Transtorno de apego reativo (CID-11: 6B44)

O que é?

Imagine que você é um bebê recém-nascido. Seu mundo inteiro se resume a algumas pessoas: quem te alimenta, quem te acalma quando você chora, quem te protege do frio e do medo. Essas pessoas são como âncoras em um mar desconhecido. Agora, pense no que aconteceria se essas âncoras desaparecessem, ou se estivessem presentes, mas não te dessem o que você precisa — como um barco à deriva, sem rumo. O transtorno de apego reativo (TAR) é justamente isso: uma dificuldade profunda de criar laços afetivos seguros com outras pessoas, que surge quando um bebê ou criança pequena não recebeu o cuidado básico de que precisava para se sentir amada e protegida.

Esse transtorno não é “frescura” nem “manha”. É uma resposta do cérebro e do corpo a um ambiente que falhou em oferecer segurança emocional nos primeiros anos de vida. Enquanto a maioria das crianças aprende, desde cedo, que podem confiar nos adultos ao seu redor — que, se chorarem, alguém virá; que, se estiverem com medo, alguém as acolherá —, crianças com TAR não tiveram essa experiência. É como se o “manual de instruções” para se relacionar com os outros nunca tivesse sido escrito para elas.

O TAR faz parte de um grupo de condições chamadas de “transtornos especificamente associados ao estresse”, porque sua causa principal está ligada a experiências traumáticas ou negligentes no início da vida. Ele é diferente de outros problemas emocionais, como a depressão ou a ansiedade, porque não surge de um único evento ruim, mas sim de uma ausência prolongada de cuidado afetivo. Também não é a mesma coisa que o autismo, embora algumas pessoas confundam os dois. No autismo, a dificuldade de interação social vem de diferenças no desenvolvimento cerebral desde o nascimento. No TAR, a dificuldade vem de um ambiente que não respondeu às necessidades emocionais da criança.

Esse transtorno costuma ser diagnosticado em crianças pequenas, geralmente antes dos 5 anos de idade, mas seus efeitos podem durar a vida toda se não forem tratados. Não há dados precisos sobre quantas pessoas no Brasil têm TAR, mas estudos internacionais sugerem que ele afeta entre 1% e 2% das crianças em situações de risco, como orfanatos ou lares com negligência grave. No entanto, esse número pode ser maior em contextos de extrema vulnerabilidade social, como em abrigos ou famílias em situação de rua. Não há diferença significativa entre meninos e meninas na frequência do diagnóstico.

O TAR foi descrito pela primeira vez na década de 1980, quando pesquisadores começaram a estudar crianças que haviam sido criadas em instituições com poucos cuidadores e pouco contato afetivo. Um dos estudos mais famosos foi feito na Romênia, após a queda do regime comunista, quando milhares de crianças foram encontradas em orfanatos superlotados, com pouquíssima interação humana. Muitas delas apresentavam sintomas do que hoje chamamos de TAR. Desde então, a ciência entendeu que o cérebro humano precisa de afeto e segurança nos primeiros anos de vida para se desenvolver de forma saudável — e que, sem isso, as consequências podem ser profundas e duradouras.


Quais são os sintomas?

O transtorno de apego reativo tem sintomas muito específicos, que refletem a dificuldade da criança em criar vínculos afetivos. Para entender melhor, vamos traduzir cada um dos critérios diagnósticos do DSM-5 e da CID-11 para uma linguagem simples, com exemplos do dia a dia.

1. Dificuldade persistente em iniciar ou responder a interações sociais

O que isso significa na prática?
A criança não busca conforto quando está triste, assustada ou machucada, nem responde quando alguém tenta consolá-la. É como se ela tivesse aprendido que não adianta pedir ajuda, porque ninguém virá. Imagine uma criança que cai e se machuca, mas, em vez de correr para os braços da mãe ou do pai, ela fica parada, olhando para o chão, sem chorar. Ou uma criança que está com medo do escuro, mas não pede para dormir com os pais — ela simplesmente se encolhe sozinha, como se não esperasse que alguém a protegesse.

Exemplos concretos:
– Uma criança de 3 anos cai e rala o joelho. Em vez de chorar e correr para a mãe, ela fica parada, olhando para o machucado, sem reagir. Quando a mãe tenta pegá-la no colo, ela se encolhe ou empurra a mãe para longe.
– Um bebê de 1 ano está com febre e chorando. A mãe tenta acalmá-lo, mas ele não para de chorar, nem se acalma com o colo. É como se ele não soubesse que o colo da mãe é um lugar seguro.
– Uma criança de 4 anos está com medo de um barulho alto, como um trovão. Em vez de se aproximar dos pais, ela se esconde em um canto, sem pedir ajuda.

O que é normal vs. o que é sintoma?
É normal que crianças pequenas às vezes fiquem tímidas com estranhos ou prefiram brincar sozinhas em alguns momentos. O que não é normal é uma criança que nunca busca conforto em ninguém, nem mesmo nos pais ou cuidadores principais. Se uma criança de 2 anos cai e não chora, ou se um bebê de 1 ano não se acalma no colo da mãe, isso pode ser um sinal de alerta.


2. Comportamento social e emocional inibido ou retraído

O que isso significa na prática?
A criança parece “desligada” das outras pessoas. Ela não sorri quando alguém sorri para ela, não faz contato visual, não responde quando alguém fala com ela e não demonstra interesse em brincar com outras crianças. É como se ela vivesse em um mundo à parte, sem conexão com os outros. Imagine uma criança que, em uma festa de aniversário, fica sentada sozinha em um canto, sem olhar para os outros, sem reagir aos brinquedos ou às brincadeiras ao seu redor.

Exemplos concretos:
– Uma criança de 3 anos está em uma creche cheia de outras crianças brincando. Enquanto as outras correm, gritam e interagem, ela fica parada, olhando para o nada, sem participar.
– Um bebê de 9 meses não sorri quando a mãe faz caretas ou brinca de “cadê-achou”. Ele olha para a mãe com uma expressão vazia, como se não entendesse o que está acontecendo.
– Uma criança de 5 anos não responde quando um coleguinha da escola pergunta se ela quer brincar. Ela simplesmente ignora ou se afasta.

O que é normal vs. o que é sintoma?
É normal que crianças pequenas sejam tímidas em situações novas ou com pessoas desconhecidas. O que não é normal é uma criança que nunca demonstra interesse em interagir, nem mesmo com os pais ou cuidadores mais próximos. Se uma criança de 2 anos não faz contato visual, não sorri e não responde quando alguém fala com ela, isso pode ser um sinal de TAR.


3. Histórico de negligência ou privação social extrema

O que isso significa na prática?
O TAR não surge do nada. Ele é sempre causado por uma falta grave de cuidado afetivo nos primeiros anos de vida. Isso pode acontecer em situações como:
– Crianças criadas em orfanatos ou abrigos com poucos cuidadores e pouco contato humano.
– Crianças cujos pais ou cuidadores estavam presentes fisicamente, mas não ofereceram afeto, como mães com depressão grave que não conseguiam interagir com o bebê.
– Crianças que sofreram abuso físico ou emocional, além da negligência.
– Crianças que passaram por múltiplas trocas de cuidadores, como em casos de adoção tardia ou mudanças frequentes de lares temporários.

Exemplos concretos:
– Uma criança que foi abandonada pela mãe logo após o nascimento e passou os primeiros 2 anos de vida em um abrigo, onde havia poucos funcionários para cuidar de muitas crianças. Ela não tinha uma figura constante para se apegar.
– Uma criança cujos pais eram viciados em drogas e passavam dias trancados no quarto, sem dar atenção ao filho. O bebê ficava sozinho no berço por horas, sem ninguém para brincar ou conversar com ele.
– Uma criança que foi adotada aos 4 anos, depois de passar por vários lares temporários. Em cada lugar, ela tinha uma “mãe” ou “pai” diferente, e nunca conseguiu criar um vínculo seguro com ninguém.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Todas as crianças passam por momentos em que os pais estão ocupados ou distraídos, e isso não causa TAR. O que causa o transtorno é uma falta prolongada e grave de cuidado afetivo, como meses ou anos sem uma figura constante de apego. Se uma criança teve pais presentes, mas que às vezes não conseguiam dar atenção por causa do trabalho ou de outros problemas, isso não é suficiente para causar TAR.


4. Sintomas não explicados por outro transtorno

O que isso significa na prática?
O TAR é um diagnóstico que só pode ser dado se os sintomas não forem melhor explicados por outro problema, como autismo, deficiência intelectual ou transtorno de ansiedade. Por exemplo, uma criança com autismo pode ter dificuldade de interação social, mas essa dificuldade vem de diferenças no desenvolvimento cerebral, não de uma falta de cuidado afetivo. Já no TAR, a dificuldade de interação é uma resposta direta à negligência.

Exemplos concretos:
– Uma criança com autismo pode não fazer contato visual porque tem dificuldade de processar estímulos sociais, não porque não confia nas pessoas. Já uma criança com TAR não faz contato visual porque aprendeu que as pessoas não são confiáveis.
– Uma criança com deficiência intelectual pode ter dificuldade de se comunicar, mas ainda assim busca conforto nos pais quando está triste. Uma criança com TAR não busca conforto em ninguém.


5. Sintomas presentes antes dos 5 anos de idade

O que isso significa na prática?
O TAR é um transtorno que começa na primeira infância. Se uma criança desenvolve sintomas de dificuldade de apego depois dos 5 anos, provavelmente não é TAR, mas outro problema, como um transtorno de ansiedade ou depressão. Isso acontece porque os primeiros anos de vida são cruciais para o desenvolvimento do apego. Se a criança não teve a chance de criar vínculos seguros nessa fase, os efeitos podem ser permanentes.

Exemplo concreto:
– Uma criança de 7 anos começa a se afastar dos pais depois de um divórcio difícil. Ela pode estar triste ou com raiva, mas isso não é TAR, porque o problema começou depois dos 5 anos.
– Um bebê de 1 ano que foi abandonado pela mãe e criado em um abrigo desde o nascimento apresenta sintomas de TAR. Isso faz sentido, porque a negligência aconteceu nos primeiros anos de vida.


Um alerta importante

Ter alguns desses sintomas isoladamente não significa que uma criança tenha TAR. O que importa é o conjunto dos sintomas, a intensidade deles e o impacto na vida da criança. Por exemplo, uma criança pode ser tímida e não gostar de contato visual, mas ainda assim buscar conforto nos pais quando está triste. Nesse caso, ela provavelmente não tem TAR. O diagnóstico só pode ser feito por um profissional de saúde mental, como um psiquiatra infantil ou um psicólogo, depois de uma avaliação cuidadosa.


Como se manifesta no dia a dia?

O transtorno de apego reativo afeta todas as áreas da vida de uma criança. Vamos ver como ele se manifesta em diferentes contextos, com exemplos concretos.

Na escola ou creche

Crianças com TAR podem ter dificuldades enormes na escola, não porque não sejam inteligentes, mas porque não sabem como interagir com os outros. Alguns exemplos:

  • Dificuldade de fazer amigos: Enquanto as outras crianças brincam juntas, a criança com TAR fica sozinha, sem saber como se aproximar. Ela pode até querer brincar, mas não sabe como pedir para participar.
  • Problemas com figuras de autoridade: A criança pode ignorar ou desafiar os professores, não porque seja “mal-educada”, mas porque não entende que os adultos são pessoas em quem ela pode confiar.
  • Comportamento imprevisível: Em um momento, a criança pode estar quieta e retraída; no outro, pode ter uma crise de raiva sem motivo aparente. Isso acontece porque ela não sabe como lidar com as emoções.

Exemplo real:
João, 5 anos, foi adotado aos 3 anos depois de passar por vários lares temporários. Na escola, ele não brinca com as outras crianças. Quando uma coleguinha se aproxima para convidá-lo para brincar, ele vira as costas e vai para um canto. A professora tenta conversar com ele, mas ele não responde. Em um dia, ele derruba a mochila de um colega sem motivo. Quando a professora pergunta o que aconteceu, ele não diz nada. João não é “mau” — ele simplesmente não sabe como interagir.


Nos relacionamentos familiares

O TAR afeta profundamente a relação da criança com os pais, irmãos e outros familiares. Alguns exemplos:

  • Falta de afeto: A criança pode não abraçar os pais, não sorrir quando eles chegam em casa e não demonstrar alegria em momentos especiais, como aniversários.
  • Dificuldade de aceitar limites: Como a criança não confia nos adultos, ela pode desafiar as regras constantemente, não porque seja “rebelde”, mas porque não entende que os pais estão tentando protegê-la.
  • Ciúme excessivo: Em alguns casos, a criança pode ter ciúme de irmãos ou de outros membros da família, porque não entende que o amor dos pais não é “limitado”.

Exemplo real:
Maria, 4 anos, foi adotada depois de passar os primeiros 2 anos de vida em um abrigo. Quando a mãe adotiva tenta abraçá-la, ela fica rígida e se afasta. À noite, ela não quer que a mãe conte uma história ou cante uma música de ninar. Quando a mãe tenta colocar limites, como “agora é hora de dormir”, Maria chora e grita, como se estivesse sendo punida. A mãe se sente frustrada e magoada, porque não entende por que a filha não a ama.


Na rotina diária

O TAR também afeta a forma como a criança lida com as atividades do dia a dia. Alguns exemplos:

  • Sono: A criança pode ter dificuldade para dormir sozinha, não porque tenha medo do escuro, mas porque não se sente segura sem um adulto por perto. Em outros casos, ela pode dormir demais, como uma forma de “fugir” do mundo.
  • Alimentação: Algumas crianças com TAR comem muito pouco, como se não sentissem fome. Outras comem demais, como uma forma de preencher um vazio emocional.
  • Autocuidado: A criança pode não se importar com a higiene pessoal, como escovar os dentes ou tomar banho, porque não aprendeu que essas coisas são importantes.

Exemplo real:
Pedro, 6 anos, foi adotado depois de passar os primeiros 3 anos de vida em um orfanato. Ele não gosta de tomar banho e chora quando a mãe tenta lavá-lo. Ele também não gosta de escovar os dentes e se recusa a usar roupas limpas. A mãe não entende por que ele age assim, já que ela sempre oferece carinho e cuidado. O que acontece é que Pedro não aprendeu, nos primeiros anos de vida, que essas coisas são importantes — ele não teve ninguém para ensiná-lo.


Na saúde física

O TAR não afeta apenas a mente, mas também o corpo. Crianças com esse transtorno podem ter:

  • Problemas de crescimento: Algumas crianças com TAR não crescem no ritmo esperado, porque a falta de afeto pode afetar a produção de hormônios importantes para o desenvolvimento.
  • Doenças frequentes: Como o sistema imunológico está enfraquecido pelo estresse, a criança pode ficar doente com mais frequência.
  • Dores sem causa aparente: Algumas crianças reclamam de dores de cabeça ou de barriga, mas os exames não mostram nada de errado. Essas dores podem ser uma forma de o corpo expressar o sofrimento emocional.

Exemplo real:
Ana, 3 anos, foi adotada depois de passar os primeiros 2 anos de vida em um abrigo. Ela é menor e mais magra do que as outras crianças da sua idade. Os médicos não encontram nenhuma doença física, mas Ana fica doente com frequência — gripes, infecções de ouvido, dores de barriga. A mãe adotiva percebe que, nos dias em que Ana recebe mais atenção e carinho, ela fica menos doente. Isso acontece porque o estresse emocional enfraquece o sistema imunológico.


O que causa essa condição?

O transtorno de apego reativo não é culpa da criança, nem dos pais. Ele é causado por uma combinação de fatores, que vamos explicar de forma simples.

Fatores ambientais: a falta de cuidado afetivo

A principal causa do TAR é a negligência emocional nos primeiros anos de vida. Isso acontece quando a criança não recebe o afeto, a atenção e a segurança de que precisa para se desenvolver. Alguns exemplos de situações que podem levar ao TAR:

  • Orfanatos ou abrigos superlotados: Quando há poucos cuidadores para muitas crianças, é impossível dar atenção individualizada a cada uma. As crianças aprendem que não podem confiar em ninguém, porque os cuidadores estão sempre ocupados.
  • Pais com depressão ou dependência química: Se a mãe ou o pai está deprimido ou viciado em drogas, pode não conseguir dar o afeto de que a criança precisa. O bebê chora, mas a mãe não responde, porque está triste demais para se mexer.
  • Múltiplas trocas de cuidadores: Crianças que passam por vários lares temporários, como em casos de adoção tardia, não conseguem criar vínculos seguros com ninguém. É como se elas aprendessem que não vale a pena se apegar, porque as pessoas sempre vão embora.

Analogia:
Imagine que você está com muita fome e vai a um restaurante. Você pede comida, mas o garçom não traz nada. Você pede de novo, e de novo, e nada acontece. Depois de um tempo, você para de pedir, porque aprende que não adianta. É mais ou menos isso que acontece com uma criança com TAR. Ela pede afeto, mas ninguém responde. Depois de um tempo, ela para de pedir.


Fatores neurobiológicos: o que acontece no cérebro?

Quando uma criança não recebe afeto nos primeiros anos de vida, seu cérebro se desenvolve de forma diferente. Algumas áreas importantes para o apego e as emoções não se desenvolvem como deveriam. Vamos ver o que acontece:

  • Amígdala: Essa é a parte do cérebro que processa o medo. Em crianças com TAR, a amígdala pode ficar hiperativa, fazendo com que a criança sinta medo o tempo todo, mesmo em situações seguras.
  • Córtex pré-frontal: Essa é a parte do cérebro responsável pelo controle das emoções e pelo pensamento lógico. Em crianças com TAR, o córtex pré-frontal pode não se desenvolver adequadamente, fazendo com que a criança tenha dificuldade de controlar impulsos e de entender as emoções dos outros.
  • Hormônios do estresse: Quando uma criança está constantemente estressada, seu corpo produz hormônios como o cortisol em excesso. Isso pode enfraquecer o sistema imunológico e afetar o crescimento.

Analogia:
Imagine que o cérebro é como um jardim. Para que as flores cresçam bonitas, é preciso regá-las todos os dias. Se ninguém rega o jardim, as flores murcham e morrem. O afeto é como a água para o cérebro da criança. Sem ele, algumas áreas não se desenvolvem como deveriam.


Fatores genéticos: a hereditariedade

Algumas crianças podem ter uma predisposição genética para desenvolver TAR, o que significa que seus cérebros são mais sensíveis à falta de afeto. No entanto, os genes não são o único fator. Mesmo uma criança com predisposição genética pode não desenvolver TAR se receber cuidado afetivo adequado.

Exemplo:
Imagine duas crianças que passaram os primeiros anos de vida em um abrigo. Uma delas desenvolve TAR, enquanto a outra não. Isso pode acontecer porque a primeira criança tinha uma predisposição genética para ser mais sensível à falta de afeto, enquanto a segunda não tinha essa predisposição.


Mitos e verdades sobre as causas do TAR

Vamos desfazer alguns mitos comuns sobre o que causa o TAR:

Mito: “O TAR é causado por pais ruins.”
Verdade: O TAR é causado por uma falta de cuidado afetivo, não por “pais ruins”. Muitos pais que têm filhos com TAR são pessoas amorosas, mas que passaram por situações difíceis, como depressão, dependência química ou pobreza extrema, que os impediram de dar o afeto de que a criança precisava.

Mito: “Só crianças abandonadas desenvolvem TAR.”
Verdade: O TAR pode acontecer mesmo em crianças que não foram abandonadas. Por exemplo, uma criança cujos pais estavam presentes fisicamente, mas não conseguiam dar afeto por causa de problemas emocionais, também pode desenvolver TAR.

Mito: “O TAR é culpa da criança.”
Verdade: O TAR não é culpa da criança. Ela não escolheu não receber afeto. É uma resposta do cérebro e do corpo a um ambiente que falhou em oferecer segurança emocional.

Mito: “O TAR é irreversível.”
Verdade: Com tratamento adequado, muitas crianças com TAR conseguem desenvolver vínculos afetivos saudáveis. O cérebro tem uma capacidade incrível de se adaptar e mudar, especialmente na infância.


Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico do transtorno de apego reativo não é simples. Ele exige uma avaliação cuidadosa por um profissional de saúde mental, como um psiquiatra infantil ou um psicólogo. Vamos ver como esse processo funciona.

Passo 1: Observação dos sintomas

O primeiro passo é observar os sintomas da criança. Os pais ou cuidadores podem perceber que a criança:
– Não busca conforto quando está triste ou machucada.
– Não responde quando alguém tenta interagir com ela.
– Não demonstra afeto pelos pais ou cuidadores.
– Tem dificuldade de fazer amigos ou interagir com outras crianças.

Exemplo:
A mãe de Lucas, 3 anos, percebe que ele não chora quando cai e não corre para ela quando está assustado. Ele também não sorri quando ela brinca com ele. Ela decide levar Lucas a um psicólogo para entender o que está acontecendo.


Passo 2: Histórico de vida

O profissional vai perguntar sobre o histórico de vida da criança, especialmente nos primeiros anos. Algumas perguntas que podem ser feitas:
– A criança passou por situações de negligência ou abuso?
– Ela foi criada em um orfanato ou abrigo?
– Ela teve múltiplas trocas de cuidadores?
– Os pais ou cuidadores tiveram problemas emocionais, como depressão ou dependência química?

Exemplo:
O psicólogo pergunta à mãe de Lucas se ele passou por alguma situação de negligência nos primeiros anos de vida. A mãe conta que ela teve depressão pós-parto e não conseguia dar atenção a Lucas quando ele era bebê. Isso ajuda o psicólogo a entender que Lucas pode ter desenvolvido TAR por causa da falta de afeto nos primeiros meses de vida.


Passo 3: Avaliação com outros profissionais

Em alguns casos, o profissional pode pedir avaliações com outros especialistas, como:
Pediatra: Para descartar problemas físicos que possam estar causando os sintomas.
Neurologista: Para avaliar se há algum problema no desenvolvimento cerebral.
Fonoaudiólogo ou terapeuta ocupacional: Para avaliar se a criança tem dificuldades de comunicação ou de processamento sensorial.

Exemplo:
O psicólogo de Lucas pede uma avaliação com um pediatra para descartar problemas físicos. O pediatra não encontra nada de errado, o que reforça a hipótese de TAR.


Passo 4: Diagnóstico diferencial

O profissional vai descartar outras condições que podem causar sintomas parecidos, como:
Autismo: Crianças com autismo também podem ter dificuldade de interação social, mas essa dificuldade vem de diferenças no desenvolvimento cerebral, não de uma falta de cuidado afetivo.
Deficiência intelectual: Crianças com deficiência intelectual podem ter dificuldade de se comunicar, mas ainda assim buscam conforto nos pais quando estão tristes.
Transtorno de ansiedade: Crianças com ansiedade podem ser retraídas, mas ainda assim demonstram afeto pelos pais.

Exemplo:
O psicólogo de Lucas observa que ele não tem outros sintomas de autismo, como movimentos repetitivos ou dificuldade de comunicação. Ele também nota que Lucas não busca conforto nos pais, o que é um sinal de TAR, não de autismo.


Passo 5: Diagnóstico final

Depois de reunir todas as informações, o profissional pode dar o diagnóstico de TAR se:
– A criança apresenta os sintomas característicos (dificuldade de buscar conforto, comportamento retraído, etc.).
– Há um histórico de negligência ou privação social extrema.
– Os sintomas não são melhor explicados por outro transtorno.

Exemplo:
Depois de algumas sessões, o psicólogo de Lucas conclui que ele tem TAR. Ele explica à mãe que os sintomas de Lucas são uma resposta à falta de afeto nos primeiros meses de vida, mas que, com tratamento, ele pode aprender a criar vínculos afetivos saudáveis.


Quanto tempo leva para o diagnóstico?

O diagnóstico de TAR pode levar algumas semanas ou meses, porque exige uma avaliação cuidadosa. Não é algo que pode ser feito em uma única consulta.


Quem pode diagnosticar?

O diagnóstico de TAR só pode ser feito por um profissional de saúde mental, como:
Psiquiatra infantil: Médico especializado em transtornos mentais em crianças.
Psicólogo: Profissional que pode avaliar os sintomas e o histórico de vida da criança.


SUS vs. particular

No SUS, o diagnóstico pode ser feito em:
CAPS Infantil (Centro de Atenção Psicossocial Infantil): Serviço especializado em saúde mental para crianças.
UBS (Unidade Básica de Saúde): O médico da UBS pode encaminhar a criança para um especialista.
Hospitais universitários: Alguns hospitais têm serviços de psiquiatria infantil.

Na rede particular, o diagnóstico pode ser feito em:
Clínicas de psicologia ou psiquiatria infantil.
Hospitais privados com serviços de saúde mental.


O que esperar da primeira consulta?

A primeira consulta costuma ser uma conversa entre o profissional, a criança e os pais ou cuidadores. O profissional vai fazer perguntas sobre:
– Os sintomas da criança.
– O histórico de vida da criança.
– A relação da criança com os pais ou cuidadores.

Dica:
Leve um diário com anotações sobre os sintomas da criança, como:
– Quando ela busca conforto e quando não busca.
– Como ela reage em situações sociais.
– Como ela lida com as emoções.


Tratamento

O tratamento do transtorno de apego reativo é multidisciplinar, ou seja, envolve diferentes profissionais e abordagens. Vamos ver as principais formas de tratamento.

Psicoterapia

A psicoterapia é a base do tratamento do TAR. Ela ajuda a criança a aprender a criar vínculos afetivos saudáveis e a lidar com as emoções. Vamos ver as principais abordagens.

Terapia de apego

A terapia de apego é uma abordagem específica para crianças com TAR. Ela foca em ajudar a criança a desenvolver confiança nos pais ou cuidadores. Alguns exemplos de técnicas usadas:

  • Tempo de qualidade: Os pais são orientados a passar um tempo diário com a criança, fazendo atividades que ela goste, como brincar ou ler um livro. O objetivo é criar momentos de conexão.
  • Resposta sensível: Os pais são ensinados a responder de forma sensível às necessidades da criança. Por exemplo, se a criança chora, os pais devem acalmá-la, mesmo que ela não peça ajuda.
  • Limites amorosos: Os pais são orientados a colocar limites de forma carinhosa, para que a criança aprenda que os adultos são confiáveis.

Exemplo:
A mãe de Lucas é orientada a passar 20 minutos por dia brincando com ele, sem distrações. Ela também aprende a responder de forma sensível quando Lucas chora, mesmo que ele não peça ajuda. Com o tempo, Lucas começa a buscar conforto na mãe quando está triste.


Terapia cognitivo-comportamental (TCC)

A TCC ajuda a criança a identificar e mudar padrões de pensamento e comportamento que estão causando sofrimento. No caso do TAR, a TCC pode ajudar a criança a:
– Entender que os adultos são confiáveis.
– Aprender a expressar as emoções de forma saudável.
– Desenvolver habilidades sociais.

Exemplo:
Lucas aprende, na terapia, que é seguro buscar conforto nos pais quando está triste. Ele também aprende a identificar suas emoções e a expressá-las de forma adequada, em vez de guardar tudo para si.


Terapia familiar

A terapia familiar envolve os pais ou cuidadores no tratamento. Ela ajuda a:
– Melhorar a comunicação entre a criança e os pais.
– Ensinar os pais a lidar com os comportamentos desafiadores da criança.
– Fortalecer o vínculo afetivo.

Exemplo:
A mãe de Lucas participa de sessões de terapia familiar, onde aprende a lidar com os momentos em que Lucas se afasta ou tem crises de raiva. Ela também aprende a criar momentos de conexão com o filho.


Medicamentos

Não existe um medicamento específico para o TAR, mas alguns remédios podem ser usados para tratar sintomas associados, como:
Ansiedade: Se a criança tem muita ansiedade, o médico pode prescrever um ansiolítico leve.
Depressão: Se a criança está deprimida, o médico pode prescrever um antidepressivo.
Problemas de sono: Se a criança tem dificuldade para dormir, o médico pode prescrever um medicamento para regular o sono.

Importante:
Os medicamentos devem ser usados sempre com acompanhamento médico. Eles não “curam” o TAR, mas podem ajudar a aliviar alguns sintomas.


Mudanças no dia a dia

Além da terapia e dos medicamentos, algumas mudanças no dia a dia podem ajudar a criança com TAR a se desenvolver melhor.

Rotina estruturada

Crianças com TAR se sentem mais seguras quando têm uma rotina previsível. Alguns exemplos:
– Horários fixos para comer, dormir e brincar.
– Atividades diárias que a criança goste, como ler um livro ou brincar no parque.
– Momentos de conexão com os pais, como um abraço antes de dormir.

Exemplo:
A mãe de Lucas cria uma rotina para ele, com horários fixos para comer, dormir e brincar. Ela também reserva um momento do dia para ler um livro com ele, o que ajuda a fortalecer o vínculo entre os dois.


Alimentação saudável

Uma alimentação equilibrada ajuda o cérebro a se desenvolver melhor. Alguns alimentos que podem ajudar:
Peixes ricos em ômega-3: Como salmão e sardinha, que são bons para o cérebro.
Frutas e verduras: Ricas em vitaminas e minerais.
Grãos integrais: Como arroz integral e aveia, que dão energia.

Exemplo:
A mãe de Lucas inclui mais peixes e frutas na alimentação dele. Ela também evita alimentos industrializados, que podem piorar a ansiedade.


Exercício físico

O exercício físico ajuda a reduzir o estresse e a ansiedade. Alguns exemplos de atividades que podem ajudar:
Brincadeiras ao ar livre: Como correr, pular ou brincar no parque.
Dança: Que ajuda a criança a expressar as emoções.
Yoga ou alongamento: Que ajudam a relaxar.

Exemplo:
A mãe de Lucas leva ele para brincar no parque todos os dias. Ela também faz alongamentos com ele antes de dormir, o que ajuda a acalmá-lo.


Sono adequado

O sono é fundamental para o desenvolvimento do cérebro. Algumas dicas para melhorar o sono da criança:
Rotina de sono: Horário fixo para dormir e acordar.
Ambiente tranquilo: Quarto escuro, silencioso e sem distrações.
Rituais de relaxamento: Como ler um livro ou ouvir uma música calma antes de dormir.

Exemplo:
A mãe de Lucas cria uma rotina de sono para ele, com horário fixo para dormir. Ela também lê um livro com ele antes de dormir, o que ajuda a acalmá-lo.


Convivendo com o diagnóstico

Receber o diagnóstico de transtorno de apego reativo pode ser um alívio, porque finalmente há uma explicação para os comportamentos da criança. Mas também pode ser assustador, porque os pais podem se sentir culpados ou inseguros sobre como ajudar. Vamos ver como conviver com o diagnóstico, tanto para a criança quanto para os familiares.

Para a pessoa com o diagnóstico

Se você é uma criança ou adolescente com TAR, saiba que:
Você não é culpado: O TAR não é culpa sua. Você não escolheu não receber afeto nos primeiros anos de vida.
Você pode aprender a criar vínculos: Com tratamento, você pode aprender a confiar nas pessoas e a criar laços afetivos saudáveis.
Você não está sozinho: Muitas outras crianças passam pelo mesmo que você. Você pode encontrar apoio em grupos de terapia ou em comunidades online.

Dicas para lidar com os sintomas:
Fale sobre suas emoções: Mesmo que seja difícil, tente expressar o que você está sentindo. Pode ser com palavras, desenhos ou brincadeiras.
Busque conforto: Se você estiver triste ou assustado, tente buscar conforto em alguém de confiança, como um pai, uma mãe ou um terapeuta.
Seja paciente: Mudar padrões de comportamento leva tempo. Não desista se as coisas não melhorarem rápido.


Para familiares e amigos

Se você é pai, mãe, irmão, avô ou amigo de uma criança com TAR, saiba que:
Você não é culpado: O TAR não é culpa sua. Mesmo que você tenha passado por dificuldades, como depressão ou dependência química, isso não significa que você seja um “mau pai” ou uma “mãe ruim”.
Você pode fazer a diferença: Com paciência e amor, você pode ajudar a criança a desenvolver vínculos afetivos saudáveis.
Você também precisa de apoio: Cuidar de uma criança com TAR pode ser desafiador. Não hesite em buscar ajuda para você também.

Como ajudar de forma efetiva:
Seja consistente: Crianças com TAR precisam de rotina e previsibilidade. Tente manter horários fixos para comer, dormir e brincar.
Responda com sensibilidade: Mesmo que a criança não peça ajuda, responda às suas necessidades. Se ela chora, acalme-a. Se ela está triste, console-a.
Crie momentos de conexão: Reserve um tempo diário para fazer atividades que a criança goste, como brincar ou ler um livro.
Coloque limites com amor: Crianças com TAR precisam de limites claros, mas colocados de forma carinhosa. Por exemplo, se a criança bate, diga: “Eu sei que você está com raiva, mas não pode bater. Vamos conversar sobre o que você está sentindo.”

O que NÃO fazer:
Não force o contato físico: Se a criança não gosta de abraços ou beijos, respeite isso. Forçar o contato pode piorar a situação.
Não leve para o lado pessoal: Se a criança se afasta ou não demonstra afeto, não é porque ela não gosta de você. É porque ela ainda não aprendeu a confiar.
Não desista: Mudar padrões de comportamento leva tempo. Não espere resultados imediatos.

Como cuidar de si mesmo:
Busque apoio: Converse com outros pais de crianças com TAR. Você pode encontrar grupos de apoio online ou presenciais.
Reserve um tempo para você: Cuidar de uma criança com TAR pode ser exaustivo. Reserve um tempo para fazer coisas que você gosta, como ler um livro ou sair com amigos.
Não se culpe: Lembre-se de que você está fazendo o seu melhor. O TAR não é culpa sua.


Quando os sintomas podem piorar?

Os sintomas do TAR podem piorar em situações de estresse, como:
Mudanças na rotina: Como uma mudança de escola ou de casa.
Perda de um ente querido: Como a morte de um avô ou a separação dos pais.
Doenças ou hospitalizações: Que podem aumentar a ansiedade da criança.
Bullying ou rejeição: Que podem fazer a criança se sentir ainda mais isolada.

O que fazer nesses casos?
Mantenha a rotina: Tente manter os horários de comer, dormir e brincar, mesmo em situações de estresse.
Ofereça apoio emocional: Esteja presente para a criança, mesmo que ela não peça ajuda.
Busque ajuda profissional: Se os sintomas piorarem muito, converse com o terapeuta ou médico da criança.


Perguntas frequentes

1. O TAR tem cura?

O TAR não tem uma “cura” no sentido tradicional, mas muitas crianças conseguem desenvolver vínculos afetivos saudáveis com tratamento. O cérebro tem uma capacidade incrível de se adaptar e mudar, especialmente na infância. Com terapia, amor e paciência, a criança pode aprender a confiar nas pessoas e a criar laços afetivos.


2. Meu filho foi diagnosticado com TAR. Isso significa que eu sou um mau pai/mãe?

Não. O TAR não é culpa dos pais. Ele é causado por uma falta de cuidado afetivo nos primeiros anos de vida, que pode acontecer por diversos motivos, como depressão, dependência química, pobreza extrema ou abandono. Muitos pais que têm filhos com TAR são pessoas amorosas, mas que passaram por situações difíceis que os impediram de dar o afeto de que a criança precisava.


3. Como explicar o TAR para outras pessoas?

Você pode explicar o TAR de forma simples, como:
“O transtorno de apego reativo é uma dificuldade de criar laços afetivos que surge quando uma criança não recebeu o cuidado de que precisava nos primeiros anos de vida. Não é culpa da criança, nem dos pais. Com tratamento, a criança pode aprender a confiar nas pessoas e a criar vínculos saudáveis.”


4. Meu filho não busca conforto em ninguém. Isso é normal?

Não é normal uma criança nunca buscar conforto em ninguém, nem mesmo nos pais. Se uma criança de 2 anos cai e não chora, ou se um bebê de 1 ano não se acalma no colo da mãe, isso pode ser um sinal de TAR. No entanto, é importante lembrar que cada criança é única. Algumas crianças são mais independentes, mas ainda assim buscam conforto em momentos de estresse.


5. O TAR é a mesma coisa que autismo?

Não. O TAR e o autismo são transtornos diferentes. No autismo, a dificuldade de interação social vem de diferenças no desenvolvimento cerebral desde o nascimento. No TAR, a dificuldade vem de uma falta de cuidado afetivo nos primeiros anos de vida. Além disso, crianças com autismo podem ter outros sintomas, como movimentos repetitivos ou dificuldade de comunicação, que não estão presentes no TAR.


6. Como posso ajudar meu filho a criar vínculos afetivos?

Algumas dicas para ajudar seu filho a criar vínculos afetivos:
Seja consistente: Mantenha uma rotina previsível, com horários fixos para comer, dormir e brincar.
Responda com sensibilidade: Mesmo que a criança não peça ajuda, responda às suas necessidades. Se ela chora, acalme-a. Se ela está triste, console-a.
Crie momentos de conexão: Reserve um tempo diário para fazer atividades que a criança goste, como brincar ou ler um livro.
Coloque limites com amor: Crianças com TAR precisam de limites claros, mas colocados de forma carinhosa.


7. Meu filho foi adotado. Ele pode desenvolver TAR?

Sim. Crianças adotadas, especialmente aquelas que passaram por múltiplas trocas de cuidadores ou que foram criadas em orfanatos, têm um risco maior de desenvolver TAR. Isso acontece porque elas não tiveram a chance de criar vínculos afetivos seguros nos primeiros anos de vida. No entanto, com amor, paciência e tratamento, muitas crianças adotadas conseguem superar o TAR e desenvolver laços afetivos saudáveis.


8. O TAR pode afetar a vida adulta?

Sim. Se não for tratado, o TAR pode afetar a vida adulta de várias formas, como:
Dificuldade de criar relacionamentos íntimos: A pessoa pode ter dificuldade de confiar nos outros e de criar laços afetivos profundos.
Problemas emocionais: A pessoa pode desenvolver ansiedade, depressão ou outros transtornos mentais.
Dificuldade de lidar com o estresse: A pessoa pode ter dificuldade de lidar com situações estressantes, como perdas ou mudanças.

No entanto, com tratamento, muitas pessoas com TAR conseguem levar uma vida plena e feliz na idade adulta.


9. Como posso encontrar ajuda no SUS?

No SUS, você pode encontrar ajuda em:
CAPS Infantil (Centro de Atenção Psicossocial Infantil): Serviço especializado em saúde mental para crianças.
UBS (Unidade Básica de Saúde): O médico da UBS pode encaminhar a criança para um especialista.
Hospitais universitários: Alguns hospitais têm serviços de psiquiatria infantil.

Para encontrar o CAPS Infantil mais próximo, você pode ligar para o Disque Saúde (136) ou acessar o site do Ministério da Saúde.


10. O que fazer se meu filho tiver uma crise?

Se seu filho tiver uma crise, como uma birra ou um ataque de raiva, algumas dicas podem ajudar:
Mantenha a calma: Respire fundo e tente não reagir com raiva.
Ofereça apoio emocional: Diga frases como “Eu estou aqui com você” ou “Eu sei que você está com raiva, mas estou aqui para te ajudar”.
Não force o contato físico: Se a criança não quer abraço, respeite isso.
Espere a crise passar: Não tente conversar ou resolver o problema no meio da crise. Espere a criança se acalmar.


Quando procurar ajuda urgente

Em alguns casos, os sintomas do TAR podem ser tão graves que exigem ajuda urgente. Procure um serviço de emergência ou ligue para o SAMU (192) se a criança:

Sinais de alerta moderados (procure ajuda profissional o mais rápido possível):

  • Comportamento autodestrutivo: Como bater a cabeça na parede ou se machucar de propósito.
  • Recusa total de comida ou água: Por mais de 24 horas.
  • Isolamento extremo: A criança não interage com ninguém, nem mesmo com os pais, por dias.
  • Crises de raiva frequentes e intensas: Que colocam a criança ou outras pessoas em risco.

Sinais de alerta graves (procure ajuda imediatamente):

  • Tentativa de suicídio: Qualquer sinal de que a criança está pensando em se machucar.
  • Agressividade extrema: Que coloca a criança ou outras pessoas em risco físico.
  • Desmaios ou convulsões: Sem causa médica aparente.
  • Fala sobre morte ou desaparecimento: Como “Eu queria sumir” ou “Ninguém sentiria minha falta”.

Onde procurar ajuda:
SAMU (192): Para emergências médicas.
CAPS Infantil: Para crises emocionais.
CVV (188): Para apoio emocional (também atende crianças e adolescentes).
Hospital psiquiátrico infantil: Em casos graves.


Referências

  • Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022.
  • American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
  • Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
  • Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
  • Zeanah, C. H., & Gleason, M. M. Reactive Attachment Disorder: A Review for DSM-V. Washington, DC: American Psychiatric Association, 2010.
  • Boris, N. W., & Zeanah, C. H. Disturbances and disorders of attachment in early childhood. In: Handbook of Infant Mental Health (3rd ed.). New York: Guilford Press, 2009.

Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.

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