Definição e conceito
A Síndrome de Capgras Inverso (Reverse Capgras Syndrome), também conhecida como Síndrome do Duplo Subjetivo, é um fenômeno psicopatológico raro pertencente ao grupo das Síndromes Delirantes de Falsa Identificação (Delusional Misidentification Syndromes – DMS). Consiste em uma crença delirante na qual o indivíduo acredita que sua própria identidade física foi substituída por uma cópia, um sósia ou um impostor. O paciente afirma que ele próprio não é mais o seu "eu" verdadeiro e original, mas sim uma réplica quase idêntica que passou a habitar seu corpo. A convicção é de que houve uma transformação radical em si mesmo, onde o corpo visível e tangível pertence a um duplo, enquanto a identidade psicológica ou o "self" autêntico pode ser percebido como dissociado, perdido ou sequestrado.
Na semiologia psiquiátrica, este fenômeno é classificado como um tipo específico de delírio, mais precisamente um delírio de falsa identificação voltado para o próprio self. Distingue-se de outras alterações da identidade, como a despersonalização, pela presença de uma convicção inabalável (juízo delirante) e pela ausência de crítica. Enquanto na despersonalização o paciente tem a sensação de estranhamento ou de não ser ele mesmo, mantendo geralmente o insight de que se trata de uma experiência anômala, na Síndrome de Capgras Inverso há a certeza de que uma substituição objetiva e concreta ocorreu.
A terminologia relacionada é crucial para o diagnóstico diferencial:
- Síndrome de Capgras (Clássica): Crença de que uma pessoa próxima e familiar (cônjuge, pai, filho) foi substituída por um sósia impostor.
- Síndrome de Capgras Inverso (ou Reverso): Crença de que o próprio Eu é um impostor, uma cópia falsa de si mesmo.
- Síndrome do Duplo Subjetivo: Conceito muito próximo e frequentemente sobreposto ao de Capgras Inverso. Nela, o paciente acredita que outra pessoa se transformou fisicamente a ponto de tornar-se idêntica a ele, um duplo perfeito do seu próprio Eu.
- Síndrome de Frégoli: Falso reconhecimento delirante no qual o paciente identifica estranhos (médicos, enfermeiros, pessoas na rua) como sendo pessoas conhecidas disfarçadas.
- Síndrome de Frégoli Inversa: Crença de que a própria aparência física do paciente mudou radicalmente, enquanto sua identidade psicológica permanece a mesma.
- Síndrome de Intermetamorfose: Crença de que pessoas do seu convívio e estranhos trocam de características físicas e psicológicas entre si.
Dados epidemiológicos específicos para a Síndrome de Capgras Inverso são escassos devido à sua raridade. Ela é considerada significativamente menos comum do que a Síndrome de Capgras clássica. Sua ocorrência não está ligada a um gênero específico e pode manifestar-se em diferentes faixas etárias, dependendo da condição psiquiátrica ou neurológica de base.
Apresentação clínica
A apresentação clínica é marcada por um núcleo delirante de falsa identificação do self, que se expressa através de diversos domínios.
Domínio Cognitivo/Delirante:
O sintoma cardinal é a convicção inabalável de que o próprio corpo não pertence mais ao indivíduo verdadeiro. O paciente pode descrever-se como "uma cópia", "um clone", "um robô com minha aparência" ou "um impostor que assumiu meu lugar". Esta crença é tipicamente fixa, não sendo modificada por argumentação lógica ou evidência contrária. O conteúdo do delírio pode ser pobremente elaborado ou integrar-se a sistemas delirantes mais complexos, envolvendo temas de perseguição (ex.: "me substituíram para me vigiar melhor"), grandiosidade (ex.: "sou uma cópia perfeita criada para uma missão especial") ou místicos (ex.: "meu espírito foi expulso e este corpo está possuído"). O paciente pode referir um evento específico que teria desencadeado a substituição (um acidente, uma cirurgia, um trauma) ou pode vivenciá-la como um fato contínuo e inexplicável.
Domínio Afetivo:
O afeto comumente associado é de perplexidade, angústia profunda e desespero. O paciente sofre por sentir-se aprisionado em um corpo que reconhece como fisicamente familiar (ao se olhar no espelho) mas que nega como sendo seu. Pode haver ansiedade, irritabilidade e labilidade emocional. Em alguns casos, especialmente na esquizofrenia, o afeto pode ser incongruente ou embotado, com o paciente relatando o fenômeno com frieza e distanciamento. Sentimentos de estranhamento (Unheimlichkeit) e solidão extrema são frequentes, dada a percepção de que ninguém consegue compreender ou acreditar em sua experiência única.
Domínio Comportamental:
O comportamento é diretamente influenciado pelo delírio. O paciente pode:
- Recusar-se a ser chamado pelo próprio nome, argumentando que aquele nome pertence ao "eu verdadeiro", não a ele (o duplo).
- Evitar olhar-se no espelho ou, ao contrário, obsessivamente examinar a própria imagem em busca de "falhas" ou "provas" da duplicação.
- Buscar incessantemente por seu "eu original" ou tentar "retornar" ao seu corpo verdadeiro, o que pode levar a condutas erráticas ou fugas.
- Isolar-se socialmente, por acreditar que não pode mais se relacionar autenticamente com os outros.
- Em casos graves, pode haver automutilação dirigida ao corpo "falso", na tentativa de "raspar a superfície" ou encontrar o "verdadeiro eu" dentro de si, ou ainda, condutas suicidas motivadas pelo desespero de viver como um impostor.
Domínio Somático/Perceptivo:
Não há, por definição, uma alteração sensorial primária. A percepção visual do próprio rosto e corpo está intacta – o paciente reconhece a imagem como sendo a sua habitual. A anomalia está no significado atribuído a essa percepção. Pode haver, contudo, sensações corporais estranhas (cenestesias) interpretadas como "provas" da substituição (ex.: "minha pele não sente mais como antes", "meus ossos são de outra pessoa").
Exemplos Clínicos Concisos:
- Um homem de 45 anos, internado em sua primeira crise psicótica, afirma ao psiquiatra: "Doutor, o senhor está falando com uma cópia. O [nome do paciente] verdadeiro foi levado após o acidente de carro. Eu sou um duplo perfeito que colocaram aqui. Olhe para minhas mãos, elas são iguais, mas não são as minhas mãos."
- Uma mulher de 60 anos com diagnóstico de Demência por Corpos de Lewy passa a recusar os cuidados da filha, dizendo: "Você não é minha filha, você é uma estranha. E eu também não sou mais sua mãe. Sou uma velha que parece com ela. A sua mãe de verdade se foi. Deixe-me em paz."
Neurobiologia e fisiopatologia
A fisiopatologia da Síndrome de Capgras Inverso é compreendida dentro dos modelos propostos para as Síndromes de Falsa Identificação, com ênfase particular na desconexão entre sistemas de reconhecimento emocional e de identificação facial, e na integração do self corporal.
Modelo da Desconexão Afetivo-Cognitiva (Extrapolado de Capgras Clássico):
O modelo mais consolidado, proposto inicialmente para a Síndrome de Capgras, sugere uma dissociação entre duas vias neurais envolvidas no reconhecimento de pessoas:
- Via Dorsal/Associativa (Reconhecimento Cognitivo): Envolve estruturas como o giro fusiforme (área de reconhecimento facial) e circuitos temporo-parietais. Esta via permanece intacta, permitindo que o paciente reconheça perfeitamente os traços fisionômicos da própria face (no espelho) ou de pessoas familiares.
- Via Ventral/Límbica (Reconhecimento Emocional/Afetivo): Envolve conexões com a amígdala, ínsula e outras estruturas límbicas que atribuem a carga emocional e o senso de familiaridade ao estímulo percebido.
Na Síndrome de Capgras Inverso, postula-se que haja uma lesão ou disfunção nesta via ventral, especificamente no processamento do reconhecimento emocional do próprio self. Ao olhar para si mesmo, embora haja o reconhecimento cognitivo da imagem ("esta face é a minha face"), falta a ressonância afetiva, o sentimento de pertencimento e familiaridade que normalmente acompanha a autorreconhecimento. Esta lacuna emocional ("sécheresse affective") é então interpretada de forma delirante pelo paciente como evidência de que se trata de um sósia ou impostor.
Circuitos de Self Corporal e Propriocepção:
Aspectos da síndrome podem envolver disfunções em circuitos que integram a propriocepção, a visão e o sentido de agência para construir uma representação unificada do self corporal. Estruturas como o córtex parietal inferior, a ínsula e o giro cingulado estão implicadas na distinção entre self e não-self. Uma perturbação nestas redes poderia levar à sensação de que o corpo percebido não está sob o controle ou pertencimento do self psicológico, alimentando o delírio de ser um duplo.
Neurotransmissão e Achados de Neuroimagem:
Evidências diretas são limitadas, mas condições associadas (como esquizofrenia, demências e lesões cerebrais) apontam para envolvimento de múltiplos sistemas. Disfunções nos sistemas dopaminérgico (envolvido na formação e manutenção de delírios) e glutamatérgico (envolvido na integração cognitiva) são hipotetizadas. Lesões estruturais ou funcionais no hemisfério direito, particularmente em regiões frontotemporais e parietais, são frequentemente relatadas em casos de DMS de origem neurológica. A Síndrome de Capgras Inverso, em particular, tem sido associada a lesões ou disfunções que afetam a integração entre a imagem corporal e a identidade pessoal.
Modelo Explicativo Integrado:
Um modelo atual integra: 1) uma vulnerabilidade neurocognitiva basal (possivelmente em circuitos fronto-temporo-parietais direitos); 2) uma falha no sistema de verificação de familiaridade/self, levando a uma experiência de "estranhamento do familiar"; e 3) uma tendência ao "salto para conclusões" (jumping to conclusions), comum em transtornos psicóticos, onde a experiência anômala é rapidamente interpretada e consolidada como uma crença delirante ("se não sinto que este corpo é meu, então ele não é meu – deve ser um duplo").
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Aparência e Comportamento: Pode variar de agitado e angustiado a retraído e embotado. Pode haver evitação de espelhos ou comportamentos de verificação.
- Fala e Pensamento: O discurso gira em torno do tema do duplo. O pensamento apresenta um delírio primário, tipicamente de tipo persecutório ou somático, com conteúdo de falsa identificação do self. Pode haver pensamento autorreferencial.
- Humor e Afeto: Angústia, ansiedade, perplexidade. Afeto pode ser incongruente (sorriso ao relatar sofrimento) em contextos esquizofrênicos.
- Conteúdo Perceptivo: Alucinações não são o núcleo, mas podem ocorrer (especialmente auditivas, na esquizofrenia). A experiência central é um delírio.
- Cognição: A orientação (tempo, lugar, pessoa) geralmente está preservada, exceto no que diz respeito à sua própria identidade. A memória pode estar intacta ou comprometida, dependendo da condição de base (ex.: demência).
- Insight: Gravemente prejudicado em relação ao delírio. O paciente não tem dúvidas sobre a veracidade da crença.
Instrumentos e Escalas:
Não existem escalas validadas especificamente para a Síndrome de Capgras Inverso. A avaliação é clínica e semiológica. Instrumentos gerais podem ser úteis:
- Entrevista Clínica Estruturada para DSM-5 (SCID-5) ou MINI Plus: Para diagnóstico do transtorno psiquiátrico de base.
- Escala de Avaliação de Síndromes Positivas (SAPS): O item "Delírios de Perseguição" e "Delírios de Referência" podem capturar aspectos do fenômeno.
- Avaliação Neuropsicológica: Fundamental para investigar déficits cognitivos que sugiram uma etologia orgânica (demência, delirium, lesão cerebral).
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Pontos de Similaridade | Pontos de Diferenciação |
|---|---|---|
| Síndrome de Capgras (Clássica) | Pertence ao mesmo grupo de DMS; envolve crença em sósias/impostores. | O objeto do delírio é outra pessoa familiar. O paciente não duvida de sua própria identidade. |
| Síndrome do Duplo Subjetivo | Conceitualmente muito sobreposta; envolve a ideia de um duplo do self. | O foco está na transformação de outra pessoa no duplo do paciente, não na substituição do self do paciente. |
| Síndrome de Frégoli Inversa | Pertence ao grupo de DMS; envolve alteração na percepção do self físico. | A crença é de que a aparência física mudou, mas a identidade psicológica (self) é a mesma. Na Capgras Inverso, a identidade psicológica é que está em um corpo falso. |
| Transtorno de Despersonalização | Sensação de estranhamento de si mesmo, de não ser real, de ser um autômato. | Ausência de delírio. O paciente mantém o insight de que é uma sensação estranha, não uma realidade objetiva. Descreve como "como se" fosse um robô, não "sou" um robô. |
| Esquizofrenia com Delírios Somáticos | Pode incluir crenças bizarras sobre o corpo. | O conteúdo geralmente é de alteração corporal (ex.: órgãos podres, infestação por parasitas), não de substituição por um duplo idêntico. |
| Delírio de Possessão | Crença de que uma entidade externa controla o self. | O foco é no controle das ações/pensamentos por um agente externo. O corpo ainda é reconhecido como próprio, mas "habitado". Na Capgras Inverso, o corpo em si é alienígena. |
| Quadros Demenciais (ex.: Demência por Corpos de Lewy) | Podem apresentar DMS, incluindo Capgras Inverso. | O fenômeno ocorre em um contexto de declínio cognitivo global progressivo, com flutuações, alucinações visuais bem formadas e parkinsonismo. |
| Delirium | Pode causar desorientação e identificações errôneas. | É um estado agudo e flutuante de confusão, com prejuízo da atenção e da consciência. As falsas identificações são inconsistentes e não um delírio sistemático. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Confundir com Despersonalização: A principal armadilha. A chave é avaliar o insight. Perguntas como "O senhor acha que isso é uma sensação estranha, ou é uma realidade concreta?" são cruciais.
- Atribuir Exclusivamente a Causa Psiquiátrica: Ignorar a investigação de causas orgânicas (neurológicas, tóxicas) é um erro grave. Toda primeira apresentação exige exclusão de condição médica geral.
- Não Explorar o Conteúdo Completo: Aceitar a queixa vaga de "não me sinto eu mesmo" sem explorar a elaboração delirante específica ("sou um duplo").
- Subestimar o Sofrimento: Pelo caráter bizarro do delírio, o clínico pode minimizar a angústia extrema e o risco suicida associados.
Condições associadas
A Síndrome de Capgras Inverso não é um diagnóstico por si só, mas um sintoma ou síndrome que ocorre no contexto de transtornos psiquiátricos ou neurológicos subjacentes.
Transtornos Psiquiátricos:
- Esquizofrenia e Transtornos Esquizoafetivos: É o contexto mais clássico para DMS. O fenômeno se insere no espectro de delírios bizarros e de autorreferência típicos da doença.
- Transtorno Delirante (Tipo Somático ou Persecutório): Pode constituir a manifestação central de uma forma "pura" de delírio, sem outros sintomas psicóticos proeminentes.
- Transtornos do Humor com Características Psicóticas: Pode ocorrer em episódios depressivos maiores graves ou em episódios maníacos, geralmente integrado ao conteúdo do humor (ex.: na depressão psicótica, como punição; na mania, como sinal de grandiosidade).
- Transtornos Dissociativos de Identidade: Pode haver relatos de não reconhecimento do próprio corpo ou da imagem no espelho, mas neste caso está inserido em um contexto complexo de múltiplas identidades e amnésias dissociativas, não como uma crença delirante fixa.
Transtornos Neurológicos e Condições Médicas Gerais (Psico-orgânicos):
- Demências: Particularmente a Demência por Corpos de Lewy e a Doença de Alzheimer em estágios moderados a avançados. A desconexão entre redes cerebrais explica a alta prevalência de DMS nessas condições.
- Lesões Cerebrais Focais: Traumatismo cranioencefálico, acidente vascular cerebral (AVC), tumores cerebrais, especialmente aqueles que afetam regiões frontotemporais e parietais do hemisfério direito.
- Epilepsia: Crises parciais complexas de origem temporal podem gerar experiências ilusórias ou delirantes de identidade.
- Doenças Metabólicas/Tóxicas: Estados de delirium por qualquer causa (infecção, desequilíbrio hidroeletrolítico, abstinência) podem, raramente, desencadear o fenômeno.
- Enxaqueca com Aura: Auras complexas podem incluir alterações transitórias da percepção de si mesmo.
Correlações nos Manuais Diagnósticos:
- CID-11 (OMS): A Síndrome de Capgras Inverso não tem um código próprio. Seria codificada como um sintoma dentro do transtorno primário (ex.: 6A20 Schizophrenia; 6A24 Delusional Disorder; 6D85 Delirium). Pode-se usar o código adicional MB26.3 Delusional misidentification syndromes para especificar.
- DSM-5-TR (APA): Da mesma forma, é um especificador ou sintoma do transtorno principal. Pode ser descrita sob o critério A para Esquizofrenia ("delírios bizarros") ou como o tema central no Transtorno Delirante. A especificação "com fenômenos de falsa identificação" pode ser anotada.
Implicações terapêuticas
O tratamento é dirigido ao transtorno psiquiátrico ou neurológico de base. Não há terapias específicas para a Síndrome de Capgras Inverso isoladamente.
Abordagem Farmacológica:
- Antipsicóticos: São a base do tratamento quando a síndrome ocorre no contexto de psicose (esquizofrenia, transtorno delirante, transtorno do humor psicótico). Tanto os típicos (haloperidol) quanto os atípicos (risperidona, olanzapina, quetiapina, aripiprazol) podem ser eficazes. A escolha considera o perfil de efeitos colaterais e condições comórbidas. Em idosos com demência, o uso requer extrema cautela devido ao aumento do risco de morte e eventos cerebrovasculares.
- Estabilizadores de Humor: Quando associada a transtornos bipolares, o lítio, valproato ou carbamazepina são essenciais, frequentemente em combinação com um antipsicótico.
- Antidepressivos: Se o fenômeno ocorrer no contexto de um episódio depressivo maior com características psicóticas, a combinação de um antidepressivo (ex.: ISRS) com um antipsicótico é indicada.
- Tratamento da Condição Orgânica: Em casos de demência, epilepsia, lesão cerebral, o manejo específico da condição neurológica é prioritário (ex.: inibidores da colinesterase para Alzheimer, anticonvulsivantes para epilepsia, reabilitação neuropsicológica para TCE).
Abordagem Psicoterapêutica e Psicossocial:
- Terapia Cognitivo-Comportamental para Psicoses (TCCp): Pode ser útil para ajudar o paciente a lidar com a angústia gerada pela crença, desenvolver estratégias de teste de realidade (sem confrontar diretamente o delírio) e reduzir o impacto comportamental do sintoma. O foco não é "curar" o delírio, mas diminuir seu sofrimento e incapacitação.
- Intervenções Familiares e Psicoeducação: É vital educar a família sobre a natureza do sintoma. Deve-se orientar a não confrontar a crença delirante ("Claro que você é você!"), pois isso gera mais isolamento e hostilidade. A abordagem deve ser de validação do sofrimento ("Deve ser muito assustador sentir isso") e foco na realidade compartilhada ("Seja quem for, precisamos cuidar desta ferida no seu braço").
- Terapia Ocupacional e Reabilitação Psicossocial: Auxilia na manutenção de rotinas, habilidades sociais e funcionais, independentemente da crença delirante, promovendo qualidade de vida.
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
O prognóstico está intimamente ligado ao da doença de base. Em psicoses funcionais (esquizofrenia), o sintoma pode ser resistente ao tratamento e persistir de forma crônica. Em transtornos do humor, tende a remitir com a resolução do episódio agudo. Em condições orgânicas (demência), pode ser flutuante e progressivo. A presença de uma Síndrome de Capgras Inverso geralmente indica maior gravidade do quadro subjacente e pode estar associada a pior resposta global ao tratamento e maior comprometimento funcional.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivencia do Paciente:
A experiência é descrita como aterradora e solitária. É a vivência de um "sequestro do self". O paciente sente-se preso em uma "casca" ou "fantasia" que é sua própria imagem. O mundo perde o sentido, pois as relações são baseadas em uma identidade que ele nega. O desespero é profundo: "Como posso provar que não sou eu?". A sensação de fraude constante e o medo de ser descoberto como um "impostor" (mesmo para si mesmo) são paralisantes. A falta de credibilidade dada pelos outros ("todo mundo acha que estou louco") amplifica a solidão.
Orientações para Comunicação Clínica:
- Estabeleça Rapport com a Experiência, não com o Delírio: Não discuta a veracidade da crença. Em vez de "Você não é um duplo", diga "Entendo que você tem a forte sensação de que não é mais você mesmo. Isso deve ser muito angustiante."
- Foque no Sofrimento e nas Necessidades Atuais: Redirecione a conversa para as consequências. "Seja como for, vejo que isso está te causando muito medo. Como posso te ajudar a se sentir mais seguro agora?"
- Use Linguagem Neutra: Refira-se ao paciente pelo nome que ele aceita. Se ele rejeita o próprio nome, use um termo neutro como "senhor" ou pergunte como prefere ser chamado.
- Evite Armadilhas de Validação: Não finja acreditar no delírio ("Então você é um clone…"), mas também não o invalide agressivamente. Mantenha-se na posição de um profissional interessado em seu sofrimento subjetivo.
- Com a Família: Eduque sobre a natureza do sintoma. Ensine a técnica do "duplo vínculo": validar o sentimento ("Vejo que você está muito perturbado") sem confirmar o conteúdo delirante ("sobre ser um sósia"). Incentive a manter rotinas normais e a não isolar o paciente.
Impacto Funcional:
O impacto é severo:
- Relacionamentos: Ruptura completa. O paciente pode afastar familiares por acreditar que eles estão interagindo com um impostor, ou porque se sente uma fraude entre eles.
- Trabalho/Estudo: Incapacidade de desempenhar funções, pois a identidade profissional está vinculada a um self que é negado.
- Autocuidado: Negligência com a saúde e higiene, pois cuidar do corpo "falso" pode parecer sem sentido ou até indesejável.
- Qualidade de Vida: Extremamente prejudicada, com altos índices de angústia, isolamento e risco de suicídio. A perda do senso de self é uma das experiências mais devastadoras na psiquiatria.
Perguntas frequentes
1. Isso é o mesmo que "síndrome do impostor"?
Não. A "síndrome do impostor" é um termo psicológico não psiquiátrico que descreve um sentimento de insegurança e dúvida sobre as próprias conquistas, com medo de ser "desmascarado" como incompetente. É uma experiência subjetiva com insight preservado. A Síndrome de Capgras Inverso é um delírio psicótico: uma crença inabalável e falsa de que se foi fisicamente substituído por um duplo.
2. O paciente realmente não se reconhece no espelho?
Sim e não. Ele reconhece visualmente que a imagem refletida tem suas feições ("parece comigo"). No entanto, falta completamente a sensação de familiaridade, de pertencimento e de identidade. Ele interpreta essa desconexão emocional como prova objetiva de que a imagem é a de um sósia, não a dele próprio.
3. É uma doença rara?
Sim, a apresentação "pura" e isolada é rara. É mais comum encontrar o fenômeno como um sintoma dentro de quadros mais amplos, como esquizofrenia ou demência. Entre as síndromes de falsa identificação, a Capgras Inverso é menos frequente que a forma clássica.
4. Tem cura?
A "cura" depende da condição de base. Em um episódio depressivo psicótico, o sintoma pode desaparecer completamente com o tratamento. Na esquizofrenia, pode ser um sintoma persistente ou recorrente, mas seu impacto e a angústia podem ser atenuados com medicação e suporte adequados. Em demências degenerativas, tende a ser progressivo.
5. Como devo agir se um familiar tem essa crença?
Não discuta nem tente convencê-lo do contrário. Isso só causará conflito. Ofereça suporte emocional validando seus sentimentos ("Deve ser muito assustador"), mantenha rotinas simples e seguras, e busque urgentemente uma avaliação psiquiátrica ou neurológica. A segurança é primordial: retire do ambiente objetos perigosos, pois o risco de autoagressão pode estar aumentado.
6. Pode ser causado por uma lesão no cérebro?
Sim. Lesões, especialmente no hemisfério direito (lobo frontal, temporal ou parietal), tumores, AVCs, traumatismos e doenças degenerativas (como demências) são causas orgânicas conhecidas. Por isso, uma primeira avaliação sempre deve incluir exame neurológico e, quando indicado, exames de imagem cerebral.
7. Qual a diferença para a síndrome do duplo subjetivo?
São conceitos muito próximos e muitas vezes usados de forma intercambiável. Uma distinção sutil proposta na literatura é que na Síndrome do Duplo Subjetivo, o foco está na transformação de outra pessoa em um duplo do paciente. Já na Capgras Inverso, o foco é na substituição do próprio paciente por um duplo. Na prática clínica, essa distinção pode ser muito tênue.
8. Medicamentos para Alzheimer ou Parkinson podem causar isso?
Sim, indiretamente. A Demência por Corpos de Lewy (que tem sintomas parkinsonianos) é uma causa orgânica clássica de síndromes de falsa identificação. Além disso, medicamentos com efeitos anticolinérgicos ou outros que possam precipitar delirium em pacientes vulneráveis podem, teoricamente, desencadear o fenômeno.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- Sims, A. Symptoms in the Mind: An Introduction to Descriptive Psychopathology. 5th ed. Edinburgh: Elsevier, 2018.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. revisada. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. 2022.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.