O que é?
Imagine que você tem um botão no seu cérebro que, quando apertado, libera uma sensação de prazer, alívio ou excitação. Para a maioria das pessoas, esse botão é acionado por coisas saudáveis: um abraço, uma conquista no trabalho, um hobby relaxante. Mas, para quem tem transtorno de jogo, esse botão só parece funcionar quando se está apostando — seja em cassinos, loterias, jogos online, corridas de cavalo ou até mesmo em apostas esportivas.
O transtorno de jogo (também chamado de jogo patológico ou ludomania) é uma condição em que a pessoa perde o controle sobre o hábito de apostar. Não se trata apenas de gostar de jogar ou de vez em quando arriscar uma grana. É como se o cérebro ficasse “viciado” na sensação de apostar, da mesma forma que alguém pode ficar viciado em álcool ou drogas. A diferença é que, aqui, a “droga” é o próprio ato de jogar.
Como isso é diferente de um hobby ou de um vício comum?
Todo mundo conhece alguém que gosta de jogar na loteria, apostar no futebol com os amigos ou passar uma noite no bingo. Isso é normal. O problema começa quando:
– O jogo deixa de ser diversão e vira uma necessidade — como se a pessoa não conseguisse mais sentir prazer em outras coisas.
– As apostas saem do controle — mesmo quando a pessoa perde muito dinheiro, ela não consegue parar.
– A vida começa a girar em torno do jogo — relacionamentos, trabalho e saúde ficam em segundo plano.
– Há mentiras e desespero — a pessoa esconde o quanto joga, pede dinheiro emprestado sem intenção de pagar ou até rouba para continuar apostando.
É como se o jogo virasse um buraco negro: quanto mais a pessoa joga, mais ela é puxada para dentro, e mais difícil fica sair.
Quem é afetado? Números e realidade brasileira
Estudos mostram que cerca de 1 a 3% da população mundial tem transtorno de jogo. No Brasil, não há dados oficiais tão precisos, mas pesquisas indicam que:
– Homens são mais afetados (cerca de 2 a 3 vezes mais que mulheres), mas o número de mulheres com o transtorno tem aumentado, especialmente com a popularização dos jogos online.
– A faixa etária mais comum é entre 25 e 40 anos, mas adolescentes e idosos também podem desenvolver o problema.
– Jogos online e apostas esportivas têm contribuído para o aumento de casos, especialmente entre jovens.
No Brasil, o jogo de azar é ilegal (exceto loterias oficiais e alguns tipos de apostas esportivas), mas isso não impede que as pessoas joguem — seja em sites estrangeiros, casas clandestinas ou até mesmo em jogos informais entre amigos. O problema é que, sem regulamentação, fica ainda mais difícil controlar o vício.
Um pouco de história: como o jogo virou doença?
Por muito tempo, o jogo compulsivo foi visto apenas como um problema de falta de força de vontade ou de caráter. As pessoas achavam que quem jogava demais era “fraco” ou “sem vergonha”. Mas, nos últimos 40 anos, a ciência mostrou que não é bem assim.
- 1980: O DSM-III (manual de diagnóstico psiquiátrico dos EUA) incluiu o jogo patológico como um transtorno do controle dos impulsos, ao lado de coisas como cleptomania (roubar sem necessidade) e piromania (gostar de fogo).
- 2013: O DSM-5 deu um passo importante: reclassificou o transtorno de jogo como um transtorno aditivo, ao lado do alcoolismo e da dependência química. Isso porque estudos mostraram que o cérebro de quem joga compulsivamente funciona de forma parecida com o de quem usa drogas.
- 2022: A CID-11 (Classificação Internacional de Doenças da OMS) manteve essa classificação, reforçando que o transtorno de jogo é uma doença real, não um “defeito de caráter”.
Hoje, sabemos que o transtorno de jogo é uma condição médica, não uma escolha. E, como qualquer doença, precisa de tratamento.
Quais são os sintomas?
Para receber o diagnóstico de transtorno de jogo, a pessoa precisa apresentar pelo menos 4 dos 9 sintomas abaixo por um período de 12 meses. Mas atenção: ter um ou dois desses sintomas não significa que a pessoa tenha o transtorno. O que importa é o conjunto, a intensidade e o impacto na vida.
Vamos explicar cada um deles com exemplos do dia a dia.
1. Precisa apostar cada vez mais dinheiro para sentir a mesma emoção
O que isso significa?
É como quando você toma café todo dia: no começo, uma xícara já te deixa ligado. Mas, com o tempo, você precisa de duas, três, quatro… Com o jogo, acontece a mesma coisa. No início, apostar R$ 20 já dá aquela adrenalina. Mas, depois de um tempo, a pessoa precisa apostar R$ 50, R$ 100, R$ 500 para sentir a mesma emoção.
Exemplos:
– João começou apostando R$ 10 no jogo do bicho. Hoje, não sente nada com menos de R$ 200.
– Ana jogava pôquer online com apostas baixas. Agora, só se sente animada quando arrisca R$ 1.000 em uma única mão.
– Carlos costumava ficar feliz ganhando R$ 50 na loteria. Agora, só se sente realizado se ganhar pelo menos R$ 1.000.
O que é normal?
Todo mundo gosta de uma emoçãozinha de vez em quando. Se você aposta R$ 5 na loteria uma vez por mês e fica feliz se ganhar, isso não é um problema. O problema é quando a quantidade de dinheiro apostado aumenta sem controle e a pessoa não consegue mais sentir prazer com apostas pequenas.
2. Fica irritado, ansioso ou triste quando tenta parar de jogar
O que isso significa?
É como quando você está acostumado a tomar café todo dia e, de repente, para. Você fica com dor de cabeça, mal-humorado, sem energia. Com o jogo, acontece algo parecido: quando a pessoa tenta diminuir ou parar, ela sente uma abstinência emocional.
Exemplos:
– Pedro decidiu parar de jogar pôquer online. Nos primeiros dias, ficou irritado, brigou com a esposa por qualquer coisa e não conseguiu se concentrar no trabalho.
– Mariana tentou reduzir as apostas no jogo do bicho, mas começou a se sentir ansiosa, com o coração acelerado, como se estivesse faltando algo.
– Rafael ficou uma semana sem jogar e entrou em depressão: não tinha vontade de sair de casa, perdeu o apetite e se sentia vazio.
O que é normal?
Se você joga de vez em quando e, em um dia que não joga, sente um pouco de tédio, isso é normal. O problema é quando a pessoa não consegue ficar sem jogar sem sentir um sofrimento intenso, como se estivesse “faltando uma parte dela”.
3. Já tentou parar ou reduzir várias vezes, mas não conseguiu
O que isso significa?
A pessoa sabe que o jogo está prejudicando sua vida, mas, mesmo assim, não consegue parar. É como tentar fazer dieta depois do Ano Novo: você promete que vai mudar, mas, na primeira tentação, volta aos velhos hábitos.
Exemplos:
– Lucas já prometeu para a família pelo menos 10 vezes que ia parar de jogar. Toda vez, ele consegue ficar alguns dias sem apostar, mas acaba voltando.
– Fernanda instalou um aplicativo que bloqueia sites de apostas, mas sempre encontra um jeito de burlar o bloqueio.
– Ricardo já perdeu o emprego duas vezes por causa do jogo. Ele jura que vai parar, mas, quando recebe o salário, corre para a casa de apostas.
O que é normal?
Se você joga de vez em quando e, em um dia que perde dinheiro, decide parar por um tempo, isso é saudável. O problema é quando a pessoa tenta parar várias vezes e não consegue, mesmo sabendo que o jogo está destruindo sua vida.
4. Pensa no jogo o tempo todo
O que isso significa?
O jogo domina os pensamentos da pessoa. É como quando você está apaixonado: você pensa na pessoa o tempo todo, mesmo quando está trabalhando ou estudando. No transtorno de jogo, acontece algo parecido, mas com as apostas.
Exemplos:
– Marcos está no trabalho, mas não consegue se concentrar. Sua cabeça está calculando as chances de ganhar na próxima aposta.
– Cláudia está jantando com a família, mas só pensa em como vai conseguir dinheiro para jogar no fim de semana.
– Thiago sonha com jogos de azar. Às vezes, acorda no meio da noite imaginando que ganhou na loteria.
O que é normal?
Se você joga uma vez por semana e, no dia da aposta, fica animado, isso é normal. O problema é quando o jogo vira uma obsessão e a pessoa não consegue pensar em mais nada.
5. Joga para escapar de problemas ou aliviar sentimentos ruins
O que isso significa?
Para algumas pessoas, o jogo é uma fuga. Quando estão tristes, ansiosas, estressadas ou entediadas, elas apostam para esquecer os problemas, como se fosse uma anestesia emocional.
Exemplos:
– Patrícia teve uma briga feia com o marido e, em vez de conversar, foi direto para a casa de apostas para não pensar no problema.
– Daniel está deprimido porque perdeu o emprego. Em vez de procurar outro trabalho, passa horas jogando pôquer online para não sentir a tristeza.
– Juliana se sente sozinha e, para preencher o vazio, aposta em jogos de cassino na internet.
O que é normal?
Se você está estressado e decide jogar uma partida de pôquer com amigos para relaxar, isso é saudável. O problema é quando o jogo vira a única forma de lidar com as emoções e a pessoa não consegue enfrentar os problemas de outra maneira.
6. Depois de perder dinheiro, volta a jogar para “recuperar”
O que isso significa?
É o famoso “vou parar quando ganhar”. A pessoa perde dinheiro, mas, em vez de aceitar a derrota, aumenta as apostas na esperança de recuperar o que perdeu. É como se o cérebro dissesse: “Se eu apostar mais, vou ganhar tudo de volta!”
Exemplos:
– Roberto perdeu R$ 500 no jogo do bicho. Em vez de parar, apostou mais R$ 300, pensando: “Da próxima vez, eu ganho!”
– Sandra perdeu R$ 1.000 em um cassino online. No dia seguinte, pegou um empréstimo para tentar recuperar o dinheiro.
– Gustavo perdeu o aluguel apostando em jogos de azar. Em vez de contar para a família, voltou a jogar na esperança de ganhar o suficiente para pagar as contas.
O que é normal?
Se você perde R$ 20 em uma aposta e decide parar por ali, isso é saudável. O problema é quando a pessoa não consegue aceitar a perda e continua apostando, mesmo sabendo que está se afundando ainda mais.
7. Mente para esconder o quanto joga
O que isso significa?
A pessoa sabe que está exagerando, mas tem vergonha ou medo de ser julgada. Então, ela mente sobre quanto joga, quanto perde ou até inventa desculpas para justificar as faltas de dinheiro.
Exemplos:
– Eduardo diz para a esposa que gastou R$ 200 em um jantar com amigos, mas, na verdade, perdeu tudo em uma aposta.
– Larissa esconde os extratos bancários para que o marido não veja as transferências para sites de apostas.
– Vinícius inventa que precisa de dinheiro para consertar o carro, mas, na verdade, vai usar para jogar.
O que é normal?
Se você joga de vez em quando e não faz questão de esconder, isso não é um problema. O problema é quando a pessoa sente necessidade de mentir porque sabe que está fazendo algo errado.
8. Perdeu ou quase perdeu coisas importantes por causa do jogo
O que isso significa?
O jogo começa a destruir a vida da pessoa. Ela pode perder emprego, relacionamentos, dinheiro, saúde e até a própria dignidade.
Exemplos:
– André foi demitido porque faltava ao trabalho para jogar.
– Camila perdeu a casa porque gastou todo o dinheiro do aluguel em apostas.
– Rodrigo se afastou dos filhos porque preferia jogar a passar tempo com eles.
– Beatriz teve um infarto porque passava noites em claro jogando e não cuidava da saúde.
O que é normal?
Se você joga de vez em quando e isso não atrapalha sua vida, não há problema. O problema é quando o jogo começa a substituir coisas que realmente importam.
9. Pede dinheiro emprestado ou rouba para continuar jogando
O que isso significa?
Quando o dinheiro acaba, a pessoa faz qualquer coisa para continuar jogando. Ela pode pedir emprestado para amigos, familiares, bancos, ou até roubar.
Exemplos:
– Felipe pegou dinheiro emprestado com o irmão três vezes e nunca pagou.
– Aline usou o cartão de crédito da mãe sem permissão para apostar.
– Diego roubou o dinheiro da empresa onde trabalhava para cobrir dívidas de jogo.
O que é normal?
Se você pede dinheiro emprestado uma vez para uma emergência, isso é compreensível. O problema é quando a pessoa se endivida repetidamente só para continuar jogando.
Um alerta importante: ter alguns sintomas não significa ter o transtorno
É normal, às vezes, sentir vontade de jogar, perder um pouco de dinheiro ou até ficar animado com uma aposta. O que define o transtorno não é um sintoma isolado, mas sim:
✅ A quantidade de sintomas (pelo menos 4 dos 9).
✅ A intensidade (o quanto isso atrapalha a vida).
✅ A duração (pelo menos 12 meses).
✅ O sofrimento (a pessoa se sente mal por causa do jogo).
Se você ou alguém que você conhece se identificou com vários desses sintomas, pode ser hora de procurar ajuda.
Como se manifesta no dia a dia?
O transtorno de jogo não afeta só o bolso da pessoa — ele destrói a vida em todas as áreas. Vamos ver como isso acontece na prática.
No trabalho ou na escola
- Falta de concentração: A pessoa não consegue se focar nas tarefas porque está pensando no próximo jogo.
- Exemplo: Um estudante fica olhando para o relógio durante a aula, contando os minutos para poder acessar um site de apostas.
- Faltas e atrasos: Ela inventa desculpas para faltar ao trabalho ou à escola porque prefere jogar.
- Exemplo: Um funcionário diz que está doente, mas, na verdade, está em um cassino.
- Queda no desempenho: As notas caem, os projetos no trabalho não são entregues, a pessoa não consegue mais cumprir suas obrigações.
- Exemplo: Um gerente que antes era pontual e eficiente agora entrega relatórios atrasados e cheios de erros.
- Demissão ou reprovação: Em casos graves, a pessoa perde o emprego ou é reprovada na escola por causa do jogo.
- Exemplo: Um professor é demitido porque faltou 15 dias no mês para jogar.
Nos relacionamentos
- Mentiras constantes: A pessoa esconde o quanto joga, inventa histórias e quebra a confiança dos familiares.
- Exemplo: Um marido diz que vai ao mercado, mas, na verdade, vai a uma casa de apostas.
- Brigas e discussões: A família fica estressada, magoada e com raiva por causa das dívidas e das mentiras.
- Exemplo: Uma esposa descobre que o marido gastou o dinheiro da poupança em apostas e ameaça se separar.
- Isolamento: A pessoa se afasta dos amigos e da família porque sente vergonha ou porque prefere jogar.
- Exemplo: Um jovem para de sair com os amigos porque não tem mais dinheiro e se sente envergonhado.
- Traição e desconfiança: Em casos extremos, a pessoa rouba ou mente para conseguir dinheiro, destruindo relacionamentos.
- Exemplo: Uma mãe pega o dinheiro da mesada da filha para jogar e a criança descobre.
Na rotina e no autocuidado
- Sono desregulado: A pessoa passa noites em claro jogando, o que causa cansaço, irritabilidade e problemas de saúde.
- Exemplo: Um homem dorme apenas 3 horas por noite porque fica jogando até de madrugada.
- Alimentação ruim: Ela esquece de comer ou come qualquer coisa rápida para voltar a jogar.
- Exemplo: Uma mulher pede delivery todos os dias porque não tem tempo de cozinhar.
- Falta de higiene: Em casos graves, a pessoa deixa de tomar banho, escovar os dentes ou trocar de roupa porque está obcecada pelo jogo.
- Exemplo: Um homem fica dias sem tomar banho porque não quer sair de frente do computador.
- Falta de lazer: Ela abandona hobbies que antes gostava (esportes, cinema, leitura) porque só quer jogar.
- Exemplo: Uma mulher que adorava pintar não toca mais em um pincel porque prefere apostar.
Na saúde física
O jogo não afeta só a mente — ele prejudica o corpo de várias formas:
– Problemas cardíacos: O estresse constante pode causar taquicardia, pressão alta e até infartos.
– Exemplo: Um homem de 40 anos teve um ataque cardíaco depois de perder uma grande quantia em apostas.
– Dores de cabeça e enxaquecas: A ansiedade e a falta de sono causam dores constantes.
– Problemas digestivos: O estresse pode levar a gastrite, úlceras e síndrome do intestino irritável.
– Sistema imunológico fraco: A pessoa fica mais doente, pegando gripes e infecções com frequência.
– Dores musculares: A tensão constante causa dores no pescoço, nas costas e nos ombros.
O que causa essa condição?
Não existe uma única causa para o transtorno de jogo. Assim como em outras doenças, ele surge de uma combinação de fatores. Vamos entender cada um deles.
1. Fatores genéticos: “Será que eu herdei isso?”
Você já ouviu falar que vícios podem ser hereditários? Com o transtorno de jogo, acontece algo parecido. Estudos mostram que:
– Se um parente próximo (pai, mãe, irmão) tem transtorno de jogo, a chance de desenvolver a condição aumenta em 3 a 8 vezes.
– Isso não significa que todo mundo com histórico familiar vai desenvolver o problema, mas que tem uma predisposição maior.
Analogia:
Imagine que o cérebro é como um jardim. Algumas pessoas nascem com um solo mais fértil — ou seja, têm uma tendência genética a desenvolver certos comportamentos. Se nesse jardim forem plantadas sementes de jogo (exposição precoce, estresse, ambiente favorável), as chances de crescer um vício são maiores.
2. Fatores neurobiológicos: O que acontece no cérebro?
O cérebro de quem tem transtorno de jogo funciona de um jeito diferente. Vamos entender como:
O sistema de recompensa
Toda vez que fazemos algo prazeroso (comer, transar, receber um elogio), o cérebro libera dopamina, um neurotransmissor que nos faz sentir bem. Em pessoas com transtorno de jogo, esse sistema fica desregulado:
– O cérebro “pede” mais jogo: Assim como um viciado em drogas precisa de doses cada vez maiores, quem joga compulsivamente precisa de apostas cada vez mais altas para sentir a mesma emoção.
– A dopamina engana o cérebro: O jogo ativa o sistema de recompensa de forma exagerada, fazendo a pessoa sentir que precisa jogar para ser feliz.
– O cérebro “esquece” outras fontes de prazer: Com o tempo, a pessoa perde o interesse em coisas que antes gostava (comida, sexo, hobbies) porque só o jogo dá prazer.
Analogia:
É como se o cérebro tivesse um botão de “felicidade”. Em pessoas saudáveis, esse botão é acionado por várias coisas. Em quem tem transtorno de jogo, só o jogo consegue apertar esse botão.
A impulsividade
Pessoas com transtorno de jogo têm dificuldade de controlar impulsos. Elas agem sem pensar nas consequências, como se o cérebro não conseguisse dizer: “Pare! Isso vai te prejudicar!”
Exemplo:
– Uma pessoa vê um anúncio de aposta esportiva e clica sem pensar, mesmo sabendo que não tem dinheiro.
– Ela perde R$ 500 e, em vez de parar, aposta mais R$ 300 na esperança de recuperar.
3. Fatores ambientais: O que na vida da pessoa contribui para o problema?
Nem todo mundo que joga desenvolve o transtorno. Alguns gatilhos ambientais aumentam o risco:
Exposição precoce ao jogo
- Crianças que crescem vendo os pais jogando têm mais chances de desenvolver o problema.
- Adolescentes que começam a apostar cedo (mesmo em jogos informais) têm maior risco.
Exemplo:
– Um menino de 12 anos aposta mesada com os amigos em jogos de cartas. Aos 20, já está viciado em cassinos online.
Estresse e traumas
- Pessoas que passaram por situações difíceis (abuso, violência, perda de um ente querido) podem usar o jogo como fuga.
- O estresse no trabalho ou nos relacionamentos também pode aumentar a vontade de jogar.
Exemplo:
– Uma mulher que sofreu abuso na infância começa a jogar para não pensar no passado.
– Um homem que perdeu o emprego se afunda em apostas para aliviar a ansiedade.
Disponibilidade do jogo
- Em países onde o jogo é legalizado e acessível (como EUA, Reino Unido, Austrália), as taxas de transtorno de jogo são mais altas.
- No Brasil, mesmo com o jogo ilegal, sites estrangeiros e casas clandestinas facilitam o acesso.
Exemplo:
– Um jovem que nunca tinha jogado começa a apostar em um site estrangeiro e, em poucos meses, já está viciado.
Influência social
- Se os amigos ou familiares incentivam o jogo, a pessoa tem mais chances de desenvolver o problema.
- A pressão para “ganhar fácil” também é um fator de risco.
Exemplo:
– Um grupo de amigos aposta todo fim de semana em jogos de azar. Um deles perde o controle e começa a jogar sozinho durante a semana.
4. Mitos sobre as causas do transtorno de jogo
Muitas pessoas acreditam em ideias erradas sobre o que causa o transtorno de jogo. Vamos desmistificar algumas:
❌ Mito: “Quem joga demais é fraco ou sem vergonha.”
✅ Verdade: O transtorno de jogo é uma doença, não um defeito de caráter. Assim como a depressão ou o diabetes, ele tem causas biológicas e psicológicas.
❌ Mito: “Só quem é pobre ou desempregado joga demais.”
✅ Verdade: Pessoas de todas as classes sociais podem desenvolver o transtorno. Muitos jogadores compulsivos são profissionais bem-sucedidos que perdem tudo por causa do vício.
❌ Mito: “Se a pessoa quisesse, parava.”
✅ Verdade: O cérebro de quem tem transtorno de jogo funciona de um jeito diferente. Não é uma questão de força de vontade — é uma doença que precisa de tratamento.
❌ Mito: “Jogar é só um hobby, não faz mal.”
✅ Verdade: Para a maioria das pessoas, jogar é inofensivo. Mas, para quem tem predisposição, pode se tornar um vício tão grave quanto o alcoolismo.
Como é feito o diagnóstico?
Se você ou alguém que você conhece está apresentando vários dos sintomas que descrevemos, o próximo passo é procurar ajuda profissional. Mas como funciona o diagnóstico?
1. Quem pode diagnosticar?
O diagnóstico deve ser feito por um profissional de saúde mental, como:
– Psiquiatra (médico especializado em transtornos mentais).
– Psicólogo (pode identificar o problema e encaminhar para tratamento).
– Terapeuta especializado em vícios (em alguns casos).
No Brasil:
– SUS (Sistema Único de Saúde): Você pode procurar um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) ou uma UBS (Unidade Básica de Saúde). Lá, será encaminhado para um psiquiatra ou psicólogo.
– Particular: Clínicas de psicologia e consultórios psiquiátricos também fazem o diagnóstico.
2. Como é a primeira consulta?
Na primeira consulta, o profissional vai fazer perguntas para entender:
– Há quanto tempo a pessoa joga.
– Com que frequência ela aposta.
– Quanto dinheiro costuma perder.
– Como o jogo afeta sua vida (trabalho, relacionamentos, saúde).
– Se já tentou parar e não conseguiu.
Exemplo de perguntas que o médico pode fazer:
– “Você já mentiu para esconder o quanto joga?”
– “Já pediu dinheiro emprestado para apostar?”
– “Sente ansiedade ou irritação quando tenta parar?”
– “O jogo já causou problemas no seu trabalho ou relacionamentos?”
O profissional também pode aplicar questionários para avaliar a gravidade do problema.
3. Quanto tempo leva para ser diagnosticado?
Não existe um tempo exato, mas geralmente:
– Primeira consulta: O profissional já pode ter uma ideia se há ou não o transtorno.
– Acompanhamento: Em alguns casos, são necessárias 2 ou 3 consultas para confirmar o diagnóstico.
– Exames complementares: Às vezes, o médico pede exames de sangue ou avaliação psicológica para descartar outras condições.
Importante: O diagnóstico não é feito apenas com base em um sintoma. O profissional avalia o conjunto de comportamentos, a duração e o impacto na vida.
4. Diagnóstico diferencial: O que pode ser confundido com transtorno de jogo?
Algumas condições têm sintomas parecidos. O médico precisa descartar outras possibilidades, como:
Transtorno bipolar
- Em fases de mania, a pessoa pode gastar dinheiro de forma impulsiva, inclusive em jogos.
- Diferença: No transtorno bipolar, os episódios de mania vêm e vão, enquanto no transtorno de jogo o comportamento é constante.
Depressão
- Pessoas deprimidas podem jogar para aliviar a tristeza.
- Diferença: Na depressão, o jogo é um sintoma, não a causa principal.
Transtorno de personalidade borderline
- Pessoas com esse transtorno podem ter comportamentos impulsivos, incluindo jogos.
- Diferença: No borderline, a impulsividade não se limita ao jogo — pode incluir gastos, sexo, drogas, etc.
Transtorno de jogo pela internet (não relacionado a apostas)
- Algumas pessoas ficam viciadas em jogos online (como videogames), mas não apostam dinheiro.
- Diferença: O transtorno de jogo envolve apostas financeiras, enquanto o vício em jogos online é comportamental.
Tratamento
O transtorno de jogo tem tratamento e pode ser controlado. Não é fácil, mas é possível recuperar o controle da vida. O tratamento geralmente combina medicamentos, psicoterapia e mudanças no estilo de vida.
1. Medicamentos
Não existe um remédio específico para o transtorno de jogo, mas alguns medicamentos podem ajudar a controlar os sintomas, como:
Inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS)
- Para que servem? Reduzem a ansiedade, a impulsividade e a compulsão.
- Exemplos: Fluoxetina, sertralina, escitalopram.
- Como funcionam? Aumentam a serotonina no cérebro, um neurotransmissor que ajuda a regular o humor e os impulsos.
- Efeitos colaterais: Náusea, insônia, diminuição do desejo sexual (geralmente temporários).
- Tempo para fazer efeito: 2 a 6 semanas.
Estabilizadores de humor
- Para que servem? Ajudam a controlar impulsos e são usados especialmente se a pessoa tem transtorno bipolar junto com o jogo.
- Exemplos: Lítio, valproato.
- Como funcionam? Regulam a atividade elétrica do cérebro, evitando oscilações de humor.
- Efeitos colaterais: Ganho de peso, tremores, sonolência.
Antagonistas opioides
- Para que servem? Reduzem a sensação de prazer associada ao jogo.
- Exemplo: Naltrexona.
- Como funciona? Bloqueia os receptores de opioides no cérebro, diminuindo a euforia que o jogo causa.
- Efeitos colaterais: Náusea, dor de cabeça, fadiga.
Importante:
– Os remédios não “curam” o transtorno de jogo, mas ajudam a controlar os sintomas.
– Nunca pare de tomar um medicamento sem orientação médica — isso pode causar efeitos de abstinência ou piorar o problema.
– Os remédios não são viciantes — eles ajudam a recuperar o controle, não a substituir um vício por outro.
2. Psicoterapia
A terapia é fundamental no tratamento do transtorno de jogo. Algumas abordagens são especialmente eficazes:
Terapia cognitivo-comportamental (TCC)
- O que é? Um tipo de terapia que ajuda a identificar e mudar pensamentos e comportamentos prejudiciais.
- Como funciona?
- A pessoa aprende a reconhecer os gatilhos que a levam a jogar (estresse, tédio, ansiedade).
- Trabalha estratégias para lidar com a vontade de jogar (técnicas de relaxamento, distração).
- Ajuda a modificar crenças distorcidas (ex.: “Eu vou ganhar na próxima vez”).
- Duração: Geralmente 12 a 20 sessões, mas pode variar.
- Exemplo de técnica:
- Técnica do “5 minutos”: Quando sentir vontade de jogar, a pessoa espera 5 minutos e faz outra atividade (caminhar, ligar para um amigo). Muitas vezes, a vontade passa.
Terapia de grupo (como Jogadores Anônimos)
- O que é? Um grupo de pessoas com o mesmo problema que se apoiam mutuamente.
- Como funciona?
- As pessoas compartilham suas experiências e aprendem umas com as outras.
- Há um sistema de padrinhos (alguém que já está em recuperação ajuda quem está começando).
- Segue os 12 passos, um programa de recuperação usado em vários tipos de vício.
- Vantagens:
- Reduz a sensação de solidão (“Não sou o único com esse problema”).
- Dá esperança (ver outras pessoas se recuperando).
- Onde encontrar? No Brasil, existem grupos de Jogadores Anônimos (JA) em várias cidades. O site oficial é www.jogadoresanonimos.org.br.
Terapia familiar
- O que é? A família participa do tratamento para entender o problema e aprender a ajudar.
- Como funciona?
- Os familiares aprendem a não julgar e a oferecer apoio.
- São trabalhadas estratégias para evitar recaídas (ex.: não emprestar dinheiro).
- Ajuda a reconstruir a confiança que foi quebrada pelas mentiras e dívidas.
- Duração: Geralmente algumas sessões, junto com a terapia individual.
3. Mudanças no dia a dia
O tratamento não se resume a remédios e terapia — mudanças no estilo de vida são essenciais para a recuperação.
Exercício físico
- Por que ajuda? O exercício libera endorfina, um neurotransmissor que dá sensação de bem-estar, reduzindo a vontade de jogar.
- Quais tipos são melhores?
- Caminhada, corrida, natação (atividades aeróbicas).
- Yoga e meditação (ajudam a controlar a ansiedade).
- Dica: Comece com 30 minutos por dia, 3 vezes por semana.
Sono regular
- Por que é importante? A falta de sono aumenta a impulsividade e a vontade de jogar.
- Dicas para dormir melhor:
- Evite telas (celular, TV) 1 hora antes de dormir.
- Mantenha um horário fixo para dormir e acordar.
- Faça atividades relaxantes antes de dormir (ler, ouvir música calma).
Alimentação saudável
- Por que ajuda? Uma dieta equilibrada melhora o humor e a energia, reduzindo a vontade de jogar.
- O que evitar?
- Açúcar em excesso (causa picos de energia seguidos de queda, aumentando a ansiedade).
- Café e energéticos (podem aumentar a agitação).
- O que incluir?
- Alimentos ricos em triptofano (banana, ovos, nozes) — ajudam na produção de serotonina.
- Ômega-3 (peixes, linhaça) — melhora a função cerebral.
Estrutura da rotina
- Por que é importante? Quando a pessoa não tem uma rotina, fica mais fácil cair na tentação de jogar.
- Dicas:
- Faça um cronograma diário (horários para trabalho, lazer, exercícios, sono).
- Evite o tédio — ocupe a mente com hobbies (pintura, música, esportes).
- Afaste-se de gatilhos (não passe na frente de casas de apostas, delete apps de jogos).
Técnicas de manejo da vontade de jogar
- Técnica do “adiamento”: Quando sentir vontade de jogar, diga a si mesmo: “Vou esperar 15 minutos.” Muitas vezes, a vontade passa.
- Técnica da substituição: Troque o jogo por outra atividade prazerosa (ex.: ligar para um amigo, cozinhar).
- Técnica do “cartão de enfrentamento”: Escreva em um cartão os motivos para parar de jogar (ex.: “Quero recuperar minha família”, “Não quero mais dívidas”) e leia quando sentir vontade.
Convivendo com o diagnóstico
Receber o diagnóstico de transtorno de jogo pode ser assustador, mas também é o primeiro passo para a recuperação. Vamos ver como lidar com isso, tanto para a pessoa quanto para os familiares.
Para a pessoa com o diagnóstico
Aceite que é uma doença
- Não é culpa sua. O transtorno de jogo é uma condição médica, não um defeito de caráter.
- Você não está sozinho. Milhares de pessoas passam pelo mesmo e conseguem se recuperar.
Busque ajuda profissional
- Não tente se tratar sozinho. Procure um psiquiatra e um psicólogo.
- Participe de grupos de apoio (como Jogadores Anônimos).
Seja honesto consigo mesmo e com os outros
- Admita o problema. Muitas pessoas demoram anos para aceitar que têm um vício.
- Peça desculpas para quem você magoou (família, amigos), mas não use isso como desculpa para continuar jogando.
Evite gatilhos
- Delete apps de apostas do celular.
- Não carregue cartões de crédito/débito quando sair de casa.
- Evite lugares onde você costuma jogar (casas de apostas, bares com máquinas caça-níqueis).
Reconstrua sua vida
- Volte a fazer coisas que gostava antes do jogo (esportes, hobbies, sair com amigos).
- Estabeleça metas pequenas (ex.: “Vou ficar 1 semana sem jogar”, “Vou economizar R$ 100 este mês”).
- Celebre as pequenas vitórias. Cada dia sem jogar é uma conquista.
Para familiares e amigos
Como ajudar (sem prejudicar)
✅ Ofereça apoio, não julgamento.
– Em vez de: “Você é um irresponsável!”
– Diga: “Estou aqui para te ajudar. Vamos procurar tratamento juntos.”
✅ Não empreste dinheiro.
– Muitas pessoas com transtorno de jogo usam o dinheiro para apostar.
– Se precisar ajudar financeiramente, pague contas diretamente (aluguel, luz, água).
✅ Incentive o tratamento.
– Ajude a marcar consultas e acompanhe nas primeiras sessões, se a pessoa permitir.
✅ Estabeleça limites.
– Se a pessoa mentir ou manipular, deixe claro que isso não será tolerado.
– Exemplo: “Eu te amo, mas não vou mais cobrir suas dívidas.”
❌ O que NÃO fazer:
– Não minimize o problema (“É só um vício bobo, você para quando quiser”).
– Não dê sermões (“Você não pensa na família?”).
– Não assuma as responsabilidades da pessoa (pagar dívidas, mentir para os outros).
Como cuidar de si mesmo
- Não se culpe. O transtorno de jogo não é culpa da família.
- Busque apoio. Grupos como Gam-Anon (para familiares de jogadores) podem ajudar.
- Cuide da sua saúde mental. Lidar com um familiar com vício é estressante — procure terapia se precisar.
Como explicar para outras pessoas
- Seja honesto, mas protetor.
- Exemplo: “Fulano está passando por um problema de saúde e está em tratamento. Vamos respeitar o processo dele.”
- Não dê detalhes desnecessários (ex.: quanto a pessoa perdeu, quantas vezes mentiu).
- Peça ajuda se precisar. Se amigos ou familiares não entenderem, explique que é uma doença, não uma escolha.
Quando os sintomas podem piorar?
Algumas situações aumentam o risco de recaída. Fique atento a:
⚠️ Estresse intenso (problemas no trabalho, término de relacionamento, morte na família).
⚠️ Disponibilidade de dinheiro (receber um bônus, herança, 13º salário).
⚠️ Exposição a gatilhos (passar na frente de uma casa de apostas, ver um anúncio de jogo).
⚠️ Solidão e tédio (ficar muito tempo sozinho, sem atividades).
⚠️ Uso de álcool ou drogas (substâncias diminuem o autocontrole).
O que fazer nesses momentos?
– Ligue para alguém de confiança.
– Vá a uma reunião de Jogadores Anônimos.
– Use as técnicas de manejo que aprendeu na terapia.
Perguntas frequentes
1. “Jogar de vez em quando é normal ou já é um problema?”
Depende. Jogar ocasionalmente, sem perder o controle, é normal. O problema começa quando:
– Você gasta mais do que pode.
– Mente sobre quanto joga.
– Sente ansiedade ou irritação quando não joga.
– Prioriza o jogo em vez de outras áreas da vida (trabalho, família, saúde).
Se você se identificou com vários desses pontos, pode ser hora de avaliar.
2. “Meu marido joga todo fim de semana. Ele é viciado?”
Não necessariamente. Jogar todo fim de semana não é, por si só, um sinal de transtorno. O que importa é:
– Ele perde mais do que ganha?
– Mente sobre quanto gasta?
– Fica irritado quando não joga?
– Deixa de fazer outras coisas para jogar?
Se a resposta for sim para várias dessas perguntas, pode ser um sinal de alerta.
3. “Como convencer alguém a parar de jogar?”
Você não pode obrigar ninguém a parar — a decisão tem que partir da própria pessoa. Mas você pode:
– Falar com calma e sem julgamentos (“Percebi que você anda estressado com o jogo. Quer conversar?”).
– Mostrar as consequências (“Você já perdeu R$ 5.000 este mês. Como vamos pagar as contas?”).
– Oferecer ajuda (“Vamos procurar um médico juntos?”).
– Estabelecer limites (“Não vou mais emprestar dinheiro para você apostar.”).
Se a pessoa não quiser ajuda, você pode procurar apoio para si mesmo (terapia, grupos como Gam-Anon).
4. “O transtorno de jogo tem cura?”
Não existe uma cura definitiva, mas tem controle. Muitas pessoas conseguem:
– Parar de jogar completamente.
– Recuperar o controle financeiro.
– Reconstruir relacionamentos.
– Ter uma vida plena e feliz.
O tratamento é para a vida toda, assim como em outras doenças crônicas (diabetes, hipertensão). Recaídas podem acontecer, mas não significam fracasso — são oportunidades para aprender e seguir em frente.
5. “Quanto tempo leva para se recuperar?”
Não há um tempo exato, mas geralmente:
– Primeiros 3 meses: Fase mais difícil, com vontade intensa de jogar.
– 6 meses a 1 ano: A pessoa começa a sentir os benefícios da abstinência (menos estresse, mais dinheiro, relacionamentos melhores).
– 2 anos ou mais: A vontade de jogar diminui muito, e a pessoa consegue manter uma vida normal.
Fatores que influenciam:
– Gravidade do vício (quanto mais tempo jogando, mais difícil a recuperação).
– Apoio familiar (ter pessoas ao lado ajuda muito).
– Acesso a tratamento (terapia, medicamentos, grupos de apoio).
6. “Posso jogar ‘só um pouquinho’ depois de me recuperar?”
Não. Para a maioria das pessoas com transtorno de jogo, qualquer aposta é um risco. É como um alcoólatra que não pode tomar nem um gole — o cérebro volta a ativar os mesmos padrões de vício.
Algumas pessoas conseguem jogar socialmente (ex.: uma vez por ano, em um cassino com amigos), mas é arriscado. O mais seguro é evitar completamente.
7. “O que fazer se eu tiver uma recaída?”
Recaídas fazem parte do processo — não significam que você falhou. O importante é:
1. Não se culpar. O vício é uma doença, não uma falha moral.
2. Analisar o que levou à recaída. Foi estresse? Tédio? Dinheiro fácil?
3. Procurar ajuda imediatamente. Ligue para seu terapeuta, vá a uma reunião de JA, converse com alguém de confiança.
4. Recomeçar. Uma recaída não apaga todo o progresso que você fez.
8. “Como lidar com as dívidas causadas pelo jogo?”
As dívidas podem ser esmagadoras, mas é possível se recuperar. Algumas dicas:
– Seja honesto com os credores. Muitas vezes, eles preferem negociar a receber pouco do que nada.
– Procure ajuda financeira. Um planejador financeiro ou assistente social pode ajudar a organizar as contas.
– Evite novos empréstimos. Não peça dinheiro para pagar dívidas de jogo — isso só aumenta o problema.
– Corte gastos desnecessários. Foque no essencial (aluguel, comida, contas básicas).
– Considere vender algo. Se tiver bens (carro, eletrônicos), pode ser uma forma de reduzir a dívida.
No Brasil:
– Procon (para negociar dívidas).
– Defensoria Pública (para orientação jurídica gratuita).
– Bancos públicos (alguns oferecem renegociação de dívidas).
9. “O transtorno de jogo pode levar ao suicídio?”
Infelizmente, sim. Pessoas com transtorno de jogo têm risco maior de suicídio por causa de:
– Dívidas impagáveis.
– Perda de relacionamentos.
– Sensação de desespero e falta de saída.
Sinais de alerta:
– Falar em morte ou suicídio (“Não aguento mais”, “Seria melhor se eu não existisse”).
– Isolamento extremo.
– Comportamentos de risco (dirigir bêbado, usar drogas).
– Despedidas (dar objetos de valor, escrever cartas).
O que fazer?
– Não deixe a pessoa sozinha.
– Procure ajuda profissional imediatamente (psiquiatra, CVV 188).
– Leve a sério. Mesmo que pareça “drama”, qualquer menção a suicídio é um pedido de ajuda.
10. “Existe algum aplicativo ou ferramenta que ajude a parar de jogar?”
Sim! Alguns apps e sites podem ajudar no controle:
Apps para bloquear sites de apostas
- BetBlocker (gratuito, bloqueia sites de apostas).
- Gamban (pago, bloqueia apps e sites de jogos).
- Cold Turkey Blocker (bloqueia sites e apps por tempo determinado).
Apps de controle financeiro
- GuiaBolso (ajuda a controlar gastos).
- Organizze (planejamento financeiro).
Apps de mindfulness e relaxamento
- Headspace (meditação).
- Calm (relaxamento).
Sites de apoio
- Jogadores Anônimos (JA): www.jogadoresanonimos.org.br
- Gam-Anon (para familiares): www.gam-anon.org.br
- CVV (Centro de Valorização da Vida): www.cvv.org.br ou 188 (para apoio emocional).
Quando procurar ajuda urgente
Algumas situações exigem ajuda imediata. Procure um pronto-socorro ou ligue para o CVV (188) se:
Sinais de alerta vermelhos (procure ajuda AGORA)
🚨 Pensamentos suicidas (“Não aguento mais”, “Queria desaparecer”).
🚨 Comportamentos autodestrutivos (dirigir bêbado, usar drogas em excesso).
🚨 Ameaças de violência (contra si mesmo ou outros).
🚨 Perda total de controle (jogar até perder tudo, incluindo documentos, casa, comida).
Sinais de alerta amarelos (procure ajuda o quanto antes)
⚠️ Dívidas que não consegue pagar (ameaça de despejo, corte de luz).
⚠️ Isolamento extremo (não fala com ninguém, não sai de casa).
⚠️ Depressão grave (não come, não dorme, não tem vontade de viver).
⚠️ Recaída após longo período de abstinência (e não consegue parar).
Onde procurar ajuda no Brasil:
– CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) – Atendimento gratuito pelo SUS.
– UBS (Unidade Básica de Saúde) – Encaminhamento para psiquiatra/psicólogo.
– CVV (188) – Apoio emocional 24 horas.
– Hospitais psiquiátricos – Em casos de crise grave.
Referências
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022.
- American Psychiatric Association (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
- Jogadores Anônimos (JA). Manual de Recuperação. Disponível em: www.jogadoresanonimos.org.br.
- Gam-Anon. Apoio a Familiares de Jogadores. Disponível em: www.gam-anon.org.br.
- Potenza, M. N. The neurobiology of gambling disorder. Biological Psychiatry, 2018.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.