O que é?
Imagine que comer, algo que para a maioria das pessoas é um ato natural, prazeroso e até social, se torna uma verdadeira batalha diária. Para quem vive com o Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE), cada refeição pode ser uma fonte de ansiedade, medo ou até repulsa. Não se trata de uma simples “frescura” ou “manha” – é uma condição real, reconhecida pela medicina, que afeta profundamente a saúde física e emocional.
O TARE é como um filtro distorcido que a pessoa coloca entre ela e a comida. Esse filtro pode fazer com que alguns alimentos pareçam perigosos, nojentos ou simplesmente sem graça. Pode ser que a pessoa sinta um desinteresse total por comida, como se o corpo não desse os sinais normais de fome. Ou então, que ela evite certos alimentos por suas características sensoriais – como textura, cheiro ou cor – de uma forma muito mais intensa do que a maioria das pessoas. Em alguns casos, existe um medo real de engasgar, vomitar ou passar mal depois de comer.
É importante entender que o TARE não tem nada a ver com preocupação excessiva com peso ou imagem corporal, como acontece na anorexia ou bulimia. Também não é a mesma coisa que uma criança “chata para comer” ou um adulto que faz dieta por escolha. A diferença está na intensidade e nas consequências: no TARE, a restrição alimentar é tão severa que pode levar a problemas sérios de saúde, como desnutrição, perda de peso significativa (ou, em crianças, não ganhar o peso esperado), deficiências nutricionais e até dependência de suplementos ou alimentação por sonda.
Esse transtorno pode aparecer em qualquer idade, mas é mais comum ser identificado na infância ou adolescência. Estudos internacionais sugerem que afeta cerca de 3 a 5% das crianças, com uma distribuição semelhante entre meninos e meninas – ao contrário de outros transtornos alimentares, que costumam ser mais frequentes em mulheres. No Brasil, ainda não temos dados epidemiológicos específicos sobre o TARE, mas profissionais da área relatam um aumento nos diagnósticos nos últimos anos, possivelmente devido a uma maior conscientização sobre o transtorno.
Historicamente, o TARE era chamado de “transtorno da alimentação da primeira infância” e era visto como algo que a criança “superaria” com o tempo. Hoje sabemos que, sem tratamento adequado, ele pode persistir na vida adulta e causar danos significativos à saúde. A inclusão do TARE no DSM-5 (manual diagnóstico americano) em 2013 e na CID-11 (classificação internacional de doenças) foi um passo importante para reconhecer essa condição como um transtorno alimentar legítimo, que merece atenção e tratamento especializado.
Quais são os sintomas?
Para entender o TARE, precisamos olhar para quatro áreas principais onde os sintomas aparecem: o que a pessoa sente em relação à comida, como isso afeta seu corpo, como interfere na vida diária e o que não está acontecendo (ou seja, o que diferencia o TARE de outros problemas). Vamos traduzir cada critério diagnóstico para uma linguagem do dia a dia, com exemplos concretos.
1. A perturbação alimentar (o “filtro distorcido” da comida)
O TARE se manifesta de três formas principais, que podem aparecer isoladas ou combinadas:
a) Falta de interesse pela comida
Você pode perceber que a pessoa:
– Não demonstra fome ou esquece de comer, como se a comida não fosse uma prioridade
– Precisa ser lembrada várias vezes para se sentar à mesa
– Come muito devagar, mastigando pouco, como se estivesse “obrigada”
– Diz coisas como “Não estou com fome” ou “Comer é uma perda de tempo” com frequência
É como se o “alarme da fome” da pessoa estivesse com o volume muito baixo ou desligado. Enquanto a maioria de nós sente aquele “ronco no estômago” ou a boca salivando quando vê uma comida gostosa, quem tem TARE pode simplesmente não sentir esses sinais. No dia a dia, isso aparece quando a pessoa pula refeições sem perceber, ou quando precisa de um esforço enorme para comer algo, mesmo que seja seu prato favorito.
b) Esquiva baseada nas características sensoriais dos alimentos
Aqui, a pessoa evita certos alimentos por como eles são – não pelo gosto, mas por textura, cheiro, cor ou temperatura. Exemplos:
– Recusa alimentos crocantes (como cenoura crua ou torradas) porque o barulho da mastigação incomoda
– Não come nada vermelho (como tomate ou melancia) porque a cor lembra sangue
– Rejeita alimentos moles (como purê ou iogurte) porque a textura parece “nojenta”
– Só come alimentos em temperatura ambiente, recusando qualquer coisa quente ou fria
Imagine que seus sentidos estão com o “volume no máximo”. O que para a maioria das pessoas é uma textura normal (como a cremosidade de um abacate), para quem tem TARE pode ser insuportável, como se estivesse comendo algo viscoso ou grudento. No dia a dia, isso aparece quando a pessoa tem uma lista muito pequena de alimentos que aceita comer, ou quando reage com náusea ou choro ao ser apresentada a um alimento novo.
c) Preocupação com consequências aversivas da alimentação
Neste caso, a pessoa tem medo real de que algo ruim aconteça se ela comer. Exemplos:
– Medo de engasgar, mesmo com alimentos macios
– Pavor de vomitar depois de comer
– Ansiedade de ter uma reação alérgica (mesmo sem histórico de alergias)
– Crença de que certos alimentos vão “fazer mal” de alguma forma vaga
É como se o cérebro estivesse constantemente alertando: “Cuidado, isso é perigoso!”. No dia a dia, isso aparece quando a pessoa examina cada alimento minuciosamente antes de comer, ou quando evita situações sociais que envolvam comida por medo de passar mal. Em casos mais graves, pode levar a rituais como cortar a comida em pedaços minúsculos ou mastigar cada bocado um número exato de vezes.
2. As consequências físicas (o que acontece com o corpo)
Para o diagnóstico de TARE, a perturbação alimentar precisa causar pelo menos um destes problemas:
a) Perda de peso significativa ou falha em ganhar peso esperado
– Em adultos: perder muito peso sem estar de dieta (por exemplo, perder 10% do peso corporal em alguns meses)
– Em crianças: não ganhar o peso ou altura esperados para a idade, ficando abaixo da curva de crescimento
– Em adolescentes: parar de crescer ou não ter o “estirão” esperado na puberdade
No dia a dia, isso aparece quando as roupas ficam muito largas, quando a pessoa parece mais magra do que o normal para sua idade, ou quando crianças param de crescer como seus colegas. É diferente de uma pessoa que emagrece porque está fazendo exercícios – no TARE, a perda de peso acontece sem intenção, por causa da alimentação insuficiente.
b) Deficiência nutricional significativa
– Falta de vitaminas ou minerais essenciais, como ferro (causando anemia), vitamina D (afetando ossos e humor) ou zinco (prejudicando o paladar)
– Sintomas como cansaço extremo, queda de cabelo, unhas fracas, feridas que demoram a cicatrizar
– Em crianças: atraso no desenvolvimento motor ou cognitivo
Você pode perceber que a pessoa está sempre cansada, mesmo depois de dormir bem, ou que fica doente com frequência. É como se o corpo estivesse funcionando no “modo economia”, priorizando apenas as funções vitais e deixando de lado coisas como crescimento, imunidade e energia.
c) Dependência de suplementos ou alimentação enteral
– Necessidade de tomar shakes nutricionais diariamente para completar as necessidades calóricas
– Uso de vitaminas em doses altas para compensar a alimentação pobre
– Em casos graves: necessidade de alimentação por sonda (através do nariz ou diretamente no estômago)
No dia a dia, isso aparece quando a pessoa não consegue mais passar um dia sem seus suplementos, ou quando a família precisa preparar refeições especiais (como papinhas para adultos). É um sinal de que o corpo não está recebendo o que precisa apenas com a alimentação normal.
d) Interferência marcante no funcionamento psicossocial
– Dificuldade em participar de atividades sociais que envolvam comida (aniversários, festas, reuniões de trabalho)
– Isolamento por vergonha de comer na frente dos outros
– Problemas na escola ou trabalho por falta de energia ou dificuldade de concentração
– Conflitos familiares constantes por causa da alimentação
É como se a comida se tornasse o centro de todos os problemas. No dia a dia, isso aparece quando a pessoa inventa desculpas para não ir a eventos sociais, ou quando as refeições em família se transformam em brigas constantes. Em crianças, pode levar a birras extremas na hora de comer ou recusa em ir à escola.
O que NÃO é TARE (e o que pode ser confundido)
Ter alguns desses sintomas isoladamente não significa ter TARE. Por exemplo:
– Uma criança que faz birra para comer brócolis, mas come bem o resto, provavelmente não tem TARE
– Um adulto que está de dieta por escolha e mantém seu peso não tem TARE
– Alguém que evita certos alimentos por alergia ou intolerância (como glúten ou lactose) não tem TARE
– Uma pessoa que perdeu o apetite por causa de uma gripe ou estresse passageiro não tem TARE
Para o diagnóstico, é preciso que:
1. Os sintomas estejam presentes por um tempo significativo (geralmente meses)
2. A alimentação restrita cause problemas reais na saúde ou na vida da pessoa
3. Não seja explicado por outra condição (como anorexia, autismo ou uma doença física)
Como se manifesta no dia a dia?
O TARE não afeta apenas a hora das refeições – ele se infiltra em todos os aspectos da vida, como uma sombra que acompanha a pessoa o tempo todo. Vamos ver como isso acontece em diferentes áreas.
No trabalho ou na escola
Imagine tentar se concentrar em uma reunião importante ou em uma prova quando seu estômago está roncando, mas você simplesmente não sente fome – ou pior, quando a simples ideia de comer algo durante o intervalo te deixa ansioso. Para quem tem TARE, o ambiente profissional ou escolar pode se tornar um campo minado.
Dificuldades comuns:
– Falta de energia: Sem os nutrientes necessários, o corpo funciona no “modo economia”. Isso pode se manifestar como dificuldade de concentração, sonolência durante o dia ou lentidão para realizar tarefas. É como tentar trabalhar com o celular na bateria fraca – você até consegue fazer algumas coisas, mas não rende como deveria.
– Problemas de memória: Deficiências nutricionais, especialmente de vitaminas do complexo B e ferro, podem afetar a memória e o aprendizado. Uma pessoa com TARE pode esquecer compromissos importantes, ter dificuldade para lembrar instruções ou parecer “desligada” durante conversas.
– Ansiedade em situações sociais: Reuniões de trabalho com coffee break, almoços com colegas ou festas de fim de ano podem se tornar fontes de estresse intenso. A pessoa pode inventar desculpas para não participar ou passar o evento inteiro tentando disfarçar que não está comendo.
– Dificuldade em viagens ou eventos: Cursos, congressos ou viagens a trabalho que envolvam refeições fora de casa podem ser particularmente desafiadores. A pessoa pode evitar oportunidades profissionais por medo de não conseguir se alimentar adequadamente.
Exemplo concreto:
João, 28 anos, analista de sistemas, foi diagnosticado com TARE na adolescência. No trabalho, ele:
– Leva sua própria comida de casa (sempre a mesma: arroz, frango desfiado e batata cozida)
– Evita happy hours e almoços com a equipe
– Tem dificuldade para se concentrar à tarde, muitas vezes cochilando na frente do computador
– Recusa promoções que envolvam mais viagens, por medo de não conseguir se alimentar fora de casa
Nos relacionamentos
Os relacionamentos são profundamente afetados pelo TARE, tanto pela pessoa que tem o transtorno quanto por seus familiares e amigos. A comida é um elemento central em muitas interações sociais, e quando ela se torna um problema, pode gerar conflitos, mal-entendidos e isolamento.
Na família:
– Refeições em família: O que deveria ser um momento de união se transforma em uma fonte de estresse. Pais podem se sentir frustrados ou culpados por não conseguir fazer seus filhos comerem. Irmãos podem sentir ciúmes da atenção extra que a criança com TARE recebe.
– Conflitos constantes: Discussões na hora das refeições são comuns. Frases como “Só mais uma colher!” ou “Você não vai sair da mesa até terminar!” podem se tornar rotina, criando um ambiente tenso.
– Preocupação excessiva: Familiares podem ficar hipervigilantes, monitorando cada garfada ou tentando “enganar” a pessoa para que coma mais. Isso pode levar a um ciclo de desconfiança e ressentimento.
– Impacto nos pais: Mães e pais de crianças com TARE frequentemente relatam altos níveis de estresse, ansiedade e até depressão. Podem se sentir julgados por outros familiares ou profissionais (“Você está mimando demais seu filho!”).
Exemplo concreto:
A família de Lucas, 10 anos, enfrenta desafios diários:
– As refeições duram mais de uma hora, com Lucas chorando e se recusando a comer
– Os pais já tentaram de tudo: chantagem (“Se comer, ganha sobremesa”), ameaças (“Não vai brincar!”) e até suborno (“Te dou R$5 por cada colher”)
– A irmã mais nova, de 7 anos, começou a imitar o comportamento de Lucas, recusando alimentos que antes gostava
– Os pais evitam convidar amigos para jantar, com vergonha da situação
– A mãe deixou de trabalhar para se dedicar exclusivamente a tentar fazer Lucas comer
Com amigos:
– Isolamento social: A pessoa com TARE pode evitar encontros que envolvam comida, como churrascos, pizzas ou happy hours. Com o tempo, os convites diminuem, e ela pode se sentir excluída.
– Mal-entendidos: Amigos podem interpretar a recusa em comer como desinteresse pela companhia ou até como uma ofensa pessoal (“Você não gosta da minha comida?”).
– Pressão social: Em culturas onde a comida é um símbolo de afeto (como no Brasil), recusar um prato pode ser visto como grosseria. A pessoa com TARE pode se sentir julgada ou forçada a comer algo que não quer.
– Dificuldade em relacionamentos românticos: Encontros que envolvem jantares ou cafés podem ser particularmente estressantes. A pessoa pode evitar situações íntimas por medo de ser observada comendo.
Exemplo concreto:
Mariana, 22 anos, estudante universitária, relata:
– Evita sair com amigos para não ter que explicar por que não come
– Quando sai, pede apenas uma bebida e finge que já comeu
– Seu namorado fica frustrado porque ela nunca quer ir a restaurantes
– Já perdeu amizades por cancelar encontros de última hora (“Desculpa, estou com dor de cabeça”)
– Sente que está perdendo a melhor parte da vida universitária por causa da comida
Na rotina diária
O TARE transforma tarefas simples em desafios. Coisas que a maioria das pessoas faz sem pensar – como fazer compras no supermercado ou decidir o que comer – se tornam fontes de ansiedade.
Alimentação:
– Lista de alimentos restrita: A pessoa pode comer apenas 5 ou 10 alimentos diferentes, todos com características específicas (por exemplo, só alimentos brancos e macios).
– Rituais na hora de comer: Alguns precisam cortar a comida em pedaços minúsculos, mastigar um número exato de vezes ou separar os alimentos no prato de uma forma específica.
– Medo de experimentar coisas novas: A ideia de provar um alimento desconhecido pode causar pânico. Mesmo alimentos que a pessoa já comeu antes podem ser rejeitados se estiverem preparados de forma diferente.
– Dificuldade em cozinhar: Para quem tem TARE baseado em características sensoriais, o cheiro ou a textura dos alimentos durante o preparo pode ser insuportável.
Exemplo concreto:
Rafael, 35 anos, tem TARE desde a infância. Sua rotina alimentar inclui:
– Café da manhã: sempre o mesmo – uma fatia de pão de forma branco com manteiga e um copo de leite morno
– Almoço: arroz branco, frango desfiado (sem tempero forte) e batata cozida
– Jantar: repetição do almoço ou um iogurte natural
– Ele não come nada cru (nem salada), nada com grãos (como arroz integral) e nada com molhos
– Compra sempre os mesmos alimentos, no mesmo supermercado, na mesma marca
– Não consegue cozinhar porque o cheiro da comida o deixa enjoado
Sono:
– Dificuldade para dormir: A ansiedade relacionada à comida pode manter a pessoa acordada à noite, especialmente se ela sabe que terá que enfrentar uma refeição no dia seguinte.
– Sono fragmentado: Deficiências nutricionais, como falta de magnésio ou vitamina B, podem causar insônia ou sono não reparador.
– Sonambulismo ou pesadelos: Em crianças, o estresse relacionado à alimentação pode se manifestar em distúrbios do sono.
Autocuidado:
– Banho e higiene: Em casos graves, a pessoa pode negligenciar a higiene pessoal por falta de energia ou por considerar outras atividades (como comer) mais importantes.
– Roupas: Pode haver dificuldade em perceber quando as roupas estão largas demais por causa da perda de peso.
– Exercício físico: A falta de energia pode levar a um estilo de vida sedentário, piorando ainda mais a saúde física.
Lazer:
– Atividades que envolvem comida: Ir ao cinema (e não conseguir comer pipoca), viajar (e não encontrar alimentos seguros) ou praticar esportes (e não ter energia) podem se tornar experiências frustrantes.
– Hobbies abandonados: A pessoa pode deixar de lado atividades que antes gostava por falta de energia ou por priorizar a “batalha” diária com a comida.
– Dificuldade em relaxar: A ansiedade constante em relação à alimentação pode tornar difícil desfrutar de momentos de lazer.
Na saúde física
O corpo é como uma máquina que precisa de combustível de qualidade para funcionar bem. Quando esse combustível é insuficiente ou desbalanceado, vários sistemas começam a falhar.
Sinais comuns:
– Cansaço constante: Mesmo depois de uma noite de sono, a pessoa acorda cansada. Atividades simples, como subir escadas, podem parecer exaustivas.
– Problemas digestivos: Constipação (por falta de fibras), diarreia (por intolerâncias desenvolvidas) ou refluxo (por estresse) são comuns.
– Queda de cabelo e unhas fracas: Sinais de deficiência de proteínas, ferro e zinco.
– Pele seca e feridas que demoram a cicatrizar: Falta de vitaminas A, C e E.
– Tonturas e desmaios: Hipoglicemia (baixo nível de açúcar no sangue) ou anemia.
– Problemas dentários: Cáries (por falta de cálcio) ou erosão do esmalte (em casos de refluxo).
– Sistema imunológico fraco: A pessoa fica doente com frequência, pegando gripes e resfriados que demoram a passar.
Em crianças:
– Atraso no desenvolvimento: Crianças com TARE podem demorar mais para andar, falar ou desenvolver habilidades motoras.
– Puberdade tardia: Meninas podem ter a primeira menstruação mais tarde, e meninos podem demorar a desenvolver características sexuais secundárias.
– Problemas de crescimento: Ficar abaixo da curva de crescimento esperada para a idade.
Exemplo concreto:
Clara, 16 anos, foi diagnosticada com TARE aos 12. Seus pais notaram:
– Ela parou de crescer (está com a mesma altura desde os 13 anos)
– Sua menstruação, que começou aos 14, parou há um ano
– Ela tem anemia e precisa tomar suplementos de ferro
– Seu cabelo está caindo e suas unhas quebram com facilidade
– Ela se cansa facilmente nas aulas de educação física
– Tem dificuldade para se concentrar nos estudos
– Sofre bullying na escola por ser muito magra
O que causa essa condição?
Entender as causas do TARE é como montar um quebra-cabeça complexo: cada peça representa um fator diferente, e a imagem final varia de pessoa para pessoa. Não existe uma única causa – é sempre uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Vamos explorar cada uma dessas peças.
Fatores genéticos: “A semente e o solo”
Imagine que nosso corpo é como uma planta. Os genes são as sementes – eles determinam características básicas, como a cor das flores ou a altura máxima que a planta pode atingir. Mas para que a planta cresça saudável, ela precisa do solo certo, da quantidade adequada de água e de luz solar.
No TARE, estudos sugerem que existe uma predisposição genética – ou seja, algumas pessoas nascem com uma “semente” mais propensa a desenvolver o transtorno. Isso não significa que o TARE seja inevitável, mas que essas pessoas podem ser mais sensíveis a certos gatilhos ambientais.
O que a ciência diz:
– Crianças cujos pais têm transtornos alimentares ou de ansiedade têm maior probabilidade de desenvolver TARE
– Gêmeos idênticos (que compartilham 100% dos genes) têm mais chance de ambos desenvolverem TARE do que gêmeos fraternos (que compartilham 50% dos genes)
– Alguns genes relacionados à regulação do apetite e à sensibilidade sensorial podem estar envolvidos
Exemplo concreto:
A família de Pedro, 8 anos, tem um histórico interessante:
– A mãe de Pedro sempre foi “chata para comer” na infância e ainda hoje tem uma lista restrita de alimentos que aceita
– O pai de Pedro tem transtorno de ansiedade generalizada
– O irmão mais velho de Pedro foi diagnosticado com autismo leve
– Pedro desenvolveu TARE após um episódio de intoxicação alimentar aos 5 anos
Fatores neurobiológicos: “O cérebro com fio desencapado”
Nosso cérebro é como um painel de controle complexo, com diferentes áreas responsáveis por regular a fome, o prazer, o medo e as sensações. No TARE, algumas dessas “ligações” podem estar funcionando de forma diferente.
Áreas do cérebro envolvidas:
1. Hipotálamo: É o “termostato” da fome. Em algumas pessoas com TARE, ele pode não enviar os sinais corretos de fome e saciedade.
2. Amígdala: Responsável pelo processamento do medo. Pode estar hiperativa, fazendo com que a pessoa associe comida a perigo.
3. Córtex insular: Processa as sensações do corpo, incluindo gosto e textura. Pode ser hipersensível, fazendo com que certas texturas ou sabores sejam percebidos como aversivos.
4. Sistema de recompensa: Normalmente, comer é prazeroso. No TARE, esse sistema pode não ser ativado corretamente, fazendo com que a comida não seja atraente.
Neurotransmissores:
– Serotonina: Regula o humor e o apetite. Níveis baixos podem diminuir o interesse por comida.
– Dopamina: Envolvida na motivação e no prazer. Alterações podem fazer com que a pessoa não sinta prazer em comer.
– GABA: Um neurotransmissor calmante. Níveis alterados podem aumentar a ansiedade relacionada à comida.
Exemplo concreto:
Quando Ana, 12 anos, vê um prato de macarrão com molho vermelho, seu cérebro reage assim:
1. Seus olhos enviam a imagem para o córtex visual, que reconhece o alimento
2. A amígdala, hiperativa, dispara um sinal de alerta: “Cuidado! Isso pode ser perigoso!”
3. O córtex insular processa a textura imaginada do molho e envia uma sensação de repulsa
4. O hipotálamo não envia o sinal de fome, mesmo que Ana não tenha comido nada o dia todo
5. O sistema de recompensa não é ativado – não há antecipação de prazer
Resultado: Ana recusa o prato, mesmo que esteja com fome.
Fatores ambientais: “O que acontece fora molda o que acontece dentro”
O ambiente em que vivemos – desde a barriga da mãe até a vida adulta – pode ser um gatilho importante para o TARE. Vamos pensar nisso como uma série de “camadas” que vão se sobrepondo.
Durante a gestação:
– Nutrição da mãe: Uma dieta pobre durante a gravidez pode afetar o desenvolvimento do cérebro do bebê, incluindo áreas relacionadas ao apetite e à sensibilidade sensorial.
– Estresse materno: Altos níveis de cortisol (hormônio do estresse) na mãe podem alterar a programação do cérebro do bebê, tornando-o mais propenso a transtornos de ansiedade.
– Exposição a toxinas: Alguns estudos sugerem que a exposição a certos químicos durante a gestação pode aumentar o risco de transtornos alimentares.
Primeira infância:
– Amamentação: Bebês amamentados no peito são expostos a uma variedade maior de sabores (através do leite materno) do que bebês alimentados com fórmula. Isso pode influenciar a aceitação de alimentos mais tarde.
– Introdução alimentar: A forma como os alimentos são introduzidos (texturas, variedade, pressão para comer) pode afetar as preferências alimentares da criança.
– Experiências traumáticas: Engasgos, vômitos ou reações alérgicas na primeira infância podem criar associações negativas com a comida.
Infância e adolescência:
– Pressão para comer: Pais que forçam a criança a comer (“Acaba tudo!”, “Se não comer, não vai brincar!”) podem aumentar a ansiedade em relação à comida.
– Modelagem parental: Crianças aprendem observando. Se os pais têm uma relação complicada com a comida, os filhos podem imitar esse comportamento.
– Bullying: Comentários sobre peso ou hábitos alimentares podem desencadear ou piorar o TARE.
– Eventos estressantes: Mudanças de escola, divórcio dos pais ou abuso podem ser gatilhos.
Vida adulta:
– Estresse crônico: Situações de estresse prolongado (como um trabalho exigente ou problemas financeiros) podem alterar o apetite e as preferências alimentares.
– Traumas: Experiências como assaltos, acidentes ou abuso podem se manifestar como TARE.
– Dietas restritivas: Dietas muito rígidas podem desencadear padrões alimentares disfuncionais.
– Exposição a toxinas: Alguns estudos sugerem que a exposição a certos pesticidas ou aditivos alimentares pode afetar o apetite e as preferências.
Exemplo concreto:
A história de Lucas, 6 anos, ilustra como vários fatores ambientais podem se combinar:
– Sua mãe teve uma gravidez estressante (perdeu o emprego no primeiro trimestre)
– Lucas nasceu prematuro e passou os primeiros meses no hospital, onde foi alimentado por sonda
– Quando começou a comer sólidos, teve uma reação alérgica grave a amendoim
– Seus pais, ansiosos, começaram a pressioná-lo para comer (“Você precisa comer para crescer!”)
– Na escola, algumas crianças zombavam dele por levar sempre o mesmo lanche
– Aos 4 anos, engasgou com um pedaço de maçã e precisou de atendimento médico
Resultado: Lucas desenvolveu TARE, com medo de engasgar e uma lista muito restrita de alimentos seguros.
Modelo biopsicossocial: “A tempestade perfeita”
O modelo biopsicossocial é como uma receita onde todos os ingredientes são importantes. Para o TARE se desenvolver, geralmente é preciso uma combinação de:
- Fatores biológicos (a semente): Predisposição genética, alterações neuroquímicas, sensibilidade sensorial aumentada
- Fatores psicológicos (o terreno): Ansiedade, traumas, dificuldade em lidar com mudanças, perfeccionismo
- Fatores sociais (o clima): Pressão familiar, bullying, cultura da dieta, acesso limitado a alimentos variados
É como se cada fator fosse uma nuvem carregada. Sozinhas, elas podem não causar uma tempestade. Mas quando várias delas se juntam, o resultado pode ser o TARE.
Exemplo concreto:
Vamos ver como esses fatores se combinaram no caso de Sofia, 14 anos:
– Biológico: Sofia tem uma sensibilidade sensorial aumentada (seu cérebro processa texturas e sabores de forma mais intensa). Ela também tem histórico familiar de transtornos de ansiedade.
– Psicológico: Sofia é perfeccionista e tem dificuldade em lidar com mudanças. Quando sua escola mudou o horário do recreio, ela ficou muito ansiosa.
– Social: Na nova escola, algumas meninas começaram a fazer comentários sobre seu peso (“Você é muito magrinha, parece doente”). Sua mãe, preocupada, começou a pressioná-la para comer mais.
Resultado: Sofia desenvolveu TARE, restringindo sua alimentação a poucos alimentos “seguros” e evitando situações sociais que envolvessem comida.
Mitos e verdades sobre as causas do TARE
❌ Mito: “TARE é frescura ou manha. A pessoa só precisa ser mais firme.”
✅ Verdade: TARE é um transtorno mental reconhecido, com bases biológicas e psicológicas. Não é uma escolha ou falta de disciplina. Assim como não podemos “escolher” ter diabetes, uma pessoa com TARE não pode simplesmente “decidir” comer normalmente.
❌ Mito: “TARE é causado por pais que mimam demais seus filhos.”
✅ Verdade: Embora a dinâmica familiar possa influenciar o transtorno, não é a causa principal. Pais de crianças com TARE frequentemente relatam altos níveis de estresse e culpa, mas estudos mostram que o transtorno tem raízes mais complexas, incluindo fatores genéticos e neurobiológicos.
❌ Mito: “TARE só acontece em crianças. Adultos que têm isso são apenas chatos para comer.”
✅ Verdade: Embora o TARE seja mais comum em crianças, ele pode persistir na vida adulta ou até aparecer pela primeira vez na idade adulta. Adultos com TARE frequentemente sofrem em silêncio, evitando situações sociais e escondendo seus hábitos alimentares.
❌ Mito: “TARE é a mesma coisa que anorexia, só que menos grave.”
✅ Verdade: TARE e anorexia são transtornos diferentes. Na anorexia, a restrição alimentar está ligada a uma preocupação excessiva com peso e imagem corporal. No TARE, a restrição não tem relação com peso – pode ser por falta de interesse, sensibilidade sensorial ou medo de consequências aversivas (como engasgar).
❌ Mito: “Se a pessoa experimentar mais alimentos, ela vai superar o TARE.”
✅ Verdade: Embora a exposição gradual a novos alimentos seja parte do tratamento, forçar a pessoa a comer pode piorar a ansiedade e reforçar o comportamento evitativo. O tratamento do TARE requer uma abordagem cuidadosa e gradual, geralmente com acompanhamento profissional.
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico de TARE pode ser um alívio para muitas pessoas – finalmente há um nome para o que elas estão vivendo, e um caminho para o tratamento. Mas o processo até chegar a esse diagnóstico nem sempre é simples. Vamos entender passo a passo como ele acontece.
O caminho até o diagnóstico
1. Os primeiros sinais:
Geralmente, são os pais ou cuidadores que notam algo diferente na alimentação da criança. Em adultos, pode ser a própria pessoa ou alguém próximo. Os sinais mais comuns são:
– Recusa persistente em comer certos alimentos ou grupos de alimentos
– Lista muito restrita de alimentos aceitos
– Reações intensas (choro, náusea, ansiedade) na hora das refeições
– Perda de peso ou não ganho de peso esperado
– Queixas frequentes de cansaço ou doenças
2. A primeira consulta:
Muitas famílias começam levando a criança ao pediatra. Em adultos, a primeira consulta pode ser com um clínico geral. O médico geralmente:
– Pergunta sobre os hábitos alimentares (o que a pessoa come, com que frequência, em que situações)
– Investiga o histórico médico (doenças prévias, alergias, problemas digestivos)
– Faz um exame físico (medindo peso, altura, pressão arterial, etc.)
– Pode pedir exames de sangue para verificar deficiências nutricionais
3. A suspeita de TARE:
Se o médico suspeitar de TARE, ele provavelmente:
– Perguntará sobre o desenvolvimento da pessoa (quando começou a andar, falar, etc.)
– Investigará se há histórico de transtornos de ansiedade ou alimentares na família
– Tentará descartar outras condições que podem causar sintomas semelhantes (como alergias, doenças digestivas ou transtornos do espectro autista)
– Pode encaminhar para um especialista (psiquiatra, nutricionista ou terapeuta especializado em transtornos alimentares)
4. A avaliação especializada:
O diagnóstico definitivo de TARE geralmente é feito por um psiquiatra ou psicólogo especializado em transtornos alimentares. Essa avaliação inclui:
– Entrevista clínica: Uma conversa detalhada sobre os hábitos alimentares, histórico médico e impacto na vida da pessoa
– Questionários: Ferramentas padronizadas que ajudam a avaliar a gravidade dos sintomas
– Avaliação nutricional: Feita por um nutricionista, para verificar deficiências e planejar a recuperação
– Observação direta: Em alguns casos, o profissional pode observar a pessoa durante uma refeição para entender melhor seus comportamentos
5. O diagnóstico diferencial:
Um dos passos mais importantes é descartar outras condições que podem causar sintomas semelhantes. O médico precisa diferenciar o TARE de:
- Anorexia nervosa: Na anorexia, a restrição alimentar está ligada a uma preocupação excessiva com peso e imagem corporal. No TARE, não há essa preocupação.
- Transtorno do espectro autista (TEA): Algumas pessoas com TEA têm sensibilidades sensoriais que afetam a alimentação. A diferença é que no TEA, essas sensibilidades fazem parte de um padrão mais amplo de comportamentos.
- Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC): No TOC, a pessoa pode evitar certos alimentos por medo de contaminação ou rituais. No TARE, a evitação está mais ligada a características sensoriais ou falta de interesse.
- Doenças digestivas: Condições como doença de refluxo gastroesofágico (DRGE), síndrome do intestino irritável ou alergias alimentares podem causar aversão a certos alimentos.
- Depressão: Na depressão, pode haver perda de apetite, mas geralmente acompanhada de outros sintomas como tristeza profunda e perda de interesse em atividades.
6. O tempo até o diagnóstico:
Infelizmente, o diagnóstico de TARE nem sempre é rápido. Alguns fatores que podem atrasar o processo:
– Falta de conhecimento: Muitos profissionais de saúde ainda não estão familiarizados com o TARE, especialmente em adultos.
– Normalização dos sintomas: Pais e médicos podem achar que a criança é apenas “chata para comer” e que vai superar com o tempo.
– Estigma: Algumas pessoas têm vergonha de procurar ajuda por medo de serem julgadas.
– Dificuldade de acesso: No Brasil, especialmente pelo SUS, pode ser difícil conseguir uma consulta com especialista em tempo hábil.
Em média, o diagnóstico de TARE leva de 6 meses a 2 anos desde os primeiros sintomas. Em crianças, costuma ser mais rápido porque os pais procuram ajuda mais cedo. Em adultos, o processo pode ser mais demorado, pois muitos sofrem em silêncio por anos antes de buscar tratamento.
Quem pode diagnosticar?
No Brasil, o diagnóstico de TARE pode ser feito por:
1. Psiquiatras: Médicos especializados em saúde mental, que podem diagnosticar e prescrever medicamentos.
2. Psicólogos clínicos: Profissionais da psicologia com formação em transtornos alimentares, que podem diagnosticar e realizar psicoterapia.
3. Nutricionistas especializados: Embora não possam dar o diagnóstico formal, podem identificar padrões alimentares disfuncionais e encaminhar para avaliação psiquiátrica.
No SUS:
– O primeiro passo geralmente é procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).
– O médico da UBS pode fazer uma avaliação inicial e encaminhar para um especialista.
– Em algumas cidades, há serviços especializados em transtornos alimentares, como o Programa de Transtornos Alimentares (PROATA) da UNIFESP em São Paulo.
– O tempo de espera para uma consulta com especialista pode variar de algumas semanas a vários meses, dependendo da região.
Na rede particular:
– O processo costuma ser mais rápido, com possibilidade de agendar consultas diretamente com psiquiatras ou psicólogos especializados.
– O custo pode ser um obstáculo, mas alguns planos de saúde cobrem consultas com psiquiatras e psicólogos.
– Clínicas especializadas em transtornos alimentares oferecem uma abordagem multidisciplinar (psiquiatra, psicólogo, nutricionista).
O que esperar da primeira consulta?
A primeira consulta com um especialista em TARE pode ser um pouco intimidadora, especialmente se você não sabe o que esperar. Vamos desmistificar esse momento.
Antes da consulta:
– Prepare um diário alimentar: Anote tudo o que a pessoa comeu nos últimos 3-5 dias, incluindo horários, quantidades e reações (ansiedade, náusea, etc.).
– Liste os sintomas: Anote todos os comportamentos relacionados à comida que você observou, mesmo que pareçam pequenos.
– Histórico médico: Traga informações sobre doenças prévias, alergias, medicamentos em uso e histórico familiar de transtornos mentais.
– Perguntas: Anote suas dúvidas para não esquecer durante a consulta.
Durante a consulta:
O profissional provavelmente fará perguntas como:
– Sobre a alimentação:
– O que a pessoa costuma comer em um dia típico?
– Quais alimentos ela evita e por quê?
– Como são as refeições em família?
– A pessoa sente fome? Como ela descreveria essa sensação?
– Há rituais ou comportamentos específicos na hora de comer?
- Sobre o impacto na vida:
- Como a alimentação afeta a rotina da pessoa?
- Ela evita situações sociais por causa da comida?
- Como está o desempenho na escola ou no trabalho?
-
Há conflitos familiares relacionados à alimentação?
-
Sobre o histórico:
- Quando os sintomas começaram?
- Houve algum evento específico que possa ter desencadeado o transtorno (doença, mudança de escola, trauma)?
- Como foi a introdução alimentar na infância?
-
Há histórico de transtornos alimentares ou de ansiedade na família?
-
Sobre a saúde física:
- A pessoa perdeu peso recentemente?
- Tem sentido cansaço, tonturas ou outros sintomas físicos?
- Como está o sono?
- Tem problemas digestivos (constipação, diarreia, refluxo)?
Exame físico:
Em crianças, o médico provavelmente medirá peso e altura para verificar se estão dentro da curva de crescimento esperada. Em adultos, pode medir o Índice de Massa Corporal (IMC) e verificar sinais de deficiências nutricionais (pele seca, queda de cabelo, unhas fracas).
Exames complementares:
Dependendo do caso, o médico pode pedir:
– Exames de sangue (hemograma, ferro, vitaminas, hormônios tireoidianos)
– Exames de fezes (para verificar absorção de nutrientes)
– Testes de alergia alimentar
– Avaliação com nutricionista
Depois da consulta:
– Diagnóstico: Em alguns casos, o diagnóstico pode ser dado na primeira consulta. Em outros, pode ser necessário mais tempo para descartar outras condições.
– Encaminhamentos: O profissional pode encaminhar para outros especialistas, como nutricionista, terapeuta ocupacional (para trabalhar sensibilidades sensoriais) ou fonoaudiólogo (para problemas de deglutição).
– Plano de tratamento: Se o diagnóstico for confirmado, o profissional discutirá as opções de tratamento (terapia, medicamentos, acompanhamento nutricional).
– Dúvidas: Não hesite em perguntar sobre qualquer coisa que não tenha ficado clara. É importante que você saia da consulta entendendo o que está acontecendo e quais são os próximos passos.
Exemplo concreto:
A primeira consulta de Clara, 16 anos, com uma psiquiatra especializada em transtornos alimentares:
– A mãe de Clara levou um diário alimentar detalhado dos últimos 5 dias
– Clara descreveu que não sente fome e que comer é “uma obrigação chata”
– Ela contou que evita alimentos vermelhos porque a cor a deixa ansiosa
– A psiquiatra perguntou sobre o histórico familiar e descobriu que a avó de Clara tem TOC
– Foi feito um exame físico, que mostrou que Clara está abaixo do peso esperado para sua altura
– A psiquiatra pediu exames de sangue e encaminhou para uma nutricionista
– No final da consulta, Clara e sua mãe saíram com o diagnóstico de TARE e um plano inicial de tratamento
Tratamento
O tratamento do TARE é como construir uma ponte: não acontece da noite para o dia, e cada “tijolo” colocado é importante para chegar ao outro lado. O objetivo não é apenas fazer a pessoa comer mais, mas ajudá-la a desenvolver uma relação saudável com a comida, melhorar sua saúde física e emocional, e recuperar a qualidade de vida.
O tratamento ideal é multidisciplinar, ou seja, envolve diferentes profissionais trabalhando juntos. Geralmente, a equipe inclui:
– Psiquiatra: Para avaliar a necessidade de medicamentos e monitorar a saúde mental
– Psicólogo: Para trabalhar as questões emocionais e comportamentais relacionadas à comida
– Nutricionista: Para planejar uma alimentação equilibrada e segura
– Terapeuta ocupacional: Em alguns casos, para trabalhar sensibilidades sensoriais
– Fonoaudiólogo: Se houver problemas de deglutição ou mastigação
Vamos explorar cada parte do tratamento em detalhes.
Medicamentos
Os medicamentos não são a primeira linha de tratamento para o TARE, mas podem ser úteis em alguns casos, especialmente quando há outros transtornos associados, como ansiedade ou depressão. É importante lembrar que não existe um remédio específico para o TARE – os medicamentos são usados para tratar sintomas que podem estar contribuindo para o transtorno.
Classes de medicamentos mais usadas:
- Antidepressivos (ISRS – Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina):
- Como funcionam: Aumentam os níveis de serotonina no cérebro, um neurotransmissor que regula o humor, o apetite e a ansiedade.
- Exemplos: Fluoxetina, Sertralina, Escitalopram
- Para que servem no TARE:
- Reduzir a ansiedade relacionada à comida
- Aumentar o apetite em alguns casos
- Melhorar o humor, o que pode facilitar a adesão ao tratamento
- Tempo para fazer efeito: Geralmente 4 a 6 semanas
- Efeitos colaterais comuns: Náusea, dor de cabeça, insônia ou sonolência, alterações no apetite (pode aumentar ou diminuir)
-
Importante: Não causam dependência e não “mudam a personalidade” da pessoa
-
Ansiolíticos (em casos específicos):
- Como funcionam: Reduzem a ansiedade de forma mais rápida que os antidepressivos.
- Exemplos: Clonazepam, Alprazolam (usados com cautela)
- Para que servem no TARE:
- Aliviar a ansiedade intensa na hora das refeições
- Ajudar em situações específicas, como viagens ou eventos sociais
- Tempo para fazer efeito: Minutos a horas
- Efeitos colaterais comuns: Sonolência, tontura, risco de dependência (por isso são usados por curtos períodos)
-
Importante: Devem ser usados com supervisão médica rigorosa
-
Suplementos nutricionais:
- Como funcionam: Repõem nutrientes que estão em falta devido à alimentação restrita.
- Exemplos: Ferro, vitamina D, complexo B, zinco, ômega-3
- Para que servem no TARE:
- Corrigir deficiências nutricionais
- Melhorar a energia e o humor
- Fortalecer o sistema imunológico
- Tempo para fazer efeito: Depende do nutriente (alguns, como ferro, podem levar semanas)
- Efeitos colaterais comuns: Náusea (com ferro), dor de cabeça (com vitamina D em excesso)
-
Importante: Devem ser prescritos por médico ou nutricionista, pois o excesso de alguns nutrientes pode ser prejudicial
-
Medicamentos para problemas digestivos:
- Como funcionam: Tratam sintomas como refluxo, náusea ou constipação que podem estar contribuindo para a aversão à comida.
- Exemplos: Omeprazol (para refluxo), Domperidona (para náusea)
- Para que servem no TARE:
- Reduzir desconfortos físicos que tornam a alimentação desagradável
- Melhorar a motilidade intestinal
- Tempo para fazer efeito: Dias a semanas
- Efeitos colaterais comuns: Dor de cabeça, diarreia ou constipação
O que você precisa saber sobre medicamentos para TARE:
– Não são a solução mágica: Os medicamentos ajudam a controlar sintomas, mas não “curam” o TARE sozinhos. Eles funcionam melhor quando combinados com terapia e acompanhamento nutricional.
– Cada pessoa responde de um jeito: O que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. Pode ser necessário testar diferentes medicamentos ou doses até encontrar o mais adequado.
– Efeitos colaterais são temporários: Muitos efeitos colaterais (como náusea ou dor de cabeça) melhoram após algumas semanas de uso.
– Nunca pare de tomar sem orientação: Parar um medicamento de repente pode causar sintomas de abstinência ou piora dos sintomas.
– Interações medicamentosas: Alguns medicamentos não podem ser usados juntos. Sempre informe seu médico sobre todos os remédios que você está tomando, incluindo suplementos e fitoterápicos.
Exemplo concreto:
Pedro, 10 anos, está em tratamento para TARE. Seu psiquiatra prescreveu:
– Sertralina (antidepressivo): Para reduzir a ansiedade na hora das refeições. Pedro tomou por 6 semanas até começar a sentir os efeitos. No início, teve um pouco de náusea, mas passou depois de duas semanas.
– Ferro (suplemento): Porque seus exames mostraram anemia. Pedro toma junto com suco de laranja (a vitamina C ajuda na absorção) e evita tomar com leite (o cálcio atrapalha a absorção).
– Domperidona (para náusea): Porque Pedro sentia enjoo ao ver certos alimentos. Esse medicamento ajudou a reduzir a náusea, facilitando a introdução de novos alimentos.
Psicoterapia
A psicoterapia é uma parte fundamental do tratamento do TARE. É como um “treinamento” para o cérebro, ajudando a pessoa a desenvolver novas formas de pensar e se comportar em relação à comida. Existem várias abordagens terapêuticas, e a escolha depende das necessidades individuais de cada pessoa.
Abordagens com mais evidência para TARE:
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC):
- O que é: Um tipo de terapia focada em identificar e mudar padrões de pensamento e comportamento disfuncionais.
- Como funciona no TARE:
- Identificação de pensamentos distorcidos: Por exemplo, “Se eu comer isso, vou engasgar” ou “Esse alimento é nojento”.
- Desafio desses pensamentos: O terapeuta ajuda a pessoa a questionar se esses pensamentos são realmente verdadeiros e a encontrar evidências que os contradigam.
- Exposição gradual: A pessoa é exposta, de forma controlada e gradual, aos alimentos que evita, para reduzir a ansiedade.
- Técnicas de relaxamento: Aprender a lidar com a ansiedade através de respiração, meditação ou outras técnicas.
- Duração: Geralmente de 12 a 20 sessões, mas pode variar.
- Para quem é indicada: Crianças maiores, adolescentes e adultos que conseguem identificar e verbalizar seus pensamentos.
Exemplo de uma sessão de TCC para TARE:
– Situação: João, 15 anos, tem medo de comer alimentos vermelhos porque acha que vão “fazer mal”.
– Terapeuta: “Vamos listar todas as vezes que você comeu algo vermelho e nada de ruim aconteceu.”
– João: “Bom, eu como melancia às vezes e nunca passei mal.”
– Terapeuta: “E o que você acha que aconteceria se comesse um tomate?”
– João: “Acho que eu vomitaria.”
– Terapeuta: “Vamos testar essa hipótese. Que tal começarmos com um pedacinho bem pequeno de tomate, só para ver o que acontece?”
– João: “Tá bom, mas só um pedacinho mesmo.”
– (Na sessão seguinte, João conta que comeu o pedacinho de tomate e nada de ruim aconteceu. O terapeuta o elogia e sugere aumentar gradualmente a quantidade.)
- Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT):
- O que é: Uma abordagem que ensina a pessoa a aceitar seus pensamentos e sentimentos difíceis, enquanto se compromete com ações que estejam alinhadas com seus valores.
- Como funciona no TARE:
- Aceitação: Aprender a conviver com a ansiedade em relação à comida, sem lutar contra ela.
- Desfusão cognitiva: Observar os pensamentos sem se deixar levar por eles (por exemplo, em vez de pensar “Esse alimento é perigoso”, pensar “Estou tendo o pensamento de que esse alimento é perigoso”).
- Valores: Identificar o que é realmente importante para a pessoa (por exemplo, “ter energia para brincar com meus filhos” ou “poder viajar com meus amigos”) e usar isso como motivação para mudar.
- Ação comprometida: Dar pequenos passos em direção a uma alimentação mais variada, mesmo que isso cause ansiedade.
- Duração: Geralmente de 12 a 24 sessões.
- Para quem é indicada: Adolescentes e adultos que têm muita resistência a mudar seus comportamentos alimentares.
Exemplo de uma sessão de ACT para TARE:
– Situação: Maria, 30 anos, evita comer fora de casa porque tem medo de passar mal.
– Terapeuta: “O que é mais importante para você na vida?”
– Maria: “Quero poder viajar com meu marido e não ficar ansiosa o tempo todo.”
– Terapeuta: “E como a sua alimentação está te impedindo de fazer isso?”
– Maria: “Porque eu fico com medo de não encontrar comida que eu possa comer e passar mal.”
– Terapeuta: “E se a gente trabalhasse para que você pudesse viajar sem que a comida fosse um problema?”
– Maria: “Seria ótimo, mas eu tenho muito medo.”
– Terapeuta: “O medo vai estar lá, mas podemos aprender a conviver com ele enquanto você dá pequenos passos. Que tal começarmos com algo simples, como comer um alimento novo uma vez por semana?”
- Terapia Familiar:
- O que é: Uma abordagem que envolve a família no tratamento, reconhecendo que os comportamentos alimentares da pessoa afetam e são afetados pela dinâmica familiar.
- Como funciona no TARE:
- Psicoeducação: Ensinar a família sobre o TARE, suas causas e como ajudar.
- Comunicação: Melhorar a forma como a família se comunica, especialmente na hora das refeições.
- Mudança de padrões: Identificar e modificar padrões familiares que podem estar mantendo o transtorno (por exemplo, pressão para comer, brigas na hora das refeições).
- Refeições em família: Planejar refeições que sejam menos estressantes para todos.
- Duração: Geralmente de 12 a 20 sessões.
- Para quem é indicada: Principalmente para crianças e adolescentes, mas também pode ser útil para adultos que moram com a família.
Exemplo de uma sessão de terapia familiar para TARE:
– Situação: A família de Lucas, 8 anos, está em terapia porque as refeições viraram um campo de batalha.
– Terapeuta: “Vamos conversar sobre como são as refeições em casa.”
– Mãe: “É um pesadelo. Lucas chora, se recusa a comer, e eu fico desesperada.”
– Pai: “Eu já perdi a paciência várias vezes e gritei com ele.”
– Terapeuta: “E como Lucas se sente durante essas refeições?”
– Lucas: “Eu fico com medo de engasgar e morrer.”
– Terapeuta: “Vamos pensar em como podemos tornar as refeições menos assustadoras para Lucas. Que tal começarmos com refeições mais curtas e sem pressão? E vocês, pais, podem tentar não comentar sobre o que ou quanto Lucas está comendo.”
– Mãe: “Mas e se ele não comer nada?”
– Terapeuta: “Vamos confiar que o corpo de Lucas vai pedir comida quando estiver com fome. O importante agora é reduzir a ansiedade.”
- Terapia de Exposição:
- O que é: Uma técnica que envolve expor a pessoa, de forma gradual e controlada, aos alimentos que ela evita, para reduzir a ansiedade.
- Como funciona no TARE:
- Hierarquia de alimentos: A pessoa e o terapeuta criam uma lista de alimentos, do menos ao mais assustador.
- Exposição gradual: Começa-se com o alimento menos assustador e, aos poucos, avança-se para os mais desafiadores.
- Prevenção de resposta: A pessoa é encorajada a não usar seus comportamentos de evitação (como cuspir a comida ou lavar a boca imediatamente).
- Tolerância à ansiedade: Aprender que a ansiedade diminui com o tempo, mesmo que a pessoa não faça nada para “aliviá-la”.
- Duração: Depende da gravidade do caso, mas geralmente várias sessões são necessárias para cada alimento.
- Para quem é indicada: Crianças, adolescentes e adultos com TARE baseado em medo de consequências aversivas (como engasgar ou vomitar).
Exemplo de terapia de exposição para TARE:
– Situação: Ana, 12 anos, tem medo de engasgar com alimentos sólidos.
– Hierarquia de alimentos (do menos ao mais assustador):
1. Purê de batata (macio, fácil de engolir)
2. Macarrão bem cozido (um pouco mais sólido)
3. Pão de forma sem casca (sólido, mas macio)
4. Maçã cozida (mais firme)
5. Maçã crua (firme e crocante)
– Sessão 1: Ana come um pouco de purê de batata enquanto o terapeuta a ajuda a controlar a ansiedade com técnicas de respiração.
– Sessão 2: Ana come macarrão bem cozido. Ela fica ansiosa, mas consegue engolir sem engasgar.
– Sessão 3: Ana come pão de forma sem casca. Ela chora e diz que não consegue, mas o terapeuta a encoraja a dar só uma mordidinha.
– E assim por diante, até que Ana consiga comer maçã crua sem ansiedade.
- Terapia Ocupacional:
- O que é: Uma abordagem que trabalha as habilidades práticas do dia a dia, incluindo a alimentação.
- Como funciona no TARE:
- Integração sensorial: Para pessoas com sensibilidades sensoriais, o terapeuta ocupacional pode usar técnicas para ajudar o cérebro a processar melhor as sensações (como texturas e sabores).
- Adaptação do ambiente: Sugerir mudanças no ambiente para tornar as refeições menos estressantes (por exemplo, usar pratos de cores neutras, talheres específicos).
- Treinamento de habilidades: Ensinar técnicas para mastigar e engolir alimentos de forma mais confortável.
- Jogos e atividades: Usar jogos e atividades lúdicas para tornar a exposição a novos alimentos mais divertida (especialmente para crianças).
- Duração: Geralmente várias sessões, dependendo das necessidades da pessoa.
- Para quem é indicada: Principalmente para crianças com TARE baseado em sensibilidades sensoriais.
Exemplo de terapia ocupacional para TARE:
– Situação: Rafael, 6 anos, só come alimentos brancos e macios porque as outras cores e texturas o incomodam.
– Atividade 1: O terapeuta ocupacional usa massinha de modelar para brincar com Rafael, misturando cores e texturas. Aos poucos, Rafael se acostuma com a sensação.
– Atividade 2: Rafael é encorajado a tocar em alimentos de diferentes cores e texturas, sem precisar comê-los. Ele começa com alimentos que não o assustam muito (como uma banana) e vai avançando.
– Atividade 3: Rafael ajuda a preparar uma refeição simples (como um sanduíche), escolhendo os ingredientes e montando o prato. Isso aumenta seu senso de controle e curiosidade.
– Atividade 4: Rafael é desafiado a dar uma mordidinha em um alimento novo a cada semana, começando com algo parecido com o que ele já come (por exemplo, um pão integral, que é marrom, mas tem textura semelhante ao pão branco).
Mudanças no dia a dia
Além da terapia e dos medicamentos, pequenas mudanças na rotina podem fazer uma grande diferença no tratamento do TARE. Vamos ver algumas estratégias práticas que podem ajudar.
1. Alimentação:
– Rotina de refeições: Estabelecer horários regulares para comer, mesmo que a pessoa não sinta fome. Isso ajuda o corpo a regular os sinais de fome e saciedade.
– Ambiente tranquilo: Criar um ambiente calmo e sem distrações (como TV ou celular) na hora das refeições. Isso ajuda a pessoa a se concentrar na comida.
– Porções pequenas: Começar com porções pequenas para não sobrecarregar a pessoa. É mais fácil adicionar comida do que lidar com um prato cheio que causa ansiedade.
– Apresentação dos alimentos: Para pessoas com sensibilidades sensoriais, a apresentação dos alimentos pode fazer diferença. Por exemplo:
– Servir alimentos em pratos de cores neutras (branco ou azul claro)
– Separar os alimentos no prato (sem misturar texturas)
– Usar talheres que sejam confortáveis (por exemplo, colheres de plástico para quem não gosta do metal)
– Envolvimento na preparação: Encorajar a pessoa a participar do preparo das refeições. Isso pode aumentar o interesse pela comida e dar uma sensação de controle.
– Exposição gradual: Introduzir novos alimentos de forma gradual e sem pressão. Por exemplo:
– Começar colocando o alimento novo no prato, sem precisar comê-lo
– Depois, encorajar a pessoa a cheirar ou tocar o alimento
– Aos poucos, pedir para dar uma lambidinha ou uma mordidinha bem pequena
– Celebrar cada pequeno progresso
Exemplo concreto:
A família de Sofia, 9 anos, implementou as seguintes mudanças:
– Rotina: Sofia passa a ter 3 refeições principais e 2 lanches por dia, sempre nos mesmos horários.
– Ambiente: As refeições são feitas na mesa da cozinha, sem TV ou celular. A família conversa sobre assuntos leves.
– Porções: Sofia começa com porções pequenas (por exemplo, 3 colheres de arroz em vez de um prato cheio).
– Apresentação: Os alimentos são servidos em um prato branco, separados por texturas (por exemplo, arroz de um lado, frango desfiado do outro).
– Preparação: Sofia ajuda a mãe a lavar os legumes e a colocar a mesa. Isso a deixa mais interessada na comida.
– Exposição gradual: A cada semana, um alimento novo é introduzido. Na primeira semana, o alimento novo (cenoura ralada) é colocado no prato de Sofia, mas ela não precisa comê-lo. Na segunda semana, ela é encorajada a cheirar. Na terceira semana, ela dá uma mordidinha.
2. Exercício físico:
– Benefícios: O exercício físico pode ajudar a:
– Melhorar o apetite
– Reduzir a ansiedade
– Aumentar a energia
– Melhorar o humor
– Tipos recomendados:
– Caminhada: Simples e acessível, pode ser feita em qualquer lugar.
– Yoga: Combina movimento com técnicas de respiração, ajudando a reduzir a ansiedade.
– Natação: É uma atividade de baixo impacto que pode ser relaxante.
– Dança: Pode ser uma forma divertida de se exercitar, especialmente para crianças.
– Dicas:
– Começar devagar, com atividades curtas (10-15 minutos por dia) e aumentar gradualmente.
– Escolher atividades que a pessoa goste, para aumentar a adesão.
– Evitar exercícios muito intensos, que podem aumentar a ansiedade.
– Fazer exercícios em família ou com amigos pode tornar a atividade mais prazerosa.
Exemplo concreto:
João, 14 anos, começou a fazer exercícios para ajudar no tratamento do TARE:
– Primeira semana: João caminha 10 minutos por dia ao redor do quarteirão.
– Segunda semana: A caminhada aumenta para 15 minutos, e João começa a fazer alguns alongamentos.
– Terceira semana: João experimenta uma aula de yoga online, que combina movimento com respiração.
– Quarta semana: João convida um amigo para caminhar com ele, tornando a atividade mais social.
– Resultado: João começa a sentir mais fome e energia, e sua ansiedade diminui.
3. Sono:
– Importância: Um sono de qualidade ajuda a:
– Regular o apetite
– Melhorar o humor
– Reduzir a ansiedade
– Aumentar a energia
– Dicas para uma boa higiene do sono:
– Rotina: Ir para a cama e acordar sempre nos mesmos horários, mesmo nos fins de semana.
– Ambiente: Manter o quarto escuro, silencioso e em uma temperatura agradável.
– Rotina pré-sono: Criar uma rotina relaxante antes de dormir, como ler um livro ou tomar um banho morno.
– Evitar estimulantes: Reduzir o consumo de cafeína (presente em café, chá preto, refrigerantes) e evitar telas (TV, celular, computador) pelo menos 1 hora antes de dormir.
– Exposição à luz natural: Passar algum tempo ao ar livre durante o dia ajuda a regular o relógio biológico.
Exemplo concreto:
Maria, 25 anos, implementou as seguintes mudanças para melhorar seu sono:
– Rotina: Maria passa a dormir às 22h e acordar às 6h todos os dias, inclusive nos fins de semana.
– Ambiente: Ela compra cortinas blackout e um ventilador para manter o quarto fresco.
– Rotina pré-sono: Maria cria uma rotina de 1 hora antes de dormir: toma um banho morno, lê um livro e ouve uma música relaxante.
– Evitar estimulantes: Maria para de tomar café depois das 14h e desliga o celular 1 hora antes de dormir.
– Luz natural: Maria passa 20 minutos ao ar livre todas as manhãs, tomando sol.
– Resultado: Maria começa a dormir melhor, sente mais fome pela manhã e tem mais energia durante o dia.
4. Rotina:
– Estrutura: Ter uma rotina estruturada ajuda a reduzir a ansiedade e a criar hábitos saudáveis.
– Planejamento: Planejar o dia com antecedência, incluindo horários para refeições, exercícios, trabalho/escola e lazer.
– Flexibilidade: Embora a rotina seja importante, é preciso ter flexibilidade para lidar com imprevistos.
– Tempo para si: Reservar um tempo do dia para atividades prazerosas, como ler, ouvir música ou praticar um hobby.
Exemplo concreto:
A rotina de Pedro, 11 anos, foi organizada assim:
– 7h: Acordar e tomar café da manhã (mesmo que não sinta fome)
– 8h-12h: Escola
– 12h30: Almoço
– 13h-15h: Tarefas de casa e estudo
– 15h30: Lanche
– 16h-17h: Exercício físico (caminhada ou yoga)
– 17h30-18h30: Tempo livre (jogos, leitura, desenho)
– 19h: Jantar
– 20h-21h: Atividade relaxante (banho, TV, conversa com a família)
– 21h30: Dormir
5. Técnicas de manejo de ansiedade:
– Respiração diafragmática: Uma técnica simples que ajuda a acalmar o corpo e a mente.
– Como fazer: Colocar uma mão na barriga e outra no peito. Inspirar profundamente pelo nariz, sentindo a barriga se expandir. Expirar lentamente pela boca, sentindo a barriga voltar ao normal. Repetir por 5-10 minutos.
– Mindfulness: Prática de estar presente no momento, sem julgamento.
– Como fazer: Durante as refeições, prestar atenção nos sabores, texturas e cheiros dos alimentos. Quando a mente divagar, gentilmente trazê-la de volta para a comida.
– Relaxamento muscular progressivo: Técnica que envolve tensionar e relaxar grupos musculares para reduzir a tensão.
– Como fazer: Começar pelos pés, tensionar os músculos por 5 segundos e depois relaxar. Ir subindo pelo corpo (pernas, barriga, mãos, braços, ombros, rosto) até chegar à cabeça.
– Visualização: Técnica que envolve imaginar um lugar seguro e tranquilo para reduzir a ansiedade.
– Como fazer: Fechar os olhos e imaginar um lugar que traga paz (uma praia, uma floresta, um quarto aconchegante). Tentar envolver todos os sentidos (o som das ondas, o cheiro das flores, a sensação do vento).
Exemplo concreto:
Ana, 18 anos, usa técnicas de manejo de ansiedade para lidar com o TARE:
– Antes das refeições: Ana faz 5 minutos de respiração diafragmática para acalmar o corpo.
– Durante as refeições: Ana pratica mindfulness, prestando atenção nos sabores e texturas dos alimentos.
– Quando a ansiedade aumenta: Ana usa a técnica de visualização, imaginando-se em uma praia tranquila.
– Antes de dormir: Ana faz relaxamento muscular progressivo para dormir melhor.
Convivendo com o diagnóstico
Receber um diagnóstico de TARE pode ser um momento de alívio (“Finalmente sei o que tenho!”) e, ao mesmo tempo, de apreensão (“E agora, como vou lidar com isso?”). A verdade é que conviver com o TARE é um processo de aprendizado – tanto para a pessoa que tem o transtorno quanto para seus familiares e amigos. Vamos explorar como navegar essa jornada de forma mais tranquila.
Para a pessoa com o diagnóstico
1. Entenda que você não está sozinho:
O TARE pode fazer você se sentir isolado, como se ninguém entendesse o que você está passando. Mas a verdade é que muitas pessoas vivem com esse transtorno – e muitas delas estão se tratando e melhorando. Buscar grupos de apoio (presenciais ou online) pode ser uma forma de se conectar com outras pessoas que passam pelas mesmas dificuldades.
2. Seja gentil consigo mesmo:
– Não se culpe: O TARE não é culpa sua. Você não escolheu ter esse transtorno, assim como não escolheria ter diabetes ou asma.
– Celebre os pequenos progressos: Cada mordida em um alimento novo, cada refeição sem ansiedade, cada dia em que você se alimentou melhor é uma vitória. Comemore!
– Permita-se ter dias ruins: Nem todo dia será perfeito, e está tudo bem. O importante é não desistir.
3. Conheça seu transtorno:
Quanto mais você entender sobre o TARE, melhor poderá lidar com ele. Leia sobre o assunto (mas cuidado com fontes não confiáveis), converse com seu médico e terapeuta, faça perguntas. Conhecimento é poder.
4. Crie uma “caixa de ferramentas” para os momentos difíceis:
Tenha à mão estratégias que funcionem para você quando a ansiedade ou a aversão à comida aparecerem. Pode ser:
– Uma lista de alimentos “seguros” que você aceita comer
– Técnicas de respiração ou relaxamento
– Um objeto que te acalme (como um brinquedo antiestresse ou um cobertor macio)
– Uma música ou playlist que te ajude a relaxar
– O número de um amigo ou familiar que você possa ligar para desabafar
5. Comunique suas necessidades:
Não espere que as pessoas adivinhem o que você precisa. Seja claro sobre suas dificuldades e como os outros podem te ajudar. Por exemplo:
– “Eu não consigo comer em pratos coloridos. Você se importa de me servir no prato branco?”
– “Eu fico ansioso quando as pessoas comentam sobre o que eu como. Você pode evitar fazer isso?”
– “Eu preciso de um tempo sozinho antes das refeições para me acalmar.”
6. Encontre formas alternativas de nutrição:
Se você está tendo muita dificuldade para comer alimentos sólidos, converse com seu médico ou nutricionista sobre alternativas, como:
– Suplementos nutricionais (shakes, barras de proteína)
– Alimentos líquidos ou pastosos (sopas, purês, vitaminas)
– Em casos graves, alimentação por sonda (temporária, até que você consiga se alimentar melhor)
7. Trabalhe sua relação com a comida:
O objetivo do tratamento não é apenas fazer você comer mais, mas ajudá-lo a desenvolver uma relação mais saudável com a comida. Algumas dicas:
– Desmistifique a comida: Lembre-se de que comida é combustível para o corpo, mas também pode ser prazerosa e social.
– Experimente sem pressão: Tente provar novos alimentos sem a obrigação de gostar ou comer tudo. Uma lambidinha já é um progresso.
– Cozinhe: Se possível, envolva-se no preparo das refeições. Isso pode aumentar seu interesse pela comida.
– Coma com outras pessoas: Mesmo que seja difícil, tente fazer algumas refeições em companhia. Isso pode tornar a experiência menos solitária.
8. Cuide da sua saúde mental:
O TARE pode afetar sua autoestima, seu humor e sua qualidade de vida. Por isso, é importante cuidar da sua saúde mental como um todo:
– Terapia: Continue com a psicoterapia, mesmo quando estiver se sentindo melhor.
– Meditação: Práticas como mindfulness podem ajudar a reduzir a ansiedade.
– Hobbies: Encontre atividades que te deem prazer e te ajudem a relaxar.
– Rede de apoio: Mantenha contato com pessoas que te fazem bem e te apoiam.
9. Planeje para situações desafiadoras:
Eventos sociais, viagens e outras situações que envolvem comida podem ser especialmente difíceis. Planeje com antecedência:
– Eventos sociais: Se possível, leve seus próprios alimentos. Se não for possível, escolha opções do cardápio que sejam mais seguras para você.
– Viagens: Pesquise restaurantes no destino que ofereçam alimentos que você aceita. Leve lanches de emergência.
– Restaurantes: Olhe o cardápio online antes de ir e escolha o que vai pedir. Se necessário, ligue antes para perguntar sobre opções.
10. Lembre-se: você é mais do que seu transtorno:
O TARE é uma parte da sua vida, mas não define quem você é. Você tem qualidades, talentos e sonhos que vão além da sua relação com a comida. Não deixe que o transtorno te impeça de viver plenamente.
Exemplo concreto:
Lucas, 20 anos, foi diagnosticado com TARE aos 15. Hoje, ele convive bem com o transtorno e compartilha suas estratégias:
– Caixa de ferramentas: Lucas sempre carrega um brinquedo antiestresse na mochila e tem uma playlist de músicas relaxantes no celular.
– Comunicação: Ele explicou para seus amigos mais próximos sobre o TARE e pediu que não comentassem sobre sua alimentação.
– Eventos sociais: Lucas costuma chegar cedo em festas para escolher um lugar tranquilo para sentar. Ele também leva seus próprios lanches.
– Terapia: Lucas continua com terapia, mesmo estando bem. Ele diz que isso o ajuda a manter os progressos.
– Autoestima: Lucas descobriu que gosta de desenhar e hoje tem um perfil no Instagram onde compartilha suas ilustrações. Isso o ajuda a se sentir realizado além da comida.
Para familiares e amigos
Se você tem um familiar ou amigo com TARE, seu apoio pode fazer uma enorme diferença no tratamento. Mas é importante saber como ajudar da forma certa – e o que evitar.
Como ajudar:
- Informe-se sobre o transtorno:
- Leia sobre o TARE para entender o que a pessoa está passando.
- Converse com os profissionais que acompanham a pessoa (médico, psicólogo, nutricionista) para saber como você pode ajudar.
-
Participe de grupos de apoio para familiares de pessoas com transtornos alimentares.
-
Seja paciente e compreensivo:
- Lembre-se de que a pessoa não está escolhendo ter TARE. Ela não está “fazendo manha” ou “querendo chamar atenção”.
- Evite frases como “É só comer!”, “Você está exagerando” ou “Isso é frescura”. Elas podem aumentar a culpa e a vergonha.
-
Em vez disso, diga coisas como “Eu entendo que isso é difícil para você” ou “Estou aqui para te apoiar”.
-
Crie um ambiente seguro:
- Na hora das refeições:
- Evite pressionar a pessoa para comer.
- Não faça comentários sobre o que ou quanto a pessoa está comendo.
- Mantenha um ambiente tranquilo e sem distrações (TV, celular).
- Se a pessoa estiver muito ansiosa, sugira uma pausa e retome a refeição mais tarde.
-
Em eventos sociais:
- Não force a pessoa a participar de atividades que envolvam comida.
- Se possível, ofereça opções de alimentos que a pessoa aceite.
- Se a pessoa recusar um alimento, não insista.
-
Ajude com a exposição gradual:
- Se a pessoa estiver em tratamento com exposição gradual a novos alimentos, você pode ajudar:
- Comece com alimentos que sejam semelhantes aos que a pessoa já aceita.
- Vá devagar – uma nova textura ou cor por vez.
- Celebre cada pequeno progresso.
-
Exemplo: Se a pessoa só come arroz branco, você pode começar oferecendo arroz integral (mesma textura, cor diferente). Depois, pode tentar um purê de batata (cor semelhante, textura diferente).
-
Incentive o tratamento:
- Lembre a pessoa da importância de seguir o tratamento, mesmo nos dias em que ela não estiver com vontade.
- Ofereça-se para acompanhá-la às consultas, se ela se sentir confortável com isso.
-
Ajude a pessoa a seguir as orientações dos profissionais (por exemplo, lembrando-a de tomar os medicamentos ou de fazer os exercícios de exposição).
-
Cuide da sua própria saúde mental:
- Cuidar de alguém com TARE pode ser estressante e emocionalmente desgastante. Não negligencie suas próprias necessidades.
- Busque apoio para si mesmo, seja através de terapia, grupos de apoio ou conversas com amigos.
-
Reserve um tempo para atividades que te dão prazer e te ajudam a relaxar.
-
Comunique-se de forma aberta e honesta:
- Converse com a pessoa sobre como você pode ajudá-la melhor. Pergunte o que funciona e o que não funciona para ela.
- Expresse suas preocupações de forma calma e sem julgamentos. Por exemplo: “Eu fico preocupado quando você não come o dia todo. Como posso te ajudar?”
-
Evite conversas sobre comida, peso ou aparência fora do contexto do tratamento.
-
Ajude a pessoa a manter uma rotina saudável:
- Incentive horários regulares para refeições, sono e exercícios.
- Ofereça-se para participar de atividades físicas com a pessoa (caminhadas, yoga, dança).
- Ajude a criar um ambiente tranquilo na hora de dormir.
O que NÃO fazer:
❌ Não force a pessoa a comer:
– Forçar pode aumentar a ansiedade e piorar a aversão à comida.
– Em vez de dizer “Você tem que comer!”, tente “O que você acha de experimentar só uma mordidinha?”.
❌ Não faça comentários sobre peso ou aparência:
– Frases como “Você está muito magro” ou “Precisa comer mais” podem aumentar a ansiedade.
– Em vez disso, foque em como a pessoa está se sentindo: “Você parece cansado hoje. Como posso te ajudar?”.
❌ Não compare com outras pessoas:
– Evite frases como “Seu irmão come de tudo, por que você não pode?” ou “Quando eu era criança, comia até pedra!”.
– Cada pessoa é única, e comparar só aumenta a culpa e a vergonha.
❌ Não minimize o problema:
– Evite frases como “Isso é coisa da sua cabeça” ou “Você vai superar quando crescer”.
– O TARE é um transtorno real, com bases biológicas e psicológicas.
❌ Não use chantagem ou suborno:
– Frases como “Se você comer, te dou um presente” ou “Se não comer, não vai brincar” podem piorar a relação da pessoa com a comida.
– A comida não deve ser associada a recompensas ou punições.
❌ Não desista:
– O tratamento do TARE pode ser longo e desafiador, mas não desista. Cada pequeno progresso é uma vitória.
– Mesmo nos dias ruins, lembre a pessoa de que você está ao lado dela.
Exemplo concreto:
A família de Sofia, 12 anos, aprendeu a lidar melhor com o TARE de Sofia:
– Antes:
– As refeições eram um campo de batalha. Os pais brigavam com Sofia para comer, e ela chorava.
– Os pais comparavam Sofia com a irmã mais nova, que comia de tudo.
– Eles faziam comentários como “Você está muito magrinha, precisa comer mais”.
– Depois:
– As refeições são mais tranquilas. Os pais não pressionam Sofia para comer.
– Eles criaram um ambiente calmo, sem TV ou celular na mesa.
– Sofia ajuda a preparar as refeições, o que aumentou seu interesse pela comida.
– Os pais celebram cada pequeno progresso (“Parabéns por ter experimentado a cenoura!”).
– Eles pararam de comparar Sofia com a irmã e passaram a focar em como ela está se sentindo.
– A mãe de Sofia começou a fazer terapia para lidar com sua própria ansiedade em relação à alimentação da filha.
Quando os sintomas podem piorar?
O TARE, como muitos transtornos mentais, pode ter períodos de melhora e piora. Alguns fatores podem desencadear uma recaída ou piora dos sintomas. É importante estar atento a esses sinais para buscar ajuda antes que a situação se agrave.
Fatores que podem piorar os sintomas:
- Estresse:
- Situações estressantes, como provas na escola, problemas no trabalho, conflitos familiares ou mudanças (mudança de casa, de escola, divórcio dos pais), podem aumentar a ansiedade e piorar os sintomas do TARE.
-
O que fazer: Tente reduzir o estresse com técnicas de relaxamento, exercícios físicos e terapia. Se possível, evite mudanças muito grandes em períodos de estresse.
-
Doenças físicas:
- Gripes, infecções ou problemas digestivos podem diminuir o apetite ou aumentar a aversão a certos alimentos.
-
O que fazer: Cuide da saúde física, mantendo uma boa higiene, vacinas em dia e consultas médicas regulares. Se a pessoa ficar doente, converse com o médico sobre como manter a nutrição adequada.
-
Mudanças na rotina:
- Férias, viagens ou mudanças nos horários (como começar em um novo emprego) podem desestabilizar os hábitos alimentares.
-
O que fazer: Tente manter uma rotina o mais regular possível, mesmo em períodos de mudança. Planeje com antecedência para situações como viagens.
-
Comentários sobre comida, peso ou aparência:
- Comentários bem-intencionados (“Você está muito magro”, “Precisa comer mais”) ou críticas (“Você é muito chato para comer”) podem aumentar a ansiedade e piorar os sintomas.
-
O que fazer: Evite fazer comentários sobre a alimentação ou o corpo da pessoa. Se alguém fizer um comentário inadequado, defenda a pessoa com TARE.
-
Exposição forçada a novos alimentos:
- Forçar a pessoa a comer algo novo ou em grande quantidade pode aumentar a aversão e a ansiedade.
-
O que fazer: A exposição a novos alimentos deve ser gradual e sem pressão. Respeite o tempo da pessoa.
-
Isolamento social:
- Evitar situações sociais que envolvam comida pode levar ao isolamento, o que pode piorar os sintomas do TARE e aumentar o risco de depressão.
-
O que fazer: Incentive a pessoa a participar de atividades sociais, mesmo que não envolvam comida. Comece com situações menos desafiadoras e vá aumentando gradualmente.
-
Parar o tratamento:
- Interromper a terapia, os medicamentos ou o acompanhamento nutricional pode levar a uma piora dos sintomas.
- O que fazer: Mesmo que a pessoa esteja se sentindo melhor, é importante continuar o tratamento até que os profissionais indiquem a alta.
Sinais de alerta de que os sintomas estão piorando:
– A lista de alimentos aceitos está diminuindo
– A pessoa está perdendo peso ou não está ganhando peso esperado (em crianças)
– A ansiedade na hora das refeições está aumentando
– A pessoa está evitando cada vez mais situações sociais
– Estão aparecendo sintomas físicos, como cansaço extremo, tonturas ou queda de cabelo
– A pessoa está expressando sentimentos de desesperança ou desamparo
O que fazer se os sintomas piorarem:
– Converse com a pessoa: Pergunte como ela está se sentindo e se precisa de ajuda.
– Reavalie o tratamento: Marque uma consulta com os profissionais que acompanham a pessoa para reavaliar o plano de tratamento.
– Aumente o apoio: Se possível, aumente a frequência das consultas ou busque apoio adicional (como grupos de apoio).
– Cuide da saúde física: Verifique se há deficiências nutricionais ou outros problemas de saúde que possam estar contribuindo para a piora.
– Seja paciente: Lembre-se de que recaídas fazem parte do processo de recuperação. Não desanime.
Exemplo concreto:
João, 16 anos, estava indo bem no tratamento do TARE, mas seus sintomas pioraram quando:
– Ele começou o ensino médio e estava muito estressado com as provas
– Pegou uma gripe forte que diminuiu ainda mais seu apetite
– Um colega fez um comentário sobre seu peso (“Você está parecendo um esqueleto”)
Sinais de que os sintomas estavam piorando:
– João começou a recusar até mesmo os alimentos que antes aceitava
– Ele estava perdendo peso rapidamente
– Estava evitando o refeitório da escola e almoçando sozinho no banheiro
– Estava sempre cansado e irritado
O que a família fez:
– Marcaram uma consulta de emergência com o psiquiatra e a nutricionista
– Conversaram com a escola para que João pudesse almoçar em um lugar mais tranquilo
– Aumentaram a frequência das sessões de terapia
– João começou a fazer exercícios de relaxamento para lidar com o estresse das provas
– A família evitou comentários sobre comida ou peso
Resultado: Após algumas semanas, João começou a melhorar novamente.
Perguntas frequentes
1. TARE tem cura?
O TARE não tem uma “cura” no sentido tradicional, como tomar um remédio e ficar bom. Mas isso não significa que não haja esperança! Com o tratamento adequado, muitas pessoas conseguem desenvolver uma relação saudável com a comida e recuperar sua qualidade de vida.
Pense no TARE como uma condição crônica, como diabetes ou asma. Assim como essas doenças, o TARE pode ser controlado com tratamento contínuo. Algumas pessoas conseguem superar completamente os sintomas, enquanto outras aprendem a conviver com o transtorno de forma que ele não atrapalhe mais suas vidas.
O importante é não desistir. Cada pequeno progresso é uma vitória, e com o tempo, esses progressos se acumulam. Muitas pessoas que tiveram TARE na infância conseguem ter uma alimentação normal na vida adulta. Outras aprendem a gerenciar seus sintomas de forma que eles não interfiram mais em suas vidas.
2. Meu filho tem TARE. Isso significa que ele vai ter anorexia no futuro?
Não necessariamente. Embora o TARE e a anorexia sejam ambos transtornos alimentares, eles são condições diferentes. A principal diferença é que, na anorexia, a restrição alimentar está ligada a uma preocupação excessiva com peso e imagem corporal. No TARE, a restrição não tem relação com peso – pode ser por falta de interesse, sensibilidade sensorial ou medo de consequências aversivas (como engasgar).
Dito isso, algumas pesquisas sugerem que pessoas com TARE podem ter um risco ligeiramente maior de desenvolver outros transtornos alimentares no futuro, especialmente se não receberem tratamento adequado. Por isso, é importante buscar ajuda o quanto antes.
O mais importante é focar no tratamento do TARE em si, sem se preocupar demais com o que pode acontecer no futuro. Com o tratamento adequado, a maioria das crianças com TARE consegue superar o transtorno sem desenvolver outros problemas alimentares.
3. Como diferenciar TARE de uma criança “chata para comer”?
Toda criança passa por fases em que é mais seletiva com a comida. Isso é normal e faz parte do desenvolvimento. A diferença entre uma criança “chata para comer” e uma criança com TARE está na intensidade e nas consequências dos sintomas.
Sinais de que pode ser TARE:
– A criança aceita menos de 10-15 alimentos diferentes
– Ela reage com ansiedade, choro ou náusea ao ser apresentada a novos alimentos
– Está perdendo peso ou não está ganhando peso esperado para a idade
– Tem deficiências nutricionais (anemia, falta de vitaminas)
– Evita situações sociais que envolvam comida (aniversários, festas)
– A alimentação restrita está causando conflitos familiares constantes
Sinais de que é uma fase normal:
– A criança aceita uma variedade razoável de alimentos (mesmo que não goste de tudo)
– Ela experimenta novos alimentos de vez em quando, mesmo que não goste
– Seu peso e crescimento estão dentro do esperado para a idade
– Ela não tem reações extremas a novos alimentos
– A alimentação não está causando problemas significativos na vida da criança ou da família
Se você está em dúvida, o melhor é consultar um pediatra ou um especialista em transtornos alimentares. Eles podem avaliar a situação e indicar se é necessário tratamento.
4. TARE em adultos é comum? Como é o tratamento?
Embora o TARE seja mais comum em crianças, ele também pode afetar adultos – e muitas vezes passa despercebido. Alguns adultos têm TARE desde a infância e nunca receberam tratamento. Outros desenvolvem o transtorno na idade adulta, geralmente após um evento estressante (como uma doença, um trauma ou uma mudança significativa na vida).
O tratamento do TARE em adultos é semelhante ao tratamento em crianças, mas com algumas adaptações:
– Terapia: A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) são as abordagens mais usadas. O foco é trabalhar as crenças disfuncionais sobre comida e desenvolver estratégias para lidar com a ansiedade.
– Medicamentos: Podem ser usados para tratar sintomas associados, como ansiedade ou depressão.
– Nutrição: O nutricionista ajuda a planejar uma alimentação equilibrada, respeitando as limitações do adulto com TARE.
– Exposição gradual: Assim como em crianças, a exposição a novos alimentos deve ser gradual e sem pressão.
Uma diferença importante no tratamento de adultos é que eles geralmente têm mais autonomia para seguir (ou não) as orientações dos profissionais. Por isso, é fundamental que o adulto com TARE esteja motivado para o tratamento.
Exemplo concreto:
Carlos, 35 anos, desenvolveu TARE após um episódio de intoxicação alimentar grave. Ele:
– Passou a evitar vários alimentos por medo de passar mal novamente
– Perdeu peso e começou a se sentir constantemente cansado
– Evitava situações sociais que envolvessem comida
– Procurou ajuda quando percebeu que sua lista de alimentos aceitos estava cada vez menor
O tratamento de Carlos incluiu:
– Terapia: Carlos fez TCC para trabalhar seu medo de passar mal. O terapeuta o ajudou a questionar pensamentos como “Se eu comer isso, vou vomitar”.
– Exposição gradual: Carlos começou a reintroduzir alimentos que evitava, um de cada vez. Ele começou com alimentos semelhantes aos que já aceitava (por exemplo, arroz branco → arroz integral).
– Nutrição: O nutricionista de Carlos o ajudou a planejar refeições equilibradas, mesmo com sua lista restrita de alimentos.
– Medicamentos: Carlos tomou um antidepressivo por alguns meses para ajudar com a ansiedade.
Após um ano de tratamento, Carlos conseguiu aumentar significativamente sua variedade de alimentos e retomar sua vida social.
5. Como explicar o TARE para outras pessoas?
Explicar o TARE para amigos, familiares ou colegas pode ser desafiador, especialmente porque muitas pessoas não conhecem o transtorno. Aqui estão algumas dicas para tornar a conversa mais fácil:
Para crianças:
– Use uma linguagem simples e exemplos concretos.
– Compare o TARE com algo que a criança conheça. Por exemplo: “Sabe quando você coloca uma roupa que coça e não consegue ficar com ela? Para o João, alguns alimentos são assim – eles incomodam muito, mesmo que para a gente não incomodem.”
– Enfatize que não é culpa da pessoa. “O João não escolheu ter TARE, assim como você não escolheu ter alergia a amendoim.”
Para adolescentes e adultos:
– Explique o que é o TARE de forma clara e objetiva. Por exemplo: “O TARE é um transtorno alimentar em que a pessoa tem muita dificuldade para comer certos alimentos. Não é frescura – é como se o cérebro dela mandasse sinais de que a comida é perigosa, mesmo quando não é.”
– Dê exemplos de como o TARE se manifesta. “A Maria não consegue comer alimentos vermelhos porque a cor a deixa ansiosa. O Pedro só come alimentos macios porque texturas crocantes o incomodam.”
– Explique que não tem relação com peso. “Ao contrário da anorexia, no TARE a pessoa não está preocupada com emagrecer. Ela simplesmente não consegue comer certos alimentos.”
– Peça compreensão. “Eu sei que pode ser difícil de entender, mas é importante não pressionar a pessoa para comer. Isso só aumenta a ansiedade dela.”
Para a escola ou trabalho:
– Se necessário, peça ao médico ou terapeuta para escrever uma carta explicando o transtorno e as necessidades da pessoa.
– Explique como o TARE pode afetar o desempenho escolar ou profissional. “O João pode precisar de mais tempo para as refeições ou evitar eventos que envolvam comida. Isso não é falta de interesse – é uma necessidade do transtorno dele.”
– Sugira adaptações que possam ajudar. “Será que o João poderia almoçar em um lugar mais tranquilo, longe do refeitório barulhento?”
Exemplo concreto:
A mãe de Sofia, 9 anos, explicou o TARE para a professora da filha assim:
“Sofia tem um transtorno alimentar chamado TARE. Isso significa que ela tem muita dificuldade para comer certos alimentos. Não é frescura – é como se o cérebro dela mandasse sinais de que a comida é perigosa. Por exemplo, ela não consegue comer alimentos vermelhos porque a cor a deixa ansiosa.
Isso não tem nada a ver com peso. Sofia não está tentando emagrecer – ela simplesmente não consegue comer certos alimentos. Na hora do lanche, ela vai trazer sua própria comida de casa. Seria bom se a senhora pudesse evitar comentários sobre o que ela está comendo ou quanto está comendo.
Sofia é uma menina inteligente e criativa, e queremos que ela se sinta incluída na escola. Se a senhora tiver alguma dúvida ou precisar de mais informações, posso pedir para o médico dela escrever uma carta explicando melhor.”
6. TARE pode levar à desnutrição? Quais são os riscos?
Sim, o TARE pode levar à desnutrição, especialmente se não for tratado. Quando a pessoa não come uma variedade suficiente de alimentos, seu corpo não recebe os nutrientes de que precisa para funcionar bem. Com o tempo, isso pode causar uma série de problemas de saúde.
Riscos da desnutrição no TARE:
– Perda de peso ou falha em ganhar peso: Em crianças, isso pode levar a atraso no crescimento e na puberdade.
– Deficiências nutricionais: Falta de vitaminas e minerais essenciais, como ferro (causando anemia), vitamina D (afetando ossos e humor) ou zinco (prejudicando o paladar).
– Problemas digestivos: Constipação, diarreia, refluxo ou síndrome do intestino irritável.
– Sistema imunológico fraco: A pessoa fica mais propensa a infecções e doenças.
– Problemas cardíacos: Em casos graves, a desnutrição pode afetar o coração, causando arritmias ou pressão baixa.
– Problemas neurológicos: Falta de nutrientes pode afetar a memória, a concentração e até causar neuropatias (dormência ou formigamento nas mãos e pés).
– Problemas hormonais: Em mulheres, pode causar irregularidades menstruais ou até interromper a menstruação.
– Problemas de pele, cabelo e unhas: Pele seca, queda de cabelo, unhas fracas ou quebradiças.
– Problemas psicológicos: A desnutrição pode piorar sintomas de ansiedade e depressão.
Sinais de que a desnutrição está se agravando:
– Perda de peso rápida ou não ganho de peso esperado (em crianças)
– Cansaço extremo, mesmo após dormir bem
– Tonturas ou desmaios
– Queda de cabelo ou unhas quebradiças
– Feridas que demoram a cicatrizar
– Infecções frequentes
– Irritabilidade ou mudanças de humor
– Dificuldade de concentração
– Em crianças: atraso no desenvolvimento motor ou cognitivo
O que fazer:
Se você suspeita que a pessoa com TARE está desnutrida, procure ajuda médica imediatamente. O tratamento pode incluir:
– Suplementos nutricionais: Para repor vitaminas e minerais em falta.
– Alimentação enteral: Em casos graves, pode ser necessário usar uma sonda para garantir a nutrição adequada.
– Acompanhamento nutricional: Um nutricionista pode ajudar a planejar uma alimentação equilibrada, mesmo com as restrições do TARE.
– Acompanhamento médico: Para monitorar a saúde física e tratar possíveis complicações.
Exemplo concreto:
Pedro, 10 anos, foi diagnosticado com TARE e desnutrição. Seu tratamento incluiu:
– Suplementos: Pedro começou a tomar um shake nutricional diariamente para complementar sua alimentação.
– Acompanhamento nutricional: A nutricionista de Pedro o ajudou a introduzir novos alimentos gradualmente, começando com aqueles que eram mais semelhantes aos que ele já aceitava.
– Acompanhamento médico: Pedro fez exames de sangue regularmente para monitorar seus níveis de vitaminas e minerais.
– Terapia: Pedro continuou com a terapia para trabalhar sua ansiedade em relação à comida.
Após alguns meses, Pedro começou a ganhar peso e a ter mais energia. Seus exames de sangue também melhoraram.
7. Como lidar com o TARE durante as festas de fim de ano?
As festas de fim de ano podem ser especialmente desafiadoras para pessoas com TARE. A pressão para comer, a abundância de alimentos desconhecidos e as expectativas sociais podem aumentar a ansiedade. Mas com um pouco de planejamento, é possível passar por esse período de forma mais tranquila.
Dicas para a pessoa com TARE:
– Planeje com antecedência: Se você sabe que vai a uma festa, pense com antecedência no que vai comer. Se possível, converse com o anfitrião para saber o que será servido.
– Leve seus próprios alimentos: Se você não se sente confortável com as opções do cardápio, leve seus próprios alimentos. A maioria das pessoas não vai se importar.
– Escolha um lugar tranquilo: Se a festa for muito barulhenta ou agitada, escolha um lugar mais tranquilo para comer.
– Traga um amigo: Ter alguém de confiança por perto pode ajudar a reduzir a ansiedade.
– Use técnicas de relaxamento: Se você começar a se sentir ansioso, use técnicas de respiração ou mindfulness para se acalmar.
– Não se force: Não se sinta obrigado a comer algo que não quer. É melhor comer pouco do que passar mal.
– Foque no que você pode controlar: Em vez de se preocupar com o que os outros vão pensar, foque em como você está se sentindo.
Dicas para familiares e amigos:
– Não faça comentários sobre a comida: Evite frases como “Você precisa experimentar isso!” ou “Por que não está comendo?”.
– Ofereça opções seguras: Se possível, ofereça alimentos que você sabe que a pessoa aceita.
– Respeite o espaço da pessoa: Se a pessoa precisar de um tempo sozinha, respeite.
– Foque na companhia, não na comida: Lembre-se de que o mais importante nas festas é estar com as pessoas que amamos, não o que comemos.
– Tenha um plano B: Se a pessoa estiver muito ansiosa, tenha um plano para sair mais cedo ou para que ela possa se retirar para um lugar tranquilo.
Exemplo concreto:
A família de Ana, 14 anos, planejou o Natal assim:
– Antes da festa: A mãe de Ana conversou com a família e explicou sobre o TARE. Ela pediu que ninguém comentasse sobre a alimentação de Ana.
– Cardápio: A mãe de Ana preparou alguns pratos que ela aceita comer (arroz branco, frango desfiado, purê de batata).
– Lugar tranquilo: Ana escolheu sentar em um lugar mais afastado da mesa principal, onde pudesse comer sem se sentir observada.
– Plano B: Se Ana ficasse muito ansiosa, ela poderia ir para o quarto e comer mais tarde.
– Foco na companhia: A família combinou de fazer atividades que não envolvessem comida, como jogos de tabuleiro e troca de presentes.
Resultado: Ana conseguiu aproveitar o Natal sem se sentir pressionada. Ela comeu um pouco dos pratos que aceita e se divertiu com a família.
8. TARE pode estar relacionado a outros transtornos mentais?
Sim, o TARE frequentemente ocorre junto com outros transtornos mentais. Isso não significa que um cause o outro, mas que eles podem compartilhar fatores de risco ou se influenciar mutuamente.
Transtornos comumente associados ao TARE:
1. Transtornos de ansiedade:
– Transtorno de ansiedade generalizada: Preocupação excessiva com várias áreas da vida, incluindo a alimentação.
– Transtorno de pânico: Medo intenso de ter ataques de pânico, que podem ser desencadeados pela ansiedade em relação à comida.
– Fobias específicas: Medo intenso de engasgar, vomitar ou passar mal depois de comer.
- Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC):
- Algumas pessoas com TARE têm rituais relacionados à comida, como cortar os alimentos de uma forma específica ou mastigar um número exato de vezes.
-
Também pode haver medo de contaminação (por exemplo, medo de que a comida esteja estragada).
-
Transtorno do espectro autista (TEA):
- Muitas pessoas com TEA têm sensibilidades sensoriais que afetam a alimentação.
-
A diferença é que, no TEA, essas sensibilidades fazem parte de um padrão mais amplo de comportamentos.
-
Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH):
- Pessoas com TDAH podem ter dificuldade em manter uma rotina alimentar regular.
-
Também podem ter menos interesse pela comida por estarem muito focadas em outras atividades.
-
Depressão:
- A depressão pode causar perda de apetite, o que pode ser confundido com TARE.
-
Por outro lado, o TARE pode levar à depressão devido ao isolamento social e à baixa autoestima.
-
Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT):
- Traumas, como abuso ou acidentes, podem desencadear TARE.
- Por exemplo, uma pessoa que engasgou gravemente pode desenvolver medo de comer.
O que fazer se houver outros transtornos:
– Tratamento integrado: É importante que todos os transtornos sejam tratados ao mesmo tempo. Por exemplo, se a pessoa tem TARE e ansiedade, o tratamento deve abordar ambos.
– Comunicação entre profissionais: Os profissionais que acompanham a pessoa devem se comunicar para garantir que o tratamento seja coordenado.
– Priorização: Em alguns casos, pode ser necessário tratar um transtorno antes do outro. Por exemplo, se a ansiedade estiver muito intensa, pode ser difícil trabalhar a exposição a novos alimentos.
Exemplo concreto:
João, 12 anos, foi diagnosticado com TARE e transtorno de ansiedade generalizada. Seu tratamento incluiu:
– Terapia: João fez TCC para trabalhar tanto a ansiedade quanto o TARE. O terapeuta o ajudou a identificar pensamentos ansiosos (“Vou engasgar se comer isso”) e a desenvolver estratégias para lidar com eles.
– Medicamentos: João tomou um antidepressivo para ajudar com a ansiedade. Isso facilitou a exposição a novos alimentos.
– Exposição gradual: João começou a reintroduzir alimentos que evitava, um de cada vez. A exposição foi feita de forma gradual para não aumentar a ansiedade.
– Técnicas de relaxamento: João aprendeu técnicas de respiração e mindfulness para usar quando se sentisse ansioso.
Após alguns meses, João conseguiu aumentar sua variedade de alimentos e reduzir significativamente sua ansiedade.
9. Como é o tratamento do TARE no SUS?
O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento para transtornos alimentares, incluindo o TARE, mas o acesso pode variar dependendo da região e da disponibilidade de profissionais especializados.
Passo a passo para buscar tratamento no SUS:
1. Unidade Básica de Saúde (UBS):
– O primeiro passo é procurar uma UBS ou posto de saúde perto da sua casa.
– Leve um diário alimentar e uma lista dos sintomas que você ou seu familiar estão apresentando.
– O médico da UBS fará uma avaliação inicial e poderá encaminhar para um especialista.
- Encaminhamento para especialista:
- Dependendo da avaliação, o médico pode encaminhar para:
- Psiquiatra: Para avaliar a necessidade de medicamentos e fazer o diagnóstico.
- Psicólogo: Para psicoterapia.
- Nutricionista: Para acompanhamento nutricional.
-
Em algumas cidades, há serviços especializados em transtornos alimentares, como o Programa de Transtornos Alimentares (PROATA) da UNIFESP em São Paulo.
-
Centros de Atenção Psicossocial (CAPS):
- Os CAPS são serviços especializados em saúde mental que oferecem tratamento para transtornos alimentares.
- Existem diferentes tipos de CAPS:
- CAPS I: Para municípios com população entre 20.000 e 70.000 habitantes.
- CAPS II: Para municípios com população entre 70.000 e 200.000 habitantes.
- CAPS III: Para municípios com população acima de 200.000 habitantes, com funcionamento 24 horas.
- CAPSi: CAPS infantil, para crianças e adolescentes.
- CAPSad: Para pessoas com transtornos decorrentes do uso de álcool e outras drogas.
-
Nos CAPS, o tratamento é multidisciplinar, envolvendo psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e outros profissionais.
-
Hospitais e ambulatórios especializados:
- Em casos mais graves, pode ser necessário internação hospitalar ou tratamento em ambulatórios especializados.
-
Alguns hospitais universitários têm serviços especializados em transtornos alimentares, como:
- Hospital das Clínicas da USP (São Paulo)
- Hospital de Clínicas de Porto Alegre (Rio Grande do Sul)
- Instituto de Psiquiatria da UFRJ (Rio de Janeiro)
-
Tempo de espera:
- Infelizmente, o tempo de espera para uma consulta com especialista no SUS pode ser longo, variando de algumas semanas a vários meses.
- Enquanto espera, você pode:
- Continuar acompanhando na UBS
- Buscar grupos de apoio (presenciais ou online)
- Ler sobre o transtorno para entender melhor o que está acontecendo
Dicas para agilizar o processo:
– Seja persistente: Se o encaminhamento demorar muito, não hesite em voltar à UBS e pedir novamente.
– Busque informações: Pergunte na UBS ou na secretaria de saúde do seu município sobre serviços especializados em transtornos alimentares.
– Use o disque saúde: O número 136 é o disque saúde do Ministério da Saúde. Você pode ligar para tirar dúvidas e buscar orientações.
– Procure organizações não governamentais: Algumas ONGs oferecem apoio a pessoas com transtornos alimentares e podem ajudar a encontrar tratamento.
Exemplo concreto:
A família de Lucas, 8 anos, buscou tratamento para o TARE no SUS:
1. UBS: A mãe de Lucas levou-o à UBS, onde o médico fez uma avaliação inicial e encaminhou para um psiquiatra infantil.
2. Espera: O encaminhamento demorou 3 meses para ser agendado.
3. CAPSi: Enquanto esperava, Lucas começou a ser acompanhado no CAPSi da região. Lá, ele fez terapia com uma psicóloga e recebeu orientações de uma nutricionista.
4. Psiquiatra: Quando a consulta com o psiquiatra finalmente chegou, ele confirmou o diagnóstico de TARE e prescreveu um medicamento para ajudar com a ansiedade.
5. Tratamento contínuo: Lucas continuou sendo acompanhado no CAPSi, com consultas regulares com a psicóloga, a nutricionista e o psiquiatra.
10. O que fazer se a pessoa com TARE se recusar a buscar tratamento?
É comum que pessoas com TARE, especialmente adolescentes e adultos, se recusem a buscar tratamento. Isso pode acontecer por vários motivos:
– Negação: A pessoa pode não reconhecer que tem um problema.
– Vergonha: Ela pode se sentir envergonhada ou com medo de ser julgada.
– Medo: Pode ter medo do tratamento ou de ter que comer alimentos que evita.
– Falta de motivação: Pode não ver o tratamento como uma prioridade.
O que fazer:
1. Converse com a pessoa:
– Escolha um momento tranquilo e sem distrações.
– Use uma linguagem não acusatória. Em vez de dizer “Você precisa se tratar”, tente “Eu percebi que você está sofrendo com a comida. Como posso te ajudar?”.
– Ouça o que a pessoa tem a dizer. Tente entender seus medos e resistências.
– Explique como o tratamento pode ajudar, focando nos benefícios (mais energia, menos ansiedade, melhor qualidade de vida).
- Envolva a pessoa no processo:
- Pergunte o que ela acha que poderia ajudar. Por exemplo: “O que você acha de conversarmos com um nutricionista para te ajudar a encontrar alimentos que você goste?”.
- Dê opções. Por exemplo: “Podemos marcar uma consulta com um psicólogo ou com um psiquiatra. Qual você prefere?”.
-
Comece com pequenos passos. Por exemplo: “Que tal irmos a uma consulta só para conhecer o profissional? Não precisamos decidir nada hoje.”.
-
Busque apoio profissional:
- Um psicólogo ou psiquiatra pode ajudar a pessoa a entender a importância do tratamento.
-
Em alguns casos, pode ser necessário uma intervenção familiar, onde os familiares se reúnem com a pessoa e um profissional para conversar sobre o tratamento.
-
Não force, mas não desista:
- Forçar a pessoa a buscar tratamento pode aumentar sua resistência.
-
Por outro lado, não desista de oferecer ajuda. Mesmo que a pessoa recuse no início, ela pode mudar de ideia com o tempo.
-
Cuide de você:
- Cuidar de alguém que se recusa a buscar tratamento pode ser desgastante. Não negligencie suas próprias necessidades.
- Busque apoio para si mesmo, seja através de terapia, grupos de apoio ou conversas com amigos.
Exemplo concreto:
Maria, 22 anos, se recusava a buscar tratamento para o TARE. Seus pais tentaram:
– Conversa: Os pais de Maria escolheram um momento tranquilo para conversar com ela. Eles disseram: “Percebemos que você está sofrendo com a comida. Não queremos te pressionar, mas queremos te ajudar. O que você acha de irmos juntos a uma consulta com um nutricionista, só para conversar?”.
– Envolvimento: Maria concordou em ir a uma consulta, mas disse que não queria fazer terapia. Os pais respeitaram sua decisão, mas sugeriram que ela começasse com o acompanhamento nutricional.
– Pequenos passos: Na primeira consulta com a nutricionista, Maria só queria conversar sobre seus hábitos alimentares. Aos poucos, ela foi se abrindo e aceitou experimentar novos alimentos.
– Apoio profissional: Os pais de Maria marcaram uma consulta com um psicólogo para eles mesmos, para aprender a lidar melhor com a situação.
– Resultado: Após alguns meses, Maria começou a fazer terapia voluntariamente. Ela disse que se sentiu mais motivada depois de ver os primeiros progressos com a nutricionista.
Quando procurar ajuda urgente
Embora o TARE seja geralmente tratado de forma ambulatorial (sem necessidade de internação), há situações em que é necessário buscar ajuda médica imediatamente. Fique atento aos sinais de alerta e não hesite em procurar um pronto-socorro ou ligar para o SAMU (192) se necessário.
Sinais de alerta que exigem atendimento médico imediato:
- Perda de peso rápida e significativa:
- Perder mais de 10% do peso corporal em um curto período (algumas semanas ou meses)
- Em crianças: não ganhar peso ou altura esperados para a idade
-
O que fazer: Procure um pronto-socorro para avaliação. Pode ser necessário fazer exames para verificar desidratação, desnutrição ou outros problemas de saúde.
-
Desidratação:
- Sede excessiva
- Boca seca
- Pouca ou nenhuma urina
- Urina escura e com cheiro forte
- Tonturas ou desmaios
-
O que fazer: A desidratação pode ser perigosa, especialmente em crianças e idosos. Procure atendimento médico imediatamente.
-
Desmaios ou tonturas frequentes:
- Desmaios ou sensação de que vai desmaiar
- Tonturas ao levantar ou ao fazer esforço
-
O que fazer: Esses sintomas podem indicar pressão baixa, desidratação ou problemas cardíacos. Procure um pronto-socorro.
-
Dor no peito ou batimentos cardíacos irregulares:
- Dor ou aperto no peito
- Batimentos cardíacos acelerados, lentos ou irregulares
- Falta de ar
-
O que fazer: Esses sintomas podem indicar problemas cardíacos graves. Ligue para o SAMU (192) ou procure um pronto-socorro imediatamente.
-
Confusão mental ou dificuldade para se concentrar:
- Dificuldade para pensar com clareza
- Confusão sobre onde está ou que dia é
- Dificuldade para se concentrar ou lembrar de coisas simples
-
O que fazer: Esses sintomas podem indicar desnutrição grave ou outros problemas de saúde. Procure atendimento médico.
-
Sinais de deficiências nutricionais graves:
- Queda de cabelo excessiva
- Unhas quebradiças ou com manchas brancas
- Feridas que não cicatrizam
- Formigamento ou dormência nas mãos e pés
- Fraqueza muscular ou dificuldade para andar
-
O que fazer: Procure um médico para avaliação e tratamento das deficiências.
-
Comportamentos de risco:
- Uso de laxantes, diuréticos ou outros medicamentos para controlar o peso
- Exercícios físicos excessivos para compensar a alimentação
- Autoagressão ou pensamentos suicidas
-
O que fazer: Procure ajuda médica imediatamente. Em casos de risco de suicídio, ligue para o CVV (188) ou procure um pronto-socorro.
-
Recusa total em comer ou beber:
- Recusa em comer ou beber por mais de 24 horas
- Em crianças: recusa em comer ou beber por mais de 12 horas
- O que fazer: Procure atendimento médico imediatamente. Pode ser necessário usar uma sonda para garantir a nutrição e hidratação.
O que fazer em caso de emergência:
– Ligue para o SAMU (192): Se a pessoa estiver inconsciente, com dor no peito, dificuldade para respirar ou outros sintomas graves.
– Procure um pronto-socorro: Se a pessoa estiver consciente, mas apresentando sinais de alerta.
– Não espere: Em casos de emergência, cada minuto conta. Não espere para ver se os sintomas melhoram.
– Leve informações: Se possível, leve informações sobre o histórico médico da pessoa, medicamentos em uso e alergias.
Exemplo concreto:
Ana, 16 anos, estava em tratamento para TARE, mas seus sintomas pioraram repentinamente:
– Ela começou a recusar qualquer alimento, mesmo os que antes aceitava
– Perdeu 5 kg em duas semanas
– Estava sempre cansada e tinha dificuldade para se concentrar na escola
– Teve um desmaio durante a aula de educação física
O que a família fez:
– Levaram Ana ao pronto-socorro imediatamente
– No hospital, Ana foi avaliada por um médico, que pediu exames de sangue e um eletrocardiograma
– Os exames mostraram que Ana estava desidratada e com deficiências nutricionais graves
– Ana foi internada para receber hidratação intravenosa e alimentação por sonda
– Após alguns dias, ela começou a se alimentar melhor e recebeu alta com acompanhamento ambulatorial intensivo
Lembre-se:
O TARE é um transtorno sério, mas tratável. Com o tratamento adequado, a maioria das pessoas consegue melhorar significativamente sua relação com a comida e recuperar sua qualidade de vida. Não hesite em buscar ajuda – você não está sozinho.
Referências
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022. Disponível em: https://icd.who.int/
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/
- Thomas, J. J., & Eddy, K. T. Cognitive-Behavioral Therapy for Avoidant/Restrictive Food Intake Disorder: Children, Adolescents, and Adults. Cambridge University Press, 2018.
- Bryant-Waugh, R. Avoidant/Restrictive Food Intake Disorder in Childhood and Adolescence: A Practical Guide to Assessment and Treatment. Routledge, 2020.
- Zucker, N. L., et al. “Psychological and Psychosocial Impairment in Preschoolers With Selective Eating.” Pediatrics, vol. 136, no. 3, 2015, pp. e582-e590.
- Fisher, M. M., et al. “Characteristics of Avoidant/Restrictive Food Intake Disorder in Children and Adolescents: A ‘New’ Disorder in DSM-5.” Journal of Adolescent Health, vol. 55, no. 1, 2014, pp. 49-52.
- Norris, M. L., et al. “Avoidant/Restrictive Food Intake Disorder: An Updated Review.” Current Psychiatry Reports, vol. 22, no. 9, 2020, p. 45.
- Programa de Transtornos Alimentares (PROATA) – UNIFESP. Transtornos Alimentares: Guia Prático de Tratamento. 2019. Disponível em: https://www.proata.org.br/
- Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) – Ministério da Saúde. Saúde Mental em Dados. 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.