Definição e conceito
O recondicionamento orgásmico é uma técnica de terapia comportamental, especificamente um procedimento de condicionamento operante, desenvolvida para modificar padrões patológicos de excitação sexual. Sua aplicação clínica principal situa-se no tratamento de transtornos parafílicos, nos quais a excitação sexual está associada de forma persistente e intensa a objetos, situações ou indivíduos atípicos ou socialmente inaceitáveis (por exemplo, crianças, objetos inanimados, sofrimento ou humilhação de outrem). A técnica foi descrita inicialmente por Gerald Davison em 1968.
O procedimento baseia-se no princípio de que a masturbação e o orgasmo constituem um reforço primário poderoso. Em indivíduos com parafilias, esse reforço está vinculado a fantasias ou estímulos parafílicos, consolidando um circuito de excitação disfuncional. O recondicionamento orgásmico visa "reaparelhar" esse reforço, emparelhando progressivamente a resposta orgásmica com estímulos e fantasias sexualmente normativos e desejados, enfraquecendo assim a associação com o conteúdo parafílico. É um exemplo de contracondicionamento, onde uma nova resposta (excitação por estímulos apropriados) é condicionada para substituir uma resposta indesejada (excitação parafílica).
Distinção de conceitos adjacentes:
- Sensibilização Encoberta (Covert Sensitization): Técnica cognitivo-comportamental complementar, descrita por Joseph Cautela (1967). Envolve a associação repetitiva, na imaginação, de cenas parafílicas com consequências aversivas (ex.: náusea, constrangimento social, consequências legais). Enquanto a sensibilização encoberta busca criar associações negativas com o comportamento indesejado, o recondicionamento orgásmico visa construir associações positivas com comportamentos alternativos desejados. Ambas são frequentemente usadas em conjunto.
- Prevenção de Recaída: Estrutura terapêutica que prepara o paciente para identificar e lidar com situações de alto risco para o comportamento parafílico. O recondicionamento orgásmico pode ser uma ferramenta dentro de um programa mais amplo de prevenção de recaída.
- Treinamento de Masturbação: Técnica utilizada no tratamento de disfunções sexuais, como o transtorno do desejo sexual hipoativo ou transtornos do orgasmo. Envolve a exploração da própria sexualidade e do corpo para aumentar a excitação e a capacidade orgásmica. Embora utilize a masturbação, seu foco é a reabilitação da resposta sexual, não a modificação de um padrão de excitação desviante.
- Terapia de Avanço Masturbatório (Masturbatory Satiation): Técnica em que o paciente se masturba até a exaustão (pós-orgasmo) enquanto verbaliza ou fantasia com o conteúdo parafílico. O objetivo é induzir tédio e saciedade, tornando o estímulo parafílico menos excitante. É conceitualmente oposta ao recondicionamento orgásmico.
Terminologia técnica relevante: Recondicionamento Orgásmico (PT) / Orgasmic Reconditioning (EN); Parafilia / Paraphilic Disorder (DSM-5-TR); Condicionamento Operante / Operant Conditioning; Contracondicionamento / Counterconditioning; Reforço Positivo / Positive Reinforcement.
Dados epidemiológicos específicos sobre a utilização ou eficácia isolada do recondicionamento orgásmico são escassos na literatura. A técnica é geralmente reportada como um componente de programas multimodais de tratamento para parafilias e delitos sexuais. Sua aplicação é mais comum em contextos forenses ou em clínicas especializadas em comportamento sexual.
Apresentação clínica
O recondicionamento orgásmico não é um fenômeno psicopatológico em si, mas uma intervenção terapêutica. Portanto, sua "apresentação clínica" refere-se à sua implementação prática durante o tratamento e aos processos cognitivos e comportamentais que ela mobiliza no paciente.
Domínio Comportamental:
A técnica é estruturada em etapas comportamentais precisas. Inicialmente, o paciente é instruído a iniciar a masturbação utilizando sua fantasia parafílica habitual, que é responsável pelo padrão de excitação indesejado. O momento crítico ocorre pouco antes do ponto de inevitabilidade orgásmica (iminência da ejaculação nos homens ou do orgasmo nas mulheres). Nesse exato momento, o paciente deve mudar deliberadamente o foco de sua fantasia para um conteúdo sexual apropriado e desejado (ex.: interação sexual consentida com um adulto). O orgasmo, portanto, é associado ao novo estímulo. Com a prática repetida, o paciente é orientado a introduzir a fantasia apropriada cada vez mais cedo no processo masturbatório, mantendo a excitação. O objetivo final é conseguir iniciar e manter a excitação utilizando apenas as fantasias desejadas desde o início do ato.
Domínio Cognitivo:
A técnica requer um alto grau de autoconsciência e autorregulação. O paciente deve desenvolver a habilidade de monitorar seus próprios níveis de excitação para identificar com precisão o momento pré-orgásmico. Envolve também a capacidade de gerar e sustentar imagens mentais vívidas e alternativas (as fantasias apropriadas). Um desafio cognitivo comum é a intrusão de pensamentos ou imagens parafílicas durante a tentativa de focar no conteúdo desejado, o que pode exigir estratégias adicionais de interrupção do pensamento ou redirecionamento da atenção.
Domínio Afetivo:
A execução da técnica pode gerar ansiedade, frustração ou desesperança inicial, especialmente se o paciente não consegue manter a excitação com a fantasia alternativa. Por outro lado, sucessos parciais podem gerar alívio e um senso de autoeficácia. A técnica pressupõe que o paciente tenha um genuíno desejo de mudança e experimente afeto positivo ou neutro em relação ao conteúdo sexual que se pretende fortalecer.
Exemplo Clínico Conciso:
Um homem de 35 anos, casado, busca tratamento devido a um transtorno pedofílico exclusivamente atraído por meninas pré-púberes. Ele relata forte desejo e fantasia recorrente, associada à masturbação diária. A avaliação revela que ele também é capaz de ter excitação com estímulos adultos, mas esta é menos intensa e não é seu foco espontâneo. No recondicionamento orgásmico, ele é instruído a, durante a masturbação, iniciar com sua fantasia habitual, mas, no momento imediatamente anterior à ejaculação, substituí-la mentalmente por uma imagem de atividade sexual com sua esposa. Após várias sessões bem-sucedidas, ele passa a introduzir a imagem da esposa 30 segundos antes do clímax, depois 1 minuto, e assim por diante, até conseguir iniciar a masturbação já com a fantasia apropriada.
Neurobiologia e fisiopatologia
O recondicionamento orgásmico atua sobre os substratos neurobiológicos da aprendizagem, do condicionamento e do prazer sexual, buscando remodelar circuitos neurais consolidados.
Mecanismos de Aprendizagem e Condicionamento:
O modelo fisiopatológico subjacente às parafilias, conforme indicado nas fontes, sugere que fantasias sexuais precoces são repetidamente reforçadas pelo intenso prazer orgásmico associado à masturbação. Este é um claro processo de condicionamento operante: o comportamento (fantasiar com um conteúdo específico) é seguido por uma consequência extremamente reforçadora (orgasmo), aumentando a probabilidade de que o comportamento se repita. Neurologicamente, isso envolve o sistema de recompensa mesolímbico, particularmente a via dopaminérgica que projeta da Área Tegmentar Ventral (VTA) para o Núcleo Accumbens e o córtex pré-frontal. A liberação de dopamina durante a antecipação e experiência do prazer sexual fortalece as conexões sinápticas relacionadas aos estímulos presentes no momento (as fantasias parafílicas).
O recondicionamento orgásmico tenta criar um novo traço de memória competitivo. Ao emparelhar sistematicamente o clímax do prazer (e o pico de atividade dopaminérgica) com um novo estímulo (fantasia apropriada), a técnica busca redirecionar a ativação do circuito de recompensa para representações mentais alternativas. É um processo de extinção da resposta antiga (enfraquecimento da associação estímulo parafílico-recompensa) combinado com a aquisição de uma nova resposta (fortalecimento da associação estímulo normativo-recompensa).
Neurobiologia da Excitação e do Orgasmo:
A excitação sexual envolve sistemas complexos, incluindo a ativação parassimpática (ereção/lubrificação) e a mediação de neurotransmissores como a dopamina (desejo e excitação) e a ocitocina (vinculação). O orgasmo está associado a uma liberação maciça de ocitocina e endorfinas, produzindo uma sensação de prazer intenso, saciedade e, frequentemente, sedação. Este estado pós-orgásmico pode facilitar a consolidação da memória, tornando o estímulo presente no momento (a fantasia alternativa) mais saliente.
Modelos Explicativos:
O modelo de desenvolvimento da parafilia apresentado nas fontes (Figura 10.6) é central: fantasias sexuais inapropriadas são repetidamente associadas a atividades masturbatórias e recebem forte reforço. Tentativas de suprimir a excitação podem, paradoxalmente, aumentá-la (efeito de rebote). O recondicionamento orgásmico intervém diretamente nesse ciclo, não tentando suprimir, mas sim redirecionar o reforço. O modelo de Barlow sobre excitação sexual funcional vs. disfuncional (Figura 10.5) também é relevante. Na disfunção, o foco da atenção desvia-se para preocupações de desempenho ou consequências negativas, aumentando a ansiedade e inibindo a resposta. No recondicionamento, o terapeuta guia o paciente a focar a atenção de forma eficiente no estímulo desejado, em um contexto de baixa ansiedade (a masturbação solitária), para restaurar um ciclo de excitação funcional em torno de um novo foco.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
A aplicação do recondicionamento orgásmico pressupõe uma avaliação diagnóstica minuciosa e multidimensional.
Achados ao Exame do Estado Mental:
Não há achados específicos no exame mental que indiquem a necessidade desta técnica. A indicação deriva da história e da avaliação especializada do comportamento sexual. É crucial avaliar:
- Insight: O paciente reconhece seu padrão de excitação como problemático? Tem genuíno desejo de mudança?
- Conteúdo do Pensamento: Descrição precisa e detalhada das fantasias parafílicas e não parafílicas. Frequência, intensidade e controle sobre elas.
- Comportamento: Histórico de masturbação (frequência, estímulos utilizados) e de comportamentos sexuais com parceiros (quando aplicável).
- Afeito: Presença de culpa, vergonha, ansiedade ou, inversamente, justificativas e falta de remorso.
- Julgamento e Impulsividade: Capacidade de adiar a gratificação e de prever consequências.
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
- Entrevistas Estruturadas: Entrevista Clínica Estruturada para o DSM-5 (SCID-5) para diagnóstico de transtornos parafílicos.
- Avaliação da Excitação Sexual: Técnicas de laboratório como a penile plethysmography (PPG) ou a vaginal photoplethysmography, que medem a resposta genital a estímulos visuais ou auditivos. Esses métodos, citados nas fontes como "métodos sofisticados para avaliar os padrões específicos de excitação sexual", são importantes para objetivar o padrão de excitação, especialmente quando o autorrelato é impreciso ou o paciente não tem plena consciência de seus desencadeadores.
- Escalas de Autorrelato: Inventários como o Multiphasic Sex Inventory (MSI) ou escalas específicas para avaliar distorções cognitivas, empatia pela vítima e risco de reincidência.
- Avaliação de Motivação para o Tratamento: Escalas que avaliam o estágio de mudança do paciente (ex.: modelo Transteórico).
Diagnóstico Diferencial Estruturado (da Condição que Justifica o Tratamento):
A técnica é indicada para Transtornos Parafílicos (DSM-5-TR) / Transtornos da Preferência Sexual (CID-11). O diagnóstico diferencial inclui:
- Comportamento Sexual Normativo Variante: Interesses sexuais atípicos (ex.: fetichismo leve) que não causam sofrimento, prejuízo ou risco a outrem, e não configuram um transtorno.
- Comportamento Parafílico Isolado sem Transtorno: Fantasias ou comportamentos parafílicos que não são essenciais para a excitação sexual ou para a satisfação do indivíduo.
- Transtorno do Controle dos Impulsos: Comportamentos sexuais compulsivos ("hipersexualidade") que podem envolver múltiplos parceiros ou atividades, mas sem um foco parafílico fixo e necessário para a excitação.
- Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) com Temática Sexual: Pensamentos sexuais intrusivos e indesejados (ex.: medo de ser pedófilo) que causam ansiedade, mas não são experimentados como excitantes ou desejados. O paciente realiza rituais para neutralizá-los.
- Manifestação de Outro Transtorno Mental: Comportamento sexual desinibido ou inadequado durante um episódio maníaco, sob influência de substâncias, ou em condições neurocognitivas (ex.: demência frontotemporal).
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Aceitar o Autorrelato Sem Avaliação Objetiva: Pacientes podem minimizar ou distorcer seus interesses parafílicos. A avaliação deve ser multimodal.
- Confundir TOC com Parafilia: A chave é a egodistonia (TOC) vs. egossintonia (Parafilia, pelo menos inicialmente) dos pensamentos, e a presença (Parafilia) ou ausência (TOC) de excitação sexual associada.
- Ignorar Comorbidades: Transtornos de personalidade (especialmente antissocial ou borderline), abuso de substâncias, depressão e ansiedade são frequentes e devem ser tratados concomitantemente.
- Iniciar o Recondicionamento Sem Motivação Adequada: A técnica exige adesão e esforço consistentes. Aplicá-la em um paciente ambivalente ou coagido é fadado ao fracasso.
Condições associadas
O recondicionamento orgásmico está primariamente associado ao tratamento de Transtornos Parafílicos, conforme categorizados no DSM-5-TR e na CID-11. Sua aplicação é mais estudada e comum em:
- Transtorno Pedofílico: Para redirecionar a excitação de crianças para adultos.
- Transtorno de Exibicionismo: Para associar o orgasmo a fantasias de interações sexuais consensuais e privadas, em vez da exposição a estranhos.
- Transtorno de Voyeurismo: Para redirecionar a excitação da observação clandestina para a participação em atividades sexuais com parceiro.
- Transtorno Fetichista: Para diminuir a dependência de um objeto inanimado para a excitação e fortalecer a resposta a estímulos corporais do parceiro.
- Transtorno de Masoquismo Sexual / Transtorno de Sadismo Sexual: Em casos em que a associação com dor ou humilhação cause sofrimento significativo ou risco, busca-se emparelhar o orgasmo com atividades sexuais que não envolvam esses elementos.
Pode também ser um componente auxiliar no tratamento de algumas Disfunções Sexuais quando há um componente de fantasia disfuncional ou inibitória. Por exemplo, no Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo Masculino, se o paciente mantém excitação apenas para fantasias parafílicas mas não para o parceiro, a técnica pode ser adaptada para fortalecer a resposta a estímulos relacionados ao parceiro.
É crucial notar que o recondicionamento orgásmico raramente é usado isoladamente. Ele integra programas terapêuticos mais amplos que incluem psicoterapia para desenvolver habilidades sociais e de empatia, terapia cognitiva para corrigir distorções, prevenção de recaída e, frequentemente, intervenção farmacológica.
Implicações terapêuticas
O recondicionamento orgásmico é uma intervenção psicoterapêutica comportamental com um mecanismo de ação específico. Sua implementação deve ser cuidadosamente planejada e monitorada.
Abordagem Psicoterapêutica:
- Contexto de Aplicação: Deve ser conduzido por um terapeuta treinado, preferencialmente dentro de uma abordagem cognitivo-comportamental mais ampla. A técnica é frequentemente combinada com Sensibilização Encoberta (para enfraquecer a resposta antiga) e Treinamento de Habilidades Sociais (para fornecer repertório comportamental alternativo).
- Protocolo: Envolve psicoeducação sobre o modelo de condicionamento, identificação colaborativa de fantasias alternativas realistas e excitantes para o paciente, e instruções passo a passo para a prática. O paciente mantém um registro detalhado das sessões de masturbação (fantasias usadas, momento de troca, sucesso em manter a excitação).
- Evidência de Eficácia: As fontes citam que a técnica "tem sido empregada com algum sucesso em uma variedade de situações". A literatura indica que é mais eficaz para reduzir a intensidade e a frequência da excitação parafílica do que para erradicá-la completamente. Sua eficácia é maior quando o paciente já possui alguma capacidade de excitação com estímulos normativos e quando está altamente motivado.
Integração com Abordagens Farmacológicas:
O recondicionamento orgásmico pode ser usado em conjunto com medicamentos, especialmente em casos de alto risco ou de impulsividade severa.
- Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS): Podem ajudar a reduzir a impulsividade, a compulsividade e a intensidade do desejo sexual, criando uma "janela de oportunidade" para que as técnicas psicológicas, como o recondicionamento, sejam mais eficazes.
- Agentes Antiandrogênicos (ex.: acetato de ciproterona, medroxiprogesterona): Suprimem os níveis de testosterona, reduzindo drasticamente o desejo sexual, as fantasias e a capacidade de ereção. As fontes alertam que "fantasias e reincidência de excitação voltam quando a droga é interrompida". Portanto, seu uso é paliativo e de controle de risco, devendo ser acompanhado de terapia para promover mudanças duradouras, como as buscadas pelo recondicionamento.
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
O sucesso do recondicionamento orgásmico influencia positivamente o prognóstico geral. Pacientes que conseguem desenvolver e fortalecer fontes alternativas de excitação sexual têm menor risco de recaída no comportamento parafílico, maior capacidade de estabelecer relacionamentos íntimos saudáveis e melhor qualidade de vida. No entanto, é uma técnica que exige paciência e persistência. Fracassos iniciais são comuns e devem ser normalizados pelo terapeuta, sendo analisados como oportunidades de ajuste da técnica (ex.: escolha de uma fantasia alternativa mais vívida, ajuste do momento da troca).
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente:
Para o paciente, o recondicionamento orgásmico pode ser inicialmente percebido como uma tarefa mecânica, artificial e frustrante. A fantasia parafílica é muitas vezes a via mais rápida e intensa para o prazer sexual. Substituí-la pode resultar em perda momentânea de excitação, gerando sentimentos de inadequação ou desesperança ("nunca vou conseguir sentir prazer de forma normal"). Com o tempo e a prática bem-sucedida, pode surgir um senso de controle e esperança. Alguns pacientes relatam um processo de "redescoberta" de aspectos da sexualidade que haviam sido negligenciados ou nunca explorados.
Comunicação Clínica com o Paciente:
- Psicoeducação Clara: Explicar o modelo de condicionamento de forma simples: "Seu cérebro aprendeu a associar o maior prazer possível (o orgasmo) com imagens de X. Estamos tentando reensinar seu cérebro a associar esse mesmo prazer máximo com imagens de Y."
- Normalizar a Dificuldade: "É esperado que no início seja difícil e que a excitação diminua. Isso faz parte do processo de reaprendizagem. O importante é a prática consistente."
- Colaboração na Escolha das Fantasias: A fantasia alternativa deve ser escolhida em conjunto, sendo realista, detalhada e, na medida do possível, genuinamente atraente para o paciente. Impor uma fantasia que ele considere desinteressante é contraproducente.
- Enfatizar a Autonomia: O paciente é o agente da mudança. O terapeuta fornece o manual de instruções, mas a prática é solitária e depende do compromisso do paciente.
Comunicação com a Família:
A família geralmente não é informada dos detalhes íntimos da técnica. A comunicação deve focar nos princípios gerais do tratamento: "Estamos trabalhando com técnicas específicas para ajudar [nome do paciente] a redirecionar seus pensamentos e respostas sexuais para padrões mais saudáveis e apropriados. Isso é um processo que exige tempo e paciência." É importante orientar a família a não pressionar por resultados ou fazer perguntas invasivas sobre o andamento, pois isso pode aumentar a ansiedade e prejudicar a terapia.
Impacto Funcional:
O sucesso do tratamento pode ter um impacto profundo na funcionalidade. Pode permitir o desenvolvimento ou o fortalecimento de relacionamentos íntimos adultos baseados no consentimento, aumentando a satisfação com a vida e reduzindo o isolamento social. No contexto forense, é um elemento que pode contribuir para a avaliação de risco de reincidência e para a reintegração social. O alívio da culpa, vergonha e do medo constante de descoberta também melhora significativamente a qualidade de vida e o desempenho em outras áreas, como o trabalho.
Perguntas frequentes
1. O recondicionamento orgásmico "cura" a pedofilia ou outras parafilias?
Não no sentido de erradicar completamente a atração parafílica. A literatura e a prática clínica sugerem que os interesses sexuais profundamente arraigados raramente desaparecem por completo. O objetivo do recondicionamento orgásmico é enfraquecer a força e a centralidade da fantasia parafílica e fortalecer vias alternativas de excitação sexual. A "cura" é entendida como a capacidade de o indivíduo viver uma vida satisfatória e não ofensiva, sem agir sobre seus impulsos parafílicos, utilizando para isso o autocontrole e as fontes de prazer sexual alternativas que foram desenvolvidas.
2. É uma técnica que pode ser feita sozinho, sem terapia?
Não é recomendado. A automedicação pode ser ineficaz e até perigosa. Um terapeuta é necessário para: a) fazer o diagnóstico correto e garantir que a técnica é indicada; b) ajudar a identificar fantasias alternativas adequadas; c) monitorar o progresso e ajustar a técnica; d) lidar com frustrações e pensamentos distorcidos que surgem durante o processo; e) integrar a técnica a outras intervenções necessárias (ex.: treino de habilidades sociais, manejo da impulsividade).
3. Quanto tempo leva para funcionar?
Não há um prazo fixo. Depende de fatores como a exclusividade da parafilia, a intensidade do desejo, a motivação do paciente, a qualidade das fantasias alternativas e a frequência da prática. Alguns pacientes relatam mudanças perceptíveis em algumas semanas, enquanto outros podem levar meses para obter progressos consistentes. É um processo gradual.
4. E se eu não conseguir me excitar com a fantasia "normal"?
Isso é comum no início. A estratégia é não desistir. Pode-se: a) Refinar a fantasia alternativa, tornando-a mais detalhada e vívida; b) Ajustar o momento da troca (tentar trocar um pouco mais tarde, bem no limiar do orgasmo); c) Discutir com o terapeuta se há bloqueios cognitivos (ex.: crenças de que sexo "normal" é chato) que precisam ser trabalhados primeiro. A persistência é fundamental.
5. Essa técnica é ética? Não é uma forma de "controle da mente"?
A ética está intrinsecamente ligada ao consentimento informado. A técnica só é aplicada em adultos que buscam tratamento voluntariamente, compreendem seus objetivos e limites, e desejam mudar seu padrão de excitação. Não se trata de impor uma visão moral, mas de ajudar o indivíduo a alcançar um objetivo clínico por ele mesmo definido (ex.: não ofender crianças, ter um relacionamento com um adulto). Em contextos forenses, a voluntariedade pode ser mais complexa, mas o princípio do consentimento informado ainda deve ser rigorosamente observado.
6. O recondicionamento orgásmico pode ser usado para "curar" a homossexualidade?
Absolutamente não. A homossexualidade não é uma doença, parafilia ou disfunção. Ela foi removida dos manuais diagnósticos há décadas. O recondicionamento orgásmico é uma técnica para transtornos que causam sofrimento ou prejuízo, o que não é o caso da orientação sexual. Aplicar esta técnica para tentar mudar a orientação sexual é antiético, potencialmente prejudicial e não tem base científica.
7. Quais são as limitações principais desta técnica?
- Requer alta motivação e adesão do paciente.
- Pode ser menos eficaz em parafilias exclusivas (onde não há nenhuma excitação residual por estímulos normativos).
- Não aborda diretamente déficits em habilidades sociais, empatia ou distorções cognitivas, que são cruciais para uma mudança duradoura.
- O risco de recaída existe, especialmente em momentos de estresse, uso de substâncias ou exposição a estímulos parafílicos.
8. No Brasil, onde posso encontrar tratamento que inclua essa abordagem?
O tratamento especializado para transtornos parafílicos no Brasil é oferecido principalmente em: a) Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) com equipes especializadas; b) Ambulatórios de Psiquiatria Forense vinculados a universidades ou ao sistema judiciário; c) Serviços de Psiquiatria e Psicologia em Hospitais Universitários; d) Profissionais da saúde mental em consultório privado com formação específica em terapia sexual e comportamental. A busca deve ser feita por psiquiatras ou psicólogos com experiência na área.
Referências
- Barlow, D. H. (2004). Anxiety and Its Disorders: The Nature and Treatment of Anxiety and Panic (2nd ed.). Guilford Press. (Citado nas fontes como base do modelo de excitação disfuncional).
- Bradford, J. M. W., & Meston, C. M. (2011). Paraphilias. In S. B. Levine, C. B. Risen, & S. E. Althof (Eds.), Handbook of Clinical Sexuality for Mental Health Professionals (2nd ed.). Routledge. (Citado nas fontes sobre o reforço de fantasias via masturbação).
- Cautela, J. R. (1967). Covert sensitization. Psychological Reports, 20(2), 459-468.
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Davison, G. C. (1968). Elimination of a sadistic fantasy by a client-controlled counterconditioning technique: A case study. Journal of Abnormal Psychology, 73(1), 84–90.
- Maletzky, B. M. (2002). The Paraphilias: Research and Treatment. In P. E. Nathan & J. M. Gorman (Eds.), A Guide to Treatments That Work (2nd ed.). Oxford University Press.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- Wincze, J. P. (2009). Enhancing Sexuality: A Problem-Solving Approach to Treating Dysfunction (2nd ed.). Oxford University Press. (Citado nas fontes sobre avaliação e tratamento de disfunções sexuais).
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.