador físico ou terapeuta ocupacional.

Lembre-se:
Não é culpa sua. A dependência é uma doença, não uma falha de caráter.
Você não está sozinho. Milhares de pessoas passam pelo mesmo e conseguem se recuperar.
O tratamento funciona. Com ajuda profissional, é possível retomar o controle da sua vida.


Tratamento

O tratamento dos transtornos por uso de substâncias não psicoativas é multidisciplinar — ou seja, envolve várias abordagens para ajudar a pessoa a parar de usar a substância, lidar com os sintomas de abstinência e reconstruir sua vida. Vamos ver as principais opções.


1. Medicamentos

Os medicamentos podem ajudar de duas formas principais:
1. Reduzir os sintomas de abstinência (ex.: ansiedade, insônia, tremores).
2. Diminuir a fissura (vontade intensa de usar a substância).

Importante:
Nenhum medicamento “cura” a dependência sozinho — eles são ferramentas para ajudar no tratamento.
Nunca tome medicamentos sem orientação médica. Alguns remédios podem piorar a dependência ou causar efeitos colaterais graves.

Medicamentos mais usados

Substância problemática Medicamentos que podem ajudar Como funcionam? Efeitos colaterais comuns
Remédios para dormir (benzodiazepínicos, zolpidem) Melatonina (ajuda a regular o sono)
Antidepressivos (como trazodona)
Antipsicóticos (em casos graves)
Reduzem a ansiedade e ajudam a dormir sem causar dependência. Sonolência, tontura, boca seca.
Laxantes Fibras solúveis (como psyllium)
Probióticos
Medicamentos para intestino preguiçoso (como bisacodil, mas com supervisão)
Ajudam o intestino a funcionar naturalmente. Gases, cólicas.
Diuréticos Suplementos de potássio (se houver deficiência)
Medicamentos para pressão arterial (se necessário)
Reequilibram os sais no corpo. Náusea, fraqueza.
Anabolizantes Terapia hormonal (para normalizar os níveis de testosterona)
Antidepressivos (para depressão pós-uso)
Ajudam o corpo a se recuperar dos danos. Alterações de humor, ganho de peso.
Cafeína em excesso Betabloqueadores (para ansiedade e taquicardia)
Melatonina (para insônia)
Reduzem os efeitos da abstinência. Fadiga, pressão baixa.
Analgésicos (paracetamol, ibuprofeno) Protetores gástricos (como omeprazol)
Antidepressivos (para dor crônica)
Protegem o estômago e o fígado. Dor de cabeça, náusea.

Dúvidas comuns sobre medicamentos:

“Os medicamentos vão me deixar viciado de novo?”
Não necessariamente. Os medicamentos usados no tratamento são diferentes das substâncias problemáticas e são prescritos de forma controlada. O objetivo é reduzir a dependência, não criar uma nova.

“Quanto tempo vou precisar tomar remédio?”
Depende do caso. Algumas pessoas tomam por alguns meses, outras por anos. O médico vai ajustando a dose conforme a melhora.

“Posso parar o remédio quando quiser?”
Não. Parar de repente pode causar sintomas de abstinência graves. Sempre converse com o médico antes de fazer qualquer mudança.


2. Psicoterapia

A psicoterapia é fundamental no tratamento, porque ajuda a pessoa a:
Entender por que começou a usar a substância.
Lidar com gatilhos (situações que despertam a vontade de usar).
Desenvolver estratégias para evitar recaídas.
Melhorar a autoestima e os relacionamentos.

Abordagens com mais evidência científica

A. Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)

Como funciona?
A TCC ajuda a pessoa a identificar pensamentos e comportamentos que levam ao uso da substância e substituí-los por alternativas saudáveis.

Exemplo de como funciona na prática:
Pensamento problemático: “Só vou conseguir dormir se tomar o remédio.”
Alternativa saudável: “Posso tentar técnicas de relaxamento antes de dormir. Se não der certo, vou ao médico para ajustar o tratamento.”

Técnicas usadas:
Registro de pensamentos: A pessoa anota quando sente vontade de usar a substância e o que estava pensando naquele momento.
Exposição gradual: Se a pessoa tem medo de ficar sem a substância, o terapeuta a ajuda a reduzir o uso aos poucos.
Treinamento de habilidades: Ensina técnicas de relaxamento, resolução de problemas e comunicação.

Para quem é indicada?
– Pessoas que usam a substância para lidar com emoções (ex.: ansiedade, tristeza).
– Pessoas que têm pensamentos distorcidos sobre o uso (ex.: “Se eu não tomar o remédio, não vou conseguir trabalhar”).


B. Entrevista Motivacional

Como funciona?
É uma abordagem não confrontativa, em que o terapeuta ajuda a pessoa a encontrar suas próprias razões para mudar.

Exemplo de diálogo:
Terapeuta: “O que você acha que ganha e o que perde usando laxantes todos os dias?”
Paciente: “Ganho a sensação de estar magra, mas perco minha saúde.”
Terapeuta: “O que você gostaria de fazer em relação a isso?”

Técnicas usadas:
Perguntas abertas: “Como você se sente quando usa [substância]?”
Escuta reflexiva: O terapeuta repete o que a pessoa disse, ajudando-a a refletir.
Resumo: O terapeuta sintetiza o que a pessoa falou para ajudá-la a ver os prós e contras do uso.

Para quem é indicada?
– Pessoas que não têm certeza se querem parar de usar a substância.
– Pessoas que se sentem pressionadas a mudar e resistem ao tratamento.


C. Terapia de Grupo

Como funciona?
A pessoa participa de encontros com outras pessoas que têm o mesmo problema, facilitados por um terapeuta.

Benefícios:
Reduz o isolamento: A pessoa percebe que não está sozinha.
Troca de experiências: Ela aprende estratégias que funcionaram para outras pessoas.
Apoio mútuo: O grupo incentiva e cobra a mudança.

Exemplo de como funciona:

João participava de um grupo para pessoas com dependência de remédios para dormir. Em uma das sessões, ele ouviu Maria dizer: “Eu consegui dormir sem remédio fazendo meditação”. João tentou e, depois de algumas semanas, também conseguiu reduzir o uso.

Para quem é indicada?
– Pessoas que se sentem sozinhas no processo de recuperação.
– Pessoas que precisam de motivação externa para mudar.


D. Terapia Familiar

Como funciona?
A família participa do tratamento, porque muitas vezes os padrões de relacionamento contribuem para o uso da substância.

Exemplo de como funciona:
Problema: A mãe de Ana criticava muito seu peso, o que a levou a usar laxantes para emagrecer.
Solução: Na terapia familiar, a mãe aprendeu a não fazer comentários sobre o corpo de Ana, e Ana conseguiu reduzir o uso de laxantes.

Técnicas usadas:
Comunicação não violenta: Ensina a família a falar sem culpar.
Resolução de conflitos: Ajuda a família a lidar com brigas de forma saudável.
Psicoeducação: Explica o que é a dependência e como a família pode ajudar.

Para quem é indicada?
– Pessoas cujo uso da substância está relacionado a problemas familiares.
– Famílias que não sabem como ajudar e acabam piorando a situação.


3. Mudanças no dia a dia

O tratamento não se resume a medicamentos e terapiamudanças no estilo de vida são essenciais para a recuperação.

A. Exercício físico

Por que ajuda?
Libera endorfina, um neurotransmissor que dá sensação de bem-estar (como a dopamina, mas de forma natural).
Reduz a ansiedade e a depressão, que muitas vezes levam ao uso de substâncias.
Melhora o sono, reduzindo a necessidade de remédios para dormir.

Quais exercícios são melhores?
Caminhada, corrida ou natação: Liberam endorfina e são fáceis de fazer.
Yoga ou pilates: Ajudam a controlar a ansiedade e melhoram a consciência corporal.
Musculação: Pode ser útil para pessoas que usavam anabolizantes, porque ajuda a manter os músculos de forma saudável.

Dica:
Comece devagar. Se você não está acostumado a se exercitar, comece com 10 minutos por dia e vá aumentando.
Encontre algo que você goste. Se você odeia correr, não force — experimente dança, artes marciais ou esportes em grupo.


B. Sono

Por que é importante?
A falta de sono aumenta a fissura por substâncias (ex.: remédios para dormir, cafeína).
O sono de qualidade ajuda o cérebro a se recuperar dos danos causados pelo uso.

Dicas para melhorar o sono:
Rotina: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias, mesmo nos fins de semana.
Ambiente: Deixe o quarto escuro, silencioso e fresco.
Evite telas: Não use celular, TV ou computador 1 hora antes de dormir.
Relaxamento: Experimente meditação, respiração profunda ou um banho quente antes de dormir.
Evite cafeína à tarde: A cafeína pode ficar no corpo por até 8 horas, então evite café, chá preto e refrigerantes depois das 14h.

Exemplo:

Carlos tomava remédios para dormir há 5 anos. Com ajuda do médico, ele começou a reduzir a dose aos poucos e adotou uma rotina de sono: deitava às 22h, lia um livro (sem telas) e fazia exercícios de respiração. Depois de 3 meses, conseguiu dormir sem remédio.


C. Alimentação

Por que é importante?
Algumas substâncias prejudicam a absorção de nutrientes (ex.: laxantes causam deficiência de vitaminas).
Uma alimentação equilibrada ajuda o corpo a se recuperar dos danos.
Comer bem reduz a fissura por substâncias (ex.: quem usa laxantes para emagrecer pode sentir menos vontade se tiver uma alimentação saudável).

Dicas para uma alimentação saudável:
Coma alimentos ricos em fibras: Frutas, verduras, legumes e grãos integrais ajudam o intestino a funcionar naturalmente (útil para quem usava laxantes).
Beba água: A desidratação pode aumentar a fissura por algumas substâncias (ex.: diuréticos).
Evite alimentos processados: Eles podem aumentar a inflamação no corpo, piorando os efeitos da abstinência.
Coma regularmente: Pular refeições pode aumentar a ansiedade e a vontade de usar substâncias.

Exemplo:

Fernanda usava laxantes para emagrecer e tinha dores de estômago constantes. Com ajuda de uma nutricionista, ela começou a comer mais fibras e probióticos (como iogurte natural). Depois de 2 meses, seu intestino voltou a funcionar sozinho, e ela conseguiu parar com os laxantes.


D. Rotina

Por que é importante?
Uma rotina estruturada reduz a ansiedade, que muitas vezes leva ao uso de substâncias.
Ocupar a mente com atividades saudáveis diminui a fissura.

Dicas para criar uma rotina:
Planeje o dia: Anote suas tarefas e reserve tempo para atividades prazerosas (ex.: ler, ouvir música, passear).
Estabeleça metas pequenas: Em vez de pensar “Vou parar de usar laxantes para sempre”, pense “Hoje, vou tomar só um comprimido”.
Evite gatilhos: Se você usa a substância em determinados horários ou lugares, tente mudar sua rotina (ex.: se você toma remédio para dormir assistindo TV, experimente ler um livro).
Peça ajuda: Conte para alguém de confiança sobre sua rotina e peça para cobrar você.

Exemplo:

Pedro usava um spray nasal para desentupir o nariz sempre que sentia ansiedade. Ele criou uma nova rotina: quando sentia vontade de usar o spray, respirava fundo por 5 minutos e tomava um chá de camomila. Depois de algumas semanas, a ansiedade diminuiu, e ele conseguiu reduzir o uso do spray.


E. Técnicas de manejo de sintomas

Algumas técnicas podem ajudar a lidar com a fissura e os sintomas de abstinência:

Técnica Como fazer? Para que serve?
Respiração profunda Inspire pelo nariz contando até 4, segure por 4 segundos, expire pela boca contando até 6. Repita 5 vezes. Reduz a ansiedade e a fissura.
Meditação Sente-se em um lugar calmo, feche os olhos e foque na respiração por 5-10 minutos. Aumenta a consciência corporal e reduz o estresse.
Distração Quando sentir vontade de usar a substância, faça algo que ocupe sua mente (ex.: ligar para um amigo, desenhar, cozinhar). Ajuda a “enganar” o cérebro até a fissura passar.
Exercício físico Caminhe, dance ou faça alongamentos por 10 minutos. Libera endorfina, que reduz a fissura.
Diário de emoções Anote o que você sentiu antes de ter vontade de usar a substância. Ajuda a identificar gatilhos.

Exemplo:

Mariana tomava um remédio para ansiedade sempre que se sentia estressada no trabalho. Ela aprendeu a técnica de respiração profunda e, quando sentia vontade de tomar o remédio, respirava fundo por 5 minutos. Com o tempo, a ansiedade diminuiu, e ela conseguiu reduzir o uso do remédio.


Convivendo com o diagnóstico

Receber o diagnóstico de um transtorno por uso de substância não psicoativa pode ser assustador, mas não é o fim. Com tratamento e apoio, é possível recuperar o controle da sua vida. Vamos ver como lidar com o diagnóstico em diferentes situações.


Para a pessoa com o diagnóstico

1. Aceite que você tem uma doença (e não uma falha de caráter)

  • Não se culpe. A dependência é uma doença do cérebro, não uma escolha.
  • Não minimize o problema. Dizer “Não é tão grave” ou “Eu consigo parar quando quiser” só atrasa o tratamento.
  • Lembre-se: Você não está sozinho. Milhares de pessoas passam pelo mesmo e conseguem se recuperar.

2. Siga o tratamento à risca

  • Tome os medicamentos como prescrito. Não aumente ou diminua a dose por conta própria.
  • Vá às consultas e terapias. Mesmo que você se sinta melhor, o tratamento precisa ser contínuo.
  • Seja honesto com seu médico. Se você recaiu ou está com dificuldades, conte a verdade. O médico está ali para ajudar, não para julgar.

3. Identifique seus gatilhos

  • O que faz você querer usar a substância? Estresse? Solidão? Tédio?
  • Anote em um diário quando sentir vontade de usar e o que estava acontecendo naquele momento.
  • Evite situações de risco (ex.: se você usa laxantes quando está ansioso, evite ficar sozinho em casa nesses momentos).

4. Construa uma rede de apoio

  • Conte para pessoas de confiança (amigos, família) sobre seu diagnóstico. Eles podem ajudar a cobrar você e oferecer apoio emocional.
  • Participe de grupos de apoio (como Narcóticos Anônimos ou grupos específicos para dependência de medicamentos).
  • Evite pessoas que incentivam o uso. Se seus amigos usam a mesma substância, converse com eles sobre seu tratamento ou afaste-se temporariamente.

5. Tenha paciência

  • A recuperação não é linear. Você pode ter dias bons e dias ruins — isso é normal.
  • Não desista se recair. Uma recaída não é fracasso, é parte do processo. Aprenda com ela e siga em frente.
  • Celebre as pequenas vitórias. Parou de usar por um dia? Conseguiu dormir sem remédio? Isso é motivo para comemorar!

6. Cuide da sua saúde mental

  • Ansiedade e depressão são comuns durante o tratamento. Não ignore esses sintomas — converse com seu médico.
  • Pratique autocompaixão. Seja gentil consigo mesmo, como seria com um amigo que está passando pela mesma situação.
  • Encontre novos hobbies. Ocupar a mente com atividades prazerosas reduz a fissura.

Para familiares e amigos

Se alguém que você ama recebeu esse diagnóstico, seu apoio é fundamental. Mas é importante saber como ajudar da maneira certa.

1. Informe-se sobre a condição

  • Leia sobre o transtorno. Quanto mais você souber, melhor poderá ajudar.
  • Participe de grupos de apoio para familiares (como o Al-Anon, que ajuda familiares de dependentes).
  • Converse com o médico ou terapeuta da pessoa para entender como você pode ajudar.

2. Ofereça apoio, não julgamento

  • Evite frases como:
  • “Isso é falta de força de vontade.”
  • “Você está exagerando.”
  • “É só parar de usar.”
  • Em vez disso, diga:
  • “Estou aqui para te apoiar.”
  • “Como posso te ajudar?”
  • “Você não está sozinho.”

3. Não seja um “fiscal”

  • Não fique vigiando a pessoa o tempo todo (ex.: revistando seus pertences, checando se ela tomou o remédio).
  • Não faça ameaças (ex.: “Se você não parar, vou te deixar”).
  • Não dê ultimatos (ex.: “Ou você para, ou eu não falo mais com você”). Isso só aumenta a culpa e a vergonha.

4. Incentive o tratamento

  • Lembre a pessoa das consultas e terapias.
  • Ofereça-se para acompanhá-la, se ela quiser.
  • Elogie os progressos, por menores que sejam.

5. Cuide de si mesmo

  • Não negligencie sua própria saúde. Cuidar de alguém com dependência pode ser estressante e desgastante.
  • Participe de terapia para lidar com suas emoções.
  • Estabeleça limites. Você não é responsável pela recuperação da pessoa, apenas pode apoiá-la.

6. Saiba quando procurar ajuda profissional

Se a pessoa:
Recusar tratamento.
Apresentar risco para si mesma ou para os outros (ex.: dirigir sob efeito da substância, ter pensamentos suicidas).
Colocar a família em risco financeiro ou emocional.

Nesses casos, procure um profissional de saúde mental ou serviços de emergência.


Quando os sintomas podem piorar?

Algumas situações podem aumentar o risco de recaída ou piorar os sintomas. Fique atento a:

1. Estresse

  • Exemplos: Problemas no trabalho, brigas familiares, dificuldades financeiras.
  • Como lidar:
  • Pratique técnicas de relaxamento (respiração profunda, meditação).
  • Converse com alguém de confiança.
  • Evite tomar decisões importantes quando estiver estressado.

2. Solidão

  • Exemplos: Ficar muito tempo sozinho, se isolar de amigos e familiares.
  • Como lidar:
  • Procure grupos de apoio.
  • Marque encontros com amigos (mesmo que seja virtual).
  • Adote um hobby que envolva outras pessoas (ex.: aulas de dança, voluntariado).

3. Exposição a gatilhos

  • Exemplos:
  • Ver a substância (ex.: passar na frente da farmácia onde comprava o remédio).
  • Estar em lugares onde costumava usar (ex.: academia, se usava anabolizantes).
  • Conviver com pessoas que usam a mesma substância.
  • Como lidar:
  • Evite os gatilhos, pelo menos no começo do tratamento.
  • Crie novas rotas (ex.: se você passava na farmácia todos os dias, mude seu caminho).
  • Converse com as pessoas sobre seu tratamento e peça para não oferecerem a substância.

4. Doenças físicas ou emocionais

  • Exemplos: Gripe, depressão, ansiedade.
  • Como lidar:
  • Não use a substância para “aliviar” os sintomas. Converse com seu médico sobre alternativas seguras.
  • Descanse e se cuide.

5. Eventos traumáticos

  • Exemplos: Perda de um ente querido, término de relacionamento, acidente.
  • Como lidar:
  • Procure apoio psicológico.
  • Não se isole.
  • Permita-se sentir as emoções, mas não as “anestesie” com a substância.

Perguntas frequentes

1. “Eu uso um remédio de venda livre todos os dias. Isso é dependência?”

Depende.
– Se você precisa do remédio para funcionar (ex.: não consegue dormir sem ele, não consegue evacuar sem laxante), pode ser um sinal de dependência.
– Se você usa o remédio ocasionalmente e sem prejuízos, provavelmente não é dependência.
O que fazer? Converse com um médico para avaliar se o uso está sendo problemático.


2. “Posso parar de usar a substância sozinho?”

Em alguns casos, sim. Em outros, não.
Substâncias com abstinência perigosa (ex.: remédios para dormir, ansiolíticos) devem ser reduzidas com supervisão médica.
Substâncias com abstinência menos grave (ex.: cafeína, laxantes) podem ser reduzidas aos poucos em casa.
Risco de recaída: Mesmo que você consiga parar sozinho, o risco de recaída é alto sem apoio profissional.

Dica:
Não pare de repente. Reduza a dose gradualmente para evitar sintomas de abstinência graves.
Procure ajuda se sentir que não consegue parar.


3. “Quanto tempo leva para me recuperar?”

Varia de pessoa para pessoa.
Fase aguda (primeiros meses): Os sintomas de abstinência são mais intensos.
Fase de manutenção (6 meses a 2 anos): A pessoa aprende a lidar com gatilhos e evitar recaídas.
Recuperação a longo prazo (anos): A pessoa reconstrói sua vida sem depender da substância.

Fatores que influenciam:
Tipo de substância: Algumas causam dependência mais rápida (ex.: remédios para dormir) e outras mais lenta (ex.: laxantes).
Tempo de uso: Quanto mais tempo a pessoa usou, mais tempo pode levar para se recuperar.
Apoio recebido: Pessoas com rede de apoio e tratamento adequado se recuperam mais rápido.

Lembre-se:
A recuperação não é linear. Você pode ter altos e baixos — isso é normal.
Não compare sua recuperação com a de outras pessoas. Cada um tem seu próprio ritmo.


4. “Vou precisar tomar remédio para sempre?”

Não necessariamente.
– Alguns medicamentos são usados apenas na fase aguda (ex.: para aliviar sintomas de abstinência).
– Outros podem ser usados por meses ou anos, dependendo do caso.
O objetivo é sempre reduzir a dose aos poucos até que a pessoa consiga viver sem o remédio.

Exemplo:

João tomava um remédio para ansiedade há 10 anos. Com tratamento, ele conseguiu reduzir a dose aos poucos e, depois de 2 anos, parou completamente.


5. “Como explicar para meus amigos/família que tenho esse diagnóstico?”

Seja honesto, mas escolha o momento certo.
Escolha um momento tranquilo, sem distrações.
Explique que é uma doença, não uma escolha.
Diga como eles podem ajudar (ex.: “Preciso que vocês não me ofereçam [substância]”).
Se eles não entenderem, não force. Dê tempo para que processem a informação.

Exemplo de como falar:

“Eu fui diagnosticado com um transtorno por uso de [substância]. Isso significa que meu cérebro se acostumou a depender dela, e agora estou em tratamento para parar. Não é falta de força de vontade — é uma doença. Vocês podem me ajudar não me oferecendo [substância] e me apoiando quando eu estiver com dificuldade.”


6. “Posso usar a substância de vez em quando depois de me recuperar?”

Geralmente, não.
Dependência é como um interruptor: uma vez ligado, é muito difícil desligar.
Usar “só uma vez” pode levar à recaída.
Algumas substâncias (como remédios para dormir) nunca devem ser usadas novamente sem supervisão médica.

Exceções:
Substâncias com baixo potencial de dependência (ex.: cafeína em doses moderadas) podem ser usadas ocasionalmente, mas com cuidado.
Sempre converse com seu médico antes de decidir.


7. “O que fazer se eu recair?”

Não desista.
Uma recaída não é fracasso — é parte do processo de recuperação.
Analise o que levou à recaída (estresse? gatilho? falta de apoio?) e aprenda com isso.
Volte ao tratamento imediatamente. Não espere “melhorar sozinho”.
Peça ajuda. Converse com seu médico, terapeuta ou grupo de apoio.

Exemplo:

Maria estava há 3 meses sem usar laxantes quando teve uma recaída. Em vez de se culpar, ela analisou o que aconteceu: estava estressada com o trabalho e não tinha comido direito. Ela voltou à terapia, ajustou sua rotina e conseguiu retomar o tratamento.


8. “Como lidar com a vergonha e a culpa?”

  • Lembre-se: Você não escolheu ter essa doença. Não é culpa sua.
  • Fale sobre seus sentimentos com alguém de confiança ou em terapia.
  • Pratique autocompaixão. Trate-se como trataria um amigo que está passando pela mesma situação.
  • Foque no presente. Em vez de pensar “Como eu deixei isso acontecer?”, pense “O que posso fazer agora para melhorar?”.

9. “Existe cura para esse transtorno?”

Não existe uma “cura” no sentido tradicional, mas a recuperação é possível.
O cérebro pode se recuperar dos danos causados pelo uso da substância.
A pessoa pode aprender a viver sem depender da substância.
O tratamento ajuda a pessoa a reconstruir sua vida de forma saudável.

Lembre-se:
A dependência é uma doença crônica, como diabetes ou hipertensão. Não tem cura, mas tem controle.
Com tratamento, muitas pessoas conseguem viver sem usar a substância e ter uma vida plena.


10. “Onde posso encontrar ajuda no Brasil?”

No SUS (Sistema Único de Saúde):
UBS (Unidade Básica de Saúde): O primeiro passo. Você pode agendar uma consulta com um clínico geral ou psiquiatra.
CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): Oferece tratamento gratuito para transtornos mentais e dependência química.
CAPS AD (Álcool e Drogas): Especializado em dependência química.
Hospitais psiquiátricos: Em casos graves, pode ser necessária internação.

Instituições e grupos de apoio:
Narcóticos Anônimos (NA): Grupos de apoio para dependentes químicos. Site oficial.
Al-Anon: Grupos de apoio para familiares de dependentes. Site oficial.
CVV (Centro de Valorização da Vida): Apoio emocional por telefone, chat ou e-mail. Ligue 188 (gratuito).
Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP): Site oficial com informações e busca por profissionais.

Particular:
Psiquiatras e psicólogos: Você pode marcar consulta diretamente com um profissional.
Clínicas de reabilitação: Para casos graves, algumas clínicas oferecem tratamento residencial.


Quando procurar ajuda urgente

Alguns sinais indicam que a situação é grave e requer ajuda imediata. Procure um pronto-socorro ou ligue para o SAMU (192) se você ou alguém que você conhece apresentar:

Sinais de alerta físico

  • Convulsões (tremores incontroláveis, perda de consciência).
  • Dor no peito ou falta de ar (pode indicar problemas cardíacos).
  • Desmaios ou confusão mental.
  • Sangramentos (ex.: sangue nas fezes por uso de laxantes, sangue no nariz por uso de spray nasal).
  • Desidratação grave (boca seca, tontura, urina escura).

Sinais de alerta psicológico

  • Pensamentos suicidas (“Não aguento mais”, “Queria desaparecer”).
  • Alucinações ou delírios (ver ou ouvir coisas que não existem).
  • Agressividade extrema (brigas, destruição de objetos).
  • Paranoia (achar que estão te perseguindo, que as pessoas querem te prejudicar).

Sinais de overdose (emergência médica)

  • Respiração lenta ou irregular.
  • Pele fria e pálida.
  • Pupilas muito pequenas ou muito grandes.
  • Perda de consciência.
  • Não responder a estímulos (ex.: não acordar quando chamado).

O que fazer em caso de overdose?
1. Ligue para o SAMU (192) ou leve a pessoa para o pronto-socorro imediatamente.
2. Não deixe a pessoa sozinha.
3. Se ela estiver inconsciente, coloque-a de lado (posição lateral de segurança) para evitar engasgo.
4. Não tente “acordá-la” com café, água fria ou outros métodos caseiros — isso pode piorar a situação.


Referências

  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022. Disponível em: https://icd.who.int/
  • American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
  • Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
  • Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/
  • Fiocruz. Pesquisa Nacional de Saúde (PNS). 2019. Disponível em: https://www.pns.icict.fiocruz.br/
  • Narcóticos Anônimos (NA). Informações sobre dependência química. Disponível em: https://www.na.org.br/
  • Al-Anon. Apoio a familiares de dependentes. Disponível em: https://al-anon.org.br/

Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.

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