O que é?
Imagine que o seu cérebro é como um carro. Para funcionar bem, ele precisa de combustível na medida certa: nem pouco, para não ficar parado, nem demais, para não superaquecer. Os estimulantes são substâncias que, de certa forma, “aceleram” esse carro. Eles aumentam a atividade do sistema nervoso, deixando a pessoa mais alerta, com mais energia e, em alguns casos, até mais focada. A cafeína, presente no café, nos energéticos e em alguns chás, é o estimulante mais comum e socialmente aceito. Mas existem outros, como as anfetaminas (usadas em remédios para TDAH ou em drogas ilícitas como o “rebite”), a cocaína e até alguns medicamentos para emagrecer.
O problema começa quando o uso dessas substâncias sai do controle. O transtorno mental e comportamental devido ao uso de estimulantes (F15) acontece quando o consumo dessas substâncias passa a causar sofrimento significativo, prejudicar a vida da pessoa ou até mesmo desencadear sintomas psiquiátricos, como ansiedade extrema, paranoia ou insônia crônica. Não se trata apenas de “exagerar no café” ou “ficar ligado” depois de um energético. Estamos falando de um padrão de uso que foge do normal, onde a pessoa perde o controle sobre quanto e com que frequência consome, mesmo sabendo dos prejuízos.
Como isso se diferencia de uma reação normal?
Todo mundo já tomou um café a mais e ficou com as mãos tremendo ou o coração acelerado. Ou então usou um energético para aguentar uma noite de estudos e depois não conseguiu dormir. Isso é uma reação normal e passageira. O transtorno começa quando:
– A pessoa precisa da substância para funcionar no dia a dia (por exemplo, não consegue trabalhar sem tomar vários cafés ou usar anfetamina).
– O uso causa problemas sérios, como brigas em casa, perda de emprego, dívidas ou problemas de saúde.
– Mesmo querendo parar, a pessoa não consegue, ou sofre muito com a abstinência (dor de cabeça, cansaço extremo, irritabilidade).
– Aparecem sintomas psiquiátricos, como alucinações, paranoia ou depressão, que não existiam antes do uso.
É como se o cérebro ficasse “viciado” no acelerador e não soubesse mais como funcionar no ritmo normal.
Quem é afetado?
No Brasil, não temos dados exatos sobre quantas pessoas têm esse transtorno especificamente, mas sabemos que:
– O consumo de cafeína é altíssimo: cerca de 90% dos brasileiros tomam café diariamente, e muitos exageram na dose. Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que 1 em cada 4 pessoas que consomem café regularmente apresentam sintomas de dependência leve.
– O uso de anfetaminas (como os remédios para emagrecer ou TDAH) também é preocupante. Segundo a Anvisa, o Brasil é um dos maiores consumidores de sibutramina (um emagrecedor com efeito estimulante) do mundo.
– A cocaína, embora menos comum que a cafeína, afeta cerca de 2 milhões de brasileiros, segundo o Relatório Mundial sobre Drogas da ONU (2023). Muitos usuários desenvolvem transtornos mentais associados.
– Jovens e adultos entre 18 e 35 anos são os mais afetados, especialmente homens. Mas mulheres também sofrem, principalmente com o uso de medicamentos para emagrecer ou para “aguentar” a dupla jornada de trabalho e cuidados com a casa.
Um pouco de história
Os estimulantes não são novidade. O café foi descoberto na Etiópia no século IX e se espalhou pelo mundo árabe antes de chegar à Europa. No Brasil, o café se tornou um símbolo nacional a partir do século XVIII, com as grandes plantações no Vale do Paraíba.
Já as anfetaminas foram sintetizadas pela primeira vez em 1887, mas só ganharam popularidade na Segunda Guerra Mundial, quando soldados alemães e japoneses as usavam para ficar acordados e combater o cansaço. Depois da guerra, elas foram prescritas como remédio para emagrecer e tratar depressão, até que se descobriu o alto potencial de dependência.
A cocaína, por sua vez, era usada pelos povos andinos há milhares de anos (na forma de folhas de coca) para combater o mal da altitude. No século XIX, foi isolada em laboratório e usada em medicamentos e até em refrigerantes (como a Coca-Cola original). Hoje, é uma das drogas ilícitas mais consumidas no mundo.
O que mudou nos últimos anos é a medicalização do problema. Antes, se uma pessoa tinha crises de ansiedade por causa do café, era vista como “nervosa” ou “fraca”. Hoje, entendemos que o uso excessivo de estimulantes pode alterar a química do cérebro e desencadear transtornos mentais reais.
Quais são os sintomas?
Os sintomas do transtorno devido ao uso de estimulantes (F15) variam dependendo da substância, da quantidade usada e do tempo de consumo. Mas, em geral, eles podem ser divididos em quatro grupos principais:
1. Sintomas de intoxicação (o que acontece logo depois de usar).
2. Sintomas de abstinência (o que acontece quando a pessoa para de usar).
3. Sintomas psiquiátricos (ansiedade, paranoia, depressão).
4. Problemas no dia a dia (no trabalho, nos relacionamentos, na saúde).
Vamos detalhar cada um deles, com exemplos práticos para você entender como isso aparece na vida real.
1. Intoxicação por estimulantes
A intoxicação é o que acontece quando a pessoa usa uma quantidade maior do que o corpo consegue processar. É como se o cérebro ficasse “sobrecarregado” de energia. Os sintomas mais comuns são:
a) Aceleração física e mental
- O que é? O coração dispara, a respiração fica rápida, as mãos tremem, a pessoa fala sem parar e não consegue ficar parada.
- Exemplo 1: João tomou três xícaras de café seguidas para estudar para uma prova. Depois de meia hora, começou a sentir o coração batendo forte, como se fosse pular do peito. Tentou ler, mas as palavras pareciam pular na página. Quando foi ao banheiro, percebeu que as mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar a escova de dentes.
- Exemplo 2: Maria usou cocaína em uma festa. Logo depois, começou a falar sem parar, pulando de um assunto para outro. Os amigos tentavam acompanhar, mas ela não parava quieta, andando de um lado para o outro e mexendo em tudo ao redor.
- Normal vs. Sintomático: Todo mundo já ficou “ligado” depois de um café forte, mas na intoxicação a sensação é de perda de controle. É como se o corpo estivesse em um carro sem freio.
b) Ansiedade ou paranoia
- O que é? A pessoa fica extremamente desconfiada, com medo de que algo ruim vá acontecer, ou acredita que está sendo perseguida.
- Exemplo 1: Pedro tomou um energético para dirigir a noite toda. Depois de algumas horas, começou a achar que os carros atrás dele eram da polícia. Ficou tão nervoso que parou o carro no acostamento e ligou para a namorada chorando, dizendo que “alguém estava atrás dele”.
- Exemplo 2: Ana usou anfetamina para emagrecer. No segundo dia, começou a achar que os colegas de trabalho estavam falando dela. Quando alguém ria, ela tinha certeza de que era por sua causa. No fim do dia, estava tão paranoica que trancou a porta do escritório e não deixou ninguém entrar.
- Normal vs. Sintomático: É normal ficar um pouco ansioso em situações de estresse, mas na intoxicação a paranoia é irracional e intensa, como se a pessoa estivesse vivendo um filme de terror.
c) Alucinações ou delírios
- O que é? A pessoa vê, ouve ou sente coisas que não existem, ou acredita em coisas que não têm lógica.
- Exemplo 1: Carlos usou cocaína pela primeira vez. Depois de algumas horas, começou a ver “sombras” se movendo nas paredes. Quando fechava os olhos, ouvia vozes sussurrando seu nome. Ficou tão assustado que correu para a rua gritando por ajuda.
- Exemplo 2: Juliana tomou um remédio para TDAH sem receita. No dia seguinte, acordou convencida de que seu vizinho estava espionando ela pelo celular. Passou o dia inteiro olhando pela janela e anotando tudo o que ele fazia.
- Normal vs. Sintomático: Sonhar acordado ou ter uma imaginação fértil é normal. Mas alucinações e delírios são vividos como reais e causam muito sofrimento.
d) Comportamentos de risco
- O que é? A pessoa faz coisas perigosas sem pensar nas consequências, como dirigir em alta velocidade, gastar todo o dinheiro ou se envolver em brigas.
- Exemplo 1: Lucas bebeu vários energéticos e depois saiu dirigindo. No caminho, começou a ultrapassar carros em alta velocidade, achando que era “imbatível”. Acabou batendo o carro e machucando um pedestre.
- Exemplo 2: Camila usou cocaína em uma festa e, no auge da euforia, decidiu gastar todo o seu salário em roupas caras. No dia seguinte, não tinha dinheiro nem para pagar o aluguel.
- Normal vs. Sintomático: Todo mundo já tomou uma decisão impulsiva, mas na intoxicação o comportamento é autodestrutivo e fora de controle.
2. Abstinência de estimulantes
Quando a pessoa para de usar a substância (ou reduz drasticamente), o corpo entra em um estado de “falta”. É como se o cérebro, acostumado com o acelerador ligado, de repente ficasse sem energia. Os sintomas mais comuns são:
a) Cansaço extremo e sonolência
- O que é? A pessoa se sente exausta, como se tivesse corrido uma maratona, mesmo sem fazer nada.
- Exemplo 1: Ricardo parou de tomar café depois de anos bebendo 6 xícaras por dia. No segundo dia sem cafeína, acordou se sentindo como se tivesse sido atropelado por um caminhão. Não conseguiu sair da cama e dormiu 14 horas seguidas.
- Exemplo 2: Fernanda usava anfetamina para emagrecer. Quando tentou parar, passou uma semana inteira dormindo o dia todo. Quando acordava, se sentia tão cansada que mal conseguia levantar para ir ao banheiro.
- Normal vs. Sintomático: É normal se sentir cansado depois de um dia estressante, mas na abstinência o cansaço é incapacitante, como se o corpo estivesse desligando.
b) Irritabilidade e mau humor
- O que é? A pessoa fica facilmente irritada, explode por qualquer coisa e tem dificuldade para controlar as emoções.
- Exemplo 1: Depois de parar de tomar café, Marcos ficou tão irritado que brigou com a esposa porque ela demorou 5 minutos para responder uma mensagem. No trabalho, gritou com um colega por um erro bobo.
- Exemplo 2: Paula parou de usar cocaína e, nos primeiros dias, chorava por qualquer coisa. Quando o filho derrubou um copo, ela teve um ataque de raiva e quebrou um prato na parede.
- Normal vs. Sintomático: Todo mundo tem dias ruins, mas na abstinência a irritabilidade é desproporcional e difícil de controlar.
c) Depressão e falta de prazer
- O que é? A pessoa se sente vazia, sem vontade de fazer nada, como se a vida tivesse perdido a cor.
- Exemplo 1: Depois de parar com os energéticos, Tiago passou a odiar tudo o que antes gostava. Não tinha mais vontade de jogar videogame, sair com os amigos ou até mesmo comer sua comida favorita.
- Exemplo 2: Carla usava cocaína para se sentir “feliz”. Quando parou, entrou em uma depressão profunda. Passava os dias deitada no sofá, olhando para o teto e pensando que “nada mais valia a pena”.
- Normal vs. Sintomático: É normal ter dias tristes, mas na abstinência a depressão é intensa e persistente, como se a pessoa tivesse perdido a capacidade de sentir prazer.
d) Aumento do apetite
- O que é? A pessoa sente uma fome constante, como se nunca estivesse satisfeita.
- Exemplo 1: Depois de parar com os remédios para emagrecer, Renata começou a comer sem parar. No primeiro dia, devorou um pacote inteiro de biscoitos, uma pizza e ainda repetiu o jantar.
- Exemplo 2: João parou de tomar café e, nos primeiros dias, sentiu uma vontade incontrolável de comer doces. Chegou a acordar de madrugada para comer brigadeiro.
- Normal vs. Sintomático: É normal ter mais fome em alguns dias, mas na abstinência o apetite é exagerado e difícil de saciar.
e) Dores de cabeça e dores no corpo
- O que é? A pessoa sente dores fortes, como se estivesse gripada ou tivesse levado uma pancada.
- Exemplo 1: Depois de parar de tomar café, Ana teve uma dor de cabeça tão forte que não conseguia abrir os olhos. Tomou analgésico, mas a dor só passou depois de 3 dias.
- Exemplo 2: Pedro parou de usar anfetamina e, no segundo dia, sentiu dores no corpo inteiro, como se tivesse sido espancado. Não conseguia nem levantar da cama.
- Normal vs. Sintomático: É normal ter uma dor de cabeça de vez em quando, mas na abstinência as dores são intensas e duradouras.
3. Sintomas psiquiátricos persistentes
Mesmo depois que a intoxicação ou a abstinência passam, algumas pessoas continuam tendo sintomas psiquiátricos. Isso acontece porque o uso prolongado de estimulantes pode alterar a química do cérebro. Os mais comuns são:
a) Ansiedade crônica
- O que é? A pessoa vive em um estado constante de alerta, como se algo ruim fosse acontecer a qualquer momento.
- Exemplo 1: Depois de anos tomando café em excesso, Luana desenvolveu um transtorno de ansiedade. Mesmo sem tomar café, vivia com o coração acelerado, suando frio e com medo de que algo terrível acontecesse com a família.
- Exemplo 2: Marcos usava cocaína esporadicamente. Depois de um tempo, começou a ter crises de pânico, mesmo sem usar a droga. Sentia falta de ar, tontura e uma sensação de que ia morrer.
- Normal vs. Sintomático: É normal ficar ansioso antes de uma prova ou uma entrevista de emprego, mas na ansiedade crônica o medo é constante e sem motivo aparente.
b) Depressão
- O que é? A pessoa se sente triste, sem esperança e sem energia por semanas ou meses.
- Exemplo 1: Depois de parar de usar anfetamina, Juliana entrou em uma depressão profunda. Não tinha vontade de sair da cama, chorava sem motivo e pensava em se matar.
- Exemplo 2: Ricardo usava cocaína para “fugir” dos problemas. Quando parou, percebeu que não sabia mais como lidar com a vida sem a droga. Sentia um vazio tão grande que considerou voltar a usar.
- Normal vs. Sintomático: É normal se sentir triste depois de uma perda, mas na depressão o sofrimento é intenso e duradouro, como se a pessoa estivesse presa em um buraco sem saída.
c) Psicose induzida por estimulantes
- O que é? A pessoa perde o contato com a realidade, ouvindo vozes, vendo coisas que não existem ou acreditando em coisas absurdas.
- Exemplo 1: Depois de usar cocaína por vários dias seguidos, Pedro começou a ouvir vozes dizendo que ele era “especial” e que precisava “salvar o mundo”. Foi internado depois de tentar pular de um prédio porque “as vozes mandaram”.
- Exemplo 2: Ana usava anfetamina para estudar. Depois de uma semana sem dormir, começou a acreditar que os professores estavam “conspirando” contra ela. Foi expulsa da faculdade depois de acusar um professor de perseguição.
- Normal vs. Sintomático: Sonhar acordado ou ter uma imaginação fértil é normal. Mas na psicose, as alucinações e delírios são vividos como reais e causam muito sofrimento.
4. Problemas no dia a dia
O uso excessivo de estimulantes não afeta só a mente, mas também todas as áreas da vida. Veja alguns exemplos:
a) No trabalho ou na escola
- A pessoa começa a faltar porque não consegue acordar sem a substância.
- O desempenho cai porque ela não consegue se concentrar (ou porque está sempre “ligada” demais).
- Pode ser demitida ou reprovada por comportamentos impulsivos (como brigar com o chefe ou gastar o dinheiro da empresa).
Exemplo: Carlos usava cocaína para trabalhar até tarde. No começo, era produtivo, mas depois de alguns meses, começou a chegar atrasado, a cometer erros bobos e a brigar com os colegas. Foi demitido depois de gritar com o gerente.
b) Nos relacionamentos
- A pessoa se isola porque prefere usar a substância a estar com a família ou amigos.
- Fica irritada e explosiva, causando brigas constantes.
- Pode mentir ou esconder o uso, quebrando a confiança dos entes queridos.
Exemplo: Mariana usava anfetamina para emagrecer. No começo, o marido apoiava, mas depois de um tempo, ela começou a mentir sobre quanto tomava, a ficar agressiva quando ele questionava e a se recusar a sair de casa. O casamento acabou em divórcio.
c) Na saúde física
- Problemas cardíacos (arritmia, infarto).
- Pressão alta.
- Insônia crônica.
- Perda de peso extrema (ou ganho, na abstinência).
- Problemas dentários (no caso da cocaína).
Exemplo: João tomava 10 xícaras de café por dia. Depois de alguns anos, desenvolveu gastrite e arritmia cardíaca. Precisou ser internado depois de um desmaio no trabalho.
d) Na saúde mental
- Desenvolvimento de outros transtornos, como depressão, ansiedade ou psicose.
- Pensamentos suicidas.
- Dificuldade para lidar com emoções sem a substância.
Exemplo: Depois de parar de usar cocaína, Lucas entrou em uma depressão tão profunda que tentou se matar. Precisou ser internado em uma clínica psiquiátrica.
Um alerta importante
Ter um ou dois desses sintomas não significa que você tenha o transtorno. Por exemplo:
– Se você tomou um café a mais e ficou com o coração acelerado, isso é uma reação normal.
– Se você parou de tomar café e teve dor de cabeça por um dia, isso é abstinência leve.
– Se você usou cocaína uma vez e ficou paranoico, isso é intoxicação, mas não necessariamente um transtorno.
O diagnóstico só é feito quando:
✅ Os sintomas são intensos (não dá para ignorar).
✅ Duram por semanas ou meses (não são passageiros).
✅ Causam sofrimento ou prejuízo (no trabalho, nos relacionamentos, na saúde).
✅ A pessoa não consegue controlar o uso, mesmo querendo.
Se você se identificou com vários desses sintomas, não se desespere. Muitas pessoas conseguem se recuperar com tratamento. O primeiro passo é procurar ajuda.
Como se manifesta no dia a dia?
O transtorno por uso de estimulantes não é algo que aparece só “na hora de usar a droga”. Ele invade todas as áreas da vida, mudando a forma como a pessoa pensa, age e se relaciona. Vamos ver como isso acontece na prática, em diferentes situações do cotidiano.
No trabalho ou na escola
1. Queda no desempenho
- O que acontece? A pessoa começa a ter dificuldade para se concentrar, comete erros bobos e não consegue terminar as tarefas.
- Exemplo 1: Marcos era um ótimo aluno, mas depois que começou a usar anfetamina para estudar, passou a tirar notas baixas. Mesmo passando a noite inteira acordado, não conseguia se lembrar do que tinha lido.
- Exemplo 2: Ana era uma excelente vendedora, mas depois que começou a tomar vários cafés por dia, passou a esquecer os pedidos dos clientes e a confundir os valores. Foi demitida depois de perder uma venda importante.
- Por quê? Os estimulantes, em excesso, sobrecarregam o cérebro, deixando a pessoa “ligada” demais para pensar com clareza. É como tentar ler um livro enquanto alguém grita no seu ouvido.
2. Atrasos e faltas
- O que acontece? A pessoa não consegue acordar sem a substância ou fica tão exausta na abstinência que não tem energia para ir trabalhar.
- Exemplo 1: Depois de anos tomando café para acordar, Ricardo desenvolveu insônia. Quando tentava dormir sem café, passava a noite em claro e chegava atrasado no trabalho. Foi advertido várias vezes.
- Exemplo 2: Carla usava cocaína para aguentar turnos duplos. Quando tentava parar, dormia 12 horas seguidas e ainda assim se sentia cansada. Começou a faltar e acabou sendo demitida.
- Por quê? O corpo se acostuma com o estimulante e não sabe mais como funcionar sem ele. É como um carro que só anda com o acelerador no máximo: quando você tira o pé, ele apaga.
3. Comportamentos impulsivos
- O que acontece? A pessoa age sem pensar, tomando decisões arriscadas ou agressivas.
- Exemplo 1: João era gerente de uma loja, mas depois que começou a usar cocaína, passou a gritar com os funcionários por qualquer coisa. Foi demitido depois de uma briga com um cliente.
- Exemplo 2: Mariana era estagiária em um escritório. Depois de tomar vários energéticos, decidiu gastar todo o dinheiro da empresa em uma aposta online. Foi descoberta e processada.
- Por quê? Os estimulantes diminuem o controle dos impulsos, como se o cérebro perdesse o “freio de mão”.
Nos relacionamentos
1. Isolamento social
- O que acontece? A pessoa prefere usar a substância a estar com a família ou amigos.
- Exemplo 1: Pedro sempre gostou de sair com os amigos, mas depois que começou a usar anfetamina para emagrecer, passou a recusar todos os convites. Preferia ficar em casa tomando o remédio e assistindo TV.
- Exemplo 2: Luana era muito próxima da mãe, mas depois que começou a usar cocaína, passou a mentir sobre onde estava e a evitar visitas. A mãe achava que ela estava “namorando muito” e não desconfiava do problema.
- Por quê? A substância se torna mais importante do que as relações, como se fosse um “relacionamento tóxico” com a droga.
2. Brigas e agressividade
- O que acontece? A pessoa fica irritada, explode por qualquer coisa e causa conflitos constantes.
- Exemplo 1: Depois de parar de tomar café, Marcos ficou tão irritado que brigou com a esposa porque ela demorou para passar o café. No trabalho, gritou com um colega por um erro bobo.
- Exemplo 2: Ana usava cocaína e, quando estava sob efeito, acusava o namorado de traição sem motivo. Uma vez, jogou um prato nele durante uma discussão.
- Por quê? Os estimulantes aumentam a irritabilidade, como se a pessoa estivesse sempre “no limite”.
3. Mentiras e desconfiança
- O que acontece? A pessoa esconde o uso, mente sobre quanto consome e fica desconfiada dos outros.
- Exemplo 1: Ricardo usava anfetamina para emagrecer e mentia para a esposa, dizendo que eram “vitaminas”. Quando ela descobriu, não acreditou mais em nada do que ele dizia.
- Exemplo 2: Carla usava cocaína e escondia os saquinhos pela casa. Quando o marido achou um, ela jurou que não era dela e acusou ele de estar “inventando coisas”.
- Por quê? A culpa e a vergonha fazem a pessoa esconder o problema, o que acaba destruindo a confiança.
Na rotina
1. Sono desregulado
- O que acontece? A pessoa não consegue dormir sem a substância ou dorme demais na abstinência.
- Exemplo 1: Depois de anos tomando café, João não conseguia dormir sem tomar uma xícara antes de deitar. Quando tentava parar, passava a noite em claro.
- Exemplo 2: Mariana usava cocaína e, quando tentava parar, dormia 14 horas seguidas e ainda assim se sentia cansada.
- Por quê? Os estimulantes bagunçam o relógio biológico, como se o cérebro esquecesse como “desligar”.
2. Alimentação desequilibrada
- O que acontece? A pessoa perde o apetite sob efeito da substância ou come demais na abstinência.
- Exemplo 1: Pedro usava anfetamina para emagrecer e passava dias sem comer. Chegou a desmaiar no trabalho de fraqueza.
- Exemplo 2: Depois de parar de tomar café, Ana passou a comer doces o dia inteiro. Engordou 10 quilos em um mês.
- Por quê? Os estimulantes suprimem a fome, enquanto a abstinência aumenta o apetite, especialmente por açúcar.
3. Falta de autocuidado
- O que acontece? A pessoa para de se cuidar, deixando de lado higiene, exercícios e lazer.
- Exemplo 1: Carlos usava cocaína e passou semanas sem tomar banho, escovar os dentes ou trocar de roupa. Os amigos achavam que ele estava “deprimido”.
- Exemplo 2: Juliana usava anfetamina para estudar e parou de fazer as unhas, depilar as pernas ou sair com as amigas. Só pensava em “dar conta” das provas.
- Por quê? A substância se torna a prioridade, e tudo o mais perde importância.
Na saúde física
1. Problemas cardíacos
- O que acontece? O coração dispara, a pressão sobe e podem ocorrer arritmias ou infartos.
- Exemplo 1: João tomava 10 xícaras de café por dia. Um dia, sentiu uma dor no peito e foi parar no hospital com taquicardia.
- Exemplo 2: Pedro usava cocaína e teve um infarto aos 30 anos. Os médicos disseram que a droga “queimou” as artérias do coração.
- Por quê? Os estimulantes forçam o coração a trabalhar demais, como um motor que está sempre no limite.
2. Problemas gastrointestinais
- O que acontece? Gastrite, refluxo, diarreia ou prisão de ventre.
- Exemplo 1: Ana tomava café em jejum todos os dias. Depois de alguns anos, desenvolveu uma gastrite tão forte que não conseguia comer nada sem sentir dor.
- Exemplo 2: Carlos usava anfetamina e passou a ter diarreia constante. Perdeu tanto peso que ficou com aparência de doente.
- Por quê? Os estimulantes irritam o estômago e os intestinos, como se fossem um veneno para o sistema digestivo.
3. Problemas dentários (no caso da cocaína)
- O que acontece? Cáries, perda de dentes e feridas na gengiva.
- Exemplo: Mariana cheirava cocaína e, depois de alguns anos, perdeu vários dentes. Os que sobraram estavam podres e cheios de cáries.
- Por quê? A cocaína resseca a boca e corrói os dentes, além de fazer a pessoa ranger os dentes (bruxismo).
O que causa essa condição?
Não existe uma única causa para o transtorno por uso de estimulantes. Ele é resultado de uma combinação de fatores, como genética, ambiente, experiências de vida e até mesmo a química do cérebro. Vamos entender cada um deles.
1. Fatores genéticos: “O problema está no DNA?”
Imagine que o seu cérebro é como um quebra-cabeça. Algumas pessoas nascem com peças que se encaixam perfeitamente, enquanto outras têm peças um pouco diferentes, que tornam mais fácil desenvolver dependência.
- Estudos com gêmeos mostram que, se um gêmeo idêntico tem dependência de estimulantes, o outro tem 50% mais chances de desenvolver o mesmo problema. Isso sugere que a genética influencia, mas não determina tudo.
- Genes específicos podem tornar algumas pessoas mais sensíveis aos efeitos dos estimulantes. Por exemplo, quem tem uma variação no gene DRD2 (relacionado à dopamina) pode sentir mais prazer com a cocaína e ter mais dificuldade para parar.
- Histórico familiar também conta. Se seus pais ou avós tiveram problemas com álcool, drogas ou até mesmo com café em excesso, você pode ter uma predisposição maior.
Mas atenção: Ter uma predisposição genética não significa que você vai desenvolver o transtorno. É como ter uma tendência a engordar: se você comer mal e não se exercitar, provavelmente vai ganhar peso. Mas se cuidar da alimentação e se mexer, pode manter o peso saudável.
2. Fatores neurobiológicos: “O que acontece no cérebro?”
Os estimulantes agem diretamente no sistema de recompensa do cérebro, que é como um “botão de prazer”. Quando você faz algo bom (como comer chocolate ou receber um elogio), esse sistema libera dopamina, um neurotransmissor que faz você se sentir feliz.
O problema é que os estimulantes forçam esse sistema a liberar dopamina em excesso, como se alguém apertasse o botão de prazer o tempo todo. Com o tempo, o cérebro se acostuma e passa a precisar de mais e mais dopamina para sentir o mesmo prazer. É como se você tomasse um gole de café e sentisse o mesmo efeito de três xícaras.
Além disso:
– A cafeína bloqueia a adenosina, uma substância que faz você se sentir cansado. É como se ela “enganasse” o cérebro, dizendo que você não está cansado quando, na verdade, está.
– As anfetaminas e a cocaína aumentam a noradrenalina, que deixa você em estado de alerta. É como se o cérebro estivesse sempre em “modo emergência”.
– O uso prolongado pode danificar os receptores de dopamina, fazendo com que a pessoa só se sinta bem quando está usando a substância. É como se o cérebro esquecesse como produzir prazer naturalmente.
3. Fatores ambientais: “A culpa é da sociedade?”
O ambiente em que você vive também influencia no desenvolvimento do transtorno. Alguns fatores de risco são:
a) Estresse e pressão social
- Exemplo 1: João começou a usar cocaína porque todos os colegas de trabalho usavam e ele queria “se enturmar”.
- Exemplo 2: Ana começou a tomar anfetamina para emagrecer porque se sentia pressionada pela sociedade a ter um corpo “perfeito”.
- Por quê? Em um mundo que valoriza a produtividade, a magreza e o sucesso a qualquer custo, muitas pessoas recorrem aos estimulantes para “dar conta” de tudo.
b) Traumas e abusos
- Exemplo 1: Pedro foi abusado na infância e começou a usar cocaína para “esquecer” o que aconteceu.
- Exemplo 2: Mariana sofreu bullying na escola e começou a tomar anfetamina para “ter energia” e se sentir mais confiante.
- Por quê? Os estimulantes podem ser uma forma de automedicação, uma tentativa de aliviar a dor emocional.
c) Disponibilidade da substância
- Exemplo 1: No Brasil, o café é barato e fácil de encontrar. Muitas pessoas tomam várias xícaras por dia sem nem perceber que estão exagerando.
- Exemplo 2: Em algumas profissões (como caminhoneiros ou estudantes de medicina), o uso de anfetaminas é “normalizado”. Quem não usa pode se sentir excluído.
- Por quê? Quanto mais fácil for conseguir a substância, maior o risco de desenvolver dependência.
d) Falta de apoio social
- Exemplo 1: Carla começou a usar cocaína depois de se mudar para uma cidade nova, onde não conhecia ninguém. A droga se tornou sua “companhia”.
- Exemplo 2: Ricardo se sentiu sozinho depois de se divorciar e começou a tomar vários cafés por dia para “preencher o vazio”.
- Por quê? Quando não temos uma rede de apoio, é mais fácil recorrer a substâncias para lidar com a solidão.
4. Fatores da gestação e desenvolvimento: “O problema começou antes de nascer?”
Alguns estudos sugerem que experiências na gestação ou na primeira infância podem aumentar o risco de dependência. Por exemplo:
– Exposição a substâncias na gravidez: Se a mãe usou cocaína, anfetaminas ou até mesmo café em excesso durante a gestação, o bebê pode nascer com uma maior sensibilidade a esses estimulantes.
– Traumas na infância: Crianças que sofreram abuso, negligência ou violência têm mais chances de desenvolver dependência na vida adulta.
– Genética + ambiente: Uma criança com predisposição genética que cresce em um ambiente estressante tem um risco ainda maior.
5. Modelo biopsicossocial: “É tudo junto e misturado?”
Na psiquiatria, usamos o modelo biopsicossocial para entender os transtornos mentais. Isso significa que não existe uma única causa, mas sim uma combinação de:
– Fatores biológicos (genética, química do cérebro).
– Fatores psicológicos (traumas, personalidade, formas de lidar com emoções).
– Fatores sociais (ambiente, cultura, pressão social).
Exemplo prático:
– João tem uma predisposição genética para dependência (fator biológico).
– Quando criança, sofreu bullying na escola (fator psicológico).
– Na faculdade, todos os colegas usavam anfetamina para estudar (fator social).
– Resultado: João desenvolveu um transtorno por uso de estimulantes.
Mitos e verdades sobre as causas
❌ Mito 1: “Só pessoas fracas desenvolvem dependência.”
✅ Verdade: A dependência não tem a ver com força de vontade. É uma doença do cérebro, como diabetes ou hipertensão. Ninguém escolhe ter diabetes, e ninguém escolhe desenvolver dependência.
❌ Mito 2: “Se eu parar de usar, o problema some.”
✅ Verdade: Parar de usar é o primeiro passo, mas muitas pessoas continuam tendo sintomas psiquiátricos (como ansiedade ou depressão) mesmo depois da abstinência. O tratamento precisa ser contínuo.
❌ Mito 3: “Café não vicia, só drogas pesadas.”
✅ Verdade: A cafeína também causa dependência, embora os sintomas sejam mais leves. Quem para de tomar café de repente pode ter dor de cabeça, cansaço e irritabilidade.
❌ Mito 4: “Só quem usa cocaína tem problemas. Remédios para TDAH são seguros.”
✅ Verdade: Os medicamentos para TDAH (como Ritalina e Concerta) também são estimulantes e podem causar dependência se usados sem acompanhamento médico.
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico psiquiátrico pode ser assustador, mas é o primeiro passo para se recuperar. Vamos entender como funciona esse processo, desde os primeiros sintomas até a consulta com o profissional.
1. Os primeiros sinais: “Será que eu tenho um problema?”
Muitas pessoas demoram anos para perceber que têm um transtorno por uso de estimulantes. Isso acontece porque:
– Os sintomas começam devagar, como um café a mais por dia ou um energético para aguentar o trabalho.
– A sociedade normaliza o uso de estimulantes (ex.: “Todo mundo toma café”, “É só um remedinho para emagrecer”).
– A pessoa não quer admitir que perdeu o controle.
Sinais de alerta:
✔ Você precisa da substância para funcionar (ex.: não consegue trabalhar sem café).
✔ Já tentou parar, mas não conseguiu.
✔ O uso está prejudicando sua vida (no trabalho, nos relacionamentos, na saúde).
✔ Você mente sobre quanto usa.
✔ Sente culpa ou vergonha depois de usar.
Se você se identificou com dois ou mais desses sinais, pode ser hora de procurar ajuda.
2. O processo de avaliação: “O que o médico vai perguntar?”
O diagnóstico é feito por um psiquiatra ou psicólogo clínico, através de uma entrevista detalhada. Não existe um exame de sangue ou de imagem que diagnostique o transtorno, mas o profissional pode pedir alguns exames para descartar outras condições.
a) Primeira consulta: “Conte-me sua história”
O médico vai fazer perguntas sobre:
– Seu padrão de uso: Quanto você usa? Com que frequência? Há quanto tempo?
– Sintomas: Como você se sente depois de usar? E quando para?
– Impacto na vida: O uso está prejudicando seu trabalho, seus relacionamentos ou sua saúde?
– Histórico familiar: Alguém na sua família tem problemas com álcool, drogas ou transtornos mentais?
– Histórico pessoal: Você já teve depressão, ansiedade ou outros problemas psiquiátricos?
Exemplo de perguntas:
– “Quantas xícaras de café você toma por dia?”
– “Você já tentou parar e não conseguiu?”
– “O uso de estimulantes já te causou problemas no trabalho ou em casa?”
– “Você sente que precisa da substância para se sentir bem?”
b) Exames complementares: “Vamos descartar outras coisas”
O médico pode pedir:
– Exames de sangue e urina: Para verificar se há outras substâncias no organismo ou problemas de saúde (como anemia ou alterações na tireoide).
– Eletrocardiograma (ECG): Se houver suspeita de problemas cardíacos (comum em quem usa cocaína ou anfetamina).
– Avaliação psicológica: Alguns psicólogos aplicam testes para medir o nível de dependência.
Importante: Um exame de urina positivo para cocaína não significa que você tem o transtorno. O diagnóstico leva em conta o padrão de uso e o impacto na vida, não só a presença da substância no corpo.
c) Diagnóstico diferencial: “Será que não é outra coisa?”
Alguns transtornos podem ser confundidos com o uso de estimulantes. O médico vai descartar:
– Transtorno de ansiedade: A ansiedade pode causar sintomas parecidos com a intoxicação por estimulantes (coração acelerado, tremores).
– Transtorno bipolar: A fase de mania pode se parecer com a euforia causada pela cocaína.
– TDAH: Algumas pessoas com TDAH usam estimulantes (como Ritalina) para se concentrar, mas o transtorno em si não é causado pelo uso.
– Depressão: A falta de energia na abstinência pode ser confundida com depressão.
– Esquizofrenia: As alucinações causadas pela cocaína podem se parecer com sintomas psicóticos.
3. Quanto tempo leva para ser diagnosticado?
Não existe um prazo exato, mas em geral:
– Primeiros sintomas → Procura por ajuda: Muitas pessoas demoram anos para admitir que têm um problema. Algumas só buscam ajuda depois de uma crise (ex.: uma overdose, uma demissão, uma briga familiar).
– Primeira consulta → Diagnóstico: Em 1 a 3 consultas, o médico já consegue fazer o diagnóstico. Às vezes, é necessário um acompanhamento mais longo para entender melhor o caso.
– Diagnóstico → Tratamento: Quanto antes começar, melhor. Algumas pessoas melhoram em algumas semanas, outras precisam de meses ou anos de acompanhamento.
4. Quem pode diagnosticar?
- Psiquiatra: Médico especializado em transtornos mentais. É o profissional mais indicado para diagnosticar e prescrever medicamentos.
- Psicólogo clínico: Pode fazer o diagnóstico e oferecer psicoterapia, mas não prescreve remédios.
- Médico de família (UBS): Em alguns casos, o clínico geral pode suspeitar do transtorno e encaminhar para um especialista.
- CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): No SUS, os CAPS oferecem atendimento gratuito para dependência química.
Dica: Se você não tem plano de saúde, procure uma UBS (Unidade Básica de Saúde) ou um CAPS AD (Álcool e Drogas). O SUS oferece tratamento gratuito para dependência química.
5. O que esperar da primeira consulta?
Muitas pessoas ficam nervosas antes da primeira consulta, mas não precisa ter medo. O médico está ali para ajudar, não para julgar. Veja o que geralmente acontece:
- Chegada: Você será recebido por um profissional (médico, psicólogo ou assistente social) e preencherá uma ficha com seus dados.
- Conversa inicial: O profissional vai perguntar sobre seus sintomas, seu histórico e suas preocupações. Seja honesto. Não adianta esconder informações, pois isso pode atrapalhar o diagnóstico.
- Exame físico (se necessário): Em alguns casos, o médico pode pedir para medir sua pressão, ouvir seu coração ou fazer um exame rápido.
- Explicação do diagnóstico: Se o médico suspeitar do transtorno, ele vai explicar o que está acontecendo e quais são as opções de tratamento.
- Plano de tratamento: Vocês vão conversar sobre medicamentos, psicoterapia e mudanças no estilo de vida.
- Dúvidas: Você pode (e deve!) fazer todas as perguntas que tiver. Não saia da consulta com dúvidas.
Dica: Leve um familiar ou amigo de confiança para a consulta. Às vezes, é difícil lembrar de tudo o que foi dito, e outra pessoa pode ajudar.
6. Diagnóstico no SUS vs. particular
| SUS | Particular |
|---|---|
| Gratuito, mas pode ter fila de espera. | Pago, mas o atendimento costuma ser mais rápido. |
| Atendimento em UBS, CAPS ou hospitais públicos. | Atendimento em clínicas particulares ou consultórios. |
| O psiquiatra pode encaminhar para psicoterapia gratuita no próprio SUS. | Você pode escolher o psicólogo ou psiquiatra que preferir. |
| Medicamentos grátis (pelo Farmácia Popular ou programas do governo). | Medicamentos pagos, mas alguns planos de saúde cobrem parte do valor. |
| Vantagem: Acesso universal, sem custo. | Vantagem: Mais agilidade e privacidade. |
Se você não tem plano de saúde:
– Procure uma UBS e peça encaminhamento para um CAPS AD (para dependência química) ou um CAPS geral (para transtornos mentais).
– O CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188 ou pelo site www.cvv.org.br.
Tratamento
Receber o diagnóstico pode ser um alívio (“Finalmente sei o que tenho!”) ou um susto (“E agora, o que eu faço?”). A boa notícia é que o transtorno por uso de estimulantes tem tratamento, e muitas pessoas conseguem se recuperar completamente.
O tratamento geralmente envolve três pilares:
1. Medicamentos (para controlar os sintomas e reduzir a vontade de usar).
2. Psicoterapia (para entender as causas do problema e aprender a lidar com ele).
3. Mudanças no estilo de vida (sono, alimentação, exercícios, rede de apoio).
Vamos detalhar cada um deles.
1. Medicamentos
Os remédios não são a “cura” para o transtorno, mas ajudam a:
– Controlar os sintomas de abstinência (ansiedade, depressão, insônia).
– Reduzir a vontade de usar a substância.
– Tratar outros transtornos que podem estar associados (como depressão ou ansiedade).
a) Medicamentos para abstinência
Quando a pessoa para de usar estimulantes, o corpo entra em um estado de “falta”. Alguns remédios podem ajudar a aliviar esses sintomas:
| Medicamento | Para que serve? | Como funciona? | Efeitos colaterais comuns |
|---|---|---|---|
| Benzodiazepínicos (ex.: Diazepam, Clonazepam) | Ansiedade, insônia, agitação. | Acalmam o sistema nervoso. | Sonolência, tontura, risco de dependência (por isso são usados por pouco tempo). |
| Antidepressivos (ex.: Fluoxetina, Sertralina) | Depressão, ansiedade. | Aumentam a serotonina, melhorando o humor. | Náusea, dor de cabeça, diminuição do desejo sexual. |
| Estabilizadores de humor (ex.: Carbamazepina) | Oscilações de humor, irritabilidade. | Equilibram a atividade cerebral. | Sonolência, tontura, boca seca. |
| Betabloqueadores (ex.: Propranolol) | Taquicardia, tremores. | Diminuem a frequência cardíaca. | Cansaço, mãos frias. |
Importante:
– Esses remédios não substituem a substância. Eles apenas ajudam o corpo a se adaptar à falta dela.
– Nunca tome remédios por conta própria. Alguns podem ser perigosos se misturados com álcool ou outras drogas.
– O médico vai ajustar a dose aos poucos, para evitar efeitos colaterais.
b) Medicamentos para reduzir a vontade de usar
Alguns remédios ajudam a diminuir o desejo pela substância:
| Medicamento | Para que serve? | Como funciona? | Efeitos colaterais comuns |
|---|---|---|---|
| Bupropiona | Reduz a vontade de usar cocaína ou nicotina. | Aumenta a dopamina, diminuindo a “fissura”. | Insônia, boca seca, dor de cabeça. |
| Modafinila | Reduz a sonolência na abstinência de cocaína. | Estimula o cérebro de forma mais leve. | Dor de cabeça, náusea, ansiedade. |
| Naltrexona | Reduz o prazer causado pela cocaína. | Bloqueia os receptores de opioides no cérebro. | Náusea, dor de cabeça, insônia. |
Exemplo prático:
– João usava cocaína e, depois de parar, sentia uma vontade incontrolável de usar. O psiquiatra receitou bupropiona, e em algumas semanas a “fissura” diminuiu.
c) Medicamentos para outros transtornos associados
Muitas pessoas com transtorno por uso de estimulantes também têm:
– Depressão → Antidepressivos (ex.: Fluoxetina, Escitalopram).
– Ansiedade → Ansiolíticos (ex.: Buspirona) ou antidepressivos.
– Psicose → Antipsicóticos (ex.: Risperidona, Quetiapina).
Dica: Se você já toma remédios para outro transtorno (como TDAH ou depressão), não pare de tomar sem falar com o médico. Alguns medicamentos (como a Ritalina) podem piorar a dependência se não forem usados corretamente.
2. Psicoterapia
Os remédios ajudam a controlar os sintomas, mas a psicoterapia é fundamental para entender as causas do problema e aprender a lidar com ele. Existem várias abordagens, e o psicólogo vai escolher a que melhor se adapta ao seu caso.
a) Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
- O que é? Uma terapia focada em mudar pensamentos e comportamentos que levam ao uso da substância.
- Como funciona? O terapeuta ajuda você a:
- Identificar situações de risco (ex.: “Sempre que estou estressado, tomo café”).
- Desenvolver estratégias para lidar com a vontade de usar (ex.: técnicas de respiração, atividades alternativas).
- Mudar pensamentos disfuncionais (ex.: “Eu preciso de cocaína para ser feliz”).
- Exemplo prático:
- Situação: Maria sempre tomava café quando estava ansiosa antes de uma prova.
- Estratégia: O terapeuta ensinou técnicas de relaxamento e a substituir o café por um chá de camomila.
- Resultado: Maria conseguiu reduzir o consumo de café e lidar melhor com a ansiedade.
b) Entrevista Motivacional
- O que é? Uma abordagem que ajuda a pessoa a encontrar motivação para mudar.
- Como funciona? O terapeuta faz perguntas para ajudar você a refletir sobre:
- Os prós e contras de continuar usando (ex.: “O que você ganha e o que perde com o café?”).
- Seus objetivos de vida (ex.: “Como o uso de estimulantes está te impedindo de alcançar seus sonhos?”).
- Seus valores (ex.: “O que é mais importante para você: a substância ou sua família?”).
- Exemplo prático:
- Pergunta do terapeuta: “Se você continuar usando anfetamina, como acha que estará daqui a 5 anos?”
- Resposta de João: “Provavelmente ainda estarei lutando para parar, com problemas de saúde e sem dinheiro.”
- Reflexão: João percebeu que precisava mudar para ter uma vida melhor.
c) Terapia de Grupo
- O que é? Um espaço onde pessoas com o mesmo problema se reúnem para compartilhar experiências e se apoiar.
- Como funciona? Em sessões semanais, os participantes:
- Falam sobre suas dificuldades e conquistas.
- Dão e recebem feedback.
- Aprendem estratégias de enfrentamento.
- Exemplo prático:
- Ana se sentia sozinha em sua luta contra a cocaína. No grupo, conheceu outras pessoas que passavam pelo mesmo e percebeu que não estava sozinha.
- Carlos aprendeu com um colega do grupo uma técnica para lidar com a vontade de usar: beber água gelada e respirar fundo.
d) Terapia Familiar
- O que é? Uma abordagem que envolve a família no tratamento.
- Como funciona? O terapeuta ajuda a família a:
- Entender o transtorno e como ele afeta a todos.
- Melhorar a comunicação (ex.: evitar brigas e acusações).
- Desenvolver estratégias de apoio (ex.: como ajudar sem “policiar” a pessoa).
- Exemplo prático:
- A esposa de Pedro não entendia por que ele não conseguia parar de tomar café. Na terapia familiar, ela aprendeu que a dependência não é falta de força de vontade e passou a apoiá-lo sem cobranças.
3. Mudanças no dia a dia
O tratamento não acontece só no consultório. Mudanças no estilo de vida são essenciais para a recuperação. Vamos ver algumas delas.
a) Sono: “Como dormir sem estimulantes?”
A insônia é um dos maiores desafios na abstinência. Algumas dicas:
– Rotina de sono: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias, mesmo nos fins de semana.
– Ambiente tranquilo: Mantenha o quarto escuro, silencioso e fresco.
– Evite telas antes de dormir: A luz do celular e da TV atrapalha a produção de melatonina (hormônio do sono).
– Técnicas de relaxamento: Meditação, respiração profunda ou um banho quente antes de deitar.
– Evite cafeína à tarde: O efeito da cafeína dura até 6 horas. Se você tomar café às 16h, pode ter dificuldade para dormir à noite.
Exemplo prático:
– Ricardo tinha insônia depois de parar de tomar café. Começou a meditar 10 minutos antes de dormir e, em duas semanas, conseguiu dormir melhor.
b) Alimentação: “O que comer para se sentir melhor?”
Uma alimentação equilibrada ajuda a estabilizar o humor e reduzir a vontade de usar. Algumas dicas:
– Coma regularmente: Pular refeições pode aumentar a irritabilidade e a vontade de usar estimulantes.
– Evite açúcar em excesso: Doces dão energia rápida, mas depois causam uma “queda” que pode aumentar a vontade de usar.
– Prefira alimentos ricos em triptofano: Banana, aveia, ovos e chocolate amargo ajudam na produção de serotonina (hormônio do bem-estar).
– Beba água: A desidratação pode causar dor de cabeça e cansaço, que são confundidos com abstinência.
Exemplo prático:
– Depois de parar de usar anfetamina, Ana sentia muita fome. Começou a comer pequenas porções de castanhas e frutas ao longo do dia e percebeu que a vontade de usar diminuiu.
c) Exercício físico: “Como a atividade física ajuda?”
O exercício aumenta a dopamina naturalmente, reduzindo a vontade de usar estimulantes. Além disso:
– Melhora o humor e a autoestima.
– Ajuda a dormir melhor.
– Reduz a ansiedade e o estresse.
Dicas:
– Comece devagar: uma caminhada de 20 minutos por dia já ajuda.
– Escolha uma atividade que você goste: dança, natação, musculação, yoga.
– Faça exercícios ao ar livre: a luz do sol ajuda a regular o sono e o humor.
Exemplo prático:
– João começou a correr 3 vezes por semana. Depois de um mês, percebeu que não sentia mais tanta vontade de tomar café e que seu humor estava mais estável.
d) Rede de apoio: “Quem pode me ajudar?”
A recuperação é mais fácil quando você não está sozinho. Algumas ideias:
– Família e amigos: Converse com pessoas de confiança e peça apoio.
– Grupos de apoio: Narcóticos Anônimos (NA) e Alcoólicos Anônimos (AA) têm grupos para dependência de estimulantes.
– Profissionais: Mantenha o acompanhamento com o psiquiatra e o psicólogo.
– Atividades sociais: Volte a fazer coisas que gosta, como sair com amigos ou praticar um hobby.
Exemplo prático:
– Maria se isolou depois de começar a usar cocaína. Quando decidiu se tratar, voltou a frequentar um grupo de teatro e fez novas amizades. Isso a ajudou a não recair.
e) Técnicas de manejo de sintomas
Algumas estratégias podem ajudar a lidar com a vontade de usar ou com os sintomas de abstinência:
– Respiração 4-7-8: Inspire por 4 segundos, segure por 7 e expire por 8. Repita até se acalmar.
– Distração: Quando sentir vontade de usar, faça algo que ocupe sua mente (ex.: ler, desenhar, cozinhar).
– Lista de motivos: Escreva em um papel por que você quer parar e leia sempre que sentir vontade de usar.
– Contato com a natureza: Um passeio no parque pode ajudar a reduzir a ansiedade.
Exemplo prático:
– Pedro sentia muita vontade de tomar café quando estava estressado. Começou a usar a técnica da respiração 4-7-8 e, em algumas semanas, conseguiu controlar a ansiedade sem a substância.
Convivendo com o diagnóstico
Receber o diagnóstico de transtorno por uso de estimulantes pode ser um choque, mas também pode ser o início de uma nova fase na sua vida. Vamos ver como lidar com isso, tanto para a pessoa diagnosticada quanto para seus familiares e amigos.
Para a pessoa com o diagnóstico
1. Aceitação: “Não é culpa sua”
- O que é? Reconhecer que você tem um transtorno, mas não se culpar por isso.
- Por que é importante? A culpa e a vergonha só atrapalham a recuperação. Lembre-se: você não escolheu ter esse problema, mas pode escolher se tratar.
- Como fazer?
- Fale sobre seus sentimentos com alguém de confiança.
- Escreva em um diário o que está sentindo.
- Lembre-se: você é muito mais do que seu diagnóstico.
2. Paciência: “A recuperação leva tempo”
- O que é? Entender que a melhora não acontece da noite para o dia.
- Por que é importante? Muitas pessoas desistem do tratamento porque não veem resultados imediatos. Mas a recuperação é um processo, com altos e baixos.
- Como fazer?
- Comemore as pequenas vitórias (ex.: “Hoje não tomei café”, “Consegui dormir bem”).
- Não se cobre demais. Recaídas fazem parte do processo e não significam fracasso.
- Lembre-se: cada dia sem usar é uma conquista.
3. Autocuidado: “Cuide de você”
- O que é? Priorizar sua saúde física e mental.
- Por que é importante? Quando você se cuida, fica mais forte para enfrentar os desafios da recuperação.
- Como fazer?
- Durma bem.
- Alimente-se de forma saudável.
- Faça exercícios físicos.
- Reserve um tempo para fazer coisas que gosta.
- Evite pessoas e lugares que te lembrem do uso.
4. Rede de apoio: “Não faça isso sozinho”
- O que é? Contar com pessoas que te apoiam e te incentivam.
- Por que é importante? A recuperação é mais fácil quando você não está sozinho.
- Como fazer?
- Converse com sua família e amigos sobre o que está passando.
- Participe de grupos de apoio (como NA ou AA).
- Mantenha o acompanhamento com o psiquiatra e o psicólogo.
5. Novos objetivos: “O que você quer para sua vida?”
- O que é? Redefinir seus sonhos e metas, agora sem a substância.
- Por que é importante? Quando você tem um propósito, fica mais fácil resistir à vontade de usar.
- Como fazer?
- Pense no que você sempre quis fazer, mas nunca teve tempo ou coragem.
- Estabeleça metas pequenas e alcançáveis (ex.: “Vou voltar a estudar”, “Vou viajar com minha família”).
- Lembre-se: sua vida não acabou, só está começando.
Para familiares e amigos
1. Como ajudar (sem sufocar)
- O que fazer?
- Escute sem julgar: Deixe a pessoa falar sobre o que está sentindo, sem críticas ou conselhos não pedidos.
- Ofereça apoio prático: Ajude com tarefas do dia a dia (ex.: cozinhar, levar ao médico).
- Incentive o tratamento: Lembre a pessoa da importância de seguir as orientações médicas.
- Seja paciente: A recuperação leva tempo, e recaídas podem acontecer.
- O que NÃO fazer?
- Não “policiar” a pessoa: Evite perguntas como “Você usou hoje?” ou “Tá tomando os remédios?”.
- Não minimizar o problema: Frases como “É só café, não é droga” ou “Você consegue parar quando quiser” não ajudam.
- Não assumir responsabilidades: Deixe a pessoa lidar com as consequências de suas ações (ex.: se ela faltar ao trabalho, não ligue para o chefe inventando desculpas).
2. Como cuidar de si mesmo
- O que fazer?
- Procure apoio: Converse com amigos, participe de grupos para familiares (como o Nar-Anon).
- Cuide da sua saúde: Não descuide do seu sono, alimentação e lazer.
- Estabeleça limites: Não permita que o problema da outra pessoa domine sua vida.
- Busque terapia: Um psicólogo pode te ajudar a lidar com o estresse e a culpa.
3. Como explicar para outras pessoas
- Para crianças:
- Use uma linguagem simples: “O papai/mamãe está doente e está se tratando. Às vezes ele fica nervoso, mas não é culpa sua.”
- Reforce que a criança não é responsável pelo problema do adulto.
- Para amigos e parentes:
- Seja honesto, mas sem dar detalhes desnecessários: “Fulano está com um problema de saúde e está se tratando. Agradeço se vocês puderem respeitar o espaço dele.”
- Peça apoio: “Se vocês puderem convidá-lo para sair ou ligar de vez em quando, vai ajudar muito.”
Quando os sintomas podem piorar?
Algumas situações podem desencadear uma recaída ou piorar os sintomas. Fique atento a:
1. Estresse
- Exemplo: Perda de emprego, término de relacionamento, problemas financeiros.
- Como lidar?
- Use técnicas de relaxamento (respiração, meditação).
- Converse com seu terapeuta sobre estratégias para lidar com o estresse.
- Evite se isolar.
2. Ambientes de risco
- Exemplo: Festas onde as pessoas usam cocaína, locais de trabalho onde o café é “obrigatório”.
- Como lidar?
- Evite esses ambientes, pelo menos no começo do tratamento.
- Se não puder evitar, vá acompanhado de alguém que te apoie.
- Tenha um plano de emergência (ex.: “Se sentir vontade de usar, vou ligar para meu padrinho do NA”).
3. Solidão
- Exemplo: Ficar muito tempo sozinho, sem contato com amigos ou família.
- Como lidar?
- Procure grupos de apoio ou atividades sociais.
- Mantenha contato com pessoas que te fazem bem.
- Se estiver se sentindo sozinho, ligue para o CVV (188).
4. Doenças físicas
- Exemplo: Gripe, dor de cabeça, problemas digestivos.
- Como lidar?
- Cuide da sua saúde: durma bem, alimente-se bem e faça exercícios.
- Evite automedicação (alguns remédios podem interagir com os estimulantes).
- Converse com seu médico sobre como lidar com dores ou desconfortos.
5. Aniversários e datas importantes
- Exemplo: Aniversário de um ano sem usar, datas comemorativas.
- Como lidar?
- Comemore suas conquistas, mas não se exponha a riscos (ex.: não vá a uma festa onde sabe que haverá cocaína).
- Lembre-se do quanto você já evoluiu e não se cobre perfeição.
Perguntas frequentes
1. “Tomar café todo dia é vício?”
Depende. Se você precisa de café para funcionar, sente sintomas de abstinência (dor de cabeça, cansaço) quando não toma, ou não consegue parar mesmo querendo, pode ser um sinal de dependência. Mas se você toma café porque gosta do sabor e não tem problemas quando para, provavelmente não é um vício.
Exemplo:
– Vício: João toma 6 xícaras de café por dia. Se não tomar, fica com dor de cabeça e não consegue trabalhar. Já tentou parar várias vezes, mas não consegue.
– Não é vício: Maria toma 1 xícara de café pela manhã porque gosta do sabor. Se não tomar, não sente nada de diferente.
2. “Posso tomar remédio para TDAH se já tive problemas com estimulantes?”
Sim, mas com acompanhamento médico. Os remédios para TDAH (como Ritalina e Concerta) são estimulantes, mas quando usados na dose certa e com supervisão, não causam dependência. O médico vai avaliar seu histórico e ajustar a dose para evitar riscos.
Dica: Se você já teve problemas com estimulantes, converse abertamente com seu médico. Ele pode optar por remédios não estimulantes (como a atomoxetina) ou monitorar seu uso de perto.
3. “Como saber se estou exagerando no café?”
Fique atento a estes sinais:
✔ Você toma mais de 4 xícaras por dia (ou o equivalente em energéticos/chás).
✔ Sente ansiedade, tremores ou taquicardia depois de tomar.
✔ Não consegue dormir mesmo sem tomar café à tarde.
✔ Precisa de café para funcionar (ex.: não consegue trabalhar sem tomar).
✔ Já tentou parar e não conseguiu.
Se você se identificou com dois ou mais desses sinais, pode ser hora de reduzir o consumo.
4. “O que fazer se eu recair?”
Primeiro, não se culpe. A recaída faz parte do processo de recuperação e não significa fracasso. O importante é:
1. Pare imediatamente e evite usar mais.
2. Analise o que aconteceu: O que desencadeou a recaída? Estresse? Solidão? Um ambiente de risco?
3. Converse com seu terapeuta ou grupo de apoio sobre o que aconteceu.
4. Recomece o tratamento com mais atenção aos gatilhos.
5. Lembre-se: Cada dia sem usar é uma vitória. Você já conseguiu antes, e vai conseguir de novo.
5. “Como ajudar um familiar que não admite o problema?”
Essa é uma situação difícil, mas algumas estratégias podem ajudar:
– Não force a barra: Se a pessoa não está pronta para admitir o problema, insistir pode fazer com que ela se afaste.
– Converse em um momento tranquilo: Escolha um momento em que ela esteja calma e aberta ao diálogo.
– Use “eu” em vez de “você”: Em vez de “Você está viciado”, diga “Estou preocupado com você porque tenho visto que o café está te fazendo mal”.
– Ofereça ajuda, não julgamento: Diga que você está ali para apoiar, não para criticar.
– Procure um profissional: Às vezes, uma intervenção familiar (com a ajuda de um terapeuta) pode ser necessária.
Exemplo:
– Errado: “Você está viciado em café! Precisa parar agora!”
– Certo: “Eu tenho notado que você anda muito ansioso e com dificuldade para dormir. Será que o café pode estar contribuindo? Podemos procurar um médico juntos?”
6. “Quanto tempo dura o tratamento?”
Não existe um prazo exato, pois cada pessoa é diferente. Algumas melhoram em alguns meses, outras precisam de anos de acompanhamento. O importante é:
– Não desista: Mesmo que os resultados demorem, continue seguindo as orientações médicas.
– Comemore as pequenas vitórias: Cada dia sem usar é uma conquista.
– Mantenha o acompanhamento: Mesmo depois de melhorar, é importante fazer manutenção (ex.: terapia de tempos em tempos, grupos de apoio).
Exemplo:
– João usava cocaína e, depois de 6 meses de tratamento, conseguiu ficar 3 meses sem usar. Teve uma recaída, mas voltou ao tratamento e hoje está há 2 anos em recuperação.
7. “Posso tomar café ou energéticos socialmente depois de me recuperar?”
Depende do seu caso. Algumas pessoas conseguem usar com moderação depois da recuperação, outras preferem evitar completamente. Converse com seu médico e terapeuta para avaliar o que é melhor para você.
Dicas:
– Se decidir usar, faça com moderação (ex.: 1 xícara de café por dia).
– Evite energéticos, pois eles têm doses muito altas de cafeína e outros estimulantes.
– Fique atento aos gatilhos: Se você associava o café a situações de estresse, pode ser melhor evitá-lo.
8. “O que fazer se eu tiver pensamentos suicidas na abstinência?”
A abstinência de estimulantes pode causar depressão profunda, e em alguns casos, pensamentos suicidas. Isso é uma emergência. Procure ajuda imediatamente:
– Ligue para o CVV (188): O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional 24 horas.
– Vá a um pronto-socorro: Se os pensamentos forem muito intensos, procure um hospital.
– Converse com seu médico: Ele pode ajustar sua medicação ou recomendar uma internação.
Lembre-se: Esses pensamentos não são permanentes. Com o tratamento certo, eles vão passar.
9. “Como lidar com a vergonha de ter um diagnóstico psiquiátrico?”
Muitas pessoas sentem vergonha de admitir que têm um transtorno mental, mas não há motivo para isso. Lembre-se:
– Você não é seu diagnóstico. Ter um transtorno não define quem você é.
– Milhões de pessoas passam pelo mesmo. Você não está sozinho.
– Buscar ajuda é um ato de coragem, não de fraqueza.
– A vergonha só atrapalha a recuperação. Quanto mais você esconder, mais difícil será se tratar.
Dica: Converse com pessoas que já passaram pelo mesmo. Grupos de apoio (como NA ou AA) são ótimos para isso.
10. “O que fazer se eu não tiver dinheiro para o tratamento?”
O tratamento não precisa ser caro. No Brasil, o SUS oferece atendimento gratuito para dependência química. Veja algumas opções:
– UBS (Unidade Básica de Saúde): O clínico geral pode encaminhar você para um CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial para Álcool e Drogas).
– CAPS AD: Oferece atendimento com psiquiatra, psicólogo e grupos de apoio.
– Hospitais públicos: Em casos graves, é possível fazer internação pelo SUS.
– Grupos de apoio: Narcóticos Anônimos (NA) e Alcoólicos Anônimos (AA) são gratuitos.
– Farmácia Popular: Alguns medicamentos são distribuídos gratuitamente.
Dica: Se você não sabe por onde começar, procure uma UBS e peça orientação. Eles vão te encaminhar para o serviço certo.
Quando procurar ajuda urgente
Alguns sinais indicam que a situação é grave e requer atendimento imediato. Procure ajuda se você ou alguém próximo apresentar:
Sinais de alerta vermelho (procure um pronto-socorro imediatamente)
- Overdose: Convulsões, desmaio, parada cardíaca, alucinações intensas.
- Pensamentos suicidas: Falar em se matar, fazer planos ou tentar o suicídio.
- Psicose: Ouvir vozes, ver coisas que não existem, acreditar em coisas absurdas (ex.: “Estão me perseguindo”).
- Problemas cardíacos: Dor no peito, falta de ar, coração disparado (risco de infarto).
- Comportamentos violentos: Agressividade extrema, ameaças a si mesmo ou aos outros.
Sinais de alerta amarelo (procure seu médico ou terapeuta o quanto antes)
- Recaída: Usar a substância depois de um período de abstinência.
- Sintomas graves de abstinência: Depressão profunda, insônia por vários dias, pensamentos suicidas.
- Piora dos sintomas psiquiátricos: Ansiedade extrema, paranoia, alucinações leves.
- Problemas no trabalho ou nos relacionamentos: Brigas constantes, demissão, isolamento.
- Sintomas físicos persistentes: Dor de cabeça forte, tremores, fraqueza.
Lembre-se: Não espere os sintomas piorarem. Quanto antes procurar ajuda, melhor.
Referências
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças (CID-10). 10ª ed. São Paulo: EDUSP, 1997.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
- National Institute on Drug Abuse (NIDA). Principles of Drug Addiction Treatment: A Research-Based Guide. 3ª ed. 2018.
- Universidade de São Paulo (USP). Estudo sobre consumo de café no Brasil. 2020.
- Anvisa. Relatório de consumo de medicamentos controlados no Brasil. 2022.
- ONU. Relatório Mundial sobre Drogas. 2023.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.