Definição e epidemiologia
A terapia de manutenção no transtorno bipolar refere-se ao tratamento farmacológico contínuo, administrado após a resolução do episódio agudo (mania, hipomania ou depressão), com o objetivo primário de prevenir recaídas e recorrências de novos episódios de humor. Ajuste de dosagem é a prática clínica de otimizar a dose do estabilizador do humor, frequentemente reduzindo-a para a faixa baixa-média da concentração sanguínea terapêutica após a fase de estabilização, com o propósito de equilibrar eficácia profilática, minimização de efeitos adversos e promoção da adesão terapêutica a longo prazo.
Nos sistemas classificatórios, o transtorno bipolar tipo I (DSM-5-TR e CID-11) é definido pela ocorrência de pelo menos um episódio maníaco completo, que pode ser precedido ou seguido por episódios hipomaníacos ou depressivos maiores. A terapia de manutenção é um pilar do manejo desta condição crônica e recorrente.
Epidemiologicamente, o transtorno bipolar tipo I apresenta prevalência de vida estimada entre 0.6% e 1.0% na população geral, sem diferenças significativas entre os sexos. A idade média de início situa-se no final da adolescência e início da vida adulta (entre 18 e 25 anos). Dados epidemiológicos brasileiros específicos são limitados, mas a carga da doença é significativa, com impacto considerável nos sistemas de saúde, incluindo o Sistema Único de Saúde (SUS). O curso clínico é heterogêneo, mas tipicamente caracterizado por episódios recorrentes. Fatores de risco incluem história familiar de transtorno bipolar ou depressão maior (com herdabilidade estimada em torno de 60-80%), abuso de substâncias, eventos estressores psicossociais e distúrbios do sono. Após o primeiro episódio maníaco, o risco de episódios subsequentes aumenta substancialmente, justificando a intervenção precoce com terapia de manutenção.
Etiopatogenia e neurobiologia
A etiologia do transtorno bipolar é multifatorial, envolvendo uma complexa interação entre predisposição genética, alterações neurobiológicas e fatores ambientais. Modelos atuais propõem uma vulnerabilidade genética que, sob a influência de estressores, leva a disfunções nos circuitos neurais reguladores do humor, da energia e do ritmo circadiano.
Estudos genéticos apontam para uma herança poligênica, com múltiplos loci de pequeno efeito contribuindo para o risco. Nenhum gene específico foi identificado como causal, mas vias relacionadas à neurotransmissão, sinalização intracelular, plasticidade sináptica e ritmos circadianos estão implicadas. Neurobiologicamente, os sistemas de neurotransmissão monoaminérgicos (dopamina, serotonina, noradrenalina) e o sistema glutamatérgico apresentam disfunções. A hipótese da "sensitização kindling" sugere que episódios iniciais, muitas vezes desencadeados por estressores, podem levar a alterações neuroplásticas que facilitam recorrências futuras, mesmo na ausência de gatilhos externos.
Achados de neuroimagem estrutural e funcional mostram alterações em regiões fronto-límbicas, incluindo o córtex pré-frontal, amígdala, hipocampo e estriado ventral, que estão envolvidas no processamento emocional, recompensa e controle executivo. Disfunções na homeostase energética neuronal e no metabolismo mitocondrial também são áreas de investigação. O eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) frequentemente apresenta hiperatividade, refletindo uma desregulação na resposta ao estresse.
Quadro clínico
O quadro clínico do transtorno bipolar tipo I é caracterizado pela alternância ou mistura de episódios de humor distintos, com períodos de eutimia entre eles.
Episódio Maníaco: Estado distinto de humor persistentemente elevado, expansivo ou irritável, e aumento anormal e persistente da atividade ou energia dirigida a objetivos, com duração mínima de uma semana (ou qualquer duração se hospitalização for necessária). Manifestações incluem:
- Humor/Afetividade: Euforia, otimismo excessivo, grandiosidade, irritabilidade extrema e labilidade.
- Cognição: Fuga de ideias, pensamento acelerado, pressão do pensamento, distratibilidade. Delírios grandiosos ou persecutórios podem estar presentes em casos graves.
- Comportamento: Aumento da atividade dirigida a objetivos (social, sexual, profissional, político), agitação psicomotora, logorreia (pressão para falar), envolvimento excessivo em atividades prazerosas com alto potencial para consequências dolorosas (gastos financeiros irresponsáveis, investimentos comerciais insensatos, conduta sexual imprudente), redução da necessidade de sono.
- Sintomas Somáticos: Energia física aparentemente inesgotável, redução da percepção de fadiga.
Episódio Depressivo Maior: Presença de humor deprimido ou perda de interesse/prazer (anedonia), acompanhados por outros sintomas por pelo menos duas semanas.
- Humor/Afetividade: Tristeza profunda, vazio, desesperança, irritabilidade, anedonia.
- Cognição: Lentificação do pensamento, dificuldades de concentração, indecisão, pensamentos de morte ou ideação suicida, sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva.
- Comportamento: Retardo ou agitação psicomotora, isolamento social, redução significativa da atividade.
- Sintomas Somáticos: Fadiga ou perda de energia, alterações significativas no apetite e no peso (geralmente perda), insônia ou hipersônia.
Episódio Hipomaníaco: Similar ao maníaco, porém de intensidade mais leve e duração mais curta (mínimo de 4 dias). Não causa prejuízo marcante no funcionamento social ou ocupacional e não apresenta características psicóticas. Não requer hospitalização.
Especificadores (DSM-5-TR): Com características ansiosas, mistas, de ciclagem rápida, com características melancólicas, com características atípicas, com características psicóticas congruentes ou não congruentes com o humor, com catatonia, com início no periparto, com padrão sazonal.
Avaliação e diagnóstico
Entrevista Clínica: A anamnese deve ser minuciosa e, idealmente, incluir informantes confiáveis (familiares). Deve-se investigar a história do episódio atual, história pregressa de episódios de humor (mania, hipomania, depressão), duração, gravidade, tratamentos anteriores e resposta. A história familiar de transtornos do humor, história de abuso de substâncias, história médica geral e avaliação psicossocial são fundamentais.
Exame do Estado Mental:
- Aparência e Comportamento: Na mania, pode haver vestimenta colorida ou excêntrica, agitação, contato visual intenso. Na depressão, negligência pessoal, retardo ou agitação.
- Fala: Pressão da fala, logorreia e fuga de ideias na mania; fala monótona, com latência aumentada e volume reduzido na depressão.
- Humor e Afeto: Humor eufórico, expansivo ou irritável na mania; deprimido, sem reatividade na depressão. O afeto pode ser lábil.
- Pensamento: Aceleração, grandiosidade, possibilidade de delírios na mania. Lentificação, ruminação, culpa e ideação suicida na depressão.
- Cognição: Distratibilidade na mania; déficits de atenção, concentração e memória na depressão. A orientação geralmente está preservada.
- Insight e Julgamento: Frequentemente prejudicados, especialmente durante episódios agudos.
Escalas de Avaliação: Escalas como a Young Mania Rating Scale (YMRS) e a Hamilton Depression Rating Scale (HAMD) são úteis para quantificar a gravidade e monitorar a resposta ao tratamento. Versões validadas para o português brasileiro estão disponíveis.
Exames Complementares: Não existem exames diagnósticos específicos. A avaliação laboratorial tem como objetivos excluir causas médicas (ex.: tireoidopatias, distúrbios eletrolíticos) e estabelecer uma linha de base para o monitoramento da terapia.
- Laboratoriais: Hemograma, função renal (ureia, creatinina), eletrólitos (especialmente sódio), função tireoidiana (TSH, T4 livre), função hepática, perfil lipídico, glicemia de jejum, urina tipo I. Dosagem sérica de lítio, valproato ou carbamazepina é essencial para guiar a terapia.
- Neuroimagem: TC ou RM de crânio não são rotineiras, mas podem ser indicadas na primeira avaliação ou na presença de achados neurológicos atípicos.
Diagnóstico Diferencial:
- Transtorno Depressivo Maior (Unipolar)
- Transtorno Esquizoafetivo
- Esquizofrenia
- Transtornos por Uso de Substâncias (intoxicação por estimulantes, abstinência de depressores)
- Transtornos de Personalidade (especialmente Borderline)
- Condições Médicas Gerais (hipertireoidismo, tumores cerebrais, epilepsia do lobo temporal, doenças autoimunes com envolvimento do SNC)
Armadilhas Diagnósticas: Subdiagnóstico da hipomania (frequentemente relatada como "período bom" pelo paciente), diagnóstico errôneo de esquizofrenia na presença de sintomas psicóticos incongruentes com o humor, e indução de virada maníaca por antidepressivos em pacientes com depressão bipolar não reconhecida.
Comorbidades Frequentes: Transtornos por uso de álcool e outras substâncias, transtornos de ansiedade (especialmente transtorno do pânico e fobia social), TDAH, transtornos alimentares e condições clínicas como enxaqueca e doenças metabólicas.
Tratamento farmacológico
O tratamento farmacológico do transtorno bipolar é dividido em fases: aguda (para resolver o episódio atual) e de manutenção (para prevenir recorrências). O ajuste de dosagem é uma manobra crítica na transição e otimização da fase de manutenção.
Algoritmo Terapêutico para Manutenção (Baseado em Evidências):
- 1ª Linha: Estabilizadores do humor clássicos: Lítio e Valproato (Ácido Valproico). O lítio é considerado o agente padrão-ouro para a profilaxia, especialmente de episódios maníacos. O valproato é uma alternativa eficaz, particularmente em ciclagem rápida ou em pacientes com comorbidade de ansiedade.
- 2ª Linha: Antipsicóticos Atípicos com propriedades estabilizadoras do humor: Olanzapina, Quetiapina, Aripiprazol, Risperidona, Ziprasidona, Lurasidona, Cariprazina. Muitos possuem indicação formal para manutenção.
- 3ª Linha / Combinações: Lamotrigina (especialmente eficaz na profilaxia de episódios depressivos), Carbamazepina, Oxcarbazepina. A combinação de dois estabilizadores (ex.: lítio + valproato) ou de um estabilizador com um antipsicótico atípico é frequentemente necessária em casos de resposta parcial ou refratariedade.
Ajuste de Dosagem na Fase de Manutenção:
Conforme destacado no Compêndio, a estratégia de dosagem difere entre as fases aguda e de manutenção. Durante episódios maníacos agudos, recomenda-se dosagens na variação média a alta da concentração sanguínea terapêutica para obter uma resposta robusta e rápida. Após a resolução do episódio e entrada na fase de manutenção, a prática clínica fundamentada é reduzir a dosagem para a variação baixa a média da faixa terapêutica.
- Objetivos: 1) Minimizar efeitos adversos a longo prazo (ex.: ganho de peso, sedação, efeitos metabólicos, toxicidade renal ou tireoidiana pelo lítio); 2) Melhorar a adesão ao tratamento, pois a tolerabilidade é um dos principais determinantes da continuidade terapêutica; 3) Manter a eficácia profilática.
- Metodologia: O processo deve ser gradual e monitorado. Para antipsicóticos, após um período de estabilização de 3 a 6 meses, a dosagem pode ser reduzida em cerca de 20% a cada seis meses até encontrar a dosagem eficaz mínima. Para lítio e valproato, a redução é guiada pelos níveis séricos, buscando manter o paciente na parte inferior da faixa terapêutica estabelecida (ex.: lítio entre 0.4 e 0.8 mEq/L para manutenção, em vez de 0.8-1.2 mEq/L para fase aguda), desde que a estabilidade clínica seja mantida.
- Monitoramento Laboratorial: É mandatório. Para lítio, monitorar níveis séricos, função renal (creatinina, taxa de filtração glomerular estimada) e função tireoidiana (TSH) a cada 3-6 meses em regime estável. Para valproato, níveis séricos, função hepática e hemograma. Para antipsicóticos atípicos, monitorar perfil metabólico (glicemia, lipídios), peso e sinais vitais periodicamente.
Situações Especiais:
- Gestação e Lactação: O lítio apresenta risco teratogênico (anomalia de Ebstein), especialmente no primeiro trimestre. Valproato é contraindicado devido a alto risco de defeitos do tubo neural e comprometimento neurodesenvolvimental. A decisão deve ser individualizada, pesando riscos e benefícios. Antipsicóticos atípicos como a quetiapina e a olanzapina são frequentemente considerados opções mais seguras, mas requerem acompanhamento rigoroso. A consulta a um especialista em psiquiatria perinatal é essencial.
- Idosos: Necessitam de doses menores ("start low, go slow") devido a alterações farmacocinéticas e farmacodinâmicas. Maior risco de efeitos adversos, como sedação, instabilidade postural, e interações medicamentosas. O lítio exige monitoramento renal cuidadoso.
- Comorbidades Clínicas: Insuficiência renal contraindicaria o lítio. Doença hepática pode limitar o uso de valproato. Síndrome metabólica ou diabetes podem influenciar a escolha de antipsicóticos atípicos (preferindo-se aqueles com menor perfil metabólico, como aripiprazol, ziprasidona ou lurasidona).
Protocolos Brasileiros: O RENAME (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais) do SUS inclui estabilizadores do humor como lítio, carbamazepina e valproato, além de alguns antipsicóticos atípicos. As diretrizes da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) para transtorno bipolar alinham-se com as internacionais, recomendando terapia de manutenção após o primeiro episódio maníaco e enfatizando a importância do ajuste de dose para otimizar o perfil de tolerabilidade. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são a porta de entrada especializada no SUS para o manejo contínuo desses pacientes, oferecendo acompanhamento multiprofissional e dispensação de medicamentos.
Tratamento não farmacológico
A abordagem ideal para o transtorno bipolar é integrada, combinando farmacoterapia com intervenções psicossociais.
Psicoterapias com Evidência:
- Psicoeducação: Estrutura fundamental. Tem como objetivos aumentar o conhecimento do paciente e da família sobre a doença, seus sintomas, tratamentos e curso; identificar sinais prodrômicos de recaída; e desenvolver estratégias de manejo de estresse e adesão ao tratamento. A diretriz da APA recomenda terapia combinada (farmacoterapia + psicoterapia) como a melhor abordagem, pois aumenta a adesão, reduz recaídas e a necessidade de hospitalização.
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Focada em identificar e modificar pensamentos e comportamentos disfuncionais associados aos episódios de humor, desenvolver habilidades de regulação emocional e resolver problemas.
- Terapia Focada na Família (FFT): Envolve a família no tratamento, visando melhorar a comunicação, reduzir os níveis de emoção expressa (crítica, hostilidade, superenvolvimento) e criar um ambiente de suporte mais estável.
- Terapia de Ritmo Interpessoal e Social (IPSRT): Enfatiza a regularização dos ritmos sociais e circadianos (padrões de sono, alimentação, atividade) como forma de promover a estabilidade do humor.
Intervenções Psicossociais e Reabilitação: Incluem treinamento de habilidades sociais, suporte vocacional e ocupacional, e manejo de finanças, visando a recuperação funcional e a reintegração social.
Procedimentos:
- Eletroconvulsoterapia (ECT): Indicada para episódios agudos graves, refratários ou com risco vital, tanto maníacos quanto depressivos. Pode ser considerada como opção de manutenção (ECT de continuação ou de manutenção) em casos selecionados de alta refratariedade.
- Estimulação Magnética Transcraniana (TMS): Possui evidência para o tratamento da depressão bipolar, mas seu papel na manutenção ainda está em investigação.
- Estimulação do Nervo Vago (VNS): Aprovada para depressão refratária, incluindo a depressão bipolar, como tratamento adjuvante de longo prazo.
Manejo clínico prático
Tomada de Decisão:
- Quando Iniciar a Terapia de Manutenção: A indicação é quase sempre após o primeiro episódio de transtorno bipolar tipo I, seja de mania ou depressão. A descontinuação do lítio após uma resposta inicial está associada a um risco 28 vezes maior de recaída.
- Quando Ajustar a Dosagem (Reduzir): Após o período de estabilização (3-6 meses de eutimia), na presença de efeitos adversos significativos que ameacem a adesão, ou como parte de uma estratégia proativa para otimizar a relação risco-benefício a longo prazo.
- Quando Trocar ou Combinar: Em caso de recaída durante o tratamento com dose adequada, efeito adverso intolerável, ou resposta apenas parcial após um período de trial adequado. A combinação é comum na prática.
Monitoramento da Resposta: A avaliação deve ser regular, monitorando não apenas a ausência de episódios completos, mas também sintomas subsindrômicos, funcionamento psicossocial, efeitos adversos e adesão. A dosagem sérica de medicamentos é uma ferramenta objetiva crucial.
Manejo da Resistência Terapêutica: Definida como falha em responder a dois ou mais trials adequados de estabilizadores do humor. Estratégias incluem: otimização da dose (às vezes aumentando novamente para faixa média-alta temporariamente), combinação de agentes, revisão do diagnóstico e comorbidades (especialmente abuso de substâncias), e consideração de tratamentos não farmacológicos intensivos como a ECT.
Contexto Brasileiro: O acesso ao tratamento no SUS ocorre prioritariamente via CAPS, que oferecem atendimento multiprofissional. A disponibilidade de medicamentos segue o RENAME, o que pode limitar o acesso a alguns antipsicóticos atípicos ou formulações de última geração. O papel do médico da família na detecção, encaminhamento e acompanhamento compartilhado é vital. A judicialização para obtenção de medicamentos não disponíveis no SUS é uma realidade frequente.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
O paciente com transtorno bipolar frequentemente vivencia uma "montanha-russa" emocional. Durante a mania, pode experimentar inicialmente euforia e produtividade, mas posteriormente enfrenta as consequências devastadoras de suas ações impulsivas. A depressão é carregada de desesperança, fadiga e, muitas vezes, culpa pelos eventos ocorridos durante a mania. A perspectiva de uma medicação vitalícia pode ser assustadora, e os efeitos adversos (ganho de peso, tremores, "embotamento" cognitivo) são queixas frequentes que impactam diretamente a qualidade de vida e a adesão.
Psicoeducação: A comunicação clínica deve ser clara, empática e contínua. É fundamental explicar:
- A natureza crônica e biológica da doença, desestigmatizando-a.
- A diferença entre tratamento agudo (para apagar o "incêndio") e de manutenção (para "instalar um sistema de sprinklers" e prevenir novos incêndios).
- A lógica por trás do ajuste de dosagem: "A dose necessária para controlar a crise é muitas vezes maior do que a necessária para evitar uma nova crise. Reduzir gradualmente, com monitoramento, nos permite encontrar a menor dose eficaz, que causa menos efeitos colaterais e é mais fácil de tomar a vida toda."
- A importância do monitoramento laboratorial, especialmente para o lítio ("é como verificar o óleo do carro").
- Os sinais prodrômicos de recaída (ex.: redução da necessidade de sono pode sinalizar mania; perda de interesse pode sinalizar depressão).
Impacto Funcional: O transtorno compromete significativamente as relações familiares, a vida profissional, a estabilidade financeira e a autoestima. Estratégias de reabilitação são parte integral do cuidado.
Adesão ao Tratamento: Barreiras incluem negação da doença (especialmente na eutimia), efeitos adversos, custo, complexidade do regime, e a própria natureza da mania (que pode levar o paciente a acreditar que está curado e não precisa mais de medicação). Estratégias para melhorar a adesão incluem: ajuste de dose para minimizar efeitos adversos, uso de caixinhas organizadoras, envolvimento da família no suporte, e manutenção de uma aliança terapêutica sólida e não julgadora.
Perguntas frequentes
1. Por que preciso tomar remédio para sempre se já me sinto bem?
O transtorno bipolar é uma condição crônica com alta taxa de recorrência. A medicação de manutenção atua como um estabilizador, prevenindo os desequilíbrios neuroquímicos que levam aos episódios de mania e depressão. Parar a medicação durante a eutimia (período de normalidade) aumenta drasticamente o risco de uma nova crise, que pode ser mais grave e difícil de tratar.
2. Os efeitos colaterais vão durar para sempre? Muitos são intoleráveis.
Muitos efeitos adversos, como sedação, tremores leves ou náuseas, podem atenuar com o tempo ou serem manejados com ajustes de dose e horários. A estratégia de redução para a dose eficaz mínima na fase de manutenção tem como objetivo principal minimizar esses efeitos a longo prazo. É crucial relatar todos os efeitos ao seu médico para que, juntos, possam encontrar o melhor equilíbrio entre eficácia e tolerabilidade.
3. É verdade que a dose de manutenção pode ser menor que a dose usada na crise?
Sim, isso é uma prática clínica bem fundamentada. Durante um episódio agudo (especialmente de mania), são necessárias doses mais altas (concentrações séricas na faixa média-alta) para controlar os sintomas com rapidez. Uma vez estabilizado, a dose pode ser gradualmente reduzida para uma faixa baixa-média, que é suficiente para prevenir novas crises na maioria dos pacientes, mas com um perfil de efeitos adversos muito mais favorável.
4. Meu familiar com bipolaridade parou de tomar o remédio e agora está em crise. O que fazer?
A descontinuação abrupta, especialmente do lítio, pode precipitar uma recaída rápida e grave. A primeira ação é buscar ajuda profissional imediatamente, seja no CAPS de referência, no pronto-socorro psiquiátrico ou com o psiquiatra assistente. Em situações de risco (agressividade, ideação suicida, impulsividade grave), a hospitalização pode ser necessária. A abordagem deve ser de apoio, evitando confrontos durante a crise, e focando na garantia de segurança e no restabelecimento do tratamento.
5. Existe risco de dano aos rins ou à tireoide com o lítio a longo prazo?
O lítio pode, em alguns pacientes, causar alterações na função renal (como diabetes insipido nefrogênico ou, mais raramente, redução da taxa de filtração glomerular) e hipotireoidismo. Por isso o monitoramento com exames de sangue periódicos é obrigatório. A estratégia de usar a menor dose eficaz na manutenção e monitorar regularmente visa justamente detectar e manejar precocemente quaisquer alterações, minimizando seu impacto. Para muitos pacientes, os benefícios da estabilização do humor superam esses riscos controláveis.
6. Posso tomar antidepressivo se tiver uma depressão durante a manutenção?
Episódios depressivos podem ocorrer mesmo durante a terapia de manutenção. O uso de antidepressivos em pacientes bipolares deve ser extremamente cauteloso e sempre associado a um estabilizador do humor, devido ao risco de induzir uma virada para mania/hipomania ou acelerar a ciclagem. A decisão deve ser tomada pelo psiquiatra, que pode optar por antidepressivos considerados de menor risco (como ISRS) por um período limitado, ou por outras estratégias como aumentar a dose do estabilizador, usar lamotrigina ou considerar terapias não farmacológicas como a TCC ou ECT.
7. A terapia é realmente necessária? Não basta o remédio?
As diretrizes internacionais e a prática clínica de excelência recomendam a terapia combinada. A psicoterapia (especialmente a psicoeducação e a TCC) ensina habilidades que o remédio sozinho não fornece: como identificar os primeiros sinais de recaída, como manejar o estresse, como regular emoções e como lidar com os impactos da doença na vida. Está comprovado que essa combinação leva a uma maior adesão ao tratamento farmacológico, menos recaídas e menos hospitalizações.
8. No SUS, só tenho acesso a medicamentos mais antigos. Eles são eficazes?
Absolutamente. O lítio, disponível no SUS via RENAME, continua sendo o padrão-ouro para a profilaxia do transtorno bipolar, com robusta evidência científica de eficácia. Outros medicamentos essenciais como valproato e carbamazepina também são altamente eficazes. O sucesso do tratamento depende muito mais do diagnóstico preciso, da dose adequada, do monitoramento rigoroso (clínico e laboratorial) e da adesão do paciente do que propriamente da "geração" do medicamento. O acompanhamento nos CAPS oferece o suporte multiprofissional necessário para otimizar o uso dessas ferramentas fundamentais.
Referências
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR). Washington, DC: APA, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – 11ª edição (CID-11). Genebra: OMS, 2022.
- Yatham, L.N., et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders (ISBD) 2018 guidelines for the management of patients with bipolar disorder. Bipolar Disorders, 20(2), 97-170, 2018.
- Associação Brasileira de Psiquiatria. Diretrizes para o tratamento do transtorno bipolar. ABP, 2020 (ou versão mais atual disponível).
- Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde, 2022.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.