Transtorno de jogo eletrônico (CID-11: 6C51)

O que é?

Imagine que você tem um hobby que ama. Talvez seja cozinhar, correr, tocar violão ou jogar videogame. Agora imagine que, sem perceber, esse hobby começa a tomar conta da sua vida. Você pensa nele o tempo todo, deixa de fazer outras coisas importantes para se dedicar a ele, e quando tenta parar, sente uma angústia tão grande que parece impossível resistir. Para algumas pessoas, os jogos eletrônicos podem se tornar exatamente isso: não mais um passatempo, mas algo que controla a vida, traz sofrimento e prejudica relacionamentos, estudos e trabalho.

O transtorno de jogo eletrônico, também chamado de gaming disorder ou vício em jogos, é uma condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na CID-11. Ele acontece quando o hábito de jogar videogame — seja no computador, celular ou console — se torna tão intenso e descontrolado que começa a causar problemas sérios na vida da pessoa. Não é só uma questão de “gostar muito” ou “jogar bastante”. É quando o jogo deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade, como se o cérebro da pessoa estivesse “viciado” na sensação de jogar, assim como acontece com quem desenvolve dependência de álcool ou outras drogas.

Muita gente confunde o transtorno de jogo eletrônico com outros problemas, como preguiça, falta de força de vontade ou até mesmo depressão. Mas não é nada disso. Estudos mostram que o cérebro de quem tem esse transtorno funciona de um jeito diferente quando o assunto é recompensa e controle de impulsos. É como se o sistema de “freios” que nos ajuda a parar quando algo está em excesso não estivesse funcionando direito. Por isso, a pessoa pode até querer parar de jogar tanto, mas sente uma ansiedade tão forte que acaba voltando, mesmo sabendo que isso está prejudicando sua vida.

Como diferenciar um hobby de um transtorno?

Todo mundo que joga videogame sabe como é gostoso passar algumas horas em um jogo legal. Talvez você tenha ficado acordado até tarde para terminar uma fase, ou tenha combinado com amigos para jogar online no fim de semana. Isso é normal e faz parte da diversão. O problema começa quando:

  • O jogo vira a prioridade número 1: Você deixa de sair com amigos, estudar ou trabalhar para jogar, mesmo sabendo que isso vai trazer consequências ruins.
  • Você sente um vazio quando não está jogando: Não é só tédio, é como se algo estivesse faltando, como se você não soubesse mais o que fazer com seu tempo livre.
  • Tenta parar e não consegue: Você promete a si mesmo que vai jogar menos, mas sempre acaba voltando ao mesmo padrão, como se fosse mais forte do que você.
  • Mente ou esconde o quanto joga: Você diz para sua família que jogou só “umas horinhas”, quando na verdade foram 8 ou 10 horas.
  • Sua saúde e rotina desandam: Você para de dormir direito, come mal, deixa de tomar banho ou praticar exercícios, e até suas notas ou desempenho no trabalho caem.

Se isso está acontecendo há pelo menos 12 meses e está trazendo sofrimento ou prejuízos na sua vida, pode ser um sinal de que o jogo deixou de ser um hobby e se tornou um transtorno.

Quem é afetado?

Não existe um “perfil” único de quem desenvolve o transtorno de jogo eletrônico, mas alguns padrões aparecem nos estudos. A maioria dos casos é identificada em adolescentes e adultos jovens, especialmente entre 12 e 25 anos. Isso faz sentido, porque é nessa fase da vida que os videogames costumam ser mais populares e acessíveis. No entanto, adultos mais velhos também podem desenvolver o transtorno, especialmente aqueles que jogam jogos online competitivos ou que usam os jogos como uma forma de escapar de problemas da vida real.

Os homens são mais diagnosticados com o transtorno do que as mulheres, mas isso pode ter a ver com estereótipos e preconceitos. Muitas mulheres que jogam muito não procuram ajuda porque têm medo de serem julgadas ou de não serem levadas a sério. Além disso, os jogos mais associados ao transtorno — como os MMORPGs (jogos de RPG online com muitos jogadores) ou os battle royales (como Fortnite ou PUBG) — costumam ser mais populares entre homens. Mas isso não significa que mulheres não possam desenvolver o problema, especialmente em jogos como The Sims, Animal Crossing ou jogos de celular como Candy Crush.

No Brasil, ainda não temos dados muito precisos sobre quantas pessoas têm o transtorno, mas estudos internacionais sugerem que entre 1% e 3% dos jogadores podem desenvolver o problema. Isso pode parecer pouco, mas se considerarmos que milhões de brasileiros jogam videogame, estamos falando de dezenas de milhares de pessoas. Além disso, a pandemia de COVID-19 aumentou muito o tempo que as pessoas passaram jogando, o que pode ter elevado o número de casos.

Um pouco de história

Os videogames existem desde os anos 1970, mas foi só nas últimas duas décadas que eles se tornaram uma parte tão grande da vida das pessoas. Com a internet, os jogos deixaram de ser uma atividade solitária e passaram a ser uma forma de socializar, competir e até trabalhar (como no caso dos streamers e jogadores profissionais). Jogos como World of Warcraft, League of Legends e Fortnite criaram comunidades inteiras de jogadores que passam horas interagindo em mundos virtuais.

Foi nessa época que os médicos e pesquisadores começaram a notar que, para algumas pessoas, os jogos estavam saindo do controle. Em 2013, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), usado por psiquiatras nos Estados Unidos, incluiu o “transtorno de jogo pela internet” como uma condição que precisava de mais estudos. Em 2018, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu oficialmente o gaming disorder na CID-11, a classificação internacional de doenças.

Esse reconhecimento foi importante porque ajudou a tirar o estigma de que “vício em videogame” era só frescura ou falta de força de vontade. Hoje, sabemos que o transtorno de jogo eletrônico é uma condição real, com bases biológicas e psicológicas, que pode trazer tanto sofrimento quanto outras dependências.


Quais são os sintomas?

Para entender se o hábito de jogar está se tornando um transtorno, os médicos usam uma lista de sintomas baseada na CID-11 e no DSM-5. Não é preciso ter todos eles, mas quanto mais sintomas a pessoa apresentar — e quanto mais intensos eles forem —, maior a chance de ser um caso de transtorno de jogo eletrônico. Vamos explicar cada um deles em detalhes, com exemplos do dia a dia para você entender como eles aparecem na prática.

1. Perda de controle sobre o jogo

O que é?
Esse é o sintoma mais importante. Significa que a pessoa não consegue mais controlar quando começa a jogar, por quanto tempo joga ou quando para. É como se o jogo tivesse um “poder” sobre ela, e não o contrário. Mesmo quando a pessoa promete a si mesma que vai jogar só “mais uma partida” ou “só até terminar essa fase”, ela acaba perdendo a noção do tempo e joga muito mais do que pretendia.

Como aparece no dia a dia?
Exemplo 1: João combinou com a namorada de assistir a um filme às 20h, mas começou a jogar Call of Duty às 18h. Ele disse para si mesmo: “Só vou jogar duas partidas”. Quando viu, já eram 23h, ele tinha perdido o filme e a namorada estava brava.
Exemplo 2: Maria tem uma prova importante na segunda-feira. Ela planeja estudar no sábado, mas decide jogar The Sims “só um pouquinho” para relaxar. Quando percebe, já é domingo à noite, ela não estudou nada e está desesperada.
Exemplo 3: Pedro acorda às 7h para ir à faculdade, mas antes de sair, resolve dar uma olhada no League of Legends no celular. Ele diz: “Só vou ver se tem alguém online”. Duas horas depois, ele ainda está jogando e perde a primeira aula.

Normal vs. Sintomático:
Todo mundo já perdeu a noção do tempo jogando alguma coisa. Isso é normal, especialmente em jogos muito envolventes. A diferença é que, no transtorno, isso acontece o tempo todo, mesmo quando a pessoa tem outras coisas importantes para fazer. Não é só um deslize de vez em quando — é um padrão que se repete várias vezes por semana, ou até todos os dias.


2. O jogo vira a prioridade número 1

O que é?
Aqui, o jogo deixa de ser uma atividade entre outras e passa a ser a coisa mais importante na vida da pessoa. Ela começa a abrir mão de hobbies, relacionamentos, estudos e até necessidades básicas (como comer ou dormir) para jogar. É como se o cérebro da pessoa estivesse “programado” para buscar o jogo acima de tudo, mesmo que isso traga consequências ruins.

Como aparece no dia a dia?
Exemplo 1: Lucas adorava tocar violão e tinha aulas toda semana. Mas desde que começou a jogar Fortnite todos os dias, ele parou de praticar. Quando o professor perguntou por que ele não estava indo mais, Lucas disse: “Não tenho tempo, preciso treinar no jogo”.
Exemplo 2: Ana costumava sair com as amigas todo sábado, mas agora só quer ficar em casa jogando Among Us. Quando as amigas a chamam, ela inventa desculpas ou diz que está ocupada. Elas já estão começando a se afastar.
Exemplo 3: Carlos sempre foi um aluno dedicado, mas desde que entrou em um clã de World of Warcraft, suas notas caíram. Ele falta às aulas para jogar, não faz mais os trabalhos e até deixou de participar de um projeto importante na faculdade porque “precisava farmar” (ganhar pontos no jogo).

Normal vs. Sintomático:
É normal que a gente priorize algumas coisas em determinados momentos da vida. Por exemplo, se você está estudando para um vestibular, é esperado que passe mais tempo estudando do que saindo com amigos. Mas no transtorno, o jogo vira a prioridade mesmo quando não deveria. A pessoa deixa de fazer coisas que são importantes para ela — como passar tempo com a família, cuidar da saúde ou trabalhar — só para jogar, mesmo sabendo que isso vai trazer problemas.


3. Continua jogando mesmo com consequências ruins

O que é?
Esse sintoma é um dos mais dolorosos. A pessoa sabe que o jogo está prejudicando sua vida — está tirando o sono, fazendo as notas caírem, deixando os pais bravos, causando brigas no relacionamento —, mas mesmo assim não consegue parar. É como se houvesse uma voz na cabeça dizendo: “Eu sei que isso é ruim, mas não consigo evitar”.

Como aparece no dia a dia?
Exemplo 1: Rafael foi advertido no trabalho duas vezes por chegar atrasado porque ficou jogando até tarde. Mesmo assim, ele continua fazendo a mesma coisa. Seu chefe já avisou que, se acontecer de novo, ele pode ser demitido.
Exemplo 2: Camila brigou com o namorado porque ele descobriu que ela mentiu sobre quanto tempo passava jogando Genshin Impact. Ela prometeu que ia jogar menos, mas na semana seguinte já estava fazendo a mesma coisa. O namorado ameaçou terminar o relacionamento.
Exemplo 3: Pedro teve uma crise de ansiedade porque passou a noite inteira jogando e não dormiu. No dia seguinte, estava exausto, mas mesmo assim não conseguiu resistir e jogou de novo. Ele sabe que isso está piorando sua ansiedade, mas sente que “precisa” jogar.

Normal vs. Sintomático:
Todo mundo já fez algo sabendo que não era a melhor escolha. Por exemplo, comer um doce mesmo sabendo que vai se arrepender depois. A diferença é que, no transtorno, a pessoa continua repetindo o comportamento mesmo quando as consequências são graves. Não é só um deslize — é um padrão que se repete várias vezes, mesmo quando a pessoa sofre por isso.


4. Sintomas de abstinência

O que é?
Quando a pessoa tenta parar de jogar ou é impedida de jogar (por exemplo, porque o computador quebrou ou os pais tiraram o videogame), ela sente um desconforto muito forte, como se estivesse “faltando algo”. Esses sintomas são parecidos com os de quem para de usar uma droga: irritabilidade, ansiedade, tristeza, dificuldade para se concentrar e até sintomas físicos, como dor de cabeça ou suor frio.

Como aparece no dia a dia?
Exemplo 1: Quando o Wi-Fi cai na casa de Thiago, ele fica extremamente irritado. Começa a andar de um lado para o outro, xinga, bate nas coisas e não consegue se acalmar até o sinal voltar. Seus pais já perceberam que ele fica “insuportável” quando não consegue jogar.
Exemplo 2: Júlia decidiu tirar um dia de folga dos jogos para estudar para uma prova. Nas primeiras horas, ela se sentiu inquieta, como se estivesse “coçando” para jogar. À tarde, começou a chorar sem motivo e teve uma crise de ansiedade. No fim, desistiu e voltou a jogar.
Exemplo 3: O celular de Marcos quebrou e ele não tem como jogar Free Fire por alguns dias. Ele se sente vazio, como se não soubesse o que fazer com o tempo livre. Fica olhando para a parede, sem conseguir se concentrar em nada, e sente uma tristeza que não consegue explicar.

Normal vs. Sintomático:
É normal sentir um pouco de frustração quando algo que gostamos é interrompido. Por exemplo, se você está assistindo a uma série muito boa e a energia cai, é natural ficar chateado. Mas no transtorno, os sintomas de abstinência são muito mais intensos e duradouros. Não é só uma frustração passageira — é um sofrimento que pode durar horas ou dias, e que faz a pessoa se sentir fisicamente mal.


5. Tolerância

O que é?
Com o tempo, a pessoa precisa jogar cada vez mais para sentir a mesma satisfação. É como se o cérebro se “acostumasse” com a quantidade de jogo e pedisse mais. Isso é chamado de tolerância e é um sinal clássico de dependência, seja de substâncias ou de comportamentos.

Como aparece no dia a dia?
Exemplo 1: Quando Lucas começou a jogar League of Legends, duas horas por dia eram suficientes para ele se sentir satisfeito. Agora, ele joga seis horas e ainda sente que não é o bastante. Se joga menos, fica com a sensação de que “falta algo”.
Exemplo 2: Ana costumava ficar feliz com uma partida de Valorant por dia. Agora, ela precisa jogar várias partidas seguidas e, mesmo assim, não se sente realizada. Às vezes, ela joga até de madrugada e acorda se sentindo vazia.
Exemplo 3: Pedro começou jogando Minecraft só nos fins de semana. Agora, ele joga todos os dias e, mesmo assim, sente que não é suficiente. Ele já tentou jogar outros jogos, mas nenhum dá a mesma sensação de antes.

Normal vs. Sintomático:
É normal que, com o tempo, a gente se acostume com algumas coisas e precise de mais estímulo para sentir a mesma emoção. Por exemplo, se você assiste a um filme muito bom, pode ser que precise de algo ainda mais intenso na próxima vez para se sentir tão entretido. Mas no transtorno, a tolerância é extrema e progressiva. A pessoa não só precisa de mais jogo para se sentir satisfeita, como também sente que nunca é o suficiente, não importa quanto tempo passe jogando.


6. Mentir ou esconder o quanto joga

O que é?
A pessoa começa a esconder ou mentir sobre quanto tempo passa jogando, seja para a família, amigos ou até para si mesma. Isso acontece porque ela sabe que, se disser a verdade, as pessoas vão ficar preocupadas ou bravas. É um sinal de que a pessoa já percebe que há um problema, mas ainda não consegue enfrentá-lo.

Como aparece no dia a dia?
Exemplo 1: Gabriel diz para os pais que joga só “umas horinhas” por dia, mas na verdade passa a noite inteira jogando CS:GO. Ele esconde o computador quando eles entram no quarto e apaga o histórico de jogos.
Exemplo 2: Laura combina de sair com as amigas, mas na última hora inventa uma desculpa para ficar em casa jogando Stardew Valley. Quando as amigas perguntam por que ela não foi, ela diz que estava doente.
Exemplo 3: Rafael esconde o controle do videogame debaixo da cama para que os pais não vejam. Quando eles perguntam o que ele fez o dia todo, ele diz que estava estudando, mas na verdade passou horas jogando FIFA.

Normal vs. Sintomático:
Todo mundo já omitiu alguma coisa para evitar brigas ou preocupações. Por exemplo, se você comeu um doce antes do jantar e não conta para sua mãe para não ouvir sermão. Mas no transtorno, a mentira é frequente e sistemática. A pessoa mente não só para os outros, mas também para si mesma, minimizando o problema (“Eu jogo muito, mas consigo parar quando quiser”).


7. Usar o jogo para escapar de problemas

O que é?
Para algumas pessoas, o jogo se torna uma forma de fugir de sentimentos ruins, como tristeza, ansiedade, solidão ou estresse. É como se o jogo fosse um “refúgio” onde a pessoa pode esquecer dos problemas da vida real. O problema é que, quando o jogo acaba, os problemas continuam lá — e muitas vezes pioram, porque a pessoa não está enfrentando eles.

Como aparece no dia a dia?
Exemplo 1: Depois que os pais de Pedro se separaram, ele começou a jogar Grand Theft Auto por horas todos os dias. Ele diz que o jogo o ajuda a “esquecer” a briga dos pais, mas na verdade só está adiando o sofrimento.
Exemplo 2: Maria está com depressão e não tem vontade de fazer nada. Quando se sente muito triste, ela joga Animal Crossing para se distrair. O problema é que, quando desliga o jogo, a tristeza volta ainda mais forte.
Exemplo 3: João foi demitido do emprego e, em vez de procurar outro, passa os dias jogando World of Warcraft. Ele diz que o jogo o ajuda a “não pensar na vida”, mas na verdade está só evitando lidar com a situação.

Normal vs. Sintomático:
É normal usar hobbies para relaxar depois de um dia estressante. Por exemplo, se você teve um dia difícil no trabalho, pode ser que jogar um jogo ou assistir a uma série ajude a desligar um pouco. Mas no transtorno, o jogo não é mais uma forma de relaxar — é a única forma de lidar com os problemas. A pessoa usa o jogo para evitar sentimentos difíceis, em vez de enfrentá-los, e isso acaba piorando as coisas a longo prazo.


Importante: Ter alguns sintomas não significa ter o diagnóstico

É normal se identificar com um ou outro sintoma dessa lista. Afinal, quem nunca perdeu a noção do tempo jogando ou mentiu sobre quanto tempo passou em frente à tela? O que diferencia um hobby saudável de um transtorno é:

  1. A quantidade de sintomas: Para o diagnóstico, a pessoa precisa ter vários desses sintomas ao mesmo tempo.
  2. A intensidade: Os sintomas precisam ser fortes o suficiente para causar sofrimento ou prejuízos na vida da pessoa.
  3. A duração: Os sintomas precisam estar presentes há pelo menos 12 meses, a não ser que sejam muito graves.
  4. O impacto: O jogo precisa estar atrapalhando áreas importantes da vida, como estudos, trabalho, relacionamentos ou saúde.

Se você ou alguém que você conhece está passando por isso, o primeiro passo é não se culpar. O transtorno de jogo eletrônico não é falta de força de vontade ou frescura — é uma condição real, que tem tratamento e pode melhorar com ajuda profissional.


Como se manifesta no dia a dia?

O transtorno de jogo eletrônico não afeta só o tempo que a pessoa passa jogando. Ele muda toda a rotina, os relacionamentos e até a saúde física e mental. Vamos ver como isso acontece em diferentes áreas da vida.

No trabalho ou na escola

Quando o jogo vira uma prioridade, o desempenho no trabalho ou nos estudos costuma ser uma das primeiras coisas a serem afetadas. A pessoa pode:

  • Faltar ou chegar atrasada: Porque ficou jogando até tarde e não conseguiu acordar a tempo. Por exemplo, João costumava ser pontual no trabalho, mas desde que entrou em um clã de Rainbow Six Siege, ele vive chegando atrasado porque não consegue parar de jogar à noite.
  • Fazer as tarefas de qualquer jeito: Porque está com pressa para voltar a jogar. Maria sempre foi uma aluna dedicada, mas agora entrega trabalhos incompletos ou com erros porque prefere jogar Genshin Impact a revisar o que escreveu.
  • Perder oportunidades: Porque está mais focada no jogo do que em crescer profissionalmente. Pedro foi convidado para um curso de especialização na empresa, mas recusou porque o horário coincidia com as partidas de League of Legends do clã dele.
  • Ser advertida ou demitida: Porque o desempenho caiu muito. Rafael já recebeu duas advertências no trabalho por faltar ou chegar atrasado, mas mesmo assim não consegue parar de jogar CS:GO até de madrugada.

Exemplo real:
Lucas, 22 anos, trabalhava como programador em uma startup. Ele adorava o emprego, mas desde que começou a jogar Valorant competitivamente, seu desempenho caiu. Ele passava as noites jogando e chegava cansado no trabalho, cometendo erros bobos nos códigos. Depois de algumas advertências, foi demitido. Mesmo assim, ele continuou jogando, porque sentia que “precisava” do jogo para relaxar.


Nos relacionamentos

Os jogos eletrônicos podem ser uma forma divertida de socializar, mas quando viram um transtorno, eles costumam afastar as pessoas em vez de aproximá-las. Isso acontece porque:

  • A pessoa prioriza o jogo em vez das pessoas: Por exemplo, Ana combinou de jantar com o namorado, mas cancelou na última hora porque seu time de Overwatch marcou uma partida importante. O namorado ficou magoado, mas ela não entendeu por quê.
  • As conversas giram em torno do jogo: Quando a família ou os amigos tentam conversar sobre outros assuntos, a pessoa só quer falar do jogo. Pedro, por exemplo, só conversa com os pais sobre Fortnite, mesmo quando eles tentam falar sobre outras coisas.
  • Brigas por causa do jogo: Os familiares podem ficar bravos porque a pessoa joga demais, e a pessoa pode ficar irritada quando tentam interrompê-la. Isso cria um ciclo de brigas e ressentimentos. A mãe de Gabriel já escondeu o controle do videogame dele várias vezes, e ele sempre reage com raiva.
  • Isolamento social: A pessoa deixa de sair com os amigos ou de participar de eventos familiares porque prefere ficar em casa jogando. Laura, por exemplo, parou de ir aos churrascos da família porque prefere jogar The Sims sozinha no quarto.

Exemplo real:
Carlos, 19 anos, namorava há dois anos quando começou a jogar World of Warcraft todos os dias. No começo, a namorada até achava legal, mas com o tempo, ele passou a cancelar programas para jogar, não atendia as ligações dela enquanto estava no jogo e até deixou de comemorar o aniversário de namoro porque tinha uma raid (missão em grupo) marcada. Ela terminou o relacionamento, mas Carlos não entendeu o motivo. Ele achava que ela estava “exagerando”.


Na rotina

Quando o jogo vira o centro da vida, outras áreas da rotina acabam sendo negligenciadas. Isso inclui:

  • Sono: A pessoa joga até tarde e dorme pouco, ou acorda várias vezes à noite para checar se tem mensagens no jogo. Rafael, por exemplo, dorme só 4 horas por noite porque joga Call of Duty até de madrugada. Ele acorda cansado, mas não consegue mudar o hábito.
  • Alimentação: A pessoa esquece de comer ou come qualquer coisa na frente do computador. Maria, que joga League of Legends, muitas vezes pula o almoço ou come miojo porque não quer parar de jogar. Ela já perdeu 5 kg sem perceber.
  • Higiene pessoal: A pessoa deixa de tomar banho, escovar os dentes ou trocar de roupa porque prefere jogar. Pedro, que joga Minecraft, às vezes passa dias sem tomar banho porque não quer “perder tempo”.
  • Exercícios físicos: A pessoa para de praticar esportes ou de ir à academia porque prefere jogar. João, que adorava correr, parou de se exercitar desde que começou a jogar FIFA todos os dias. Ele já ganhou peso e sente que está ficando fora de forma.
  • Lazer: A pessoa deixa de fazer outras coisas que gostava, como ler, assistir a filmes ou sair com os amigos. Ana, por exemplo, parou de assistir a séries porque prefere jogar Stardew Valley. Ela sente que não tem mais tempo para nada além do jogo.

Exemplo real:
Thiago, 16 anos, sempre foi organizado com a escola e os hobbies. Mas desde que começou a jogar Free Fire todos os dias, sua rotina desandou. Ele dorme tarde, acorda cansado, não come direito e já foi advertido na escola por faltar. Seus pais tentaram conversar com ele, mas Thiago diz que “não é nada demais” e que “todo mundo joga”.


Na saúde física

O corpo também sofre com o excesso de jogos. Alguns problemas comuns são:

  • Dores musculares: Ficar muito tempo na mesma posição pode causar dores nas costas, no pescoço e nos ombros. Rafael, que joga CS:GO, já teve várias crises de dor nas costas por ficar sentado por horas sem se mexer.
  • Problemas de visão: Olhar para a tela por muito tempo pode causar vista cansada, dor de cabeça e até miopia. Maria, que joga Genshin Impact, já teve que aumentar o grau dos óculos porque sua visão piorou.
  • Síndrome do túnel do carpo: Movimentos repetitivos com o mouse ou o controle podem causar dor e formigamento nas mãos. Pedro, que joga League of Legends, já sentiu dormência nos dedos e teve que fazer fisioterapia.
  • Problemas de circulação: Ficar sentado por muito tempo pode causar inchaço nas pernas e até trombose em casos extremos. João, que joga Fortnite, já teve que levantar várias vezes porque suas pernas ficaram dormentes.
  • Ganho ou perda de peso: Algumas pessoas comem demais enquanto jogam, outras esquecem de comer. Ana, por exemplo, ganhou 10 kg desde que começou a jogar The Sims todos os dias, porque belisca salgadinhos enquanto joga.

Exemplo real:
Lucas, 20 anos, sempre foi saudável, mas desde que começou a jogar Valorant competitivamente, sua saúde piorou. Ele desenvolveu uma tendinite no pulso por usar o mouse por horas seguidas, ganhou peso porque parou de se exercitar e já teve crises de enxaqueca por ficar muito tempo olhando para a tela. Mesmo assim, ele não consegue parar de jogar.


Na saúde mental

O transtorno de jogo eletrônico não afeta só o corpo — ele também mexe com a cabeça. Alguns problemas comuns são:

  • Ansiedade: A pessoa fica ansiosa quando não está jogando, como se estivesse “perdendo algo importante”. Maria, por exemplo, sente um aperto no peito quando não consegue jogar Animal Crossing por algumas horas.
  • Depressão: O jogo pode ser uma forma de escapar da tristeza, mas quando a pessoa para de jogar, a depressão volta ainda mais forte. Pedro, que joga World of Warcraft, já teve crises de choro quando tentou parar de jogar.
  • Irritabilidade: A pessoa fica irritada quando é interrompida ou quando não consegue jogar. Gabriel, que joga Rainbow Six Siege, já gritou com a mãe porque ela pediu para ele desligar o computador para jantar.
  • Sentimento de vazio: Quando não está jogando, a pessoa se sente perdida, como se não soubesse o que fazer com o tempo livre. Ana, que joga Stardew Valley, já ficou olhando para a parede por horas porque não tinha vontade de fazer nada além de jogar.
  • Baixa autoestima: A pessoa pode se sentir fracassada por não conseguir controlar o hábito de jogar. João, que joga FIFA, já se chamou de “fracassado” porque não consegue parar, mesmo sabendo que isso está prejudicando sua vida.

Exemplo real:
Camila, 18 anos, sempre foi uma pessoa alegre, mas desde que começou a jogar Genshin Impact todos os dias, sua saúde mental piorou. Ela se sente ansiosa quando não está jogando, irritada quando é interrompida e triste quando pensa em como sua vida mudou por causa do jogo. Ela já tentou parar várias vezes, mas sempre volta a jogar porque se sente “vazia” sem o jogo.


O que causa essa condição?

Se você ou alguém que você conhece está passando pelo transtorno de jogo eletrônico, é natural se perguntar: por que isso aconteceu? A resposta não é simples, porque não existe uma única causa. Assim como acontece com outras dependências, o transtorno de jogo eletrônico surge de uma combinação de fatores — alguns relacionados ao cérebro, outros ao ambiente e outros ainda à personalidade da pessoa. Vamos entender cada um deles.

Fatores genéticos: “Será que herdei isso?”

Você já ouviu falar que “dependência é de família”? Isso não é só um ditado — tem um fundo de verdade. Estudos mostram que algumas pessoas têm uma predisposição genética para desenvolver dependências, seja de substâncias (como álcool ou drogas) ou de comportamentos (como jogos ou apostas).

Como isso funciona?
Imagine que o cérebro é como um carro. Algumas pessoas nascem com um “freio” mais fraco — ou seja, têm mais dificuldade para controlar impulsos e resistir a coisas que dão prazer imediato. Outras nascem com um “acelerador” mais sensível — ou seja, sentem mais intensamente a recompensa de certas atividades, como jogar. Quando esses dois fatores se combinam (freio fraco + acelerador sensível), a pessoa tem mais chance de desenvolver uma dependência.

Exemplo na prática:
Pedro sempre foi uma criança impulsiva. Quando era pequeno, tinha dificuldade para esperar a vez na fila ou para controlar a raiva quando perdia um jogo. Seus pais também tinham problemas com dependência: o pai bebia demais e a mãe era compulsiva por compras. Quando Pedro cresceu e descobriu os videogames, ele se “viciou” rapidamente, porque seu cérebro estava “programado” para buscar recompensas imediatas e ter dificuldade para parar.

Mito vs. Verdade:
Mito: “Se meu pai era alcoólatra, eu também vou ser viciado em algo.”
Verdade: A genética aumenta o risco, mas não determina o destino. Ter predisposição não significa que você vai desenvolver o transtorno — significa apenas que precisa ficar mais atento aos sinais e cuidar melhor dos seus hábitos.


Fatores neurobiológicos: O que acontece no cérebro?

O cérebro humano é programado para buscar prazer e evitar dor. Quando fazemos algo que nos dá prazer — como comer um doce, receber um elogio ou ganhar uma partida de videogame —, nosso cérebro libera uma substância chamada dopamina, que nos faz sentir bem. Com o tempo, o cérebro se acostuma com essa sensação e passa a “pedir” mais da mesma coisa. É assim que as dependências se formam.

Como os jogos ativam esse sistema?
Os jogos eletrônicos são projetados para serem viciantes. Eles usam técnicas de psicologia para manter a pessoa jogando, como:
Recompensas imprevisíveis: Em jogos como Fortnite ou League of Legends, você nunca sabe quando vai ganhar uma partida ou receber um item raro. Isso cria uma sensação de “quase lá” que faz a pessoa continuar jogando, na esperança de que “da próxima vez” vai conseguir.
Progressão constante: Jogos como World of Warcraft ou Genshin Impact são feitos para que você sempre tenha algo novo para conquistar. Mesmo que você passe horas jogando, sempre vai ter uma missão, um item ou um nível a mais para alcançar.
Socialização: Muitos jogos têm comunidades online onde as pessoas se sentem parte de um grupo. Para quem se sente sozinho na vida real, essa sensação de pertencimento pode ser muito poderosa.

O que acontece no cérebro de quem tem o transtorno?
Estudos de neuroimagem mostram que, em pessoas com transtorno de jogo eletrônico, algumas áreas do cérebro funcionam de forma diferente:
Sistema de recompensa: Fica hiperativo, como se estivesse “viciado” na dopamina que o jogo libera.
Córtex pré-frontal: Essa é a parte do cérebro responsável pelo controle de impulsos e pela tomada de decisões. Em pessoas com o transtorno, ela funciona de forma menos eficiente, como se os “freios” estivessem fracos.
Amígdala: Essa área está relacionada às emoções, especialmente ao medo e à ansiedade. Em pessoas com o transtorno, ela pode ficar mais sensível, fazendo com que a pessoa sinta uma ansiedade muito forte quando tenta parar de jogar.

Analogia para entender:
Imagine que seu cérebro é como um jardim. A dopamina é como a água que faz as plantas crescerem. Quando você joga, é como se alguém estivesse regando seu jardim sem parar. Com o tempo, as plantas (seus hábitos) crescem demais e começam a sufocar as outras flores (outras atividades da sua vida). Além disso, seu “regador” (o sistema de recompensa) fica viciado em molhar as plantas e não quer parar, mesmo quando o jardim já está encharcado.


Fatores ambientais: O que está ao seu redor?

Nem todo mundo que tem predisposição genética ou um cérebro “viciável” desenvolve o transtorno. O ambiente em que a pessoa vive também faz diferença. Alguns fatores que podem contribuir são:

1. Acesso fácil aos jogos

Hoje em dia, os jogos estão em todo lugar: no computador, no celular, no videogame, na TV. Não é preciso nem sair de casa para jogar. Além disso, muitos jogos são grátis para começar, mas têm compras dentro do jogo (in-app purchases) que podem viciar. Por exemplo, em Free Fire ou Candy Crush, você pode jogar de graça, mas se quiser itens especiais ou vantagens, precisa pagar. Isso cria um ciclo de “só mais um pouquinho” que pode sair do controle.

2. Pressão social

Em algumas comunidades, jogar muito é visto como algo positivo. Por exemplo, em grupos de e-sports ou em clãs de MMORPGs, quem joga mais é admirado e respeitado. Isso pode fazer com que a pessoa se sinta pressionada a jogar cada vez mais para “não ficar para trás” ou para ser aceita no grupo.

Exemplo:
João entrou em um clã de League of Legends onde os jogadores mais dedicados são tratados como “deuses”. Para ser respeitado, ele começou a jogar 8 horas por dia, mesmo sabendo que isso estava prejudicando seus estudos. Ele tinha medo de ser excluído do grupo se jogasse menos.

3. Falta de outras atividades

Quando a pessoa não tem outros hobbies, interesses ou formas de socializar, o jogo pode se tornar a única fonte de prazer. Isso é comum em adolescentes que passam muito tempo em casa, em pessoas que moram em cidades pequenas com poucas opções de lazer ou em quem tem dificuldade para fazer amigos.

Exemplo:
Maria sempre foi tímida e tinha dificuldade para fazer amigos na escola. Quando descobriu The Sims, ela encontrou um mundo onde podia criar sua própria vida e interagir com outras pessoas sem medo de ser julgada. Com o tempo, ela passou a preferir esse mundo virtual ao mundo real, porque se sentia mais segura e aceita.

4. Estresse e problemas emocionais

Muitas pessoas usam os jogos como uma forma de escapar de problemas da vida real, como:
– Bullying na escola ou no trabalho.
– Brigas familiares.
– Depressão ou ansiedade.
– Solidão ou falta de propósito.

O problema é que, quando o jogo acaba, os problemas continuam lá — e muitas vezes pioram, porque a pessoa não está enfrentando eles.

Exemplo:
Depois que os pais de Pedro se separaram, ele começou a jogar Grand Theft Auto por horas todos os dias. O jogo o ajudava a “esquecer” a briga dos pais, mas na verdade ele só estava adiando o sofrimento. Quando desligava o jogo, a tristeza voltava ainda mais forte.


Fatores da gestação e desenvolvimento

Alguns estudos sugerem que experiências na gestação ou na primeira infância podem aumentar o risco de desenvolver dependências na vida adulta. Por exemplo:
Exposição a estresse ou traumas na infância: Crianças que crescem em ambientes violentos, negligentes ou instáveis podem ter mais dificuldade para regular suas emoções e impulsos na vida adulta.
Exposição a substâncias durante a gestação: Bebês cujas mães fumaram, beberam ou usaram drogas durante a gravidez podem ter alterações no desenvolvimento do cérebro que aumentam o risco de dependências.
Estilo de criação: Crianças que crescem em lares muito rígidos ou muito permissivos podem ter mais dificuldade para desenvolver autocontrole.

Exemplo:
Lucas cresceu em uma casa onde os pais brigavam muito. Desde pequeno, ele aprendeu a se “desligar” dos problemas assistindo TV ou jogando videogame. Quando ficou mais velho, ele continuou usando os jogos como uma forma de escapar da realidade, e isso acabou se tornando um transtorno.


Modelo biopsicossocial: A combinação de tudo

Na psiquiatria, usamos o modelo biopsicossocial para entender as condições de saúde mental. Isso significa que não existe uma única causa para o transtorno de jogo eletrônico — ele surge da combinação de:
Fatores biológicos (genética, funcionamento do cérebro).
Fatores psicológicos (personalidade, traumas, formas de lidar com emoções).
Fatores sociais (ambiente, cultura, acesso aos jogos).

Analogia para entender:
Imagine que desenvolver um transtorno é como acender uma fogueira. Para a fogueira pegar, você precisa de três coisas:
1. Combustível (fatores biológicos, como predisposição genética).
2. Faísca (fatores psicológicos, como estresse ou traumas).
3. Oxigênio (fatores sociais, como acesso fácil aos jogos ou pressão do grupo).
Se faltar um desses elementos, a fogueira pode não pegar. Mas se os três estiverem presentes, o fogo se espalha rapidamente.


Mitos sobre as causas do transtorno

Existem muitos mitos sobre o que causa o transtorno de jogo eletrônico. Vamos desmistificar alguns deles:

Mito 1: “É só falta de força de vontade.”
Verdade: O transtorno não tem nada a ver com força de vontade. É uma condição médica, assim como a depressão ou a diabetes. Ninguém escolhe ter um cérebro que funciona de forma diferente, assim como ninguém escolhe ter pressão alta.

Mito 2: “Só acontece com pessoas preguiçosas ou sem ambição.”
Verdade: Muitas pessoas com o transtorno são inteligentes, criativas e ambiciosas. O problema não é falta de ambição — é que o cérebro delas está “viciado” no jogo, e isso atrapalha outras áreas da vida.

Mito 3: “É culpa dos pais, que não educaram direito.”
Verdade: Os pais podem até influenciar, mas não são os únicos responsáveis. O transtorno surge de uma combinação de fatores genéticos, biológicos e ambientais. Culpar os pais só aumenta o sofrimento da família.

Mito 4: “Só acontece com adolescentes.”
Verdade: Embora seja mais comum em adolescentes e adultos jovens, o transtorno pode afetar pessoas de qualquer idade. Adultos também podem desenvolver o problema, especialmente se usam os jogos como uma forma de escapar de problemas da vida real.

Mito 5: “É só uma fase, vai passar sozinho.”
Verdade: Para algumas pessoas, pode ser uma fase passageira. Mas para outras, o transtorno pode se tornar crônico e trazer consequências graves, como depressão, ansiedade, problemas de saúde e até suicídio. Não é algo para se ignorar.


Como é feito o diagnóstico?

Receber um diagnóstico de transtorno de jogo eletrônico pode ser um alívio para algumas pessoas (“Finalmente alguém entende o que eu estou passando!”) e um susto para outras (“Eu tenho uma doença?”). Mas o mais importante é entender que o diagnóstico não é uma sentença — é o primeiro passo para melhorar.

Vamos explicar como funciona o processo de diagnóstico, quem pode fazê-lo e o que esperar da primeira consulta.


Passo a passo do diagnóstico

O diagnóstico do transtorno de jogo eletrônico não é feito com exames de sangue ou de imagem. Ele é baseado em uma avaliação clínica, ou seja, em uma conversa detalhada com um profissional de saúde mental (psiquiatra ou psicólogo). Essa conversa costuma seguir alguns passos:

1. Primeira consulta: Conhecendo a história

Na primeira consulta, o profissional vai fazer perguntas para entender:
Seus hábitos de jogo: Quanto tempo você joga por dia? Quais jogos você costuma jogar? Quando começou a jogar tanto?
Como o jogo afeta sua vida: Você já deixou de fazer coisas importantes por causa do jogo? Já teve problemas no trabalho, na escola ou nos relacionamentos?
Seus sentimentos em relação ao jogo: Você sente que precisa jogar? Fica ansioso quando não joga? Já tentou parar e não conseguiu?
Sua saúde física e mental: Você tem outros problemas de saúde, como ansiedade, depressão ou insônia? Como está sua alimentação e seu sono?
Sua história de vida: Você já passou por traumas, estresse ou problemas familiares? Como era sua relação com os jogos na infância?

Exemplo de perguntas que o profissional pode fazer:
– “Quando foi a última vez que você passou um dia inteiro sem jogar?”
– “Você já mentiu para alguém sobre quanto tempo passa jogando?”
– “Como você se sente quando não consegue jogar?”
– “Você já deixou de fazer algo importante (como ir à escola ou ao trabalho) para jogar?”
– “Seus amigos ou familiares já reclamaram do seu hábito de jogar?”

2. Avaliação dos sintomas

Depois de conhecer sua história, o profissional vai comparar seus sintomas com os critérios diagnósticos da CID-11 ou do DSM-5. Lembra dos sintomas que explicamos na seção anterior? É nessa hora que eles são “checados”.

Critérios da CID-11 (resumidos):
1. Perda de controle sobre o jogo (não consegue parar, mesmo querendo).
2. O jogo vira a prioridade número 1 (deixa de fazer outras coisas importantes).
3. Continua jogando mesmo com consequências ruins (problemas no trabalho, na escola, nos relacionamentos).
4. Os sintomas duram pelo menos 12 meses (a não ser que sejam muito graves).

Critérios do DSM-5 (resumidos):
1. Preocupação excessiva com jogos.
2. Sintomas de abstinência quando não joga (irritabilidade, ansiedade, tristeza).
3. Tolerância (precisa jogar cada vez mais para sentir a mesma satisfação).
4. Tentativas fracassadas de parar ou reduzir.
5. Perda de interesse em outras atividades.
6. Continua jogando mesmo sabendo que isso traz problemas.
7. Mente sobre quanto tempo joga.
8. Usa o jogo para escapar de problemas ou sentimentos ruins.
9. Coloca em risco ou perde relacionamentos, trabalho ou oportunidades por causa do jogo.

Para o diagnóstico, a pessoa precisa ter pelo menos 5 desses sintomas (no DSM-5) ou todos os 3 critérios da CID-11 por pelo menos 12 meses.

3. Exclusão de outras condições

Às vezes, o excesso de jogos pode ser um sintoma de outro problema, como:
Depressão: A pessoa pode jogar muito para escapar da tristeza.
Ansiedade: O jogo pode ser uma forma de aliviar a ansiedade.
TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade): Pessoas com TDAH podem ter dificuldade para controlar impulsos e se “viciar” em jogos.
Transtorno bipolar: Em fases de mania, a pessoa pode jogar excessivamente.
Transtorno do espectro autista: Algumas pessoas com autismo podem se apegar muito a jogos como uma forma de lidar com a ansiedade social.

Por isso, o profissional vai avaliar se o excesso de jogos é o problema principal ou se é um sintoma de outra condição.

4. Diagnóstico final

Depois de avaliar todos esses pontos, o profissional vai dar o diagnóstico. Se for confirmado o transtorno de jogo eletrônico, ele também vai avaliar:
A gravidade: O transtorno pode ser leve, moderado ou grave, dependendo de quantos sintomas a pessoa tem e de como eles afetam sua vida.
Comorbidades: Se a pessoa tem outros problemas de saúde mental, como depressão ou ansiedade, que precisam ser tratados junto com o transtorno.


Quanto tempo leva para ser diagnosticado?

Não existe um prazo exato, mas o processo costuma levar algumas semanas ou meses. Isso porque:
O profissional precisa conhecer bem a história da pessoa: Uma única consulta não é suficiente para entender todos os detalhes.
É preciso observar os sintomas por um tempo: Como o diagnóstico exige que os sintomas estejam presentes há pelo menos 12 meses (a não ser que sejam muito graves), pode ser necessário acompanhar a pessoa por um período antes de dar o diagnóstico.
Outras condições precisam ser descartadas: Às vezes, é preciso fazer exames ou avaliações adicionais para ter certeza de que o problema não é outro.

Exemplo:
Maria procurou um psiquiatra porque estava preocupada com seu hábito de jogar Genshin Impact. Na primeira consulta, o médico fez várias perguntas e pediu que ela anotasse quanto tempo jogava por dia. Depois de um mês, ela voltou com as anotações, e o médico percebeu que ela tinha vários sintomas do transtorno. Ele também pediu alguns exames para descartar depressão e ansiedade. Depois de mais algumas consultas, o diagnóstico foi confirmado.


Quem pode diagnosticar?

No Brasil, o diagnóstico de transtorno de jogo eletrônico pode ser feito por:
Psiquiatras: Médicos especializados em saúde mental. Eles podem fazer o diagnóstico e prescrever medicamentos, se necessário.
Psicólogos: Profissionais especializados em terapia. Eles podem fazer o diagnóstico e oferecer tratamento psicológico, mas não podem prescrever remédios.
Neurologistas: Em alguns casos, especialmente se houver suspeita de TDAH ou outros problemas neurológicos.

Onde procurar ajuda?
SUS (Sistema Único de Saúde): Você pode procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Lá, você será encaminhado para um profissional de saúde mental.
Particular: Você pode procurar um psiquiatra ou psicólogo particular. O valor da consulta varia, mas muitos profissionais oferecem descontos ou parcelamentos.
Planos de saúde: Se você tem plano de saúde, pode procurar um profissional credenciado.

Dica:
Se você não sabe por onde começar, pode ligar para o CVV (Centro de Valorização da Vida) no número 188. Eles oferecem apoio emocional e podem te orientar sobre onde procurar ajuda.


O que esperar da primeira consulta?

A primeira consulta pode ser um pouco assustadora, especialmente se você nunca foi a um psiquiatra ou psicólogo antes. Mas não precisa se preocupar — o profissional está ali para te ajudar, não para te julgar. Veja o que costuma acontecer:

  1. Acolhimento: O profissional vai te receber de forma acolhedora e explicar como funciona a consulta.
  2. Perguntas sobre sua história: Como mencionamos antes, ele vai fazer perguntas sobre seus hábitos de jogo, sua saúde, sua família e sua vida em geral.
  3. Avaliação dos sintomas: Ele vai perguntar sobre os sintomas do transtorno e como eles afetam sua vida.
  4. Explicação sobre o diagnóstico: Se o profissional suspeitar do transtorno, ele vai explicar o que é e como funciona o tratamento.
  5. Plano de tratamento: Vocês vão conversar sobre as opções de tratamento (terapia, medicamentos, mudanças no dia a dia) e decidir juntos o que fazer.

Dica:
Anote suas dúvidas antes da consulta e leve um caderno para anotar as orientações do profissional. Se você se sentir à vontade, pode levar um familiar ou amigo para te acompanhar.


Diagnóstico diferencial: O que pode ser confundido?

Às vezes, o excesso de jogos pode ser confundido com outros problemas. Vamos ver algumas condições que podem ter sintomas parecidos e como o profissional as diferencia:

1. Hobby saudável

  • Como diferenciar? No hobby saudável, a pessoa consegue controlar o tempo que passa jogando e não deixa de fazer outras coisas importantes. Além disso, ela não sente sofrimento quando não está jogando.
  • Exemplo: João joga FIFA todos os dias, mas consegue parar quando precisa estudar ou sair com os amigos. Ele não mente sobre quanto tempo joga e não se sente ansioso quando não está jogando.

2. Depressão

  • Como diferenciar? Na depressão, o jogo pode ser uma forma de escapar da tristeza, mas não é o único sintoma. A pessoa também pode ter falta de energia, perda de interesse em outras atividades, alterações no sono e no apetite, e pensamentos negativos.
  • Exemplo: Maria joga Stardew Valley por horas todos os dias porque se sente triste e sem vontade de fazer nada. Além disso, ela tem dificuldade para dormir, perdeu o apetite e se sente culpada por não estar fazendo mais coisas.

3. Ansiedade

  • Como diferenciar? Na ansiedade, o jogo pode ser uma forma de aliviar a preocupação, mas a pessoa também pode ter outros sintomas, como coração acelerado, sudorese, tremores e pensamentos catastróficos.
  • Exemplo: Pedro joga League of Legends para “desligar” da ansiedade, mas mesmo assim fica preocupado o tempo todo, tem dificuldade para dormir e sente o coração acelerado quando pensa em problemas da vida real.

4. TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade)

  • Como diferenciar? No TDAH, a pessoa pode ter dificuldade para se concentrar em outras atividades, mas não necessariamente joga em excesso. Além disso, ela pode ter outros sintomas, como impulsividade, desorganização e dificuldade para seguir regras.
  • Exemplo: Lucas sempre teve dificuldade para se concentrar na escola e é muito impulsivo. Ele joga Fortnite por horas, mas também tem dificuldade para se concentrar em outras coisas, como ler um livro ou assistir a um filme.

5. Transtorno bipolar

  • Como diferenciar? No transtorno bipolar, o excesso de jogos pode acontecer durante fases de mania (quando a pessoa está eufórica, agitada e com muita energia). Além disso, ela pode ter outros sintomas, como insônia, irritabilidade e comportamentos de risco.
  • Exemplo: Ana passa noites inteiras jogando World of Warcraft quando está em uma fase de mania. Além disso, ela fica muito agitada, fala sem parar e gasta dinheiro de forma impulsiva.

6. Transtorno do espectro autista

  • Como diferenciar? No autismo, o jogo pode ser uma forma de lidar com a ansiedade social, mas a pessoa também pode ter dificuldade para se comunicar, entender emoções e interagir com os outros.
  • Exemplo: Pedro sempre teve dificuldade para fazer
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