O que é?
Imagine que o desenvolvimento de uma criança é como construir uma casa. Os alicerces são formados nos primeiros anos de vida, as paredes vão sendo erguidas na infância e a adolescência é como instalar as portas, janelas e acabamentos. Para a maioria das pessoas, esse processo acontece de forma natural, mesmo com alguns solavancos pelo caminho. Mas, para algumas crianças e adolescentes, algo parece “emperrar” nessa construção. Não é uma questão de preguiça, falta de educação ou “má índole” — é como se algumas peças estivessem faltando, tortas ou não encaixassem direito, fazendo com que o comportamento e as emoções funcionem de um jeito diferente do esperado para a idade.
Os transtornos do grupo F98 (segundo a Classificação Internacional de Doenças, CID-10) são um conjunto de condições que afetam justamente essa “construção”. Eles aparecem cedo — geralmente antes dos 5 anos de idade — e persistem mesmo quando o ambiente muda (por exemplo, se a criança muda de escola ou de família). Não são “fases” passageiras, nem birras comuns. São padrões de comportamento e emoções que fogem do esperado para a idade, causando sofrimento para a criança, a família e, muitas vezes, dificultando a convivência na escola, com os amigos ou em casa.
Como diferenciar de comportamentos normais?
Toda criança faz manha, desobedece às vezes ou tem dificuldade para se concentrar em uma tarefa chata. O que diferencia um transtorno é:
1. Intensidade: O comportamento é muito mais forte do que o esperado para a idade. Por exemplo, uma criança de 3 anos que chora por horas porque o brinquedo caiu no chão pode estar demonstrando algo além de uma birra comum.
2. Duração: Os sintomas duram meses (ou anos), não semanas. Uma criança que fica tímida por algumas semanas após uma mudança de escola pode estar se adaptando; outra que se isola por anos, evita qualquer interação e chora diariamente ao pensar em sair de casa provavelmente está enfrentando algo mais sério.
3. Impacto: O comportamento atrapalha a vida da criança e da família. Se um adolescente mente ocasionalmente para evitar bronca, é um comportamento comum. Se ele mente todos os dias, inventa histórias elaboradas, rouba e manipula as pessoas ao redor, isso pode indicar um transtorno.
4. Contexto: Os sintomas aparecem em várias situações (em casa, na escola, com amigos), não só em um lugar específico. Uma criança que é agressiva só com a mãe pode estar reagindo a um conflito familiar; outra que agride colegas, professores e irmãos provavelmente tem um padrão mais profundo.
Quem é afetado?
Os transtornos do grupo F98 são mais comuns do que se imagina. Estudos brasileiros e internacionais estimam que:
– 1 em cada 5 crianças apresenta algum transtorno comportamental ou emocional antes dos 18 anos.
– Meninos são diagnosticados com mais frequência em transtornos como TDAH (F90) e transtorno de conduta (F91), enquanto meninas tendem a ter mais diagnósticos de ansiedade (F93) e depressão (F32-F34) na adolescência.
– No Brasil, dados do Ministério da Saúde mostram que cerca de 12% das crianças e adolescentes atendidos na rede pública de saúde mental têm algum transtorno do grupo F98.
– A maioria dos casos começa antes dos 10 anos, mas muitos só são identificados na adolescência, quando os sintomas se tornam mais evidentes (e problemáticos).
Um pouco de história
Por muito tempo, comportamentos como agressividade, dificuldade de concentração ou timidez extrema eram vistos como “falta de limites” ou “mau-caratismo”. No século XIX, crianças com esses problemas eram chamadas de “delinquentes” ou “retardadas” e muitas vezes eram internadas em instituições sem tratamento adequado.
Foi só no século XX que a psiquiatria infantil começou a entender que esses comportamentos podiam ter causas biológicas, psicológicas e sociais. Na década de 1980, com a criação do DSM-III (manual diagnóstico americano), os transtornos da infância ganharam categorias próprias. Hoje, sabemos que:
– Não é culpa dos pais (embora o ambiente influencie).
– Não é “frescura” — o cérebro dessas crianças funciona de um jeito diferente.
– Tem tratamento — e quanto antes começar, melhores são os resultados.
Quais são os sintomas?
Os transtornos do grupo F98 incluem várias condições diferentes, cada uma com seus próprios sintomas. Vamos detalhar os principais, explicando como eles aparecem no dia a dia e como diferenciar o que é normal do que pode ser um sinal de alerta.
1. Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH – F90)
(Embora o TDAH tenha seu próprio código, ele faz parte do grupo F90-F98 e é um dos mais comuns.)
Sintomas principais:
a) Desatenção (dificuldade de focar)
– O que é? A criança ou adolescente tem dificuldade para manter a atenção em tarefas que exigem esforço mental, como lição de casa, ler um livro ou seguir instruções.
– Como aparece no dia a dia?
– Você pede para seu filho arrumar o quarto, ele começa, mas em 2 minutos já está brincando com outra coisa.
– Na escola, a professora reclama que ele “vive no mundo da lua”, não termina as atividades e parece não ouvir quando chamado.
– Ele perde coisas o tempo todo: mochila, caderno, chave de casa.
– Normal vs. Sintoma:
– Normal: Uma criança de 5 anos se distrair facilmente é esperado. Um adolescente pode perder o foco em uma aula chata.
– Sintoma: A dificuldade de atenção acontece em todas as áreas da vida (escola, casa, atividades extracurriculares) e atrapalha o desempenho.
b) Hiperatividade (agitação excessiva)
– O que é? A criança parece ter um “motorzinho” ligado o tempo todo, como se estivesse sempre “a mil por hora”.
– Como aparece no dia a dia?
– Ela não consegue ficar sentada por muito tempo: na escola, levanta da carteira várias vezes; em casa, pula no sofá, corre pela sala durante as refeições.
– Fala sem parar, interrompe os outros e tem dificuldade para esperar a vez (por exemplo, em uma fila ou em uma conversa).
– Parece “elétrica”, como se tivesse tomado várias xícaras de café.
– Normal vs. Sintoma:
– Normal: Uma criança de 3 anos correr pela casa é esperado. Um adolescente pode ficar agitado antes de uma prova.
– Sintoma: A agitação é constante, não melhora com o tempo e prejudica a convivência (por exemplo, a criança é expulsa da sala de aula várias vezes por não conseguir ficar parada).
c) Impulsividade (agir sem pensar)
– O que é? A criança age sem considerar as consequências, como se não tivesse um “freio” interno.
– Como aparece no dia a dia?
– Ela responde antes que a pergunta termine, interrompe os outros e tem dificuldade para esperar (por exemplo, abre os presentes de Natal antes da hora).
– Faz coisas perigosas sem pensar: atravessa a rua correndo, pula de lugares altos, mexe em coisas quentes.
– Tem explosões de raiva quando frustrada, batendo portas, gritando ou até agredindo fisicamente.
– Normal vs. Sintoma:
– Normal: Uma criança de 4 anos pode ter uma birra quando não ganha um doce. Um adolescente pode responder mal aos pais em um momento de estresse.
– Sintoma: A impulsividade é frequente, intensa e difícil de controlar, mesmo com broncas ou castigos.
2. Transtorno de Conduta (F91)
(Comportamentos agressivos, desafiadores e que violam regras sociais.)
Sintomas principais:
a) Agressividade com pessoas ou animais
– O que é? A criança ou adolescente machuca outras pessoas ou animais de propósito, sem remorso.
– Como aparece no dia a dia?
– Briga constantemente na escola, empurra, chuta ou morde os colegas.
– Machuca animais de estimação (por exemplo, puxa o rabo do gato até ele miar de dor).
– Ameaça ou intimida os outros, como se gostasse de ver o medo alheio.
– Normal vs. Sintoma:
– Normal: Uma criança de 2 anos pode morder um coleguinha por ciúmes. Um adolescente pode ter uma discussão acalorada com um amigo.
– Sintoma: A agressividade é frequente, intencional e causa sofrimento (por exemplo, a criança é suspensa da escola várias vezes por brigas).
b) Destruição de propriedade
– O que é? Danificar ou destruir coisas de propósito.
– Como aparece no dia a dia?
– Quebra brinquedos, móveis ou objetos da casa sem motivo aparente.
– Risca o carro dos vizinhos, picha paredes ou joga pedras nas janelas.
– Coloca fogo em coisas (como papel, lixo ou até objetos da casa).
– Normal vs. Sintoma:
– Normal: Uma criança pequena pode derrubar um copo sem querer. Um adolescente pode quebrar algo em um momento de raiva.
– Sintoma: A destruição é deliberada, repetida e sem arrependimento.
c) Roubo ou mentiras frequentes
– O que é? Pegar coisas que não são suas ou mentir para obter vantagens.
– Como aparece no dia a dia?
– Rouba dinheiro da carteira dos pais, objetos da escola ou de lojas.
– Mente para conseguir o que quer (por exemplo, diz que fez a lição para ganhar um brinquedo).
– Inventa histórias elaboradas para manipular os outros (por exemplo, diz que foi agredido na escola para ganhar atenção).
– Normal vs. Sintoma:
– Normal: Uma criança pode pegar um doce sem pedir. Um adolescente pode mentir para evitar uma bronca.
– Sintoma: O roubo e as mentiras são frequentes, planejados e sem culpa.
d) Violação grave de regras
– O que é? Desrespeitar regras importantes de forma repetida.
– Como aparece no dia a dia?
– Foge de casa ou da escola sem avisar.
– Cabula aulas constantemente.
– Fica fora de casa até tarde sem permissão, mesmo sabendo que os pais vão se preocupar.
– Normal vs. Sintoma:
– Normal: Um adolescente pode chegar 30 minutos atrasado em casa uma vez ou outra.
– Sintoma: A violação de regras é constante, perigosa e sem preocupação com as consequências.
3. Transtorno Desafiador Opositivo (F91.3)
(Comportamento hostil, desobediente e provocativo, mas sem agressão física grave.)
Sintomas principais:
a) Birras e desobediência frequentes
– O que é? A criança ou adolescente desafia constantemente as figuras de autoridade (pais, professores, chefes).
– Como aparece no dia a dia?
– Recusa-se a fazer o que é pedido, mesmo em situações simples (por exemplo, escovar os dentes ou arrumar a cama).
– Tem explosões de raiva quando contrariada, gritando, chorando ou batendo os pés.
– Discute por qualquer coisa, como se estivesse sempre “procurando briga”.
– Normal vs. Sintoma:
– Normal: Uma criança de 3 anos pode fazer birra quando não ganha um brinquedo. Um adolescente pode reclamar de ter que arrumar o quarto.
– Sintoma: As birras são frequentes, intensas e difíceis de acalmar, mesmo com estratégias como diálogo ou castigo.
b) Culpar os outros pelos próprios erros
– O que é? Nunca assumir a responsabilidade por nada, sempre colocando a culpa nos outros.
– Como aparece no dia a dia?
– Quando quebra algo, diz: “Foi o meu irmão que fez!”.
– Se tira uma nota baixa, culpa o professor: “Ele me odeia!”.
– Se chega atrasado, inventa desculpas: “O ônibus quebrou” (quando na verdade dormiu demais).
– Normal vs. Sintoma:
– Normal: Uma criança pode tentar se livrar de uma bronca mentindo uma vez ou outra.
– Sintoma: A culpa é sempre dos outros, mesmo em situações óbvias.
c) Irritabilidade e raiva constantes
– O que é? Estar sempre de “mau humor”, como se qualquer coisa fosse motivo para ficar bravo.
– Como aparece no dia a dia?
– Responde com grosseria para qualquer pergunta simples.
– Parece estar sempre “à flor da pele”, explodindo por motivos bobos.
– Tem dificuldade para aceitar críticas, mesmo construtivas.
– Normal vs. Sintoma:
– Normal: Um adolescente pode ficar irritado em um dia ruim.
– Sintoma: A irritabilidade é quase diária, intensa e difícil de controlar.
4. Transtorno de Ansiedade de Separação (F93.0)
(Medo excessivo de se separar das figuras de apego, como pais ou cuidadores.)
Sintomas principais:
a) Medo intenso de ficar longe dos pais
– O que é? A criança ou adolescente sente um pânico desproporcional quando precisa se separar das pessoas com quem tem apego.
– Como aparece no dia a dia?
– Chora, grita ou se agarra aos pais na hora de ir para a escola, mesmo depois de meses frequentando a mesma turma.
– Recusa-se a dormir sozinha, mesmo já tendo idade para isso.
– Tem pesadelos frequentes com a ideia de perder os pais (por exemplo, sonha que eles morrem em um acidente).
– Normal vs. Sintoma:
– Normal: Uma criança de 2 anos pode chorar na primeira semana de creche.
– Sintoma: O medo persiste por meses ou anos, mesmo em situações seguras, e atrapalha a rotina (por exemplo, a criança não consegue ir a festas de aniversário ou passeios escolares).
b) Preocupação excessiva com a segurança dos pais
– O que é? A criança fica obcecada com a ideia de que algo ruim pode acontecer com os pais quando ela não está por perto.
– Como aparece no dia a dia?
– Liga para os pais várias vezes durante o dia para “checar” se estão bem.
– Pergunta repetidamente: “Você vai voltar para me buscar?” ou “E se você morrer?”.
– Recusa-se a ficar com outros cuidadores (avós, babás) porque “só os pais podem cuidar dela”.
– Normal vs. Sintoma:
– Normal: Uma criança pode ficar preocupada se os pais demoram para voltar do trabalho.
– Sintoma: A preocupação é constante, irracional e causa sofrimento intenso.
c) Sintomas físicos na hora da separação
– O que é? A ansiedade se manifesta no corpo, como se fosse uma “crise”.
– Como aparece no dia a dia?
– Dor de barriga, náusea ou vômito antes de ir para a escola.
– Dor de cabeça ou tontura quando os pais saem de casa.
– Taquicardia (coração acelerado) e sudorese (suor excessivo) na hora de se despedir.
– Normal vs. Sintoma:
– Normal: Uma criança pode ficar nervosa antes de uma apresentação na escola.
– Sintoma: Os sintomas físicos são frequentes, intensos e melhoram quando a criança está com os pais.
5. Transtorno de Apego Reativo (F94.1 e F94.2)
(Dificuldade de formar vínculos saudáveis devido a negligência ou abuso na primeira infância.)
Sintomas principais:
a) Dificuldade de se apegar a cuidadores
– O que é? A criança não desenvolve um vínculo seguro com os pais ou cuidadores, mesmo quando eles são carinhosos.
– Como aparece no dia a dia?
– Não busca conforto quando está machucada ou assustada.
– Não faz contato visual, não sorri ou não responde quando é abraçada.
– Parece “desligada” emocionalmente, como se não se importasse com a presença ou ausência dos pais.
– Normal vs. Sintoma:
– Normal: Um bebê pode estranhar pessoas novas e chorar quando é pego no colo por um desconhecido.
– Sintoma: A criança não se apega a ninguém, nem mesmo aos pais, e não demonstra afeto mesmo depois de meses de convivência.
b) Comportamento social indiscriminado
– O que é? A criança é excessivamente amigável com estranhos, como se não tivesse noção de perigo.
– Como aparece no dia a dia?
– Vai no colo de qualquer pessoa, mesmo que não a conheça.
– Não demonstra medo de estranhos, mesmo em situações de risco (por exemplo, aceita doces de um desconhecido na rua).
– Parece “grudenta” com adultos, mas não desenvolve amizades verdadeiras com outras crianças.
– Normal vs. Sintoma:
– Normal: Uma criança pequena pode ser sociável e sorrir para estranhos.
– Sintoma: O comportamento é excessivo, persistente e coloca a criança em risco.
6. Outros transtornos do grupo F98
Além dos citados acima, o grupo F98 inclui condições como:
– Transtorno de tiques (F95): Movimentos ou sons repetitivos e involuntários (como piscar os olhos excessivamente ou emitir grunhidos).
– Transtorno de eliminação (F98.0 e F98.1): Enurese (fazer xixi na cama) ou encoprese (fazer cocô na roupa) após a idade em que a criança já deveria ter controle.
– Transtorno de ansiedade social (F93.2): Medo extremo de situações sociais, como falar em público ou interagir com outras crianças.
– Mutismo seletivo (F94.0): A criança fala normalmente em casa, mas se recusa a falar em outros ambientes (como na escola).
Importante: Ter alguns sintomas não significa ter o transtorno
É normal que crianças e adolescentes apresentem alguns desses comportamentos em determinados momentos. O que define um transtorno é:
1. A intensidade (o sintoma é muito mais forte do que o esperado para a idade).
2. A duração (os sintomas duram meses ou anos, não semanas).
3. O impacto (atrapalha a vida da criança, da família e da escola).
4. O contexto (os sintomas aparecem em várias situações, não só em um lugar específico).
Se você está em dúvida, o melhor é procurar um profissional de saúde mental (psiquiatra infantil, psicólogo ou neuropediatra) para uma avaliação. Quanto antes o diagnóstico for feito, mais cedo a criança pode receber o suporte de que precisa.
Como se manifesta no dia a dia?
Os transtornos do grupo F98 não afetam só a criança ou o adolescente — eles têm um impacto em toda a família, na escola e nas relações sociais. Vamos ver como esses sintomas aparecem em diferentes áreas da vida.
Na escola
A escola é um dos lugares onde os sintomas ficam mais evidentes, porque exige concentração, disciplina e interação social.
TDAH (F90)
- Dificuldade para acompanhar as aulas: A criança parece “desligada”, não termina as atividades e esquece o que foi ensinado minutos depois.
- Problemas com professores: É repreendida constantemente por não ficar quieta, interromper a aula ou não seguir instruções.
- Dificuldade para fazer amigos: Por ser impulsiva, pode falar sem pensar e magoar os colegas sem querer, ou ser vista como “chata” por não esperar a vez em brincadeiras.
- Baixo desempenho: Mesmo sendo inteligente, tira notas baixas porque não consegue se organizar para estudar ou entregar trabalhos.
Exemplo real:
João, 8 anos, é um menino criativo e cheio de energia. Na escola, ele começa a fazer a lição de matemática, mas em 5 minutos já está desenhando no caderno. Quando a professora chama sua atenção, ele promete se concentrar, mas logo se distrai novamente. No recreio, ele corre sem olhar para os lados e acaba derrubando um colega, que chora. João não entende por que os outros ficam bravos com ele — afinal, foi “sem querer”. No fim do bimestre, suas notas são baixas, mesmo ele sabendo as respostas quando a professora pergunta individualmente.
Transtorno de Conduta (F91)
- Brigas constantes: A criança é suspensa ou expulsa várias vezes por agressão física ou verbal.
- Desrespeito às regras: Cabula aulas, cola nas provas, mente para os professores.
- Problemas com autoridades: Desafia diretores, coordenadores e até policiais (em casos mais graves).
- Rejeição pelos colegas: É vista como “valentona” ou “problemática”, e acaba se juntando a grupos de adolescentes com comportamentos de risco.
Exemplo real:
Maria, 14 anos, já foi suspensa 5 vezes este ano por brigar na escola. Ela xinga os professores quando é contrariada e já quebrou a porta da sala da diretoria depois de uma bronca. Na aula de educação física, ela empurrou uma colega que a chamou de “gorda”, e a menina caiu e quebrou o braço. Maria não demonstrou remorso e disse que “ela mereceu”. Os pais já foram chamados várias vezes, mas Maria jura que “os outros é que começam”.
Transtorno Desafiador Opositivo (F91.3)
- Discussões frequentes: A criança questiona tudo o que o professor diz, como se estivesse sempre “procurando briga”.
- Recusa em fazer atividades: Diz que “não vai fazer” a lição, mesmo sabendo que terá consequências.
- Atitudes provocativas: Faz caretas, ri quando o professor chama sua atenção ou responde com sarcasmo.
- Isolamento: Pode ser rejeitada pelos colegas por ser “difícil” ou “chata”.
Exemplo real:
Pedro, 10 anos, é conhecido na escola como “o menino que responde para todo mundo”. Quando a professora pede para ele abrir o caderno, ele diz: “Por que eu tenho que fazer isso? Você não manda em mim!”. Se um colega o empurra sem querer, Pedro revida com um soco, mesmo sabendo que será suspenso. Ele não tem muitos amigos porque “ninguém aguenta” seu jeito explosivo.
Transtorno de Ansiedade de Separação (F93.0)
- Faltas frequentes: A criança inventa desculpas para não ir à escola (dor de barriga, febre).
- Choro ou crises na porta da escola: Recusa-se a entrar, se agarra aos pais e chora desesperadamente.
- Dificuldade para participar de atividades: Não vai a passeios, festas ou apresentações por medo de se separar dos pais.
- Baixo desempenho: Mesmo sendo inteligente, não consegue se concentrar porque está sempre preocupada com a segurança dos pais.
Exemplo real:
Ana, 7 anos, chora todas as manhãs na hora de ir para a escola. Ela diz que tem dor de barriga e pede para ficar em casa. Quando os pais insistem, ela começa a gritar e se joga no chão. Na escola, ela fica quieta em um canto, não participa das atividades e liga para a mãe várias vezes durante o dia. A professora já tentou de tudo: conversar, dar atenção especial, até chamar os pais para ficar na sala, mas nada adianta. Ana diz que só vai parar de chorar quando “a mamãe prometer que não vai morrer”.
Nos relacionamentos
Os transtornos do grupo F98 afetam profundamente as relações com a família, amigos e parceiros.
Com a família
- Estresse constante: Os pais se sentem exaustos, frustrados e culpados, como se estivessem “falhando” na criação dos filhos.
- Conflitos frequentes: Brigas por causa de desobediência, mentiras ou agressividade.
- Isolamento social: A família evita receber visitas ou sair de casa por vergonha do comportamento da criança.
- Desequilíbrio entre irmãos: Os irmãos podem se sentir negligenciados porque os pais dedicam mais tempo e energia à criança com o transtorno.
Exemplo real:
A família de Lucas, 9 anos (com TDAH), está esgotada. Os pais brigam constantemente porque a mãe acha que o pai é “muito mole” com o filho, e o pai acha que a mãe é “muito rígida”. O irmão mais novo, de 6 anos, já pediu para “ter outro irmão” porque Lucas quebra seus brinquedos e o chama de “chato” quando ele tenta brincar. Os pais evitam convidar amigos para casa porque Lucas interrompe as conversas, faz bagunça e às vezes xinga os adultos.
Com amigos
- Dificuldade para fazer amizades: A criança pode ser rejeitada por ser agressiva, impulsiva ou “estranha”.
- Amizades tóxicas: Em casos de transtorno de conduta, a criança pode se juntar a grupos que incentivam comportamentos de risco (como uso de drogas ou pequenos furtos).
- Isolamento: Em casos de ansiedade ou apego reativo, a criança pode evitar interações sociais por medo ou desinteresse.
Exemplo real:
Sofia, 12 anos (com transtorno de conduta), não tem amigos na escola. Ela é conhecida como “a valentona” e já ameaçou várias colegas. No recreio, ela fica sozinha ou se junta a um grupo de meninos mais velhos que fumam e faltam às aulas. Quando uma colega tentou se aproximar, Sofia a empurrou e disse: “Não preciso de amigos, só de gente que me obedeça”.
Com parceiros (na adolescência)
- Relacionamentos instáveis: Adolescentes com transtorno de conduta ou borderline (que pode se desenvolver a partir de transtornos da infância) podem ter relacionamentos intensos e turbulentos.
- Ciúme excessivo: Em casos de ansiedade, o adolescente pode ficar obcecado com a ideia de ser traído ou abandonado.
- Dificuldade para manter compromissos: Por impulsividade ou desinteresse, pode terminar relacionamentos de repente ou trair sem pensar nas consequências.
Exemplo real:
Gabriel, 16 anos (com transtorno desafiador opositivo), namora há 3 meses. Ele liga para a namorada de 10 em 10 minutos para “checar” onde ela está. Se ela demora para responder uma mensagem, ele manda dezenas de mensagens agressivas: “Você tá com outro? Eu vou te matar!”. Quando ela tenta terminar o namoro, Gabriel ameaça se matar e diz que “ninguém mais vai querer ela”.
Na rotina
Os sintomas também afetam atividades básicas do dia a dia, como sono, alimentação e autocuidado.
Sono
- Dificuldade para dormir: Crianças com TDAH ou ansiedade podem ter insônia ou acordar várias vezes durante a noite.
- Pesadelos: Em casos de ansiedade de separação, a criança pode ter sonhos frequentes com a morte dos pais.
- Sono agitado: Crianças com TDAH podem se mexer muito durante o sono, chutar ou falar dormindo.
Exemplo real:
Mateus, 6 anos (com TDAH), demora horas para dormir. Ele pula na cama, pede água, vai ao banheiro várias vezes e diz que “não está com sono”. Quando finalmente dorme, acorda várias vezes durante a noite. De manhã, está sempre cansado e irritado.
Alimentação
- Seletividade extrema: Algumas crianças com transtornos do desenvolvimento (como autismo, que pode estar associado a F98) comem apenas alguns alimentos.
- Comer em excesso ou de menos: Ansiedade e depressão (que podem se desenvolver a partir de transtornos da infância) podem levar a compulsão alimentar ou perda de apetite.
- Recusa em comer: Em casos de ansiedade, a criança pode se recusar a comer na escola ou em lugares desconhecidos.
Exemplo real:
Júlia, 8 anos (com transtorno de ansiedade), só come arroz, frango e batata frita. Se os pais tentam introduzir um alimento novo, ela chora e diz que “vai vomitar”. Na escola, ela não almoça porque “a comida é diferente”. Os pais já a levaram a nutricionistas, mas ela se recusa a experimentar qualquer coisa nova.
Autocuidado
- Dificuldade para se organizar: Crianças com TDAH podem esquecer de escovar os dentes, tomar banho ou trocar de roupa.
- Resistência a cuidados básicos: Em casos de transtorno desafiador opositivo, a criança pode se recusar a tomar banho ou cortar as unhas por “birra”.
- Negligência com a saúde: Adolescentes com transtorno de conduta podem ignorar ferimentos ou doenças por “não se importarem”.
Exemplo real:
Rafael, 10 anos (com TDAH), vive com a mochila cheia de papéis amassados, o caderno sujo e a roupa manchada. Ele esquece de escovar os dentes e só toma banho quando os pais insistem. Na escola, os colegas o chamam de “fedido”, o que o deixa ainda mais isolado.
Na saúde física
Os transtornos mentais da infância não afetam só a mente — eles também têm impacto no corpo.
Dores frequentes
- Dor de cabeça: Comum em crianças com ansiedade ou estresse escolar.
- Dor de barriga: Pode ser um sintoma de ansiedade (especialmente na hora de ir para a escola).
- Dores musculares: Crianças com TDAH podem ter dores por tensão ou por se mexerem demais.
Problemas gastrointestinais
- Diarreia ou prisão de ventre: O estresse pode afetar o funcionamento do intestino.
- Náusea ou vômito: Em casos de ansiedade, a criança pode vomitar antes de ir para a escola.
Sistema imunológico enfraquecido
- Doenças frequentes: O estresse crônico pode baixar a imunidade, fazendo com que a criança fique doente com mais facilidade.
Lesões por acidentes
- Crianças com TDAH ou transtorno de conduta têm mais chances de sofrer acidentes (quedas, cortes, queimaduras) por serem impulsivas ou imprudentes.
Exemplo real:
Laura, 9 anos (com transtorno de ansiedade de separação), vai ao médico toda semana com queixas de dor de barriga. Os exames nunca mostram nada, mas ela continua tendo crises, especialmente nas segundas-feiras (dia de voltar para a escola). Os pais já gastaram muito dinheiro com médicos, mas ninguém consegue explicar o que está acontecendo.
O que causa essa condição?
Quando uma criança ou adolescente recebe um diagnóstico do grupo F98, é comum que os pais se perguntem: “O que fizemos de errado?” ou “Por que isso aconteceu com meu filho?”. A verdade é que não existe uma única causa — esses transtornos são resultado de uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Vamos entender cada um deles.
1. Fatores genéticos: “Vem de família?”
Imagine que o cérebro é como um computador. Os genes são o “hardware” — a estrutura básica que define como ele vai funcionar. Se os pais ou avós tiveram transtornos mentais, é mais provável que a criança também desenvolva algum problema, porque ela herdou um “hardware” mais vulnerável.
- Estudos com gêmeos mostram que, se um gêmeo idêntico tem TDAH, o outro tem 70-80% de chance de também ter. Em gêmeos não idênticos, essa chance cai para 30-40%.
- Transtorno de conduta também tem forte componente genético: filhos de pais com histórico de criminalidade ou comportamento antissocial têm 4 vezes mais chances de desenvolver o transtorno.
- Ansiedade e depressão na infância também podem ser herdadas: filhos de pais ansiosos têm 2 a 7 vezes mais chances de desenvolver transtornos de ansiedade.
Mas atenção: Ter predisposição genética não significa que o transtorno vai se desenvolver. É como ter uma tendência a engordar — se você comer mal e não se exercitar, provavelmente vai ganhar peso. Mas se cuidar da alimentação e praticar atividade física, pode evitar o problema.
2. Fatores neurobiológicos: “O que acontece no cérebro?”
O cérebro de uma criança com transtorno do grupo F98 funciona de um jeito diferente. Vamos entender como:
TDAH (F90): O cérebro “ligado no 220V”
- Dopamina e noradrenalina: São neurotransmissores (mensageiros químicos do cérebro) responsáveis pela atenção, motivação e controle de impulsos. No TDAH, esses neurotransmissores não funcionam direito, como se o cérebro tivesse um “curto-circuito”.
- Áreas afetadas:
- Córtex pré-frontal: É como o “gerente” do cérebro, responsável por planejamento, organização e controle de impulsos. No TDAH, essa área é menos ativa.
- Gânglios da base: Controlam os movimentos. No TDAH, podem estar hiperativos, causando agitação.
- Exemplo prático: Imagine que o cérebro é um carro. No TDAH, o acelerador (impulsividade) está sempre pisado, e o freio (controle) não funciona direito.
Transtorno de Conduta (F91): O cérebro “sem freio moral”
- Amígdala: É a parte do cérebro responsável pelo medo e pela empatia. Em crianças com transtorno de conduta, a amígdala não reage como deveria a situações de perigo ou sofrimento alheio.
- Córtex pré-frontal: Também é afetado, dificultando o controle de impulsos e a tomada de decisões.
- Exemplo prático: Se você vê alguém chorando, sua amígdala “sente” a dor da pessoa e faz você querer ajudar. No transtorno de conduta, essa resposta não acontece — a criança não sente remorso por machucar os outros.
Ansiedade (F93): O cérebro “em alerta máximo”
- Amígdala hiperativa: Na ansiedade, a amígdala fica superestimulada, como se o cérebro estivesse sempre esperando um perigo.
- Eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA): É o sistema que controla a resposta ao estresse. Na ansiedade, ele não desliga, mantendo o corpo em estado de alerta constante.
- Exemplo prático: Imagine que seu cérebro é um alarme de incêndio. Na ansiedade, o alarme dispara mesmo quando não há fogo — e não dá para desligá-lo.
3. Fatores ambientais: “O que aconteceu na vida da criança?”
O ambiente em que a criança cresce pode desencadear ou piorar os transtornos do grupo F98. Alguns fatores de risco incluem:
Gestação e parto
- Tabagismo, álcool ou drogas na gravidez: Aumentam o risco de TDAH e transtorno de conduta.
- Prematuridade ou baixo peso ao nascer: Bebês prematuros têm mais chances de desenvolver TDAH.
- Complicações no parto: Falta de oxigênio no cérebro (hipóxia) pode afetar o desenvolvimento neurológico.
Primeiros anos de vida
- Negligência ou abuso: Crianças que sofrem maus-tratos têm 3 vezes mais chances de desenvolver transtorno de conduta ou apego reativo.
- Ambiente caótico: Famílias com brigas constantes, violência ou falta de rotina aumentam o risco de transtornos comportamentais.
- Estilo parental: Pais muito permissivos ou muito autoritários podem piorar sintomas de TDAH ou transtorno desafiador opositivo.
Escola e sociedade
- Bullying: Crianças que sofrem bullying têm mais chances de desenvolver ansiedade, depressão ou transtorno de conduta.
- Pressão acadêmica: Escolas muito rígidas ou competitivas podem desencadear ansiedade em crianças predispostas.
- Exposição à violência: Crianças que crescem em comunidades violentas têm mais chances de desenvolver transtorno de conduta.
4. Modelo biopsicossocial: “É tudo junto e misturado”
Os transtornos do grupo F98 não têm uma causa única — eles são resultado da interação entre:
1. Biologia (genes, cérebro, hormônios).
2. Psicologia (personalidade, experiências de vida, traumas).
3. Social (família, escola, cultura, sociedade).
Exemplo prático:
João tem predisposição genética para TDAH (o pai também tem). Durante a gravidez, a mãe fumou e teve estresse extremo. João nasceu prematuro e, nos primeiros anos de vida, os pais brigavam muito em casa. Na escola, ele sofreu bullying por ser “agitado”. Todos esses fatores juntos fizeram com que o TDAH se manifestasse de forma intensa.
Mitos e verdades sobre as causas
Vamos desmistificar algumas ideias erradas que as pessoas têm sobre esses transtornos.
❌ Mito 1: “É falta de limites dos pais.”
✅ Verdade: Embora a educação influencie o comportamento, transtornos como TDAH e transtorno de conduta têm base biológica. Pais que tentam “educar melhor” não conseguem “curar” o transtorno — mas podem ajudar a criança a lidar com os sintomas.
❌ Mito 2: “É só fase, vai passar.”
✅ Verdade: Alguns comportamentos são normais em determinadas idades, mas transtornos como TDAH e ansiedade não desaparecem sozinhos. Sem tratamento, eles podem piorar e levar a problemas na vida adulta (como depressão, abuso de substâncias ou dificuldade para manter empregos).
❌ Mito 3: “É culpa da tecnologia (celular, videogame).”
✅ Verdade: A tecnologia não causa TDAH ou transtorno de conduta, mas pode piorar sintomas em crianças predispostas. Por exemplo, uma criança com TDAH pode ter ainda mais dificuldade para se concentrar se passar horas em redes sociais.
❌ Mito 4: “Crianças com transtorno de conduta são más e não têm jeito.”
✅ Verdade: Crianças com transtorno de conduta não são más — elas têm dificuldade para sentir empatia e controlar impulsos. Com tratamento (terapia e, em alguns casos, medicação), elas podem aprender a lidar melhor com suas emoções.
❌ Mito 5: “Só acontece em famílias pobres ou desestruturadas.”
✅ Verdade: Transtornos como TDAH e ansiedade acontecem em todas as classes sociais. O que muda é o acesso ao tratamento: famílias com mais recursos conseguem buscar ajuda mais cedo, enquanto famílias pobres enfrentam barreiras (como falta de profissionais no SUS).
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico psiquiátrico pode ser assustador para os pais. Muitas dúvidas surgem: “Será que meu filho vai ficar rotulado?”, “Como vou saber se é isso mesmo?”, “E se for só uma fase?”. Vamos explicar passo a passo como funciona o processo de diagnóstico, quem pode fazê-lo e o que esperar.
1. Quando suspeitar que algo não está certo?
O primeiro passo é observar se os comportamentos da criança fogem do esperado para a idade e atrapalham sua vida. Alguns sinais de alerta:
| Idade | Comportamentos que podem indicar um transtorno |
|---|---|
| 0-3 anos | Não faz contato visual, não sorri, não responde ao nome, não se apega aos pais, agressividade extrema. |
| 3-6 anos | Não consegue ficar quieta, não obedece a regras simples, birras intensas e frequentes, não brinca com outras crianças. |
| 6-12 anos | Dificuldade para aprender, brigas constantes na escola, mentiras frequentes, roubos, fugas de casa, isolamento social. |
| Adolescência | Comportamento desafiador, uso de drogas, automutilação, ideação suicida, dificuldade para manter amizades ou empregos. |
Dica: Se você notar que vários desses comportamentos estão presentes por mais de 6 meses e atrapalham a vida da criança, é hora de procurar ajuda.
2. Quem pode fazer o diagnóstico?
O diagnóstico de transtornos do grupo F98 não é feito por um único profissional — é uma avaliação multidisciplinar, que pode envolver:
| Profissional | O que faz? | Onde encontrar? |
|---|---|---|
| Psiquiatra infantil | Avalia sintomas, descarta outras condições médicas e prescreve medicação (se necessário). | SUS (CAPS Infantil, ambulatórios de saúde mental), clínicas particulares. |
| Psicólogo | Aplica testes psicológicos, faz entrevistas e oferece terapia. | SUS (CAPS, UBS), clínicas-escola de universidades, consultórios particulares. |
| Neuropediatra | Avalia se há problemas neurológicos (como epilepsia) que podem causar sintomas semelhantes. | Hospitais públicos, clínicas particulares. |
| Fonoaudiólogo | Avalia dificuldades de linguagem que podem estar relacionadas a transtornos como TDAH. | SUS (UBS, centros de reabilitação), clínicas particulares. |
| Terapeuta ocupacional | Ajuda em casos de dificuldade motora ou de organização (comum no TDAH). | SUS (CAPS, centros de reabilitação), clínicas particulares. |
| Professor/pedagogo | Observa o comportamento da criança na escola e relata dificuldades de aprendizagem. | Escola pública ou particular. |
Importante: No Brasil, qualquer médico (pediatra, clínico geral) pode suspeitar de um transtorno e encaminhar para um especialista. Mas o diagnóstico definitivo deve ser feito por um psiquiatra infantil ou psicólogo com experiência em saúde mental infantil.
3. Como é feita a avaliação?
O diagnóstico não é feito em uma única consulta. É um processo que pode levar semanas ou meses e envolve várias etapas:
1. Entrevista com os pais (anamnese)
- O profissional pergunta sobre:
- Histórico familiar: Se há casos de transtornos mentais na família.
- Gestação e parto: Se houve complicações, uso de álcool/drogas, prematuridade.
- Desenvolvimento infantil: Quando a criança começou a falar, andar, controlar esfíncteres.
- Comportamentos atuais: Quais são os sintomas, há quanto tempo eles existem, em que situações aparecem.
- Rotina da criança: Sono, alimentação, escola, relacionamentos.
- Dica: Leve um diário de comportamentos (anote por 2 semanas quando os sintomas aparecem, o que os desencadeia e como a criança reage).
2. Entrevista com a criança
- O profissional conversa com a criança para entender como ela se sente e como vê seus próprios comportamentos.
- Em crianças pequenas, pode usar brincadeiras ou desenhos para avaliar emoções.
- Em adolescentes, a conversa é mais direta, mas sempre respeitando a privacidade.
3. Observação do comportamento
- O profissional pode pedir para gravar vídeos da criança em situações do dia a dia (em casa, na escola).
- Em alguns casos, faz observação direta (por exemplo, em uma sessão de terapia).
4. Testes e escalas
- Escalas de avaliação: Questionários preenchidos pelos pais, professores e, em alguns casos, pela própria criança. Exemplos:
- Escala SNAP-IV (para TDAH).
- Inventário de Comportamentos da Infância e Adolescência (CBCL).
- Testes psicológicos: Avaliam inteligência, atenção, memória e habilidades sociais.
- Exames complementares: Em alguns casos, o médico pode pedir exames de sangue, eletroencefalograma (EEG) ou ressonância magnética para descartar outras condições (como epilepsia ou tumores cerebrais).
5. Diagnóstico diferencial
Muitos sintomas dos transtornos do grupo F98 podem ser confundidos com outras condições. Por isso, o profissional precisa descartar:
| Condição | Como diferenciar? |
|---|---|
| Depressão | No TDAH, a criança é agitada; na depressão, ela fica apática e triste. |
| Transtorno do Espectro Autista (TEA) | No TEA, há dificuldade de comunicação e comportamentos repetitivos; no TDAH, a dificuldade é de atenção e impulsividade. |
| Transtorno bipolar | No bipolar, há episódios de euforia e depressão; no TDAH, os sintomas são constantes. |
| Ansiedade | Na ansiedade, a criança evita situações por medo; no TDAH, ela age por impulsividade. |
| Problemas de visão/audição | Uma criança que não enxerga ou não ouve bem pode parecer desatenta. |
| Epilepsia | Algumas crises epilépticas podem ser confundidas com “desligamentos” do TDAH. |
| Traumas (abuso, bullying) | Comportamentos agressivos podem ser uma reação a situações de violência. |
4. Quanto tempo leva para ter um diagnóstico?
- Primeira consulta: 1-2 horas (entrevista inicial).
- Avaliação completa: 2-6 meses (depende da complexidade do caso).
- Encaminhamentos: Se necessário, o profissional pode pedir avaliações com outros especialistas (neuropediatra, fonoaudiólogo).
Dica: Não tenha pressa. Um bom diagnóstico leva tempo, mas é fundamental para que o tratamento seja eficaz.
5. Diagnóstico no SUS vs. particular
No Brasil, é possível fazer o diagnóstico pelo SUS ou na rede particular. Vamos comparar:
| Aspecto | SUS | Particular |
|---|---|---|
| Tempo de espera | Pode demorar meses (depende da fila do CAPS ou ambulatório). | Consulta em dias ou semanas. |
| Profissionais | Psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais (em CAPS Infantil). | Psiquiatras e psicólogos especializados em infância. |
| Exames | Exames básicos são cobertos, mas alguns testes psicológicos podem ter fila. | Todos os exames e testes são feitos rapidamente. |
| Custo | Gratuito. | R$ 300-R$ 1.000 por consulta (depende do profissional). |
| Vantagens | Acesso universal, tratamento multidisciplinar. | Agilidade, profissionais mais especializados. |
| Desvantagens | Filas, poucos profissionais em algumas regiões. | Custo elevado, nem todos têm plano de saúde. |
Dica para quem usa o SUS:
– Procure o CAPS Infantil (Centro de Atenção Psicossocial Infantil) da sua cidade.
– Se não houver CAPS, vá até a UBS (Unidade Básica de Saúde) e peça encaminhamento para um psiquiatra infantil.
– Em casos de emergência (risco de suicídio, agressividade extrema), procure um pronto-socorro psiquiátrico.
6. O que esperar da primeira consulta?
A primeira consulta pode ser um pouco assustadora, mas é importante lembrar que o profissional está ali para ajudar. Veja o que geralmente acontece:
- Chegada: Você será recebido por um profissional (psiquiatra, psicólogo ou assistente social).
- Conversa inicial: O profissional vai perguntar sobre os motivos que levaram você a buscar ajuda.
- Histórico da criança: Serão feitas perguntas sobre gestação, parto, desenvolvimento, escola, família.
- Comportamentos atuais: Você vai descrever os sintomas (quando começaram, com que frequência acontecem, o que os piora).
- Expectativas: O profissional vai perguntar o que você espera do tratamento.
- Encaminhamentos: Se necessário, serão pedidos exames, testes ou avaliações com outros profissionais.
- Dúvidas: Você poderá fazer perguntas sobre o diagnóstico, tratamento e prognóstico.
Dica: Leve todos os documentos que tiver:
– Cartão do SUS (se for atendimento público).
– Relatórios escolares (se a escola já observou algum problema).
– Exames anteriores (se a criança já fez algum).
– Lista de medicamentos que a criança toma.
7. E se o diagnóstico for confirmado?
Receber um diagnóstico pode ser um alívio (porque finalmente há uma explicação para os comportamentos) ou um choque (porque ninguém quer ouvir que seu filho tem um transtorno). Algumas dicas para lidar com essa fase:
✅ Não se culpe: Lembre-se de que não é culpa sua — esses transtornos têm causas biológicas e ambientais.
✅ Busque informações confiáveis: Converse com o profissional, leia livros e sites sérios (como os da Associação Brasileira de Psiquiatria ou Ministério da Saúde).
✅ Converse com a escola: Avise os professores sobre o diagnóstico e peça adaptações (se necessário).
✅ Procure apoio: Grupos de pais (como o Grupo TDAH Brasil) podem ajudar a lidar com a situação.
✅ Cuide de você: Cuidar de uma criança com transtorno mental é desgastante. Não deixe de lado sua saúde física e emocional.
Tratamento
Receber um diagnóstico é só o primeiro passo. O tratamento é o que vai ajudar a criança ou adolescente a lidar com os sintomas, melhorar sua qualidade de vida e desenvolver seu potencial. Vamos entender as principais abordagens.
1. Medicamentos
Os remédios não curam os transtornos do grupo F98, mas ajudam a controlar os sintomas, permitindo que a criança tenha uma vida mais funcional. Vamos ver os principais:
TDAH (F90)
Metilfenidato (Ritalina, Concerta)
– Como funciona? Aumenta a dopamina e noradrenalina no cérebro, melhorando a atenção e o controle de impulsos.
– Efeitos colaterais comuns: Dor de cabeça, insônia, perda de apetite, irritabilidade.
– Duração do efeito: 4-12 horas (depende da formulação).
– Mito vs. Verdade:
– ❌ “A Ritalina vicia.”
– ✅ Verdade: Quando usada corretamente (com acompanhamento médico), não causa dependência. O risco de vício existe quando o remédio é usado sem prescrição (por exemplo, por estudantes que querem melhorar o desempenho em provas).
Lisdexanfetamina (Venvanse)
– Como funciona? Similar ao metilfenidato, mas com efeito mais prolongado.
– Efeitos colaterais: Boca seca, insônia, ansiedade.
– Duração do efeito: Até 14 horas.
Atomoxetina (Strattera)
– Como funciona? Aumenta a noradrenalina, melhorando a atenção e reduzindo a impulsividade.
– Vantagem: Não é um estimulante (pode ser usado em crianças com ansiedade ou histórico de abuso de substâncias).
– Efeitos colaterais: Dor de estômago, sonolência, tontura.
Guanfacina (Intuniv)
– Como funciona? Ajuda a regular a impulsividade e a hiperatividade.
– Vantagem: Pode ser usado em crianças que não respondem bem aos estimulantes.
– Efeitos colaterais: Sonolência, pressão baixa.
Transtorno de Conduta (F91) e Transtorno Desafiador Opositivo (F91.3)
Risperidona (Risperdal)
– Como funciona? É um antipsicótico que ajuda a controlar a agressividade e a impulsividade.
– Efeitos colaterais: Ganho de peso, sonolência, tremores.
– Uso: Geralmente em baixas doses e por curto período.
Ácido Valproico (Depakote)
– Como funciona? Estabilizador de humor que pode ajudar em casos de agressividade extrema.
– Efeitos colaterais: Ganho de peso, tremores, problemas no fígado (requer monitoramento).
Lítio
– Como funciona? Usado em casos graves de agressividade ou comportamento impulsivo.
– Efeitos colaterais: Sede excessiva, tremores, problemas renais (requer exames frequentes).
Transtorno de Ansiedade (F93)
Fluoxetina (Prozac), Sertralina (Zoloft)
– Como funcionam? Antidepressivos que aumentam a serotonina, reduzindo a ansiedade.
– Efeitos colaterais: Náusea, dor de cabeça, insônia.
– Duração para fazer efeito: 4-6 semanas.
Clonazepam (Rivotril)
– Como funciona? Benzodiazepínico que reduz a ansiedade rapidamente.
– Risco: Pode causar dependência se usado por muito tempo.
– Uso: Apenas em crises agudas e por curto período.
2. Psicoterapia
Os remédios ajudam a controlar os sintomas, mas a psicoterapia é fundamental para que a criança aprenda a lidar com suas emoções, melhore seus relacionamentos e desenvolva habilidades sociais. Vamos ver as principais abordagens:
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
- O que é? Uma terapia prática e focada no presente, que ajuda a criança a identificar pensamentos disfuncionais e mudar comportamentos.
- Como funciona?
- Identificação de pensamentos: A criança aprende a reconhecer pensamentos como “Ninguém gosta de mim” ou “Vou ser reprovado de qualquer jeito”.
- Desafio de crenças: O terapeuta ajuda a criança a questionar esses pensamentos (“Será que é verdade que ninguém gosta de mim? Quem são as pessoas que gostam de você?”).
- Treinamento de habilidades: A criança aprende técnicas para lidar com a ansiedade, a raiva ou a impulsividade (por exemplo, respiração profunda, contagem até 10 antes de agir).
- Para quem é indicada?
- TDAH (para melhorar organização e controle de impulsos).
- Transtorno de ansiedade.
- Transtorno desafiador opositivo (para aprender a lidar com a raiva).
- Duração: 12-24 sessões (1 vez por semana).
Exemplo prático:
Lucas, 10 anos (com TDAH), sempre esquece a lição de casa. Na TCC, ele aprende a:
1. Identificar o problema: “Eu sempre esqueço a lição.”
2. Pensar em soluções: “Posso anotar no caderno ou pedir para a professora me lembrar.”
3. Testar a solução: Ele começa a usar um planner e, depois de 2 semanas, percebe que esquece menos.
4. Reforçar o comportamento: O terapeuta elogia o progresso e sugere novas estratégias.
Terapia Comportamental
- O que é? Focada em modificar comportamentos por meio de reforço positivo (recompensas) e consequências (castigos leves).
- Como funciona?
- Sistema de pontos: A criança ganha pontos por comportamentos desejados (por exemplo, fazer a lição, escovar os dentes) e troca por recompensas (um brinquedo, um passeio).
- Tempo fora (time-out): Em casos de birras ou agressividade, a criança é colocada em um lugar calmo por alguns minutos para se acalmar.
- Modelagem: O terapeuta ensina novos comportamentos por meio de exemplos (por exemplo, como pedir desculpas depois de uma briga).
- Para quem é indicada?
- Transtorno desafiador opositivo.
- Transtorno de conduta.
- TDAH (para melhorar obediência e organização).
- Duração: 6-12 meses (com sessões semanais).
Exemplo prático:
Maria, 7 anos (com transtorno desafiador opositivo), se recusa a arrumar o quarto. Na terapia comportamental:
1. Definição de metas: Arrumar o quarto em 15 minutos.
2. Sistema de pontos: Se ela arrumar o quarto, ganha 1 ponto. Com 5 pontos, pode escolher um filme para assistir com os pais.
3. Reforço imediato: Os pais elogiam quando ela arruma o quarto.
4. Consequência: Se ela se recusar, perde o direito de brincar com o tablet naquele dia.
Terapia Familiar
- O que é? A terapia não é só para a criança — toda a família participa, porque os transtornos do grupo F98 afetam (e são afetados por) a dinâmica familiar.
- Como funciona?
- Comunicação: Os pais aprendem a ouvir a criança sem julgamentos e a expressar suas expectativas de forma clara.
- Resolução de conflitos: Técnicas para lidar com brigas e desentendimentos.
- Consistência: Os pais aprendem a manter as mesmas regras (por exemplo, não ceder a birras).
- Autocuidado: Os pais são orientados a cuidar de sua própria saúde mental, porque criar uma criança com transtorno é desgastante.
- Para quem é indicada?
- Todos os transtornos do grupo F98, especialmente quando há conflitos familiares.
- Duração: 6-12 meses (sessões quinzenais ou mensais).
Exemplo prático:
A família de Pedro, 9 anos (com TDAH), está esgotada. Na terapia familiar:
1. Identificação de padrões: Os pais percebem que brigam muito na frente de Pedro, o que aumenta sua ansiedade.
2. Mudança de comportamento: Eles combinam de discutir assuntos sérios quando Pedro não estiver por perto.
3. Reforço positivo: Passam a elogiar Pedro quando ele faz algo certo, em vez de só chamar a atenção quando ele erra.
4. Tempo de qualidade: Reservam 30 minutos por dia para brincar com Pedro sem cobranças.
Terapia de Grupo
- O que é? A criança ou adolescente participa de sessões com outras crianças que têm o mesmo transtorno, orientadas por um terapeuta.
- Como funciona?
- Compartilhamento de experiências: A criança percebe que não está sozinha e que outras pessoas passam pelas mesmas dificuldades.
- Treinamento de habilidades sociais: Jogos e atividades que ensinam a esperar a vez, ouvir os outros, lidar com críticas.
- Feedback dos colegas: As outras crianças dão retorno honesto sobre como o comportamento da criança afeta os outros.
- Para quem é indicada?
- TDAH (para melhorar interações sociais).
- Transtorno de ansiedade social.
- Transtorno desafiador opositivo (para aprender a lidar com a raiva).
- Duração: 8-12 sessões (1 vez por semana).
Exemplo prático:
João, 12 anos (com TDAH), participa de um grupo de terapia. Em uma atividade, ele precisa trabalhar em equipe para construir uma torre de blocos. No começo, ele quer fazer tudo sozinho e fica frustrado quando os colegas não concordam. O terapeuta intervém:
– “João, o que você acha que seus colegas estão sentindo quando você não deixa eles ajudarem?”
– “Como vocês podem trabalhar juntos para construir a torre?”
João aprende a ouvir os outros e a dividir tarefas, e os colegas aprendem a ser mais pacientes com ele.
3. Mudanças no dia a dia
Além de remédios e terapia, pequenas mudanças na rotina podem fazer uma grande diferença no controle dos sintomas.
Exercício físico
- Por que ajuda? O exercício aumenta a dopamina e a noradrenalina (os mesmos neurotransmissores que os remédios para TDAH estimulam), melhorando a atenção e reduzindo a hiperatividade.
- Quais atividades são melhores?
- Esportes coletivos (futebol, basquete, vôlei): Melhoram a interação social e o trabalho em equipe.
- Artes marciais (judô, karatê): Ensinam disciplina e controle de impulsos.
- Natação ou corrida: Ajudam a “gastar energia” e reduzem a agitação.
- Dica: 30 minutos por dia de atividade física já fazem diferença.
Exemplo prático:
Lucas, 8 anos (com TDAH), não conseguia ficar quieto na escola. Seus pais o matricularam em aulas de judô 3 vezes por semana. Depois de 2 meses, a professora notou que ele conseguia se concentrar melhor nas aulas e brigava menos com os colegas.
Sono
- Por que é importante? Uma noite mal dormida piora a atenção, a impulsividade e a irritabilidade.
- Dicas para melhorar o sono:
- Rotina fixa: Dormir e acordar no mesmo horário todos os dias (mesmo nos fins de semana).
- Ambiente escuro e silencioso: Evitar luzes fortes (como telas de celular) 1 hora antes de dormir.
- Rotina relaxante: Banho morno, leitura de um livro ou música calma antes de dormir.
- Evitar cafeína: Refrigerantes, chocolate e café à tarde podem atrapalhar o sono.
- Dica: Se a criança tiver insônia, converse com o médico sobre possíveis causas (ansiedade, efeito colateral de remédios).
Exemplo prático:
Ana, 10 anos (com transtorno de ansiedade), demorava 2 horas para dormir. Seus pais criaram uma rotina noturna:
– 19h30: Jantar.
– 20h: Banho morno.
– 20h30: Leitura de um livro (sem telas).
– 21h: Luzes apagadas.
Depois de 1 mês, Ana dormia em 30 minutos e acordava mais disposta.
Alimentação
- O que a ciência diz?
- Açúcar não causa TDAH, mas uma dieta rica em açúcar e gordura pode piorar a hiperatividade.
- Ômega-3 (presente em peixes, nozes e linhaça) pode melhorar a atenção.
- Aditivos alimentares (corantes, conservantes) podem aumentar a agitação em algumas crianças.
- Dicas:
- Café da manhã reforçado: Proteína (ovos, iogurte) e carboidratos complexos (pão integral) ajudam a manter a atenção.
- Lanches saudáveis: Frutas, castanhas e barras de cereais evitam picos de açúcar.
- Hidratação: Desidratação piora a concentração.
Exemplo prático:
Pedro, 9 anos (com TDAH), almoçava lanche e refrigerante na escola. Sua mãe começou a preparar marmita saudável:
– Arroz integral + feijão + frango grelhado + legumes.
– Sobremesa: Fruta.
Depois de 2 semanas, a professora notou que Pedro ficava menos agitado depois do almoço.
Rotina estruturada
- Por que ajuda? Crianças com transtornos do grupo F98 funcionam melhor com previsibilidade. Uma rotina clara reduz a ansiedade e melhora o comportamento.
- Como fazer?
- Horários fixos: Para acordar, comer, estudar, brincar e dormir.
- Checklists: Listas visuais com as tarefas do dia (por exemplo, escovar os dentes, fazer a lição, arrumar a mochila).
- Tempo de tela controlado: Limitar o uso de celular, tablet e TV (especialmente antes de dormir).
- Tempo de qualidade: Reservar 20-30 minutos por dia para brincar ou conversar sem distrações (celular desligado, TV desligada).
- Dica: Use cores e imagens para tornar a rotina mais atraente para crianças pequenas.
Exemplo prático:
A família de Sofia, 6 anos (com TDAH), criou um quadro de rotina com imagens:
– 7h: Acordar (desenho de um sol).
– 7h30: Café da manhã (desenho de um prato).
– 8h: Escovar os dentes (desenho de uma escova).
– 8h30: Escola (desenho de uma mochila).
Sofia ganhava um adesivo cada vez que cumpria uma tarefa. Com 5 adesivos, podia escolher uma atividade especial (ir ao parque, assistir a um filme).
Técnicas de manejo de sintomas
Algumas estratégias práticas para lidar com os sintomas no dia a dia:
| Sintoma | Técnica | Como fazer? |
|---|---|---|
| Impulsividade (TDAH) | Regra dos 10 segundos | Antes de agir, contar até 10 e perguntar: “O que pode acontecer se eu fizer isso?” |
| Agressividade (Transtorno de Conduta) | Tempo fora (time-out) | Quando a criança estiver muito irritada, levá-la para um lugar calmo por 5 minutos. |
| Ansiedade (Transtorno de Ansiedade) | Respiração 4-7-8 | Inspirar por 4 segundos, segurar por 7, expirar por 8. Repetir 3 vezes. |
| Desorganização (TDAH) | Método dos 3 passos | 1. Pegar o material. 2. Fazer a tarefa. 3. Guardar tudo. |
| Birras (Transtorno Desafiador Opositivo) | Ignorar comportamentos leves | Não dar atenção a birras por coisas pequenas (como não querer comer um legume). |
Convivendo com o diagnóstico
Receber um diagnóstico de transtorno mental na infância ou adolescência não é o fim do mundo — mas é o começo de uma nova jornada. Vamos falar sobre como a pessoa com o diagnóstico, os familiares e os amigos podem lidar com essa realidade.
Para a pessoa com o diagnóstico
1. Entenda que você não é “doente” — você é diferente
- Ter um transtorno do grupo F98 não significa que você é “louco” ou “incapaz”. Significa apenas que seu cérebro funciona de um jeito diferente.
- Exemplo: Uma criança com TDAH pode ter dificuldade para ficar quieta, mas também pode ser criativa, cheia de energia e ótima em atividades práticas.
- Dica: Foque nos seus pontos fortes. Se você é impulsivo, pode ser ótimo em esportes ou em trabalhos que exigem rapidez. Se é ansioso, pode ser muito empático e cuidadoso.
2. Não tenha vergonha de pedir ajuda
- Medicação não é “fraqueza”: Se o médico receitou um remédio, é porque ele pode melhorar sua qualidade de vida. Não é “droga”, é tratamento.
- Terapia não é “coisa de maluco”: Todo mundo precisa de ajuda às vezes. A terapia é como um personal trainer para a mente — ajuda você a se conhecer melhor e a lidar com suas dificuldades.
- Dica: Se você se sentir envergonhado, lembre-se: muitas pessoas famosas têm TDAH, ansiedade ou outros transtornos (como Simone Biles, Will Smith e Emma Watson).
3. Aprenda a lidar com os sintomas
- TDAH: Use agendas, alarmes e lembretes para não esquecer tarefas. Divida grandes projetos em pequenos passos.
- Transtorno de Conduta: Antes de agir por impulso, pergunte-se: “Isso vai me trazer problemas?”. Se a resposta for sim, pare e pense em outra solução.
- Ansiedade: Quando sentir medo, pergunte-se: “O que de pior pode acontecer? Isso é real ou é minha cabeça exagerando?”.
- Dica: Anote seus gatilhos (o que faz os sintomas piorarem) e estratégias que funcionam (o que te acalma).
4. Cuide da sua saúde física
- Exercício: Ajuda a reduzir a ansiedade, a hiperatividade e a depressão.
- Sono: Dormir bem melhora a concentração e o humor.
- Alimentação: Comer bem dá energia para o cérebro funcionar melhor.
- Dica: Crie uma rotina de autocuidado (por exemplo, 30 minutos de exercício + 8 horas de sono + 3 refeições saudáveis por dia).
5. Encontre seu grupo
- Amigos que te entendem: Procure pessoas que não te julguem e que tenham interesses parecidos com os seus.
- Grupos de apoio: Existem grupos para jovens com TDAH, ansiedade e outros transtornos. Conhecer outras pessoas que passam pelo mesmo pode ser muito reconfortante.
- Dica: Se você se sentir sozinho, lembre-se: você não está sozinho. Milhões de pessoas no mundo têm os mesmos desafios que você.
Para familiares e amigos
1. Como ajudar de forma efetiva (e o que NÃO fazer)
✅ O que fazer:
– Informe-se: Leia sobre o transtorno, assista a vídeos, converse com profissionais. Quanto mais você souber, melhor poderá ajudar.
– Seja paciente: Lembre-se de que não é birra, não é falta de educação — é um transtorno. A criança não faz de propósito.
– Elogie os progressos: Mesmo que sejam pequenos. “Parabéns por ter feito a lição sem reclamar!” faz toda a diferença.
– Mantenha a rotina: Crianças com transtornos do grupo F98 funcionam melhor com previsibilidade.
– Dê opções: Em vez de dizer “Faça a lição agora!”, pergunte “Você prefere fazer a lição antes ou depois do lanche?”. Isso dá uma sensação de controle.
– Ensine habilidades sociais: Ajude a criança a esperar a vez, ouvir os outros e lidar com críticas.
❌ O que NÃO fazer:
– Não compare: “Seu irmão nunca deu trabalho!” ou “Na minha época, criança obedecia!” só fazem a criança se sentir pior.
– Não rotule: Evite frases como “Você é preguiçoso” ou “Você é mal-educado”. Em vez disso, diga “Eu sei que é difícil, mas vamos tentar de novo”.
– Não ceda a birras: Se a criança gritar ou chorar para conseguir algo, não dê o que ela quer. Isso reforça o comportamento.
– Não ignore os sintomas: Se a criança estiver com dificuldades, procure ajuda profissional. Não espere “passar sozinho”.
– Não se isole: Converse com outros pais, participe de grupos de apoio. Você não precisa lidar com isso sozinho.
2. Como cuidar de si mesmo enquanto cuida do outro
Cuidar de uma criança com transtorno mental é exaustivo. Muitos pais se sentem culpados, frustrados e sobrecarregados. Por isso, é fundamental cuidar de si mesmo para poder cuidar do seu filho.
- Peça ajuda: Não tente fazer tudo sozinho. Peça para familiares, amigos ou profissionais ajudarem com tarefas do dia a dia.
- Tire um tempo para você: Mesmo que sejam 10 minutos por dia, faça algo que te dê prazer (ler, tomar um café, meditar).
- Converse com outros pais: Grupos de apoio (como o Grupo TDAH Brasil) podem ser um porto seguro.
- Aceite que você não é perfeito: Você vai errar, vai perder a paciência, vai se sentir culpado. Isso é normal. O importante é tentar de novo no dia seguinte.
- Procure terapia: Um psicólogo pode te ajudar a lidar com o estresse, a culpa e a frustração.
Dica: Lembre-se da regra do avião: “Coloque a máscara de oxigênio em você primeiro, antes de ajudar os outros”. Se você não estiver bem, não conseguirá ajudar seu filho.
3. Como explicar para outras pessoas
Muitas pessoas não entendem os transtornos do grupo F98 e podem fazer comentários maldosos ou julgamentos. Veja como lidar:
- Para familiares e amigos próximos:
- “Meu filho tem TDAH. Isso significa que ele tem dificuldade para se concentrar e controlar impulsos. Não é falta de educação, é um transtorno. Com tratamento, ele pode melhorar.”
-
“Ele não é ‘mal-educado’, ele tem um transtorno de conduta. Isso significa que ele tem dificuldade para seguir regras e controlar a agressividade. Estamos buscando ajuda.”
-
Para a escola:
- “Meu filho tem transtorno de ansiedade. Ele pode precisar de adaptações, como sair da sala por alguns minutos quando estiver muito ansioso. Podemos conversar sobre como ajudá-lo?”
-
“Ele tem TDAH e pode ter dificuldade para ficar quieto. Vocês têm alguma estratégia para ajudá-lo a se concentrar?”
-
Para a criança (quando ela perguntar):
- “Seu cérebro funciona de um jeito diferente. Isso faz com que algumas coisas sejam mais difíceis para você, mas também faz com que você seja especial em outras coisas.”
- “Não é culpa sua. É como se você tivesse um ‘motorzinho’ mais rápido que o dos outros. Vamos aprender juntos a controlar esse motorzinho.”
Dica: Se alguém fizer um comentário maldoso, não se sinta obrigado a explicar. Você pode simplesmente dizer: “Obrigado pela preocupação, mas estamos cuidando disso”.
Quando os sintomas podem piorar?
Algumas situações podem desencadear ou piorar os sintomas dos transtornos do grupo F98. Fique atento a:
| Situação | Como pode afetar? | O que fazer? |
|---|---|---|
| Mudanças na rotina (mudança de escola, viagem, divórcio dos pais) | Aumentam a ansiedade e a desorganização. | Mantenha uma rotina o mais estável possível. Avise a criança com antecedência sobre mudanças. |
| Estresse escolar (provas, trabalhos, bullying) | Piora a ansiedade, a desatenção e a agressividade. | Converse com a escola sobre adaptações (mais tempo para provas, intervalos para se acalmar). |
| Conflitos familiares (brigas entre os pais, violência doméstica) | Aumentam a agressividade e a ansiedade. | Busque terapia familiar para melhorar a comunicação. |
| Falta de sono | Piora a atenção, a impulsividade e o humor. | Estabeleça uma rotina de sono e evite telas antes de dormir. |
| Alimentação inadequada (muito açúcar, fast food) | Aumenta a hiperatividade e a irritabilidade. | Ofereça refeições balanceadas e evite alimentos industrializados. |
| Uso de drogas ou álcool (na adolescência) | Piora todos os sintomas e aumenta o risco de dependência. | Converse abertamente sobre os riscos e busque ajuda se necessário. |
Dica: Se você notar que os sintomas estão piorando muito, converse com o médico ou terapeuta da criança. Pode ser necessário ajustar a medicação ou mudar a abordagem terapêutica.
Perguntas frequentes
1. “Meu filho foi diagnosticado com TDAH. Ele vai ter que tomar remédio para sempre?”
Não necessariamente. O uso de medicação depende da gravidade dos sintomas e de como a criança responde ao tratamento. Algumas possibilidades:
– Crianças com sintomas leves: Podem não precisar de remédio, apenas de terapia e mudanças na rotina.
– Crianças com sintomas moderados a graves: Geralmente precisam de medicação por alguns anos, até que os sintomas melhorem.
– Adolescentes e adultos: Alguns continuam precisando de remédio, outros conseguem controlar os sintomas com terapia e estratégias comportamentais.
O que fazer?
– Converse com o médico: Pergunte sobre alternativas (como terapia antes de iniciar a medicação).
– Acompanhe os efeitos: Se a criança estiver respondendo bem à terapia, pode ser possível reduzir a dose ou suspender o remédio no futuro.
– Não tenha medo da medicação: Quando usada corretamente, ela melhora a qualidade de vida e não vicia.
2. “Meu filho tem transtorno de conduta. Ele vai ser um criminoso quando crescer?”
Não. A maioria das crianças com transtorno de conduta não se torna criminosa na vida adulta. O que determina o futuro da criança são:
– Tratamento precoce: Quanto antes começar, melhores são os resultados.
– Ambiente familiar: Famílias estruturadas, afetivas e com limites claros reduzem o risco de comportamentos antissociais.
– Escola e comunidade: Escolas que oferecem apoio psicológico e comunidades menos violentas ajudam a criança a desenvolver comportamentos mais saudáveis.
O que fazer?
– Busque ajuda profissional: Terapia comportamental e familiar pode fazer uma grande diferença.
– Estabeleça limites claros: A criança precisa saber o que é permitido e o que não é.
– Reforce comportamentos positivos: Elogie quando ela fizer algo certo, mesmo que seja pequeno.
– Evite violência: Bater ou gritar piora o comportamento agressivo.
Estatística importante:
– 70% das crianças com transtorno de conduta não desenvolvem transtorno de personalidade antissocial na vida adulta.
– 30% podem ter problemas legais se não receberem tratamento.
3. “Minha filha tem ansiedade de separação. Ela vai ser assim para sempre?”
A ansiedade de separação geralmente melhora com o tempo, especialmente com tratamento. Algumas crianças superam completamente, outras aprendem a lidar melhor com a ansiedade.
O que influencia o prognóstico?
– Idade do diagnóstico: Quanto mais cedo começar o tratamento, melhores são os resultados.
– Gravidade dos sintomas: Crianças com ansiedade leve a moderada respondem melhor ao tratamento.
– Ambiente familiar: Famílias que encorajam a independência (sem forçar) ajudam a criança a superar o medo.
O que fazer?
– Terapia cognitivo-comportamental (TCC): Ajuda a criança a enfrentar seus medos de forma gradual.
– Exposição gradual: Comece com separações curtas (por exemplo, deixar a criança com um familiar por 10 minutos) e vá aumentando o tempo.
– Rotina previsível: Crianças com ansiedade funcionam melhor com rotina. Avise com antecedência sobre mudanças.
– Evite reforçar o medo: Não diga “Fica tranquila, eu não vou sair” (porque um dia você vai ter que sair). Em vez disso, diga “Eu vou voltar logo, e você vai ficar bem”.
Exemplo prático:
Ana, 5 anos, chorava toda vez que a mãe saía para trabalhar. A terapeuta sugeriu:
1. Primeira semana: A mãe saía por 5 minutos e voltava.
2. Segunda semana: A mãe saía por 10 minutos.
3. Terceira semana: A mãe saía por 30 minutos.
Depois de 2 meses, Ana parou de chorar na hora da separação.
4. “Meu filho tem TDAH e não consegue se concentrar na escola. O que a escola pode fazer?”
A escola tem um papel fundamental no desenvolvimento de crianças com TDAH. Algumas adaptações que podem ajudar:
| Adaptação | Como funciona? | Exemplo |
|---|---|---|
| Assento na frente da sala | Reduz distrações e facilita o foco. | A criança senta perto do professor, longe da janela. |
| Instruções curtas e claras | Crianças com TDAH têm dificuldade para seguir instruções longas. | Em vez de “Peguem o caderno, abram na página 20, leiam o texto e respondam as questões”, diga “Peguem o caderno. Abram na página 20. Leiam o primeiro parágrafo.” |
| Intervalos para movimento | Permitir que a criança se levante e se movimente ajuda a reduzir a agitação. | A cada 20 minutos, a criança pode levantar para beber água ou alongar. |
| Uso de recursos visuais | Imagens, cores e esquemas ajudam a manter a atenção. | O professor usa quadro colorido e mapas mentais para explicar o conteúdo. |
| Tempo extra para provas | Crianças com TDAH podem precisar de mais tempo para terminar as atividades. | A criança tem 30 minutos a mais para fazer a prova. |
| Divisão de tarefas grandes | Projetos longos podem ser divididos em etapas menores. | Em vez de “Faça um trabalho sobre o Brasil”, o professor divide em “Pesquise a capital”, “Desenhe a bandeira”, “Apresente para a turma”. |
O que fazer?
– Converse com a escola: Agende uma reunião com o professor e o coordenador pedagógico para explicar o diagnóstico e sugerir adaptações.
– Peça um plano de ensino individualizado (PEI): Algumas escolas oferecem um plano personalizado para crianças com necessidades especiais.
– Acompanhe o desempenho: Pergunte ao professor como está o comportamento e o aprendizado da criança.
– Elogie os progressos: Quando a criança se sair bem na escola, reconheça o esforço.
Dica: Se a escola não colaborar, você pode buscar apoio jurídico. A Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015) garante o direito de crianças com transtornos mentais a adaptações razoáveis na escola.
5. “Meu filho foi diagnosticado com transtorno desafiador opositivo. Como lidar com as birras?”
As birras são um dos sintomas mais desafiadores do transtorno desafiador opositivo. Veja como lidar:
Durante a birra:
✅ Mantenha a calma: Se você gritar ou perder a paciência, a birra vai piorar.
✅ Não ceda: Se a criança conseguir o que quer com a birra, ela vai repetir o comportamento.
✅ Ignore comportamentos leves: Se a birra for por algo pequeno (como não querer comer um legume), não dê atenção.
✅ Use o “tempo fora” (time-out): Se a criança estiver muito agressiva, leve-a para um lugar calmo por 1 minuto por ano de idade (por exemplo, 5 minutos para uma criança de 5 anos).
Depois da birra:
✅ Converse quando ela estiver calma: “Eu sei que você ficou bravo porque não queria guardar o brinquedo. Da próxima vez, vamos tentar de outro jeito.”
✅ Elogie quando ela se acalmar: “Fico feliz que você tenha se acalmado. Vamos brincar agora?”
✅ Ensine alternativas: “Quando você ficar bravo, pode respirar fundo ou contar até 10, em vez de gritar.”
Para prevenir birras:
✅ Dê opções: Em vez de “Guarde o brinquedo agora!”, pergunte “Você prefere guardar o brinquedo antes ou depois do banho?”.
✅ Antecipe situações difíceis: Se a criança costuma fazer birra no supermercado, avise antes o que vai acontecer e combine uma recompensa (por exemplo, “Se você se comportar, vamos tomar um sorvete depois”).
✅ Reforce comportamentos positivos: Elogie quando a criança obedecer sem birra.
Exemplo prático:
Pedro, 6 anos, faz birra toda vez que precisa desligar o tablet. Seus pais:
1. Avisam com antecedência: “Daqui a 5 minutos, vamos desligar o tablet.”
2. Dão uma opção: “Você prefere desligar agora ou depois de escovar os dentes?”
3. Ignoram a birra: Se Pedro gritar, os pais não dão atenção e não desligam o tablet.
4. Elogiam quando ele obedece: “Parabéns por ter desligado o tablet sem birra! Vamos ler uma história?”
6. “Meu filho tem transtorno de apego reativo. Como ajudá-lo a se apegar a nós?”
O transtorno de apego reativo não é culpa dos pais, mas é possível reconstruir o vínculo com paciência e consistência.
O que fazer?
✅ Seja previsível: Crianças com apego reativo funcionam melhor com rotina. Tente fazer as coisas no mesmo horário todos os dias (comer, dormir, brincar).
✅ Ofereça contato físico: Abraços, carinhos e brincadeiras físicas (como cócegas) ajudam a criança a se sentir segura.
✅ Responda às necessidades da criança: Se ela chorar, conforte-a. Se ela pedir ajuda, esteja presente.
✅ Evite punições severas: Crianças com apego reativo já sofreram muito. Em vez de castigos, use consequências lógicas (por exemplo, se ela quebrar um brinquedo, terá que ajudar a consertar).
✅ Seja paciente: Pode levar meses ou anos para a criança desenvolver confiança. Não desista.
O que NÃO fazer?
❌ Forçar o contato físico: Se a criança não quiser abraço, respeite. Ofereça outras formas de carinho (como segurar a mão).
❌ Fazer promessas que não pode cumprir: Se você disser “Vou voltar logo”, volte logo. Crianças com apego reativo não confiam em promessas vazias.
❌ Comparar com outras crianças: “Olha como seu irmão é carinhoso!” só faz a criança se sentir pior.
Exemplo prático:
Lucas, 4 anos, foi adotado há 6 meses e tem transtorno de apego reativo. Seus pais:
1. Criam uma rotina: Café da manhã, brincadeira, almoço, soneca, jantar, banho, história, cama.
2. Oferecem contato físico: Toda noite, antes de dormir, fazem 10 minutos de carinho (massagem nas costas, abraço).
3. Respondem às necessidades: Quando Lucas chora, vão até ele e dizem “Estou aqui, você está seguro”.
4. São pacientes: No começo, Lucas não retribuía os abraços. Depois de 3 meses, começou a procurar os pais quando estava assustado.
7. “Meu filho tem tiques. Isso é grave? Vai passar?”
Os tiques são movimentos ou sons repetitivos e involuntários, como piscar os olhos, limpar a garganta ou mexer os ombros. Eles são comuns em crianças e, na maioria dos casos, desaparecem sozinhos.
Tipos de tiques:
- Tiques motores: Movimentos (piscar, franzir a testa, mexer os braços).
- Tiques vocais: Sons (tossir, grunhir, repetir palavras).
- Tiques simples: Um único movimento ou som (piscar, fungar).
- Tiques complexos: Sequência de movimentos (pular e bater palmas) ou frases (repetir o que os outros dizem).
O que causa os tiques?
- Genética: Crianças com histórico familiar de tiques têm mais chances de desenvolvê-los.
- Estresse: Situações de ansiedade ou cansaço podem piorar os tiques.
- Neurobiologia: Alterações em neurotransmissores (como dopamina) podem estar envolvidas.
Quando se preocupar?
- Se os tiques durem mais de 1 ano.
- Se atrapalharem a vida da criança (por exemplo, ela não consegue escrever porque pisca muito).
- Se vierem acompanhados de outros sintomas (como TOC, TDAH ou ansiedade).
O que fazer?
- Não dê atenção aos tiques: Ignorar ajuda a reduzir a frequência.
- Reduza o estresse: Tiques pioram com ansiedade. Terapia e exercícios físicos podem ajudar.
- Converse com um médico: Se os tiques forem muito frequentes ou graves, pode ser Síndrome de Tourette (um tipo de transtorno de tiques). Nesse caso, terapia e, em alguns casos, medicação podem ser necessários.
Exemplo prático:
João, 8 anos, começou a piscar muito depois que seus pais se separaram. No começo, os pais chamavam a atenção dele, o que piorava os tiques. Depois de conversar com um psicólogo, eles pararam de comentar e reduziram as cobranças em casa. Em 3 meses, os tiques diminuíram muito.
8. “Meu filho tem enurese (faz xixi na cama). O que fazer?”
A enurese é comum (afeta 15% das crianças aos 5 anos) e não é culpa da criança. Geralmente, desaparece sozinha, mas algumas estratégias podem ajudar.
Causas:
- Genética: Se os pais fizeram xixi na cama, a criança tem 50% de chance de ter o mesmo problema.
- Sono profundo: Algumas crianças não acordam quando a bexiga está cheia.
- Bexiga pequena: A bexiga pode não ser grande o suficiente para armazenar a urina durante a noite.
- Estresse: Mudanças na família (divórcio, mudança de escola) podem desencadear enurese.
O que fazer?
✅ Não brigue nem envergonhe a criança: Ela não faz de propósito. Brigar só piora a ansiedade.
✅ Limite líquidos antes de dormir: Evite dar água, suco ou refrigerante 2 horas antes de dormir.
✅ Leve a criança ao banheiro antes de dormir: Mesmo que ela diga que não precisa.
✅ Use um alarme de enurese: Um sensor na calcinha ou cueca dispara um alarme quando a criança começa a fazer xixi, ajudando-a a acordar.
✅ Reforce comportamentos positivos: Elogie quando a criança não fizer xixi na cama.
✅ Converse com um médico: Se a enurese persistir após os 7 anos, pode ser necessário exames (para descartar infecção urinária ou diabetes) ou medicação (como desmopressina, que reduz a produção de urina à noite).
Exemplo prático:
Pedro, 6 anos, fazia xixi na cama 3 vezes por semana. Seus pais:
1. Pararam de brigar com ele.
2. Limitaram líquidos depois das 19h.
3. Levavam-no ao banheiro antes de dormir.
4. Compraram um alarme de enurese.
Depois de 2 meses, Pedro parou de fazer xixi na cama.
9. “Meu filho tem mutismo seletivo. Como ajudá-lo a falar?”
O mutismo seletivo é um transtorno de ansiedade em que a criança fala normalmente em casa, mas se recusa a falar em outros ambientes (como na escola ou com estranhos).
Causas:
- Ansiedade social: A criança tem medo de ser julgada ou de cometer erros.
- Traumas: Algumas crianças desenvolvem mutismo após bullying ou situações constrangedoras.
- Genética: Crianças com histórico familiar de ansiedade têm mais chances de desenvolver mutismo.
O que fazer?
✅ Não force a criança a falar: Forçar só aumenta a ansiedade.
✅ Comece com ambientes seguros: Peça para a criança falar com um amigo próximo ou um professor de confiança.
✅ Use comunicação não verbal: Permita que a criança aponte, escreva ou desenhe para se comunicar.
✅ Reforce pequenos progressos: Elogie quando ela fizer um som ou sussurrar.
✅ Terapia cognitivo-comportamental (TCC): Ajuda a criança a enfrentar o medo de falar de forma gradual.
✅ Converse com a escola: Peça para os professores não pressionarem a criança e aceitarem outras formas de comunicação.
Exemplo prático:
Maria, 5 anos, não falava na escola. Seus pais:
1. Conversaram com a professora, que passou a aceitar que Maria apontasse para responder às perguntas.
2. Levaram Maria para brincar com uma coleguinha em casa, para que ela se sentisse mais à vontade.
3. Começaram a terapia, onde Maria aprendeu a fazer sons (como “hum hum”) antes de falar palavras.
Depois de 6 meses, Maria começou a sussurrar na escola e, com o tempo, passou a falar normalmente.
10. “Meu filho foi diagnosticado com transtorno do grupo F98. Ele vai ter uma vida normal?”
Sim! Muitas pessoas com transtornos do grupo F98 levam vidas plenas e bem-sucedidas. O diagnóstico não define o futuro da criança — o que importa é o tratamento, o apoio da família e a resiliência.
O que influencia o prognóstico?
✅ Tratamento precoce: Quanto antes começar, melhores são os resultados.
✅ Ambiente familiar: Famílias afetivas, estruturadas e com limites claros ajudam a criança a se desenvolver.
✅ Escola inclusiva: Escolas que adaptam o ensino e oferecem apoio psicológico fazem toda a diferença.
✅ Habilidades sociais: Crianças que aprendem a lidar com emoções, resolver conflitos e fazer amigos têm mais chances de sucesso.
✅ Autoconhecimento: Adolescentes que entendem seu transtorno e buscam ajuda quando necessário se saem melhor na vida adulta.
Exemplos de sucesso:
- Simone Biles (ginasta olímpica, TDAH): “O TDAH não me define. Eu sou muito mais do que isso.”
- Michael Phelps (nadador olímpico, TDAH): “O TDAH me deu energia e foco para ser o melhor no que eu faço.”
- Emma Watson (atriz, ansiedade): “Aprendi a lidar com a ansiedade e hoje consigo administrá-la.”
- Will Smith (ator, TDAH): “O TDAH me fez ser criativo e pensar fora da caixa.”
O que fazer?
- Acredite no potencial da criança: Ela pode ter uma vida feliz e bem-sucedida.
- Encoraje seus talentos: Toda criança tem pontos fortes. Descubra quais são e ajude-a a desenvolvê-los.
- Ensine resiliência: Mostre que errar faz parte do aprendizado e que ela pode superar desafios.
- Celebre as pequenas vitórias: Cada progresso (por menor que seja) é um passo em direção ao sucesso.
Lembre-se:
“Um diagnóstico não é uma sentença. É um mapa que mostra o caminho para uma vida melhor.”
Quando procurar ajuda urgente
A maioria dos sintomas dos transtornos do grupo F98 pode ser manejada com tratamento ambulatorial (consultas regulares com psiquiatra e psicólogo). No entanto, algumas situações exigem ajuda imediata. Fique atento aos sinais de alerta e procure um pronto-socorro psiquiátrico ou ligue para o CVV (188) se notar:
Sinais de alerta em crianças e adolescentes
1. Risco de suicídio ou automutilação
- Fala sobre morte ou suicídio: “Eu queria desaparecer”, “Ninguém sentiria minha falta se eu morresse”.
- Comportamentos autodestrutivos: Cortar-se, bater a cabeça na parede, se queimar.
- Despedidas: Dar objetos pessoais para amigos ou familiares “porque não vai precisar mais”.
- Mudança repentina de humor: De muito triste para calmo demais (pode indicar que a criança já decidiu se matar).
O que fazer?
– Não deixe a criança sozinha.
– Tire objetos perigosos do alcance (facas, remédios, cordas).
– Leve para um pronto-socorro psiquiátrico ou ligue para o SAMU (192).
– Não minimize: Frases como “Isso é drama” ou “Você não tem motivo para se matar” não ajudam.
2. Agressividade extrema
- Ameaças físicas: Dizer que vai matar alguém ou se matar.
- Violência contra pessoas ou animais: Machucar gravemente outra pessoa ou animal.
- Destruição de propriedade: Quebrar móveis, incendiar coisas, pichar paredes de forma deliberada.
- Fuga de casa: Sair de casa sem avisar e não voltar.
O que fazer?
– Mantenha a calma e não revide.
– Afaste a criança de objetos perigosos.
– Ligue para o SAMU (192) ou leve para um pronto-socorro.
– Não deixe a criança sozinha até que ela se acalme.
3. Sintomas psicóticos
- Alucinações: Ver ou ouvir coisas que não existem (por exemplo, ouvir vozes dizendo para machucar alguém).
- Delírios: Crenças falsas e persistentes (por exemplo, achar que está sendo perseguido ou que tem superpoderes).
- Comportamento desorganizado: Falar coisas sem sentido, rir sem motivo, agir de forma estranha.
O que fazer?
– Não discuta com a criança sobre o que ela está vendo ou ouvindo.
– Leve para um pronto-socorro psiquiátrico imediatamente.
– Não deixe a criança sozinha, pois ela pode se machucar ou machucar outras pessoas.
4. Crises de ansiedade graves
- Sintomas físicos intensos: Dor no peito, falta de ar, tontura, sensação de desmaio.
- Medo extremo: A criança acha que vai morrer ou enlouquecer.
- Comportamento de fuga: Correr sem rumo, se esconder, tentar sair de um lugar a qualquer custo.
O que fazer?
– Mantenha a calma e fale devagar: “Você está seguro. Isso vai passar.”
– Ajude a criança a respirar: Peça para ela inspirar pelo nariz (4 segundos), segurar (4 segundos), expirar pela boca (6 segundos).
– Leve para um pronto-socorro se os sintomas não melhorarem em 20 minutos ou se a criança desmaiar.
5. Intoxicação ou overdose
- Uso de drogas ou álcool: Se a criança ou adolescente ingeriu uma quantidade perigosa de álcool, remédios ou drogas.
- Sintomas: Sonolência extrema, confusão, vômitos, convulsões, dificuldade para respirar.
O que fazer?
– Ligue para o SAMU (192) ou leve para um pronto-socorro imediatamente.
– Não induza vômito (a menos que orientado por um médico).
– Leve a embalagem do que foi ingerido (remédio, droga, álcool).
Onde procurar ajuda urgente no Brasil?
| Serviço | Telefone | O que oferece? |
|---|---|---|
| SAMU | 192 | Atendimento médico de emergência (incluindo crises psiquiátricas). |
| CVV (Centro de Valorização da Vida) | 188 | Apoio emocional e prevenção ao suicídio (24 horas). |
| CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) | Verifique o CAPS mais próximo | Atendimento psiquiátrico de urgência (em alguns municípios). |
| Pronto-Socorro Psiquiátrico | Verifique hospitais da sua cidade | Atendimento para crises graves (como risco de suicídio ou agressividade extrema). |
Dica: Se você não souber para onde levar a criança, ligue para o SAMU (192). Eles vão orientar sobre o melhor local.
Lembre-se:
- Você não está sozinho. Milhares de famílias passam por isso todos os dias.
- Buscar ajuda é um ato de amor. Não espere a situação piorar.
- A criança não tem culpa. Ela precisa de apoio, tratamento e compreensão.
Se você ou alguém que você conhece estiver passando por uma crise grave, não hesite em procurar ajuda. A vida vale a pena.
Referências
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10). 10ª ed. São Paulo: EDUSP, 1997.
- American Psychiatric Association (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
- Barkley, R. A. TDAH: Guia Completo para Pais, Professores e Profissionais. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Kazdin, A. E. Parent Management Training: Treatment for Oppositional, Aggressive, and Antisocial Behavior in Children and Adolescents. Oxford University Press, 2005.
- Rohde, L. A., et al. Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade: O Que é? Como Ajudar? Porto Alegre: Artmed, 2019.
- Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA). Guia para Pais e Educadores. Disponível em: www.tdah.org.br.
- Centro de Valorização da Vida (CVV). Prevenção do Suicídio. Disponível em: www.cvv.org.br.
- Ministério da Saúde. Saúde Mental Infantojuvenil no SUS. Brasília, 2020.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.