Transtornos devidos ao uso de cannabis (CID-11: 6C41)

O que é?

Imagine que você tem uma planta no quintal que, de vez em quando, te ajuda a relaxar depois de um dia estressante. Você colhe algumas folhas, prepara um chá e sente aquele alívio gostoso. Mas, com o tempo, percebe que está tomando esse chá todos os dias, várias vezes ao dia. E não é só isso: você começa a sentir que precisa de cada vez mais chá para ter o mesmo efeito. Quando tenta parar, fica irritado, ansioso, com dificuldade para dormir. O chá que antes era um momento de prazer virou uma necessidade, quase como se seu corpo e sua mente tivessem esquecido como funcionar sem ele. Essa é uma forma simples de entender o que acontece nos transtornos devidos ao uso de cannabis.

A cannabis, popularmente conhecida como maconha, é uma substância que altera o funcionamento do cérebro. Quando usada de forma recreativa ou medicinal, ela pode trazer sensações de relaxamento, euforia ou alívio de dores. Mas, para algumas pessoas, o uso pode sair do controle. O que começa como um hábito ocasional pode se transformar em um padrão problemático, onde a pessoa passa a usar a substância de forma compulsiva, mesmo sabendo que isso está prejudicando sua vida. É como se o cérebro ficasse “viciado” na sensação que a cannabis proporciona, e a pessoa perdesse a capacidade de escolher quando e quanto usar.

Os transtornos devidos ao uso de cannabis são reconhecidos pela medicina como uma condição de saúde mental. Isso significa que não se trata de “falta de força de vontade” ou “mau caráter”, como muitas pessoas ainda pensam. É uma doença real, com causas biológicas, psicológicas e sociais, que afeta o funcionamento do cérebro e do corpo. Assim como acontece com o diabetes ou a hipertensão, o tratamento envolve uma combinação de mudanças no estilo de vida, apoio psicológico e, em alguns casos, medicamentos.

No Brasil, a cannabis é a droga ilícita mais consumida. Segundo dados do III Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira, realizado pela Fiocruz em 2019, cerca de 7,7% dos brasileiros já usaram cannabis pelo menos uma vez na vida. Entre os adolescentes de 12 a 17 anos, a prevalência de uso nos últimos 12 meses foi de 4,3%, enquanto entre os adultos (18 a 65 anos) esse número sobe para 8,8%. Quando falamos de transtorno por uso de cannabis, os estudos mostram que cerca de 1 em cada 10 usuários pode desenvolver algum grau de dependência. Entre os adolescentes, esse risco é ainda maior: 1 em cada 6 que experimentam a substância podem desenvolver problemas relacionados ao uso.

Os homens são mais afetados do que as mulheres. Dados do DSM-5 indicam que a prevalência do transtorno por uso de cannabis é duas a três vezes maior em homens do que em mulheres. Isso não significa que as mulheres estejam imunes — elas também podem desenvolver a condição, mas tendem a buscar ajuda mais cedo e, muitas vezes, apresentam sintomas diferentes, como maior associação com transtornos de ansiedade e depressão.

Historicamente, a cannabis é usada há milhares de anos em diferentes culturas, seja para fins medicinais, religiosos ou recreativos. No Brasil, ela chegou com os escravizados africanos e foi amplamente utilizada na medicina popular até o início do século XX, quando passou a ser proibida. Nas últimas décadas, o debate sobre sua legalização e uso medicinal ganhou força, mas ainda existe muito estigma em torno da substância. Muitas pessoas acreditam que a cannabis é “inofensiva” ou que “não vicia”, mas a ciência mostra que, para algumas pessoas, o uso pode sim trazer consequências sérias.

É importante diferenciar o uso recreativo ocasional do transtorno por uso de cannabis. Nem todo mundo que fuma maconha vai desenvolver um problema. Muitas pessoas conseguem usar a substância de forma esporádica, sem que isso afete sua vida. O transtorno surge quando o uso se torna frequente, compulsivo e prejudicial, interferindo no trabalho, nos relacionamentos, na saúde física ou mental. É como a diferença entre tomar uma taça de vinho no jantar e beber todos os dias até perder o emprego ou brigar com a família.

Quais são os sintomas?

Para entender se o uso de cannabis está se tornando um problema, os médicos usam uma lista de critérios baseados no DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) e na CID-11 (Classificação Internacional de Doenças). Esses critérios ajudam a identificar quando o uso da substância saiu do controle e está causando sofrimento ou prejuízos na vida da pessoa. Vamos explicar cada um deles em detalhes, com exemplos do dia a dia para que você possa reconhecer os sinais.


1. Usar mais do que pretendia ou por mais tempo do que planejava

O que isso significa?
Você decide que vai fumar só um baseado no fim de semana, mas acaba fumando todos os dias. Ou planeja usar só uma vez por dia, mas acaba usando várias vezes. É como quando você abre um pacote de biscoitos pensando “vou comer só um”, mas acaba comendo o pacote inteiro sem perceber.

Exemplos concretos:
No trabalho: Você promete a si mesmo que só vai fumar depois do expediente, mas acaba fumando escondido no banheiro durante o horário de trabalho.
Em festas: Você diz que vai fumar só um baseado na festa, mas acaba fumando vários e só para quando a festa acaba ou quando a maconha acaba.
Em casa: Você planeja fumar só à noite para relaxar, mas acaba fumando logo de manhã para “começar o dia bem”.

O que é normal vs. o que é sintoma?
É normal exagerar de vez em quando, como comer demais em um churrasco. O problema surge quando isso vira regra, não exceção. Se você percebe que sempre usa mais do que pretendia ou que não consegue controlar a quantidade, isso pode ser um sinal de alerta.


2. Tentar parar ou reduzir o uso, mas não conseguir

O que isso significa?
Você já tentou diminuir ou parar de usar cannabis várias vezes, mas sempre volta. É como tentar fazer uma dieta: você começa bem, mas depois de alguns dias volta a comer doces. A diferença é que, no transtorno por uso de cannabis, as tentativas de parar são seguidas de frustração, culpa ou até sintomas físicos (como irritabilidade ou insônia).

Exemplos concretos:
Promessas quebradas: Você promete à sua mãe, ao seu parceiro ou a si mesmo que vai parar, mas depois de alguns dias (ou horas) volta a usar.
Metas não cumpridas: Você define que só vai fumar nos fins de semana, mas na quarta-feira já está fumando de novo.
Esforços malsucedidos: Você joga fora seu estoque de maconha, mas acaba comprando mais no mesmo dia.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Todo mundo tem dificuldade para mudar hábitos, como parar de roer unhas ou comer besteira. A diferença é que, no transtorno, a pessoa sente que não tem escolha. É como se o cérebro dissesse: “Você precisa disso para funcionar”, mesmo que a pessoa saiba que não é verdade.


3. Gastar muito tempo para conseguir, usar ou se recuperar dos efeitos da cannabis

O que isso significa?
A cannabis começa a ocupar um espaço enorme na sua vida. Você passa horas pensando em como vai conseguir mais, usando ou se recuperando dos efeitos. É como se a maconha virasse um trabalho de meio período: você gasta tempo e energia que poderiam ser usados para outras coisas.

Exemplos concretos:
No trabalho: Você passa o dia todo pensando em como vai fumar depois do expediente, e quando chega em casa, fica horas “chapado”, sem fazer nada produtivo.
Nas relações: Você deixa de sair com amigos ou de passar tempo com a família porque prefere ficar em casa fumando.
Na rotina: Você acorda com ressaca de maconha (sim, isso existe!) e passa o dia inteiro se sentindo lento, sem energia para fazer nada.

O que é normal vs. o que é sintoma?
É normal gostar de um hobby e dedicar tempo a ele, como jogar videogame ou assistir séries. O problema é quando esse hobby substitui outras áreas da vida, como trabalho, estudos ou relacionamentos. Se você percebe que está priorizando a cannabis em detrimento de outras coisas importantes, isso é um sinal de alerta.


4. Ter desejo intenso ou fissura pela cannabis

O que isso significa?
A fissura é aquela vontade incontrolável de usar a substância, como quando você está com muita fome e só consegue pensar em comida. No caso da cannabis, é como se seu cérebro ficasse “gritando” por ela, mesmo quando você não quer usar.

Exemplos concretos:
No trânsito: Você está dirigindo e passa por um lugar onde costuma fumar. De repente, sente uma vontade tão forte que precisa parar o carro para dar uma “tragada rápida”.
No trabalho: Você está em uma reunião chata e começa a sentir uma vontade irresistível de fumar, mesmo sabendo que não pode.
Em casa: Você está assistindo TV e, do nada, sente uma necessidade urgente de fumar, mesmo que tenha acabado de usar.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Todo mundo tem desejos, como vontade de comer chocolate ou tomar um café. A diferença é que, no transtorno, a fissura é intensa, frequente e difícil de controlar. É como se o cérebro estivesse “viciado” na sensação que a cannabis proporciona.


5. Deixar de cumprir obrigações importantes por causa do uso

O que isso significa?
A cannabis começa a atrapalhar sua vida profissional, acadêmica ou familiar. Você deixa de fazer coisas importantes porque está usando, se recuperando dos efeitos ou pensando em usar.

Exemplos concretos:
No trabalho: Você chega atrasado ou falta ao trabalho porque ficou chapado na noite anterior e não conseguiu acordar.
Na escola: Você deixa de entregar trabalhos ou estudar para provas porque prefere ficar em casa fumando.
Em casa: Você deixa de cuidar dos filhos, da casa ou de outras responsabilidades porque está usando ou se recuperando dos efeitos.

O que é normal vs. o que é sintoma?
É normal ter dias ruins, em que você não consegue fazer tudo o que planejou. O problema é quando isso vira padrão. Se você percebe que está sempre deixando coisas importantes de lado por causa da cannabis, isso é um sinal de que o uso está saindo do controle.


6. Continuar usando mesmo sabendo que está causando problemas

O que isso significa?
Você sabe que a cannabis está prejudicando sua vida, mas continua usando mesmo assim. É como fumar mesmo sabendo que faz mal para os pulmões ou comer doces mesmo sabendo que vai engordar.

Exemplos concretos:
Nos relacionamentos: Sua família ou amigos já reclamaram várias vezes que você está distante ou irresponsável por causa da maconha, mas você continua usando.
Na saúde: Você tem crises de ansiedade ou paranoia quando fuma, mas mesmo assim não consegue parar.
No trabalho: Você já foi advertido ou quase perdeu o emprego por causa do uso, mas continua fumando.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Todo mundo faz coisas que sabe que não são boas, como comer fast food ou procrastinar. A diferença é que, no transtorno, a pessoa não consegue parar, mesmo sabendo das consequências. É como se houvesse um curto-circuito entre o que ela sabe que é certo e o que ela faz.


7. Abandonar atividades que antes eram importantes

O que isso significa?
Você deixa de fazer coisas que gostava ou que eram importantes para você porque prefere usar cannabis. É como se a maconha tivesse “roubado” o espaço de outras atividades na sua vida.

Exemplos concretos:
Nos hobbies: Você adorava jogar futebol, mas agora prefere ficar em casa fumando.
Nos relacionamentos: Você deixava de sair com amigos ou de passar tempo com a família porque prefere ficar sozinho fumando.
No autocuidado: Você parou de malhar, de cuidar da alimentação ou de dormir direito porque a cannabis se tornou sua prioridade.

O que é normal vs. o que é sintoma?
É normal mudar de interesses ao longo da vida. O problema é quando você abandona tudo por causa da cannabis. Se você percebe que sua vida está encolhendo e que a maconha é a única coisa que te dá prazer, isso é um sinal de alerta.


8. Usar em situações de risco

O que isso significa?
Você usa cannabis em situações em que isso pode colocar você ou outras pessoas em perigo, como dirigir, operar máquinas ou tomar decisões importantes.

Exemplos concretos:
No trânsito: Você fuma antes de dirigir ou enquanto está dirigindo, mesmo sabendo que isso é perigoso.
No trabalho: Você usa cannabis antes ou durante o trabalho, especialmente se sua função exige atenção (como operar máquinas ou cuidar de crianças).
Em situações sociais: Você fuma antes de uma reunião importante ou de um encontro com a família, mesmo sabendo que pode passar vergonha ou causar problemas.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Todo mundo corre riscos de vez em quando, como dirigir cansado ou comer algo que sabe que vai cair mal. A diferença é que, no transtorno, a pessoa não consegue evitar o uso, mesmo sabendo dos riscos. É como se o cérebro dissesse: “Vale a pena o risco”.


9. Desenvolver tolerância

O que isso significa?
Com o tempo, você precisa de quantidades cada vez maiores de cannabis para ter o mesmo efeito. É como quando você toma café todos os dias: no começo, uma xícara te deixa acordado, mas depois de um tempo você precisa de três para ter o mesmo efeito.

Exemplos concretos:
No início: Você fumava um baseado e ficava “chapado” por horas.
Depois de um tempo: Você precisa fumar dois ou três baseados para ter a mesma sensação.
Na abstinência: Quando você para de usar, sente que “nada mais te satisfaz”, como se a vida tivesse perdido a cor.

O que é normal vs. o que é sintoma?
É normal que o corpo se acostume com substâncias, como o café ou o álcool. O problema é quando a tolerância aumenta rapidamente e você percebe que está usando cada vez mais para ter o mesmo efeito.


10. Ter sintomas de abstinência

O que isso significa?
Quando você para ou reduz o uso de cannabis, seu corpo e sua mente reagem com sintomas desconfortáveis. É como quando você para de tomar café e fica com dor de cabeça ou irritado.

Exemplos concretos de sintomas de abstinência:
Irritabilidade: Você fica facilmente bravo ou impaciente com coisas que antes não te incomodavam.
Ansiedade: Você se sente nervoso, com o coração acelerado ou com medo sem motivo aparente.
Insônia: Você tem dificuldade para dormir ou acorda várias vezes durante a noite.
Falta de apetite: Você perde o interesse por comida ou sente enjoo.
Depressão: Você se sente triste, sem energia ou sem vontade de fazer nada.
Fissura: Você sente uma vontade intensa de usar cannabis para aliviar os sintomas.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Todo mundo passa por desconfortos quando muda um hábito, como parar de tomar café ou de comer açúcar. A diferença é que, no transtorno, os sintomas de abstinência são intensos e duradouros, e a pessoa não consegue lidar com eles sem ajuda.


O que importa para o diagnóstico?

Ter dois ou mais desses sintomas nos últimos 12 meses pode indicar um transtorno por uso de cannabis. Mas não é só a quantidade de sintomas que importa: o impacto na vida da pessoa é o que realmente define o diagnóstico.

Por exemplo:
– Uma pessoa que usa cannabis todos os dias, mas consegue trabalhar, estudar e manter relacionamentos saudáveis, provavelmente não tem um transtorno.
– Outra pessoa que usa só nos fins de semana, mas perde o emprego, briga com a família e fica deprimida quando tenta parar, pode ter um transtorno, mesmo usando menos.

O diagnóstico é feito por um profissional de saúde mental (psiquiatra ou psicólogo), que avalia não só os sintomas, mas também o contexto de vida da pessoa.


Como se manifesta no dia a dia?

O transtorno por uso de cannabis não afeta só a pessoa que usa a substância — ele transforma a rotina, os relacionamentos e até a saúde física. Vamos ver como isso acontece em diferentes áreas da vida.


No trabalho ou na escola

A cannabis pode atrapalhar o desempenho profissional ou acadêmico de várias formas. Não é só uma questão de “ficar chapado” — o uso frequente afeta a memória, a concentração, a motivação e a capacidade de tomar decisões.

Exemplos concretos:
Procrastinação: Você deixa de fazer tarefas importantes porque prefere fumar. Quando finalmente começa a trabalhar, percebe que não consegue se concentrar.
Erros frequentes: Você comete erros bobos no trabalho ou na escola porque está com a mente “lenta” ou distraída.
Faltas e atrasos: Você falta ao trabalho ou à escola porque ficou chapado na noite anterior e não conseguiu acordar. Ou chega atrasado porque parou para fumar no caminho.
Perda de oportunidades: Você deixa de ser promovido, de passar em um concurso ou de ser aprovado em uma disciplina porque seu desempenho caiu.
Conflitos com colegas: Você fica irritado ou paranoico no trabalho e acaba brigando com colegas ou chefes.

Como isso acontece?
A cannabis afeta uma parte do cérebro chamada hipocampo, que é responsável pela memória e pelo aprendizado. Quando você usa com frequência, é como se seu cérebro ficasse “embaçado”, dificultando a retenção de informações e a realização de tarefas complexas. Além disso, a substância reduz a motivação, fazendo com que você perca o interesse por coisas que antes eram importantes.


Nos relacionamentos

Os relacionamentos são uma das áreas mais afetadas pelo transtorno por uso de cannabis. A pessoa pode se tornar distante, irritada ou até agressiva, o que gera conflitos com familiares, amigos e parceiros.

Exemplos concretos:
Família:
– Seus pais ou irmãos reclamam que você está sempre “no mundo da lua” ou que não participa das atividades familiares.
– Você promete parar de usar, mas volta atrás, o que gera desconfiança e brigas.
– Seus filhos percebem que você está ausente ou irritado e começam a se afastar.
Amigos:
– Você deixa de sair com amigos que não usam cannabis porque prefere ficar em casa fumando.
– Seus amigos reclamam que você está sempre “chapado” e que não é mais divertido estar perto de você.
– Você se isola porque sente que ninguém te entende.
Parceiros:
– Seu parceiro ou parceira reclama que você está distante ou que não tem mais interesse em intimidade.
– Você briga por causa do uso de cannabis, especialmente se seu parceiro não aprova.
– Você mente sobre quanto usa ou esconde o uso, o que gera desconfiança.

Como isso acontece?
A cannabis afeta a comunicação emocional. Quando você está chapado, pode ter dificuldade para entender as emoções dos outros ou para expressar as suas. Além disso, o uso frequente pode deixar a pessoa mais irritada ou paranoica, o que aumenta as chances de brigas. Muitos usuários também desenvolvem culpa ou vergonha por não conseguirem parar, o que os leva a se isolar.


Na rotina

A rotina de uma pessoa com transtorno por uso de cannabis costuma girar em torno da substância. O sono, a alimentação, o lazer e até o autocuidado são afetados.

Exemplos concretos:
Sono:
– Você dorme muito durante o dia porque fica chapado à noite e não consegue acordar cedo.
– Você tem insônia quando tenta parar de usar, o que te deixa exausto e irritado.
– Você acorda várias vezes durante a noite porque sonha com cannabis ou sente fissura.
Alimentação:
– Você perde o apetite quando está chapado, mas depois sente uma fome intensa (“larica”) e come besteiras.
– Você deixa de fazer refeições saudáveis porque prefere gastar dinheiro com cannabis.
– Você engorda ou emagrece muito por causa das mudanças no apetite.
Lazer:
– Você deixa de fazer atividades que antes gostava, como esportes, cinema ou viagens, porque prefere ficar em casa fumando.
– Você só se diverte quando está chapado, o que faz com que a vida “sem cannabis” pareça sem graça.
Autocuidado:
– Você para de malhar, de cuidar da pele ou de ir ao médico porque a cannabis se torna sua prioridade.
– Você se sente sujo ou descuidado, mas não tem energia para mudar.
– Você usa cannabis para “aliviar” sintomas de ansiedade ou depressão, mas acaba piorando esses problemas.

Como isso acontece?
A cannabis afeta o sistema de recompensa do cérebro, que é responsável pela sensação de prazer. Com o tempo, o cérebro passa a associar só a cannabis com prazer, fazendo com que outras atividades pareçam sem graça. Além disso, a substância pode desregular o sono e o apetite, o que afeta a saúde física e mental.


Na saúde física

Muitas pessoas acreditam que a cannabis é “inofensiva”, mas o uso frequente pode trazer problemas sérios para o corpo.

Exemplos concretos:
Pulmões:
– Você desenvolve tosse crônica, bronquite ou infecções respiratórias por causa da fumaça.
– Você sente falta de ar ou cansaço fácil, mesmo sem fazer esforço.
Coração:
– Você sente o coração acelerado ou tem palpitações depois de fumar.
– Você tem maior risco de infarto, especialmente se já tem problemas cardíacos.
Sistema imunológico:
– Você fica doente com mais frequência porque a cannabis enfraquece as defesas do corpo.
Hormônios:
– Homens podem ter redução na produção de testosterona, o que afeta a libido e a fertilidade.
– Mulheres podem ter alterações no ciclo menstrual.
Cérebro:
– Você tem dificuldade para se concentrar, memorizar coisas ou tomar decisões.
– Você pode desenvolver psicose ou esquizofrenia, especialmente se tem predisposição genética.

Como isso acontece?
A fumaça da cannabis contém substâncias tóxicas, semelhantes às do cigarro, que irritam os pulmões e aumentam o risco de câncer. Além disso, a substância afeta o sistema cardiovascular, aumentando a pressão arterial e a frequência cardíaca. No cérebro, o uso frequente pode alterar a estrutura e o funcionamento de áreas responsáveis pela memória, pela tomada de decisões e pelo controle emocional.


O que causa essa condição?

O transtorno por uso de cannabis não tem uma causa única — ele surge da combinação de fatores genéticos, biológicos, psicológicos e sociais. É como uma receita de bolo: cada ingrediente contribui para o resultado final, mas nenhum deles sozinho explica tudo.

Vamos entender cada um desses fatores em detalhes.


Fatores genéticos

O que isso significa?
Seus genes podem aumentar (ou diminuir) suas chances de desenvolver um transtorno por uso de cannabis. É como se algumas pessoas nascessem com um “botão de vulnerabilidade” no cérebro, que torna mais fácil para a cannabis “tomar conta” da vida delas.

Como isso funciona?
Imagine que seu cérebro é um carro. Algumas pessoas nascem com um motor mais potente (genes que as protegem do vício), enquanto outras têm um motor mais fraco (genes que as tornam mais vulneráveis). Se você tem histórico de dependência na família (álcool, drogas, tabaco), suas chances de desenvolver um transtorno por uso de cannabis são maiores.

Exemplos:
– Se seu pai ou sua mãe teve problemas com álcool ou drogas, você tem 2 a 4 vezes mais chances de desenvolver um transtorno por uso de cannabis.
– Estudos com gêmeos mostram que, se um deles desenvolve dependência, o outro tem 50% de chance de também desenvolver, mesmo que tenham sido criados em ambientes diferentes.

Mito vs. Verdade:
Mito: “Se meus pais não tiveram problemas com drogas, eu também não vou ter.”
Verdade: Os genes são apenas um dos fatores. Mesmo sem histórico familiar, outras coisas (como traumas ou estresse) podem aumentar o risco.


Fatores neurobiológicos

O que isso significa?
A cannabis afeta o cérebro de uma forma que pode levar ao vício. É como se a substância “hackeasse” o sistema de recompensa do cérebro, fazendo com que ele passe a precisar da cannabis para funcionar.

Como isso funciona?
Seu cérebro tem um sistema chamado sistema de recompensa, que é ativado quando você faz coisas prazerosas, como comer, transar ou socializar. A cannabis ativa esse sistema de forma muito intensa, liberando uma substância chamada dopamina, que dá a sensação de prazer.

Com o tempo, o cérebro se acostuma com essa “injeção extra” de dopamina e para de produzir a quantidade normal. É como se você estivesse acostumado a tomar café com 5 colheres de açúcar, e de repente alguém te dá um café sem açúcar — você acha que não tem gosto de nada. No caso da cannabis, é como se seu cérebro dissesse: “Sem ela, a vida não tem graça”.

Exemplo:
No início: Você fuma um baseado e sente um prazer intenso.
Depois de um tempo: Você precisa fumar mais para ter a mesma sensação.
Na abstinência: Quando você para de usar, seu cérebro fica “desregulado” e você sente ansiedade, irritação e falta de prazer em outras atividades.

Mito vs. Verdade:
Mito: “Maconha não vicia porque é natural.”
Verdade: Qualquer substância que ative o sistema de recompensa do cérebro pode viciar, independentemente de ser natural ou sintética.


Fatores psicológicos

O que isso significa?
Sua personalidade, suas emoções e suas experiências de vida podem aumentar o risco de desenvolver um transtorno por uso de cannabis. É como se a substância se tornasse uma muleta emocional para lidar com problemas que você não consegue resolver de outra forma.

Como isso funciona?
Muitas pessoas começam a usar cannabis para aliviar sintomas de ansiedade, depressão, estresse ou traumas. No começo, a substância parece ajudar, mas com o tempo ela piora esses problemas, criando um ciclo vicioso.

Exemplos:
Ansiedade: Você fuma para relaxar, mas depois de um tempo percebe que só consegue relaxar se estiver chapado. Quando tenta parar, a ansiedade volta com força total.
Depressão: Você usa cannabis para “animar” os dias, mas acaba se sentindo ainda mais deprimido porque não consegue fazer nada sem ela.
Traumas: Você usa a substância para “esquecer” experiências ruins (como abuso, violência ou bullying), mas acaba revivendo esses traumas quando está sóbrio.
Impulsividade: Você tem dificuldade para controlar impulsos (como gastar dinheiro ou comer demais) e acaba usando cannabis de forma compulsiva.

Mito vs. Verdade:
Mito: “Maconha é remédio para ansiedade e depressão.”
Verdade: A cannabis pode aliviar sintomas temporariamente, mas piora esses problemas no longo prazo. O tratamento correto envolve terapia e, em alguns casos, medicamentos específicos.


Fatores ambientais

O que isso significa?
O ambiente em que você vive — sua família, seus amigos, sua escola, seu trabalho — pode aumentar (ou diminuir) suas chances de desenvolver um transtorno por uso de cannabis.

Como isso funciona?
Se você cresce em um ambiente onde o uso de cannabis é normalizado (como em famílias ou grupos de amigos que usam frequentemente), suas chances de experimentar e desenvolver problemas são maiores. É como se o cérebro dissesse: “Todo mundo faz isso, então deve ser seguro”.

Exemplos:
Família:
– Se seus pais ou irmãos usam cannabis, você tem mais chances de experimentar e desenvolver problemas.
– Se sua família é desestruturada (violência, negligência, abuso), você pode usar a substância para escapar dos problemas.
Amigos:
– Se seus amigos usam cannabis, você pode se sentir pressionado a usar também para “pertencer” ao grupo.
– Se você só tem amigos que usam, pode acabar isolado de pessoas que não usam.
Escola/trabalho:
– Se você tem dificuldades na escola ou no trabalho, pode usar cannabis para aliviar o estresse.
– Se você é exposto a situações de risco (como bullying ou assédio), pode usar a substância para lidar com a dor.
Comunidade:
– Se você vive em uma comunidade com poucas oportunidades (desemprego, violência, falta de lazer), pode usar cannabis como forma de alívio.
– Se a cannabis é fácil de conseguir na sua região, suas chances de experimentar e desenvolver problemas são maiores.

Mito vs. Verdade:
Mito: “Maconha é só para quem é fraco ou não tem força de vontade.”
Verdade: O ambiente tem um peso enorme no desenvolvimento do transtorno. Pessoas que crescem em ambientes de risco (violência, pobreza, falta de apoio) têm muito mais chances de desenvolver problemas com drogas, independentemente de sua “força de vontade”.


Fatores da gestação e desenvolvimento

O que isso significa?
O que acontece antes do nascimento e nos primeiros anos de vida pode aumentar o risco de desenvolver um transtorno por uso de cannabis mais tarde.

Como isso funciona?
Gestação: Se sua mãe usou cannabis durante a gravidez, seu cérebro pode ter se desenvolvido de forma diferente, aumentando o risco de problemas com drogas no futuro.
Primeira infância: Se você passou por negligência, abuso ou traumas nos primeiros anos de vida, seu cérebro pode ter se tornado mais vulnerável ao vício.
Adolescência: O cérebro dos adolescentes ainda está em desenvolvimento, especialmente a parte responsável pelo controle de impulsos e tomada de decisões. Por isso, o uso de cannabis nessa fase aumenta muito o risco de dependência.

Exemplo:
– Um estudo mostrou que adolescentes que usam cannabis antes dos 15 anos têm 4 vezes mais chances de desenvolver dependência do que aqueles que começam depois dos 18.

Mito vs. Verdade:
Mito: “Maconha é segura para adolescentes porque é natural.”
Verdade: O cérebro dos adolescentes é mais vulnerável aos efeitos da cannabis. O uso nessa fase pode prejudicar o desenvolvimento cognitivo (memória, atenção, inteligência) e aumentar o risco de psicose e esquizofrenia.


Modelo biopsicossocial

O que isso significa?
O transtorno por uso de cannabis não é causado por um único fator — ele surge da combinação de fatores biológicos (genes, cérebro), psicológicos (emoções, traumas) e sociais (família, amigos, comunidade).

Exemplo:
Imagine uma pessoa que:
– Tem genes que a tornam mais vulnerável ao vício (fator biológico).
– Passou por abuso na infância (fator psicológico).
– Cresceu em uma família que usava cannabis e em uma comunidade com fácil acesso à droga (fator social).

Essa combinação aumenta muito as chances de ela desenvolver um transtorno por uso de cannabis.

Por que isso é importante?
Porque o tratamento precisa levar em conta todos esses fatores. Não adianta só tratar os sintomas — é preciso trabalhar as causas (traumas, problemas familiares, dificuldades emocionais) e as consequências (saúde física, relacionamentos, trabalho).


Como é feito o diagnóstico?

Receber um diagnóstico de transtorno por uso de cannabis pode ser assustador, mas também pode ser o primeiro passo para uma vida melhor. Muitas pessoas demoram anos para buscar ajuda porque têm vergonha, medo ou não sabem que têm um problema. Vamos entender como funciona o processo de diagnóstico no Brasil.


Passo 1: Reconhecer que algo está errado

O primeiro passo é perceber que o uso de cannabis está causando problemas na sua vida. Isso pode acontecer de várias formas:
– Você tenta parar ou reduzir o uso, mas não consegue.
– Seus amigos ou familiares reclamam que você está diferente.
– Você perde o emprego, reprova na escola ou tem problemas financeiros por causa da cannabis.
– Você sente que precisa da substância para funcionar.

Exemplo:
João usava cannabis há 5 anos. No começo, era só nos fins de semana, mas com o tempo passou a usar todos os dias. Ele tentou parar várias vezes, mas sempre voltava. Sua namorada reclamava que ele estava distante, e ele quase perdeu o emprego por chegar atrasado. Foi quando percebeu que precisava de ajuda.


Passo 2: Procurar um profissional de saúde mental

No Brasil, o diagnóstico pode ser feito por:
Psiquiatra: Médico especializado em saúde mental, que pode receitar medicamentos se necessário.
Psicólogo: Profissional que faz avaliação psicológica e oferece terapia.
Médico de família ou clínico geral: Pode fazer uma avaliação inicial e encaminhar para um especialista.

Onde buscar ajuda?
SUS (Sistema Único de Saúde):
UBS (Unidade Básica de Saúde): O médico de família pode fazer uma avaliação inicial e encaminhar para um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial).
CAPS AD (Álcool e Drogas): Serviço especializado em dependência química, com equipe multidisciplinar (psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais).
Hospitais psiquiátricos: Em casos graves, pode ser necessário internação.
Particular:
– Clínicas de psiquiatria e psicologia.
– Comunidades terapêuticas (para casos mais graves).

Quanto custa?
SUS: Gratuito.
Particular: Varia de R$ 150 a R$ 500 por consulta com psiquiatra, e R$ 100 a R$ 300 por sessão de psicoterapia.


Passo 3: A primeira consulta

A primeira consulta costuma durar 40 a 60 minutos e é uma conversa para entender:
Seu padrão de uso: Com que frequência você usa? Quanto usa? Há quanto tempo?
Impacto na sua vida: Como a cannabis afeta seu trabalho, seus relacionamentos, sua saúde?
Histórico familiar: Alguém na sua família tem problemas com álcool, drogas ou saúde mental?
Histórico pessoal: Você já teve depressão, ansiedade, traumas ou outros problemas psicológicos?
Sintomas de abstinência: O que acontece quando você tenta parar?

O que esperar?
– O profissional não vai te julgar. O objetivo é entender sua situação para te ajudar.
– Você pode se sentir envergonhado ou nervoso, e tudo bem. É normal.
– O profissional pode pedir exames (como de sangue ou urina) para descartar outras condições.

Exemplo de perguntas que o profissional pode fazer:
– “Há quanto tempo você usa cannabis?”
– “Você já tentou parar? Como foi?”
– “Como está seu sono? Seu apetite?”
– “Você sente que a cannabis está atrapalhando sua vida?”
– “Você usa outras substâncias, como álcool ou cigarro?”


Passo 4: Avaliação dos critérios diagnósticos

O profissional vai comparar suas respostas com os critérios do DSM-5 ou da CID-11 (que já explicamos na seção “Quais são os sintomas?”). Para receber o diagnóstico, você precisa ter pelo menos 2 dos 11 critérios nos últimos 12 meses.

Exemplo:
Maria usava cannabis todos os dias há 2 anos. Ela:
1. Usava mais do que pretendia (critério 1).
2. Tentou parar várias vezes, mas não conseguiu (critério 2).
3. Deixou de sair com amigos porque preferia ficar em casa fumando (critério 7).

Com base nesses sintomas, o profissional diagnosticou transtorno por uso de cannabis leve.


Passo 5: Diagnóstico diferencial

O profissional também vai descartar outras condições que podem parecer um transtorno por uso de cannabis, mas não são. Isso é chamado de diagnóstico diferencial.

Condições que podem ser confundidas:
1. Transtornos de ansiedade ou depressão:
– Às vezes, a pessoa usa cannabis para aliviar sintomas de ansiedade ou depressão, mas o uso acaba piorando esses problemas.
– O profissional vai avaliar se os sintomas de ansiedade/depressão já existiam antes do uso de cannabis ou se são causados por ele.
2. Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH):
– Pessoas com TDAH podem usar cannabis para “se acalmar”, mas o uso pode piorar os sintomas de desatenção e impulsividade.
3. Esquizofrenia ou outros transtornos psicóticos:
– O uso de cannabis pode desencadear psicose em pessoas predispostas.
– O profissional vai avaliar se os sintomas psicóticos (como delírios ou alucinações) começaram depois do uso de cannabis ou se já existiam antes.
4. Abstinência de outras substâncias:
– Se a pessoa usa outras drogas (como álcool ou tabaco), os sintomas de abstinência podem ser confundidos com os da cannabis.

Exemplo:
Pedro procurou ajuda porque estava tendo crises de ansiedade. Ele usava cannabis para “se acalmar”, mas percebeu que as crises pioravam quando estava chapado. O psiquiatra avaliou que Pedro tinha transtorno de ansiedade generalizada, e que o uso de cannabis estava piorando o quadro. O diagnóstico foi transtorno de ansiedade + uso problemático de cannabis.


Passo 6: Gravidade do transtorno

O profissional vai classificar o transtorno em leve, moderado ou grave, com base no número de critérios que você apresenta:
Leve: 2 a 3 critérios.
Moderado: 4 a 5 critérios.
Grave: 6 ou mais critérios.

Exemplo:
Leve: João usava cannabis todos os dias, mas conseguia trabalhar e manter os relacionamentos. Ele tinha 3 critérios.
Moderado: Ana usava cannabis várias vezes ao dia, tinha problemas no trabalho e brigava com a família. Ela tinha 5 critérios.
Grave: Carlos usava cannabis o dia todo, não conseguia trabalhar, tinha problemas de saúde e já havia sido internado. Ele tinha 8 critérios.


Passo 7: Plano de tratamento

Depois do diagnóstico, o profissional vai conversar com você sobre as opções de tratamento. Isso pode incluir:
Psicoterapia (terapia cognitivo-comportamental, entrevista motivacional).
Medicamentos (para ansiedade, depressão ou sintomas de abstinência).
Grupos de apoio (como Narcóticos Anônimos).
Internação (em casos graves).

Exemplo:
Maria recebeu o diagnóstico de transtorno por uso de cannabis moderado. O psiquiatra recomendou:
1. Psicoterapia 1 vez por semana.
2. Medicamento para ansiedade.
3. Participação em um grupo de apoio para dependentes químicos.


Quanto tempo leva para receber o diagnóstico?

Depende de vários fatores:
Primeira consulta: Geralmente é agendada em 1 a 4 semanas (no SUS pode demorar mais).
Avaliação: Pode levar 1 a 3 consultas para o profissional ter certeza do diagnóstico.
Exames: Se forem necessários, podem levar mais algumas semanas.

Exemplo:
Pedro procurou uma UBS e foi encaminhado para um CAPS AD. A primeira consulta foi agendada para 2 semanas depois. Nas 3 consultas seguintes, o psiquiatra fez a avaliação e deu o diagnóstico de transtorno por uso de cannabis leve. Todo o processo levou 1 mês.


O que fazer enquanto espera o diagnóstico?

Se você está esperando por uma consulta e sente que o uso de cannabis está fora de controle, algumas coisas podem ajudar:
1. Anote seu padrão de uso: Quando usa? Quanto usa? Como se sente antes e depois?
2. Tente reduzir o uso: Mesmo que não consiga parar, reduzir já é um passo importante.
3. Busque apoio: Converse com alguém de confiança (amigo, familiar, líder religioso).
4. Cuide da saúde física: Durma bem, alimente-se de forma saudável e faça exercícios.
5. Evite situações de risco: Se você costuma usar cannabis em festas ou com certos amigos, tente evitar esses ambientes por um tempo.


Tratamento

Receber o diagnóstico de transtorno por uso de cannabis pode ser um alívio (porque finalmente você entende o que está acontecendo) e, ao mesmo tempo, assustador (porque agora precisa enfrentar o problema). A boa notícia é que existem tratamentos eficazes, e muitas pessoas conseguem retomar o controle da vida.

O tratamento costuma ser multidisciplinar, ou seja, envolve várias abordagens ao mesmo tempo:
Psicoterapia (para trabalhar as causas emocionais e comportamentais).
Medicamentos (para aliviar sintomas de abstinência, ansiedade ou depressão).
Mudanças no estilo de vida (exercícios, alimentação, sono).
Grupos de apoio (para compartilhar experiências e se sentir acolhido).

Vamos entender cada uma dessas abordagens em detalhes.


Medicamentos

Os medicamentos não são a solução mágica para o transtorno por uso de cannabis, mas podem ajudar a aliviar sintomas que dificultam a recuperação, como ansiedade, depressão ou insônia.

Importante:
Não existe um remédio específico para “curar” o vício em cannabis. Os medicamentos são usados para tratar sintomas associados ou facilitar a abstinência.
Nenhum medicamento deve ser usado sem orientação médica. Alguns remédios podem causar dependência ou piorar os sintomas se usados de forma incorreta.

Vamos conhecer os principais tipos de medicamentos usados no tratamento.


1. Medicamentos para sintomas de abstinência

Quando você para de usar cannabis, pode sentir irritabilidade, ansiedade, insônia e falta de apetite. Alguns medicamentos podem ajudar a aliviar esses sintomas.

Exemplos:
Antidepressivos (ISRS): Como fluoxetina, sertralina ou escitalopram.
Para que servem? Aliviam sintomas de ansiedade e depressão que podem surgir na abstinência.
Como funcionam? Aumentam a quantidade de serotonina no cérebro, um neurotransmissor que regula o humor.
Efeitos colaterais: Náusea, dor de cabeça, sonolência ou insônia (nos primeiros dias).
Quanto tempo para fazer efeito? 2 a 4 semanas.
Exemplo: João começou a tomar sertralina para ansiedade e, depois de 3 semanas, percebeu que estava mais calmo e conseguindo dormir melhor.

  • Ansiolíticos (benzodiazepínicos): Como diazepam ou clonazepam.
  • Para que servem? Aliviam ansiedade e insônia intensas na abstinência.
  • Como funcionam? Aumentam o efeito do GABA, um neurotransmissor que “acalma” o cérebro.
  • Efeitos colaterais: Sonolência, tontura, risco de dependência (por isso são usados por pouco tempo).
  • Quanto tempo para fazer efeito? Imediato (em minutos).
  • Exemplo: Maria estava com muita ansiedade na primeira semana sem cannabis. O psiquiatra receitou clonazepam por 7 dias, e ela conseguiu dormir melhor.

  • Antipsicóticos atípicos: Como quetiapina ou olanzapina.

  • Para que servem? Aliviam sintomas de paranoia ou psicose que podem surgir na abstinência (especialmente em pessoas com predisposição).
  • Como funcionam? Bloqueiam receptores de dopamina, um neurotransmissor ligado à psicose.
  • Efeitos colaterais: Ganho de peso, sonolência, boca seca.
  • Quanto tempo para fazer efeito? 1 a 2 semanas.
  • Exemplo: Pedro começou a ter alucinações depois de parar de usar cannabis. O psiquiatra receitou quetiapina, e os sintomas melhoraram em 10 dias.

  • Melatonina:

  • Para que serve? Ajuda a regular o sono na abstinência.
  • Como funciona? É um hormônio que sinaliza para o cérebro que está na hora de dormir.
  • Efeitos colaterais: Sonolência diurna (se usada em excesso).
  • Quanto tempo para fazer efeito? 30 minutos a 1 hora.
  • Exemplo: Ana tinha dificuldade para dormir sem cannabis. O médico receitou melatonina, e ela conseguiu dormir melhor em 3 dias.

2. Medicamentos para comorbidades (problemas associados)

Muitas pessoas com transtorno por uso de cannabis também têm outros problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade ou TDAH. Tratar essas condições pode facilitar a recuperação.

Exemplos:
TDAH: Metilfenidato (Ritalina) ou lisdexanfetamina (Venvanse).
Para que serve? Melhora a concentração e reduz a impulsividade.
Exemplo: Carlos tinha TDAH e usava cannabis para “se acalmar”. Depois de começar a tomar metilfenidato, ele conseguiu reduzir o uso.

  • Depressão: Bupropiona (Wellbutrin).
  • Para que serve? Melhora o humor e aumenta a energia.
  • Exemplo: Joana estava deprimida e usava cannabis para “animar” os dias. Depois de começar a tomar bupropiona, ela se sentiu mais motivada e conseguiu parar de usar.

  • Ansiedade: Buspirona.

  • Para que serve? Alivia a ansiedade sem causar dependência.
  • Exemplo: Pedro tinha crises de ansiedade quando tentava parar de usar cannabis. A buspirona ajudou a controlar os sintomas.

3. Medicamentos em estudo (ainda não aprovados no Brasil)

Alguns medicamentos estão sendo estudados para reduzir a fissura por cannabis, mas ainda não estão disponíveis no Brasil.

Exemplos:
N-acetilcisteína (NAC): Um antioxidante que pode ajudar a reduzir a fissura.
Canabidiol (CBD): Um composto da cannabis que não causa dependência e pode ajudar a reduzir a ansiedade e a fissura.


Psicoterapia

A psicoterapia é fundamental no tratamento do transtorno por uso de cannabis. Ela ajuda a entender por que você usa a substância, a desenvolver estratégias para lidar com a fissura e a reconstruir uma vida sem dependência.

Existem várias abordagens terapêuticas, mas as que têm mais evidência científica para o tratamento do transtorno por uso de cannabis são:
1. Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC).
2. Entrevista Motivacional.
3. Terapia de Prevenção de Recaída.
4. Terapia Familiar.

Vamos entender cada uma delas.


1. Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)

O que é?
A TCC é uma terapia prática e focada no presente, que ajuda a identificar e mudar pensamentos e comportamentos que levam ao uso de cannabis.

Como funciona?
Identificar gatilhos: O terapeuta ajuda você a reconhecer situações, emoções ou pessoas que te levam a usar cannabis.
Exemplo: “Eu sempre fumo quando estou estressado no trabalho.”
Mudar pensamentos: Você aprende a questionar pensamentos que justificam o uso.
Exemplo: “Eu mereço fumar porque tive um dia difícil” → “Fumar não vai resolver meus problemas, só vai piorar.”
Desenvolver habilidades: Você aprende estratégias para lidar com a fissura e evitar recaídas.
Exemplo: Técnicas de respiração para ansiedade, atividades alternativas para substituir o uso.

Exemplo de sessão:
João estava na TCC há 2 meses. Na sessão, ele contou que tinha usado cannabis no fim de semana porque estava ansioso com uma prova. O terapeuta ajudou João a:
1. Identificar o gatilho: Ansiedade com a prova.
2. Questionar o pensamento: “Eu preciso fumar para relaxar” → “Fumar vai me deixar mais ansioso depois.”
3. Desenvolver uma estratégia: João decidiu que, quando sentisse ansiedade, iria caminhar por 10 minutos em vez de fumar.

Quanto tempo dura?
Curto prazo: 12 a 20 sessões (3 a 6 meses).
Longo prazo: Algumas pessoas continuam a terapia por anos, especialmente se têm outros problemas de saúde mental.

Para quem é indicada?
– Pessoas que querem entender as causas do uso de cannabis.
– Pessoas que têm ansiedade, depressão ou traumas associados ao uso.
– Pessoas que querem mudar comportamentos relacionados ao uso.


2. Entrevista Motivacional

O que é?
A entrevista motivacional é uma abordagem gentil e colaborativa, que ajuda você a encontrar suas próprias razões para mudar. O terapeuta não te diz o que fazer — ele te ajuda a descobrir o que você quer e como chegar lá.

Como funciona?
Explorar ambivalência: Você fala sobre os prós e contras de usar cannabis.
Exemplo: “Eu gosto de fumar porque me relaxa, mas odeio quando perco o controle.”
Desenvolver discrepância: O terapeuta ajuda você a perceber a diferença entre seus valores e suas ações.
Exemplo: “Você disse que quer ser um bom pai, mas quando fuma, não consegue brincar com seu filho.”
Reforçar a autoeficácia: Você é encorajado a acreditar que pode mudar.
Exemplo: “Você já conseguiu reduzir o uso antes. O que te ajudou naquela época?”

Exemplo de sessão:
Maria estava em dúvida se queria parar de usar cannabis. O terapeuta perguntou:
– “O que você gosta em usar cannabis?”
– Maria: “Me relaxa e me ajuda a dormir.”
– “O que você não gosta?”
– Maria: “Me deixa lenta no trabalho e me afasta dos meus filhos.”
O terapeuta ajudou Maria a perceber que os contras superavam os prós e que ela tinha força para mudar.

Quanto tempo dura?
Curto prazo: 2 a 4 sessões (para aumentar a motivação).
Pode ser combinada com outras terapias, como a TCC.

Para quem é indicada?
– Pessoas que não têm certeza se querem parar de usar.
– Pessoas que já tentaram parar várias vezes e não conseguiram.
– Pessoas que se sentem culpadas ou envergonhadas pelo uso.


3. Terapia de Prevenção de Recaída

O que é?
A terapia de prevenção de recaída é focada em identificar e evitar situações de risco que podem levar ao uso de cannabis novamente.

Como funciona?
Identificar situações de alto risco: Lugares, pessoas ou emoções que aumentam a chance de usar.
Exemplo: “Eu sempre fumo quando saio com o João.”
Desenvolver um plano de prevenção: O que fazer quando sentir fissura ou estiver em uma situação de risco.
Exemplo: “Se eu sentir vontade de fumar, vou ligar para minha irmã ou sair para caminhar.”
Lidar com recaídas: Como aprender com os erros e seguir em frente.
Exemplo: “Eu recaí no fim de semana, mas isso não significa que eu falhei. Vou voltar ao meu plano.”

Exemplo de sessão:
Pedro estava há 1 mês sem usar cannabis, mas no fim de semana foi a uma festa e acabou fumando. Na terapia, ele e o terapeuta:
1. Analisaram o que aconteceu: Pedro estava estressado e decidiu que “uma tragada não faria mal”.
2. Identificaram o gatilho: Estresse + ambiente de festa.
3. Desenvolveram um plano: Pedro decidiu que, quando estivesse estressado, iria escrever em um diário em vez de fumar.

Quanto tempo dura?
Pode ser usada junto com a TCC ou como terapia independente.
Duração variável: Algumas pessoas precisam de poucas sessões, outras de meses.

Para quem é indicada?
– Pessoas que já tentaram parar várias vezes e recaíram.
– Pessoas que têm dificuldade para lidar com a fissura.
– Pessoas que querem manter a abstinência a longo prazo.


4. Terapia Familiar

O que é?
A terapia familiar envolve familiares ou pessoas próximas no tratamento. Ela ajuda a melhorar a comunicação, a reduzir conflitos e a criar um ambiente de apoio para a recuperação.

Como funciona?
Educação sobre o transtorno: A família aprende sobre o que é o transtorno por uso de cannabis e como ajudar.
Melhorar a comunicação: A família aprende a falar e ouvir de forma mais eficaz.
Exemplo: Em vez de dizer “Você é um irresponsável”, dizer “Eu fico preocupado quando você chega tarde.”
Estabelecer limites: A família aprende a apoiar sem permitir o uso.
Exemplo: “Nós te amamos e queremos te ajudar, mas não vamos te dar dinheiro para comprar cannabis.”
Resolver conflitos: A terapia ajuda a família a lidar com mágoas e ressentimentos causados pelo uso.

Exemplo de sessão:
Ana e seus pais estavam em terapia familiar. Ana contou que se sentia julgada pelos pais, e eles disseram que se sentiam impotentes para ajudá-la. O terapeuta ajudou a família a:
1. Expressar sentimentos sem culpar ninguém.
2. Estabelecer limites claros: Os pais não dariam dinheiro para Ana, mas a apoiariam na busca por tratamento.
3. Criar um plano de apoio: A família decidiu fazer atividades juntos (como caminhadas) para fortalecer os laços.

Quanto tempo dura?
Curto prazo: 6 a 12 sessões.
Longo prazo: Algumas famílias continuam a terapia por anos.

Para quem é indicada?
– Pessoas que têm conflitos familiares por causa do uso de cannabis.
– Pessoas que dependem da família para se recuperar.
– Famílias que querem aprender a ajudar sem prejudicar a recuperação.


Mudanças no dia a dia

O tratamento não se resume a terapia e medicamentos — mudanças no estilo de vida são fundamentais para a recuperação. Pequenas alterações na rotina podem fazer uma grande diferença na sua capacidade de lidar com a fissura e manter a abstinência.

Vamos ver algumas áreas importantes.


1. Exercício físico

Por que ajuda?
O exercício físico libera endorfina, um neurotransmissor que dá sensação de prazer e bem-estar. Isso ajuda a reduzir a fissura e a melhorar o humor.

Quais exercícios são melhores?
Caminhada ou corrida: Liberam endorfina e ajudam a reduzir a ansiedade.
Yoga ou meditação: Melhoram a conexão mente-corpo e reduzem o estresse.
Musculação: Aumentam a autoestima e a sensação de controle.
Esportes em grupo: Como futebol ou vôlei, ajudam a socializar sem usar cannabis.

Exemplo:
João começou a caminhar 30 minutos por dia depois de parar de usar cannabis. No começo, era difícil, mas depois de 2 semanas ele percebeu que:
– A fissura diminuiu.
– Dormia melhor.
– Se sentia mais confiante.

Dica:
Comece com pequenos passos. Se você não está acostumado a se exercitar, comece com 10 minutos por dia e vá aumentando.


2. Sono

Por que é importante?
A cannabis desregula o sono, e muitas pessoas têm insônia quando param de usar. Um sono de qualidade ajuda a:
– Reduzir a fissura.
– Melhorar o humor.
– Aumentar a energia.

Como melhorar o sono?
Rotina: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias.
Ambiente: Mantenha o quarto escuro, silencioso e fresco.
Evite telas: Não use celular ou computador 1 hora antes de dormir.
Relaxamento: Faça respiração profunda ou meditação antes de dormir.
Evite cafeína: Não tome café, chá preto ou refrigerante 6 horas antes de dormir.

Exemplo:
Maria tinha insônia depois de parar de usar cannabis. Ela começou a:
1. Dormir e acordar no mesmo horário (mesmo nos fins de semana).
2. Ler um livro antes de dormir em vez de mexer no celular.
3. Tomar um chá de camomila à noite.
Depois de 2 semanas, ela conseguiu dormir 6 horas seguidas.


3. Alimentação

Por que é importante?
A cannabis aumenta o apetite (a famosa “larica”), e muitas pessoas ganham peso quando param de usar. Uma alimentação saudável ajuda a:
– Manter o peso.
– Melhorar o humor.
– Aumentar a energia.

O que comer?
Proteínas: Ovos, frango, peixe, feijão (ajudam a manter a saciedade).
Fibras: Frutas, verduras, aveia (melhoram o funcionamento do intestino).
Gorduras boas: Abacate, castanhas, azeite (ajudam o cérebro a funcionar melhor).
Água: Beba 2 litros por dia (a cannabis desidrata o corpo).

O que evitar?
Açúcar: Doces, refrigerantes, sucos industrializados (causam picos de energia e depois cansaço).
Alimentos ultraprocessados: Salgadinhos, fast food, embutidos (pioram o humor e a energia).
Cafeína em excesso: Café, chá preto, energéticos (aumentam a ansiedade).

Exemplo:
Pedro comia muito fast food quando estava chapado. Depois de parar de usar cannabis, ele começou a:
1. Comer frutas no café da manhã em vez de pão com manteiga.
2. Levar marmita para o trabalho em vez de comer lanche.
3. Beber água sempre que sentia fissura.
Em 1 mês, ele perdeu 3 kg e se sentiu mais disposto.


4. Rotina

Por que é importante?
Uma rotina estruturada ajuda a:
– Reduzir a fissura (porque você fica ocupado).
– Melhorar a autoestima (porque você cumpre metas).
– Evitar situações de risco (como ficar entediado e pensar em usar).

Como estruturar a rotina?
1. Acordar no mesmo horário todos os dias.
2. Fazer uma lista de tarefas para o dia (mesmo que sejam pequenas).
3. Incluir atividades prazerosas (ler, ouvir música, ver um filme).
4. Evitar ociosidade (quando você não tem nada para fazer, a fissura pode aparecer).

Exemplo:
Ana não tinha rotina e passava o dia deitada no sofá. Depois de começar a terapia, ela criou uma rotina:
7h: Acordar e tomar café da manhã.
8h-12h: Trabalhar (home office).
12h-13h: Almoçar e caminhar 15 minutos.
13h-17h: Trabalhar.
17h-18h: Ler um livro.
18h-19h: Jantar.
19h-20h: Assistir a uma série.
22h: Dormir.
Depois de 1 semana, ela percebeu que não pensava tanto em cannabis.


5. Técnicas de manejo da fissura

A fissura é normal no processo de recuperação, mas você pode aprender a lidar com ela sem recair.

Técnicas que ajudam:
1. Distração:
– Faça algo que ocupe sua mente, como:
– Jogar um jogo no celular.
– Ligar para um amigo.
– Fazer um quebra-cabeça.
2. Respiração profunda:
– Inspire pelo nariz contando até 4.
– Segure o ar contando até 4.
– Expire pela boca contando até 6.
– Repita 5 vezes.
3. Autodiálogo:
– Lembre-se: “Isso vai passar. Eu já passei por isso antes e consegui.”
4. Atividade física:
– Faça 10 polichinelos ou caminhe por 5 minutos.
5. Escrever:
– Anote por que você quer parar e leia quando sentir fissura.

Exemplo:
João sentiu fissura no trabalho. Ele:
1. Foi ao banheiro e fez respiração profunda por 2 minutos.
2. Ligou para a irmã e conversou por 5 minutos.
3. Lembrou que a última vez que recaiu, se sentiu mal depois.
A fissura passou em 10 minutos.


Convivendo com o diagnóstico

Receber o diagnóstico de transtorno por uso de cannabis pode ser um momento de virada na vida. Para algumas pessoas, é um alívio finalmente entender o que está acontecendo. Para outras, é assustador pensar em como será a vida sem a substância. A verdade é que a recuperação é um processo, e cada pessoa tem seu próprio ritmo.

Nesta seção, vamos falar sobre como conviver com o diagnóstico, tanto para a pessoa que recebeu o diagnóstico quanto para seus familiares e amigos.


Para a pessoa com o diagnóstico

1. Aceitar o diagnóstico (sem culpa ou vergonha)

O primeiro passo é aceitar que você tem um transtorno por uso de cannabis. Isso não significa que você é “fraco”, “sem força de vontade” ou “um fracasso”. Significa que você tem uma condição de saúde que precisa de tratamento, assim como diabetes ou hipertensão.

Como fazer isso?
Lembre-se: O transtorno não define quem você é. Você é muito mais do que sua relação com a cannabis.
Evite se culpar: A culpa só atrapalha a recuperação. Em vez disso, foque em o que você pode fazer agora para melhorar.
Busque apoio: Converse com um terapeuta, participe de grupos de apoio ou fale com pessoas que já passaram pelo mesmo.

Exemplo:
João se sentiu envergonhado quando recebeu o diagnóstico. Ele pensou: “Como eu deixei isso acontecer?” Mas depois de conversar com o terapeuta, entendeu que não era culpa dele — era uma combinação de fatores genéticos, ambientais e psicológicos. Isso o ajudou a parar de se culpar e a focar na recuperação.


2. Entender que a recuperação é um processo

A recuperação não é linear — haverá dias bons e dias ruins. Você pode ter recaídas, e tudo bem. O importante é aprender com os erros e seguir em frente.

O que esperar?
Primeiras semanas: Você pode sentir ansiedade, irritabilidade e fissura intensa.
Primeiros meses: A fissura diminui, mas você ainda pode ter dias difíceis.
Longo prazo: A vida sem cannabis se torna mais fácil e prazerosa, mas você sempre precisará estar atento para não recair.

Exemplo:
Maria parou de usar cannabis, mas recaiu depois de 3 meses. Ela se sentiu um fracasso, mas o terapeuta a ajudou a entender que a recaída faz parte do processo. Ela aprendeu com o erro e voltou ao tratamento mais forte.


3. Criar uma rede de apoio

Ninguém se recupera sozinho. Ter pessoas ao seu lado faz toda a diferença.

Como criar uma rede de apoio?
Família e amigos: Converse com pessoas de confiança e peça ajuda.
Grupos de apoio: Participe de grupos como Narcóticos Anônimos (NA) ou Marijuana Anonymous (MA).
Profissionais de saúde: Mantenha contato com seu psiquiatra e terapeuta.
Comunidades online: Existem fóruns e grupos no Facebook ou Reddit para pessoas em recuperação.

Exemplo:
Pedro se sentia sozinho na recuperação. Ele começou a participar de um grupo de NA e conheceu pessoas que estavam passando pelo mesmo. Isso o ajudou a se sentir menos isolado e mais motivado.


4. Redescobrir prazeres sem cannabis

Muitas pessoas associam prazer apenas à cannabis. Um dos maiores desafios da recuperação é redescobrir prazeres na vida sem a substância.

Como fazer isso?
Experimente coisas novas: Faça um curso, aprenda a cozinhar, viaje.
Volte a fazer o que gostava: Se você gostava de pintar, tocar violão ou jogar futebol, volte a fazer.
Crie novos hobbies: Leia, assista a filmes, faça caminhadas.
Celebre pequenas vitórias: Cada dia sem usar é uma conquista.

Exemplo:
Ana só se divertia quando estava chapada. Depois de parar de usar cannabis, ela começou a:
Ler livros (algo que não fazia há anos).
Fazer caminhadas no parque.
Sair com amigos que não usavam cannabis.
Depois de 2 meses, ela percebeu que não sentia falta da substância.


5. Lidar com a fissura

A fissura é normal e faz parte do processo. Ela não dura para sempre — geralmente passa em 10 a 30 minutos.

Estratégias para lidar com a fissura:
1. Distração: Faça algo que ocupe sua mente (jogar, ligar para um amigo, assistir a um vídeo).
2. Respiração profunda: Inspire pelo nariz (4 segundos), segure (4 segundos), expire pela boca (6 segundos).
3. Autodiálogo: Lembre-se: “Isso vai passar. Eu já passei por isso antes.”
4. Atividade física: Faça 10 polichinelos ou caminhe por 5 minutos.
5. Escreva: Anote por que você quer parar e leia quando sentir fissura.

Exemplo:
João sentiu fissura no trabalho. Ele:
1. Foi ao banheiro e fez respiração profunda por 2 minutos.
2. Ligou para a irmã e conversou por 5 minutos.
3. Lembrou que a última vez que recaiu, se sentiu mal depois.
A fissura passou em 10 minutos.


6. Cuidar da saúde mental

Muitas pessoas usam cannabis para aliviar sintomas de ansiedade, depressão ou traumas. Quando param de usar, esses sintomas podem voltar com força. Por isso, é importante cuidar da saúde mental durante a recuperação.

Como fazer isso?
Terapia: Continue a terapia mesmo depois de parar de usar.
Medicamentos: Se o médico receitou, não pare de tomar sem orientação.
Autocuidado: Durma bem, alimente-se de forma saudável e faça exercícios.
Mindfulness: Pratique meditação ou yoga para reduzir o estresse.

Exemplo:
Pedro usava cannabis para aliviar a ansiedade. Quando parou, a ansiedade voltou com força. Ele:
1. Começou a fazer terapia 1 vez por semana.
2. Praticou meditação todos os dias.
3. Tomou o medicamento receitado pelo psiquiatra.
Depois de 1 mês, a ansiedade diminuiu.


7. Evitar situações de risco

Algumas situações aumentam a chance de recaída. É importante identificar e evitar esses gatilhos.

Exemplos de situações de risco:
Lugares: Festas, bares, casas de amigos que usam cannabis.
Pessoas: Amigos que usam cannabis e não respeitam sua decisão de parar.
Emoções: Estresse, tédio, solidão, raiva.
Objetos: Baseados, cachimbos, isqueiros (se possível, livre-se deles).

Como evitar?
Planeje com antecedência: Se você sabe que vai a uma festa onde as pessoas usam cannabis, vá com um amigo que te apoia e tenha um plano de saída.
Diga não: Se alguém te oferecer cannabis, recuse com firmeza. Você não precisa se justificar.
Substitua hábitos: Se você costumava fumar depois do trabalho, crie um novo hábito (como caminhar ou tomar um chá).

Exemplo:
Maria costumava fumar com os amigos depois do trabalho. Depois de parar, ela:
1. Começou a caminhar depois do trabalho.
2. Convidou os amigos para fazer outras atividades (como jogar baralho).
3. Disse não quando ofereceram cannabis, sem se sentir culpada.


Para familiares e amigos

Se você é familiar ou amigo de alguém com transtorno por uso de cannabis, seu apoio é fundamental para a recuperação. Mas é importante saber como ajudar sem prejudicar o processo.


1. Como ajudar de forma efetiva

O que fazer:
Escute sem julgar: Deixe a pessoa falar sobre seus sentimentos, mesmo que você não concorde.
Ofereça apoio prático: Ajude com tarefas do dia a dia (como cozinhar ou levar ao médico).
Incentive o tratamento: Ajude a pessoa a buscar ajuda profissional e a seguir o tratamento.
Celebre as vitórias: Parabenize a pessoa por cada dia sem usar, por mais pequeno que seja.
Seja paciente: A recuperação é um processo, e recaídas podem acontecer.

Exemplo:
João estava tentando parar de usar cannabis. Sua mãe:
1. Escutou quando ele falou sobre a fissura.
2. Cozinhou suas refeições favoritas para animá-lo.
3. Acompanhou nas consultas com o psiquiatra.
4. Parabenizou quando ele completou 1 mês sem usar.


2. O que NÃO fazer

O que evitar:
Julgar ou criticar: Frases como “Você é fraco” ou “Isso é falta de vergonha na cara” só pioram a situação.
Cobrar perfeição: A recuperação não é linear. Recaídas fazem parte do processo.
Minimizar o problema: Dizer “Isso é só maconha, não é tão grave” pode fazer a pessoa se sentir incompreendida.
Controlar ou vigiar: Revistar o quarto ou checar o celular da pessoa quebra a confiança.
Usar culpa ou chantagem: Dizer “Se você me amasse, pararia” só aumenta a culpa e a vergonha.

Exemplo:
Pedro recaiu depois de 2 meses sem usar cannabis. Seu pai:
Disse: “Eu sabia que você não ia conseguir. Você é um fracasso.”
Poderia ter dito: “Eu sei que é difícil, mas estou aqui para te ajudar. Vamos conversar com o terapeuta sobre o que aconteceu.”


3. Como cuidar de si mesmo

Ajudar alguém com transtorno por uso de cannabis pode ser estressante e desgastante. É importante que você também cuide de si mesmo.

Como fazer isso?
Busque apoio: Participe de grupos para familiares, como Al-Anon ou Nar-Anon.
Estabeleça limites: Você não precisa abrir mão da sua vida para ajudar a pessoa.
Cuide da sua saúde: Durma bem, alimente-se de forma saudável e faça exercícios.
Tire um tempo para você: Faça coisas que te dão prazer, como ler, ver um filme ou sair com amigos.
Aceite que você não pode controlar tudo: A recuperação é responsabilidade da pessoa, não sua.

Exemplo:
Ana estava exausta de ajudar o filho com transtorno por uso de cannabis. Ela:
1. Começou a participar do Al-Anon (grupo para familiares de dependentes químicos).
2. Estabeleceu limites: Disse ao filho que não daria mais dinheiro para ele, mas que o apoiaria no tratamento.
3. Tirava 1 hora por dia para si mesma (para ler ou tomar um banho relaxante).


4. Como explicar para outras pessoas

Muitas pessoas não entendem o que é o transtorno por uso de cannabis e podem fazer comentários preconceituosos. É importante saber como explicar para evitar mal-entendidos.

Como fazer isso?
Use uma linguagem simples: “É uma doença que afeta o cérebro, assim como a depressão ou a diabetes.”
Dê exemplos: “Quando ele tenta parar, sente ansiedade e insônia, como se estivesse gripado.”
Explique que não é falta de força de vontade: “Não é que ele não queira parar — é que o cérebro dele está viciado na substância.”
Peça apoio: “Precisamos de compreensão e paciência, não de julgamentos.”

Exemplo:
Maria contou para a família que o filho tinha transtorno por uso de cannabis. Ela disse:
“É como se o cérebro dele estivesse programado para precisar da maconha. Quando ele tenta parar, sente uma vontade tão forte que é como se estivesse com fome e não conseguisse comer. Não é falta de força de vontade — é uma doença. Precisamos apoiá-lo, não julgá-lo.”


Quando os sintomas podem piorar?

Algumas situações podem aumentar o risco de recaída ou piorar os sintomas. É importante estar atento a esses momentos.

Situações de risco:
1. Estresse intenso:
– Problemas no trabalho, brigas familiares ou dificuldades financeiras.
O que fazer: Pratique técnicas de relaxamento (respiração, meditação) e busque apoio.
2. Tédio ou solidão:
– Quando você não tem nada para fazer, a fissura pode aparecer.
O que fazer: Mantenha uma rotina com atividades prazerosas.
3. Exposição a gatilhos:
– Ver amigos usando cannabis, passar por lugares onde costumava usar.
O que fazer: Evite situações de risco e crie novos hábitos.
4. Problemas de saúde mental:
– Ansiedade, depressão ou traumas não tratados.
O que fazer: Continue a terapia e tome os medicamentos receitados.
5. Festas ou eventos sociais:
– Ambientes onde as pessoas usam cannabis.
O que fazer: Vá com um amigo que te apoia e tenha um plano de saída.

Exemplo:
João estava há 3 meses sem usar cannabis quando perdeu o emprego. Ele se sentiu estressado e ansioso e pensou em fumar para aliviar. Mas lembrou que:
1. O estresse era temporário — ele encontraria outro emprego.
2. Fumar não resolveria o problema — só o deixaria mais ansioso depois.
3. Podia buscar apoio — ligou para o terapeuta e para um amigo.
Ele conseguiu passar pela crise sem recair.


Perguntas frequentes

1. “Maconha vicia mesmo? Eu conheço gente que usa há anos e não tem problema.”

Resposta:
Sim, a maconha pode viciar. Nem todo mundo que usa desenvolve um transtorno, assim como nem todo mundo que bebe álcool se torna alcoólatra. Mas cerca de 1 em cada 10 usuários desenvolve dependência, e entre os adolescentes esse número sobe para 1 em cada 6.

O vício não é só uma questão de quantidade ou frequência — é sobre como a substância afeta sua vida. Se você:
– Tenta parar e não consegue.
– Usa mesmo sabendo que está prejudicando sua saúde, seus relacionamentos ou seu trabalho.
– Sente fissura intensa quando não usa.
… então pode ter um transtorno por uso de cannabis.

Exemplo:
João usava cannabis há 5 anos. No começo, era só nos fins de semana, mas com o tempo passou a usar todos os dias. Ele tentou parar várias vezes, mas sempre voltava. Perdeu o emprego, brigou com a família e desenvolveu ansiedade. Foi quando percebeu que estava viciado.


2. “Se eu parar de usar, vou ficar ansioso ou deprimido para sempre?”

Resposta:
Não. Os sintomas de ansiedade e depressão que aparecem na abstinência são temporários e costumam melhorar em 2 a 4 semanas. Isso acontece porque o cérebro está se readaptando a funcionar sem a substância.

No começo, pode ser difícil, mas com o tempo:
– Seu humor melhora.
– Sua ansiedade diminui.
– Você volta a sentir prazer em outras atividades.

O que ajuda?
Terapia: Ajuda a lidar com as emoções.
Medicamentos: Se necessário, o médico pode receitar algo para aliviar os sintomas.
Exercícios: Liberam endorfina, que melhora o humor.
Rede de apoio: Ter pessoas ao seu lado faz toda a diferença.

Exemplo:
Maria parou de usar cannabis e, nas primeiras semanas, se sentiu ansiosa e triste. Ela:
1. Começou a fazer terapia 1 vez por semana.
2. Praticou exercícios todos os dias.
3. Conversou com amigos que a apoiavam.
Depois de 1 mês, os sintomas melhoraram.


3. “Posso usar cannabis medicinal sem me viciar?”

Resposta:
Depende. A cannabis medicinal é usada para tratar condições específicas, como dor crônica, epilepsia ou náusea em pacientes com câncer. Quando usada sob supervisão médica e na dose correta, o risco de dependência é menor.

Mas é importante lembrar que:
Qualquer substância que altera o cérebro pode viciar, inclusive a cannabis medicinal.
O uso recreativo é diferente do medicinal. Se você usa para “relaxar” ou “se divertir”, o risco de dependência é maior.
Converse com seu médico. Ele pode te ajudar a avaliar os riscos e benefícios e a encontrar alternativas se necessário.

Exemplo:
Pedro usava cannabis medicinal para dor crônica. Ele:
1. Seguiu a prescrição do médico (dose e frequência).
2. Não usava para outros fins (como relaxar ou dormir).
3. Fazia acompanhamento regular para avaliar os efeitos.
Ele conseguiu controlar a dor sem desenvolver dependência.


4. “Quanto tempo leva para o cérebro voltar ao normal depois de parar de usar?”

Resposta:
O cérebro começa a se recuperar logo depois que você para de usar, mas o tempo exato varia de pessoa para pessoa. Alguns efeitos podem levar meses ou até anos para desaparecer completamente.

O que acontece no cérebro?
Primeiras 72 horas: Os níveis de dopamina começam a se normalizar.
2 a 4 semanas: Melhora a memória, a concentração e o humor.
3 a 6 meses: O cérebro começa a recuperar a capacidade de sentir prazer em outras atividades.
1 ano ou mais: Alguns efeitos, como dificuldade de aprendizado, podem persistir por mais tempo.

O que acelera a recuperação?
Exercícios físicos: Ajudam a regenerar neurônios.
Alimentação saudável: Fornece os nutrientes que o cérebro precisa.
Sono de qualidade: Ajuda na recuperação das funções cognitivas.
Terapia: Ajuda a reaprender hábitos saudáveis.

Exemplo:
João parou de usar cannabis e, depois de 3 meses, percebeu que:
– Conseguia se concentrar melhor no trabalho.
– Não sentia mais tanta fissura.
– Voltou a gostar de atividades que antes não lhe davam prazer.


5. “Meu filho usa cannabis. Como saber se ele está viciado?”

Resposta:
Se você suspeita que seu filho está com problemas com cannabis, fique atento a sinais de alerta. Nem todo uso é problemático, mas alguns comportamentos podem indicar um transtorno.

Sinais de que o uso pode ser problemático:
1. Mudanças de comportamento:
– Fica mais irritado, ansioso ou deprimido.
Isola-se da família e dos amigos.
Mente ou esconde o uso.
2. Problemas na escola ou no trabalho:
Notas baixas ou faltas frequentes.
Chega atrasado ou falta ao trabalho.
Perde o interesse em atividades que antes gostava.
3. Mudanças físicas:
Olhos vermelhos com frequência.
Tosse crônica (por causa da fumaça).
Ganho ou perda de peso (por alterações no apetite).
4. Problemas financeiros:
Pede dinheiro com frequência.
Vende objetos ou rouba para comprar cannabis.
5. Tentativas de parar sem sucesso:
– Diz que vai parar, mas volta a usar.
Fica irritado ou ansioso quando tenta parar.

O que fazer?
Converse com ele: Aborde o assunto sem julgamentos. Diga que está preocupado e que quer ajudar.
Busque ajuda profissional: Um psiquiatra ou psicólogo pode avaliar se há um transtorno.
Participe do tratamento: A terapia familiar pode ajudar a melhorar a comunicação e o apoio.
Estabeleça limites: Você pode apoiar sem permitir o uso (por exemplo, não dar dinheiro para comprar cannabis).

Exemplo:
Ana percebeu que seu filho estava mais irritado, faltando à escola e pedindo dinheiro com frequência. Ela:
1. Conversou com ele e descobriu que ele estava usando cannabis todos os dias.
2. Buscou ajuda de um psiquiatra, que diagnosticou transtorno por uso de cannabis.
3. Começou terapia familiar para aprender a ajudar sem prejudicar a recuperação.
4. Estabeleceu limites: Não dava mais dinheiro para ele, mas o apoiava no tratamento.


6. “Eu uso cannabis para dormir. Se parar, como vou conseguir dormir?”

Resposta:
A cannabis desregula o sono, e muitas pessoas têm insônia quando param de usar. Mas é possível reaprender a dormir sem a substância.

Por que a cannabis atrapalha o sono?
– Ela reduz o sono REM (a fase do sono em que sonhamos e processamos emoções).
– Quando você para de usar, o cérebro compensa com mais sono REM, o que pode causar pesadelos e insônia.

Como melhorar o sono sem cannabis?
1. Rotina: Durma e acorde no mesmo horário todos os dias.
2. Ambiente: Mantenha o quarto escuro, silencioso e fresco.
3. Evite telas: Não use celular ou computador 1 hora antes de dormir.
4. Relaxamento: Faça respiração profunda ou meditação antes de dormir.
5. Evite cafeína: Não tome café, chá preto ou refrigerante 6 horas antes de dormir.
6. Exercícios: Pratique exercícios físicos pela manhã ou à tarde (evite à noite).
7. Chás relaxantes: Camomila, maracujá ou valeriana podem ajudar.

Exemplo:
Pedro usava cannabis para dormir há 2 anos. Quando parou, teve insônia por 2 semanas. Ele:
1. Criou uma rotina: Dormia às 22h e acordava às 6h todos os dias.
2. Evitou telas 1 hora antes de dormir.
3. Tomou chá de camomila à noite.
4. Fez exercícios pela manhã.
Depois de 1 mês, conseguiu dormir 6 horas seguidas.


7. “Posso usar cannabis de vez em quando depois de parar?”

Resposta:
Depende. Se você teve um transtorno por uso de cannabis, o ideal é evitar completamente a substância. Isso porque:
– O cérebro lembra da sensação de prazer e pode voltar a querer mais.
– Mesmo um uso ocasional pode desencadear fissura intensa.
– Algumas pessoas perdem o controle e voltam a usar com frequência.

Exceções:
– Se você nunca teve um transtorno, pode ser possível usar ocasionalmente sem problemas.
– Se você usa cannabis medicinal, pode continuar sob supervisão médica.

O que fazer?
Converse com seu terapeuta ou médico. Eles podem te ajudar a avaliar os riscos.
Se decidir usar, faça um teste: Use uma vez e veja como se sente. Se sentir fissura intensa ou culpa, é melhor evitar.
Tenha um plano: Se usar, defina limites claros (por exemplo, “só vou usar em festas, não em casa”).

Exemplo:
Maria parou de usar cannabis e, depois de 6 meses, decidiu experimentar em uma festa. Ela:
1. Conversou com o terapeuta, que a alertou sobre os riscos.
2. Usou uma vez e se sentiu ansiosa e com fissura nos dias seguintes.
3. Decidiu que não valia a pena e voltou à abstinência.


8. “Quanto tempo leva para eu me sentir ‘normal’ depois de parar?”

Resposta:
O tempo varia de pessoa para pessoa, mas a maioria começa a se sentir melhor entre 2 semanas e 3 meses. Alguns efeitos podem levar mais tempo para desaparecer.

O que esperar?
Primeiras 72 horas: Sintomas de abstinência (irritabilidade, ansiedade, insônia).
1 a 2 semanas: Melhora no humor e na energia.
1 mês: Redução da fissura, melhora na memória e na concentração.
3 meses: Volta a sentir prazer em outras atividades.
6 meses ou mais: Alguns efeitos, como dificuldade de aprendizado, podem persistir.

O que acelera a recuperação?
Terapia: Ajuda a lidar com as emoções.
Exercícios: Melhoram o humor e a cognição.
Alimentação saudável: Fornece os nutrientes que o cérebro precisa.
Sono de qualidade: Ajuda na recuperação das funções cognitivas.

Exemplo:
João parou de usar cannabis e, depois de:
1 semana: Ainda sentia ansiedade e insônia.
1 mês: A fissura diminuiu e ele conseguia se concentrar melhor no trabalho.
3 meses: Voltou a gostar de atividades que antes não lhe davam prazer.
6 meses: Sentia-se como antes de começar a usar, mas mais consciente dos gatilhos.


9. “Eu recaí. Isso significa que falhei?”

Resposta:
Não. A recaída faz parte do processo de recuperação e não significa que você falhou. Muitas pessoas recaem várias vezes antes de conseguir a abstinência a longo prazo.

Por que as recaídas acontecem?
Gatilhos: Situações, pessoas ou emoções que te levam a usar.
Fissura intensa: Às vezes, a vontade de usar é tão forte que é difícil resistir.
Excesso de confiança: Pensar “Eu já estou bem, posso usar só uma vez” pode levar à recaída.

O que fazer depois de uma recaída?
1. Não se culpe: A culpa só atrapalha a recuperação.
2. Analise o que aconteceu: O que te levou a usar? Como você pode evitar isso no futuro?
3. Volte ao tratamento: Converse com seu terapeuta ou médico.
4. Aprenda com o erro: Use a recaída como uma oportunidade de crescer.
5. Recomece: Cada dia é uma nova chance.

Exemplo:
Pedro estava há 2 meses sem usar cannabis quando recaiu em uma festa. Ele:
1. Não se culpou — entendeu que a recaída fazia parte do processo.
2. Analisou o que aconteceu: Estava estressado e decidiu que “uma tragada não faria mal”.
3. Conversou com o terapeuta, que o ajudou a identificar o gatilho (estresse).
4. Criou um plano: Quando estivesse estressado, iria caminhar ou ligar para um amigo.
5. Recomeçou e, depois de 1 mês, estava mais forte do que antes.


10. “Onde posso buscar ajuda no Brasil?”

Resposta:
No Brasil, você pode buscar ajuda gratuitamente pelo SUS ou em serviços particulares. Veja as opções:

SUS (Sistema Único de Saúde):
1. UBS (Unidade Básica de Saúde):
– O médico de família pode fazer uma avaliação inicial e encaminhar para um CAPS AD.
2. CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas):
– Serviço especializado em dependência química, com equipe multidisciplinar (psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais).
– Oferece terapia individual, em grupo e familiar, além de atividades de reinserção social.
3. Hospitais psiquiátricos:
– Em casos graves, pode ser necessária internação.
4. CVV (Centro de Valorização da Vida):
– Oferece apoio emocional por telefone (188), chat ou e-mail.
Gratuito e sigiloso.

Particular:
1. Clínicas de psiquiatria e psicologia:
– Consulta com psiquiatra: R$ 150 a R$ 500.
– Sessão de psicoterapia: R$ 100 a R$ 300.
2. Comunidades terapêuticas:
– Para casos graves, com internação de 3 a 6 meses.
– Custo varia de R$ 2.000 a R$ 10.000 por mês.
3. Grupos de apoio:
Narcóticos Anônimos (NA): Grupos gratuitos para dependentes químicos.
Marijuana Anonymous (MA): Grupos específicos para dependentes de cannabis.

Exemplo:
João buscou ajuda pelo SUS. Ele:
1. Foi à UBS, onde o médico o encaminhou para um CAPS AD.
2. Começou terapia 1 vez por semana.
3. Participou de grupos de apoio no CAPS.
4. Fez acompanhamento com psiquiatra, que receitou medicamento para ansiedade.
Depois de 3 meses, ele estava mais estável e confiante.


Quando procurar ajuda urgente

A maioria dos sintomas do transtorno por uso de cannabis não é emergência, mas algumas situações exigem ajuda imediata. Fique atento aos sinais de alerta e procure ajuda se:


Sinais de alerta moderados (procure ajuda em até 24 horas)

  • Sintomas de abstinência intensos: Ansiedade extrema, insônia persistente, falta de apetite por mais de 3 dias.
  • Pensamentos suicidas: “Eu não aguento mais”, “Seria melhor se eu não existisse”.
  • Psicose leve: Desconfiança excessiva, sensação de que estão te perseguindo, ouvir vozes que não existem.
  • Depressão grave: Tristeza profunda, falta de energia, incapacidade de realizar tarefas básicas (como tomar banho ou comer).

O que fazer?
Procure um CAPS AD ou UBS no mesmo dia.
Ligue para o CVV (188) se estiver com pensamentos suicidas.
Peça ajuda a um familiar ou amigo para te acompanhar.

Exemplo:
Maria parou de usar cannabis e, depois de 3 dias, estava com ansiedade extrema e insônia. Ela:
1. Ligou para o CVV e conversou com um voluntário.
2. Foi à UBS, onde o médico receitou um ansiolítico.
3. Começou terapia no CAPS AD na semana seguinte.


Sinais de alerta graves (procure ajuda IMEDIATA)

  • Psicose grave: Alucinações (ver ou ouvir coisas que não existem), delírios (acreditar em coisas absurdas, como “estão me espionando”), comportamento agressivo.
  • Tentativa de suicídio: Qualquer ação para tirar a própria vida (como tomar remédios em excesso ou se cortar).
  • Overdose (raro, mas possível): Confusão mental extrema, convulsões, desmaios (especialmente se a cannabis foi misturada com outras substâncias).
  • Sintomas físicos graves: Dor no peito, falta de ar, palpitações intensas (pode indicar problemas cardíacos).

O que fazer?
Ligue para o SAMU (192) ou vá para o pronto-socorro mais próximo.
Não fique sozinho. Peça para alguém te acompanhar.
Se a pessoa estiver agressiva ou psicótica, não tente contê-la sozinho — chame ajuda profissional.

Exemplo:
Pedro começou a ouvir vozes depois de parar de usar cannabis. Ele acreditava que estavam o espionando e ficou agressivo. Sua família:
1. Chamou o SAMU (192).
2. Levou Pedro para o pronto-socorro, onde ele foi avaliado por um psiquiatra.
3. Ele foi internado por alguns dias para estabilização.


Sinais de alerta em adolescentes

Os adolescentes são mais vulneráveis aos efeitos da cannabis, especialmente no cérebro em desenvolvimento. Fique atento a:

  • Mudanças bruscas de comportamento: Isolamento, agressividade, mentiras frequentes.
  • Queda no desempenho escolar: Notas baixas, faltas frequentes, perda de interesse nos estudos.
  • Envolvimento com outras drogas: Uso de álcool, cigarro ou drogas mais pesadas.
  • Comportamento de risco: Dirigir sob efeito, sexo sem proteção, brigas.
  • Sintomas psicóticos: Alucinações, delírios, paranoia.

O que fazer?
Procure ajuda profissional imediatamente. Um psiquiatra infantil ou CAPS AD pode avaliar.
Converse com a escola. Professores e coordenadores podem ajudar a monitorar o comportamento.
Não minimize os sintomas. O que pode parecer “coisa de adolescente” pode ser um sinal de alerta grave.

Exemplo:
Ana, 16 anos, começou a faltar à escola e a se isolar. Seus pais perceberam que ela estava usando cannabis todos os dias. Eles:
1. Conversaram com a escola, que confirmou a queda no desempenho.
2. Levaram Ana a um psiquiatra infantil, que diagnosticou transtorno por uso de cannabis + depressão.
3. Começaram terapia familiar para ajudar na recuperação.


Referências

  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022.
  • American Psychiatric Association (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
  • Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
  • Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
  • Fiocruz. III Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira. 2019.
  • NIDA (National Institute on Drug Abuse). Cannabis (Marijuana) Research Report. 2020.
  • Marijuana Anonymous (MA). Guia de Recuperação. 2021.
  • Narcóticos Anônimos (NA). Livro Básico. 2020.

Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.

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