O que é?
Imagine que, de repente, você sente que algo ou alguém “toma conta” do seu corpo e da sua mente. Você não reconhece suas próprias ações, fala com uma voz diferente, age de um jeito que não é seu e depois não se lembra do que aconteceu. Ou então, você entra num estado como se estivesse “desligado” do mundo, sem responder ao que acontece ao seu redor, como se estivesse em outro lugar. Essas experiências podem ser assustadoras, confusas e muitas vezes deixam a pessoa se sentindo perdida ou envergonhada.
O Transtorno de Transe e de Possessão é uma condição psiquiátrica classificada entre os transtornos dissociativos. Dissociação, em termos simples, é quando a mente “se divide” ou “se desconecta” de partes importantes da experiência normal, como a memória, a identidade, as emoções ou até mesmo o controle do próprio corpo. No caso desse transtorno, a dissociação se manifesta principalmente através de dois tipos de experiências:
- Estados de transe: A pessoa fica como se estivesse “fora do ar”, sem responder ao ambiente, com movimentos repetitivos ou sem expressão, como se estivesse em um estado alterado de consciência. É como se ela estivesse “desligada” por um tempo.
- Estados de possessão: A pessoa age como se estivesse sendo controlada por outra entidade (um espírito, um ser sobrenatural, uma força externa). Ela pode falar com uma voz diferente, fazer gestos que não são seus, ter memórias ou conhecimentos que não reconhece como próprios e, depois, não se lembrar do que aconteceu.
Como isso se diferencia de experiências normais ou religiosas?
Muitas culturas ao redor do mundo têm práticas religiosas ou espirituais que envolvem estados de transe ou possessão. Por exemplo:
– No Candomblé e na Umbanda, médiuns incorporam entidades espirituais como parte de rituais.
– Em algumas tradições cristãs, como o pentecostalismo, fiéis podem entrar em estados de êxtase durante cultos.
– Em culturas indígenas, xamãs entram em transe para se comunicar com espíritos.
A diferença crucial entre essas práticas culturais e o transtorno está em três pontos principais:
1. Vontade e controle: Nas práticas culturais, a pessoa escolhe entrar no estado de transe ou possessão, sabe o que está acontecendo e consegue sair quando quer. No transtorno, a experiência é involuntária, angustiante e a pessoa não consegue controlar.
2. Contexto social: Nas práticas culturais, o estado é aceito e valorizado pela comunidade. No transtorno, a experiência causa sofrimento e atrapalha a vida da pessoa, gerando conflitos com família, trabalho ou amigos.
3. Frequência e duração: Um ritual religioso acontece em momentos específicos e tem começo, meio e fim. No transtorno, os episódios são recorrentes, imprevisíveis e duram mais do que deveriam, muitas vezes atrapalhando o dia a dia.
Quem é afetado?
Não há muitos estudos específicos sobre a prevalência desse transtorno no Brasil, mas dados internacionais sugerem que:
– Ele é mais comum em mulheres do que em homens, possivelmente porque mulheres estão mais expostas a situações de violência e estresse crônico, que são fatores de risco.
– Os sintomas costumam começar na adolescência ou no início da vida adulta, mas podem aparecer em qualquer idade.
– Em algumas culturas, como em países da África, Ásia e América Latina, onde práticas espirituais são mais comuns, pode haver subdiagnóstico (ou seja, as pessoas não procuram ajuda porque acham que é “normal” ou “espiritual”).
– No Brasil, é importante lembrar que muitos casos podem ser confundidos com problemas espirituais, e a pessoa acaba sendo encaminhada para centros religiosos em vez de receber tratamento médico.
Um pouco de história
A ideia de que pessoas podem ser “possuídas” por espíritos ou forças externas existe desde as primeiras civilizações. Na Grécia Antiga, por exemplo, acreditava-se que doenças mentais eram causadas por deuses ou demônios. Na Idade Média, na Europa, mulheres que apresentavam comportamentos fora do comum eram acusadas de bruxaria e queimadas na fogueira.
Foi só no século XIX que a psiquiatria começou a estudar esses fenômenos de forma científica. Um dos marcos foi o trabalho do médico francês Jean-Martin Charcot, que estudou a histeria (um termo antigo para transtornos dissociativos) e mostrou que esses estados não eram “coisa de espírito”, mas sim manifestações de problemas psicológicos.
Hoje, a ciência entende que o Transtorno de Transe e de Possessão é uma reação da mente a situações extremas de estresse, trauma ou conflito interno. Não tem nada a ver com “fraqueza”, “falta de fé” ou “coisa do demônio”. É uma condição médica real, que pode ser tratada e melhorada com ajuda profissional.
Quais são os sintomas?
Para entender melhor o que caracteriza esse transtorno, vamos detalhar cada um dos critérios diagnósticos segundo a CID-11 e o DSM-5, traduzindo-os para uma linguagem simples e dando exemplos do dia a dia.
1. Episódios de transe ou possessão involuntários e recorrentes
O que significa?
A pessoa passa por momentos em que perde o controle sobre si mesma, seja entrando em um estado de transe (como se estivesse “desligada”) ou agindo como se estivesse possuída por outra entidade. Esses episódios não são escolhidos — eles acontecem contra a vontade da pessoa e causam sofrimento.
Exemplos concretos:
– Transe: Imagine que você está conversando com um amigo e, de repente, “desliga”. Seus olhos ficam vidrados, você para de responder, começa a balançar o corpo para frente e para trás e não reage quando alguém chama seu nome. Depois de alguns minutos, você “volta” e não se lembra do que aconteceu.
– Possessão: Você está em casa cozinhando e, de repente, sente uma força tomar conta do seu corpo. Sua voz muda, você começa a falar coisas que não reconhece como suas, age de um jeito agressivo ou fala em uma língua que não conhece. Quando o episódio passa, você não se lembra de nada e fica assustado com o que fizeram com seu corpo.
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Entrar em um estado de concentração profunda (como quando você está tão focado em um filme que não ouve alguém chamando seu nome) ou participar de um ritual religioso onde você escolhe incorporar uma entidade.
– Sintomático: Os episódios acontecem sem aviso, duram mais do que deveriam, causam sofrimento e atrapalham sua vida. Você não consegue controlar quando começam ou terminam.
2. Perda parcial ou completa da identidade pessoal
O que significa?
Durante os episódios, a pessoa não se reconhece como ela mesma. Ela pode sentir que outra personalidade, espírito ou força está no controle, ou simplesmente não saber quem é naquele momento.
Exemplos concretos:
– Você está no trabalho e, de repente, sente que “alguém” toma conta do seu corpo. Você começa a falar com uma voz infantil, age como se fosse uma criança e não reconhece seus colegas. Quando o episódio passa, você fica confuso e envergonhado.
– Você está dirigindo e, de repente, “acorda” em um lugar desconhecido, sem saber como chegou lá. Você não se lembra dos últimos 20 minutos e percebe que estava agindo como se fosse outra pessoa.
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Sentir-se “fora de si” em momentos de muito estresse (como depois de uma briga forte) ou ter uma crise de identidade na adolescência (quando todo mundo se questiona “quem sou eu?”).
– Sintomático: A perda de identidade é repentina, intensa e recorrente, como se outra pessoa estivesse no comando. Você não consegue se reconectar com quem você é durante o episódio.
3. Amnésia durante ou após os episódios
O que significa?
A pessoa não se lembra do que aconteceu durante o episódio de transe ou possessão. Às vezes, a amnésia é parcial (ela lembra de fragmentos), e outras vezes é total (como se aquele período tivesse sido apagado da memória).
Exemplos concretos:
– Você acorda no meio da noite com a roupa rasgada e machucados no corpo, sem saber como aquilo aconteceu. Sua família diz que você estava gritando e se debatendo, mas você não se lembra de nada.
– Você está em uma festa e, de repente, percebe que está em outro lugar, sem saber como saiu de lá. Seus amigos dizem que você estava agindo de um jeito estranho, mas você não se lembra de nada.
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Esquecer onde deixou as chaves ou o que comeu no café da manhã (coisas corriqueiras).
– Sintomático: Ter lacunas grandes na memória sobre coisas que você fez ou disse, especialmente se essas lacunas estão ligadas a comportamentos estranhos ou perigosos.
4. Sofrimento ou prejuízo significativo na vida
O que significa?
Os episódios não são inofensivos — eles causam sofrimento emocional, atrapalham o trabalho, os estudos, os relacionamentos ou outras áreas importantes da vida.
Exemplos concretos:
– No trabalho: Você é demitido porque, durante uma reunião importante, entrou em transe e começou a falar coisas sem sentido. Seus colegas ficaram assustados e seu chefe achou que você estava “zoando”.
– Nos relacionamentos: Seu parceiro termina com você porque, durante uma discussão, você “virou outra pessoa” e começou a gritar coisas que não eram suas. Ele ficou com medo e não conseguiu mais confiar em você.
– Na saúde: Você se machuca durante os episódios (por exemplo, cai e quebra um braço) ou desenvolve ansiedade e depressão por causa do medo de ter outro episódio.
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Ter um dia ruim no trabalho ou uma briga com o parceiro.
– Sintomático: Os episódios atrapalham sua vida de forma constante, fazendo com que você perca oportunidades, se isole ou viva com medo.
5. Não faz parte de uma prática cultural ou religiosa aceita
O que significa?
Os episódios não acontecem apenas durante rituais religiosos ou práticas culturais onde eles são esperados e aceitos pela comunidade.
Exemplos concretos:
– Culturalmente aceito: Uma mãe de santo incorpora uma entidade durante uma gira de Umbanda, com o consentimento dela e da comunidade. Depois, ela se lembra do que aconteceu e não sofre por isso.
– Transtorno: Você entra em transe no meio do supermercado, sem nenhum contexto religioso, e as pessoas ao redor ficam assustadas. Você não consegue explicar o que aconteceu e se sente envergonhado.
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Participar de um ritual religioso onde estados de transe ou possessão são parte da prática.
– Sintomático: Os episódios acontecem fora de contexto, em situações onde não são esperados ou aceitos, causando sofrimento.
6. Não é causado por substâncias ou outra condição médica
O que significa?
Os sintomas não são efeito de drogas, álcool, remédios ou doenças físicas (como epilepsia ou tumores cerebrais).
Exemplos concretos:
– Substâncias: Você bebeu muito e, durante a ressaca, teve um episódio de transe. Isso não conta como transtorno, porque foi causado pelo álcool.
– Doença física: Você tem epilepsia e, durante uma crise, age de forma estranha. Isso não é transtorno dissociativo, mas sim um sintoma da epilepsia.
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Ter alucinações depois de usar drogas ou agir de forma estranha durante uma crise de enxaqueca.
– Sintomático: Os episódios acontecem sem relação com substâncias ou doenças físicas, e os exames médicos não mostram nenhuma causa orgânica.
Um aviso importante
Ter um ou dois desses sintomas isoladamente não significa que você tem o transtorno. Por exemplo:
– Todo mundo já teve um momento de “branco” ou esqueceu algo importante.
– Muitas pessoas já sentiram que “não eram elas mesmas” em momentos de estresse.
– Algumas culturas aceitam estados de transe em contextos específicos.
O que define o transtorno é a combinação desses sintomas, a intensidade deles, a frequência com que acontecem e o impacto que causam na sua vida. Se você se identificou com vários desses pontos e eles estão atrapalhando seu dia a dia, é importante procurar ajuda de um profissional de saúde mental.
Como se manifesta no dia a dia?
Viver com o Transtorno de Transe e de Possessão pode ser como tentar dirigir um carro onde, de vez em quando, alguém assume o volante sem aviso. Você nunca sabe quando vai acontecer, e isso pode tornar a vida imprevisível e assustadora. Vamos ver como esse transtorno afeta diferentes áreas do cotidiano.
No trabalho ou na escola
Imagine que você está em uma reunião importante no trabalho ou fazendo uma prova na escola. De repente, você sente que “algo” toma conta de você. Sua voz muda, você começa a falar coisas sem sentido ou simplesmente “desliga” e não responde mais. Quando “volta”, seus colegas ou professores estão olhando para você com uma mistura de preocupação e desconfiança.
Exemplos concretos:
– Reuniões ou aulas: Você está apresentando um projeto e, de repente, entra em transe. Começa a balançar o corpo, fala frases desconexas ou simplesmente para de responder. Seus colegas acham que você está brincando ou tendo um surto psicótico, e seu chefe fica irritado.
– Prazos e produtividade: Você perde horas do seu dia em episódios de transe ou possessão e não consegue cumprir suas tarefas. Isso gera estresse, ansiedade e até demissão.
– Relacionamento com colegas: As pessoas começam a evitar você porque não sabem como reagir aos seus episódios. Alguns podem até fazer piadas ou espalhar boatos, o que aumenta seu isolamento.
Dificuldades comuns:
– Ser demitido ou reprovado por “falta de comprometimento”.
– Ter dificuldade em manter um emprego ou curso por causa da imprevisibilidade dos episódios.
– Sentir vergonha ou medo de ser julgado, o que pode levar a evitar ambientes de trabalho ou estudo.
Nos relacionamentos
Relacionamentos exigem confiança, comunicação e previsibilidade. Quando você vive com um transtorno que faz com que, de repente, você “vire outra pessoa” ou “desapareça” por um tempo, isso pode gerar medo, desconfiança e desgaste emocional nas pessoas ao seu redor.
Exemplos concretos:
– Parceiro(a): Seu parceiro está contando algo importante para você, e de repente você entra em transe. Ele fica assustado, acha que você não se importa e começa a questionar se pode confiar em você. Com o tempo, ele pode se afastar ou até terminar o relacionamento.
– Família: Seus pais ou irmãos não entendem o que está acontecendo e acham que você está “fingindo” ou “possuído por espíritos ruins”. Eles podem tentar “exorcizar” você ou levá-lo a centros religiosos, o que só aumenta sua angústia.
– Amigos: Seus amigos começam a evitar convidar você para sair porque não sabem quando você vai “dar piti”. Você se sente sozinho e incompreendido.
Dificuldades comuns:
– Desconfiança: As pessoas ao seu redor podem achar que você está mentindo ou manipulando elas.
– Isolamento: Você pode começar a evitar encontros sociais por medo de ter um episódio na frente dos outros.
– Culpa: Você se sente culpado por “assustar” as pessoas que ama e pode até evitar falar sobre o que está acontecendo.
Na rotina diária
Coisas simples, como tomar banho, cozinhar ou sair de casa, podem se tornar desafiadoras quando você não sabe quando um episódio vai acontecer.
Exemplos concretos:
– Autocuidado: Você está tomando banho e, de repente, entra em transe. Acorda com o banheiro alagado e não se lembra de ter deixado a torneira aberta.
– Alimentação: Você esquece de comer porque está “desligado” ou come compulsivamente durante um episódio de possessão, sem se dar conta.
– Sono: Você acorda no meio da noite em transe, gritando ou se debatendo. Isso atrapalha seu sono e o de quem dorme com você.
– Lazer: Você evita ir ao cinema ou a shows porque tem medo de ter um episódio em público e passar vergonha.
Dificuldades comuns:
– Acidentes: Você pode se machucar durante os episódios (por exemplo, cair da escada ou se queimar enquanto cozinha).
– Esquecimentos: Você perde compromissos importantes ou esquece de pagar contas porque estava em transe.
– Ansiedade: Você vive em estado de alerta constante, com medo do próximo episódio.
Na saúde física
O corpo e a mente estão conectados, e o estresse causado por esse transtorno pode se manifestar de várias formas no corpo.
Exemplos concretos:
– Dores crônicas: Você pode desenvolver dores de cabeça, dores musculares ou problemas digestivos por causa do estresse constante.
– Problemas de sono: Insônia ou pesadelos são comuns, especialmente se você tem medo de ter episódios durante a noite.
– Sistema imunológico: O estresse crônico pode enfraquecer suas defesas, fazendo com que você fique doente com mais frequência.
– Automutilação: Algumas pessoas se machucam durante os episódios (por exemplo, se arranhando ou batendo a cabeça) sem perceber.
Dificuldades comuns:
– Negligência médica: Você pode evitar ir ao médico por medo de ser julgado ou de que seus sintomas sejam atribuídos a “coisa de espírito”.
– Comorbidades: É comum que pessoas com esse transtorno também desenvolvam depressão, ansiedade ou transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
O que causa essa condição?
Se você ou alguém que você ama recebeu esse diagnóstico, é natural se perguntar: “Por que isso está acontecendo?”. A resposta não é simples, porque o Transtorno de Transe e de Possessão é causado por uma combinação de fatores, como uma receita onde vários ingredientes se misturam. Vamos entender cada um deles.
Fatores genéticos: “Será que isso veio da minha família?”
Imagine que o cérebro é como um computador. Algumas pessoas nascem com um “sistema operacional” mais sensível a bugs (problemas), especialmente quando expostas a situações de estresse extremo. Estudos mostram que pessoas com histórico familiar de transtornos dissociativos ou de humor têm mais chances de desenvolver esse transtorno.
Como isso funciona?
– Não existe um “gene do transe”, mas sim uma predisposição genética que torna o cérebro mais vulnerável a dissociações quando exposto a traumas ou estresse.
– Por exemplo: se seus pais ou avós tiveram depressão, ansiedade ou transtornos dissociativos, você pode ter herdado uma tendência a reagir de forma mais intensa a situações difíceis.
Mito vs. Verdade:
❌ Mito: “Se ninguém na minha família tem isso, então não é genético.”
✅ Verdade: Mesmo que ninguém na sua família tenha sido diagnosticado, pode haver uma predisposição genética não identificada. Além disso, os genes são apenas um dos ingredientes da receita — o ambiente também é fundamental.
Fatores neurobiológicos: “O que acontece no meu cérebro?”
O cérebro é como uma orquestra, onde várias partes trabalham juntas para produzir uma sinfonia harmoniosa. No Transtorno de Transe e de Possessão, algumas dessas partes não estão se comunicando direito, especialmente as áreas responsáveis por:
– Memória (hipocampo)
– Controle emocional (amígdala)
– Identidade e autoconsciência (córtex pré-frontal)
O que acontece durante um episódio?
1. A amígdala (centro do medo) fica hiperativa: Isso faz com que o cérebro interprete situações normais como ameaças, desencadeando uma reação de “luta ou fuga”.
2. O hipocampo (memória) “desliga” parcialmente: Isso explica por que você não se lembra do que aconteceu durante o episódio.
3. O córtex pré-frontal (controle) perde o comando: É como se o “piloto automático” assumisse, fazendo com que você aja de forma estranha ou fora do seu controle.
Analogia:
Imagine que seu cérebro é um carro. Normalmente, você dirige com as mãos no volante (córtex pré-frontal no controle). Durante um episódio, é como se o volante travasse e o carro começasse a andar sozinho, sem que você consiga frear.
Fatores ambientais: “O que aconteceu na minha vida?”
Aqui entram as experiências de vida que podem desencadear o transtorno. O cérebro humano é incrível, mas também é muito sensível a traumas e estresse prolongado. Alguns dos principais fatores ambientais incluem:
1. Traumas na infância
- Abuso físico, sexual ou emocional: Crianças que sofrem abuso têm mais chances de desenvolver transtornos dissociativos como forma de “se proteger” do sofrimento. É como se a mente dissesse: “Isso é demais para eu aguentar, então vou me desconectar.”
- Negligência: Crescer em um ambiente onde suas necessidades emocionais não são atendidas também pode levar a dissociações.
2. Estresse extremo na vida adulta
- Violência doméstica: Viver em um relacionamento abusivo pode fazer com que a mente “desligue” como forma de sobrevivência.
- Acidentes ou desastres naturais: Pessoas que passaram por situações traumáticas, como assaltos, acidentes de carro ou enchentes, podem desenvolver sintomas dissociativos.
- Guerra ou refugiamento: Soldados ou refugiados que vivenciaram situações de guerra têm alto risco de desenvolver transtornos dissociativos.
3. Conflitos internos não resolvidos
- Culpa ou vergonha: Pessoas que carregam segredos pesados (como abuso, traição ou crimes) podem dissociar como forma de “escapar” desses sentimentos.
- Pressão social: Viver em uma cultura onde você é constantemente julgado ou reprimido (por exemplo, por sua orientação sexual, identidade de gênero ou escolhas de vida) pode levar a dissociações.
Mito vs. Verdade:
❌ Mito: “Só quem passou por abuso sexual desenvolve esse transtorno.”
✅ Verdade: Qualquer tipo de trauma ou estresse extremo pode desencadear o transtorno, não apenas abuso sexual. O que importa é como sua mente reagiu à situação.
Fatores da gestação e desenvolvimento: “Será que começou antes de eu nascer?”
Alguns estudos sugerem que experiências durante a gestação ou os primeiros anos de vida podem aumentar o risco de transtornos dissociativos. Por exemplo:
– Estresse materno durante a gravidez: Se sua mãe passou por muito estresse ou trauma enquanto estava grávida de você, isso pode ter afetado o desenvolvimento do seu cérebro.
– Complicações no parto: Falta de oxigênio ou outros problemas durante o parto podem deixar o cérebro mais vulnerável.
– Apego inseguro na infância: Bebês que não recebem cuidado e afeto suficientes nos primeiros anos de vida podem desenvolver dificuldades em regular emoções, o que aumenta o risco de dissociações.
Mito vs. Verdade:
❌ Mito: “Se minha mãe teve uma gravidez tranquila, então não pode ser isso.”
✅ Verdade: Mesmo que a gestação tenha sido tranquila, outros fatores (como traumas na infância) podem ter contribuído para o transtorno.
Modelo biopsicossocial: “É tudo junto e misturado”
Nenhum desses fatores age sozinho. O Transtorno de Transe e de Possessão é como um quebra-cabeça, onde cada peça (genética, cérebro, ambiente, desenvolvimento) se encaixa para formar o quadro completo. Por exemplo:
– Você pode ter uma predisposição genética (peça 1) + ter sofrido abuso na infância (peça 2) + viver em um ambiente estressante (peça 3) = maior chance de desenvolver o transtorno.
– Ou então: você não tem histórico familiar (peça 1 ausente), mas passou por um trauma extremo na vida adulta (peça 2) + tem dificuldade em lidar com emoções (peça 3) = também pode desenvolver o transtorno.
Analogia:
Imagine que seu cérebro é um copo. Fatores genéticos e de desenvolvimento são como a quantidade de água que já está no copo (algumas pessoas nascem com o copo mais cheio). Traumas e estresse são como mais água sendo adicionada. Quando o copo transborda, os sintomas aparecem.
Mitos comuns sobre as causas
Vamos desfazer alguns mitos que podem causar culpa, vergonha ou desinformação:
❌ Mito 1: “Isso é coisa de gente fraca ou sem fé.”
✅ Verdade: O transtorno não tem nada a ver com força ou fé. É uma condição médica, como diabetes ou asma. Ninguém escolhe ter isso, assim como ninguém escolhe ter uma dor de cabeça.
❌ Mito 2: “Só acontece com quem foi possuído por espíritos ruins.”
✅ Verdade: Embora algumas culturas interpretem os sintomas como possessão espiritual, a ciência mostra que eles são manifestações de um cérebro sobrecarregado. Não há evidências de que espíritos causem o transtorno.
❌ Mito 3: “Se eu ignorar, vai passar sozinho.”
✅ Verdade: Ignorar os sintomas pode piorar o quadro. O transtorno não desaparece sozinho — ele precisa de tratamento, assim como qualquer outra condição de saúde.
❌ Mito 4: “Isso é frescura ou falta de força de vontade.”
✅ Verdade: Ninguém escolhe ter episódios de transe ou possessão. Eles são involuntários e causam sofrimento real. Culpar a pessoa só aumenta sua angústia.
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico de Transtorno de Transe e de Possessão pode ser um alívio (porque finalmente há uma explicação para o que você está vivendo) ou um choque (porque pode ser difícil aceitar que algo “está errado”). Seja como for, entender como o diagnóstico é feito pode ajudar a diminuir a ansiedade e preparar você para o que vem pela frente.
O processo de avaliação: passo a passo
O diagnóstico não é feito em uma única consulta. É um processo cuidadoso, que envolve várias etapas para garantir que o médico ou psicólogo entenda exatamente o que está acontecendo. Vamos ver como isso funciona:
1. Primeira consulta: “Conte-me o que está acontecendo”
- Quem faz: Geralmente, um psiquiatra ou psicólogo clínico é o profissional mais indicado para diagnosticar transtornos dissociativos. No SUS, você pode ser encaminhado por um clínico geral ou por um profissional de um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial).
- O que acontece:
- O profissional vai perguntar sobre seus sintomas: quando começaram, com que frequência acontecem, como são os episódios, se você se lembra do que acontece durante eles.
- Ele também vai perguntar sobre seu histórico de vida: infância, traumas, doenças físicas, uso de substâncias, histórico familiar de transtornos mentais.
- Pode ser que ele peça para você descrever um episódio recente em detalhes, como se estivesse contando uma história.
- Dica: Leve um diário de sintomas para a consulta. Anote quando os episódios acontecem, o que você estava fazendo antes, como se sentiu depois e se houve algum gatilho (como estresse ou lembranças ruins).
2. Exames físicos e laboratoriais: “Vamos descartar outras causas”
- Por que é importante: Alguns problemas de saúde podem causar sintomas parecidos com os do transtorno, como:
- Epilepsia: Crises epilépticas podem causar movimentos estranhos e perda de memória.
- Tumores cerebrais: Dependendo da localização, podem afetar a memória e o comportamento.
- Doenças da tireoide: Alterações hormonais podem causar confusão mental.
- Uso de drogas ou álcool: Substâncias podem desencadear episódios dissociativos.
- O que pode ser pedido:
- Exames de sangue (para checar hormônios, vitaminas, etc.).
- Eletroencefalograma (EEG) para descartar epilepsia.
- Tomografia ou ressonância magnética do cérebro (em alguns casos).
3. Avaliação psicológica: “Vamos entender sua mente”
- Testes psicológicos: O profissional pode aplicar questionários ou testes para avaliar:
- Níveis de dissociação (por exemplo, a Escala de Experiências Dissociativas).
- Presença de traumas (como o PTSD Checklist).
- Outros transtornos mentais que podem estar presentes (como depressão ou ansiedade).
- Entrevistas estruturadas: Algumas perguntas são padronizadas para garantir que nenhum sintoma seja esquecido. Por exemplo:
- “Você já sentiu que estava fora do seu corpo, como se estivesse observando a si mesmo de fora?”
- “Você já teve lacunas na memória sobre coisas que fez ou disse, sem saber como aconteceu?”
4. Diagnóstico diferencial: “O que não é esse transtorno?”
- Transtorno dissociativo de identidade (TDI): No TDI, a pessoa tem duas ou mais personalidades distintas que assumem o controle em momentos diferentes. No Transtorno de Transe e de Possessão, os episódios são mais pontuais e ligados a estados de transe ou possessão, sem a formação de identidades separadas.
- Esquizofrenia: Pessoas com esquizofrenia podem ter alucinações (ouvir vozes) ou delírios (acreditar em coisas que não são reais), mas não têm episódios de transe ou possessão como no transtorno dissociativo.
- Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT): No TEPT, a pessoa revive traumas através de flashbacks ou pesadelos, mas não perde o controle do corpo como no transtorno de transe.
- Transtorno bipolar: Durante episódios de mania, a pessoa pode agir de forma impulsiva ou estranha, mas não entra em estados de transe ou possessão.
- Epilepsia do lobo temporal: Pode causar movimentos estranhos e perda de memória, mas os exames neurológicos mostram atividade cerebral anormal.
5. Tempo até o diagnóstico: “Por que demora tanto?”
- Média: O diagnóstico pode levar alguns meses, porque o profissional precisa:
- Descartar outras condições.
- Observar a frequência e a intensidade dos sintomas.
- Entender o contexto de vida da pessoa.
- Por que demora?
- Muitas pessoas escondem os sintomas por vergonha ou medo de serem julgadas.
- Alguns profissionais não estão familiarizados com transtornos dissociativos e podem confundir com outras condições.
- No SUS, a fila de espera para consultas com psiquiatras pode ser longa.
O que esperar da primeira consulta?
A primeira consulta pode ser intimidante, especialmente se você nunca falou sobre seus sintomas antes. Aqui está o que geralmente acontece:
- Acolhimento: O profissional vai tentar criar um ambiente seguro para você se abrir. Ele pode começar com perguntas simples, como “Como você está se sentindo hoje?” ou “O que te trouxe aqui?”.
- Histórico médico: Ele vai perguntar sobre doenças físicas, remédios que você toma, histórico familiar de transtornos mentais e uso de substâncias.
- Histórico de vida: Prepare-se para falar sobre sua infância, relacionamentos, trabalho e eventos traumáticos. Pode ser doloroso, mas é importante para o diagnóstico.
- Descrição dos sintomas: O profissional vai pedir para você descrever seus episódios de transe ou possessão. Seja o mais detalhado possível — quanto mais ele souber, melhor.
- Exames físicos: Em alguns casos, ele pode pedir para verificar sua pressão, batimentos cardíacos ou fazer um exame neurológico básico.
- Encaminhamentos: Se necessário, ele pode encaminhar você para exames ou para outros profissionais (como um neurologista).
Dica: Se você se sentir sobrecarregado, peça uma pausa. Você não precisa contar tudo de uma vez. O profissional está ali para ajudar, não para julgar.
SUS vs. Particular: como funciona no Brasil?
No SUS (Sistema Único de Saúde)
- Vantagens:
- Gratuito: Você não paga pelas consultas ou exames.
- Atenção integral: O SUS oferece tratamento multidisciplinar, com psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais.
- CAPS: Os Centros de Atenção Psicossocial são especializados em transtornos mentais graves e podem oferecer acompanhamento intensivo.
- Desvantagens:
- Fila de espera: Pode demorar meses para conseguir uma consulta com psiquiatra.
- Rotatividade de profissionais: Em alguns lugares, os profissionais mudam com frequência, o que pode atrapalhar o vínculo terapêutico.
- Limitações de recursos: Nem todos os exames ou terapias estão disponíveis em todas as regiões.
Como acessar:
1. Procure uma UBS (Unidade Básica de Saúde) perto da sua casa.
2. Agende uma consulta com um clínico geral ou médico de família.
3. Peça um encaminhamento para um psiquiatra ou CAPS.
4. Se precisar de ajuda urgente, procure um Pronto-Socorro Psiquiátrico ou ligue para o CVV (188).
No particular
- Vantagens:
- Agilidade: Você consegue consultas mais rápido.
- Escolha do profissional: Você pode escolher um psiquiatra ou psicólogo de sua confiança.
- Mais recursos: Alguns planos de saúde cobrem exames e terapias que não estão disponíveis no SUS.
- Desvantagens:
- Custo: Consultas particulares podem ser caras (entre R$ 200 e R$ 600 por sessão).
- Planos de saúde: Nem todos os planos cobrem transtornos dissociativos ou têm uma rede adequada de profissionais.
Dica: Se você não tem plano de saúde, procure clínicas-escola de universidades. Elas oferecem atendimento psicológico e psiquiátrico com preços acessíveis ou até gratuitos.
Diagnóstico diferencial: “O que pode ser confundido com esse transtorno?”
Algumas condições têm sintomas parecidos com os do Transtorno de Transe e de Possessão. O profissional vai avaliar cada uma delas para garantir que o diagnóstico seja correto.
| Condição | Como se diferencia |
|---|---|
| Epilepsia | Causa movimentos involuntários e perda de memória, mas os exames neurológicos mostram atividade cerebral anormal. |
| Esquizofrenia | Causa alucinações e delírios, mas não há episódios de transe ou possessão. |
| Transtorno bipolar | Causa oscilações de humor, mas não há perda de identidade ou controle do corpo. |
| Transtorno dissociativo de identidade (TDI) | Há formação de identidades separadas, não apenas episódios pontuais de transe. |
| Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) | A pessoa revive traumas, mas não perde o controle do corpo como no transtorno de transe. |
| Transtorno de sintomas neurológicos funcionais | Causa sintomas físicos (como paralisia) sem causa orgânica, mas não há episódios de transe. |
| Uso de substâncias | Drogas ou álcool podem causar sintomas dissociativos, mas eles desaparecem quando a substância é eliminada do corpo. |
Tratamento
Receber o diagnóstico de Transtorno de Transe e de Possessão pode trazer uma mistura de alívio (porque finalmente há uma explicação) e medo (porque você não sabe o que esperar do tratamento). A boa notícia é que esse transtorno pode ser tratado, e muitas pessoas conseguem retomar o controle de suas vidas com a ajuda certa.
O tratamento geralmente envolve uma combinação de medicamentos, psicoterapia e mudanças no estilo de vida. Vamos entender cada uma dessas partes.
Medicamentos
Os remédios não “curam” o transtorno, mas podem aliviar sintomas como ansiedade, depressão, insônia e impulsividade, que muitas vezes acompanham os episódios de transe ou possessão. Eles também podem ajudar a reduzir a frequência e a intensidade dos episódios.
Quais classes de medicamentos são usadas?
- Antidepressivos (ISRS e IRSN)
- Como funcionam: Eles aumentam os níveis de serotonina (um neurotransmissor que regula o humor, o sono e a ansiedade) no cérebro. Isso ajuda a diminuir a ansiedade, a depressão e a impulsividade.
- Exemplos:
- Fluoxetina (Prozac)
- Sertralina (Zoloft)
- Venlafaxina (Efexor)
- Efeitos colaterais comuns:
- Náusea (nos primeiros dias).
- Dor de cabeça.
- Sonolência ou insônia.
- Diminuição do desejo sexual.
-
Quanto tempo para fazer efeito?: Geralmente, 4 a 6 semanas. É importante não desistir nos primeiros dias, porque o corpo precisa de tempo para se adaptar.
-
Estabilizadores de humor
- Como funcionam: Eles ajudam a regular as oscilações emocionais e podem reduzir a intensidade dos episódios dissociativos.
- Exemplos:
- Lamotrigina (Lamictal)
- Ácido valproico (Depakote)
- Efeitos colaterais comuns:
- Sonolência.
- Ganho de peso.
- Tontura.
-
Quanto tempo para fazer efeito?: 2 a 4 semanas.
-
Antipsicóticos atípicos (em baixas doses)
- Como funcionam: Eles ajudam a controlar sintomas como agitação, impulsividade e pensamentos confusos. São usados em doses menores do que para esquizofrenia.
- Exemplos:
- Quetiapina (Seroquel)
- Aripiprazol (Abilify)
- Efeitos colaterais comuns:
- Sonolência.
- Ganho de peso.
- Boca seca.
-
Quanto tempo para fazer efeito?: 1 a 2 semanas.
-
Ansiolíticos (em casos específicos)
- Como funcionam: Eles diminuem a ansiedade e podem ser usados por curtos períodos para aliviar crises.
- Exemplos:
- Clonazepam (Rivotril)
- Diazepam (Valium)
- Cuidado: Esses remédios podem causar dependência se usados por muito tempo. Por isso, são prescritos apenas em situações específicas e por períodos curtos.
Mitos sobre medicamentos
❌ Mito 1: “Remédio psiquiátrico vicia.”
✅ Verdade: A maioria dos antidepressivos e estabilizadores de humor não causa dependência. Os ansiolíticos (como Rivotril) podem causar dependência se usados por muito tempo, mas são prescritos com cuidado.
❌ Mito 2: “Remédio vai me deixar dopado e sem emoções.”
✅ Verdade: Os medicamentos são ajustados para aliviar os sintomas sem tirar sua personalidade. Você continua sendo você, só que com menos sofrimento.
❌ Mito 3: “Se eu começar a tomar, vou ter que tomar para sempre.”
✅ Verdade: O tempo de uso varia. Algumas pessoas tomam por alguns meses, outras por anos. O médico vai avaliar o que é melhor para você.
❌ Mito 4: “Remédio é só para quem é fraco.”
✅ Verdade: Tomar remédio é como tomar insulina para diabetes ou anti-hipertensivo para pressão alta. É um tratamento médico, não uma questão de força ou fraqueza.
Psicoterapia
A psicoterapia é a parte mais importante do tratamento. Enquanto os medicamentos ajudam a aliviar os sintomas, a terapia trabalha nas causas do transtorno e ensina estratégias para lidar com os episódios.
Abordagens com mais evidência
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
- Como funciona: A TCC ajuda a identificar e mudar padrões de pensamento e comportamento que contribuem para os episódios dissociativos. Por exemplo:
- Se você acredita que “não tem controle sobre sua mente”, a terapia vai trabalhar para mudar essa crença.
- Se você evita situações por medo de ter um episódio, a terapia vai ajudar a enfrentar esses medos gradualmente.
- O que acontece na sessão:
- Você aprende a reconhecer gatilhos (situações, pensamentos ou emoções que desencadeiam os episódios).
- Pratica técnicas de grounding (ancoragem) para “voltar ao presente” durante um episódio.
- Trabalha na regulação emocional, aprendendo a lidar com ansiedade, raiva ou tristeza sem dissociar.
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Quanto tempo dura: Geralmente, 12 a 24 sessões, mas pode ser mais longo dependendo da necessidade.
-
Terapia de Processamento Cognitivo (CPT) ou Terapia de Exposição Prolongada (PE)
- Para quem: Pessoas que desenvolveram o transtorno após traumas (como abuso, violência ou acidentes).
- Como funciona: Essas terapias ajudam a processar o trauma de forma segura, para que ele não continue desencadeando episódios dissociativos.
- O que acontece na sessão:
- Você fala sobre o trauma aos poucos, em um ambiente seguro.
- Aprende a lidar com as emoções que surgem ao lembrar do trauma.
- Trabalha na reconstrução da memória, para que o trauma não seja mais tão doloroso.
-
Quanto tempo dura: 12 a 16 sessões, mas pode variar.
-
Terapia de Integração do Trauma (como a EMDR)
- Como funciona: O EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) usa movimentos oculares para ajudar o cérebro a processar memórias traumáticas.
- Para quem: Pessoas que têm flashbacks ou memórias intrusivas relacionadas a traumas.
- O que acontece na sessão:
- Você é guiado a lembrar do trauma enquanto faz movimentos com os olhos (seguindo os dedos do terapeuta ou luzes).
- Isso ajuda o cérebro a reprocessar a memória, diminuindo sua carga emocional.
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Quanto tempo dura: 8 a 12 sessões, mas pode ser mais longo.
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Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)
- Como funciona: A ACT ensina a aceitar os sintomas sem lutar contra eles, enquanto se compromete com ações que melhoram a qualidade de vida.
- O que acontece na sessão:
- Você aprende a observar seus pensamentos e emoções sem se identificar com eles.
- Define valores pessoais (o que é importante para você) e age de acordo com eles, mesmo com os sintomas.
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Quanto tempo dura: 12 a 24 sessões.
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Terapia Familiar
- Para quem: Quando os episódios de transe ou possessão afetam a dinâmica familiar ou quando a família não entende o transtorno.
- Como funciona: A terapia ajuda a família a entender o transtorno e a aprender como apoiar a pessoa sem julgamentos.
- O que acontece na sessão:
- A família aprende sobre o transtorno e como ele se manifesta.
- Trabalha-se na comunicação e no apoio mútuo.
- São discutidas estratégias para lidar com crises (por exemplo, o que fazer se a pessoa tiver um episódio em casa).
Mudanças no dia a dia
Além de medicamentos e terapia, algumas mudanças no estilo de vida podem ajudar a reduzir os episódios e melhorar a qualidade de vida.
1. Exercício físico
- Por que ajuda: O exercício libera endorfinas (substâncias que melhoram o humor) e ajuda a regular o sono e a ansiedade.
- Quais tipos são melhores:
- Caminhada, corrida ou natação: Atividades aeróbicas ajudam a reduzir o estresse.
- Yoga ou tai chi: Combina movimento com respiração, o que ajuda a ancorar no presente.
- Dança: Pode ser uma forma divertida de se reconectar com o corpo.
- Dica: Comece com 30 minutos, 3 vezes por semana, e aumente gradualmente.
2. Sono
- Por que é importante: A falta de sono piora a dissociação e aumenta o risco de episódios.
- Dicas para uma boa higiene do sono:
- Rotina: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias, mesmo nos fins de semana.
- Ambiente: Mantenha o quarto escuro, silencioso e fresco.
- Evite telas: Desligue celular, TV e computador 1 hora antes de dormir.
- Relaxamento: Faça uma atividade calma antes de dormir, como ler ou ouvir música suave.
- Evite cafeína: Não tome café, chá preto ou refrigerante à tarde/noite.
3. Alimentação
- Por que é importante: Alguns alimentos podem piorar a ansiedade ou afetar o humor.
- O que evitar:
- Açúcar refinado: Pode causar picos de energia seguidos de queda, piorando a ansiedade.
- Cafeína: Pode aumentar a agitação e a insônia.
- Álcool: Pode piorar a dissociação e interagir mal com medicamentos.
- O que incluir:
- Alimentos ricos em ômega-3: Peixes, nozes e sementes de linhaça ajudam na saúde cerebral.
- Frutas e vegetais: Ricos em vitaminas e minerais que melhoram o humor.
- Carboidratos complexos: Arroz integral, aveia e pão integral ajudam a regular o humor.
4. Rotina
- Por que é importante: Uma rotina estruturada ajuda a reduzir a ansiedade e a sensação de descontrole.
- Dicas para criar uma rotina:
- Planeje o dia: Faça uma lista de tarefas e priorize o que é mais importante.
- Inclua momentos de lazer: Reserve tempo para atividades que você gosta, como ler, ouvir música ou passear.
- Técnicas de grounding: Pratique exercícios de ancoragem (como os 5 sentidos: nomear 5 coisas que você vê, 4 que toca, 3 que ouve, 2 que cheira e 1 que saboreia) para se reconectar com o presente.
5. Técnicas de manejo de sintomas
- Respiração diafragmática:
- Coloque uma mão no peito e outra na barriga.
- Inspire profundamente pelo nariz, sentindo a barriga se expandir.
- Expire lentamente pela boca.
- Repita por 5 minutos quando sentir que um episódio está começando.
- Técnica do 5-4-3-2-1:
- 5 coisas que você vê.
- 4 coisas que você toca.
- 3 coisas que você ouve.
- 2 coisas que você cheira.
- 1 coisa que você saboreia.
- Isso ajuda a trazer sua mente de volta ao presente.
- Diário de sintomas:
- Anote quando os episódios acontecem, o que você estava fazendo antes e como se sentiu depois.
- Isso ajuda a identificar gatilhos e padrões.
Convivendo com o diagnóstico
Receber o diagnóstico de Transtorno de Transe e de Possessão pode ser um divisor de águas na sua vida. De um lado, há o alívio de finalmente entender o que está acontecendo. Do outro, há o desafio de aprender a viver com uma condição que, às vezes, parece imprevisível e assustadora. Mas saiba de uma coisa: você não está sozinho, e com o tempo, é possível encontrar um equilíbrio.
Para a pessoa com o diagnóstico
1. Aceitação: “Isso faz parte de mim, mas não me define”
- O que é aceitação?: Não é se resignar ou desistir, mas sim reconhecer que o transtorno é uma parte da sua vida — e que você pode aprender a lidar com ele.
- Como praticar:
- Não lute contra os sintomas: Quando um episódio começar, em vez de entrar em pânico (“Por que isso está acontecendo de novo?”), tente observar com curiosidade (“O que meu corpo está tentando me dizer?”).
- Fale sobre isso: Compartilhe seu diagnóstico com pessoas de confiança. Quanto mais você falar, menos peso vai carregar.
- Seja gentil consigo mesmo: Lembre-se de que você está fazendo o seu melhor, mesmo nos dias difíceis.
2. Autoconhecimento: “O que desencadeia meus episódios?”
- Identifique gatilhos: Anote em um diário o que aconteceu antes de cada episódio. Com o tempo, você vai perceber padrões. Alguns gatilhos comuns:
- Estresse (problemas no trabalho, brigas em casa).
- Lembranças traumáticas (aniversários de eventos ruins, lugares que te lembram do trauma).
- Falta de sono ou alimentação inadequada.
- Isolamento social.
- Evite ou maneje os gatilhos: Se você sabe que brigas em casa desencadeiam episódios, pode tentar técnicas de comunicação não violenta ou pedir ajuda para mediar conflitos.
3. Rede de apoio: “Quem pode me ajudar?”
- Profissionais: Mantenha o acompanhamento com psiquiatra e psicólogo. Eles são seus aliados.
- Família e amigos: Ensine as pessoas próximas sobre o transtorno e como elas podem te ajudar (por exemplo, usando técnicas de grounding durante um episódio).
- Grupos de apoio: Participar de grupos com pessoas que têm o mesmo diagnóstico pode ser muito reconfortante. No Brasil, existem grupos presenciais e online. Procure por:
- ABRATA (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos).
- CVV (Centro de Valorização da Vida) — eles oferecem apoio emocional por telefone (188) ou chat.
- Fóruns e redes sociais: Muitas pessoas compartilham suas experiências em grupos do Facebook ou no Reddit.
4. Plano de crise: “O que fazer quando um episódio começar?”
- Antes do episódio:
- Identifique sinais de alerta: Muitas pessoas sentem sintomas físicos antes de um episódio, como dor de cabeça, tontura ou sensação de irrealidade.
- Crie um kit de grounding: Tenha à mão objetos que te ajudem a se reconectar com o presente, como:
- Um elástico no pulso para puxar e sentir a dor.
- Um objeto com textura (como uma pedra ou um pedaço de tecido) para tocar.
- Um cheiro forte (como óleo essencial de hortelã ou café).
- Durante o episódio:
- Peça ajuda: Se estiver com alguém de confiança, peça para que a pessoa te ajude a se ancorar (por exemplo, segurando sua mão e dizendo: “Estou aqui com você”).
- Use técnicas de grounding: Tente a técnica do 5-4-3-2-1 ou a respiração diafragmática.
- Não lute contra: Quanto mais você resistir, mais intenso o episódio pode ficar. Tente observar o que está acontecendo sem julgamento.
- Depois do episódio:
- Anote o que aconteceu: Isso ajuda a identificar padrões e gatilhos.
- Se cuide: Tome um banho, beba água, coma algo leve e descanse.
- Fale com seu terapeuta: Se os episódios estiverem frequentes ou intensos, converse com seu psicólogo ou psiquiatra para ajustar o tratamento.
5. Cuidado com a saúde mental como um todo
- Outros transtornos: É comum que pessoas com Transtorno de Transe e de Possessão também tenham depressão, ansiedade ou TEPT. Não ignore esses sintomas — eles também precisam de tratamento.
- Autocuidado: Reserve tempo para atividades que te dão prazer, mesmo que sejam pequenas, como:
- Ouvir uma música que você gosta.
- Fazer uma caminhada no parque.
- Cozinhar sua comida favorita.
- Espiritualidade: Se a espiritualidade é importante para você, use-a como uma fonte de força, não de culpa. Muitas pessoas encontram conforto em práticas como meditação, oração ou rituais.
Para familiares e amigos
Se você é familiar ou amigo de alguém com esse diagnóstico, saiba que seu apoio é fundamental. Mas também é importante cuidar de si mesmo, porque acompanhar alguém com um transtorno dissociativo pode ser desafiador.
1. Como ajudar de forma efetiva
- Informe-se: Leia sobre o transtorno para entender o que a pessoa está vivendo. Isso ajuda a evitar julgamentos e a oferecer apoio de forma mais eficaz.
- Seja paciente: Os episódios podem ser assustadores para você também, mas lembre-se de que a pessoa não está fazendo isso de propósito.
- Ajude durante os episódios:
- Mantenha a calma: Fale devagar e em tom tranquilo.
- Use técnicas de grounding: Peça para a pessoa nomear coisas ao redor ou segure sua mão.
- Não tente “acordar” a pessoa: Gritar ou sacudir pode piorar a situação.
- Incentive o tratamento: Ajude a pessoa a lembrar de tomar os remédios e a ir às consultas. Se ela estiver resistente, converse com o terapeuta sobre como abordar o assunto.
- Evite frases como:
- “Isso é coisa da sua cabeça.”
- “Você só precisa se controlar.”
- “Isso é falta de fé.”
- “Para de frescura.”
2. O que NÃO fazer
- Não minimize o sofrimento: Frases como “Isso é normal” ou “Todo mundo passa por isso” podem fazer a pessoa se sentir incompreendida.
- Não force a pessoa a falar sobre o trauma: Se ela não estiver pronta, respeite. Forçar pode piorar os sintomas.
- Não assuma o controle: É importante apoiar, mas não tomar decisões pela pessoa. Isso pode aumentar a sensação de descontrole.
- Não leve para o lado pessoal: Durante um episódio, a pessoa pode dizer ou fazer coisas que não são dela. Não leve como uma ofensa.
3. Como cuidar de si mesmo
- Reconheça seus limites: Você não precisa ser o “salvador” da pessoa. É importante pedir ajuda quando se sentir sobrecarregado.
- Busque apoio: Converse com outros familiares ou amigos. Participar de grupos de apoio para cuidadores também pode ajudar.
- Reserve tempo para você: Faça atividades que te dão prazer e relaxam, como ler, praticar esportes ou sair com amigos.
- Terapia para você: Se sentir que está difícil lidar com a situação, considere fazer terapia. Um psicólogo pode te ajudar a gerenciar o estresse e a encontrar formas saudáveis de apoiar seu familiar.
4. Como explicar para outras pessoas
- Seja honesto, mas cuidadoso: Você não precisa dar detalhes íntimos, mas pode explicar de forma simples:
- “Fulano tem um transtorno dissociativo. Às vezes, ele entra em estados de transe ou age como se outra pessoa estivesse no controle. Não é culpa dele, e estamos buscando tratamento.”
- Desfaça mitos: Se alguém fizer comentários preconceituosos, explique que o transtorno não tem relação com falta de fé ou fraqueza.
- Peça respeito: Deixe claro que a pessoa merece compreensão e apoio, não julgamento.
Quando os sintomas podem piorar?
Algumas situações podem aumentar a frequência ou a intensidade dos episódios. Saber identificá-las ajuda a se preparar e a buscar ajuda quando necessário.
1. Estresse intenso
- Exemplos:
- Perda de emprego.
- Brigas familiares.
- Problemas financeiros.
- Mudanças importantes (como mudança de cidade ou divórcio).
- O que fazer:
- Técnicas de relaxamento: Meditação, respiração diafragmática ou yoga.
- Fale com seu terapeuta: Ele pode ajudar a desenvolver estratégias para lidar com o estresse.
- Peça ajuda: Não tente enfrentar tudo sozinho. Converse com amigos, familiares ou grupos de apoio.
2. Privação de sono
- Por que piora: A falta de sono aumenta a ansiedade e a dissociação.
- O que fazer:
- Priorize o sono: Tente dormir pelo menos 7-8 horas por noite.
- Evite estimulantes: Café, chá preto e refrigerante à noite podem atrapalhar o sono.
- Rotina noturna: Crie um ritual relaxante antes de dormir, como ler ou ouvir música calma.
3. Uso de substâncias
- Exemplos:
- Álcool.
- Drogas ilícitas (como maconha, cocaína ou LSD).
- Remédios sem prescrição (como ansiolíticos ou antidepressivos).
- Por que piora: Substâncias podem desencadear ou intensificar episódios dissociativos.
- O que fazer:
- Evite o uso: Se você usa substâncias para lidar com os sintomas, converse com seu psiquiatra sobre alternativas.
- Busque ajuda: Se o uso de substâncias estiver fora de controle, procure um CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas).
4. Exposição a gatilhos
- Exemplos:
- Lugares que te lembram de traumas (como a casa onde você sofreu abuso).
- Aniversários de eventos traumáticos.
- Notícias ou conversas sobre violência, abuso ou morte.
- O que fazer:
- Evite quando possível: Se um lugar ou situação te faz mal, não há problema em evitá-lo.
- Prepare-se: Se precisar enfrentar um gatilho (por exemplo, ir a um enterro), converse com seu terapeuta sobre estratégias para lidar com a situação.
5. Interrupção do tratamento
- Por que piora: Parar de tomar remédios ou faltar às sessões de terapia pode desestabilizar os sintomas.
- O que fazer:
- Não pare sem orientação: Se estiver pensando em parar o tratamento, converse com seu médico primeiro.
- Busque alternativas: Se o tratamento não estiver funcionando, peça para ajustar a medicação ou mudar de abordagem terapêutica.
Perguntas frequentes
1. “Esse transtorno tem cura?”
Não existe uma “cura” no sentido de eliminar completamente o transtorno, mas muitas pessoas conseguem controlar os sintomas e levar uma vida plena. O objetivo do tratamento é:
– Reduzir a frequência e a intensidade dos episódios.
– Melhorar a qualidade de vida (trabalho, relacionamentos, lazer).
– Ensinar estratégias para lidar com os sintomas quando eles aparecerem.
Com o tempo, algumas pessoas conseguem diminuir ou até parar de tomar remédios, mas isso depende de cada caso. O mais importante é não desistir — o tratamento é um processo, e os resultados podem demorar, mas valem a pena.
2. “Posso trabalhar ou estudar normalmente?”
Sim, mas pode ser necessário fazer alguns ajustes no início do tratamento. Algumas dicas:
– Converse com seu empregador ou professores: Explique sua condição (se se sentir confortável) e peça adaptações, como:
– Horários flexíveis.
– Pausas durante o dia.
– Ambiente de trabalho menos estressante.
– Comece devagar: Se estiver se sentindo sobrecarregado, pode ser melhor começar com meio período ou com uma carga horária reduzida.
– Use técnicas de grounding: Se sentir que um episódio está começando, peça licença para ir ao banheiro e pratique uma técnica de ancoragem.
Lembre-se: ter um transtorno mental não te torna menos capaz. Muitas pessoas com esse diagnóstico têm carreiras bem-sucedidas e vidas plenas.
3. “Meus filhos podem herdar esse transtorno?”
Não há uma resposta simples, porque o transtorno é causado por uma combinação de fatores genéticos e ambientais. O que sabemos:
– Predisposição genética: Se você tem o transtorno, seus filhos podem ter uma maior vulnerabilidade a desenvolver transtornos dissociativos ou de humor, mas isso não é uma certeza.
– Ambiente seguro: Criar um ambiente amoroso, estável e sem traumas reduz muito o risco de os filhos desenvolverem o transtorno, mesmo que haja predisposição genética.
– Atenção aos sinais: Se seus filhos começarem a apresentar sintomas (como episódios de transe, amnésia ou mudanças bruscas de comportamento), procure um psicólogo infantil.
4. “Posso dirigir ou operar máquinas durante um episódio?”
Não. Durante um episódio de transe ou possessão, você perde o controle sobre suas ações, o que pode ser perigoso ao dirigir ou operar máquinas. Algumas recomendações:
– Evite dirigir se os episódios forem frequentes ou imprevisíveis.
– Converse com seu médico: Ele pode avaliar se é seguro para você dirigir, dependendo da gravidade dos sintomas.
– Use transporte público ou carona: Se precisar se locomover, peça para alguém te levar ou use táxi/app de transporte.
5. “Esse transtorno pode evoluir para algo mais grave, como esquizofrenia?”
Não. O Transtorno de Transe e de Possessão não evolui para esquizofrenia ou outros transtornos psicóticos. São condições diferentes, com causas e tratamentos distintos. O que pode acontecer:
– Comorbidades: É comum que pessoas com esse transtorno também desenvolvam depressão, ansiedade ou TEPT, mas isso não significa que o transtorno “piore” ou se transforme em outra coisa.
– Piora dos sintomas: Se não tratado, os episódios podem se tornar mais frequentes ou intensos, mas não mudam de natureza.
6. “Posso praticar minha religião normalmente?”
Sim! A espiritualidade pode ser uma fonte de força e conforto. O importante é:
– Diferenciar religião de transtorno: Se sua religião envolve estados de transe ou possessão (como no Candomblé ou Umbanda), converse com seu terapeuta para entender a diferença entre prática religiosa e sintomas do transtorno.
– Evitar situações de risco: Se rituais religiosos desencadeiam episódios, pode ser necessário evitá-los temporariamente ou adaptá-los (por exemplo, participar sem incorporar).
– Usar a espiritualidade a seu favor: Muitas pessoas encontram alívio em práticas como meditação, oração ou rituais de proteção.
7. “Como explicar para meu parceiro(a) que tenho esse transtorno?”
Falar sobre o diagnóstico pode ser difícil, mas é importante para construir confiança e apoio mútuo. Algumas dicas:
– Escolha o momento certo: Converse quando os dois estiverem calmos e sem pressa.
– Seja honesto, mas não detalhista demais: Você não precisa contar tudo de uma vez. Comece com o básico:
– “Tenho um transtorno dissociativo. Às vezes, entro em estados de transe ou ajo como se outra pessoa estivesse no controle. Não é culpa minha, e estou buscando tratamento.”
– Explique como ele(a) pode ajudar:
– “Se você perceber que estou tendo um episódio, pode me ajudar segurando minha mão e me lembrando de respirar.”
– “Não precisa ter medo. Eu não estou possuído(a) por espíritos ruins, é só meu cérebro reagindo ao estresse.”
– Responda às dúvidas: Seu parceiro(a) pode ter perguntas ou medos. Esteja aberto(a) para conversar.
8. “E se eu não me lembrar do que fiz durante um episódio?”
A amnésia é um sintoma comum do transtorno, e pode ser assustadora e frustrante. Algumas estratégias para lidar com isso:
– Peça para alguém te contar: Se estiver com uma pessoa de confiança durante o episódio, peça para ela te contar depois o que aconteceu.
– Anote em um diário: Mesmo que não se lembre, anote como se sentiu antes e depois do episódio. Isso ajuda a identificar padrões.
– Não se culpe: Lembre-se de que você não teve controle sobre o que aconteceu. A culpa não é sua.
– Converse com seu terapeuta: Ele pode ajudar a trabalhar a ansiedade e a vergonha relacionadas à amnésia.
9. “Posso ter uma vida sexual saudável?”
Sim, mas pode ser necessário adaptar algumas coisas, especialmente se os episódios forem desencadeados por intimidade ou se houver traumas relacionados a abuso sexual. Algumas dicas:
– Comunique-se com seu parceiro(a): Explique seus limites e o que te faz se sentir seguro(a).
– Vá devagar: Se a intimidade desencadear episódios, pode ser melhor começar com carícias e beijos antes de avançar para relações sexuais.
– Use técnicas de grounding: Se sentir que um episódio está começando, pare e pratique uma técnica de ancoragem.
– Terapia sexual: Se a vida sexual estiver muito afetada, um terapeuta sexual pode ajudar.
10. “Como lidar com o preconceito?”
Infelizmente, o preconceito contra transtornos mentais ainda existe. Algumas estratégias para lidar com isso:
– Escolha quem merece saber: Você não precisa contar para todo mundo. Compartilhe apenas com pessoas de confiança.
– Eduque quando possível: Se alguém fizer um comentário preconceituoso, você pode explicar:
– “Esse transtorno não tem nada a ver com falta de fé ou fraqueza. É uma condição médica, como diabetes ou pressão alta.”
– Busque apoio: Converse com outras pessoas que têm o mesmo diagnóstico. Elas podem te entender como ninguém.
– Não internalize o preconceito: Lembre-se de que o problema não é você, é a falta de informação das outras pessoas.
Quando procurar ajuda urgente
Nem todos os episódios de transe ou possessão são emergências, mas alguns sinais indicam que você ou a pessoa precisa de ajuda imediata. Procure um pronto-socorro ou ligue para o SAMU (192) ou CVV (188) se:
Sinais de alerta moderados (procure ajuda nas próximas 24 horas)
- Os episódios estão mais frequentes ou intensos do que o normal.
- Você está tendo pensamentos suicidas ou de automutilação.
- Está negligenciando sua saúde (não come, não toma banho, não toma remédios).
- Está isolando-se completamente de amigos e familiares.
- Os episódios estão atrapalhando sua segurança (por exemplo, você se machuca durante os episódios).
Sinais de alerta graves (procure ajuda IMEDIATA)
- Você não reconhece pessoas próximas ou não sabe onde está.
- Está agindo de forma violenta (contra si mesmo ou contra outros) durante os episódios.
- Tem alucinações (vê ou ouve coisas que não existem) fora dos episódios.
- Está em risco de vida (por exemplo, tentando se jogar de um lugar alto ou se machucar gravemente).
- Não consegue sair do episódio: Se o episódio durar mais de algumas horas e você não conseguir se reconectar com a realidade.
O que fazer em uma emergência
- Ligue para o SAMU (192) ou vá para o pronto-socorro psiquiátrico mais próximo.
- Peça para alguém te acompanhar: Se possível, leve um familiar ou amigo de confiança.
- Leve seus remédios: Se estiver em tratamento, leve a lista de medicamentos que toma.
- Não dirija: Se estiver tendo um episódio, peça para alguém te levar ou use transporte público.
No Brasil, você pode procurar:
– CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): Oferece atendimento emergencial para crises.
– Pronto-Socorro Psiquiátrico: Alguns hospitais têm alas específicas para saúde mental.
– CVV (188): Oferece apoio emocional por telefone, chat ou e-mail.
Referências
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
- Dalgalarrondo, Paulo. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
- Stein, Dan J.; Seedat, Soraya; Iversen, Anne; Wessely, Simon. Cognitive-Behavioral Therapy for PTSD: A Case Formulation Approach. Guilford Press, 2009.
- International Society for the Study of Trauma and Dissociation. Guidelines for Treating Dissociative Identity Disorder in Adults. Journal of Trauma & Dissociation, 2011.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.