Tioridazina

O que é e para que serve?

A tioridazina é um antipsicótico — um remédio usado para tratar sintomas de psicose, como alucinações (ouvir vozes ou ver coisas que não existem), delírios (crenças muito distorcidas da realidade) e agitação intensa. Ela pertence a uma família de medicamentos chamada fenotiazinas, que foram alguns dos primeiros antipsicóticos criados pela medicina.

No Brasil, a tioridazina é encontrada principalmente em versão genérica, com o nome tioridazina cloridrato. A marca original, Mellaril®, foi retirada do mercado mundial pelo fabricante em 2005 por questões de segurança cardíaca — mas versões genéricas ainda podem ser prescritas em situações específicas.

E aqui está um ponto muito importante: a tioridazina não é um remédio de primeira escolha. Ela é reservada para pessoas com esquizofrenia que já tentaram pelo menos dois outros antipsicóticos e não tiveram resultado satisfatório — seja porque o remédio não funcionou, seja porque os efeitos colaterais foram insuportáveis. Se o seu médico prescreveu a tioridazina, é porque avaliou que, no seu caso específico, os benefícios justificam o uso.


Como ele age no seu cérebro?

Pense no seu cérebro como uma cidade enorme, cheia de ruas e mensageiros que circulam levando informações de um lugar para outro. Um desses mensageiros se chama dopamina. Em pessoas com psicose, é como se houvesse dopamina demais circulando em certas ruas — e isso causa um “barulho” excessivo no sistema, que se manifesta como alucinações, delírios e agitação.

A tioridazina age como um guarda de trânsito que fecha algumas entradas dessas ruas. Ela bloqueia os pontos de chegada da dopamina (chamados de receptores D2), reduzindo esse excesso de sinal e, com isso, diminuindo os sintomas psicóticos.

O problema é que a dopamina não circula só nessas ruas “problemáticas” — ela também é importante em outras regiões do cérebro, como as que controlam movimento, motivação e raciocínio. Por isso, ao bloquear a dopamina de forma ampla, o remédio pode trazer alguns efeitos colaterais que vamos explicar mais adiante. Além disso, a tioridazina também age em outros sistemas — como a histamina (que regula o sono e o apetite), a acetilcolina (que controla glândulas e músculos) e a adrenalina (que regula pressão e circulação) — e cada um desses bloqueios tem suas consequências práticas.


Quando começa a fazer efeito?

Os primeiros sinais de melhora podem aparecer já na primeira semana — especialmente a agitação e a inquietação tendem a diminuir antes. Mas o efeito completo, especialmente sobre as alucinações e os delírios, costuma levar várias semanas para se estabelecer.

Pense assim: é como quando você planta uma árvore. Você rega, cuida, e nos primeiros dias parece que nada está acontecendo. Mas lá embaixo, as raízes estão se formando. O efeito do remédio funciona de forma parecida — o cérebro vai se ajustando gradualmente.

Nas primeiras semanas, é comum sentir mais sono e um certo “amortecimento”. Isso não significa que o remédio está te deixando pior — é o período de adaptação. Se algo parecer muito intenso ou insuportável, fale com seu médico antes de tomar qualquer decisão.


Como tomar corretamente

A tioridazina geralmente é tomada de duas a quatro vezes ao dia, dependendo da dose prescrita pelo seu médico. Pode ser tomada com ou sem alimentos, mas tomar com comida pode ajudar a reduzir a sensação de enjoo.

A dose varia bastante de pessoa para pessoa — seu médico vai ajustar conforme sua resposta e tolerância. Não tente ajustar a dose por conta própria.

Se esquecer uma dose: tome assim que lembrar, desde que ainda não esteja perto do horário da próxima. Se já estiver quase na hora da próxima dose, pule a esquecida e siga normalmente. Nunca tome duas doses de uma vez para compensar.

Nunca pare de tomar de repente. Isso é muito importante. Parar bruscamente pode causar uma piora rápida dos sintomas — o que os médicos chamam de “psicose de rebote”. Se você e seu médico decidirem que é hora de parar, o processo deve ser feito aos poucos, ao longo de semanas.


Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem

Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)

  • Sonolência e sedação: A tioridazina bloqueia receptores de histamina no cérebro — os mesmos que os antialérgicos bloqueiam para te dar sono. Por isso, é muito comum sentir bastante sonolência, especialmente no início. Tende a melhorar com o tempo. Evite dirigir ou operar máquinas até saber como o remédio te afeta.

  • Boca seca: O remédio bloqueia receptores de acetilcolina, que são responsáveis por estimular as glândulas de saliva. Com menos sinal, a boca produz menos saliva. Beber água com frequência, chupar balas sem açúcar e manter boa higiene bucal ajudam bastante.

  • Visão embaçada: Pelo mesmo motivo da boca seca — o bloqueio da acetilcolina também afeta os músculos que ajustam o foco dos olhos. Geralmente melhora com o tempo. Se persistir ou piorar, avise seu médico.

  • Constipação (intestino preso): Novamente o bloqueio da acetilcolina, que também regula o movimento do intestino. Aumentar a ingestão de água, fibras e fazer caminhadas leves pode ajudar.

  • Tontura ao levantar: A tioridazina bloqueia receptores de adrenalina (alfa-1), o que faz os vasos sanguíneos relaxarem e a pressão cair um pouco — especialmente quando você se levanta rápido. Levante-se devagar, segure em algo firme. Isso tende a melhorar nas primeiras semanas.

  • Ganho de peso: Pode acontecer por conta do bloqueio da histamina, que aumenta o apetite, e por outros mecanismos ainda não completamente compreendidos. Manter uma alimentação equilibrada e se movimentar ajudam a controlar.

Menos comuns

  • Alterações menstruais e produção de leite (em mulheres): A tioridazina bloqueia a dopamina na hipófise (uma glândula no cérebro), o que eleva os níveis de prolactina — um hormônio que, entre outras funções, estimula a produção de leite. Isso pode causar irregularidade menstrual, saída de leite mesmo sem gravidez e, em homens, pode afetar a ejaculação. Avise seu médico se isso acontecer.

  • Movimentos involuntários (sintomas extrapiramidais): Como a dopamina também controla o movimento, seu bloqueio pode causar rigidez muscular, tremores parecidos com os do Parkinson, inquietação nas pernas (uma sensação de que precisa ficar se mexendo) ou espasmos musculares. A tioridazina causa esses efeitos com menos frequência do que outros antipsicóticos mais antigos, mas eles podem ocorrer. Avise seu médico — existem remédios que tratam esses sintomas.

  • Sensibilidade ao sol: A pele pode ficar mais sensível à luz solar. Use protetor solar e evite exposição prolongada ao sol sem proteção.

Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)

  • Alterações no coração (prolongamento do QTc): Este é o risco mais sério da tioridazina. O remédio pode alterar o ritmo elétrico do coração de uma forma que, em casos raros, pode causar uma arritmia grave chamada “torsades de pointes” — e, em situações extremas, morte súbita. Por isso, antes de começar o tratamento, seu médico provavelmente pediu um eletrocardiograma. Procure atendimento de emergência imediatamente se sentir palpitações, coração acelerado de forma estranha, desmaio ou falta de ar intensa.

  • Discinesia tardia: Com o uso prolongado, pode surgir movimentos involuntários repetitivos — especialmente na boca, língua e rosto (como mastigar no ar, fazer caretas). Esse efeito pode ser irreversível se não for identificado cedo. Avise seu médico ao menor sinal.

  • Síndrome Neuroléptica Maligna: Muito rara, mas grave. Sinais: febre alta, rigidez muscular intensa, confusão mental e suor excessivo. É uma emergência médica — vá imediatamente a uma UPA ou pronto-socorro.

  • Queda nas células de defesa (agranulocitose): Muito raro, mas o remédio pode reduzir os glóbulos brancos do sangue, deixando o organismo vulnerável a infecções. Se você tiver febre sem causa aparente, dor de garganta intensa ou infecções repetidas, procure seu médico para fazer um exame de sangue.

  • Alterações no fígado: Em casos raros, pode causar icterícia (amarelamento da pele e dos olhos). Se isso acontecer, procure atendimento médico.


O que fazer se tiver efeitos colaterais?

Primeiro: não entre em pânico. Muitos efeitos colaterais são passageiros e diminuem nas primeiras semanas de tratamento, conforme o corpo se adapta.

Ligue para seu médico se:
– Os efeitos colaterais estiverem atrapalhando muito sua rotina
– Aparecerem movimentos involuntários que você não consegue controlar
– Você sentir palpitações ou o coração “batendo diferente”
– Tiver febre sem explicação ou infecções frequentes

Vá a uma UPA ou emergência imediatamente se:
– Sentir desmaio, coração acelerado de forma muito intensa ou parar de respirar bem
– Tiver febre alta com rigidez muscular e confusão mental
– A pele ou os olhos ficarem amarelados

O que NÃO fazer:
– Não pare o remédio de repente por conta própria, mesmo que os efeitos colaterais sejam incômodos. Fale primeiro com seu médico — ele pode ajustar a dose ou propor uma saída segura.


Cuidados importantes

Álcool: Evite completamente. O álcool potencializa a sedação da tioridazina e pode aumentar o risco de queda de pressão e outros problemas. A combinação pode ser perigosa.

Outros remédios — atenção especial: Alguns medicamentos muito comuns podem elevar os níveis de tioridazina no sangue a níveis perigosos para o coração. Entre eles estão antidepressivos como fluoxetina (Prozac®), paroxetina (Aropax®), sertralina (Zoloft®), fluvoxamina e bupropiona, além de propranolol (usado para pressão e ansiedade). Isso não significa que você nunca pode usar esses remédios — mas seu médico precisa saber de tudo que você toma para avaliar o risco. Sempre informe todos os medicamentos, incluindo os de venda livre e fitoterápicos.

Remédios para pressão: A tioridazina pode potencializar o efeito de anti-hipertensivos, causando queda excessiva de pressão. Avise seu cardiologista ou clínico geral que você está usando esse remédio.

Gravidez: Não há estudos suficientes sobre segurança na gravidez. Se você está grávida ou planejando engravidar, converse com seu médico — ele vai avaliar o risco e o benefício no seu caso.

Amamentação: Não há dados suficientes sobre a passagem da tioridazina para o leite materno. Por precaução, outros antipsicóticos com mais dados de segurança são preferidos durante a amamentação. Converse com seu médico.

Idosos: Pessoas mais velhas são mais sensíveis aos efeitos da tioridazina — especialmente à queda de pressão, à sedação e ao risco de alterações no sangue. Doses menores costumam ser necessárias. Além disso, a tioridazina não deve ser usada para tratar agitação em idosos com demência — esse uso aumenta o risco de morte e não é aprovado.

Problemas no coração, fígado ou rins: Se você tem qualquer condição cardíaca (especialmente arritmias ou QT longo), use a tioridazina com muito cuidado e sob monitoramento próximo. O mesmo vale para problemas no fígado e nos rins, que afetam como o corpo processa o remédio.


Perguntas frequentes

Vou ficar dependente da tioridazina?
Não, a tioridazina não causa dependência química — você não vai sentir fissura ou precisar de doses cada vez maiores para sentir o efeito. Mas o seu cérebro se adapta ao remédio ao longo do tempo, por isso parar de repente pode causar uma piora dos sintomas. A parada, quando necessária, deve ser feita gradualmente e com orientação médica.

Posso beber álcool enquanto tomo esse remédio?
Não é recomendado. O álcool aumenta muito a sedação causada pela tioridazina e pode provocar quedas de pressão perigosas. Se você beber socialmente de vez em quando, converse com seu médico sobre o risco no seu caso — mas a orientação geral é evitar.

Posso parar de tomar quando me sentir melhor?
Não por conta própria. Sentir-se melhor é um sinal de que o remédio está funcionando — não de que você não precisa mais dele. Parar sem orientação pode fazer os sintomas voltarem rapidamente. Qualquer decisão de reduzir ou parar deve ser tomada junto com seu médico, de forma gradual.

Por que meu médico pediu um eletrocardiograma antes de começar?
Porque a tioridazina pode alterar o ritmo elétrico do coração. O eletrocardiograma serve para verificar se o seu coração está em condições seguras para receber esse remédio. É uma precaução importante, não um sinal de que algo está errado com você.

Esse remédio vai me deixar “zumbi” ou sem personalidade?
A sedação é um efeito colateral real, especialmente no início. Mas o objetivo do tratamento é justamente o contrário: reduzir os sintomas que estavam te impedindo de funcionar bem. Se você sentir que está muito “apagado” ou sem energia, avise seu médico — a dose pode ser ajustada.


Referências

  • Stahl, S.M. Fundamentos de Psicofarmacologia, 3ª edição. Artmed, 2010. pp. 731–735.
  • FDA Label — Thioridazine Hydrochloride Tablets (bula americana aprovada pela FDA). Disponível em: dailymed.nlm.nih.gov
  • PubChem — Thioridazine: Pharmacology and Biochemistry. National Library of Medicine. Disponível em: pubchem.ncbi.nlm.nih.gov

Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.

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