Transe Dissociativo Não-Espiritual

Definição e conceito

O Transe Dissociativo Não-Espiritual é um estado de alteração qualitativa da consciência caracterizado por um estreitamento do campo da consciência e da atenção, acompanhado de automatismos motores estereotipados e suspensão parcial dos movimentos voluntários. Este fenômeno é classificado como um quadro dissociativo de natureza psicogênica, onde o indivíduo vivencia uma alienação da realidade, comportando-se como se estivesse imerso em um sonho ou "dentro de um sonho" (Cheniaux, 2021). A experiência subjetiva é frequentemente descrita como um distanciamento do ambiente imediato, com o paciente podendo agir como se estivesse em outro lugar ou em outra época de sua vida, emitindo verbalizações incompreensíveis ou apresentando conduta bizarra e chamativa.

Na nosografia psiquiátrica contemporânea, este estado se enquadra na categoria dos Transtornos Dissociativos. A CID-11 inclui especificamente o "Transtorno de Transe e Possessão" (6B63), que pode ser subespecificado como "induzido por transtorno mental" quando não está vinculado a práticas culturais ou religiosas normativas de um grupo. O DSM-5-TR, por sua vez, não possui uma categoria diagnóstica específica para "transe", mas o fenômeno pode ser avaliado sob os critérios do Transtorno Dissociativo Não Especificado ou, quando associado a uma perturbação da identidade, do Transtorno Dissociativo de Identidade. É fundamental diferenciá-lo do transe culturalmente sancionado, que é um fenômeno não patológico, amplamente difundido em diversas culturas e religiões (como no espiritismo kardecista, em rituais de possessão do candomblé ou em cultos pentecostais), onde o estado alterado de consciência é um recurso religioso e sociocultural legitimado para lidar com adversidades (Dalgalarrondo, 2018).

A terminologia técnica correlata inclui:

  • Estados Crepusculares: Termo clássico que descreve o estreitamento da consciência, característico do transe dissociativo, onde o campo da consciência se restringe a um conjunto limitado de ideias e percepções.
  • Dissociação: Mecanismo defensivo inconsciente (não voluntário) no qual há uma desintegração ou desligamento das funções normalmente integradas da consciência, memória, identidade e percepção do ambiente.
  • Automatismos: Comportamentos motores complexos, estereotipados e não dirigidos por uma vontade consciente, executados durante o estado de transe.
  • Consciência do Eu (Autopsíquica): Refere-se à consciência da própria identidade, atividade e unidade. No transe dissociativo, pode haver perturbação da orientação autopsíquica, com alteração da consciência da identidade ou dos limites do eu.

Dados epidemiológicos precisos sobre o transe dissociativo não-espiritual são escassos, pois muitas vezes ele é um sintoma que ocorre no contexto de outros transtornos (dissociativos, de estresse, de personalidade) e não uma síndrome isolada que busca atendimento. Sua prevalência é considerada baixa em serviços de saúde mental gerais, mas pode ser mais frequente em populações expostas a traumas graves ou em contextos de grande estresse psicossocial.

Apresentação clínica

A apresentação clínica do transe dissociativo não-espiritual é marcada por uma dissociação global, afetando múltiplos domínios da experiência psíquica. A manifestação é aguda, episódica e frequentemente relacionada temporalmente a um fator de estresse psicossocial agudo ou a conflitos interpessoais intensos.

Domínio Cognitivo e da Consciência:

  • Estreitamento da Consciência (Estado Crepuscular): É a alteração central. O campo da consciência fica drasticamente reduzido, com a atenção fixada em um conteúdo interno. O paciente parece "alheio", "distante" ou "em outro mundo". A percepção do ambiente externo é turva e incompleta.
  • Desorientação Autopsíquica: Pode haver perturbação na consciência da própria identidade. O paciente pode não saber quem é ou pode assumir, de forma transitória e rudimentar, uma identidade diferente (distinta da complexidade observada no Transtorno Dissociativo de Identidade).
  • Pensamento e Linguagem: O discurso pode ser incoerente, desconexo, com neologismos ou frases estereotipadas e repetitivas. O paciente pode emitir verbalizações "incompreensíveis ou sem sentido" (Cheniaux, 2021). O conteúdo do pensamento está dissociado da realidade imediata.
  • Memória: É comum a amnésia dissociativa para o período do episódio de transe ou para eventos traumáticos que o precipitaram. A memória pode ser recuperada posteriormente, de forma completa ou parcial.

Domínio Comportamental e Motor:

  • Automatismos Motores: Presença de atividade motora automática, não proposital e estereotipada. Pode incluir gestos repetitivos (como bater palmas, balançar o tronco, esfregar as mãos), marcha errante sem destino ou execução de tarefas simples de forma mecânica.
  • Suspensão dos Movimentos Voluntários: O paciente pode ficar imóvel, com o olhar fixo e vago (estado de estupor dissociativo), intercalado com períodos de automatismos.
  • Teatralidade e Comportamento Chamativo: A conduta pode ser bizarra, exagerada e aparentemente destinada a chamar a atenção, embora não seja intencional no sentido consciente. Atores envolvidos em conflitos relacionais podem utilizar a dissociação como uma "estratégia defensiva inconsciente para lidar com ansiedade muito intensa" (Dalgalarrondo, 2018).

Domínio Afetivo:

  • Embotamento Afetivo: A expressão emocional é frequentemente apática, indiferente ou incongruente com a situação.
  • Neotimias: Em alguns casos, especialmente se houver uma vivência de êxtase, podem ocorrer alterações afetivas intensas, como euforia ou exaltação religiosa não contextualizada.
  • Ansiedade Subjacente: O episódio é frequentemente precedido por um pico de ansiedade intolerável, do qual a dissociação serve como um escape.

Domínio Perceptivo:

  • Alterações da Consciência dos Limites do Eu: Em alguns casos, pode haver uma fusão do eu com o mundo externo, onde o paciente não se distingue claramente dos objetos ou pessoas ao redor (fenômeno de apropriação).

Exemplos Clínicos Concisos:

  1. Uma mulher de 32 anos, após uma discussão conjugal violenta, é encontrada vagando pelo centro da cidade, balançando o corpo para frente e para trás e cantarolando uma canção infantil de forma monótona. Não responde adequadamente a perguntas, parece não reconhecer familiares que a localizam e, posteriormente, não se recorda do ocorrido.
  2. Um adolescente de 17 anos, vítima de bullying severo, é levado ao serviço de urgência após ficar imóvel em uma cadeira da escola, com o olhar fixo no vazio, por mais de uma hora. Quando estimulado, executa gestos repetitivos de escrever no ar. Recupera-se espontaneamente após algumas horas, relatando apenas uma vaga sensação de "ter saído do corpo" durante o episódio.

Neurobiologia e fisiopatologia

A fisiopatologia do transe dissociativo não-espiritual está ancorada nos modelos de dissociação e de resposta ao estresse extremo, com interação entre vulnerabilidade biológica e fatores psicogênicos.

Modelos Psicogênicos e Dissociativos:
O modelo predominante entende o transe como uma estratégia defensiva arcaica e inconsciente frente a uma ansiedade ou um estresse psicossocial insuportável. A dissociação, nesse contexto, funciona como um "desligamento" ou uma fuga da realidade para interromper o sofrimento. Essa resposta é semelhante à observada no Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e está frequentemente ligada a histórias de trauma, especialmente abuso na infância. A vida na fantasia torna-se um "escape" que, com o tempo, pode se tornar um processo automático e involuntário diante de estressores (Psicopatologia – Uma abordagem integrada). A (auto)sugestionabilidade patológica é apontada como um aspecto central da crise, uma alteração da conação (vontade, impulso) que permite a instalação do estado de transe (Cheniaux, 2021).

Neurobiologia da Dissociação:
Embora as fontes fornecidas não detalhem achados de neuroimagem específicos para o transe, os circuitos envolvidos na dissociação em geral são estudados.

  • Sistema Límbico e Amígdala: A resposta ao trauma e ao estresse extremo envolve uma hiperativação da amígdala, seguida por mecanismos de inibição que podem estar por trás do "desligamento" dissociativo.
  • Córtex Pré-Frontal (CPF): A dissociação está associada a uma hipoativação do CPF, especialmente das regiões envolvidas na integração de informações, no senso de self contínuo e no controle executivo. Esta hipofunção contribui para a desintegração da experiência consciente.
  • Circuito de Default Mode Network (DMN): Alterações na conectividade da DMN, rede cerebral ativa durante o repouso e associada à autorreferência e à mente vagante, podem estar relacionadas a experiências de despersonalização e desrealização, componentes que podem acompanhar o transe.
  • Neurotransmissores: O sistema opioide endógeno, ativado em situações de estresse e dor, pode mediar os efeitos analgésicos e de distanciamento emocional da dissociação. Alterações nos sistemas serotoninérgico e glutamatérgico também são investigadas.

Integração com a Vulnerabilidade Individual:
A ocorrência do transe dissociativo resulta da interação entre:

  1. Vulnerabilidade Biológica: Possivelmente genética ou relacionada a experiências precoces que afetam o desenvolvimento cerebral, levando a uma alta sugestionabilidade e a uma tendência a respostas dissociativas.
  2. Fatores Psicogênicos Desencadeantes: Conflitos interpessoais agudos, experiências traumáticas recentes ou estressores que reativam memórias traumáticas antigas.
  3. Fator de Reforço: O alívio imediato da ansiedade proporcionado pelo estado dissociativo pode reforçar negativamente o comportamento, tornando-o mais provável de se repetir em situações semelhantes.

Avaliação clínica e diagnóstico diferencial

Achados ao Exame do Estado Mental:

  • Aparência e Comportamento: Pode variar de agitação com automatismos a estupor com imobilidade. Comportamento bizarro, teatral e não contextualizado.
  • Fala e Pensamento: Discurso incoerente, pobre, ou com estereotipias verbais. O pensamento mostra fuga de ideias dissociativa ou bloqueio.
  • Humor e Afeto: Afeto embotado, plano ou incongruente. Possível labilidade afetiva.
  • Percepção: Geralmente sem alucinações verdadeiras, mas com alterações na percepção de si e do ambiente (desrealização/despersonalização).
  • Cognição:
    • Orientação: Frequentemente desorientado no tempo e, em graus variáveis, no lugar. A orientação pessoal (autopsíquica) pode estar alterada.
    • Atenção e Concentração: Severamente prejudicadas devido ao estreitamento da consciência.
    • Memória: Amnésia para eventos recentes, especialmente para o próprio episódio dissociativo. A memória de longo prazo pode estar acessível, mas de forma fragmentada.
  • Consciência: Estreitamento do campo da consciência (estado crepuscular) é o achado cardinal.
  • Insight: Ausente ou severamente prejudicado durante o episódio. Após a remissão, pode variar da completa negação a um reconhecimento parcial do caráter estranho da experiência.

Instrumentos e Escalas:
Não existem escalas específicas para transe dissociativo. Podem ser úteis instrumentos gerais de avaliação dissociativa, aplicáveis após a resolução do episódio agudo:

  • Dissociative Experiences Scale (DES): Rastreia a frequência de experiências dissociativas na vida cotidiana.
  • Structured Clinical Interview for DSM Dissociative Disorders (SCID-D): Entrevista semiestruturada padrão-ouro para diagnóstico de transtornos dissociativos.

Diagnóstico Diferencial Estruturado:

Condição Pontos de Similaridade Pontos de Diferenciação
Transe Cultural/Religioso Estado alterado de consciência com automatismos. É socialmente sancionado, ocorre em contexto ritualístico específico, não causa sofrimento ou prejuízo, e é desejado pelo grupo. A experiência é compartilhada e dotada de significado cultural.
Crise Psicótica Aguda Comportamento bizarro, discurso desorganizado, alteração da consciência de si. Presença de sintomas psicóticos positivos (delírios, alucinações) nítidos e persistentes. O estreitamento da consciência é menos proeminente que a desorganização. A recuperação da memória é incompleta.
Estado de Mal Epiléptico Não-Convulsivo Estado crepuscular, automatismos, desorientação. História prévia de epilepsia. Os automatismos são mais simples e estereotipados (ex.: mastigação, procurar algo). O EEG é diagnóstico, mostrando atividade epileptiforme contínua.
Intoxicação/Abstinência de Substâncias Alteração aguda do estado mental, desorientação, comportamento inadequado. História de uso recente. Sinais de intoxicação (midríase, taquicardia) ou abstinência. Exame toxicológico positivo.
Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) Alteração da identidade, amnésia, comportamento aparentemente "de outra pessoa". A alteração de identidade é complexa, envolvendo "alters" (estados de identidade) distintos e recorrentes, com memórias e características próprias. O transe dissociativo apresenta uma alteração de identidade mais rudimentar, transitória e menos estruturada.
Transtorno de Conversão (Sintoma Motor) Sintomas neurológicos funcionais (ex.: paralisia, tremor). O transe dissociativo afeta a consciência globalmente; a conversão produz um déficit sensorial ou motor específico, sem o estado crepuscular. Podem coexistir.
Delirium Alteração aguda da consciência e da cognição. Flutuação do nível de consciência, presença de uma causa médica subjacente (infecção, metabólica). Sintomas neurovegetativos proeminentes.

Armadilhas Diagnósticas Comuns:

  1. Patologizar Práticas Culturais: O maior erro é diagnosticar como transtorno um estado de transe que é normativo e saudável dentro do contexto religioso ou cultural do paciente. A avaliação deve incluir uma anamnese cultural cuidadosa.
  2. Subestimar uma Condição Orgânica: Atribuir um estado crepuscular à dissociação sem afastar causas neurológicas (epilepsia, tumor, encefalite) pode ter consequências graves.
  3. Confundir com Simulação: A teatralidade e a aparente intencionalidade podem levar o clínico a suspeitar de simulação. A diferença crucial é que a dissociação é um processo inconsciente e involuntário, enquanto a simulação é consciente e voluntária. A recuperação completa da memória é possível na dissociação, mas não é regra na simulação.
  4. Não Investigar o Trauma: Focar apenas no fenômeno do transe e não investigar a história de vida, especialmente eventos traumáticos, perde a etiologia principal e compromete o plano terapêutico.

Condições associadas

O transe dissociativo não-espiritual raramente ocorre como uma entidade isolada. Ele é predominantemente um sintoma ou uma síndrome que surge no contexto de outros transtornos psiquiátricos, sendo um marcador de desregulação emocional severa.

  • Transtornos Relacionados a Trauma e Estressores: Esta é a associação mais forte e etiologicamente significativa.
    • Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT): Estados dissociativos agudos (como "flashbacks" com desrealização) e a dissociação como sintoma numérico (amnésia, despersonalização) são centrais.
    • Transtornos de Estresse Agudo: A dissociação peritraumática (durante ou logo após o evento) é um preditor forte para o desenvolvimento posterior de TEPT e pode se manifestar como estados de transe.
  • Outros Transtornos Dissociativos:
    • Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI): A transição entre os "alters" pode se apresentar como um estado de transe.
    • Amnésia Dissociativa e Fuga Dissociativa: A fuga, em particular, envolve um estado de transe com deslocamento físico e assumir uma nova identidade.
  • Transtornos da Personalidade: Indivíduos com certos transtornos de personalidade têm uma vulnerabilidade aumentada a respostas dissociativas frente ao estresse.
    • Transtorno da Personalidade Borderline (TPB): A dissociação é um sintoma frequente, utilizado como mecanismo de regulação emocional frente a sentimentos de vazio, rejeição ou abandono. Episódios de transe podem ocorrer durante crises.
    • Transtorno da Personalidade Histriônica: A teatralidade e a sugestionabilidade, traços centrais deste transtorno, podem facilitar a emergência de estados dissociativos sob ansiedade intensa.
  • Transtornos de Sintomas Somáticos e Relacionados: A dissociação é um mecanismo patofisiológico compartilhado.
    • Transtorno de Conversão: Pacientes com sintomas conversivos (pseudo-neurológicos) têm alta prevalência de sintomas dissociativos e histórico de trauma.
  • Correlação com Manuais Diagnósticos:
    • CID-11 (6B63 Transtorno de Transe e Possessão): Oferece o enquadramento mais direto. Deve-se especificar se é "induzido por transtorno mental" (não-espiritual) ou "relacionado a práticas espirituais ou religiosas".
    • DSM-5-TR: O transe dissociativo pode ser classificado como Transtorno Dissociativo Não Especificado ou, se os critérios forem preenchidos, como parte de um Transtorno Dissociativo de Identidade, Amnésia Dissociativa ou Outro Transtorno Dissociativo Especificado.

Implicações terapêuticas

O manejo do transe dissociativo agudo e do transtorno subjacente requer uma abordagem integrada, focada na segurança, na contenção da crise e no tratamento da condição de base.

Abordagem no Episódio Agudo:

  1. Segurança e Contenção: Priorizar a segurança física do paciente e de outros. Um ambiente calmo, com estímulos reduzidos, é preferível à contenção física, que pode aumentar a agitação e retraumatizar.
  2. Observação e Acompanhamento: Muitos episódios são autolimitados e se resolvem em horas. A presença de um profissional calmo e contido pode facilitar a reorientação.
  3. Intervenção Farmacológica Aguda: Não há medicação específica para "interromper" um transe dissociativo. Em casos de agitação psicomotora severa ou angústia extrema, pode-se considerar, com cautela, o uso de uma benzodiazepínico de ação rápida (ex.: lorazepam) em dose baixa ou de um antipsicótico atípico sedante (ex.: olanzapina, quetiapina) em dose baixa, visando a sedação e a redução da ansiedade. A decisão deve pesar o risco de iatrogenia (piora da desorientação) contra o benefício de conter uma situação de risco.

Tratamento da Condição de Base (Psicoterapêutico):
A psicoterapia é o pilar do tratamento a médio e longo prazo.

  • Psicoterapias Focadas no Trauma: São as de primeira linha.
    • Terapia Cognitivo-Comportamental Focada no Trauma (TF-CBT): Ajuda a processar memórias traumáticas, desenvolver habilidades de regulação emocional e enfrentamento, reduzindo a necessidade da dissociação como escape.
    • Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares (EMDR): Eficaz no reprocessamento de memórias traumáticas que desencadeiam sintomas dissociativos.
    • Terapia de Esquemas: Útil para pacientes com transtornos de personalidade associados, trabalhando os esquemas desadaptativos e os modos de enfrentamento dissociativos.
  • Terapias com Foco no Corpo e na Consciência do Presente:
    • Habilidades de Treinamento da Consciência Plena (Mindfulness) Adaptadas: Ensinam o paciente a se ancorar no momento presente, reconhecer os primeiros sinais de dissociação e usar técnicas de aterramento ("grounding") para prevenir ou abortar um episódio.
  • Abordagens Farmacológicas de Manutenção:
    Não existem fármacos com indicação específica para transtornos dissociativos. A farmacoterapia é sintomática e dirigida às comorbidades:

    • Antidepressivos (ISRS/SNRI): Para tratar depressão, ansiedade e sintomas de TEPT subjacentes.
    • Antipsicóticos Atípicos em Baixa Dose: Podem ser considerados quando há comorbidade psicótica significativa ou para auxiliar na regulação do afeto e dos impulsos no TPB.
    • Estabilizadores de Humor: Como a lamotrigina, podem ser úteis para regular a labilidade afetiva e a impulsividade.

Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
A presença de episódios de transe dissociativo indica, em geral, uma psicopatologia grave e complexa, frequentemente ligada a trauma crônico. Isso pode:

  • Complicar o Engajamento Terapêutico: A dissociação prejudica a formação de aliança terapêutica e a capacidade de reflexão.
  • Piorar o Prognóstico Funcional: Episódios recorrentes podem levar a perdas ocupacionais, acadêmicas e no relacionamento interpessoal.
  • Exigir Tratamento Mais Longo e Especializado: A abordagem deve ser feita por profissionais familiarizados com trauma e dissociação, muitas vezes em serviços de referência como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS III) ou ambulatórios especializados. A resposta ao tratamento é mais lenta, mas significativa com abordagens adequadas.

Perspectiva do paciente e comunicação clínica

Vivência do Paciente:
A experiência subjetiva é frequentemente aterradora e confusa. O paciente pode relatar:

  • "Sair do corpo" ou "flutuar": Sensação de despersonalização extrema.
  • "Estar num sonho" ou "atrás de um vidro": Sensação de desrealização e distanciamento do mundo.
  • "Apagão" ou "lacuna no tempo": Referindo-se à amnésia.
  • "Algo tomou conta de mim" / "Não era eu": Descrevendo a perda de controle e os automatismos.
  • Medo de "estar ficando louco": Pelo caráter bizarro e incontrolável da experiência.

Após o episódio, é comum sentimentos de vergonha, culpa e perplexidade, especialmente se o comportamento foi público e chamativo.

Comunicação Clínica:

  1. Validação e Não-Confrontação: Iniciar validando o sofrimento ("Isso deve ter sido muito assustador") sem, inicialmente, confrontar a veracidade ou a lógica do relato. Evitar frases como "Isso é só psicológico".
  2. Psicoeducação: Explicar a dissociação em termos compreensíveis: "É como se o seu cérebro, diante de uma emoção ou lembrança muito forte, apertasse um botão de ‘desligar’ para se proteger. O transe é esse estado de ‘desligamento’."
  3. Normalização Parcial: Explicar que mecanismos dissociativos leves são comuns (ex.: "dirigir no piloto automático"), mas que, no caso dele, o mecanismo foi disparado com muita força, tornando-se um problema.
  4. Enquadramento no Trauma (quando aplicável): Conectar suavemente os episódios a possíveis experiências passadas: "Muitas vezes, essas reações do corpo e da mente são uma forma de lidar com coisas muito difíceis que aconteceram no passado. Podemos explorar isso juntos, no seu tempo."
  5. Comunicação com a Família: Orientar a família a:
    • Manter a calma durante os episódios.
    • Não ridicularizar ou acusar o paciente de "fingimento".
    • Proporcionar um ambiente seguro e de baixa estimulação.
    • Buscar ajuda profissional, enfatizando que é uma condição de saúde que pode ser tratada.

Impacto Funcional:

  • Ocupacional/Acadêmico: Episódios imprevisíveis podem levar a faltas, demissões ou abandono escolar. A dificuldade de concentração crônica também prejudica o desempenho.
  • Relacionamentos: O comportamento bizarro e o embotamento afetivo podem afastar amigos e parceiros. A instabilidade emocional e a dissociação dificultam a intimidade e a resolução de conflitos.
  • Qualidade de Vida: O medo de ter um novo episódio em público pode levar a isolamento social e agorafobia. A desconfiança na própria mente gera insegurança constante.

Perguntas frequentes

1. Isso é epilepsia ou "ataque espiritual"?
Não é epilepsia, pois não há descarga elétrica cerebral anormal contínua registrada no EEG. Também não é um "ataque espiritual" no sentido cultural normativo, pois ocorre fora de contexto ritual, causa sofrimento e prejuízo, e não é compartilhado como uma experiência positiva pelo grupo. É um transtorno dissociativo de origem psicológica.

2. A pessoa está fingindo?
Não. A simulação é um ato consciente e voluntário para obter um ganho externo (como fugir de uma responsabilidade). No transe dissociativo, o processo é inconsciente e involuntário. É um mecanismo de defesa do psiquismo contra uma dor emocional insuportável. A pessoa não tem controle sobre o episódio.

3. Isso tem cura?
O termo "cura" pode não ser o mais adequado. O objetivo do tratamento é a remissão dos episódios de transe e a melhora significativa do funcionamento global. Com psicoterapia adequada (especialmente focada em trauma), muitos pacientes conseguem entender seus gatilhos, desenvolver habilidades para regular as emoções e prevenir novos episódios, levando uma vida produtiva.

4. É hereditário?
Não se herda o "transe" especificamente. Pode-se herdar uma vulnerabilidade biológica a desenvolver respostas dissociativas ou transtornos relacionados ao estresse. No entanto, o fator mais importante é a experiência de vida, especialmente eventos traumáticos.

5. Preciso tomar remédio para sempre?
Não necessariamente. A medicação (como antidepressivos) é frequentemente usada por um tempo para tratar sintomas associados (depressão, ansiedade, insônia) e estabilizar o humor, criando condições para que a psicoterapia seja eficaz. A duração do uso é definida caso a caso. A psicoterapia é o componente essencial e de longo prazo.

6. Como devo agir se alguém estiver tendo um episódio?
Mantenha a calma. Guie a pessoa para um local seguro e tranquilo, com pouca luz e barulho. Fale com voz suave e firme, sem confrontar. Você pode tentar técnicas de aterramento simples: "Você pode sentir os pés no chão?", "Pode me dizer três coisas que está vendo aqui?". Se o episódio for muito prolongado, agitado ou se houver risco de autolesão, busque ajuda médica (SAMU 192, UPA).

7. Isso é o mesmo que múltipla personalidade?
Não é a mesma coisa, mas podem estar relacionados. O Transtorno Dissociativo de Identidade (antiga "múltipla personalidade") é uma condição complexa onde existem dois ou mais estados de identidade ("alters") distintos que assumem o controle da consciência. Um episódio de transe dissociativo pode ser uma manifestação aguda e menos estruturada dessa alteração de identidade, ou pode ocorrer em outros transtornos sem a presença de "alters" consolidados.

8. Por que a CID-11 inclui e o DSM-5 não inclui o "transe" como diagnóstico?
A CID-11, da Organização Mundial da Saúde, tem um escopo mais global e leva mais em conta manifestações culturais de sofrimento. Ela criou a categoria "Transtorno de Transe e Possessão" para capturar essas experiências patológicas em diversos contextos. O DSM-5, da Associação Americana de Psiquiatria, tem uma base mais centrada em pesquisas de determinadas populações e optou por manter os sintomas dissociativos dentro de categorias pré-existentes (como TDI, amnésia), considerando o transe como uma possível apresentação clínica desses transtornos.

Referências

  • Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
  • Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
  • Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – 11ª Edição (CID-11). Genebra: OMS, 2022.
  • American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR). Washington, DC: APA, 2022.
  • Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
  • Stein, D.J.; Lerer, B.; Stahl, S.M. (Eds.). Essential Evidence-Based Psychopharmacology. 2nd ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.

Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.

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