Definição e epidemiologia
O Transtorno Alimentar Relacionado ao Sono (TARS) é uma parassonia caracterizada por episódios recorrentes de ingestão alimentar involuntária e inconsciente durante o sono principal, com graus variados de consciência e amnésia subsequente. Constitui uma forma especializada de sonambulismo, distinta de outros transtornos alimentares conscientes. O comportamento ocorre após o início do sono, tipicamente durante os estágios de sono não-REM (movimento não rápido dos olhos), e envolve a preparação e consumo de alimentos, frequentemente de forma desorganizada ou com escolhas alimentares atípicas (como combinações estranhas ou consumo de substâncias não comestíveis). O quadro acarreta risco significativo de consequências adversas à saúde, como ingestão de produtos tóxicos, comportamentos perigosos na cozinha, ganho de peso e prejuízos psicossociais.
Nos sistemas classificatórios, o TARS está inserido no capítulo de Transtornos do Sono-Vigília. No DSM-5-TR, é categorizado como Transtorno Alimentar Relacionado ao Sono, sob o código 307.52 (F51.8), exigindo episódios recorrentes de alimentação noturna após o despertar do sono, com consciência prejudicada durante o episódio e lembrança limitada ao despertar. A CID-11 o classifica como Parassonia, subtipo Transtorno Alimentar Relacionado ao Sono (7B00.Y), destacando a dissociação entre o comportamento motor complexo e o estado de consciência.
Dados epidemiológicos precisos são limitados devido ao subdiagnóstico. Estima-se que a prevalência na população geral seja baixa, mas significativamente mais elevada em populações clínicas, especialmente entre pacientes com outros transtornos do sono. A síndrome do comer noturno (SCN), uma condição consciente e distinta, tem prevalência de cerca de 2% na população geral, mas chega a 10-15% entre pacientes com obesidade. O TARS, por ser uma parassonia, apresenta comorbidade notável com outras parassonias, particularmente sonambulismo (cerca de 80-90% dos casos), síndrome das pernas inquietas e apneia obstrutiva do sono. A distribuição por sexo é mais comum em mulheres, e o início costuma ocorrer no final da adolescência ou no início da idade adulta (entre 20 e 30 anos), embora relatos existam em outras faixas etárias. Dados epidemiológicos brasileiros específicos são escassos, mas a prevalência é considerada semelhante à observada em estudos internacionais, com a ressalva de que o acesso ao diagnóstico polissonográfico pode subnotificar casos.
Os principais fatores de risco incluem história familiar de parassonias (especialmente sonambulismo), privação de sono, sono fragmentado, horários de trabalho irregulares (turnos), estresse psicossocial e o uso de determinados medicamentos psicotrópicos (e.g., zolpidem, triazolam, olanzapina, risperidona). O curso clínico é tipicamente crônico e flutuante, com períodos de exacerbação associados a fatores desencadeantes. A remissão espontânea é incomum na idade adulta. O prognóstico está intimamente ligado ao manejo adequado das comorbidades do sono e à identificação e suspensão de agentes farmacológicos precipitantes.
Etiopatogenia e neurobiologia
A etiopatogenia do TARS é compreendida dentro do modelo das parassonias do despertar, que envolve uma dissociação nos estados de vigília, sono REM e sono não-REM. A hipótese central postula uma instabilidade na transição entre o sono de ondas lentas (estágios N3) e o despertar parcial, permitindo a liberação de comportamentos motores automáticos e complexos (como andar e comer) enquanto a consciência e a memória permanecem em estado de sono.
Fatores Genéticos e Familiares: Existe uma forte predisposição genética. Indivíduos com TARS frequentemente possuem história familiar de sonambulismo ou outras parassonias. Estudos com gêmeos e familiares sugerem um componente hereditário substancial, embora os genes específicos ainda não tenham sido completamente identificados. A síndrome do comer noturno, condição diferencial, também apresenta agregação familiar, com risco cinco vezes maior em parentes de primeiro grau.
Fatores Neurobiológicos e de Neurotransmissão: A instabilidade do despertar está associada a alterações nos sistemas de neurotransmissão que regulam a estabilidade do ciclo sono-vigília e a inibição motora durante o sono.
- GABA e Glutamato: O desequilíbrio entre a neurotransmissão gabaérgica (inibitória) e glutamatérgica (excitatória) no córtex cerebral e no tálamo pode facilitar a ocorrência de despertar parcial e atividade motora durante o sono. Sedativos hipnóticos do tipo zolpidem, que atuam em sub-receptores GABA-A, paradoxalmente podem precipitar ou exacerbar episódios em indivíduos predispostos, possivelmente por induzir uma dissociação mais profunda.
- Serotonina (5-HT) e Dopamina: Esses sistemas modulam o humor, o impulso e os comportamentos repetitivos. Disfunções podem estar relacionadas ao componente compulsivo observado em alguns episódios. A associação com medicamentos antipsicóticos (olanzapina, risperidona) sugere uma interação com os receptores dopaminérgicos e serotoninérgicos.
- Orexina/Hipocretina: Este neuropeptídeo, crucial na manutenção da vigília e na estabilidade dos estados de sono, pode estar envolvido. Sua desregulação é central na narcolepsia, condição também associada a parassonias.
Fatores Precipitantes e de Manutenção:
- Fragmentação do Sono: Qualquer condição que fragmente o sono de ondas lentas pode desencadear episódios. Isso inclui apneia obstrutiva do sono, síndrome das pernas inquietas, ruídos ambientais e dor.
- Privação de Sono: Aumenta a pressão de sono e a profundidade do sono de ondas lentas subsequente, tornando os despertares parciais mais prováveis.
- Fatores Farmacológicos: Como citado, zolpidem e outros agonistas do receptor benzodiazepínico, benzodiazepínicos propriamente ditos (triazolam) e alguns antipsicóticos atípicos são precipitantes conhecidos.
- Fatores Psicológicos e de Estresse: O estresse agudo e a ansiedade podem aumentar a fragmentação do sono e servir como gatilho para episódios em indivíduos predispostos.
Achados de Neuroimagem: Pesquisas são limitadas, mas estudos de neuroimagem funcional em sonâmbulos sugerem padrões atípicos de ativação cerebral durante o sono de ondas lentas, com áreas motoras e de processamento emocional apresentando atividade relativa aumentada, enquanto regiões frontais associadas ao controle executivo e à memória permanecem inibidas. Este padrão pode ser extrapolado para o TARS.
Quadro clínico
A apresentação clínica do TARS é característica, envolvendo um comportamento alimentar automático e dissociado durante o sono.
Sintomas Cardinais e Comportamentais:
- Episódios de Ingestão Noturna Inconsciente: O paciente levanta-se da cama após o início do sono (geralmente na primeira metade da noite), vai até a cozinha e prepara ou consome alimentos. A ação é realizada com os olhos abertos, mas com um olhar vazio ou fixo.
- Consciência Alterada e Amnésia: Durante o episódio, a responsividade é marcadamente reduzida. Esforços para comunicação são ineficazes ou recebem respostas monossilábicas e incoerentes. Ao despertar pela manhã ou durante o episódio, há pouca ou nenhuma memória do evento. Os pacientes podem descobrir evidências indiretas: restos de comida na cama, na pia, embalagens abertas, utensílios sujos ou, em casos graves, queimaduras ou cortes.
- Natureza da Ingestão:
- Alimentos Incomuns: Consumo de combinações bizarras (e.g., manteiga com açúcar, carne crua), alimentos que o paciente normalmente não comeria ou, em sua forma pura, substâncias não comestíveis ou perigosas (e.g., produtos de limpeza, ração animal, cigarros).
- Comportamento Alimentar Caótico: Comer de forma voraz, desordenada, derramando comida. A preparação pode ser perigosa (ligar o fogão, manusear facas).
- Resistência à Intervenção: Tentativas de interromper o episódio podem encontrar resistência passiva ou, raramente, agressividade.
- Ausência de Preocupação com Peso/Forma Corporal: Diferente da bulimia nervosa ou do transtorno de compulsão alimentar, não há culpa consciente, comportamentos compensatórios (vômitos, uso de laxantes) ou preocupação egodistônica com o peso relacionada a esses episódios noturnos.
Sintomas Associados e Comorbidades:
- Distúrbios do Sono: História de sonambulismo (comum), terror noturno, síndrome das pernas inquietas, apneia obstrutiva do sono. A eficiência do sono é frequentemente baixa.
- Sintomas Diurnos: Fadiga, sonolência diurna excessiva (devido à fragmentação do sono), cefaleia matinal ocasional. Não há anorexia matinal típica da síndrome do comer noturno consciente.
- Consequências Médicas: Risco de intoxicação, lesões (cortes, queimaduras), ganho de peso, agravamento de diabetes mellitus, cáries dentárias. O impacto psicossocial inclui vergonha, conflitos familiares e medo de dormir fora de casa.
Especificadores e Variantes: O DSM-5-TR não propõe subtipos formais, mas a apresentação pode variar quanto ao grau de consciência (completa inconsciência vs. estado de confusão) e ao tipo de alimento consumido. A "sexsônia" (comportamento sexual no sono) é uma parassonia análoga, também enquadrada como um comportamento motor complexo dissociado.
Avaliação e diagnóstico
O diagnóstico é clínico, baseado na história detalhada colhida do paciente e, fundamentalmente, de um informante (cônjuge, familiar que testemunha os episódios). A confirmação polissonográfica é o padrão-ouro.
Entrevista Clínica e Anamnese:
- História dos Episódios: Caracterizar frequência, horário habitual, comportamentos específicos (levanta, prepara comida, come), tipos de alimentos, nível de consciência e memória residual. Perguntar sobre consumo de substâncias não comestíveis.
- História do Sono: Hábito de sonambulismo na infância ou atualmente. Sintomas de apneia (ronco, pausas respiratórias, engasgos), síndrome das pernas inquietas (desconforto nas pernas à noite), privação de sono.
- História Psiquiátrica e Alimentar: Rastrear ativamente transtornos alimentares conscientes (bulimia, compulsão alimentar), transtornos de humor e ansiedade. Esclarecer a ausência de preocupação com peso e comportamentos compensatórios relacionados aos episódios noturnos.
- História Farmacológica: Lista completa de medicamentos, com atenção especial a hipnóticos (zolpidem, zopiclona), benzodiazepínicos, antipsicóticos, antidepressivos e anticonvulsivantes.
- História Familiar: Parassonias em parentes de primeiro grau.
Exame do Estado Mental: Geralmente normal durante a vigília. Pode revelar embaraço ou minimização dos sintomas. Nenhum achado patognomônico está presente no exame diurno.
Escalas e Instrumentos: Não existem escalas validadas especificamente para TARS no Brasil. Questionários gerais de parassonias e de qualidade do sono podem ser úteis, como o Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh (PSQI-BR) e diários de sono-alimentação.
Exames Complementares:
- Polissonografia Noturna com Canal de Vídeo (Padrão-Ouro): Imperativa para confirmar o diagnóstico. O exame deve incluir sensores de EMG na masseter (para detectar mastigação) e, idealmente, ter a possibilidade de o paciente levantar-se. O vídeo sincronizado documenta o episódio de alimentação ocorrendo durante o sono, tipicamente a partir do estágio N3. A PSG também é crucial para diagnosticar comorbidades como apneia obstrutiva do sono e movimentos periódicos dos membros.
- Avaliação Laboratorial: Não é diagnóstica, mas pode ser indicada para investigar consequências (glicemia, perfil lipídico) ou condições médicas subjacentes. Dosagens hormonais (leptina, grelina, cortisol) são de uso restrito à pesquisa.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Características Distintivas | Consciência durante o Episódio | Memória | Preocupação com Peso/Forma |
|---|---|---|---|---|
| TARS | Episódio ocorre após início do sono. Comportamento automático, ingestão de itens estranhos. | Alterada/Inconsciente | Ausente ou muito limitada | Ausente |
| Síndrome do Comer Noturno (SCN) | Consumo excessivo após o jantar ou em despertares conscientes. Hiperfagia consciente. | Plenamente consciente | Íntegra | Presente, mas menos que em outros TA. Anorexia matinal. |
| Transtorno de Compulsão Alimentar | Episódios de ingestão voraz de grande quantidade de comida em curto período, com sensação de perda de controle. Ocorre durante a vigília. | Plenamente consciente | Íntegra | Presente, com forte culpa e angústia. |
| Bulimia Nervosa | Episódios de compulsão alimentar seguidos de comportamentos compensatórios inadequados (vômitos, laxantes). Ocorre durante a vigília. | Plenamente consciente | Íntegra | Presente e central. |
| Sonambulismo Simples | Pode deambular até a cozinha, mas não há ingestão sistemática de alimentos. | Alterada/Inconsciente | Ausente | Ausente |
| Efeito Adverso de Medicamento | História temporal clara de início após introdução de fármaco (e.g., zolpidem). | Variável, frequentemente alterada. | Limitada. | Ausente. |
Armadilhas Diagnósticas e Comorbidades Frequentes:
- Principal Armadilha: Confundir TARS com Síndrome do Comer Noturno ou Transtorno de Compulsão Alimentar. A chave é a avaliação do estado de consciência e memória durante o episódio, que depende de um informante confiável.
- Comorbidades Psiquiátricas: Transtornos de humor (especialmente depressão), transtornos de ansiedade e, menos comumente, outros transtornos alimentares podem coexistir, mas são entidades separadas.
- Comorbidades do Sono: Apneia obstrutiva do sono, síndrome das pernas inquietas/ movimento periódico dos membros e bruxismo são frequentes e devem ser tratadas prioritariamente, pois seu manejo pode resolver ou atenuar significativamente o TARS.
Tratamento farmacológico
Não há medicamentos com indicação formal aprovada pela ANVISA para o TARS. O tratamento farmacológico é empírico, baseado em relatos de caso, séries pequenas e extrapolação do tratamento do sonambulismo. A primeira e mais crucial intervenção é a suspensão de agentes precipitantes (como zolpidem) e o tratamento agressivo de comorbidades do sono (e.g., CPAP para apneia).
Algoritmo Terapêutico Baseado em Evidências:
- Avaliação e Manejo de Fatores Precipitantes: Suspender/ajustar medicamentos associados. Tratar apneia do sono, síndrome das pernas inquietas. Otimizar higiene do sono.
- Intervenções Não Farmacológicas: Medidas de segurança e psicoterapia (CBT-I) são a base inicial.
- Farmacoterapia de 1ª Linha: Considerada quando as medidas acima falham e os episódios são frequentes, perigosos ou causam significativo sofrimento.
- Clonazepam: É o agente mais comumente utilizado. Um benzodiazepínico de longa ação que parece aumentar o limiar para despertar parcial e estabilizar o sono. Dose: 0,25 a 1 mg, administrado 30-60 minutos antes de dormir. Monitoramento: Sedação diurna, tolerância, dependência. Deve-se evitar em pacientes com história de abuso de substâncias. A retirada deve ser gradual.
- Farmacoterapia de 2ª Linha: Alternativas quando há contraindicação ou falta de resposta ao clonazepam.
- Antidepressivos com ação serotoninérgica: Paroxetina, sertralina ou trazodona em doses baixas a moderadas. O mecanismo é incerto, possivelmente relacionado à supressão do sono de ondas lentas ou à modulação da serotonina. Dose: Paroxetina 10-40 mg/dia; Sertralina 50-100 mg/dia; Trazodona 25-100 mg ao deitar.
- Topiramato: Anticonvulsivante com múltiplos mecanismos. Pode ser útil, especialmente se houver componente compulsivo ou comorbidade com transtorno de compulsão alimentar. Dose: 25 a 100 mg ao deitar. Monitoramento: Efeitos cognitivos (confusão, dificuldade de memória), parestesias, risco de nefrolitíase.
- Farmacoterapia de 3ª Linha/Experimental: Agentes como melatonina de liberação prolongada (2-10 mg) ou agonistas dopaminérgicos (pramipexol) podem ser tentados, especialmente se houver forte componente de síndrome das pernas inquietas.
Situações Especiais:
- Gestação e Lactação: A farmacoterapia deve ser evitada. Ênfase máxima em medidas não farmacológicas e de segurança.
- Idosos: Maior sensibilidade a benzodiazepínicos (risco de confusão, quedas). Doses mínimas, se necessárias. Clonazepam deve ser usado com extrema cautela.
- Comorbidades Clínicas: Em pacientes com obesidade ou síndrome metabólica, considerar o perfil de efeitos adversos dos fármacos (e.g., topiramato pode causar perda de peso, enquanto alguns antidepressivos podem ganho).
Protocolos Brasileiros: O TARS não é abordado especificamente em diretrizes nacionais amplamente divulgadas. O RENAME (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais) lista o clonazepam, que pode ser utilizado dentro da sua indicação principal (ansiedade/convulsões) de forma off-label, com justificativa clínica detalhada no prontuário. A decisão deve seguir os princípios da Resolução CFM nº 2.057/2013, que regulamenta a prescrição médica off-label.
Tratamento não farmacológico
As intervenções não farmacológicas são fundamentais e, em muitos casos, suficientes para o controle do transtorno.
Psicoterapias:
- Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (CBT-I): É a psicoterapia com maior evidência de suporte. Não trata o TARS diretamente, mas melhora a consolidação e a eficiência do sono, reduzindo a fragmentação que precipita os episódios. Técnicas como controle de estímulo, restrição de sono e reestruturação cognitiva sobre o sono são aplicadas.
- Terapia Comportamental: Foco em técnicas de higiene do sono avançada, protocolos de despertares programados (para sonambulismo, com aplicação limitada no TARS) e manejo de contingências.
- Psicoeducação: Inserida no contexto terapê, é vital para o paciente e a família compreenderem a natureza involuntária do distúrbio, reduzindo a culpa e o estigma.
Intervenções Psicossociais e de Segurança:
- Adaptação Ambiental (Proteção do Sono): Medida prática mais importante.
- Trancar a cozinha ou a despensa durante a noite.
- Colocar alarmes nas portas do quarto ou da cozinha para acordar o cônjuge.
- Remover objetos perigosos da cozinha (facas, fósforos) e desligar o gás do fogão à noite.
- Não manter substâncias não comestíveis ou tóxicas em locais de fácil acesso.
- Instalar grades de proteção em escadas.
- Suporte Familiar: Envolver a família no plano de segurança e no monitoramento. Educar sobre como conduzir o paciente de volta à cama de forma calma e segura durante um episódio, sem tentar acordá-lo ou confrontá-lo bruscamente.
- Reabilitação Psiquiátrica: Em casos graves com prejuízo funcional significativo, pode ser necessário apoio para manejo das consequências sociais e ocupacionais.
Procedimentos: Não há indicação estabelecida para ECT (Eletroconvulsoterapia), TMS (Estimulação Magnética Transcraniana) ou estimulação do nervo vago no tratamento do TARS.
Manejo clínico prático
O manejo requer uma abordagem sequencial e integrada.
Tomada de Decisão Clínica:
- Confirmação Diagnóstica: Priorizar a PSG com vídeo para confirmar TARS e descartar/aprimorar tratamento de apneia/SPI.
- Intervenções de Primeira Linha: Implementar imediatamente medidas de segurança ambiental e otimizar a higiene do sono. Suspender medicamentos precipitantes. Tratar comorbidades do sono identificadas na PSG.
- Início da Farmacoterapia: Considerar clonazepam se os episódios persistirem perigosos ou angustiantes após 4-8 semanas de medidas iniciais. Iniciar com dose baixa (0,25 mg) e titular conforme resposta e tolerabilidade.
- Troca ou Combinação: Em caso de resposta parcial ao clonazepam, pode-se aumentar a dose até 1 mg ou adicionar um antidepressivo de 2ª linha (e.g., trazodona em baixa dose). A combinação deve ser cautelosa devido ao risco de sedação excessiva.
Monitoramento da Resposta: A eficácia é avaliada pela redução na frequência e na periculosidade dos episódios, relatada pelo informante. Manter um diário de episódios. A melhora na sonolência diurna e na qualidade de vida são marcadores secundários. A remissão é definida como a ausência de episódios por um período prolongado (e.g., 3 meses), com manutenção das medidas de segurança.
Manejo da Resistência Terapêutica: Reavaliar o diagnóstico (confirmar com nova PSG se necessário). Investigar adesão às medidas de segurança e ao tratamento de comorbidades. Revisar a farmacoterapia e considerar alternativas de 2ª e 3ª linhas. Encaminhar para centro especializado em medicina do sono.
Contexto Brasileiro (SUS, CAPS, Acesso):
- SUS/CAPS: O diagnóstico e manejo iniciais podem ocorrer no CAPS, mas o acesso à polissonografia é o maior gargalo, com filas longas. O profissional do CAPS deve priorizar a suspeita clínica, implementar medidas de segurança e psicoeducação, e buscar encaminhamento para ambulatório de sono ou neurologia do hospital de referência para confirmação diagnóstica.
- Acesso a Medicamentos: Clonazepam está disponível no SUS (Componente Estratégico) e na Farmácia Popular. Antidepressivos como sertralina e paroxetina também estão amplamente disponíveis. Topiramato pode exigir aquisição em farmácia de alto custo ou via judicial, dependendo da apresentação.
- Desafios: A falta de informante (pacientes que moram sozinhos) dificulta o diagnóstico e o monitoramento. A educação de profissionais de saúde primária para reconhecer e diferenciar o TARS de transtornos alimentares comuns é essencial.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Para o paciente, a experiência é frequentemente de perplexidade, vergonha e medo. Eles acordam com evidências de algo que não lembram ter feito, sentindo-se fora de controle de seu próprio corpo durante a noite. A principal queixa costuma ser "acordo com a cozinha revirada e não me lembro de ter feito isso", acompanhada de preocupação com os riscos (ter se machucado, comido algo errado) e com o ganho de peso inexplicável.
Psicoeducação:
- Para o Paciente: Explicar que o TARS é um transtorno do sono, não um transtorno alimentar de vontade própria. É como uma forma de "sonambulismo para comer". Enfatizar que não é falta de força de vontade, nem um problema moral. O cérebro está parcialmente dormindo enquanto o corpo executa um comportamento automático.
- Para a Família: É crucial que a família compreenda a natureza involuntária. Instruí-los a não ridicularizar, acusar ou tentar acordar o paciente bruscamente durante um episódio (o que pode causar reação de susto e agressividade). Orientar a guiá-lo calmamente de volta para a cama. Envolvê-los como aliados no plano de segurança (trancar portas, esconder chaves).
Impacto Funcional: Pode levar a isolamento social (medo de dormir na casa de amigos), conflitos conjugais, ansiedade antecipatória ao deitar, prejuízos no trabalho devido à fadiga diurna e problemas de saúde física (obesidade, diabetes descontrolado).
Adesão ao Tratamento:
- Barreiras: Vergonha que leva a não relatar o problema; dificuldade em implementar medidas de segurança (trancar a cozinha) em casa; medo de efeitos colaterais de medicamentos; custo/ acesso à PSG.
- Estratégias: Abordagem não julgadora e validante. Elaborar um plano de segurança simples e factível com a família. Explicar claramente os riscos da não-intervenção versus os benefícios do tratamento. No SUS, atuar como facilitador do encaminhamento para exames especializados.
Perguntas frequentes
1. Isso é um tipo de compulsão alimentar ou bulimia?
Não. Embora envolva comer, o Transtorno Alimentar Relacionado ao Sono é um problema do controle do ciclo sono-vigília. A pessoa está praticamente dormindo durante o episódio, não tem consciência plena e não se lembra depois. Não há a culpa, a preocupação extrema com o corpo ou os comportamentos para compensar (como vômitos) típicos da bulimia ou da compulsão alimentar consciente.
2. É perigoso?
Sim, pode ser. Os riscos incluem: ingerir alimentos estragados ou substâncias não comestíveis (como produtos de limpeza), sofrer queimaduras ou cortes ao preparar comida de forma desatenta, cair ou se machucar ao deambular pela casa no escuro, e ganho de peso significativo com suas complicações metabólicas.
3. Meu filho toma zolpidem para dormir e começou a ter esses episódios. O que fazer?
O zolpidem é um conhecido desencadeador desse transtorno em pessoas predispostas. Você deve relatar isso imediatamente ao médico que prescreveu o medicamento. Nunca suspenda por conta própria, mas a orientação provavelmente será a de reduzir e interromper o zolpidem de forma segura, sob supervisão médica. Muitas vezes, apenas a suspensão do remédio resolve o problema.
4. Preciso mesmo fazer a polissonografia (estudo do sono)?
É altamente recomendável, pois é o exame que confirma o diagnóstico. Ele não só registra se você come durante o sono, mas, mais importante, descobre se há outros problemas que estão causando o TARS, como apneia (paradas respiratórias) ou síndrome das pernas inquietas. Tratar essas outras condições pode curar o comer noturno.
5. Existe cura?
Muitos pacientes conseguem um controle excelente dos sintomas, com episódios se tornando muito raros ou cessando completamente. O "controle" é alcançado através da combinação de: tratar outras condições do sono, manter uma ótima higiene do sono, usar medidas de segurança em casa e, em alguns casos, com medicamentos por um tempo determinado. É um transtorno gerenciável.
6. Se eu trancar a comida, a pessoa não vai ficar frustrada e piorar?
Como o episódio ocorre em um estado de consciência alterada, a pessoa não tem a percepção ou a frustração consciente de que a comida está trancada. A medida de segurança é justamente para proteger o paciente durante esse estado dissociado. É uma ação protetora, não punitiva.
7. Devo tentar acordar a pessoa durante um episódio?
Não é recomendado. Tentar acordar alguém durante um episódio de parassonia pode causar confusão, desorientação e, em alguns casos, uma reação defensiva de susto que leva a agitação ou agressividade. A orientação é guiar a pessoa calmamente e com instruções simples de volta para a cama.
8. Isso é hereditário? Passei para meus filhos?
Existe uma predisposição genética forte para parassonias em geral, como sonambulismo e TARS. Ter um parente de primeiro grau com o transtorno aumenta o risco. Se seus filhos apresentarem sinais, como sonambulismo, é importante manter uma boa higiene do sono desde cedo para reduzir a chance de desenvolver o transtorno alimentar relacionado ao sono.
Referências
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. Genebra: OMS, 2022.
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.057/2013. Dispõe sobre a prescrição médica de medicamentos com princípios ativos não registrados na ANVISA ou com indicação terapê utica não constantes de bula.
- Ministério da Saúde (BR). Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). 2022.
- Schenck, C.H., & Mahowald, M.W. (2002). Parasomnias: Managing bizarre sleep-related behavior disorders. Postgraduate Medicine, 111(3), 38-52.
- Howell, M.J., & Schenck, C.H. (2015). Treatment of Nocturnal Eating Disorders. Current Treatment Options in Neurology, 17(8), 361.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.