Definição e epidemiologia
O Transtorno Ciclotímico (TC) é conceptualizado como um distúrbio do humor crônico e flutuante, caracterizado por numerosos períodos de sintomas hipomaníacos e depressivos que não preenchem critérios para episódios hipomaníacos ou depressivos maiores completos. Nos sistemas classificatórios atuais, ocupa uma posição nosológica como um transtorno do humor bipolar e transtornos relacionados, sendo sintomaticamente uma forma leve ou atenuada do Transtorno Bipolar do Tipo II (TB-II). O DSM-5-TR define o TC como a presença, por pelo menos dois anos (um ano em crianças e adolescentes), de numerosos períodos com sintomas hipomaníacos e numerosos períodos com sintomas depressivos, sem que a pessoa tenha ficado sem esses sintomas por mais de dois meses. A CID-11 o classifica sob a categoria de Transtornos do Humor Bipolar e Relacionados, exigindo uma duração similar.
Epidemiologicamente, indivíduos com TC podem constituir de 3% a 5% de todos os pacientes psiquiátricos ambulatoriais. A prevalência na população geral é estimada em torno de 0,4% a 1%, com distribuição aproximadamente igual entre os sexos, embora mulheres possam buscar tratamento com maior frequência. O início é tipicamente insidioso, ocorrendo na adolescência ou no início da segunda década de vida. Muitos pacientes relatam ter sido crianças sensíveis, hiperativas ou mal-humoradas. Dados epidemiológicos específicos para o Brasil são escassos, mas a prevalência é presumivelmente similar, com a identificação muitas vezes ocorrendo em serviços de saúde mental como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). O curso é crônico e flutuante, com um risco significativo de progressão: cerca de um terço de todos os pacientes com TC desenvolve um transtorno do humor maior, mais frequentemente o TB-II. Fatores de risco incluem história familiar de transtorno bipolar, início precoce dos sintomas e presença de comorbidades psiquiátricas.
Etiopatogenia e neurobiologia
A etiopatogenia do TC é multifatorial, com forte evidência apontando para uma base biológica e genética que o vincula ao espectro bipolar. A preponderância de dados favorece a ideia de que ele seja, de fato, um transtorno do humor.
Fatores Genéticos: Cerca de 30% dos pacientes com TC têm história familiar positiva para Transtorno Bipolar do Tipo I (TB-I), uma taxa semelhante à observada no próprio TB-I. Linhagens familiares com TB-I frequentemente contêm gerações de pacientes com TB-I ligados por uma geração com TC, sugerindo um fenótipo atenuado ou uma expressão intermediária da vulnerabilidade genética. Esse padrão apoia o modelo do TC como uma forma subsindrômica ou prodrômica do espectro bipolar.
Fatores Neurobiológicos: Embora estudos específicos sobre TC sejam limitados, a resposta ao lítio e a outros estabilizadores do humor oferece suporte indireto à participação de vias neurobiológicas compartilhadas com o transtorno bipolar. Sistemas de neurotransmissão envolvidos na regulação do humor, como a dopamina (associada à motivação e recompensa, potencialmente hiperativa na hipomania), a serotonina (envolvida na modulação do humor e impulsividade) e a noradrenalina (ligada à energia e alerta), estão provavelmente desregulados. O sistema glutamatérgico e mecanismos de neuroplasticidade também são implicados no espectro bipolar mais amplo. Achados de neuroimagem em TC são raros, mas no espectro bipolar observam-se alterações em regiões como o córtex pré-frontal, amígdala e circuitos límbicos, relacionadas ao processamento emocional e controle inibitório.
Fatores Psicossociais: Teorias psicodinâmicas históricas postulavam que o desenvolvimento do TC se devia a traumas e fixações no estágio oral do desenvolvimento, resultando de relações objetais caóticas no início da vida. Freud via o estado ciclotímico como uma tentativa do ego de subjugar um superego severo. A hipomania era explicada como a liberação da depressão ao se livrar do peso de um superego excessivamente punitivo, com a negação como principal mecanismo de defesa. Embora essas teorias tenham valor histórico e psicoterapêutico, a concepção contemporânea, baseada em parte nas observações de Kraepelin e Schneider, integra o componente temperamental. Kraepelin descreveu a personalidade ciclotímica como uma das variantes de personalidade pré-mórbida, caracterizada pela alternância entre traços depressivos (sombrios) e maníacos (alegres e desinibidos). Fatores psicossociais, como estressores ambientais e estratégias de enfrentamento deficientes, atuam principalmente como moduladores do curso e do desfecho funcional, e não como causas primárias.
Quadro clínico
O quadro clínico do TC é marcado por uma instabilidade crônica do humor, com flutuações que podem parecer, para o observador externo, como parte da personalidade do indivíduo. Os sintomas são idênticos aos do TB-II, porém menos graves ou de duração mais curta.
Domínio do Humor e Afeto:
- Fase Hipomaníaca Atenuada: Períodos de humor elevado, expansivo ou irritável. O paciente relata ou demonstra aumento de energia, autoconfiança excessiva, loquacidade e envolvimento em atividades prazerosas com potencial para consequências negativas (ex.: compras impulsivas, indiscrições sexuais leves). A euforia é menos intensa e incapacitante que na mania.
- Fase Depressiva Atenuada: Períodos de humor deprimido, desânimo, anedonia leve, pessimismo e sentimentos de inadequação. A depressão não atinge a profundidade, a intensidade ou a duração de um episódio depressivo maior.
- Instabilidade e Irritabilidade: Quase todos os pacientes apresentam períodos de sintomas mistos, com irritabilidade acentuada e labilidade emocional como características centrais. As transições entre os polos podem ser rápidas e imprevisíveis.
Domínio Cognitivo:
- Na hipomania: pensamento mais rápido, criatividade aumentada, mas também distratibilidade e dificuldade de sustentar o foco.
- Na depressão: lentificação do pensamento, dificuldade de concentração, autocrítica exagerada.
- A percepção e o juízo de realidade permanecem intactos (não há sintomas psicóticos).
Domínio Comportamental e Psicomotor:
- Hipomania: aumento da atividade dirigida a objetivos (social, profissional, sexual), agitação psicomotora leve, redução da necessidade de sono sem fadiga subsequente.
- Depressão: redução da atividade, retraimento social, lentificação ou agitação psicomotora leve.
Especificadores e Curso:
Cerca de metade dos pacientes tem a depressão como sintoma principal, buscando ajuda nesses períodos. Outros têm predominância de sintomas hipomaníacos e raramente procuram tratamento espontaneamente. O curso é crônico e persistente, com os sintomas presentes na maioria dos dias por anos. O início na adolescência prejudica o desempenho escolar e a capacidade de estabelecer relações estáveis com colegas, frequentemente levando a um histórico de fracassos acadêmicos, profissionais e sociais acumulados. O DSM-5-TR não aplica especificadores de "episódio atual" ao TC, mas pode-se notar a predominância de características ansiosas, mistas ou de ciclagem rápida no padrão de oscilação.
Avaliação e diagnóstico
Entrevista Clínica e Anamnese:
A avaliação requer uma anamnese detalhada e longitudinal, frequentemente complementada por informações de familiares. Pontos-chave incluem:
- História do humor ao longo da vida, desde a adolescência.
- Padrão de oscilações: frequência, duração, intensidade e gatilhos percebidos.
- Impacto funcional nas esferas social, acadêmica, profissional e familiar.
- Histórico de resposta a antidepressivos (risco de virada ou aceleração do ciclo).
- História familiar detalhada de transtornos do humor, suicídio e abuso de substâncias.
Exame do Estado Mental:
Pode variar dependendo da fase no momento da consulta. Achados comuns incluem afeto lábil, irritável ou expansivo. O discurso pode ser pressionado nos períodos hipomaníacos ou empobrecido nos depressivos. O conteúdo do pensamento pode revelar otimismo irrealista ou autodepreciação. A cognição é geralmente intacta, mas a atenção pode flutuar. Não há evidências de sintomas psicóticos. A insight pode ser parcial, especialmente durante os períodos hipomaníacos.
Instrumentos de Avaliação:
Não existem escalas validadas especificamente para o TC no Brasil. Entretanto, instrumentos úteis para o espectro bipolar podem auxiliar:
- HCL-32 (Lista de Verificação de Hipomania de 32 itens): Para rastreamento de sintomas hipomaníacos ao longo da vida.
- Mood Disorder Questionnaire (MDQ): Para rastreamento de transtorno bipolar.
- Escalas de Avaliação de Funcionalidade: Como a FAST (Functional Assessment Short Test), para mensurar o impacto das oscilações.
Exames Complementares:
Não há exames laboratoriais ou de neuroimagem para diagnóstico. A investigação tem como objetivo excluir condições médicas (ex.: distúrbios tireoidianos, uso de substâncias) e estabelecer a linha de base para tratamento:
- Hemograma, perfil metabólico, função tireoidiana, perfil lipídico e glicêmico.
- Dosagem de vitamina B12, ácido fólico e hormônios, se clinicamente indicado.
- Eletroencefalograma ou neuroimagem apenas se houver suspeita de condição neurológica.
Diagnóstico Diferencial:
| Condição | Pontos de Diferenciação |
|---|---|
| Transtorno Bipolar II | Presença de pelo menos um Episódio Depressivo Maior e um Episódio Hipomaníaco completo (intensidade e duração). No TC, os sintomas são subsindrômicos. |
| Transtorno de Personalidade Borderline | A instabilidade afetiva no borderline é mais reativa a eventos interpessoais, com duração de horas a dias, e acompanhada por medo de abandono, identidade difusa e comportamentos autodestrutivos crônicos. No TC, as oscilações são mais rítmicas, menos reativas e ligadas a energia e atividade. |
| Transtorno de Personalidade Ciclotímica (CID-11) | Conceito mais amplo de traço de personalidade, não necessariamente um transtorno do humor com curso clínico definido. |
| Transtorno Depressivo Maior com Características Mistas | Episódio depressivo maior com características hipomaníacas sobrepostas, mas sem a história crônica de oscilações do TC. |
| Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) | A desatenção e a impulsividade são constantes, não cíclicas. A história de instabilidade do humor com euforia/expansividade é menos proeminente. |
| Abuso de Substâncias | As oscilações de humor são diretamente relacionadas à intoxicação ou abstinência. A história longitudinal prévia ao uso é fundamental. |
Armadilhas Diagnósticas e Comorbidades:
A principal armadilha é subdiagnosticar o TC como "personalidade difícil", "instabilidade emocional" ou diagnosticar erroneamente como Transtorno Depressivo Maior, iniciando antidepressivos isoladamente, o que pode piorar o curso. Comorbidades frequentes incluem transtornos de ansiedade, abuso de substâncias (como automedicação) e outros transtornos de personalidade (especialmente borderline).
Tratamento farmacológico
O tratamento farmacológico do TC segue princípios semelhantes aos do TB-II, com foco na estabilização do humor e na prevenção da progressão para um transtorno maior.
Algoritmo Terapêutico Baseado em Evidências:
A primeira linha de tratamento são os estabilizadores do humor.
- Primeira Escolha: Lítio. É o agente com mais dados históricos de eficácia no espectro ciclotímico. Dose-alvo: manter níveis séricos entre 0,6 e 0,8 mEq/L para manutenção. A titulação deve ser lenta, iniciando com 300 mg/dia e aumentando conforme tolerância e níveis séricos.
- Alternativas de Primeira Linha/Associação: Anticonvulsivantes estabilizadores do humor.
- Valproato de Sódio (Ácido Valproico): Dose inicial 250-500 mg/dia, dose-alvo 750-1500 mg/dia (níveis séricos: 50-100 µg/mL). Monitorar função hepática, hemograma e amilase.
- Lamotrigina: Particularmente útil se os sintomas depressivos forem predominantes. Titulação extremamente lenta para evitar rash cutâneo (ex.: 25 mg/dia por 2 semanas, depois 50 mg/dia por 2 semanas, aumentos de 50 mg a cada 1-2 semanas). Dose-alvo: 100-200 mg/dia.
- Carbamazepina/Oxcarbazepina: Podem ser consideradas, mas com menor evidência específica.
- Antipsicóticos de Segunda Geração (APSG): Utilizados quando há resposta insuficiente aos estabilizadores, presença de irritabilidade marcante ou sintomas mistos.
- Quetiapina (50-300 mg/dia), Aripiprazol (5-15 mg/dia), Olanzapina (2,5-10 mg/dia) são opções. Monitorar perfil metabólico (glicemia, lipídios, peso) e efeitos extrapiramidais.
Monitoramento e Efeitos Adversos:
- Lítio: Níveis séricos a cada 3-6 meses em manutenção, função renal (creatinina, TFG) e tireoide (TSH) anualmente. Efeitos adversos: poliúria, polidipsia, tremor, ganho de peso, hipotireoidismo, nefropatia.
- Valproato: Hemograma e função hepática no início e periodicamente. Risco de teratogenicidade (contraindicado em gestantes), ganho de peso, tremor, alopecia.
- Lamotrigina: Atenção ao rash cutâneo, que pode evoluir para Síndrome de Stevens-Johnson. Titulação lenta é mandatória.
- APSG: Monitorar peso, circunferência abdominal, glicemia de jejum, perfil lipídico e pressão arterial.
Situações Especiais:
- Gestação/Lactação: Planejamento é crucial. Lítio e valproato apresentam riscos teratogênicos. A lamotrigina tem perfil de risco mais favorável, mas requer monitoramento. A psicoterapia é fundamental. A decisão deve ser compartilhada e multidisciplinar.
- Idosos: Usar doses mais baixas, titulação mais lenta. Monitorar interações medicamentosas, função renal (lítio) e equilíbrio.
- Comorbidades Clínicas: Doença renal contraindicada lítio; doença hepática contraindicada valproato; obesidade/diabetes favorecem lamotrigina ou APSG com perfil metabólico mais neutro (ex.: aripiprazol, lurasidona).
Contexto Brasileiro: O RENAME (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais) do SUS disponibiliza lítio, carbamazepina e valproato. Lamotrigina e alguns APSG estão disponíveis em programas de assistência farmacêutica ou necessitam de aquisição via judicial/particular. A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) publica diretrizes que endossam o uso de estabilizadores do humor como primeira linha. O manejo no SUS/CAPS deve priorizar a psicoeducação e o acompanhamento longitudinal para garantir adesão.
Tratamento não farmacológico
O tratamento não farmacológico é componente essencial e, em casos muito leves e com bom insight, pode ser a intervenção inicial.
Psicoterapias:
- Psicoeducação: É a base. Envolve educar o paciente e a família sobre a natureza crônica do transtorno, a importância da regularidade do sono e das rotinas, o reconhecimento de pródromos e a adesão ao tratamento. Deve ser oferecida de forma contínua.
- Terapia Cognitivo-Comportamental para o Espectro Bipolar (TCC-B): Adaptada para focar no monitoramento do humor, na regulação de atividades, no enfrentamento de estressores que desestabilizam o humor e na reestruturação de crenças disfuncionais associadas aos polos depressivo e hipomaníaco.
- Terapia Focada na Família (TFF): Reconhecendo o impacto do TC nas dinâmicas familiares, essa terapia visa melhorar a comunicação, reduzir o estresse familiar e capacitar os familiares como aliados no tratamento.
- Terapia Interpessoal e de Ritmo Social (TIP/TRS): Foca na estabilização dos ritmos sociais diários (sono, refeições, atividades) e no manejo de problemas interpessoais que possam desencadear oscilações.
Intervenções Psicossociais e Reabilitação:
- Treinamento em Habilidades Sociais: Para reparar déficits decorrentes do início precoce e da instabilidade.
- Reabilitação Psiquiátrica: Foco na recuperação da funcionalidade em áreas como educação, trabalho e vida independente, muitas vezes prejudicadas pelo curso crônico.
- Grupos de Apoio: Para pacientes e familiares, oferecendo suporte mútuo e redução do estigma.
Procedimentos:
Não há indicação para Eletroconvulsoterapia (ECT), Estimulação Magnética Transcraniana (TMS) ou Estimulação do Nervo Vago no TC puro. Essas modalidades são reservadas para os transtornos do humor maiores (depressivo maior, bipolar I/II) que podem evoluir a partir do TC.
Manejo clínico prático
Tomada de Decisão:
- Quando iniciar tratamento farmacológico? Quando as oscilações causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo funcional em uma ou mais áreas da vida, ou quando há alto risco de progressão para TB-II (ex.: história familiar forte, ciclagem acelerada).
- Escolha do agente: Baseada no perfil sintomatológico (depressivo vs. hipomaníaco predominante), comorbidades clínicas, perfil de efeitos adversos e preferência do paciente. Lítio ou valproato são boas opções iniciais para padrão clássico; lamotrigina para depressão predominante.
- Combinação: É comum a necessidade de combinar dois estabilizadores (ex.: lítio + lamotrigina) ou um estabilizador com um APSG em baixa dose para controle ideal.
Monitoramento e Remissão:
- A meta não é a ausência total de oscilações, mas a redução da sua amplitude, frequência e impacto. A remissão é definida pela recuperação e manutenção da funcionalidade com sintomas mínimos e controláveis.
- Monitorar com escalas de humor (cartões diários de autoavaliação) e avaliação funcional periódica.
- Consultas regulares a cada 1-3 meses inicialmente, depois a cada 3-6 meses em manutenção.
Manejo da Resistência Terapêutica:
- Reavaliar diagnóstico e adesão.
- Investigar comorbidades (TDAH, abuso de substâncias, transtornos de personalidade) que possam interferir.
- Otimizar doses e considerar combinações.
- Intensificar intervenções psicossociais.
Contexto Brasileiro (SUS/CAPS):
O manejo no SUS deve aproveitar a estrutura multiprofissional dos CAPS. O médico psiquiatra coordena a farmacoterapia, enquanto a equipe (psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais) conduz grupos psicoeducativos, oficinas terapêuticas e suporte familiar. O acesso a medicamentos de segunda linha (lamotrigina, APSG) pode ser um desafio, exigindo articulação com a farmácia de alto custo do município/estado ou a via judicial. A ABP e o CFM (Conselho Federal de Medicina) oferecem diretrizes que podem ser usadas para embasar solicitações.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente:
Pacientes com TC frequentemente se percebem como "instáveis", "impulsivos" ou "imprevisíveis". Eles podem se descrever como tendo "altos e baixos" que parecem fazer parte de sua identidade. Durante os "altos", podem ser produtivos e sociais, mas depois se arrepender de decisões impulsivas. Nos "baixos", sentem-se inadequados e desmotivados. A irritabilidade constante pode danificar relacionamentos. Muitos chegam ao consultório com um histórico de diagnósticos errôneos e frustração por tratamentos anteriores não funcionarem.
Psicoeducação:
- Explicar o Diagnóstico: "Você tem uma condição chamada Transtorno Ciclotímico, que é uma forma mais leve, mas crônica, do transtorno bipolar. Seu cérebro tem uma tendência natural a oscilar entre estados de leve euforia/energia e leve depressão/desânimo."
- Desmistificar e Validar: Enfatizar que é uma condição médica real, com base biológica, não uma falha de caráter.
- Foco no Controle, não na Cura: Explicar que o tratamento visa "amortecer" as oscilações e dar mais controle sobre o humor e as decisões.
- Envolver a Família: Educar sobre os sintomas, evitar críticas durante as fases depressivas ou confrontos durante as hipomaníacas, e focar no apoio à rotina e ao tratamento.
Impacto Funcional e Qualidade de Vida:
O impacto é significativo e cumulativo. Dificuldade em manter empregos ou relacionamentos estáveis, instabilidade financeira por gastos impulsivos, e um sentimento de não ter atingido o potencial são comuns. A qualidade de vida é afetada pela imprevisibilidade emocional e pelas consequências das ações durante os ciclos.
Adesão ao Tratamento:
Barreiras incluem: falta de insight durante a hipomania ("estou bem, não preciso de remédio"), medo de perder a criatividade/energia dos "altos", efeitos adversos dos medicamentos e estigma. Estratégias: estabelecer uma forte aliança terapêutica, negociar metas realistas, gerenciar proativamente os efeitos adversos e usar contratos terapêuticos que envolvam o paciente e a família no plano de cuidado.
Perguntas frequentes
1. Transtorno Ciclotímico é o mesmo que bipolaridade?
Não exatamente. É considerado parte do espectro bipolar, mas é uma forma mais leve e crônica. Enquanto no Transtorno Bipolar II há episódios bem definidos de depressão maior e hipomania, no Ciclotímico os sintomas são mais atenuados, flutuantes e persistentes, sem períodos longos de humor totalmente normal.
2. O TC pode virar bipolar ao longo do tempo?
Sim. Estudos indicam que cerca de 30% a 50% dos pacientes com TC podem evoluir para um Transtorno do Humor Maior, mais comumente o Transtorno Bipolar II. O tratamento adequado pode reduzir esse risco.
3. É preciso tomar remédio a vida toda?
Geralmente sim. Por ser uma condição crônica de base biológica, o tratamento de manutenção é frequentemente necessário para manter a estabilidade e prevenir a progressão. Em alguns casos, após anos de estabilidade, pode-se discutir uma redução muito cautelosa da medicação, mas o risco de recaída é alto.
4. Antidepressivos sozinhos são indicados para o TC?
Não. O uso de antidepressivos isolados (sem um estabilizador do humor) é contraindicado, pois pode desencadear uma virada para um estado hipomaníaco ou maníaco, acelerar a ciclagem entre os polos e piorar o curso da doença.
5. Como diferenciar TC de "personalidade forte" ou instabilidade emocional comum?
A diferença está no padrão, na intensidade e no impacto. No TC, as oscilações seguem um padrão cíclico (polos depressivo e hipomaníaco), são persistentes (anos), causam sofrimento ou prejuízo significativo em áreas importantes da vida (trabalho, estudos, relacionamentos) e não são exclusivamente reativas a eventos externos.
6. Pessoas com TC são mais criativas?
Algumas pessoas relatam aumento da energia, fluência de ideias e produtividade durante os períodos hipomaníacos leves. No entanto, essa "criatividade" muitas vezes é desorganizada e não culmina em projetos finalizados. O tratamento visa preservar o equilíbrio, permitindo o funcionamento criativo sem as consequências negativas da impulsividade e da instabilidade.
7. O tratamento com estabilizadores vai "tirar minha energia" e me deixar "apagado"?
O objetivo do tratamento não é anestesiar as emoções, mas regular a instabilidade extrema. Um ajuste adequado da medicação deve permitir que o paciente experimente uma gama normal de emoções, mas com menor intensidade nas oscilações negativas (depressão) e nas positivas descontroladas (hipomania). Se houver sensação de embotamento, a dose ou o medicamento podem precisar de ajuste.
8. Meu filho adolescente foi diagnosticado com TC. O que fazer?
É crucial buscar um profissional especializado. O tratamento precoce é fundamental para proteger o desenvolvimento cerebral, o desempenho escolar e a formação da identidade. Envolva-se no tratamento, participe de psicoeducação familiar, ajude a estabelecer rotinas regulares de sono e atividades, e ofereça suporte emocional sem julgamento.
Referências
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. (Fonte primária para as citações sobre curso, epidemiologia, relação com bipolar II e aspectos psicodinâmicos).
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – Texto Revisado (DSM-5-TR). 5ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. Genebra: OMS, 2022.
- Yatham, L.N.; Kennedy, S.H.; Parikh, S.V. et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders (ISBD) 2018 guidelines for the management of patients with bipolar disorder. Bipolar Disord. 2018;20(2):97-170. (Para diretrizes terapêuticas atualizadas do espectro bipolar, aplicáveis ao TC).
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes para o Tratamento do Transtorno Bipolar. 2020 (ou versão mais recente). Disponível em: [Site da ABP].
- Fountoulakis, K.N. The contemporary face of bipolar disorder: The clinical and neurobiological underpinnings of functional recovery. Elsevier, 2022. (Para aspectos neurobiológicos e de curso).
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.