Um guia completo para entender, reconhecer e lidar com essa condição
O que é?
Imagine que o seu cérebro é como um computador superpoderoso, responsável por controlar tudo no seu corpo: emoções, pensamentos, memórias, movimentos e até como você enxerga o mundo. Agora, pense que, de repente, esse computador começa a apresentar falhas — não porque ele está “quebrado” por si só, mas porque algo fora dele está interferindo no seu funcionamento. Pode ser uma doença física, um desequilíbrio químico, uma lesão ou até mesmo os efeitos de um medicamento. Essas falhas não são “frescura”, nem “falta de força de vontade”: são sintomas reais, causados por algo concreto no corpo, que afetam a mente.
A Síndrome Mental ou Comportamental Secundária Não Especificada (6E6Z) é justamente isso: um conjunto de sintomas psicológicos ou comportamentais que aparecem como consequência direta de uma doença física, um problema neurológico, uma alteração hormonal ou até mesmo o uso de certas substâncias. A diferença entre essa condição e outros transtornos mentais (como depressão ou ansiedade “comuns”) é que, aqui, os sintomas não surgem do nada — eles têm uma causa clara e identificável fora da mente.
Por exemplo:
– Uma pessoa com hipotireoidismo (quando a tireoide funciona menos do que deveria) pode desenvolver depressão, cansaço extremo e dificuldade de concentração. Esses sintomas não são “só estresse” ou “preguiça”: são efeitos diretos da falta de hormônios da tireoide no cérebro.
– Alguém que teve um AVC (derrame) pode passar a ter mudanças bruscas de humor, agressividade ou dificuldade para controlar impulsos. Isso não é “falta de educação”: é uma consequência da lesão no cérebro.
– Uma pessoa com lúpus (doença autoimune) pode apresentar alucinações ou paranoia. Não é “loucura”: é o sistema imunológico atacando o cérebro.
Como essa condição se diferencia de outras?
Muitas pessoas confundem essa síndrome com transtornos mentais primários (como depressão maior ou esquizofrenia) ou com reações normais a situações difíceis. Vamos esclarecer as diferenças:
- Não é um transtorno mental primário
- Na depressão maior, por exemplo, não há uma causa física identificável — os sintomas surgem por uma combinação de fatores genéticos, ambientais e psicológicos.
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Na síndrome secundária, os sintomas só aparecem porque algo no corpo está desregulado. Se a causa física for tratada, os sintomas mentais tendem a melhorar.
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Não é uma reação psicológica normal
- Se alguém recebe o diagnóstico de câncer, é normal sentir medo, tristeza ou ansiedade. Isso é uma reação emocional à situação.
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Na síndrome secundária, os sintomas vão além do esperado. Por exemplo: uma pessoa com esclerose múltipla pode desenvolver uma depressão tão grave que perde a vontade de viver, mesmo sem histórico prévio de transtornos mentais. Isso não é “só tristeza”: é o cérebro sendo afetado pela doença.
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Não é delírio
- O delírio (CID-11: 6D70) é uma confusão mental aguda, geralmente causada por infecções, febre alta ou desidratação. A pessoa fica desorientada, não reconhece familiares e pode ter alucinações.
- Na síndrome secundária, a pessoa não está confusa. Ela pode ter depressão, ansiedade ou até psicose, mas mantém a noção de realidade (exceto em casos específicos, como psicose secundária).
Quem é afetado?
Não há dados exatos sobre quantas pessoas no Brasil ou no mundo têm essa síndrome, porque ela não é um diagnóstico isolado — ela sempre está ligada a outra condição médica. Mas podemos estimar com base nas doenças que mais a causam:
- Doenças neurológicas: Até 50% das pessoas com Parkinson desenvolvem depressão ou ansiedade como sintomas secundários. Na esclerose múltipla, cerca de 30-50% têm depressão.
- Doenças endócrinas: O hipotireoidismo afeta 5-10% da população brasileira, e até 40% desses casos apresentam sintomas depressivos.
- Doenças autoimunes: No lúpus, 20-40% dos pacientes desenvolvem sintomas psiquiátricos, como psicose ou transtorno de humor.
- Lesões cerebrais: Após um traumatismo craniano, 20-30% das pessoas desenvolvem depressão ou mudanças de personalidade.
- Uso de medicamentos: Alguns remédios para pressão alta, anticonvulsivantes ou corticoides podem causar depressão, ansiedade ou até alucinações.
Faixa etária mais afetada:
– Adultos acima de 50 anos: Doenças como Parkinson, AVC e hipotireoidismo são mais comuns nessa idade.
– Jovens adultos: Doenças autoimunes (como lúpus) e lesões cerebrais (por acidentes) podem afetar pessoas mais novas.
– Crianças e adolescentes: Menos comum, mas pode acontecer em casos de doenças genéticas, tumores cerebrais ou efeitos colaterais de medicamentos.
Diferenças entre homens e mulheres:
– Mulheres são mais afetadas por doenças autoimunes (como lúpus e tireoidite de Hashimoto), que frequentemente causam sintomas psiquiátricos.
– Homens têm mais risco de lesões cerebrais (por acidentes ou violência) e doenças como Parkinson, que também podem levar a sintomas secundários.
Contexto histórico
Por muito tempo, a medicina tratava o corpo e a mente como coisas separadas. Se uma pessoa com câncer desenvolvia depressão, diziam que era “normal” por causa do diagnóstico. Se alguém com Parkinson ficava agressivo, atribuíam à “idade” ou “mau humor”. Só nas últimas décadas a ciência começou a entender que o cérebro é um órgão como qualquer outro — e que doenças físicas podem afetá-lo diretamente.
- Anos 1980: O DSM-III (manual de diagnóstico psiquiátrico dos EUA) começou a reconhecer que algumas condições mentais eram causadas por doenças físicas.
- Anos 2000: Estudos mostraram que até 30% das pessoas internadas em hospitais por doenças físicas desenvolviam sintomas psiquiátricos secundários.
- Hoje: A CID-11 (usada no Brasil) inclui a categoria 6E6Z justamente para casos em que os sintomas mentais são provocados por outra condição médica, mas não se encaixam em um diagnóstico específico.
Quais são os sintomas?
Os sintomas da síndrome mental ou comportamental secundária variam muito, porque dependem da causa física por trás deles. Uma pessoa com hipotireoidismo pode ter depressão e lentidão mental, enquanto alguém com esclerose múltipla pode ter ansiedade e irritabilidade. O que todos esses casos têm em comum é que os sintomas não são “psicológicos” no sentido tradicional — eles são reações do cérebro a algo que está acontecendo no corpo.
Vamos detalhar os principais sintomas, divididos por categorias. Lembre-se: ter um ou dois desses sintomas não significa que você tenha a síndrome. O que importa é:
– A intensidade (o quanto eles atrapalham sua vida).
– A duração (se persistem por semanas ou meses).
– A relação com uma causa física (se começaram depois de uma doença, lesão ou uso de medicamento).
1. Sintomas emocionais e de humor
Depressão secundária
O que é?
É como se o cérebro “desligasse” a capacidade de sentir prazer, esperança ou motivação. Não é “tristeza passageira” — é um peso constante, como se você estivesse carregando uma mochila de chumbo nas costas.
Como aparece no dia a dia?
– Você pode perceber que:
– Mesmo as coisas que antes te davam alegria (como ver um filme, sair com amigos ou praticar um hobby) agora parecem sem graça, como se alguém tivesse “desligado o botão do prazer”.
– Você chora sem motivo aparente, ou sente um vazio tão grande que parece que nada mais importa.
– Acorda já se sentindo exausto, como se tivesse corrido uma maratona durante o sono.
– Tem pensamentos como: “Não aguento mais”, “Nada vai melhorar” ou “As pessoas estariam melhor sem mim”.
Exemplo concreto:
“Maria, de 55 anos, sempre foi uma pessoa ativa. Depois de um diagnóstico de hipotireoidismo, começou a se sentir cansada o tempo todo. Não tinha mais vontade de cozinhar (algo que amava), parou de sair com as amigas e passava horas deitada no sofá, olhando para o teto. No começo, achou que era só cansaço, mas depois de três meses sem melhora, procurou um psiquiatra. Descobriu que a falta de hormônios da tireoide estava afetando os neurotransmissores do cérebro, causando uma depressão secundária.”
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Ficar triste depois de uma perda, um término de relacionamento ou um dia ruim no trabalho.
– Sintomático: Sentir uma tristeza profunda sem motivo aparente, que dura semanas, mesmo quando tudo na vida está indo bem.
Ansiedade secundária
O que é?
É como se o cérebro estivesse em modo “perigo constante”, mesmo quando não há nenhuma ameaça real. Pode ser uma sensação de apreensão, como se algo ruim fosse acontecer a qualquer momento, ou ataques de pânico repentinos.
Como aparece no dia a dia?
– Você pode perceber que:
– Seu coração dispara do nada, como se você tivesse corrido, mesmo estando parado.
– Tem dificuldade para respirar, como se o ar não chegasse aos pulmões.
– Sente um medo inexplicável de morrer, enlouquecer ou perder o controle.
– Evita lugares ou situações por medo de ter uma crise (como dirigir, ficar em lugares cheios ou sair de casa).
– Tem pensamentos acelerados, como se sua mente não desligasse nunca.
Exemplo concreto:
“João, de 40 anos, sempre foi calmo e controlado. Depois de um diagnóstico de esclerose múltipla, começou a ter crises de ansiedade. Em uma reunião no trabalho, de repente sentiu o coração disparar, as mãos suarem e uma sensação de que ia desmaiar. Achou que estava tendo um infarto e foi para o hospital, mas os exames não mostraram nada. O médico explicou que a esclerose múltipla pode afetar áreas do cérebro relacionadas ao medo, causando ansiedade secundária.”
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Ficar nervoso antes de uma prova, uma entrevista de emprego ou uma viagem de avião.
– Sintomático: Ter ataques de pânico sem motivo aparente, que acontecem várias vezes por semana, mesmo em situações tranquilas.
Irritabilidade e agressividade
O que é?
É como se o “filtro” que controla as emoções estivesse quebrado. Pequenas coisas que antes não te incomodavam agora te deixam furioso, e você pode ter explosões de raiva desproporcionais.
Como aparece no dia a dia?
– Você pode perceber que:
– Grita com pessoas queridas por motivos bobos (como alguém deixar um copo sujo na pia).
– Sente uma raiva tão forte que chega a tremer ou bater portas.
– Depois das explosões, se sente culpado, mas não consegue evitar.
– Pequenos barulhos (como alguém mastigando) te deixam extremamente irritado.
Exemplo concreto:
“Carlos, de 60 anos, sempre foi um homem tranquilo. Depois de um AVC, passou a ter explosões de raiva. Em um jantar de família, gritou com a esposa porque ela demorou para passar o sal. Depois, chorou e pediu desculpas, mas não entendia por que tinha reagido daquele jeito. O médico explicou que o AVC tinha afetado a área do cérebro que controla os impulsos, causando irritabilidade secundária.”
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Ficar bravo quando alguém corta sua frente no trânsito.
– Sintomático: Ter explosões de raiva frequentes por motivos insignificantes, que você mesmo não reconhece como justificáveis.
2. Sintomas cognitivos (pensamento e memória)
Dificuldade de concentração e “névoa mental”
O que é?
É como se sua mente estivesse coberta por uma névoa. Você tenta se concentrar, mas as palavras escapam, as tarefas parecem impossíveis e até conversas simples viram um esforço enorme.
Como aparece no dia a dia?
– Você pode perceber que:
– Começa a ler um parágrafo e, no meio, percebe que não lembra do que leu.
– Esquece o que ia dizer no meio de uma frase.
– Tem dificuldade para acompanhar filmes ou séries porque perde o fio da meada.
– Se distrai facilmente com qualquer barulho ou movimento.
Exemplo concreto:
“Ana, de 35 anos, sempre foi ótima no trabalho. Depois de começar a tomar um remédio para pressão alta, passou a ter dificuldade para se concentrar. Em uma reunião, não conseguiu acompanhar a discussão e saiu com a sensação de que tinha “perdido” 20 minutos. O médico explicou que o medicamento podia estar afetando neurotransmissores relacionados à atenção, causando uma névoa mental secundária.”
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Ter dificuldade para se concentrar depois de uma noite mal dormida.
– Sintomático: Sentir que sua capacidade de foco diminuiu drasticamente e isso atrapalha seu trabalho ou estudos, mesmo quando você está descansado.
Problemas de memória
O que é?
É como se seu cérebro tivesse “buracos”. Você esquece coisas que acabou de ouvir, perde objetos com frequência ou não lembra de compromissos importantes.
Como aparece no dia a dia?
– Você pode perceber que:
– Esquece onde deixou as chaves todos os dias.
– Não lembra o nome de pessoas conhecidas.
– Repete a mesma pergunta várias vezes porque não guarda a resposta.
– Esquece de tomar remédios ou pagar contas.
Exemplo concreto:
“Pedro, de 50 anos, sempre teve uma memória excelente. Depois de uma infecção grave que exigiu internação, passou a esquecer coisas básicas. Em um dia, perdeu o celular três vezes, esqueceu de buscar o filho na escola e não lembrava o que tinha almoçado. Os exames não mostraram demência, mas o médico suspeitou de uma síndrome secundária causada pela inflamação no cérebro durante a infecção.”
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Esquecer onde deixou o celular uma vez ou outra.
– Sintomático: Esquecer coisas todos os dias, a ponto de atrapalhar sua rotina.
3. Sintomas psicóticos (em casos graves)
Alucinações
O que é?
É quando você vê, ouve ou sente coisas que não existem. Pode ser assustador, como ouvir vozes quando está sozinho ou ver sombras que se movem.
Como aparece no dia a dia?
– Você pode perceber que:
– Ouve vozes que ninguém mais escuta (como alguém chamando seu nome).
– Vê pessoas ou objetos que não estão lá (como uma sombra no canto do quarto).
– Sente cheiros estranhos (como algo queimando) sem motivo.
– Tem a sensação de que alguém está te tocando, mesmo quando está sozinho.
Exemplo concreto:
“Clara, de 28 anos, começou a ouvir vozes depois de um surto de lúpus. As vozes diziam coisas ruins sobre ela e a mandavam se machucar. No começo, achou que estava ficando louca, mas depois descobriu que o lúpus pode causar inflamação no cérebro, levando a alucinações secundárias.”
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Ter a sensação de ouvir seu nome sendo chamado quando está sozinho (pode ser um efeito do cérebro tentando dar sentido a sons ambientes).
– Sintomático: Ouvir vozes claramente, como se alguém estivesse falando com você, ou ver coisas que outras pessoas não veem.
Delírios
O que é?
É quando você acredita em coisas que não são reais, mesmo quando todas as evidências mostram o contrário. Pode ser paranoia (achar que estão te perseguindo) ou ideias grandiosas (acreditar que tem poderes especiais).
Como aparece no dia a dia?
– Você pode perceber que:
– Acha que seus familiares estão tentando te envenenar (sem nenhuma prova).
– Acredita que tem uma missão especial (como salvar o mundo).
– Pensa que está sendo espionado pelo governo ou por vizinhos.
– Fica convencido de que tem uma doença grave, mesmo com exames normais.
Exemplo concreto:
“Rafael, de 45 anos, começou a acreditar que sua esposa estava tendo um caso, mesmo sem nenhuma evidência. Chegou a seguir ela pela rua e revirar suas coisas em busca de provas. Depois de um check-up, descobriu que tinha um tumor na glândula adrenal, que estava causando um desequilíbrio hormonal e levando a delírios secundários.”
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Desconfiar de alguém depois de uma traição ou ter uma ideia exagerada sobre suas habilidades (como achar que canta bem, mesmo sem talento).
– Sintomático: Acreditar em coisas impossíveis e manter essa crença mesmo quando todos ao seu redor mostram que não faz sentido.
4. Sintomas comportamentais
Mudanças na personalidade
O que é?
É como se você “virasse outra pessoa”. Coisas que antes eram importantes para você (como organização, pontualidade ou sociabilidade) deixam de fazer sentido, e você passa a agir de um jeito que não reconhece.
Como aparece no dia a dia?
– Você pode perceber que:
– Uma pessoa organizada passa a viver na bagunça, sem se importar.
– Alguém extrovertido se isola e evita contato com amigos.
– Uma pessoa calma se torna impulsiva e faz coisas arriscadas (como gastar todo o dinheiro de uma vez).
– Você perde o interesse por coisas que antes amava (como esportes, música ou trabalho).
Exemplo concreto:
“Fernanda, de 30 anos, sempre foi tímida, mas educada. Depois de um traumatismo craniano em um acidente de carro, passou a ser grosseira com as pessoas, xingar colegas de trabalho e fazer comentários inapropriados. A família achou que ela estava “sem educação”, mas o médico explicou que a lesão no cérebro tinha afetado áreas relacionadas ao controle dos impulsos.”
Comportamentos repetitivos ou compulsivos
O que é?
É quando você sente uma necessidade incontrolável de fazer algo, mesmo sabendo que não faz sentido. Pode ser lavar as mãos várias vezes, verificar se a porta está trancada repetidamente ou contar objetos sem motivo.
Como aparece no dia a dia?
– Você pode perceber que:
– Lava as mãos até ficarem vermelhas e rachadas, com medo de germes.
– Verifica se o gás está desligado 10 vezes antes de sair de casa.
– Conta os passos enquanto caminha ou precisa tocar em objetos um número específico de vezes.
– Arruma as coisas de um jeito exato (como alinhar os sapatos no armário) e fica irritado se alguém mexer.
Exemplo concreto:
“Lucas, de 25 anos, começou a lavar as mãos obsessivamente depois de uma infecção por COVID-19. Mesmo depois de se recuperar, não conseguia parar. O médico suspeitou que a inflamação no cérebro durante a doença tinha desencadeado um transtorno obsessivo-compulsivo secundário.”
5. Sintomas físicos
Muitas vezes, os sintomas mentais vêm acompanhados de sinais físicos, como:
– Cansaço extremo: Mesmo depois de dormir 10 horas, você acorda exausto.
– Dores de cabeça frequentes: Que não melhoram com analgésicos comuns.
– Problemas de sono: Insônia (dificuldade para dormir) ou hipersonia (dormir demais).
– Mudanças no apetite: Perder ou ganhar peso sem motivo.
– Dores no corpo: Sem explicação médica, como fibromialgia.
Como se manifesta no dia a dia?
Viver com uma síndrome mental ou comportamental secundária pode ser desafiador, porque os sintomas afetam todas as áreas da vida. Vamos ver como isso aparece na prática:
No trabalho ou na escola
- Dificuldade para cumprir prazos: Você pode começar uma tarefa e se distrair facilmente, deixando tudo para a última hora.
- Problemas de relacionamento com colegas: Se você está irritável ou ansioso, pode ter conflitos no trabalho sem entender por quê.
- Queda no desempenho: Se sua memória ou concentração estão afetadas, você pode cometer erros que antes não cometia.
- Falta de motivação: Mesmo em um emprego que você gostava, pode perder o interesse e começar a faltar.
Exemplo:
“Marcos era um professor dedicado, mas depois de um diagnóstico de esclerose múltipla, passou a ter dificuldade para preparar aulas. Esquecia o que ia dizer no meio da explicação, se irritava com os alunos por motivos bobos e, em um dia, saiu da sala chorando sem motivo. O médico explicou que os sintomas eram secundários à doença e ajustou o tratamento.”
Nos relacionamentos
- Isolamento: Você pode evitar contato com amigos e familiares, mesmo sem querer.
- Explosões de raiva: Brigas frequentes por motivos pequenos, seguidas de culpa.
- Dificuldade para se comunicar: Você pode ter problemas para expressar o que sente ou entender o que os outros dizem.
- Desconfiança: Em casos de psicose, você pode passar a desconfiar de pessoas queridas sem motivo.
Exemplo:
“Juliana e seu marido sempre tiveram um relacionamento tranquilo. Depois que ela desenvolveu hipotireoidismo, passou a chorar por qualquer coisa e acusá-lo de não se importar com ela. Ele não entendia o que estava acontecendo, até que um médico explicou que os hormônios da tireoide afetavam o humor.”
Na rotina
- Sono desregulado: Dormir demais ou de menos, acordar várias vezes durante a noite.
- Alimentação desequilibrada: Perder o apetite ou comer compulsivamente.
- Falta de autocuidado: Deixar de tomar banho, escovar os dentes ou trocar de roupa.
- Abandono de hobbies: Coisas que antes davam prazer (como ler, cozinhar ou praticar esportes) perdem o sentido.
Exemplo:
“Roberto adorava correr, mas depois de um AVC, passou a passar os dias deitado no sofá. Não tinha energia para nada e deixou de cuidar da alimentação. A família achava que ele estava “preguiçoso”, mas o médico explicou que era uma depressão secundária à lesão cerebral.”
Na saúde física
Os sintomas mentais podem piorar problemas físicos, e vice-versa:
– Dores crônicas: A ansiedade pode aumentar a percepção de dor.
– Pressão alta: O estresse constante pode elevar a pressão arterial.
– Problemas digestivos: A depressão pode causar gastrite ou síndrome do intestino irritável.
– Sistema imunológico enfraquecido: O estresse crônico deixa o corpo mais vulnerável a infecções.
Exemplo:
“Sofia tinha enxaquecas frequentes, mas depois de desenvolver ansiedade secundária a um problema cardíaco, as dores ficaram ainda mais intensas. O médico explicou que o estresse estava piorando as crises.”
O que causa essa condição?
Para entender as causas, imagine que seu cérebro é como uma orquestra. Cada instrumento (neurônios, hormônios, neurotransmissores) precisa tocar no ritmo certo para que a música (seu humor, pensamentos e comportamentos) saia harmoniosa. Quando algo fora do cérebro interfere nessa orquestra — como uma doença, um desequilíbrio químico ou uma lesão —, a música pode desafinar. É isso que acontece na síndrome mental ou comportamental secundária.
Vamos ver os principais “desafinadores” dessa orquestra:
1. Doenças físicas que afetam o cérebro
Algumas doenças têm um impacto direto no funcionamento cerebral, causando sintomas psiquiátricos. As mais comuns são:
Doenças neurológicas
- Doença de Parkinson: Causa tremores, rigidez muscular e, em 50% dos casos, depressão ou ansiedade. Isso acontece porque a doença afeta a produção de dopamina, um neurotransmissor ligado ao prazer e à motivação.
- Esclerose múltipla: Doença autoimune que ataca a bainha de mielina (uma espécie de “isolante” dos neurônios). Pode causar depressão, ansiedade e até psicose.
- Epilepsia: Algumas pessoas com epilepsia desenvolvem sintomas psiquiátricos nos intervalos entre as crises (chamados de “períodos interictais”), como depressão ou psicose.
- Traumatismo craniano (TCE): Um golpe na cabeça pode danificar áreas do cérebro relacionadas ao humor e aos impulsos, causando irritabilidade, agressividade ou depressão.
- AVC (derrame): Dependendo da área do cérebro afetada, pode causar depressão, apatia ou mudanças de personalidade.
Exemplo:
“Depois de um AVC, o Sr. Antônio, de 65 anos, passou a ter explosões de raiva. Antes, era um homem calmo, mas agora gritava com a esposa por motivos bobos. O médico explicou que o AVC tinha afetado o lobo frontal, área do cérebro responsável pelo controle dos impulsos.”
Doenças endócrinas (hormonais)
Os hormônios são como “mensageiros químicos” que regulam várias funções do corpo, incluindo o humor. Quando estão desequilibrados, podem causar sintomas psiquiátricos.
- Hipotireoidismo: A tireoide produz menos hormônios do que o necessário, deixando o metabolismo mais lento. Isso pode causar depressão, lentidão mental e cansaço extremo.
- Hipertireoidismo: O oposto do hipotireoidismo — a tireoide produz hormônios em excesso, causando ansiedade, irritabilidade e insônia.
- Síndrome de Cushing: Causada pelo excesso de cortisol (hormônio do estresse), pode levar a depressão, ansiedade e até psicose.
- Diabetes: O descontrole do açúcar no sangue pode causar irritabilidade, confusão mental e, em casos graves, delírio.
Exemplo:
“Cláudia, de 40 anos, sempre foi animada, mas depois de um diagnóstico de hipotireoidismo, passou a se sentir cansada o tempo todo. Não tinha vontade de sair de casa e chorava por qualquer coisa. O endocrinologista explicou que a falta de hormônios da tireoide estava afetando os neurotransmissores do cérebro, causando depressão.”
Doenças autoimunes
Nessas doenças, o sistema imunológico ataca o próprio corpo. Quando isso acontece no cérebro, pode causar sintomas psiquiátricos.
- Lúpus eritematoso sistêmico: Até 40% dos pacientes desenvolvem depressão, ansiedade ou psicose. Isso acontece porque o sistema imunológico ataca o cérebro, causando inflamação.
- Artrite reumatoide: Além das dores nas articulações, pode causar depressão e fadiga extrema.
- Doença de Hashimoto: Uma forma de hipotireoidismo autoimune que pode causar depressão e lentidão mental.
Exemplo:
“Daniela, de 30 anos, foi diagnosticada com lúpus e começou a ter alucinações. Ouvia vozes que a mandavam se machucar e via sombras se movendo no quarto. No começo, achou que estava ficando louca, mas depois descobriu que o lúpus estava causando inflamação no cérebro.”
Doenças infecciosas
Algumas infecções podem afetar o cérebro e causar sintomas psiquiátricos.
- HIV/AIDS: O vírus pode causar danos cerebrais, levando a depressão, ansiedade e, em casos avançados, demência.
- Sífilis: Em estágios avançados, pode causar psicose e demência (chamada de “paralisia geral progressiva”).
- COVID-19: Alguns pacientes desenvolvem “névoa mental”, ansiedade ou depressão após a infecção, possivelmente por causa da inflamação no cérebro.
- Doença de Lyme: Transmitida por carrapatos, pode causar depressão, ansiedade e problemas de memória.
Exemplo:
“Depois de se recuperar da COVID-19, Lucas, de 25 anos, passou a ter dificuldade para se concentrar. Esquecia o que ia dizer no meio de uma frase e se sentia “lento” mentalmente. O médico suspeitou de uma síndrome secundária causada pela inflamação no cérebro durante a infecção.”
Deficiências nutricionais
O cérebro precisa de nutrientes para funcionar bem. Quando falta algum deles, podem surgir sintomas psiquiátricos.
- Deficiência de vitamina B12: Pode causar depressão, irritabilidade e até psicose. É comum em pessoas que fazem dieta vegana sem suplementação ou que têm problemas de absorção intestinal.
- Deficiência de vitamina D: Está ligada a depressão e fadiga.
- Deficiência de ferro (anemia): Causa cansaço extremo, irritabilidade e dificuldade de concentração.
- Deficiência de magnésio: Pode causar ansiedade e insônia.
Exemplo:
“Joana, de 35 anos, sempre se sentiu cansada e triste, mas os exames não mostravam nada. Depois de um check-up, descobriu que tinha deficiência grave de vitamina B12. Após começar a suplementação, os sintomas melhoraram.”
Tumores cerebrais
Um tumor no cérebro pode pressionar áreas responsáveis pelo humor, memória ou comportamento, causando sintomas psiquiátricos.
- Tumores no lobo frontal: Podem causar apatia, impulsividade ou agressividade.
- Tumores na glândula adrenal: Podem causar síndrome de Cushing, levando a depressão e psicose.
- Tumores na hipófise: Podem afetar a produção de hormônios, causando depressão ou ansiedade.
Exemplo:
“Rafael, de 45 anos, começou a acreditar que sua esposa estava tendo um caso, mesmo sem provas. Depois de exames, descobriu um tumor na glândula adrenal, que estava causando um desequilíbrio hormonal e levando a delírios.”
2. Efeitos colaterais de medicamentos
Alguns remédios podem afetar o cérebro e causar sintomas psiquiátricos. Os mais comuns são:
- Corticoides (usados para inflamações, alergias e doenças autoimunes): Podem causar ansiedade, insônia, depressão e até psicose.
- Betabloqueadores (usados para pressão alta e arritmias): Podem causar depressão e fadiga.
- Anticonvulsivantes (usados para epilepsia): Alguns podem causar depressão ou irritabilidade.
- Interferon (usado para hepatite e alguns tipos de câncer): Pode causar depressão grave.
- Anticoncepcionais hormonais: Em algumas mulheres, podem causar alterações de humor.
- Quimioterápicos: Podem causar “névoa mental” e depressão.
Exemplo:
“Depois de começar a tomar corticoides para uma crise de asma, Ana, de 28 anos, passou a ter insônia e ansiedade. Em uma noite, teve um ataque de pânico e achou que ia morrer. O médico explicou que era um efeito colateral do remédio e ajustou a dose.”
3. Fatores genéticos
Algumas pessoas têm uma predisposição genética para desenvolver sintomas psiquiátricos quando enfrentam uma doença física. Isso não significa que “herdaram” a síndrome, mas que seu cérebro pode ser mais sensível a desequilíbrios.
Analogia:
Imagine que seu cérebro é como um copo. Em algumas pessoas, o copo é maior (mais resistente a desequilíbrios), enquanto em outras, é menor (mais sensível). Quando uma doença física “enche” o copo, quem tem o copo menor transborda mais rápido — ou seja, desenvolve sintomas psiquiátricos com mais facilidade.
Exemplo:
“Duas pessoas têm hipotireoidismo. A primeira desenvolve apenas cansaço leve, enquanto a segunda cai em uma depressão profunda. Isso pode acontecer porque a segunda pessoa tem uma predisposição genética para depressão, e o hipotireoidismo foi o ‘empurrão’ que faltava.”
4. Fatores ambientais e psicológicos
Embora a causa principal seja física, fatores como estresse, traumas ou falta de apoio podem piorar os sintomas.
- Estresse crônico: Pode aumentar a inflamação no cérebro, piorando sintomas como ansiedade e depressão.
- Traumas passados: Pessoas que já tiveram depressão ou ansiedade no passado podem ser mais vulneráveis a desenvolver sintomas secundários.
- Falta de apoio social: Isolamento e solidão podem piorar os sintomas.
- Dificuldades financeiras: Preocupações com dinheiro podem aumentar o estresse e a ansiedade.
Exemplo:
“Depois de um diagnóstico de Parkinson, Carlos, de 55 anos, passou a se isolar. A família não entendia sua depressão e dizia que ele ‘precisava se animar’. Sem apoio, os sintomas pioraram. Quando começou a frequentar um grupo de apoio para pessoas com Parkinson, se sentiu compreendido e os sintomas melhoraram.”
Mitos e verdades sobre as causas
❌ Mito: “Isso é frescura ou falta de força de vontade.”
✅ Verdade: Os sintomas são reais e têm uma causa física. Não é algo que a pessoa possa “controlar” apenas com pensamentos positivos.
❌ Mito: “Só acontece em pessoas fracas ou sensíveis.”
✅ Verdade: Qualquer pessoa pode desenvolver sintomas secundários se tiver uma doença física que afete o cérebro. Não tem a ver com “força” ou “fraqueza”.
❌ Mito: “Se a doença física for tratada, os sintomas mentais somem na hora.”
✅ Verdade: Às vezes, os sintomas mentais persistem mesmo depois que a doença física é controlada. Isso acontece porque o cérebro pode levar tempo para se recuperar.
❌ Mito: “Isso é coisa de velho.”
✅ Verdade: Pode acontecer em qualquer idade, inclusive em crianças e adolescentes (por exemplo, em casos de doenças genéticas ou lesões cerebrais).
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico de síndrome mental ou comportamental secundária não é como fazer um exame de sangue e ter um resultado imediato. É um processo que envolve várias etapas, porque o médico precisa:
1. Confirmar que há uma doença física por trás dos sintomas.
2. Garantir que os sintomas mentais não são causados por outro transtorno (como depressão maior ou esquizofrenia).
3. Verificar se os sintomas começaram depois da doença física (e não antes).
Vamos ver como isso acontece na prática:
1. A primeira consulta: o que esperar
Quando você ou um familiar procuram ajuda, o médico (geralmente um psiquiatra ou neurologista) vai fazer uma avaliação detalhada. Essa consulta pode durar de 40 minutos a 2 horas, dependendo do caso.
O que o médico vai perguntar?
- Histórico médico:
- “Você tem alguma doença crônica, como diabetes, pressão alta ou problemas na tireoide?”
- “Já teve alguma lesão na cabeça, como um traumatismo craniano ou AVC?”
- “Faz uso de algum medicamento? Quais?”
- Histórico psiquiátrico:
- “Você já teve depressão, ansiedade ou outros transtornos mentais antes?”
- “Alguém na sua família tem histórico de doenças psiquiátricas?”
- Sintomas atuais:
- “Quando esses sintomas começaram? Foi depois de alguma doença ou uso de medicamento?”
- “Como eles afetam sua vida no dia a dia?”
- “Você tem pensamentos de se machucar ou de que não vale a pena viver?” (Essa pergunta é importante para avaliar risco de suicídio.)
- Exame físico:
- O médico pode verificar pressão arterial, reflexos, equilíbrio e sinais neurológicos.
O que você pode fazer para ajudar?
- Anote seus sintomas: Quando começaram? O que piora ou melhora? Como afetam sua rotina?
- Liste seus medicamentos: Inclua remédios, suplementos e até chás ou produtos naturais.
- Traga exames recentes: Hemograma, dosagem de hormônios (como TSH, T4), ressonância magnética, etc.
- Leve um familiar ou amigo: Às vezes, a pessoa com os sintomas não percebe mudanças no próprio comportamento. Um acompanhante pode ajudar a descrever o que está acontecendo.
2. Exames complementares
Depois da consulta, o médico pode pedir exames para confirmar a causa física dos sintomas. Os mais comuns são:
Exames de sangue
- Hemograma completo: Para verificar anemia, infecções ou inflamações.
- Dosagem de hormônios:
- TSH e T4 livre (para avaliar a tireoide).
- Cortisol (para síndrome de Cushing).
- Vitamina B12 e D (deficiências podem causar depressão).
- Glicemia: Para verificar diabetes.
- Função hepática e renal: Algumas doenças no fígado ou rins podem afetar o cérebro.
Exames de imagem
- Ressonância magnética do cérebro: Para verificar lesões, tumores ou sinais de esclerose múltipla.
- Tomografia computadorizada: Em casos de traumatismo craniano ou suspeita de AVC.
- Eletroencefalograma (EEG): Para avaliar atividade elétrica do cérebro (usado em casos de epilepsia).
Outros exames
- Punção lombar: Em casos suspeitos de infecções no sistema nervoso (como meningite ou sífilis).
- Testes neuropsicológicos: Para avaliar memória, atenção e outras funções cognitivas.
3. Diagnóstico diferencial: o que pode ser confundido?
O médico precisa descartar outras condições que podem causar sintomas semelhantes. As principais são:
Transtornos mentais primários
- Depressão maior: Os sintomas são parecidos, mas na depressão primária não há uma causa física identificável.
- Transtorno de ansiedade generalizada: A ansiedade é constante, mas não está ligada a uma doença física.
- Esquizofrenia: Causa alucinações e delírios, mas não tem uma causa física clara.
Como o médico diferencia?
– Histórico: Se os sintomas começaram depois de uma doença física ou uso de medicamento, é mais provável que seja secundário.
– Exames: Se os exames mostrarem uma doença física (como hipotireoidismo ou lesão cerebral), o diagnóstico de síndrome secundária é confirmado.
Delírio
- O que é? Uma confusão mental aguda, geralmente causada por infecções, febre ou desidratação.
- Diferença: No delírio, a pessoa fica desorientada (não sabe onde está, que dia é hoje). Na síndrome secundária, a pessoa mantém a noção de realidade (exceto em casos de psicose).
Transtorno de adaptação
- O que é? Uma reação emocional a um evento estressante (como um diagnóstico de câncer).
- Diferença: No transtorno de adaptação, os sintomas são proporcionais ao estresse. Na síndrome secundária, os sintomas são desproporcionais e têm uma causa física.
4. Quanto tempo leva para ter o diagnóstico?
Não há um prazo exato, porque depende de:
– Complexidade do caso: Se a causa física é óbvia (como um AVC), o diagnóstico pode ser rápido. Se é algo mais sutil (como uma deficiência de vitamina B12), pode levar semanas.
– Acesso a exames: No SUS, alguns exames (como ressonância magnética) podem ter fila de espera.
– Número de especialistas envolvidos: Às vezes, é preciso passar por clínico geral, neurologista e psiquiatra antes de chegar ao diagnóstico final.
Média de tempo:
– Casos simples: 1 a 2 meses.
– Casos complexos: 3 a 6 meses (ou mais).
5. Quem pode diagnosticar?
- Psiquiatra: O profissional mais indicado, porque entende tanto de transtornos mentais quanto de doenças físicas que podem afetar o cérebro.
- Neurologista: Especialmente em casos de doenças neurológicas (como Parkinson ou esclerose múltipla).
- Clínico geral ou médico de família: Pode suspeitar do diagnóstico e encaminhar para um especialista.
- Geriatra: Em casos de idosos com sintomas psiquiátricos.
No SUS:
– Você pode começar pelo posto de saúde (UBS). O médico da família pode pedir exames e encaminhar para um psiquiatra ou neurologista.
– Em casos graves, pode ser encaminhado para um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) ou hospital psiquiátrico.
Na rede particular:
– Você pode agendar diretamente com um psiquiatra ou neurologista.
– O custo varia: uma consulta com psiquiatra custa entre R$ 200 e R$ 600, e exames como ressonância magnética podem custar de R$ 800 a R$ 2.000.
Tratamento
O tratamento da síndrome mental ou comportamental secundária tem dois pilares principais:
1. Tratar a causa física (a doença ou desequilíbrio que está causando os sintomas).
2. Aliviar os sintomas mentais (com medicamentos, terapia ou mudanças no estilo de vida).
Vamos ver cada um deles em detalhes:
1. Medicamentos
Os remédios usados dependem da causa dos sintomas. Vamos ver os principais:
Para tratar a causa física
- Hipotireoidismo: Reposição de hormônios da tireoide (como levotiroxina).
- Hipertireoidismo: Medicamentos para reduzir a produção de hormônios (como metimazol).
- Doenças autoimunes: Imunossupressores (como corticoides ou metotrexato).
- Deficiências nutricionais: Suplementação de vitamina B12, ferro ou vitamina D.
- Infecções: Antibióticos ou antivirais.
Exemplo:
“Depois de descobrir que sua depressão era causada por hipotireoidismo, Maria começou a tomar levotiroxina. Em dois meses, os sintomas melhoraram significativamente.”
Para aliviar os sintomas mentais
Mesmo depois de tratar a causa física, alguns sintomas podem persistir. Nesses casos, o médico pode prescrever:
Antidepressivos
- Como funcionam? Aumentam a disponibilidade de neurotransmissores como serotonina e noradrenalina, que regulam o humor.
- Exemplos: Fluoxetina, sertralina, escitalopram.
- Tempo para fazer efeito: 2 a 6 semanas.
- Efeitos colaterais comuns: Náusea, dor de cabeça, sonolência ou insônia (geralmente melhoram depois de algumas semanas).
- Mito vs. verdade:
- ❌ “Antidepressivos viciam.”
- ✅ “Eles não causam dependência, mas não devem ser interrompidos de repente. Sempre converse com o médico antes de parar.”
Ansiolíticos
- Como funcionam? Aumentam o efeito do GABA, um neurotransmissor que acalma o cérebro.
- Exemplos: Clonazepam, diazepam.
- Tempo para fazer efeito: Minutos a horas (por isso são usados em crises de ansiedade).
- Efeitos colaterais comuns: Sonolência, tontura, risco de dependência (por isso são usados por curtos períodos).
- Mito vs. verdade:
- ❌ “Ansiolíticos são a única solução para ansiedade.”
- ✅ “Eles ajudam em crises, mas não tratam a causa. A terapia e mudanças no estilo de vida são essenciais.”
Antipsicóticos
- Como funcionam? Bloqueiam a ação da dopamina, um neurotransmissor ligado a alucinações e delírios.
- Exemplos: Risperidona, quetiapina.
- Tempo para fazer efeito: 1 a 2 semanas.
- Efeitos colaterais comuns: Ganho de peso, sonolência, tremores.
- Mito vs. verdade:
- ❌ “Antipsicóticos são só para ‘loucos’.”
- ✅ “Eles são usados em várias condições, inclusive para tratar insônia e ansiedade grave.”
Estabilizadores de humor
- Como funcionam? Regulam a atividade elétrica do cérebro, evitando oscilações bruscas de humor.
- Exemplos: Lítio, valproato.
- Tempo para fazer efeito: 1 a 2 semanas.
- Efeitos colaterais comuns: Sede excessiva, tremores, ganho de peso.
- Mito vs. verdade:
- ❌ “O lítio é perigoso e só é usado em casos graves.”
- ✅ “Quando bem monitorado, o lítio é seguro e eficaz para várias condições.”
2. Psicoterapia
A terapia não trata a causa física, mas ajuda a lidar com os sintomas e melhorar a qualidade de vida. As abordagens mais usadas são:
Terapia cognitivo-comportamental (TCC)
- Como funciona? Ajuda a identificar e mudar padrões de pensamento negativos.
- Para quem é indicada? Pessoas com depressão, ansiedade ou irritabilidade.
- O que acontece na sessão?
- O terapeuta ajuda você a reconhecer pensamentos como “Nada vai dar certo” e substituí-los por outros mais realistas, como “Estou passando por um momento difícil, mas isso vai passar”.
- Ensina técnicas para lidar com a ansiedade, como respiração diafragmática e relaxamento muscular.
- Duração: Geralmente 12 a 20 sessões.
Exemplo:
“João tinha depressão secundária ao Parkinson. Na terapia, aprendeu a identificar quando estava tendo pensamentos catastróficos (‘Nunca mais vou conseguir andar’) e substituí-los por outros mais realistas (‘Estou tendo dificuldades agora, mas o tratamento pode ajudar’).”
Terapia de aceitação e compromisso (ACT)
- Como funciona? Ensina a aceitar emoções difíceis em vez de lutar contra elas.
- Para quem é indicada? Pessoas que se sentem sobrecarregadas pela doença física e pelos sintomas mentais.
- O que acontece na sessão?
- O terapeuta ajuda você a se distanciar dos pensamentos negativos (como “Sou um fardo para minha família”) e a se concentrar no que é importante para você (como passar tempo com os filhos).
- Ensina técnicas de mindfulness (atenção plena) para lidar com a dor e o estresse.
Exemplo:
“Ana tinha esclerose múltipla e se sentia inútil por não conseguir trabalhar. Na terapia ACT, aprendeu a aceitar suas limitações sem se julgar e a focar em atividades que ainda podia fazer, como pintar e ler.”
Terapia familiar
- Como funciona? Ajuda a família a entender a condição e a oferecer apoio sem sobrecarregar o paciente.
- Para quem é indicada? Quando os sintomas afetam os relacionamentos familiares.
- O que acontece na sessão?
- O terapeuta explica a condição para a família e ensina como ajudar (por exemplo, evitando frases como “Isso é frescura”).
- Ajuda a família a lidar com o estresse de cuidar de alguém com uma doença crônica.
Exemplo:
“A família de Carlos, que tinha depressão secundária ao AVC, não entendia por que ele estava tão irritado. Na terapia familiar, aprenderam que era um sintoma da doença e que precisavam ter paciência.”
3. Mudanças no dia a dia
Pequenas mudanças na rotina podem fazer uma grande diferença no controle dos sintomas. Vamos ver as mais importantes:
Exercício físico
- Por que ajuda? Libera endorfinas (substâncias que melhoram o humor) e reduz a inflamação no cérebro.
- Quais exercícios são melhores?
- Caminhada: 30 minutos por dia, 5 vezes por semana.
- Yoga: Ajuda a reduzir ansiedade e melhorar o sono.
- Natação: Ideal para quem tem dores articulares.
- Dança: Combina exercício com socialização.
- Dica: Comece devagar. Mesmo 10 minutos por dia já fazem diferença.
Exemplo:
“Depois de começar a caminhar 3 vezes por semana, Maria, que tinha depressão secundária ao hipotireoidismo, sentiu uma melhora significativa no humor e na energia.”
Sono
- Por que é importante? O sono ruim piora a ansiedade, a depressão e a irritabilidade.
- Dicas para dormir melhor:
- Rotina: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias.
- Ambiente: Mantenha o quarto escuro, silencioso e fresco.
- Evite: Cafeína depois das 16h, telas (celular, TV) 1 hora antes de dormir e refeições pesadas à noite.
- Relaxamento: Experimente meditação ou respiração profunda antes de dormir.
Exemplo:
“João tinha insônia por causa da ansiedade secundária à esclerose múltipla. Depois de adotar uma rotina de sono (dormir às 22h e acordar às 6h), passou a dormir melhor e a se sentir menos ansioso durante o dia.”
Alimentação
- O que comer?
- Alimentos ricos em triptofano (precursor da serotonina, que melhora o humor): Banana, ovos, castanhas, chocolate amargo.
- Ômega-3 (reduz inflamação no cérebro): Peixes (salmão, sardinha), linhaça, nozes.
- Probióticos (melhoram a saúde intestinal, que está ligada ao cérebro): Iogurte natural, kefir, chucrute.
- O que evitar?
- Açúcar refinado: Pode causar picos de glicose e piorar a ansiedade.
- Alimentos ultraprocessados: Podem aumentar a inflamação no corpo.
- Álcool: Pode piorar a depressão e a ansiedade.
Exemplo:
“Depois de incluir mais peixes e castanhas na dieta, Ana, que tinha depressão secundária ao lúpus, sentiu uma melhora na energia e no humor.”
Rotina
- Por que é importante? Uma rotina estruturada dá uma sensação de controle e reduz a ansiedade.
- Dicas:
- Planeje o dia: Faça uma lista de tarefas simples (como tomar banho, almoçar, dar uma caminhada).
- Pequenas metas: Comece com coisas fáceis (como arrumar a cama) e vá aumentando aos poucos.
- Tempo para o lazer: Reserve um momento do dia para fazer algo que goste (ler, ouvir música, ver um filme).
- Evite procrastinação: Use técnicas como o método Pomodoro (25 minutos de trabalho, 5 minutos de descanso).
Exemplo:
“Carlos, que tinha depressão secundária ao Parkinson, passou a seguir uma rotina rígida: acordava às 7h, tomava café da manhã, fazia fisioterapia, almoçava, descansava e, à tarde, fazia uma atividade prazerosa. Isso o ajudou a se sentir mais no controle da situação.”
Técnicas de manejo de sintomas
- Para ansiedade:
- Respiração diafragmática: Inspire profundamente pelo nariz (contando até 4), segure o ar (contando até 4) e expire pela boca (contando até 6).
- Grounding (ancoragem): Quando sentir que a ansiedade está tomando conta, concentre-se em 5 coisas que você vê, 4 que toca, 3 que ouve, 2 que cheira e 1 que saboreia.
- Para depressão:
- Ativação comportamental: Faça uma lista de atividades prazerosas e tente fazer pelo menos uma por dia, mesmo que não tenha vontade.
- Gratidão: Anote 3 coisas pelas quais você é grato todos os dias.
- Para irritabilidade:
- Pausa: Quando sentir que vai explodir, saia da situação e respire fundo por alguns minutos.
- Exercício físico: Ajuda a liberar a tensão acumulada.
Exemplo:
“Quando sentia um ataque de ansiedade, João usava a técnica de grounding. Isso o ajudava a se reconectar com o presente e a evitar que a crise piorasse.”
Convivendo com o diagnóstico
Receber um diagnóstico de síndrome mental ou comportamental secundária pode ser um choque. Você pode se sentir confuso, assustado ou até aliviado por finalmente ter uma explicação para o que está acontecendo. Não existe uma “forma certa” de reagir — cada pessoa lida com isso de um jeito. O importante é não enfrentar tudo sozinho.
Vamos ver como lidar com o diagnóstico, tanto para a pessoa que o recebeu quanto para familiares e amigos.
Para a pessoa com o diagnóstico
1. Aceite que os sintomas são reais
- O que isso significa? Não é “frescura”, nem “falta de força de vontade”. Seu cérebro está sendo afetado por algo fora do seu controle.
- Como lidar?
- Fale sobre isso: Converse com pessoas de confiança (amigos, familiares, terapeuta).
- Informe-se: Quanto mais você entender a condição, menos assustadora ela será.
- Seja gentil consigo mesmo: Não se cobre por não conseguir fazer as coisas como antes.
Exemplo:
“No começo, Maria se sentia culpada por não conseguir trabalhar como antes. Depois de conversar com o psiquiatra, entendeu que sua depressão era secundária ao hipotireoidismo e que não era culpa dela. Isso a ajudou a se perdoar e a buscar tratamento.”
2. Siga o tratamento à risca
- Por que é importante? Muitas pessoas abandonam o tratamento quando começam a se sentir melhor, mas isso pode levar a uma recaída.
- Dicas:
- Tome os remédios no horário certo: Use alarmes ou aplicativos para lembrar.
- Não pare sem falar com o médico: Alguns remédios (como antidepressivos) precisam ser reduzidos aos poucos.
- Vá às consultas: Mesmo que esteja se sentindo bem, o médico pode ajustar a dose ou trocar o remédio.
Exemplo:
“João parou de tomar o antidepressivo assim que se sentiu melhor, mas em duas semanas os sintomas voltaram. O médico explicou que ele precisava continuar o tratamento por pelo menos 6 meses para evitar recaídas.”
3. Peça ajuda quando precisar
- Não espere até estar no fundo do poço: Se estiver se sentindo sobrecarregado, peça ajuda antes que a situação piore.
- Quem pode ajudar?
- Família e amigos: Peça para alguém acompanhá-lo em consultas ou ajudar nas tarefas do dia a dia.
- Grupos de apoio: Conversar com pessoas que passam pela mesma coisa pode ser muito reconfortante.
- Profissionais: Terapeutas, psiquiatras e assistentes sociais estão aí para ajudar.
Exemplo:
“Ana se sentia sozinha com seu diagnóstico de esclerose múltipla, até que encontrou um grupo de apoio online. Conversar com outras pessoas que entendiam o que ela estava passando a ajudou a se sentir menos isolada.”
4. Cuide da sua saúde física
- Por que é importante? Muitas doenças físicas pioram os sintomas mentais, e vice-versa.
- O que fazer?
- Faça exames regulares: Mesmo que esteja se sentindo bem, faça check-ups.
- Siga as orientações médicas: Se tiver uma doença crônica (como diabetes ou pressão alta), siga o tratamento à risca.
- Evite álcool e drogas: Eles podem piorar os sintomas e interagir com os remédios.
Exemplo:
“Carlos tinha depressão secundária ao Parkinson, mas também sofria com pressão alta. Quando começou a tomar os remédios para pressão corretamente, percebeu que sua depressão também melhorou.”
5. Encontre significado
- O que isso significa? Mesmo com os sintomas, é possível encontrar coisas que deem sentido à sua vida.
- Como fazer?
- Volte a fazer coisas que gosta: Mesmo que não tenha vontade no começo, tente retomar hobbies ou atividades prazerosas.
- Ajude os outros: Fazer trabalho voluntário ou ajudar um amigo pode dar uma sensação de propósito.
- Defina metas pequenas: Não precisa ser nada grandioso. Pode ser algo como “ler um livro por mês” ou “caminhar 10 minutos por dia”.
Exemplo:
“Depois do diagnóstico de lúpus, Daniela se sentiu perdida. Mas quando começou a escrever um blog sobre sua experiência, encontrou um propósito. Isso a ajudou a lidar melhor com os sintomas.”
Para familiares e amigos
1. Informe-se sobre a condição
- Por que é importante? Quanto mais você entender o que a pessoa está passando, melhor poderá ajudá-la.
- O que fazer?
- Leia sobre o assunto: Este guia é um bom começo, mas também procure outras fontes confiáveis.
- Pergunte ao médico: Se tiver dúvidas, peça para acompanhar a pessoa em uma consulta e tire suas dúvidas.
- Evite julgamentos: Lembre-se de que os sintomas não são “frescura” ou “falta de força de vontade”.
Exemplo:
“A família de João não entendia por que ele estava tão irritado depois do AVC. Depois de ler sobre a condição, perceberam que era um sintoma da lesão cerebral e passaram a ter mais paciência.”
2. Ofereça apoio prático
- O que isso significa? Às vezes, a pessoa pode ter dificuldade para fazer coisas simples, como cozinhar ou pagar contas.
- Como ajudar?
- Ofereça ajuda concreta: “Posso ir ao mercado para você?”, “Quer que eu te acompanhe na consulta?”.
- Respeite os limites: Não force a pessoa a fazer algo que não se sente capaz.
- Seja paciente: Os sintomas podem variar de um dia para o outro.
Exemplo:
“Maria, que tinha depressão secundária ao hipotireoidismo, não conseguia cozinhar. Sua filha passou a levar marmitas para ela uma vez por semana, o que a ajudou muito.”
3. Evite frases que minimizam o sofrimento
Algumas frases, mesmo ditas com boa intenção, podem magoar. Evite:
– “Isso é frescura.”
– “Você só precisa se animar.”
– “Todo mundo tem problemas.”
– “Isso é coisa da sua cabeça.”
Em vez disso, diga:
– “Estou aqui para te ouvir.”
– “Como posso te ajudar?”
– “Isso deve ser muito difícil para você.”
– “Vamos juntos resolver isso.”
Exemplo:
“Quando Ana disse que estava se sentindo triste, sua mãe respondeu: ‘Você só precisa sair mais de casa’. Ana se sentiu incompreendida. Depois, sua mãe aprendeu a dizer: ‘Quer que a gente saia junto? Posso te acompanhar’.”
4. Cuide de si mesmo
- Por que é importante? Cuidar de alguém com uma condição crônica pode ser desgastante. Se você não cuidar de si, não conseguirá ajudar a outra pessoa.
- O que fazer?
- Reserve um tempo para você: Faça coisas que gosta, como ler, praticar esportes ou sair com amigos.
- Procure apoio: Converse com outras pessoas que passam pela mesma situação (grupos de apoio para cuidadores são uma boa opção).
- Não se culpe: Você não é responsável pelos sintomas da pessoa, e não pode “consertar” tudo sozinho.
Exemplo:
“O marido de Clara, que tinha esclerose múltipla, se sentia sobrecarregado com os cuidados. Depois de começar a frequentar um grupo de apoio para cuidadores, aprendeu a pedir ajuda e a reservar um tempo para si.”
5. Esteja atento a sinais de alerta
Alguns sintomas podem indicar que a pessoa precisa de ajuda urgente. Fique atento a:
– Fala sobre morte ou suicídio: “Não aguento mais”, “As pessoas estariam melhor sem mim”.
– Mudanças bruscas de comportamento: Isolamento extremo, agressividade ou apatia.
– Negligência com a saúde: Parar de tomar remédios, não se alimentar ou não cuidar da higiene.
– Sintomas psicóticos: Alucinações ou delírios que colocam a pessoa ou outros em risco.
O que fazer?
– Não deixe a pessoa sozinha: Fique com ela até que a crise passe.
– Procure ajuda profissional: Leve-a ao pronto-socorro ou ligue para o CVV (188).
– Remova objetos perigosos: Se a pessoa estiver em risco de se machucar, retire facas, remédios ou armas de fogo do ambiente.
Exemplo:
“Quando João começou a dizer que não valia a pena viver, sua esposa o levou imediatamente ao pronto-socorro. Lá, ele foi avaliado por um psiquiatra e recebeu ajuda antes que a situação piorasse.”
Quando os sintomas podem piorar?
Algumas situações podem desencadear ou piorar os sintomas. As mais comuns são:
1. Estresse
- Por que piora? O estresse aumenta a produção de cortisol, um hormônio que, em excesso, pode piorar a depressão e a ansiedade.
- Exemplos de situações estressantes:
- Problemas financeiros.
- Conflitos familiares.
- Mudanças bruscas (como mudar de cidade ou perder o emprego).
Como lidar?
– Técnicas de relaxamento: Meditação, respiração profunda, yoga.
– Terapia: Um psicólogo pode ajudar a lidar com o estresse.
– Rede de apoio: Converse com amigos ou familiares sobre o que está te estressando.
2. Falta de sono
- Por que piora? O sono ruim aumenta a irritabilidade, a ansiedade e a dificuldade de concentração.
- Exemplos de situações que atrapalham o sono:
- Trabalhar até tarde.
- Usar telas (celular, TV) antes de dormir.
- Café ou álcool à noite.
Como lidar?
– Rotina de sono: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias.
– Ambiente tranquilo: Mantenha o quarto escuro, silencioso e fresco.
– Evite estimulantes: Café, chá preto e refrigerantes à base de cola depois das 16h.
3. Doenças físicas
- Por que pioram? Uma gripe, uma infecção ou uma crise de uma doença crônica (como diabetes) podem desestabilizar o humor.
- Exemplos:
- Uma pessoa com esclerose múltipla pode ter uma piora nos sintomas de depressão durante uma crise da doença.
- Alguém com hipotireoidismo pode se sentir mais deprimido se a dose do hormônio não estiver ajustada.
Como lidar?
– Siga o tratamento à risca: Tome os remédios no horário certo e vá às consultas.
– Comunique o médico: Se notar que os sintomas mentais pioraram depois de uma doença física, avise o médico.
4. Mudanças na medicação
- Por que pioram? Alguns remédios (como corticoides ou anticonvulsivantes) podem causar ou piorar sintomas psiquiátricos.
- Exemplos:
- Uma pessoa que começa a tomar corticoides para uma crise de asma pode desenvolver ansiedade ou insônia.
- Alguém que troca de antidepressivo pode ter uma piora temporária dos sintomas.
Como lidar?
– Não mude a medicação por conta própria: Sempre converse com o médico antes de fazer qualquer alteração.
– Anote os sintomas: Se notar que os sintomas pioraram depois de começar um remédio novo, anote e converse com o médico.
5. Isolamento social
- Por que piora? A solidão aumenta o risco de depressão e ansiedade.
- Exemplos de situações que levam ao isolamento:
- Parar de trabalhar por causa da doença.
- Evitar sair de casa por vergonha dos sintomas.
- Perder contato com amigos por falta de energia.
Como lidar?
– Mantenha contato: Mesmo que não tenha vontade, tente sair com amigos ou familiares pelo menos uma vez por semana.
– Grupos de apoio: Conversar com pessoas que passam pela mesma coisa pode ser muito reconfortante.
– Atividades em grupo: Cursos, voluntariado ou esportes coletivos podem ajudar a se reconectar.
Perguntas frequentes
1. “Essa condição tem cura?”
Depende da causa. Em alguns casos, sim: se a doença física for tratada (como hipotireoidismo ou deficiência de vitamina B12), os sintomas mentais podem desaparecer completamente. Em outros casos, não: doenças crônicas como Parkinson ou esclerose múltipla não têm cura, mas os sintomas podem ser controlados com tratamento.
Exemplo:
– Cura possível: Uma pessoa com depressão secundária ao hipotireoidismo pode se recuperar completamente depois de começar a tomar hormônios da tireoide.
– Controle possível: Alguém com depressão secundária ao Parkinson pode não se curar, mas pode ter uma vida plena com o tratamento certo.
2. “Vou precisar tomar remédios para o resto da vida?”
Nem sempre. Alguns remédios (como antidepressivos) são usados por um tempo determinado (geralmente 6 meses a 2 anos) e depois podem ser reduzidos aos poucos. Outros (como os usados para Parkinson ou esclerose múltipla) são de uso contínuo.
O que determina a duração do tratamento?
– Causa dos sintomas: Se a doença física for controlada, os remédios psiquiátricos podem ser suspensos.
– Gravidade dos sintomas: Em casos leves, mudanças no estilo de vida (como exercício e terapia) podem ser suficientes.
– Histórico pessoal: Se a pessoa já teve depressão ou ansiedade antes, pode precisar de tratamento por mais tempo.
Exemplo:
“João tomou antidepressivos por 1 ano depois de um AVC. Quando os sintomas melhoraram, o médico reduziu a dose aos poucos. Hoje, ele não toma mais remédios, mas faz terapia e exercícios para manter o bem-estar.”
3. “Posso parar de tomar os remédios quando me sentir melhor?”
Não. Alguns remédios (como antidepressivos) precisam ser reduzidos gradualmente para evitar efeitos colaterais ou recaídas. Parar de repente pode causar:
– Síndrome de descontinuação: Tontura, náusea, irritabilidade, insônia.
– Recaída dos sintomas: A depressão ou ansiedade podem voltar com mais força.
O que fazer?
– Converse com o médico: Ele vai orientar como reduzir a dose aos poucos.
– Não tome essa decisão sozinho: Mesmo que esteja se sentindo bem, o médico pode recomendar continuar o tratamento por mais algum tempo.
Exemplo:
“Maria parou de tomar o antidepressivo por conta própria e, em duas semanas, os sintomas de depressão voltaram. O médico explicou que ela precisava reduzir a dose aos poucos para evitar a recaída.”
4. “Essa condição pode levar à demência?”
Depende da causa. Algumas doenças que causam sintomas secundários (como Parkinson ou esclerose múltipla) também podem levar à demência em estágios avançados. Outras (como hipotireoidismo ou deficiência de vitamina B12) não causam demência, mas podem piorar a memória e a concentração se não forem tratadas.
Como diferenciar?
– Síndrome secundária: Os sintomas mentais (como depressão ou ansiedade) são reversíveis com o tratamento da causa física.
– Demência: Os sintomas (como perda de memória e confusão) são progressivos e não melhoram com o tratamento.
Exemplo:
“Carlos, de 65 anos, começou a ter dificuldade de memória depois de um AVC. O médico explicou que não era demência, mas uma síndrome secundária. Com fisioterapia e terapia ocupacional, sua memória melhorou.”
5. “Posso trabalhar normalmente?”
Depende da gravidade dos sintomas e do tipo de trabalho. Algumas pessoas conseguem continuar trabalhando com ajustes, enquanto outras precisam de afastamento temporário.
O que considerar?
– Tipo de trabalho: Se o seu trabalho exige muita concentração (como pilotar aviões ou operar máquinas), pode ser necessário um afastamento temporário.
– Flexibilidade: Algumas empresas permitem home office ou horários flexíveis.
– Apoio médico: Um atestado ou laudo médico pode ajudar a negociar adaptações no trabalho.
Exemplo:
“Ana, que tinha depressão secundária ao lúpus, conversou com seu chefe e conseguiu reduzir a carga horária e trabalhar de casa alguns dias por semana. Isso a ajudou a continuar produtiva sem se sobrecarregar.”
6. “Como explicar para as pessoas o que eu tenho?”
Muitas pessoas não entendem o que é uma síndrome mental ou comportamental secundária. Você pode explicar assim:
“Meu cérebro está sendo afetado por uma doença física (como [doença X]). Isso causa sintomas como [depressão/ansiedade/irritabilidade], mas não é ‘frescura’ — é uma reação do meu corpo. O tratamento está ajudando, e aos poucos vou melhorar.”
Dicas para conversar:
– Seja honesto: Não minimize seus sintomas.
– Use exemplos: “É como se meu cérebro estivesse com uma ‘névoa’ por causa da falta de hormônios da tireoide.”
– Peça compreensão: “Às vezes posso estar mais irritado ou cansado, mas não é por mal.”
– Compartilhe informações: Se a pessoa quiser saber mais, indique este guia ou outros materiais confiáveis.
Exemplo:
“Quando João explicou para os colegas de trabalho que sua irritabilidade era causada pelo Parkinson, eles entenderam melhor e passaram a ter mais paciência com ele.”
7. “E se eu não melhorar?”
É normal ter medo de que os sintomas nunca melhorem, mas a maioria das pessoas melhora com o tratamento certo. Se você não estiver respondendo ao tratamento, o médico pode:
– Ajustar a dose dos remédios.
– Trocar de medicação.
– Investigar outras causas (como deficiências nutricionais ou doenças não diagnosticadas).
– Recomendar outras terapias (como estimulação magnética transcraniana, em casos graves).
O que fazer se estiver desanimado?
– Converse com o médico: Ele pode explicar por que o tratamento não está funcionando e o que pode ser feito.
– Busque apoio: Grupos de apoio ou terapia podem ajudar a lidar com a frustração.
– Não desista: Às vezes, leva tempo para encontrar o tratamento certo.
Exemplo:
“Maria não melhorou com o primeiro antidepressivo, mas depois de trocar de remédio e começar terapia, os sintomas diminuíram. O médico explicou que cada pessoa responde de um jeito e que era preciso paciência.”
8. “Essa condição é hereditária?”
Não diretamente. A síndrome mental ou comportamental secundária não é passada de pais para filhos, mas algumas doenças que a causam podem ter componente genético. Por exemplo:
– Doença de Parkinson: Tem um componente genético em alguns casos.
– Esclerose múltipla: Não é hereditária, mas pessoas com histórico familiar têm um risco ligeiramente maior.
– Hipotireoidismo: Pode ter predisposição genética.
O que isso significa?
– Se você tem uma doença física que causou sintomas mentais, seus filhos não herdarão a síndrome, mas podem ter um risco maior de desenvolver a mesma doença física.
Exemplo:
“João tem Parkinson e desenvolveu depressão secundária. Seu filho não vai herdar a depressão, mas pode ter um risco um pouco maior de desenvolver Parkinson no futuro.”
9. “Posso beber álcool ou usar drogas?”
Não é recomendado. Álcool e drogas podem:
– Piorar os sintomas: Álcool é um depressor do sistema nervoso e pode aumentar a depressão e a ansiedade.
– Interagir com os remédios: Alguns medicamentos (como antidepressivos) não devem ser misturados com álcool.
– Aumentar o risco de dependência: Pessoas com sintomas psiquiátricos têm mais chance de desenvolver dependência.
O que fazer?
– Evite álcool e drogas: Mesmo em pequenas quantidades.
– Converse com o médico: Se tiver dúvidas sobre interações medicamentosas.
– Busque ajuda se precisar: Se estiver usando álcool ou drogas para lidar com os sintomas, procure um profissional.
Exemplo:
“Carlos começou a beber para aliviar a ansiedade causada pela esclerose múltipla. Em vez de melhorar, os sintomas pioraram. Depois de conversar com o médico, parou de beber e começou a fazer terapia.”
10. “Como lidar com o preconceito?”
Infelizmente, muitas pessoas ainda não entendem que os sintomas mentais podem ter uma causa física. Você pode ouvir coisas como:
– “Isso é coisa da sua cabeça.”
– “Você só precisa se animar.”
– “Isso é falta de Deus.”
Como responder?
– Eduque: “Na verdade, é uma reação do meu cérebro a uma doença física. Não é frescura.”
– Estabeleça limites: “Não é legal falar assim comigo. Se quiser entender melhor, posso te explicar.”
– Afaste-se: Se a pessoa insistir em não entender, não vale a pena discutir. Proteja sua energia.
Exemplo:
“Quando Ana ouviu de uma amiga que sua depressão era ‘falta de Deus’, respondeu: ‘Na verdade, é por causa do meu hipotireoidismo. Se quiser, posso te explicar melhor.’ A amiga pediu desculpas e se interessou em saber mais.”
Quando procurar ajuda urgente
Alguns sintomas indicam que a situação é grave e requer atendimento imediato. Fique atento a:
Sinais de alerta vermelho (procure ajuda IMEDIATA)
- Fala sobre morte ou suicídio: “Não aguento mais”, “As pessoas estariam melhor sem mim”, “Quero desaparecer”.
- Planos ou tentativas de suicídio: Procurar meios de se machucar (como comprar remédios ou armas).
- Alucinações ou delírios perigosos: Acreditar que está sendo perseguido ou que precisa se machucar para “se salvar”.
- Comportamento violento: Agressividade extrema que coloca você ou outras pessoas em risco.
- Negligência extrema: Parar de comer, beber água ou tomar remédios por dias.
O que fazer?
– Não deixe a pessoa sozinha: Fique com ela até que a crise passe.
– Ligue para o CVV (188): O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional 24 horas.
– Procure um pronto-socorro: Leve a pessoa para avaliação psiquiátrica.
– Remova objetos perigosos: Se a pessoa estiver em risco de se machucar, retire facas, remédios ou armas de fogo do ambiente.
Sinais de alerta amarelo (procure ajuda nas próximas 24-48 horas)
- Piora súbita dos sintomas: Depressão, ansiedade ou irritabilidade que pioram de repente.
- Isolamento extremo: Parar de atender ligações, evitar contato com amigos e familiares.
- Dificuldade para cuidar de si: Não tomar banho, não se alimentar ou não tomar remédios por mais de um dia.
- Sintomas físicos graves: Dor no peito, falta de ar, tontura intensa (podem indicar uma crise de ansiedade ou outro problema médico).
O que fazer?
– Converse com o médico: Ligue para o psiquiatra ou vá a uma consulta de emergência.
– Peça ajuda a alguém de confiança: Um familiar ou amigo pode te acompanhar.
– Evite ficar sozinho: Se estiver se sentindo muito mal, peça para alguém ficar com você.
Referências
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022. Disponível em: https://icd.who.int/.
- American Psychiatric Association (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude/.
- Clínica Psiquiátrica da USP. Clínica Psiquiátrica. 2ª ed. São Paulo: Manole, 2011.
- Mayo Clinic. Mental illness: Symptoms & causes. Disponível em: https://www.mayoclinic.org/.
- National Institute of Mental Health (NIMH). Mental Health Information. Disponível em: https://www.nimh.nih.gov/.
- Centro de Valorização da Vida (CVV). Prevenção do suicídio. Disponível em: https://www.cvv.org.br/.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.