Síndromes Comportamentais na Demência Progressiva

Definição e epidemiologia

As síndromes comportamentais na demência progressiva referem-se a um conjunto de sintomas psiquiátricos e alterações de comportamento que se desenvolvem no curso de transtornos neurocognitivos maiores (demência). Elas não são meras reações psicológicas à perda cognitiva, mas sim complicações frequentes e clinicamente distintas do processo neurodegenerativo. Conforme destacado no Compêndio de Psiquiatria de Kaplan & Sadock, "o curso de quase todos os sujeitos que desenvolvem demência progressiva é complicado pelo início de uma ou mais síndromes comportamentais distintas, incluindo ansiedade, depressão, problemas do sono, psicose e agressividade". Esses sintomas constituem alvos terapêuticos primários, pois podem causar "tanto sofrimento e incapacitação quanto o transtorno cognitivo primário".

Nos sistemas classificatórios, essas síndromes são registradas como especificadores do transtorno neurocognitivo maior (DSM-5-TR) ou como transtornos mentais ou comportamentais devidos a doenças cerebrais (CID-11). Por exemplo, o DSM-5-TR permite especificar "com alterações comportamentais" (como agitação, apatia, desinibição, comportamento motor repetitivo) e "com sintomas psicológicos" (como delírios, alucinações, humor depressivo, ansiedade).

Epidemiologicamente, a prevalência é extremamente alta. Estima-se que mais de 90% dos pacientes com demência desenvolverão pelo menos uma síndrome comportamental clinicamente significativa ao longo da doença. A agitação e a agressividade (verbal ou física) afetam entre 40% a 80% dos pacientes, variando com o estágio e a etiologia da demência. Sintomas depressivos estão presentes em até 50% dos casos, e sintomas psicóticos (delírios, alucinações) em 30% a 50%, sendo particularmente comuns na demência com corpos de Lewy. Problemas do sono, incluindo a síndrome de confusão noturna (sundowning), são quase universais em fases moderadas a avançadas. No Brasil, dados do Sistema Único de Saúde (SUS) e estudos epidemiológicos regionais refletem essa alta prevalência, com sobrecarga significativa para os cuidadores familiares e para a rede de atenção psicossocial.

O curso clínico é dinâmico. Síndromes como a acumulação desorganizada de objetos, conforme mencionado, podem iniciar de forma organizada e progredir para a desorganização com a evolução da doença. Fatores de risco para o desenvolvimento ou exacerbação dessas síndromes incluem: gravidade da demência, presença de dor não tratada, infecções intercorrentes, polifarmácia (especialmente com fármacos anticolinérgicos), ambiente desorientador, privação sensorial e estresse no cuidador. A síndrome de confusão noturna é precipitada pela redução de estímulos externos, como luz e interação social, ao final do dia.

Etiopatogenia e neurobiologia

A etiopatogenia é multifatorial, envolvendo a interação complexa entre lesão cerebral neurodegenerativa, vulnerabilidades individuais e fatores psicossociais. Kaplan & Sadock enfatizam que algumas síndromes, como a psicose, podem ser "o resultado de biologias subjacentes independentes e se agregar ao processo neurodegenerativo primário". Neuropatologicamente, a maioria das demências apresenta misturas de patologias (Alzheimer, vascular, corpos de Lewy), o que contribui para a heterogeneidade das apresentações comportamentais.

Os sistemas de neurotransmissão são profundamente afetados:

  • Sistema Colinérgico: A degeneração de neurônios colinérgicos no núcleo basal de Meynert, central na Doença de Alzheimer, está associada não apenas ao déficit de memória, mas também a apatia, alucinações e flutuações cognitivas.
  • Sistema Serotoninérgico: A perda de neurônios nos núcleos da rafe está ligada ao surgimento de sintomas depressivos, ansiedade, agitação e desinibição.
  • Sistema Dopaminérgico: Alterações nas vias dopaminérgicas mesocorticais e mesolímbicas estão implicadas na psicose (delírios, alucinações) e em comportamentos motores aberrantes.
  • Sistema Noradrenérgico: A degeneração do locus coeruleus correlaciona-se com agitação, labilidade emocional e sintomas de sundowning.
  • Sistema Glutamatérgico: A excitotoxicidade mediada pelo glutamato contribui para a neurodegeneração e pode estar relacionada a agitação.

Achados de neuroimagem funcional (PET, SPECT) mostram que sintomas específicos correlacionam-se com padrões regionais de hipometabolismo ou hipoperfusão. Por exemplo, agressividade e desinibição frequentemente associam-se a disfunção do córtex orbitofrontal e do cíngulo anterior. Apatia correlaciona-se com alterações no córtex pré-frontal dorsolateral e nos gânglios da base. A psicose na Doença de Alzheimer tem sido associada a anormalidades nas redes temporoparietais.

Fatores psicológicos e ambientais modulam a expressão dessas vulnerabilidades neurobiológicas. A perda da memória recente, preservando a remota, gera uma "angústia" profunda ao paciente, que percebe seu declínio. Um ambiente subestimulante, mudanças na rotina ou comunicação inadequada podem desencadear agitação ou retraimento como formas de expressão de desconforto ou medo.

Quadro clínico

As manifestações clínicas organizam-se em domínios que frequentemente se sobrepõem:

  1. Distúrbios do Humor e Afeto:

    • Sintomas Depressivos: Humor deprimido, anedonia, retraimento social, choro fácil, ideias de desvalia. Diferem da depressão primária pela menor proeminência de sentimentos de culpa e pela frequente dificuldade do paciente em relatar seu estado subjetivo.
    • Ansiedade: Preocupação excessiva, inquietação psicomotora, tensão, queixas somáticas vagas. Pode ser generalizada ou situacional (ex.: ao ser deixado sozinho).
    • Labilidade e Irritabilidade: Mudanças rápidas e superficiais do humor, com irritabilidade e impaciência facilmente despertadas.
  2. Sintomas Psicóticos:

    • Delírios: Tipicamente não elaborados, de tema persecutório (ex.: "roubaram meu objeto", "esta não é minha casa"), de prejuízo ou ciúme. São comuns os delírios de abandono e de infestação.
    • Alucinações: Predominantemente visuais, menos comumente auditivas. São um marco da demência com corpos de Lewy.
  3. Alterações Comportamentais:

    • Agressividade/Agitação: Comportamento verbal (gritos, xingamentos) ou físico (agressão, resistência aos cuidados) que coloca em risco o paciente ou outros. É frequentemente uma reação a demandas percebidas como ameaçadoras (ex.: banho, troca de roupa).
    • Apatia: Indiferença, perda de iniciativa, redução do engajamento em atividades anteriormente prazerosas. É o sintoma comportamental mais comum e frequentemente confundido com depressão.
    • Desinibição: Perda das convenções sociais, comentários ou comportamentos sexualmente inadequados, impulsividade. Associada a lesões frontais.
    • Comportamentos Motores Repetitivos: Caminhar sem rumo (wandering), manusear objetos de forma estereotipada, vocalizações repetitivas.
    • Acumulação (Hoarding): Colecionar objetos sem valor de forma desorganizada, associando-se a furto, ocultação e hiperfagia em estágios moderados a graves.
  4. Distúrbios do Ritmo Sono-Vigília:

    • Síndrome de Confusão Noturna (Sundowning): Caracteriza-se por "sonolência, confusão, ataxia e quedas acidentais" no período vespertino e noturno. Ocorre com a redução de estímulos ambientais e pode ser exacerbado por sedativos.
    • Inversão do ciclo: Sonolência diurna e vigília noturna com agitação.
    • Fragmentação do sono: Múltiplos despertares.
  5. Alterações do Apetite e Alimentação: Hiperfagia, alterações de preferências alimentares (especialmente por doces), ou recusa alimentar.

Avaliação e diagnóstico

A avaliação é clínica e deve buscar identificar causas tratáveis e caracterizar o comportamento-alvo.

  • Entrevista Clínica: Deve incluir o paciente e, fundamentalmente, um informante confiável (cuidador). Pontos-chave: descrição precisa do comportamento (frequência, intensidade, antecedentes, consequências), cronologia em relação ao declínio cognitivo, identificação de fatores desencadeantes (dor, infecção, constipação, ambiente), revisão completa da medicação (incluindo anticolinérgicos), e impacto no cuidador.
  • Exame do Estado Mental: Avaliação cognitiva formal (ex.: Mini-Exame do Estado Mental – MEEM, MoCA) e observação do comportamento durante a consulta (agitação, apatia, linguagem inadequada). A avaliação do afeto deve considerar a discrepância entre o relato subjetivo e a expressão emocional observada.
  • Escalas de Avaliação: Instrumentos validados são essenciais para quantificar a gravidade e monitorar a resposta ao tratamento. No Brasil, são utilizadas:
    • Neuropsychiatric Inventory (NPI) ou sua versão breve (NPI-Q): padrão-ouro para avaliar 12 domínios neuropsiquiátricos.
    • Cornell Scale for Depression in Dementia: para sintomas depressivos.
    • Cohen-Mansfield Agitation Inventory (CMAI): para agitação.
  • Exames Complementares:
    • Laboratoriais: Hemograma, eletrólitos, função renal e hepática, TSH, vitamina B12, ácido fólico, VDRL, para excluir causas reversíveis de delirium que podem exacerbar comportamentos.
    • Neuroimagem: Tomografia ou Ressonância de crânio para afastar causas estruturais (hematoma subdural, hidrocefalia, tumor) e auxiliar no diagnóstico etiológico da demência.
    • EEG: Pode ser útil para diferenciar delirium de exacerbação comportamental e na suspeita de demência com corpos de Lewy.
  • Diagnóstico Diferencial Estruturado:
    • Delirium: Início agudo, flutuação, atenção prejudicada. É um "fator de risco para o acréscimo de delirium" na demência. A distinção é crucial, pois o delirium exige investigação de causa orgânica aguda.
    • Transtorno Depressivo Maior: Pode simular demência (pseudodemência). A história pré-mórbida e o perfil cognitivo (queixa de memória vs. desempenho) auxiliam.
    • Transtornos Psicóticos Primários: Início tardio de psicose sem demência significativa.
    • Dor ou Desconforto Não Comunicado: Fonte comum de agitação em pacientes com dificuldade de expressão.
  • Armadilhas Diagnósticas:
    • Atribuir todos os comportamentos à "demência" sem buscar causas tratáveis.
    • Negligenciar o ambiente e a dinâmica do cuidado como fatores perpetuantes.
    • Confundir apatia com depressão.

Tratamento farmacológico

O tratamento farmacológico é sintomático e deve ser iniciado apenas após a otimização das medidas não farmacológicas e a exclusão de causas reversíveis. Deve-se seguir o princípio de "começar com dose baixa e aumentar lentamente" (start low, go slow).

Algoritmo Terapêutico Baseado em Evidências:

  1. Primeira Linha (Intervenções Específicas por Síndrome):

    • Agitação/Agressividade não-psicótica e Apatia: Inibidores da Colinesterase (Donepezila, Rivastigmina, Galantamina). São a base do tratamento da Doença de Alzheimer e Demência com Corpos de Lewy. Melhoram modestamente a cognição, mas têm efeito estabilizador sobre o comportamento. A Memantina (antagonista de NMDA) pode ser útil na agitação em fases moderadas a graves.
    • Sintomas Depressivos/Ansiosos: Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRSs). Sertralina, citalopram e escitalopram são preferidos por seu perfil de efeitos adversos favorável. Evitar antidepressivos tricíclicos (alta atividade anticolinérgica).
    • Sintomas Psicóticos ou Agitação Grave Refratária: Antipsicóticos Atípicos. Risperidona e quetiapina são os mais estudados. O uso deve ser extremamente criterioso, com consentimento informado sobre o aumento do risco de acidente vascular cerebral e mortalidade em idosos com demência. A dose eficaz é frequentemente muito baixa (ex.: risperidona 0,25-0,5 mg/dia). O uso deve ser por tempo limitado e reavaliado periodicamente.
  2. Segunda Linha e Situações Específicas:

    • Ansiedade Insônia: Benzodiazepínicos devem ser EVITADOS de rotina devido ao alto risco de confusão, sedação paradoxal, quedas e prejuízo cognitivo. Se absolutamente necessário, usar agentes de meia-vida curta (ex.: lorazepam) em dose mínima e por curto prazo. Alternativas preferíveis para insônia incluem a melatonina de liberação prolongada.
    • Agressividade Refratária: Pode-se considerar anticonvulsivantes com propriedades estabilizadoras de humor (ex.: carbamazepina, valproato), sempre monitorando efeitos adversos e interações.
  3. Monitoramento e Efeitos Adversos:

    • Antipsicóticos: Monitorar para sedação excessiva, sintomas extrapiramidais, ganho de peso, alterações metabólicas e discinesia tardia (movimentos involuntários da boca, língua e face, cuja incidência "é mais elevada em idosos e em indivíduos com lesão cerebral").
    • ISRSs: Monitorar para náusea, diarreia, cefaleia, síndrome serotoninérgica (rara) e, inicialmente, aumento da ansiedade.
    • Inibidores da Colinesterase: Efeitos colaterais gastrointestinais (náuseas, diarreia, anorexia) são comuns no início; titulação lenta atenua esses efeitos.

Contexto Brasileiro: O Sistema Único de Saúde (SUS), através da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME), disponibiliza donepezila, rivastigmina, memantina, haloperidol e alguns ISRSs (sertralina, fluoxetina). A prescrição de antipsicóticos atípicos como risperidona para demência segue restrições regulatórias, exigindo justificativa clínica detalhada. A assistência pode ser complementada nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), especialmente os CAPS III e CAPS AD, que oferecem suporte multiprofissional.

Tratamento não farmacológico

É a base do manejo e deve sempre preceder e acompanhar a farmacoterapia.

  1. Intervenções Psicológicas e Psicossociais para o Paciente:

    • Terapia de Validação: Aceitar a realidade subjetiva do paciente, sem confrontá-lo, reduzindo a ansiedade e a agitação.
    • Terapia de Estimulação Cognitiva: Atividades estruturadas em grupo para estimular funções cognitivas preservadas, com benefícios para o humor e a interação social.
    • Atividades Significativas: Envolver o paciente em tarefas simples e adaptadas às suas capacidades (ex.: dobrar roupas, regar plantas) para promover senso de utilidade e reduzir a apatia.
    • Musicoterapia e Terapia com Animais: Podem reduzir agitação e melhorar o afeto, especialmente em fases mais avançadas.
  2. Intervenções Ambientais:

    • Otimização do Ambiente: Ambiente seguro, calmo, bem iluminado (para reduzir sundowning), com pistas de orientação (relógios, calendários, fotos). Reduzir ruídos excessivos e aglomerações.
    • Rotina Estruturada: Estabelecer horários consistentes para refeições, higiene, atividades e sono, reduzindo a ansiedade por previsibilidade.
  3. Suporte e Intervenções para o Cuidador/Família:

    • Psicoeducação: Fornecer informações claras sobre a doença, o significado dos comportamentos e estratégias de manejo. É fundamental explicar que a agressividade não é intencional.
    • Intervenções Psicodinâmicas de Suporte: Como descrito, o clínico pode ajudar o cuidador a lidar com "sentimentos de culpa, pesar, raiva e exaustão", fornecendo "compreensão, bem como permissão para expressar esses sentimentos". O "autossacrifício" do cuidador leva ao ressentimento reprimido, que precisa ser trabalhado.
    • Treinamento em Manejo Comportamental: Ensinar técnicas de comunicação (instruções simples, uma de cada vez), de distração e redirecionamento para lidar com comportamentos desafiadores.
    • Suporte Prático e Respiro (Respite): Encaminhamento para grupos de apoio, serviços de home care ou internação temporária para aliviar a sobrecarga do cuidador.
  4. Procedimentos:

    • Eletroconvulsoterapia (ECT): Pode ser considerada em casos graves e refratários de depressão com risco vital ou agitação psicótica extrema, sob rigorosa avaliação de riscos e benefícios.

Manejo clínico prático

A tomada de decisão segue uma abordagem escalonada e integrada:

  1. Avaliação Inicial: Identificar e tratar causas médicas agudas (dor, infecção, delirium). Caracterizar o comportamento-alvo (ABC: Antecedente, Comportamento, Consequência).
  2. Otimizar o Ambiente e o Cuidado: Implementar estratégias não farmacológicas por 1-2 semanas. Envolver a família e os cuidadores formais.
  3. Revisar Medicações: Suspender ou reduzir fármacos não essenciais, especialmente os com propriedades anticolinérgicas ou sedativas.
  4. Iniciar Farmacoterapia Específica: Escolher o agente baseado no perfil dominante da síndrome (ex.: ISRS para depressão com ansiedade; antipsicótico em baixa dose para psicose com agressividade). Iniciar com 1/4 a 1/2 da dose inicial adulta.
  5. Monitorar e Titular: Avaliar resposta e efeitos adversos em 2-4 semanas. Aumentar a dose gradualmente até obter resposta ou surgirem efeitos limitantes.
  6. Manejo da Resistência Terapêutica: Se não houver resposta após dose terapêutica adequada por 4-6 semanas, reconsiderar o diagnóstico, aderência, fatores ambientais e comorbidades. Considerar troca para agente de outra classe ou combinação criteriosa (ex.: ISRS + antipsicótico atípico em dose baixa para depressão com psicose).
  7. Desprescrição: Tentar reduzir lentamente a dose de psicofármacos, especialmente antipsicóticos, a cada 3-6 meses, para verificar se a medicação ainda é necessária.

Critérios de Remissão: Redução significativa na frequência e intensidade do comportamento-alvo, melhora no funcionamento global, redução da sobrecarga do cuidador e ausência de efeitos adversos incapacitantes.

Perspectiva do paciente e comunicação clínica

O paciente vivencia um mundo que gradualmente perde o sentido e a previsibilidade. A memória recente falha, mas a lembrança de suas capacidades anteriores pode causar intensa angústia. Comportamentos como a agitação ou a recusa de cuidados são frequentemente expressões de medo, confusão, frustração por não conseguir se comunicar ou reações a estímulos ambientais aversivos (ex.: água muito quente no banho). A apatia pode ser uma forma de retirada de um mundo que se tornou ininteligível e ameaçador.

Psicoeducação deve ser dirigida à família e, na medida do possível, ao paciente. É crucial explicar:

  • "A demência é uma doença do cérebro. Os comportamentos difíceis são sintomas da doença, não são ‘frescura’ ou ‘mau-caratismo’."
  • "O paciente não está nos testando de propósito. Ele está reagindo a uma realidade interna confusa e assustadora."
  • "Nossa comunicação e o ambiente podem piorar ou melhorar esses sintomas."
  • "Cuidar de si mesmo não é egoísmo. Para cuidar bem, o cuidador precisa estar bem."

O impacto funcional é enorme, muitas vezes levando à institucionalização precoce. A qualidade de vida do paciente e de toda a família é profundamente afetada.

Estratégias para Adesão: Simplificar esquemas posológicos (uso de caixinhas organizadoras), associar a tomada a uma rotina fixa (ex.: café da manhã), e envolver o paciente na decisão na medida do possível. Para o cuidador, a adesão ao suporte psicológico e ao autocuidado é tão vital quanto a adesão do paciente à medicação.

Perguntas frequentes

1. A agressividade do meu familiar com Alzheimer é parte da doença ou ele está com raiva de mim?
É quase sempre um sintoma da doença. A neurodegeneração afeta áreas do cérebro que controlam o impulso, o julgamento e a regulação emocional. A agressividade é geralmente uma reação a um medo, uma frustração por não conseguir se comunicar, uma dor física ou uma sensação de invasão (ex.: durante o banho). Não é pessoal, embora seja natural que o cuidador se sinta magoado.

2. Medicamentos para demência, como donepezila, tratam a agitação?
Sim, podem ter um efeito estabilizador sobre o comportamento. Os inibidores da colinesterase, ao aumentarem a disponibilidade de acetilcolina no cérebro, podem melhorar modestamente a apatia, a indiferença e reduzir alucinações e agitação, especialmente na Doença de Alzheimer e Demência com Corpos de Lewy. Eles são considerados a primeira linha para os sintomas neuropsiquiátricos nessas condições.

3. Por que os médicos relutam em usar calmantes (benzodiazepínicos) para a ansiedade e agitação?
Porque em idosos com demência, esses medicamentos frequentemente causam o efeito oposto: excitação paradoxal, confusão mental grave, aumento do risco de quedas (com fraturas) e piora da memória. O risco geralmente supera o benefício. Estratégias não farmacológicas e outros medicamentos (como ISRSs) são mais seguros e eficazes a longo prazo.

4. O que é a síndrome do pôr do sol (sundowning)?
É um agravamento da confusão, agitação e/ou comportamento errante que começa no final da tarde e se estende pela noite. Está ligado à redução da luminosidade ambiental, à fadiga acumulada do dia e à desorientação. Estratégias como manter a casa bem iluminada à noite, estabelecer uma rotina calmante no fim do dia e evitar sonecas tardias podem ajudar.

5. Meu pai com demência começou a guardar lixo e objetos inúteis. O que fazer?
Este comportamento de acumulação (hoarding) é comum na demência moderada a grave. Inicia-se de forma organizada e torna-se desorganizado. É inútil discutir ou jogar os objetos fora secretamente, pois isso gera extrema ansiedade. Uma abordagem é designar um local seguro (uma gaveta, uma caixa) onde ele possa guardar seus "tesouros", enquanto se mantém o resto do ambiente organizado e seguro.

6. Quando um antipsicótico (como risperidona) é realmente necessário?
Seu uso é justificado apenas em situações específicas: quando há sintomas psicóticos (delírios persecutórios, alucinações) que causam sofrimento intenso ou risco; ou agitação física grave que não responde a outras medidas e coloca o paciente ou outros em perigo iminente. O uso deve ser em dose mínima, por tempo limitado, e sempre com discussão clara dos riscos (AVC, mortalidade) com a família.

7. A demência e o delirium são a mesma coisa?
Não. A demência é um declínio progressivo e crônico. O delirium é uma alteração aguda (horas/dias) da atenção e da consciência, com flutuação. O paciente com demência tem um risco muito maior de desenvolver delirium diante de qualquer estresse orgânico (infecção, desidratação). É fundamental identificar o delirium sobreposto, pois ele exige investigação e tratamento da causa médica aguda.

8. Onde posso buscar ajuda além do médico no Brasil?

  • CAPS (Centros de Atenção Psicossocial): Oferecem atendimento multiprofissional (médico, psicólogo, terapeuta ocupacional, assistente social) e suporte familiar.
  • Associações de Familiares: Como a Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz), que oferece grupos de apoio, orientação e material educativo.
  • Serviços de Assistência Social do Município: Podem orientar sobre benefícios (BPC-LO) e serviços de home care ou cuidados diurnos.
  • Atendimento Domiciliar (SUS ou particular): Para pacientes com grande dificuldade de locomoção.

Referências

  • Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
  • American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – Texto Revisado (DSM-5-TR). Porto Alegre: Artmed, 2022.
  • Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – 11ª edição (CID-11). Genebra: OMS, 2022.
  • Ministério da Saúde do Brasil. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Alzheimer. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.
  • Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes para o tratamento da agitação e agressividade em pacientes com transtornos neurocognitivos. 2021.
  • Lyketsos, C.G. et al. Neuropsychiatric symptoms in Alzheimer’s disease. Alzheimer’s & Dementia, 2011.

Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.

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