Um guia completo para entender, reconhecer e lidar com a adicção quando não se encaixa nas categorias mais conhecidas
O que é?
Imagine que você está dirigindo por uma estrada desconhecida e, de repente, percebe que não há placas indicando o nome da via. Você sabe que está indo para algum lugar, mas não consegue definir exatamente qual é o caminho. É mais ou menos assim que funciona o transtorno devido a comportamentos aditivos não especificados.
Esse diagnóstico é como uma “gaveta de emergência” na psiquiatria. Ele é usado quando uma pessoa tem sintomas claros de adicção — seja por substâncias ou por comportamentos —, mas não se encaixa perfeitamente em nenhum dos diagnósticos mais conhecidos, como alcoolismo, dependência de cocaína ou vício em jogos de azar. Pode ser, por exemplo:
– O uso de uma substância nova ou rara (como um remédio manipulado, um chá alucinógeno pouco estudado ou até mesmo um produto químico industrial usado de forma recreativa).
– Um comportamento repetitivo e prejudicial que não está na lista oficial da CID-11, como vício em redes sociais, compras compulsivas ou até mesmo em exercícios físicos em excesso.
– Uma mistura de substâncias cujo efeito no cérebro ainda não foi bem mapeado pela ciência.
– Um caso em investigação, em que o médico ainda não conseguiu identificar exatamente o que está causando a adicção.
Como isso se diferencia de outros transtornos aditivos?
Se você já ouviu falar em dependência de álcool ou vício em drogas, sabe que esses diagnósticos têm critérios bem definidos. Por exemplo:
– Transtorno por uso de álcool (CID-11: 6C40.2): A pessoa bebe demais, não consegue parar, sente abstinência (tremores, suor, ansiedade) quando fica sem álcool e continua bebendo mesmo sabendo que faz mal.
– Transtorno por uso de cocaína (CID-11: 6C45.2): A pessoa usa a droga com frequência, gasta muito dinheiro com ela, negligencia responsabilidades e pode ter paranoia ou agressividade.
Já o 6C5Z é usado quando:
✅ A adicção existe, mas não se encaixa em nenhuma categoria específica.
✅ Ainda não se sabe exatamente qual é a substância ou comportamento que está causando o problema (por exemplo, alguém que chega ao hospital intoxicado, mas não sabe dizer o que tomou).
✅ É uma adicção “nova” ou pouco estudada, como o uso de drogas sintéticas que surgem no mercado ilegal.
Quem é afetado? Dados e realidade brasileira
Não há estatísticas exatas sobre o 6C5Z porque, por definição, ele é um diagnóstico “genérico”. Mas podemos ter uma ideia olhando para os transtornos aditivos em geral:
– No Brasil, cerca de 3% da população tem algum transtorno por uso de substâncias (álcool, drogas ilícitas, medicamentos), segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).
– Homens são mais afetados do que mulheres (cerca de 3 homens para cada 1 mulher), mas essa diferença vem diminuindo, especialmente com o aumento do uso de medicamentos ansiolíticos entre mulheres.
– Faixa etária mais comum: entre 18 e 35 anos, mas a adicção pode começar na adolescência ou se manifestar mais tarde na vida.
– Comportamentos aditivos não relacionados a substâncias (como jogos, compras, internet) afetam cerca de 1 a 3% da população, com maior prevalência em jovens.
No SUS, os casos de adicção são atendidos principalmente nos CAPS AD (Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas), mas muitos pacientes com 6C5Z acabam sendo diagnosticados inicialmente como “transtorno por uso de substância não especificada” até que se descubra a causa exata.
Um pouco de história: por que esse diagnóstico existe?
A psiquiatria é uma ciência que evolui junto com a sociedade. Há 50 anos, não se falava em vício em internet ou dependência de redes sociais porque essas coisas simplesmente não existiam. Da mesma forma, novas drogas sintéticas (como o K2/Spice, um canabinoide sintético) surgem o tempo todo, e os médicos precisam de uma forma de classificar os problemas que elas causam antes mesmo de entenderem completamente seus efeitos.
O 6C5Z é como um “diagnóstico provisório”. Ele permite que o médico comece a tratar o paciente mesmo sem ter todas as respostas, enquanto investiga melhor o caso. Com o tempo, muitos diagnósticos de 6C5Z são reclassificados para algo mais específico (como transtorno por uso de opioides ou transtorno de jogo).
Quais são os sintomas?
Para entender se alguém tem um transtorno devido a comportamentos aditivos não especificados, os médicos usam os mesmos critérios gerais de adicção, mas adaptados para situações em que não se sabe exatamente o que está causando o problema.
Vamos traduzir cada um dos critérios do DSM-5 e CID-11 para uma linguagem do dia a dia, com exemplos práticos.
1. Perda de controle sobre o uso
O que significa?
A pessoa não consegue parar ou reduzir o comportamento aditivo, mesmo quando quer. É como tentar frear um carro em uma ladeira escorregadia: você pisa no freio, mas o carro continua descendo.
Exemplos no dia a dia:
– João prometeu que só iria checar as redes sociais por 10 minutos antes de dormir, mas acabou ficando 4 horas rolando o feed, mesmo sabendo que no dia seguinte teria uma reunião importante.
– Maria jurou que só tomaria um comprimido do remédio para dormir que pegou emprestado da amiga, mas acabou tomando três porque “só um não estava fazendo efeito”.
– Carlos disse que só iria apostar R$ 20 no jogo online, mas perdeu o controle e gastou todo o salário em uma noite.
Normal vs. Sintomático:
✅ Normal: Ficar até tarde assistindo a uma série porque está no episódio final.
❌ Sintomático: Ficar até tarde todos os dias, mesmo sabendo que está prejudicando o trabalho, o sono e os relacionamentos.
2. Prioridade absoluta: o comportamento aditivo domina a vida
O que significa?
A pessoa organiza sua vida em torno do comportamento aditivo. É como se tudo girasse em torno daquilo: trabalho, família, saúde e lazer ficam em segundo plano.
Exemplos no dia a dia:
– Ana cancelou o aniversário da filha porque precisava ficar em casa jogando no celular. Ela até se arrependeu depois, mas no momento não conseguiu resistir.
– Pedro deixou de ir ao médico porque não podia faltar ao treino de corrida. Ele corria 3 horas por dia, mesmo com dores nas articulações, porque se sentia ansioso quando não corria.
– Luiza mentiu para o marido dizendo que estava no trabalho, mas na verdade estava comprando roupas online. Ela já tinha 50 peças no armário com a etiqueta ainda presa.
Normal vs. Sintomático:
✅ Normal: Ficar animado para um show e querer chegar cedo para pegar um bom lugar.
❌ Sintomático: Faltar ao trabalho repetidamente para ir a shows, mesmo sabendo que pode ser demitido.
3. Continua mesmo sabendo que faz mal
O que significa?
A pessoa sabe que está se prejudicando, mas continua fazendo. É como fumar mesmo sabendo que causa câncer, ou comer doces em excesso mesmo tendo diabetes.
Exemplos no dia a dia:
– Rafael sabe que o chá alucinógeno que toma toda semana está deixando sua memória ruim, mas não consegue parar porque “é a única coisa que me faz relaxar”.
– Cláudia percebeu que está gastando mais do que ganha em apostas online, mas continua jogando porque “da próxima vez eu ganho”.
– Tiago sabe que o remédio para emagrecer que comprou na internet está causando taquicardia, mas não para de tomar porque “precisa perder peso rápido”.
Normal vs. Sintomático:
✅ Normal: Comer um pedaço de bolo mesmo sabendo que está de dieta.
❌ Sintomático: Comer todo o bolo mesmo sabendo que vai passar mal depois, e fazer isso várias vezes por semana.
4. Tolerância: cada vez mais para ter o mesmo efeito
O que significa?
Com o tempo, o corpo (ou a mente) se acostuma e a pessoa precisa de doses maiores para sentir o mesmo efeito. É como tomar café: no começo, uma xícara já deixava você acordado, mas depois de um tempo, você precisa de três.
Exemplos no dia a dia:
– Fernanda começou tomando um comprimido do remédio para ansiedade quando estava nervosa. Agora, precisa de quatro para se sentir calma.
– Lucas no começo jogava uma hora por dia no celular. Agora, joga seis horas e ainda sente que “não foi suficiente”.
– Patrícia usava uma vez por mês um energético com álcool em festas. Agora, toma todos os dias para “aguentar o tranco”.
Normal vs. Sintomático:
✅ Normal: Precisar de mais café pela manhã depois de uma noite mal dormida.
❌ Sintomático: Precisar de café o dia todo para funcionar, mesmo sabendo que está prejudicando o sono.
5. Abstinência: mal-estar quando para
O que significa?
Quando a pessoa tenta parar, sente sintomas físicos ou emocionais desagradáveis. É como ficar sem café depois de tomar todos os dias: dor de cabeça, irritação, cansaço.
Exemplos no dia a dia:
– Marcos tentou parar de tomar o chá que comprava na feira, mas ficou irritado, suando frio e com tremores no segundo dia sem ele.
– Juliana decidiu deletar o aplicativo de apostas do celular, mas ficou ansiosa, inquieta e com dificuldade para dormir nos dias seguintes.
– Rodrigo parou de checar o celular a cada 5 minutos, mas sentiu uma ansiedade tão forte que acabou voltando ao vício em menos de 24 horas.
Normal vs. Sintomático:
✅ Normal: Ficar um pouco irritado quando o Wi-Fi cai.
❌ Sintomático: Ficar agitado, suando e com pensamentos acelerados quando não consegue acessar a internet por algumas horas.
6. Negligência de outras áreas da vida
O que significa?
A pessoa deixa de lado coisas importantes — trabalho, família, saúde, hobbies — por causa do comportamento aditivo.
Exemplos no dia a dia:
– Camila deixou de pagar contas porque gastou todo o dinheiro em jogos online.
– Gustavo parou de visitar os pais porque preferia ficar em casa vendo lives no YouTube.
– Beatriz deixou de comer porque estava tão envolvida em compras online que se esqueceu das refeições.
Normal vs. Sintomático:
✅ Normal: Ficar até tarde trabalhando em um projeto importante e pular o jantar uma vez.
❌ Sintomático: Pular refeições várias vezes por semana porque está ocupado demais com o comportamento aditivo.
7. Tentativas fracassadas de parar
O que significa?
A pessoa já tentou parar várias vezes, mas não conseguiu. É como fazer uma dieta: você começa bem, mas depois de alguns dias, volta aos velhos hábitos.
Exemplos no dia a dia:
– Daniel já deletou o aplicativo de apostas três vezes, mas sempre acaba reinstalando.
– Renata já prometeu para o marido que pararia de comprar roupas, mas sempre encontra uma desculpa para voltar a gastar.
– Thiago já tentou parar de tomar o remédio para dormir, mas sempre volta a usá-lo porque “não consegue dormir de jeito nenhum”.
Normal vs. Sintomático:
✅ Normal: Tentar parar de roer unhas e conseguir por alguns dias.
❌ Sintomático: Tentar parar mais de cinco vezes e sempre voltar ao comportamento em menos de uma semana.
Um aviso importante: ter alguns sintomas não significa ter o diagnóstico
É normal, às vezes, perder o controle em alguma área da vida. O que define um transtorno aditivo é:
✔ Vários sintomas juntos (não só um ou dois).
✔ Duração prolongada (não é algo passageiro).
✔ Impacto negativo na vida (prejudica trabalho, relacionamentos, saúde).
Se você ou alguém que você conhece se identificou com vários desses sintomas, é importante procurar ajuda profissional para uma avaliação mais detalhada.
Como se manifesta no dia a dia?
A adicção não afeta só a pessoa que a vive — ela transforma toda a rotina, os relacionamentos e até a saúde física. Vamos ver como isso acontece em diferentes áreas da vida.
No trabalho ou na escola
A adicção pode destruir carreiras e sonhos acadêmicos de formas que nem sempre são óbvias. Alguns exemplos:
✅ Queda no desempenho
– João era um ótimo programador, mas começou a chegar atrasado porque ficava até tarde jogando no celular. Seus projetos começaram a atrasar, e ele foi advertido duas vezes.
– Mariana era uma aluna dedicada, mas depois que começou a tomar remédios para ficar acordada, suas notas caíram porque ela não conseguia se concentrar nas provas.
✅ Faltas e atrasos frequentes
– Carlos faltava ao trabalho pelo menos duas vezes por semana porque passava a noite jogando pôquer online e não conseguia acordar.
– Fernanda inventava desculpas para faltar à faculdade porque precisava ficar em casa vendo lives de apostas.
✅ Problemas com colegas e chefes
– Ricardo ficou irritado e agressivo no trabalho depois que tentou parar de tomar o chá que comprava na feira. Seus colegas começaram a evitá-lo.
– Patrícia mentia para o chefe dizendo que estava doente, mas na verdade estava gastando horas em sites de compras.
✅ Demissão ou reprovação
– Lucas foi demitido depois de ser flagrado apostando em sites de jogos durante o expediente.
– Beatriz foi reprovada na faculdade porque não entregou nenhum trabalho — ela passava todas as noites rolando o feed do Instagram.
Nos relacionamentos (família, amigos, parceiros)
A adicção é como um terceiro elemento no relacionamento: ela rouba atenção, gera desconfiança e cria conflitos.
✅ Mentiras e segredos
– Ana escondia do marido que estava gastando o dinheiro da poupança em apostas online.
– Thiago dizia para a namorada que estava “só dando uma olhada” no celular, mas na verdade passava horas em redes sociais.
✅ Isolamento social
– Pedro deixou de sair com os amigos porque preferia ficar em casa vendo séries e comendo fast food.
– Juliana parou de atender as ligações da mãe porque não queria ouvir reclamações sobre seu vício em compras.
✅ Conflitos e brigas
– Marcos gritou com a esposa quando ela escondeu o chá que ele tomava todos os dias. Ela ficou assustada com a reação dele.
– Camila brigava com o namorado toda vez que ele tentava tirar o celular dela para que ela dormisse.
✅ Traição e desconfiança
– Gustavo foi pego mentindo sobre onde estava porque na verdade estava em uma casa de apostas.
– Renata descobriu que o marido pegou dinheiro emprestado para comprar mais um suplemento para musculação, mesmo sabendo que a família estava endividada.
Na rotina (sono, alimentação, autocuidado, lazer)
A adicção desregula completamente os hábitos básicos de uma pessoa.
✅ Sono desregulado
– Daniel dormia apenas 3 horas por noite porque ficava até tarde jogando no celular.
– Luiza tomava remédios para dormir todas as noites, mas mesmo assim acordava cansada.
✅ Alimentação prejudicada
– Rodrigo pulava refeições porque estava ocupado demais apostando online.
– Fernanda comia apenas fast food porque não tinha tempo (ou vontade) de cozinhar — ela preferia passar horas em redes sociais.
✅ Falta de autocuidado
– Patrícia parou de tomar banho regularmente porque preferia ficar na cama vendo séries.
– Thiago deixou de ir ao dentista porque gastava todo o dinheiro em suplementos para academia.
✅ Lazer substituído pela adicção
– Carlos parou de jogar futebol com os amigos porque preferia ficar em casa vendo lives de jogos.
– Ana deixou de ler livros porque não conseguia se concentrar — ela preferia rolar o feed do TikTok.
Na saúde física
A adicção não afeta só a mente — ela destrói o corpo de várias formas.
✅ Problemas de sono
– Insônia, sono fragmentado, pesadelos.
✅ Dores e problemas físicos
– Dores de cabeça (por uso excessivo de telas ou abstinência).
– Problemas digestivos (por má alimentação ou uso de substâncias).
– Dores musculares (por excesso de exercícios ou falta de movimento).
✅ Doenças crônicas
– Pressão alta (por estresse e ansiedade).
– Problemas cardíacos (por uso de estimulantes ou excesso de exercícios).
– Diabetes (por má alimentação e sedentarismo).
✅ Sistema imunológico enfraquecido
– Gripes e resfriados frequentes (por falta de sono e má alimentação).
– Feridas que demoram a cicatrizar (por desnutrição ou uso de substâncias).
O que causa essa condição?
A adicção não tem uma única causa — ela é resultado de uma combinação de fatores. Vamos entender cada um deles.
1. Fatores genéticos: “isso está no meu DNA?”
Algumas pessoas nascem com uma predisposição maior para desenvolver adicção. Isso não significa que vão ter o problema, mas que têm mais chances se forem expostas a certos gatilhos.
Como funciona?
Imagine que o cérebro é como um jardim. Algumas pessoas nascem com sementes mais frágeis — se não cuidarem bem do solo (ambiente) e da rega (hábitos), as plantas (comportamentos) podem crescer de forma descontrolada.
Exemplos:
– Se seus pais ou avós tiveram problemas com álcool, drogas ou jogos, você tem mais chances de desenvolver uma adicção.
– Estudos mostram que gêmeos idênticos (que têm o mesmo DNA) têm mais chances de ambos desenvolverem adicção do que gêmeos não idênticos.
Mito vs. Verdade:
❌ Mito: “Se meu pai era alcoólatra, eu também vou ser.”
✅ Verdade: A genética aumenta o risco, mas não determina o futuro. Muitas pessoas com histórico familiar nunca desenvolvem adicção porque têm um ambiente saudável e estratégias de enfrentamento.
2. Fatores neurobiológicos: o que acontece no cérebro?
A adicção muda a forma como o cérebro funciona. É como se ele fosse reprogramado para buscar a substância ou comportamento a qualquer custo.
Como funciona?
Imagine que o cérebro tem um sistema de recompensa, como um videogame:
– Quando você faz algo bom (comer, socializar, se exercitar), o cérebro libera dopamina (o “ponto” do jogo).
– Em pessoas com adicção, a substância ou comportamento libera dopamina em excesso, como se você ganhasse 1000 pontos de uma vez.
– Com o tempo, o cérebro se acostuma e exige mais para sentir a mesma satisfação.
– Quando a pessoa tenta parar, o cérebro entra em pânico e gera sintomas de abstinência (como um jogador que perde todos os pontos e fica frustrado).
Exemplos:
– Álcool e drogas: Aumentam a dopamina de forma artificial, fazendo o cérebro esquecer de buscar prazer em outras coisas.
– Jogos e redes sociais: São projetados para liberar dopamina em pequenas doses, mantendo a pessoa viciada em “mais um nível” ou “mais um vídeo”.
– Compras compulsivas: A antecipação da compra ativa o sistema de recompensa, mesmo antes de o produto chegar.
Mito vs. Verdade:
❌ Mito: “Adicção é falta de força de vontade.”
✅ Verdade: A adicção altera a química do cérebro, tornando muito difícil parar apenas com força de vontade. É como pedir para alguém com depressão “sair dessa” — não funciona assim.
3. Fatores ambientais: o que acontece ao redor?
O ambiente em que vivemos pode facilitar ou dificultar o desenvolvimento de uma adicção.
Fatores de risco:
✔ Família desestruturada: Pais ausentes, brigas constantes, abuso.
✔ Amigos que usam substâncias ou têm comportamentos aditivos: “Todo mundo faz, então eu também faço.”
✔ Estresse crônico: Trabalho exaustivo, problemas financeiros, violência.
✔ Fácil acesso: Ter drogas em casa, cartão de crédito sem limites, internet ilimitada.
✔ Traumas: Abuso sexual, bullying, acidentes, perdas importantes.
Fatores de proteção:
✔ Família presente e afetiva.
✔ Amigos que incentivam hábitos saudáveis.
✔ Acesso a lazer e atividades prazerosas (esportes, arte, música).
✔ Educação sobre os riscos (escola, família, mídia).
Exemplo real:
– João cresceu em uma família onde todos bebiam muito. Na adolescência, começou a beber para se sentir aceito. Hoje, aos 30 anos, luta contra o alcoolismo.
– Maria passou por um assalto violento e desenvolveu ansiedade. Começou a tomar remédios para dormir e, sem perceber, ficou dependente.
Mito vs. Verdade:
❌ Mito: “Só pessoas fracas desenvolvem adicção.”
✅ Verdade: A adicção não escolhe — ela pode afetar qualquer pessoa, independentemente de caráter ou força de vontade. O que faz diferença é o ambiente e o acesso a tratamento.
4. Fatores da gestação e desenvolvimento
O que acontece antes mesmo de nascermos pode influenciar o risco de adicção.
Exemplos:
– Mães que usaram álcool ou drogas durante a gravidez: O bebê pode nascer com maior predisposição para adicção.
– Estresse materno durante a gestação: Pode alterar o desenvolvimento do cérebro do bebê, aumentando o risco de problemas emocionais.
– Traumas na infância: Abuso, negligência ou violência podem reprogramar o cérebro para buscar alívio em substâncias ou comportamentos.
Mito vs. Verdade:
❌ Mito: “Se minha mãe bebia na gravidez, estou condenado.”
✅ Verdade: O risco aumenta, mas não é uma sentença. Muitas pessoas com histórico familiar nunca desenvolvem adicção porque tiveram um ambiente seguro e tratamento adequado.
5. Modelo biopsicossocial: a combinação de tudo
A adicção não é causada por um único fator — é a soma de genética, cérebro, ambiente e experiências de vida.
Analogia:
Imagine que a adicção é como um incêndio:
– Genética: É a madeira seca — algo que pega fogo mais fácil.
– Cérebro: É o vento — ele espalha o fogo mais rápido.
– Ambiente: É a faísca — o que inicia o incêndio.
– Experiências de vida: São o combustível — o que mantém o fogo aceso.
Para apagar o incêndio, é preciso atuar em todas as frentes:
– Medicamentos (para “molhar a madeira”).
– Terapia (para “controlar o vento”).
– Mudanças no ambiente (para “evitar novas faíscas”).
– Suporte social (para “retirar o combustível”).
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico de transtorno devido a comportamentos aditivos não especificados (6C5Z) não é como fazer um exame de sangue e ver o resultado. É um processo cuidadoso, que envolve conversa, observação e, às vezes, exames.
Vamos entender passo a passo como isso acontece.
1. O primeiro passo: reconhecer que algo está errado
Muitas pessoas demoram anos para procurar ajuda porque:
– Não percebem que têm um problema (acham que é “só um hábito”).
– Têm vergonha de admitir (medo de serem julgadas).
– Não sabem que existe tratamento.
Sinais de que é hora de procurar ajuda:
✔ Você tenta parar várias vezes, mas não consegue.
✔ O comportamento prejudica sua vida (trabalho, relacionamentos, saúde).
✔ Você mente ou esconde o que está fazendo.
✔ Você sente abstinência quando tenta parar (ansiedade, irritação, tremores).
✔ Pessoas próximas já expressaram preocupação.
2. A primeira consulta: o que esperar?
O diagnóstico é feito por um psiquiatra ou psicólogo especializado em adicções. No SUS, você pode ser encaminhado por um médico da UBS (Unidade Básica de Saúde) para um CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas).
Como é a consulta?
1. Conversa inicial: O profissional vai perguntar sobre seus hábitos, rotina, histórico familiar e sintomas.
– “Há quanto tempo você usa [substância/comportamento]?”
– “Como isso afeta sua vida?”
– “Você já tentou parar? Como foi?”
2. Questionários: Alguns profissionais usam testes padronizados para avaliar a gravidade da adicção.
– Exemplo: AUDIT (para álcool), DAST (para drogas), Internet Addiction Test (para vício em internet).
3. Exames físicos: Em alguns casos, o médico pode pedir exames de sangue, urina ou imagem para verificar danos ao corpo.
– Exemplo: Se há suspeita de uso de drogas, um exame toxicológico pode ser solicitado.
4. Avaliação psicológica: Para entender se há outros transtornos associados, como depressão ou ansiedade.
Quanto tempo leva?
– Primeira consulta: 1 a 2 horas.
– Diagnóstico final: Pode levar algumas semanas, especialmente se for necessário investigar melhor a substância ou comportamento.
3. Quem pode diagnosticar?
| Profissional | O que faz? | Onde encontrar? |
|---|---|---|
| Psiquiatra | Faz o diagnóstico e prescreve medicamentos. | SUS (CAPS AD, hospitais), clínicas particulares. |
| Psicólogo | Faz avaliação psicológica e terapia. | SUS (CAPS, UBS), clínicas particulares. |
| Médico clínico/geral | Pode suspeitar do problema e encaminhar para especialista. | UBS, pronto-socorro. |
| Terapeuta ocupacional | Ajuda na reinserção social e profissional. | CAPS, clínicas de reabilitação. |
| Assistente social | Auxilia em questões sociais (família, trabalho, benefícios). | CAPS, CRAS (Centro de Referência de Assistência Social). |
4. SUS vs. Particular: como funciona no Brasil?
No SUS (Sistema Único de Saúde)
✅ Vantagens:
– Gratuito.
– Estrutura completa: CAPS AD, comunidades terapêuticas, internação quando necessário.
– Equipe multidisciplinar: psiquiatra, psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional.
❌ Desafios:
– Fila de espera: Em algumas cidades, pode demorar meses para uma consulta com psiquiatra.
– Falta de profissionais: Em regiões mais pobres, pode haver carência de especialistas.
Como acessar?
1. Vá até uma UBS (Unidade Básica de Saúde) e peça encaminhamento para um CAPS AD.
2. Se não houver CAPS AD na sua cidade, o médico da UBS pode encaminhar para um psiquiatra em um hospital.
3. Em casos graves, procure um pronto-socorro (se houver intoxicação ou risco de vida).
No particular
✅ Vantagens:
– Agilidade: Consulta pode ser marcada em dias.
– Mais opções de tratamento: Terapias alternativas, clínicas de reabilitação.
❌ Desafios:
– Custo alto: Uma consulta com psiquiatra pode custar R$ 300 a R$ 800.
– Planos de saúde: Muitos não cobrem tratamento para adicção.
Como acessar?
– Procure um psiquiatra ou psicólogo especializado em adicções.
– Clínicas de reabilitação (algumas aceitam convênio).
5. Diagnóstico diferencial: o que pode ser confundido?
Às vezes, os sintomas de adicção podem ser confundidos com outros transtornos. O médico precisa descartar outras possibilidades antes de confirmar o 6C5Z.
| Condição | Como se diferencia? |
|---|---|
| Depressão | A pessoa pode usar substâncias ou comportamentos para aliviar a tristeza, mas o problema principal é o humor. |
| Transtorno de ansiedade | A ansiedade pode levar ao uso de substâncias para se acalmar, mas o foco é a ansiedade, não a adicção. |
| Transtorno bipolar | Em fases de euforia (mania), a pessoa pode ter comportamentos impulsivos (gastos, sexo, drogas), mas isso é temporário. |
| TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção) | A impulsividade pode levar a comportamentos de risco, mas não necessariamente a uma adicção. |
| Esquizofrenia | Algumas pessoas com esquizofrenia usam drogas para aliviar sintomas, mas o problema principal é a psicose. |
Exemplo real:
– Pedro foi diagnosticado com depressão, mas na verdade seu problema era vício em jogos online. Ele jogava para escapar da tristeza, mas o jogo piorava sua depressão.
– Ana achava que tinha ansiedade, mas depois de uma avaliação, descobriu que seu vício em compras era o que a deixava ansiosa.
Tratamento
O tratamento da adicção não é uma receita de bolo — ele precisa ser personalizado para cada pessoa. Mas, em geral, envolve três pilares:
1. Medicamentos (quando necessário).
2. Psicoterapia.
3. Mudanças no estilo de vida.
Vamos entender cada um deles.
1. Medicamentos
Nem todo mundo com adicção precisa de remédios, mas em alguns casos eles ajudam a controlar os sintomas e facilitam a recuperação.
Tipos de medicamentos usados
| Medicamento | Para que serve? | Como funciona? | Efeitos colaterais comuns |
|---|---|---|---|
| Naltrexona | Reduz a vontade de usar álcool ou opioides. | Bloqueia os receptores de prazer no cérebro. | Náusea, dor de cabeça, cansaço. |
| Acamprosato | Ajuda a manter a abstinência de álcool. | Reduz a ansiedade e o desconforto da abstinência. | Diarreia, coceira, insônia. |
| Metadona/Buprenorfina | Tratamento para dependência de opioides (heroína, morfina). | Substitui a droga por uma versão mais controlada. | Sonolência, prisão de ventre, sudorese. |
| Bupropiona | Ajuda a parar de fumar e reduz a vontade de usar estimulantes. | Aumenta a dopamina de forma controlada. | Boca seca, insônia, agitação. |
| Topiramato | Reduz a vontade de beber álcool ou usar cocaína. | Modula a atividade cerebral. | Formigamento, dificuldade de concentração. |
| Antidepressivos (ISRS) | Tratam depressão ou ansiedade associadas à adicção. | Aumentam a serotonina no cérebro. | Náusea, sonolência, diminuição do desejo sexual. |
Importante:
– Os medicamentos não “curam” a adicção, mas ajudam a controlar os sintomas enquanto a pessoa trabalha na recuperação.
– Nunca pare de tomar um remédio sem orientação médica — a abstinência de alguns medicamentos pode ser perigosa.
– Alguns remédios podem causar dependência (como os benzodiazepínicos), por isso devem ser usados por tempo limitado.
2. Psicoterapia
A terapia é fundamental no tratamento da adicção. Ela ajuda a pessoa a:
✔ Entender por que desenvolveu o vício.
✔ Aprender estratégias para lidar com a vontade de usar.
✔ Reconstruir autoestima e relacionamentos.
✔ Prevenir recaídas.
Abordagens com mais evidência científica
| Terapia | Como funciona? | Para quem é indicada? | Duração média |
|---|---|---|---|
| Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) | Identifica pensamentos e comportamentos que levam à adicção e ensina novas formas de lidar com eles. | Para quase todos os tipos de adicção. | 12 a 24 sessões. |
| Entrevista Motivacional | Ajuda a pessoa a encontrar motivação interna para mudar. | Para quem está em dúvida se quer parar. | 2 a 4 sessões. |
| Terapia de Prevenção de Recaída | Ensina estratégias práticas para evitar recaídas. | Para quem já tentou parar várias vezes. | 12 a 24 sessões. |
| Terapia Familiar | Envolve a família no tratamento para melhorar a comunicação e o suporte. | Quando a família está muito afetada pela adicção. | 6 a 12 sessões. |
| Grupos de Apoio (como NA, AA, Jogadores Anônimos) | Oferece suporte de pessoas que passam pelo mesmo problema. | Para quem se sente sozinho na luta contra a adicção. | Contínuo (encontros semanais). |
| Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) | Ajuda a pessoa a aceitar os pensamentos difíceis sem agir impulsivamente. | Para quem tem muita culpa ou vergonha. | 12 a 24 sessões. |
Como é uma sessão de terapia?
- Primeiras sessões: O terapeuta faz perguntas para entender sua história e seus desafios.
- Sessões seguintes: Vocês trabalham em metas específicas (ex.: “Como lidar com a vontade de jogar?”).
- Tarefas de casa: O terapeuta pode pedir que você anote seus pensamentos ou pratique técnicas entre as sessões.
- Sessões finais: Vocês revisam o progresso e planejam como manter as mudanças.
Exemplo real:
– João fazia TCC para vício em jogos online. O terapeuta o ajudou a identificar que ele jogava quando se sentia sozinho. Eles trabalharam em novas formas de lidar com a solidão, como marcar encontros com amigos.
– Maria participava do AA (Alcoólicos Anônimos). Nos encontros, ela ouvia histórias de outras pessoas e se sentia menos sozinha.
3. Mudanças no dia a dia
A recuperação da adicção não acontece só no consultório — ela depende de mudanças reais na rotina. Vamos ver o que pode ajudar.
Exercício físico
Por que ajuda?
– Libera endorfinas (substâncias naturais que dão prazer).
– Reduz ansiedade e depressão.
– Melhora o sono e a autoestima.
Quais exercícios são melhores?
– Caminhada, corrida, natação: Liberam endorfina e são fáceis de começar.
– Yoga e meditação: Ajudam a controlar a ansiedade.
– Musculação: Melhora a autoimagem.
– Esportes em grupo (futebol, vôlei): Promovem socialização.
Dica:
– Comece com 10 minutos por dia e vá aumentando.
– Escolha uma atividade que você goste — se não gostar de academia, dance, nade ou caminhe no parque.
Sono
Por que é importante?
– A falta de sono aumenta a vontade de usar substâncias ou comportamentos aditivos.
– Melhora o humor e a capacidade de tomar decisões.
Dicas para dormir melhor:
✔ Rotina: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias.
✔ Ambiente: Quarto escuro, silencioso e fresco.
✔ Evite telas: Desligue celular, TV e computador 1 hora antes de dormir.
✔ Relaxamento: Leia um livro, ouça música calma ou faça respiração profunda.
✔ Evite cafeína à tarde: Café, chá preto e refrigerantes podem atrapalhar o sono.
Alimentação
Por que faz diferença?
– Uma dieta equilibrada melhora o humor e a energia.
– Alguns alimentos ajudam a reduzir a vontade de usar substâncias.
O que comer?
✅ Alimentos ricos em triptofano (ajudam a produzir serotonina, o “hormônio da felicidade”):
– Banana, ovos, peixes, castanhas, chocolate amargo.
✅ Carboidratos complexos (dão energia de forma gradual):
– Arroz integral, aveia, pão integral.
✅ Ômega-3 (melhora a função cerebral):
– Salmão, sardinha, linhaça, nozes.
✅ Água: A desidratação aumenta a ansiedade.
O que evitar?
❌ Açúcar refinado: Causa picos de energia seguidos de queda brusca, aumentando a vontade de usar substâncias.
❌ Cafeína em excesso: Pode aumentar a ansiedade.
❌ Alimentos ultraprocessados: Podem piorar o humor.
Rotina
Por que uma rotina ajuda?
– A adicção desorganiza a vida — ter uma rotina dá segurança e previsibilidade.
– Ajuda a evitar momentos de tédio ou estresse, que podem levar à recaída.
Como estruturar o dia?
1. Acordar no mesmo horário (mesmo nos fins de semana).
2. Tomar café da manhã (mesmo que não tenha fome).
3. Definir horários para trabalho/estudo.
4. Incluir atividades prazerosas (hobbies, exercícios, socialização).
5. Dormir cedo (evitar madrugadas).
Exemplo de rotina:
| Horário | Atividade |
|———|———–|
| 7:00 | Acordar, tomar café da manhã. |
| 8:00 – 12:00 | Trabalho/estudo. |
| 12:00 – 13:00 | Almoço + caminhada de 15 minutos. |
| 13:00 – 18:00 | Trabalho/estudo. |
| 18:00 – 19:00 | Exercício físico. |
| 19:00 – 20:00 | Jantar + tempo com a família. |
| 20:00 – 21:30 | Hobby (ler, desenhar, tocar instrumento). |
| 21:30 – 22:30 | Relaxamento (meditação, banho quente). |
| 22:30 | Dormir. |
Técnicas de manejo para os sintomas
Quando a vontade de usar aparece, é importante ter estratégias para lidar com ela.
| Técnica | Como fazer? | Quando usar? |
|---|---|---|
| Respiração 4-7-8 | Inspire por 4 segundos, segure por 7, expire por 8. Repita 4 vezes. | Quando sentir ansiedade ou vontade intensa. |
| Distração | Faça algo que ocupe sua mente: ligue para um amigo, limpe a casa, desenhe. | Quando a vontade estiver muito forte. |
| Autoconversa | Diga a si mesmo: “Isso vai passar. Eu já consegui antes, vou conseguir de novo.” | Quando sentir desesperança. |
| Lista de prós e contras | Anote por que vale a pena parar e o que você perde se continuar. | Quando estiver em dúvida se vale a pena mudar. |
| Contato com a natureza | Dê uma caminhada no parque, sente-se na grama, observe as árvores. | Quando sentir agitação ou estresse. |
| Técnica do “10 minutos” | Diga: “Vou esperar 10 minutos antes de decidir.” Muitas vezes, a vontade passa. | Quando sentir impulso de usar. |
Convivendo com o diagnóstico
Receber um diagnóstico de adicção não é o fim — é o começo de uma nova fase. Mas isso não significa que será fácil. Vamos ver como pacientes e familiares podem lidar com essa realidade.
Para a pessoa com o diagnóstico
1. Aceite que a recuperação é um processo
- Não existe “cura mágica”: A adicção é uma doença crônica, como diabetes ou hipertensão. Você vai precisar cuidar dela para sempre.
- Recaídas fazem parte: Se você recair, não desista. Use isso como aprendizado para fortalecer sua recuperação.
- Celebre as pequenas vitórias: Parar por um dia já é um progresso. Não espere ser perfeito.
2. Construa uma rede de apoio
- Fale com pessoas de confiança: Amigos, família, terapeuta, grupos de apoio.
- Evite pessoas e lugares que te tentam: Se seus amigos bebem muito, talvez seja hora de fazer novas amizades.
- Participe de grupos de apoio: AA, NA, Jogadores Anônimos, Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (DASA).
3. Cuide da sua saúde mental
- Faça terapia: Mesmo que você já esteja melhor, a terapia ajuda a manter o progresso.
- Pratique mindfulness: Meditação, yoga ou respiração consciente ajudam a controlar a ansiedade.
- Escreva um diário: Anotar seus pensamentos e sentimentos pode ajudar a identificar gatilhos.
4. Encontre novos propósitos
- Descubra novos hobbies: Pintura, música, esportes, voluntariado.
- Estabeleça metas: Pode ser voltar a estudar, mudar de emprego ou viajar.
- Ajude outras pessoas: Quando você ajuda alguém que passa pelo mesmo problema, se sente mais forte.
5. Aprenda a lidar com a vergonha e a culpa
- Você não é sua adicção: Você é uma pessoa que está lutando contra uma doença.
- Perdoe-se: Todos cometem erros. O importante é aprender com eles.
- Fale sobre seus sentimentos: Guardar tudo para si só aumenta o sofrimento.
Para familiares e amigos
1. Como ajudar (sem sufocar)
✅ Ouça sem julgar: Deixe a pessoa falar sobre seus sentimentos sem interromper ou criticar.
✅ Incentive o tratamento: Ofereça-se para acompanhar nas consultas ou ajudar a pesquisar opções.
✅ Estabeleça limites saudáveis: Você pode amar a pessoa, mas não precisa aceitar comportamentos abusivos.
✅ Celebre as conquistas: Parabéns por um dia sem usar, por ir à terapia, por qualquer pequeno progresso.
❌ O que NÃO fazer:
– Culpar ou envergonhar: Frases como “Você não tem vergonha?” só pioram a situação.
– Fazer ameaças vazias: “Se você não parar, vou te deixar!” (se você não vai cumprir).
– Cobrir os erros: Pagar dívidas, mentir para o chefe, limpar a bagunça. Isso não ajuda a pessoa a assumir responsabilidade.
– Tratar a pessoa como incapaz: Ela pode se recuperar, mas precisa de apoio, não de pena.
2. Como cuidar de si mesmo
- Você não é responsável pela recuperação da pessoa: Você pode apoiar, mas não salvar.
- Procure ajuda para você: Terapia, grupos de apoio para familiares (como Al-Anon ou Nar-Anon).
- Não negligencie sua vida: Continue trabalhando, saindo com amigos, fazendo suas atividades.
- Estabeleça limites: Se a pessoa recair, você não precisa aceitar agressões ou manipulações.
3. Como explicar para outras pessoas
- Seja honesto, mas discreto: “Ele está passando por um momento difícil e está em tratamento.”
- Evite detalhes desnecessários: Não precisa contar todos os problemas da pessoa.
- Peça apoio: Se precisar de ajuda (para cuidar dos filhos, por exemplo), peça diretamente.
Quando os sintomas podem piorar?
Algumas situações aumentam o risco de recaída. Fique atento a:
⚠ Estresse intenso: Problemas no trabalho, fim de relacionamento, luto.
⚠ Exposição a gatilhos: Ver amigos usando, passar na frente de um bar, receber uma notificação de jogo.
⚠ Isolamento social: Ficar muito tempo sozinho pode aumentar a vontade de usar.
⚠ Festas e comemorações: Natal, Ano-Novo, aniversários (onde o uso de álcool e drogas é comum).
⚠ Mudanças bruscas: Mudança de cidade, novo emprego, nascimento de um filho.
O que fazer nesses momentos?
– Aumente o autocuidado: Durma bem, alimente-se bem, faça exercícios.
– Evite situações de risco: Se sabe que vai encontrar amigos que bebem, vá acompanhado de alguém que te apoia.
– Tenha um plano B: Se sentir vontade de usar, ligue para um amigo, vá caminhar, beba água.
– Lembre-se dos motivos para parar: Faça uma lista e leia quando sentir vontade.
Perguntas frequentes
1. “Adicção tem cura?”
Não existe uma “cura” no sentido de nunca mais sentir vontade, mas a adicção pode ser controlada. É como uma doença crônica (diabetes, hipertensão): você precisa cuidar dela para sempre, mas pode ter uma vida normal e feliz.
Muitas pessoas param de usar substâncias ou comportamentos aditivos e nunca mais voltam. Outras aprendem a controlar o uso (como alguém que bebia todos os dias e passa a beber socialmente).
O importante é não desistir. Mesmo que você recaia, cada tentativa é um passo em direção à recuperação.
2. “Como saber se estou em negação?”
A negação é comum em casos de adicção. Alguns sinais de que você pode estar em negação:
– Minimizar o problema: “Todo mundo bebe assim”, “Só jogo um pouquinho”.
– Racionalizar: “Eu mereço”, “Só hoje”.
– Culpar os outros: “Se minha família não me estressasse, eu não precisaria usar”.
– Comparar com casos piores: “Pelo menos não sou como fulano, que usa crack”.
Como sair da negação?
– Ouça as pessoas que te amam: Se várias pessoas expressaram preocupação, talvez elas estejam certas.
– Faça uma autoavaliação honesta: Anote quanto você usa, quanto gasta, como isso afeta sua vida.
– Experimente parar por 30 dias: Se for muito difícil, é um sinal de que você pode ter um problema.
3. “Posso me recuperar sozinho?”
Algumas pessoas conseguem parar sozinhas, mas a maioria precisa de ajuda. A adicção altera o cérebro, tornando muito difícil parar apenas com força de vontade.
Por que buscar ajuda?
– Medicamentos podem reduzir a vontade de usar.
– Terapia ajuda a entender as causas da adicção e aprender estratégias para lidar com ela.
– Grupos de apoio oferecem suporte emocional e exemplos de recuperação.
– Família e amigos podem apoiar (se souberem como ajudar).
Se você está em dúvida se precisa de ajuda, pergunte-se:
– Já tentei parar várias vezes e não consegui?
– O comportamento prejudica minha vida (trabalho, relacionamentos, saúde)?
– Sinto vergonha ou culpa pelo que faço?
– Pessoas próximas já expressaram preocupação?
Se a resposta for sim para alguma dessas perguntas, procure ajuda.
4. “Como lidar com a vontade de usar?”
A vontade de usar é como uma onda: ela vem forte, mas passa. O segredo é não lutar contra ela, mas surfar até ela passar.
Estratégias práticas:
1. Espere 10 minutos: A vontade geralmente passa nesse tempo.
2. Distraia-se: Faça algo que ocupe sua mente (ligue para um amigo, limpe a casa, assista a um filme).
3. Use a técnica do “5 sentidos”:
– Veja: Olhe ao redor e nomeie 5 coisas que você vê.
– Toque: Sinta 4 texturas diferentes (roupa, mesa, cabelo).
– Ouça: Identifique 3 sons ao seu redor.
– Cheire: Sinta 2 aromas (café, sabonete).
– Prove: Coloque algo na boca (uma bala, um chiclete).
4. Lembre-se dos motivos para parar: Faça uma lista e leia quando sentir vontade.
5. Fale com alguém: Ligue para um amigo, terapeuta ou membro de um grupo de apoio.
5. “O que fazer se eu recair?”
A recaída não é um fracasso — é uma parte comum do processo de recuperação. O importante é não desistir.
Passos para lidar com a recaída:
1. Pare imediatamente: Se você usou uma vez, não use de novo. Cada vez que você usa, a vontade aumenta.
2. Analise o que aconteceu: O que desencadeou a recaída? Estresse? Solidão? Exposição a um gatilho?
3. Peça ajuda: Fale com seu terapeuta, médico ou grupo de apoio.
4. Recomece: Volte ao tratamento, não espere “melhorar sozinho”.
5. Aprenda com a recaída: Use essa experiência para fortalecer sua recuperação.
Exemplo real:
– Pedro recaiu depois de uma briga com a esposa. Em vez de desistir, ele voltou à terapia, aumentou a frequência nos grupos de apoio e aprendeu técnicas para lidar com a raiva. Hoje, está 1 ano sem recaídas.
6. “Como ajudar um familiar que não quer tratamento?”
Essa é uma das situações mais difíceis para familiares. Algumas estratégias:
✅ Não force, mas não desista: Você pode oferecer ajuda, mas não pode obrigar a pessoa a aceitar.
✅ Intervenção profissional: Em casos graves, uma intervenção familiar (com ajuda de um terapeuta) pode ajudar.
✅ Estabeleça limites: “Eu te amo, mas não vou mais pagar suas dívidas.”
✅ Cuide de si mesmo: Procure terapia ou grupos de apoio para familiares (como Al-Anon).
✅ Não perca a esperança: Muitas pessoas só buscam ajuda depois de anos de negação.
Exemplo real:
– Ana tentou de tudo para fazer o filho parar de usar drogas: conversas, ameaças, promessas. Nada funcionou. Ela procurou o Al-Anon, aprendeu a estabelecer limites e, depois de um tempo, o filho decidiu buscar tratamento por conta própria.
7. “Adicção é falta de caráter?”
Não. A adicção é uma doença do cérebro, não um defeito moral.
Por que as pessoas ainda pensam assim?
– Estigma: A sociedade julga quem tem adicção, como se fosse uma escolha.
– Desinformação: Muitas pessoas não entendem como a adicção funciona.
– Preconceito: Alguns acreditam que só pessoas “fracas” desenvolvem adicção.
A verdade:
– A adicção altera a química do cérebro, tornando muito difícil parar apenas com força de vontade.
– Qualquer pessoa pode desenvolver adicção, independentemente de caráter ou inteligência.
– O tratamento funciona: Muitas pessoas se recuperam e levam vidas plenas.
Como combater o estigma?
– Fale sobre o assunto: Quanto mais as pessoas entenderem, menos vão julgar.
– Compartilhe histórias de recuperação: Mostre que é possível melhorar.
– Defenda políticas públicas: Apoie tratamentos acessíveis e campanhas de prevenção.
8. “Quanto tempo leva para se recuperar?”
Não existe um prazo definido. A recuperação é um processo individual e depende de vários fatores:
– Tipo de adicção: Algumas substâncias (como álcool e opioides) têm abstinência mais difícil.
– Tempo de uso: Quanto mais tempo a pessoa usou, mais tempo pode levar para se recuperar.
– Suporte social: Quem tem família e amigos apoiando se recupera mais rápido.
– Tratamento: Quem faz terapia e usa medicamentos (quando necessário) tem melhores resultados.
Em geral:
– Primeiros 3 meses: Os mais difíceis (abstinência, ajustes na rotina).
– 6 meses a 1 ano: A pessoa começa a se sentir mais estável.
– 2 anos ou mais: A recuperação se consolida, mas sempre há risco de recaída.
Exemplo real:
– João parou de beber com 3 meses de tratamento. Hoje, 5 anos depois, ele não bebe mais, mas ainda vai a reuniões do AA para se manter firme.
– Maria parou de jogar com 1 ano de terapia. Ela ainda sente vontade às vezes, mas sabe como lidar.
9. “Posso beber socialmente depois de parar?”
Depende do tipo de adicção e do tempo de recuperação.
✅ Para algumas pessoas, sim:
– Quem tinha dependência leve e parou por um longo tempo pode conseguir beber socialmente sem problemas.
– Exemplo: Alguém que bebia todos os dias e parou por 2 anos pode conseguir tomar uma taça de vinho no Natal.
❌ Para outras pessoas, não:
– Quem tinha dependência grave ou histórico de recaídas deve evitar completamente.
– Exemplo: Alguém que já teve convulsões por abstinência de álcool não deve arriscar.
O que fazer?
– Converse com seu médico ou terapeuta: Eles podem avaliar seu caso específico.
– Se decidir beber, faça com moderação: Não beba sozinho, não beba para lidar com emoções, não beba em excesso.
– Esteja preparado para recaídas: Se perceber que está perdendo o controle, pare imediatamente.
10. “Como evitar recaídas?”
A prevenção de recaídas é um trabalho contínuo. Algumas estratégias:
✅ Identifique seus gatilhos: O que desencadeia a vontade de usar? Estresse? Solidão? Tédio?
✅ Tenha um plano de emergência: O que você vai fazer quando sentir vontade? Ligar para um amigo? Ir caminhar?
✅ Mantenha uma rotina saudável: Sono, alimentação, exercícios.
✅ Evite pessoas e lugares de risco: Se seus amigos bebem muito, faça novas amizades.
✅ Continue em tratamento: Mesmo depois de melhorar, faça terapia de manutenção.
✅ Participe de grupos de apoio: AA, NA, Jogadores Anônimos.
✅ Pratique mindfulness: Meditação ajuda a controlar impulsos.
✅ Celebre suas conquistas: Cada dia sem usar é uma vitória.
Exemplo real:
– Carlos tinha vício em cocaína. Depois de se recuperar, ele evitou festas, começou a correr e fez novos amigos que não usavam drogas. Hoje, está 3 anos limpo.
Quando procurar ajuda urgente
Alguns sinais indicam que a situação pode estar fora de controle e que é preciso ajuda imediata.
Sinais de alerta (procure um pronto-socorro)
⚠ Overdose ou intoxicação grave:
– Dificuldade para respirar.
– Convulsões.
– Perda de consciência.
– Dor no peito.
– Alucinações ou delírios.
⚠ Sintomas graves de abstinência:
– Tremores intensos.
– Confusão mental.
– Frequência cardíaca acelerada.
– Pressão alta.
– Suor excessivo.
⚠ Risco de suicídio:
– Falar em morte ou suicídio.
– Dar objetos pessoais de valor.
– Isolamento extremo.
– Desesperança (“Não aguento mais”).
O que fazer?
- Ligue para o SAMU (192) ou vá para o pronto-socorro mais próximo.
- Não deixe a pessoa sozinha.
- Se houver suspeita de overdose, não espere: Chame ajuda imediatamente.
Referências
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022.
- American Psychiatric Association (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
- National Institute on Drug Abuse (NIDA). Princípios de Tratamento para a Dependência de Drogas. 2020.
- Alcoólicos Anônimos (AA). Os Doze Passos. 2023.
- Narcóticos Anônimos (NA). Guia de Recuperação. 2023.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.
📞 CVV (Centro de Valorização da Vida): Ligue 188 (gratuito, 24 horas).
🏥 CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas): Procure a unidade mais próxima.
💊 SAMU: Ligue 192 em casos de emergência.