Definição e epidemiologia
O impacto dos transtornos alimentares (TAs) no desenvolvimento psicosssexual refere-se ao conjunto de prejuízos no curso maturacional psicossocial e na emergência, consolidação e expressão da sexualidade, diretamente causados ou exacerbados pela psicopatologia alimentar. Este não constitui um diagnóstico isolado, mas uma dimensão fundamental da psicopatologia dos TAs, particularmente da anorexia nervosa (AN) e, em menor grau, da bulimia nervosa (BN). A interrupção ou regressão neste domínio é um marcador de gravidade e cronicidade.
Nos critérios diagnósticos do DSM-5-TR, a interferência marcante no funcionamento psicossocial é um critério central para o Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo (TARE) e está implicitamente presente na avaliação da AN e BN. A CID-11 (6B80-6B8Z) classifica os transtornos alimentares e, em suas descrições, menciona o prejuízo no funcionamento social e interpessoal. A perturbação psicosssexual se enquadra neste domínio.
Epidemiologicamente, os TAs são mais prevalentes em mulheres, com uma razão de aproximadamente 10:1 para AN e 5:1 para BN. A AN tipicamente inicia na adolescência (pico entre 14-18 anos), período crítico para o desenvolvimento da identidade e da sexualidade. Dados brasileiros, embora escassos, sugerem prevalências similares às internacionais, com estudos pontuais em grupos de risco (como bailarinas e atletas) mostrando taxas elevadas. O curso é variável: enquanto alguns casos têm remissão completa, uma parcela significativa evolui com cronicidade e prejuízos duradouros. Fatores de risco para o desenvolvimento dos TAs que também impactam a esfera psicosssexual incluem: traços de personalidade rígidos e perfeccionistas; participação em atividades que valorizam a magreza (ballet, esportes estéticos, modelagem); história de ansiedade ou depressão na infância; e dinâmicas familiares caracterizadas por hostilidade, caos, isolamento e baixos níveis de conforto e empatia, conforme observado em famílias de pacientes com subtipos purgativos. Em homens, uma orientação homossexual é um fator predisponente documentado, não pela orientação em si, mas devido às fortes normas de magreza (frequentemente magra-muscular) vigentes nessa comunidade.
Etiopatogenia e neurobiologia
A etiopatogenia do prejuízo psicosssexual nos TAs é multifatorial, resultante da convergência de fatores biológicos, psicológicos e sociais.
Do ponto de vista neurobiológico, a desnutrição severa, característica da AN, provoca uma regressão neuroendócrina. O eixo hipotálamo-hipófise-gonadal é suprimido, levando à amenorreia hipogonadotrófica em mulheres e à redução da testosterona e da libido em homens. Esta não é uma consequência meramente hormonal; reflete uma despriorização cerebral de funções não essenciais para a sobrevivência imediata, como a reprodução. Sistemas de neurotransmissão cruciais para a motivação, recompensa e comportamento sexual são profundamente alterados. A serotonina (5-HT), envolvida na inibição comportamental, saciedade e humor, apresenta disfunção, contribuindo para a rigidez cognitiva e a ansiedade social. A dopamina, central no circuito de recompensa e no desejo (libido), tem sua sinalização prejudicada, levando à anedonia e à redução do interesse sexual. A noradrenalina, moduladora da energia, alerta e excitação, também está reduzida. O glutamato, principal neurotransmissor excitatório, pode estar desregulado, contribuindo para a ansiedade e os comportamentos repetitivos.
Achados de neuroimagem em pacientes com AN mostram alterações estruturais e funcionais em regiões cerebrais envolvidas no processamento de recompensa (estriado ventral, córtex pré-frontal), na imagem corporal (lobo parietal inferior) e no controle inibitório (córtex cingulado anterior, córtex pré-frontal dorsolateral). Estas alterações podem persistir mesmo após a recuperação ponderal e estão associadas a dificuldades na tomada de decisões, no processamento emocional e na interação social.
Os modelos psicológicos e psicodinâmicos oferecem perspectivas complementares. A anorexia nervosa é vista, em parte, como uma reação às demandas da adolescência, incluindo a sexualidade emergente. O corpo em desenvolvimento, com suas novas formas e sensações, pode ser vivenciado como ameaçador, fora de controle ou aversivo. A restrição alimentar e a perda de peso podem servir, inconscientemente, para negar ou regredir a maturidade sexual, retornando a um corpo pré-púbere percebido como mais seguro. Conflitos precoces do desenvolvimento, relacionados à autonomia, identidade e intimidade, encontram expressão na relação patológica com a comida e o corpo. Um "pobre ajustamento sexual" é frequentemente descrito, enraizado nestes conflitos. A terapia psicodinâmica pressupõe que a remoção destes conflitos permite que o impulso sexual se torne estruturalmente aceitável para o ego, embora os sintomas sexuais possam se tornar secundariamente autônomos e persistirem.
Fatores sociais e culturais são fundamentais. A internalização do ideal de magreza, intensificada pela mídia e por certos meios sociais (como escolas de ballet rigorosas, que aumentam o risco de AN em sete vezes), cria um conflito entre o corpo real e o ideal. Para o adolescente em desenvolvimento, a autoestima fica atrelada à forma corporal, desviando energia e atenção de outras tarefas desenvolvimentais, como a exploração de relacionamentos íntimos. Em contextos familiares tensos, o transtorno alimentar pode servir para desviar a atenção de conflitos conjugais dos pais.
Quadro clínico
O impacto no desenvolvimento psicosssexual manifesta-se de forma multidimensional, variando conforme a idade de início, o subtipo e a gravidade do TA.
Em adolescentes:
- Atraso no desenvolvimento psicossocial: O paciente apresenta imaturidade emocional e social incompatível com a idade cronológica. Há retraimento social, evitamento de atividades típicas da adolescência (festas, encontros), dificuldade em formar e manter amizades pautadas na intimidade e um foco quase exclusivo em questões relacionadas a comida, peso e forma corporal. Interesses vocacionais e de lazer podem ficar empobrecidos ou excessivamente centrados no controle corporal (excesso de exercício).
- Evasão da sexualidade: Há uma marcada falta de interesse ou mesmo aversão a qualquer tema relacionado à sexualidade. O desenvolvimento de características sexuais secundárias (seios, quadris) é vivenciado com angústia e pode motivar a perda de peso na tentativa de suprimí-las. Relacionamentos românticos são evitados. Quando existem, são frequentemente imaturos, não envolvendo contato físico ou intimidade emocional. Em uma minoria com história pré-mórbida de promiscuidade ou abuso de substâncias, há uma nítida redução deste comportamento durante o transtorno.
Em adultos:
- Interesse sexual acentuadamente reduzido: A libido está drasticamente diminuída ou ausente. Pacientes relatam falta de desejo, ausência de fantasias sexuais e evitamento de qualquer situação que possa levar à intimidade física. Este é um sintoma que costuma acompanhar o início do transtorno alimentar na vida adulta.
- Disfunções sexuais: Podem ocorrer dificuldades com a excitação, lubrificação (nas mulheres), ereção (nos homens) e orgasmo. Estas disfunções são de origem multifatorial: hormonal (hipogonadismo), psicológica (ansiedade, imagem corporal negativa) e relacional.
- Prejuízo nas relações interpessoais: Relacionamentos estabelecidos sofrem grande tensão. O parceiro pode se sentir rejeitado, confuso ou impotente. A intimidade é prejudicada não apenas sexualmente, mas também emocionalmente, devido ao secretismo, irritabilidade e foco egossintônico no transtorno alimentar.
- Comportamentos e queixas associadas: É comum a presença de traços de personalidade rígidos e perfeccionistas. Queixas somáticas, sobretudo desconforto epigástrico, são frequentes e podem ser usadas para evitar refeições ou situações sociais que envolvam comida. Pode ocorrer roubo compulsivo (cleptomania), geralmente de doces, laxantes ou, significativamente, de roupas, o que pode refletir um conflito em relação à identidade e à imagem corporal.
No Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo (TARE), que pode persistir da infância à idade adulta, a interferência no funcionamento social é um critério diagnóstico. A seletividade ou recusa alimentar persistente pode limitar drasticamente a participação em eventos sociais (jantares, encontros), isolando o indivíduo e dificultando o desenvolvimento de relações maduras.
Avaliação e diagnóstico
A avaliação do impacto psicosssexual deve ser parte integrante da avaliação de qualquer TA.
Entrevista clínica (Pontos-chave da anamnese):
- História desenvolvimental: Investigar o curso do desenvolvimento psicossocial pré-mórbido. Habilidades sociais na infância? Transição para a adolescência?
- História sexual: Início e qualidade do interesse sexual, fantasias, experiências. Mudanças coincidentes com o início do TA. Satisfação com a vida sexual atual. Para adolescentes, explorar o conhecimento, curiosidade e atitudes em relação à sexualidade.
- Relações interpessoais: Qualidade das amizades. Histórico de relacionamentos românticos. Dificuldades com intimidade emocional e física. Impacto do TA nas relações familiares e com o parceiro.
- Imagem corporal: Perguntar especificamente sobre sentimentos em relação a partes do corpo associadas à sexualidade (seios, quadris, coxas, genitália).
- Comportamentos: Presença de evitamento social, isolamento, comportamentos compulsivos (como roubo).
Exame do estado mental:
- Aparência e comportamento: Pode haver vestimentas que escondam o corpo, postura fechada, pouco contato visual.
- Humor e afeto: Afeto frequentemente restrito, embotado ou constrito. Humor pode ser disfórico ou ansioso. Anedonia.
- Pensamento: Conteúdo dominado por preocupações com comida, peso e forma. Possível desvalorização de temas relacionados a relacionamentos ou sexualidade ("não é importante para mim agora").
- Cognição: Rigidez cognitiva, pensamento tudo-ou-nada.
Escalas e instrumentos:
- Para TAs: Eating Attitudes Test (EAT-26), Bulimic Investigatory Test Edinburgh (BITE). Versões validadas em português estão disponíveis.
- Para sexualidade: Arizona Sexual Experience Scale (ASEX), que avalia desejo, excitação, lubrificação/ereção, capacidade de atingir orgasmo e satisfação com o orgasmo.
- Para funcionamento psicossocial: Escalas de avaliação da qualidade de vida (WHOQOL-BREF) e de ajustamento social.
Exames complementares:
- Laboratoriais: Hemograma, eletrólitos, função hepática, renal e tireoidiana para avaliar complicações da desnutrição ou purgação. Dosagem de hormônios (LH, FSH, estradiol, testosterona) para confirmar hipogonadismo.
- Neuroimagem: Não é rotina para diagnóstico, mas pode ser considerada em casos atípicos ou para descartar condições orgânicas.
Diagnóstico diferencial:
| Condição | Pontos de Distinção |
|---|---|
| Transtorno Depressivo Maior | A redução da libido e o isolamento social são centrais, mas geralmente acompanhados de humor deprimido pervasivo e anedonia generalizada, sem a preocupação egossintônica com peso e forma corporal. |
| Transtorno de Ansiedade Social | O evitamento social é por medo de avaliação negativa, não necessariamente ligado a questões alimentares ou corporais. Pode ser comórbido. |
| Transtorno da Personalidade Esquiva | Padrão pervasivo de inibição social, sentimentos de inadequação e hipersensibilidade à avaliação negativa, presente desde o início da vida adulta. |
| Condições Médicas Gerais | Hipogonadismo primário, tumores, doenças crônicas podem causar perda de peso e redução da libido. A ausência de medo mórbido de engordar e de distorção da imagem corporal é crucial. |
| Esquizofrenia ou outros transtornos psicóticos | A recusa alimentar pode ser baseada em delírios (ex.: comida envenenada). Presença de outros sintomas psicóticos positivos ou negativos. |
Armadilhas diagnósticas: Atribuir a redução do interesse sexual apenas à depressão comórbida, sem reconhecer seu papel central na psicodinâmica do TA. Ignorar o impacto psicosssexual em pacientes do sexo masculino com TA. Subestimar a gravidade do atraso psicossocial em adolescentes, considerando-o apenas uma "fase".
Comorbidades frequentes: Transtornos de ansiedade (especialmente transtorno obsessivo-compulsivo e ansiedade social), transtornos depressivos, transtornos de personalidade (comumente do cluster C – evitadora, dependente, obsessivo-compulsiva).
Tratamento farmacológico
O tratamento farmacológico dos TAs é adjuvante, focado no manejo de sintomas comórbidos que perpetuam o transtorno e, por extensão, o prejuízo psicosssexual. Não há medicamentos aprovados especificamente para a AN, e seu uso é desafiador devido à desnutrição.
Algoritmo terapêutico baseado em evidências:
- Estabilização clínica e nutricional: Prioridade absoluta. A restauração do peso e a correção de deficiências nutricionais são pré-requisitos para qualquer intervenção farmacológica ou psicossocial eficaz. A realimentação pode, por si só, melhorar parcialmente o humor, a cognição e o interesse sexual através da normalização neuroendócrina.
- Tratamento de comorbidades:
- Ansiedade e Depressão: Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS) são a primeira linha.
- Fluoxetina: É o ISRS com mais evidências para BN e para prevenção de recaída na AN após recuperação ponderal. Dose inicial baixa (10-20 mg/dia), titulável até 60 mg/dia. Monitorar para bradicardia, prolongamento do QT e síndrome serotoninérgica (risco aumentado em desnutridos).
- Sertralina (50-200 mg/dia) e Escitalopram (10-20 mg/dia): Alternativas eficazes para sintomas de ansiedade e depressão.
- Sintomas Obsessivo-Compulsivos: ISRS em doses mais altas (ex.: fluoxetina até 80 mg/dia). Clomipramina (tricíclico) pode ser considerada, mas com cautela devido aos efeitos anticolinérgicos e cardíacos.
- Agitação e Insônia: Antipsicóticos atípicos em baixa dose podem ser úteis.
- Olanzapina: Possui efeito ansiolítico, sedativo e promove ganho de peso. Dose: 2,5-10 mg/dia. Monitorar perfil metabólico (glicemia, lipídios).
- Quetiapina (25-200 mg/dia) para agitação/insônia.
- Ansiedade e Depressão: Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS) são a primeira linha.
- Manejo de baixa libido pós-recuperação: Se a disfunção sexual persistir após a normalização ponderal e hormonal, pode ser um efeito colateral do ISRS. Estratégias incluem: ajuste de dose, mudança para um ISRS com menor perfil de disfunção sexual (ex.: bupropiona, que não é ISRS), ou adição de bupropiona (150-300 mg/dia) ou aripiprazol (2,5-5 mg/dia) para antagonizar este efeito. Bupropiona é contraindicada em pacientes com histórico de purgação ou convulsões.
Situações especiais:
- Gestação/Lactação: A decisão é complexa. A desnutrição representa um risco grave para o feto. ISRS como sertralina são geralmente preferidos. A psicoterapia é a intervenção de primeira linha.
- Idosos: Raro, mas pode ocorrer. Cautela extrema com interações medicamentosas, efeitos anticolinérgicos e risco de quedas.
- Contexto brasileiro: A RENAME (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais) do SUS disponibiliza fluoxetina, sertralina e haloperidol (este último em contextos específicos). Olanzapina e outros atípicos estão disponíveis, mas o acesso pode variar. Os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) podem ser a porta de entrada e local para acompanhamento multiprofissional.
Tratamento não farmacológico
É a base do tratamento e essencial para abordar as raízes do prejuízo psicosssexual.
Psicoterapias com evidência:
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Padrão-ouro para BN e eficaz para AN. Foca na identificação e modificação de pensamentos distorcidos sobre comida, peso, forma corporal e relacionamentos. Inclui técnicas para enfrentar a evitação social, treinar habilidades sociais e reestruturar crenças disfuncionais sobre sexualidade e intimidade.
- Terapia Baseada na Família (FBT – Family-Based Therapy): Tratamento de primeira linha para adolescentes com AN. Os pais são capacitados como agentes ativos na restauração do peso do filho, aliviando o adolescente da luta contra o transtorno. Isso pode liberar energia psíquica para o retorno às tarefas desenvolvimentais normais, incluindo a socialização.
- Terapia Psicodinâmica Focal: Útil para explorar os conflitos inconscientes subjacentes ao transtorno, incluindo aqueles relacionados à autonomia, identidade e sexualidade. O foco é na relação terapêutica e na compreensão de como o transtorno serve a uma função psicológica (ex.: regredir a sexualidade, controlar impulsos).
- Terapia Interpessoal (TIP): Foca na melhoria das relações interpessoais e na resolução de lutos, disputas, transições de papel e déficits interpessoais que possam estar mantendo o TA.
Intervenções psicossociais e reabilitação:
- Intervenção Nutricional: Feita por nutricionista especializado. Vai além da prescrição de dieta; envolve psicoeducação nutricional, normalização dos padrões alimentares e exposição a alimentos temidos, o que pode reduzir a ansiedade social relacionada a comer.
- Terapia de Grupo: Pode ser útil para reduzir o isolamento, compartilhar experiências e praticar habilidades sociais em um ambiente seguro.
- Suporte Familiar: Psicoeducação para a família sobre o transtorno, seu impacto psicosssexual e como melhorar a comunicação e o apoio, reduzindo a hostilidade e o caos observados em algumas dinâmicas familiares.
Procedimentos:
- Eletroconvulsoterapia (ECT): Reservada para casos graves de depressão com risco de vida ou catatonia que não respondem a outras intervenções, em pacientes com TA.
- Estimulação Magnética Transcraniana (TMS): Pode ser considerada para depressão comórbida resistente, mas evidências específicas para TA são limitadas.
Manejo clínico prático
A abordagem é multidisciplinar (psiquiatra, psicólogo, nutricionista, clínico) e estagiada.
- Fase Aguda/Estabilização: O objetivo é salvar vidas e restaurar o peso. A decisão é pela internação (hospitalar ou em hospital-dia) quando há desnutrição grave, complicações clínicas ou risco suicida. O foco é a realimentação supervisionada e a interrupção de comportamentos purgativos. Questões psicosssexuais são abordadas com sensibilidade, mas não são o foco principal.
- Fase de Restauração/Tratamento Intensivo: Com o peso estabilizado, inicia-se ou intensifica-se a psicoterapia (TCC ou FBT) e introduz-se farmacoterapia para comorbidades. A entrevista clínica começa a explorar sistematicamente o impacto do transtorno nas relações e na sexualidade. Envolver o parceiro ou a família em sessões de psicoeducação é crucial.
- Fase de Manutenção/Prevenção de Recaída: O peso está normalizado, os comportamentos alimentares patológicos estão sob controle. O tratamento agora se concentra nos prejuízos residuais: baixa autoestima, dificuldades de intimidade, disfunção sexual persistente. A terapia pode focar especificamente nestas áreas. A medicação (ex.: fluoxetina) pode ser mantida para prevenção de recaída.
- Monitoramento: A resposta é monitorada através da evolução do peso, frequência de comportamentos purgativos, escalas de sintomas alimentares (EAT-26), relato de atividades sociais e sexuais, e escalas de humor. A remissão completa envolve a normalização sustentada em todos esses domínios.
- Manejo da Resistência: Em casos resistentes, revisitar o diagnóstico (comorbidades não tratadas?), intensificar a frequência da psicoterapia, considerar mudança de abordagem terapêutica (ex.: de TCC individual para FBT), otimizar a farmacoterapia ou indicar tratamento residencial especializado.
Contexto brasileiro: O acesso a equipes multidisciplinares especializadas é limitado, concentrando-se em grandes centros. O SUS, através dos CAPS, pode oferecer atendimento psicológico e psiquiátrico, mas a integração com nutricionistas é irregular. A rede privada e os planos de saúde são a via de acesso para muitos. A defesa por uma abordagem integrada no SUS é necessária.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do paciente: O paciente frequentemente não conecta inicialmente suas dificuldades sexuais ou sociais ao transtorno alimentar. Pode relatar sentir-se "congelado", "assustado com o contato físico", "sem desejo" ou "como se ainda fosse uma criança". A sexualidade pode ser associada a perda de controle, gordura ou rejeição. A vergonha é um sentimento ubíquo, tanto em relação ao corpo quanto às dificuldades relacionais.
Psicoeducação:
- Para o paciente: Explicar, de forma normalizadora, que a perda de interesse sexual e o isolamento social são sintomas comuns e esperados do transtorno alimentar, causados por uma combinação de fatores: a desnutrição "desliga" o sistema reprodutivo, a depressão e a ansiedade reduzem a motivação, e o foco obsessivo em comida e corpo ocupa o espaço mental que seria para outras coisas. Enfatizar que isso é tratável e reversível com a recuperação.
- Para a família/parceiro: Explicar que o afastamento e a falta de interesse sexual não são rejeição pessoal, mas parte da doença. Encorajar paciência, evitar pressões ou cobranças, e focar no apoio ao tratamento. Orientar a não comentar sobre o corpo ou a alimentação de forma crítica.
Impacto funcional: Prejuízos acadêmicos/profissionais devido à dificuldade de concentração e absenteísmo. Isolamento social profundo. Dificuldade em formar relacionamentos estáveis, com alto risco de dependência emocional ou relacionamentos abusivos. Comprometimento grave da qualidade de vida.
Adesão ao tratamento: Barreiras incluem a falta de insight (egossintonia), o medo de ganhar peso e perder o "controle", a vergonha de discutir temas sexuais e o estigma. Estratégias: estabelecer uma aliança terapêutica forte e não julgadora, focar inicialmente na redução do sofrimento (ex.: ansiedade) em vez de no ganho de peso, normalizar as dificuldades psicosssexuais e envolver a rede de apoio.
Perguntas frequentes
1. A perda da libido e o atraso social são permanentes?
Não, na maioria dos casos não são permanentes. Eles são, em grande parte, consequências diretas da desnutrição e da psicopatologia ativa do transtorno alimentar. Com a recuperação nutricional adequada e o tratamento psicológico eficaz, o eixo hormonal tende a se normalizar, o humor melhora e o interesse pela vida social e sexual costuma retornar. No entanto, em casos de transtorno crônico de muitos anos, algumas dificuldades podem persistir e requerer terapia focal.
2. Devo forçar meu filho adolescente com anorexia a sair com amigos ou a namorar?
Não de forma forçada. A pressão pode aumentar a ansiedade e a resistência. A estratégia recomendada pela Terapia Baseada na Família (FBT) é que os pais primeiro se concentrem de forma firme e carinhosa na restauração do peso e na interrupção dos comportamentos alimentares patológicos. À medida que o adolescente se recupera nutricionalmente, a energia e o interesse por atividades sociais geralmente ressurgem naturalmente. Os pais podem então incentivar e facilitar suavemente essas atividades.
3. O tratamento com antidepressivos (ISRS) pode piorar a falta de libido?
Sim, é um efeito colateral conhecido dos ISRS. No entanto, é crucial diferenciar: a falta de libido causada pela desnutrição e depressão da AN é geralmente severa e precede a medicação. O ISRS é introduzido para tratar a depressão e a ansiedade que mantêm o TA. Em alguns casos, pode piorar a disfunção sexual. Se isso ocorrer após a recuperação ponderal, converse com seu psiquiatra. Estratégias como ajuste de dose, mudança de medicamento ou adição de um "antagonista" (como bupropiona) podem ser consideradas.
4. Homens com transtornos alimentares também sofrem com esses problemas psicosssexuais?
Absolutamente sim. Homens com AN também apresentam redução drástica da testosterona, levando à perda de libido, disfunção erétil e regressão do interesse sexual. Além disso, o conflito com a imagem corporal pode ser intenso, especialmente em contextos onde há pressão por um corpo musculoso (como em alguns ambientes gays ou esportivos). O isolamento social e o atraso no desenvolvimento psicossocial são igualmente presentes.
5. É possível ter um relacionamento íntimo saudável enquanto ainda se recupera de um transtorno alimentar?
Sim, é possível, mas requer comunicação aberta, paciência e, muitas vezes, a inclusão do parceiro em algumas sessões de terapia. O relacionamento pode ser uma fonte importante de apoio, mas também pode ser um campo de desafios (ex.: jantares, comentários sobre o corpo). A transparência sobre as dificuldades e os limites, e o foco conjunto na recuperação, são fundamentais.
6. Quando o baixo interesse sexual é um sintoma do transtorno alimentar e quando é um transtorno sexual independente?
A linha pode ser tênue. Como regra, se a redução do interesse sexual coincidiu com o início ou agravamento do TA, e se melhora com a recuperação nutricional e do humor, é muito provável que seja um sintoma do TA. Se persiste de forma isolada por mais de 6 meses após a remissão completa do TA (peso normalizado, sem comportamentos alimentares patológicos, humor estável), então a investigação de um Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo ou outra condição independente deve ser considerada. A terapia sexual focada pode ser necessária.
Referências
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. Genebra: OMS, 2022.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes para o tratamento de transtornos alimentares (Nota: buscar a diretriz mais recente no site da ABP, pois os trechos do compêndio se baseiam em edições anteriores).
- Ministério da Saúde (BR). Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). Brasília, 2022.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.