Definição e epidemiologia
O Transtorno Psicótico Induzido por Substância/Medicamento (TPISM) é uma condição clínica caracterizada pela presença de delírios e/ou alucinações, com teste de realidade comprometido, cuja etiologia é diretamente atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância psicoativa, um medicamento com ou sem prescrição, um fitoterápico ou uma toxina. A perturbação surge durante ou logo após a intoxicação ou abstinência da substância, ou após a exposição a um medicamento. O diagnóstico requer que a substância/medicamento envolvido seja conhecido por sua capacidade de produzir sintomas psicóticos.
Nos sistemas classificatórios, o TPISM está posicionado dentro dos Transtornos Induzidos por Substâncias. O DSM-5-TR (e sua versão textual anterior, citada no Compêndio) estabelece critérios claros: (A) presença de delírios e/ou alucinações; (B) evidência de que os sintomas se desenvolveram durante ou logo após intoxicação/abstinência/exposição a um medicamento capaz de produzi-los; (C) a perturbação não é mais bem explicada por um transtorno psicótico primário (como esquizofrenia ou transtorno bipolar com características psicóticas); (D) a perturbação não ocorre exclusivamente no curso de um delirium. A CID-11 (6C4A.6) segue lógica similar, exigindo que os sintomas psicóticos sejam um efeito direto da substância e não façam parte de um transtorno psicótico primário.
Dados epidemiológicos precisos são desafiadores devido à subnotificação, variação no padrão de uso de substâncias e dificuldades diagnósticas. Estima-se que uma parcela significativa dos primeiros episódios psicóticos (entre 7% a 25%) tenha relação com o uso de substâncias. A prevalência é maior em populações com uso abusivo de drogas ilícitas, como cocaína e anfetaminas. Não há uma distribuição por sexo ou idade uniforme, refletindo mais os padrões de consumo de agentes específicos (e.g., psicose por esteroides anabolizantes é mais comum em homens jovens). No contexto brasileiro, a alta prevalência do uso de cocaína/crack e a automedicação desregrada com fármacos de venda livre (como anti-histamínicos e descongestionantes) configuram fatores de risco relevantes. A psicose por medicamentos prescritos é um evento adverso reconhecido, cuja incidência varia conforme a classe farmacológica e a susceptibilidade individual.
O curso clínico é variável. Classicamente, os sintomas psicóticos tendem a remitir com a eliminação da substância do organismo, dentro de dias a poucas semanas (geralmente até um mês). No entanto, em alguns casos, particularmente com estimulantes como metanfetamina, os sintomas podem persistir por meses após a cessação do uso, levantando a hipótese de um "gatilho" para um transtorno psicótico primário latente. Fatores de risco para o desenvolvimento de TPISM incluem: dose elevada da substância, uso crônico, via de administração que aumenta a biodisponibilidade (como intravenosa ou fumada), vulnerabilidade genética individual, história prévia de transtorno psicótico e presença de condições médicas que alterem o metabolismo da droga.
Etiopatogenia e neurobiologia
A fisiopatologia da psicose induzida por substâncias é fundamentalmente ligada à capacidade desses agentes de perturbar sistemas de neurotransmissão cerebrais críticos para a modulação da percepção, cognição e processamento da realidade.
O modelo dopaminérgico é central. Muitas substâncias psicotogênicas atuam direta ou indiretamente aumentando a atividade dopaminérgica na via mesolímbica. Estimulantes como anfetaminas e cocaína promovem a liberação e/ou bloqueiam a recaptação de dopamina, levando a uma hiperestimulação excessiva. Alucinógenos clássicos (LSD, psilocibina) têm ação primária no sistema serotoninérgico (5-HT2A), mas suas alucinações são tipicamente com insight preservado. No entanto, a ativação de receptores 5-HT2A em áreas corticais pode modular indiretamente a liberação de dopamina no estriado. A fenciclidina (PCP) e a cetamina atuam como antagonistas não competitivos dos receptores NMDA do glutamato. O bloqueio destes receptores, particularmente em interneurônios GABAérgicos, leva a uma desinibição da liberação de dopamina e a um desequilíbrio glutamatérgico, modelo também implicado na esquizofrenia.
Outros mecanismos incluem: a ação anticolinérgica de agentes como a escopolamina (presente em alguns medicamentos e plantas), que pode produzir delírios e alucinações visuais características; os efeitos pró-convulsivantes e neurotóxicos de alguns agentes; e a indução de estados metabólicos ou endócrinos que afetam a função cerebral (e.g., hipertireoidismo induzido por hormônios tireoidianos, ou efeitos dos corticosteroides).
Fatores individuais modulam o risco. Polimorfismos genéticos em enzimas metabolizadoras (como CYP450) podem levar a níveis sanguíneos inesperadamente altos de um fármaco. Variantes em genes relacionados aos sistemas dopaminérgico, serotoninérgico ou glutamatérgico podem conferir maior vulnerabilidade. Achados de neuroimagem em psicoses induzidas por estimulantes frequentemente mostram alterações em circuitos fronto-estriatais semelhantes às vistas na esquizofrenia, mas geralmente menos proeminentes ou mais reversíveis. O estresse psicológico e a privação de sono, comuns no contexto de uso de substâncias, são cofatores que podem precipitar a ruptura psicótica em um cérebro já farmacologicamente desregulado.
Quadro clínico
A apresentação clínica do TPISM é heterogênea e depende do agente causal, da dose, da via de administração e do contexto de uso. Os sintomas cardinais, conforme o DSM-5-TR, são delírios e alucinações.
Delírios: Podem ser persecutórios (sensação de estar sendo seguido, envenenado ou traído), de referência (crença de que mensagens na TV ou rádio são direcionadas a si), grandiosos (comum em psicose por esteroides ou estimulantes), ou somáticos. A estruturação do delírio pode ser menos complexa que na esquizofrenia primária.
Alucinações: São tipicamente auditivas (vozes comentando ou conversando), mas podem ser visuais, táteis (formigamentos, sensação de insetos sob a pele – "formication"), olfativas ou gustativas. Alucinações visuais vívidas são mais sugestivas de intoxicação por anticolinérgicos, alucinógenos ou abstinência de álcool/sedativos.
Outras manifestações: Frequentemente há alterações do humor, como agitação, ansiedade, irritabilidade ou labilidade afetiva. Sintomas comportamentais como agressividade, desinibição, retraimento social ou comportamento bizarro são comuns. Alterações cognitivas, como desorganização do pensamento, prejuízo da atenção e da memória de trabalho, podem estar presentes, mas geralmente são menos proeminentes e persistentes que na esquizofrenia. Sintomas somáticos são cruciais para a suspeita diagnóstica e estão diretamente ligados à substância: midríase, taquicardia, hipertensão e sudorese (estimulantes); sedação, ataxia e fala arrastada (depressores do SNC); retenção urinária, boca seca e visão turva (anticolinérgicos).
O insight está tipicamente comprometido para os sintomas psicóticos (o paciente acredita que as alucinações ou delírios são reais), o que diferencia o TPISM de uma simples alucinose com teste de realidade preservado.
Especificadores diagnósticos (DSM-5-TR):
- Com início durante a intoxicação: Sintomas surgem durante ou logo após a exposição à substância.
- Com início durante a abstinência: Sintomas surgem após a redução ou cessação de um uso pesado e prolongado.
- Com delírios: Quando os delírios são o sintoma predominante.
- Com alucinações: Quando as alucinações são o sintoma predominante.
A apresentação pode ser aguda (horas a dias) ou subaguda. O curso é geralmente flutuante, acompanhando a farmacocinética da substância.
Avaliação e diagnóstico
O diagnóstico é clínico e baseia-se em uma anamnese minuciosa, exame do estado mental e exclusão de outras condições.
Entrevista clínica e anamnese:
- História do uso de substâncias: Investigar TODAS as substâncias: medicamentos prescritos (incluindo corticosteroides, levodopa, anticolinérgicos, isotretinoína), fitoterápicos/suplementos (efedra, Datura stramonium), drogas ilícitas (cocaína, crack, anfetaminas, cannabis sintética, PCP), álcool e tabaco. Questionar dose, frequência, via de administração, tempo desde o último uso e história de abstinência.
- Cronologia: Estabelecer a relação temporal inequívoca entre o início/cessação do uso e o surgimento dos sintomas psicóticos.
- História psiquiátrica prévia: Investigar episódios psicóticos anteriores sem relação com substâncias, história familiar de esquizofrenia ou transtorno bipolar.
- História médica: Doenças clínicas que possam causar psicose (e.g., neurossífilis, HIV, distúrbios tireoidianos, tumores cerebrais).
Exame do Estado Mental:
Avaliar presença e conteúdo de delírios e alucinações. Testar a orientação, atenção, memória e funções executivas para afastar delirium. Avaliar o humor e o afeto. Observar o comportamento (agitação, retraimento, maneirismos). O insight sobre a doença e a relação com a substância deve ser cuidadosamente avaliado.
Exames complementares:
- Laboratoriais: São mandatórios para confirmação e diagnóstico diferencial.
- Toxicologia: Triagem toxicológica na urina e/ou sangue (cocaína, anfetaminas, canabinoides, opiáceos, benzodiazepínicos, PCP). Lembrar que a janela de detecção é limitada.
- Sangue: Hemograma, eletrólitos, função renal e hepática, TSH, vitamina B12, sorologias para HIV e sífilis.
- Em casos selecionados: dosagem de medicamentos específicos (e.g., digitálicos, teofilina), pesquisa de porfobilinogênio urinário.
- Neuroimagem: A neuroimagem estrutural (TC ou RM de crânio) não é rotineiramente necessária se a história for clara, mas está indicada no primeiro episódio psicótico para excluir causas orgânicas (tumores, AVC, hematomas subdurais), especialmente se houver sinais neurológicos focais, alteração do nível de consciência ou falta de resposta ao tratamento.
- Eletroencefalograma (EEG): Indicado se há suspeita de estado de mal não convulsivo ou epilepsia do lobo temporal.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Pontos de Diferenciação |
|---|---|
| Esquizofrenia | Sintomas prodrômicos, curso crônico com deterioração funcional, sintomas negativos proeminentes. Os sintomas psicóticos persistem por > 1 mês após a cessação da substância. |
| Transtorno Bipolar com características psicóticas | História de episódios maníacos ou depressivos anteriores sem relação com substâncias. O humor expansivo ou irritável é o quadro central. |
| Transtorno Psicótico Breve | Desencadeado por estressor significativo, duração entre 1 dia e 1 mês, sem relação causal com substância. |
| Delirium | Característica cardinal: Perturbação aguda da atenção e consciência (obnubilação do sensório). Curso flutuante. Frequentemente devido a condição médica ou intoxicação/abstinência. |
| Demência com sintomas psicóticos | Déficits cognitivos progressivos e estabelecidos (memória, linguagem, praxias) antecedem ou coexistem com os sintomas psicóticos. |
| Transtorno Psicótico devido a Condição Médica Geral | Sintomas psicóticos diretamente causados por uma doença neurológica (e.g., epilepsia do lobo temporal, tumor cerebral) ou sistêmica (e.g., lúpus eritematoso sistêmico). A investigação identifica a condição subjacente. |
| Intoxicação/Abstinência sem psicose | O paciente experimenta alterações perceptivas (ilusões, alucinações) mas mantém o teste de realidade intacto ("sei que é efeito da droga"). |
Armadilhas Diagnósticas:
- Substâncias de longa meia-vida: Cannabis e benzodiazepínicos podem permanecer no organismo por semanas, confundindo a cronologia.
- Uso oculto ou não relatado: Pacientes podem omitir o uso de drogas ilícitas ou de medicamentos por vergonha ou medo.
- Efeito paradoxal de medicamentos: Alguns fármacos usados para tratar sintomas psiquiátricos podem, paradoxalmente, induzir psicose (e.g., acatisia grave por antipsicóticos imitando agitação psicótica, embotamento por ISRS imitando depressão).
- Comorbidade: É comum a coexistência de um transtorno por uso de substâncias e um transtorno psicótico primário. A distinção requer observação longitudinal após a desintoxicação.
Tratamento farmacológico
O tratamento é bifásico: 1) Controle da crise psicótica aguda e 2) Desintoxicação e prevenção de recaídas.
Fase Aguda (Controle dos Sintomas Psicóticos e Agitação):
- Antipsicóticos: São a base do tratamento para reduzir delírios, alucinações e agitação. A escolha considera o perfil de efeitos adversos e a via de administração.
- Antipsicóticos de Segunda Geração (atípicos): Preferenciais devido a menor risco de efeitos extrapiramidais. Risperidona (1-6 mg/dia), Olanzapina (5-20 mg/dia) ou Quetiapina (100-800 mg/dia) são opções orais. Em ambiente hospitalar, formulações intramusculares de Olanzapina ou Ziprasidona podem ser usadas para agitação aguda.
- Antipsicóticos de Primeira Geração (típicos): Haloperidol (2-10 mg/dia, oral ou IM) é eficaz, mas requer monitoramento rigoroso de efeitos extrapiramidais (usar concomitantemente um anticolinérgico como biperideno se necessário). Deve ser usado com cautela em psicoses por substâncias com potencial convulsivante (como cocaína) ou que baixem o limiar convulsivo.
- Benzodiazepínicos: São coadjuvantes fundamentais, especialmente na fase inicial. Controlam a agitação, a ansiedade, a insônia e reduzem o risco de convulsões (importante na abstinência de álcool/sedativos e na intoxicação por estimulantes). Lorazepam (1-4 mg, oral/IM/IV) ou Diazepam (5-20 mg) são frequentemente utilizados. Podem ser usados isoladamente em casos leves ou em conjunto com antipsicóticos em doses mais baixas para um efeito sinérgico e de poupa de neurolépticos.
- Observação: O tratamento farmacológico agudo deve ser iniciado com doses baixas e tituladas conforme a resposta, pois alguns pacientes podem ser particularmente sensíveis.
Fase de Desintoxicação e Manutenção:
- O objetivo principal é a descontinuação segura do agente causador. Para medicamentos prescritos, deve-se avaliar a relação risco-benefício. Se essencial, pode-se tentar reduzir a dose, trocar por uma molécula da mesma classe com menor potencial psicotogênico ou associar um antipsicótico em baixa dose de forma temporária.
- Para transtornos por uso de substâncias, o encaminhamento para programas de desintoxicação e reabilitação é crucial. O tratamento do TPISM não trata a dependência química subjacente.
- Duração do tratamento antipsicótico: Não há consenso. Em geral, recomenda-se manter a medicação por um período limitado (semanas a poucos meses), com reavaliação frequente e tentativa de descontinuação gradual após a remissão dos sintomas e a cessação do uso da substância. Se os sintomas psicóticos persistirem por mais de um mês após a desintoxicação, deve-se reconsiderar o diagnóstico para um transtorno psicótico primário.
Situações Especiais:
- Gestação/Lactação: A avaliação risco-benefício é crítica. Benzodiazepínicos e alguns antipsicóticos (como a olanzapina) têm dados de relativa segurança, mas devem ser usados na menor dose eficaz. A psicose materna não tratada representa um risco maior para o feto/bebê.
- Idosos: Maior sensibilidade a efeitos adversos. Iniciar com doses muito baixas de antipsicóticos (ex.: risperidona 0,25-0,5 mg/dia) e de benzodiazepínicos (risco de paradoxal). Cautela redobrada com anticolinérgicos.
- Comorbidades Clínicas: Ajustar a escolha do antipsicótico: evitar olanzapina e quetiapina em obesos/diabéticos; evitar antipsicóticos típicos em pacientes com doença de Parkinson; monitorar intervalo QT com ziprasidona.
Contexto Brasileiro: O RENAME (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais) do SUS disponibiliza antipsicóticos como haloperidol, clorpromazina e risperidona, e benzodiazepínicos como diazepam e clonazepam. Os CAPS AD (Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas) são a porta de entrada preferencial no SUS para casos relacionados ao uso de substâncias, oferecendo atendimento multiprofissional. A ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) publica diretrizes que podem orientar a prática.
Tratamento não farmacológico
- Intervenções Psicossociais Imediatas: O ambiente é crucial. Deve ser calmo, estruturado e com baixa estimulação para ajudar na recuperação do senso de realidade. A contenção verbal e a presença de uma equipe tranquila são preferíveis à contenção física, que só deve ser usada em último caso para garantir a segurança do paciente ou da equipe.
- Psicoeducação: Assim que o paciente estiver lúcido, iniciar a educação sobre a relação direta entre a substância e os sintomas psicóticos vividos. Isso é fundamental para aumentar a percepção de risco e a adesão ao tratamento da dependência.
- Psicoterapias: Após a resolução da fase aguda, terapias como a Entrevista Motivacional são úteis para engajar o paciente no tratamento do transtorno por uso de substâncias. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) pode ajudar a lidar com crenças disfuncionais residuais, prevenir recaídas e desenvolver estratégias de enfrentamento.
- Reabilitação Psiquiátrica e Suporte Familiar: Inclui treinamento de habilidades sociais, suporte para reinserção ocupacional e intervenções familiares para educar sobre a doença, reduzir o estresse e melhorar a comunicação.
- Procedimentos: A Eletroconvulsoterapia (ECT) não é tratamento de primeira linha para TPISM, mas pode ser considerada em casos graves, refratários à farmacoterapia e com risco vital, especialmente se houver comorbidade com um transtorno do humor grave.
Manejo clínico prático
- Quando iniciar tratamento farmacológico: Imediatamente diante de sintomas psicóticos com prejuízo funcional, sofrimento ou risco (auto/heteroagressividade). A combinação inicial de um antipsicótico em baixa dose com um benzodiazepínico é uma estratégia eficaz e comum na agitação psicótica aguda.
- Quando trocar ou combinar: Se não houver resposta após 2-3 semanas com dose adequada de um antipsicótico, considerar troca para outra classe. A combinação de antipsicóticos deve ser evitada; preferir otimizar a dose de um único agente ou adicionar um benzodiazepínico para agitação/ansiedade.
- Monitoramento da resposta: Avaliar diariamente (em ambiente hospitalar) ou semanalmente (ambulatorial) a redução dos sintomas psicóticos positivos, a melhora do insight, a funcionalidade e o aparecimento de efeitos adversos.
- Critérios de remissão: Desaparecimento ou redução significativa dos delírios e alucinações, recuperação do insight, retorno ao funcionamento psicossocial pré-mórbido e capacidade de engajamento no tratamento da dependência química.
- Manejo da resistência terapêutica: Reavaliar o diagnóstico. É realmente um TPISM? Há uso contínuo e oculto da substância? Desenvolveu-se um transtorno psicótico primário? Há adesão ao tratamento? Considerar níveis séricos de medicação, interações medicamentosas e comorbidades clínicas.
- Contexto Brasileiro (SUS): O fluxo ideal envolve acolhimento (UPA, Pronto-Socorro), estabilização clínica e encaminhamento para CAPS AD ou CAPS III (24h) para continuidade do tratamento. A articulação com a Atenção Básica (ESF) é vital para acompanhamento longitudinal e prevenção de recaídas. As dificuldades de acesso a medicamentos de nova geração e a psicoterapias especializadas são barreiras reais.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
O paciente vivencia uma ruptura abrupta e aterrorizante com a realidade. As alucinações auditivas ou visuais são percebidas como reais, e os delírios persecutórios geram medo intenso e desconfiança, inclusive da equipe de saúde. A agitação é frequentemente uma reação a essas experiências internas ameaçadoras. Queixas comuns são "estão me vigiando", "ouço vozes me ameaçando", "sinto insetos correndo na minha pele" ou "tenho uma missão divina".
Psicoeducação: A comunicação deve ser clara, empática e não confrontadora. Explicar: 1) "O que você está passando tem um nome: é uma reação à substância X." 2) "Os sintomas são reais para você, mas são causados por uma alteração química no cérebro provocada pela droga/remédio." 3) "O tratamento vai ajudar a acalmar essa confusão mental e fazer os sintomas desaparecerem." 4) Envolver a família: explicar a natureza do quadro, que não é "loucura" permanente no sentido leigo, mas um estado induzido que requer abstinência da substância e tratamento.
Impacto funcional: Pode ser devastador, com perda de emprego, conflitos familiares, isolamento social e risco legal (por comportamentos impulsivos). A qualidade de vida é gravemente afetada durante a crise.
Adesão ao tratamento: Barreiras incluem a falta de insight (anosognosia), o desejo de continuar usando a substância (dependência), o estigma e os efeitos adversos da medicação. Estratégias: estabelecer uma aliança terapêutica sólida, usar formulações de depósito (se indicado para a dependência subjacente), gerenciar proativamente os efeitos colaterais e integrar o tratamento à rede de apoio psicossocial.
Perguntas frequentes
1. Qual a diferença entre "bad trip" e psicose induzida por substância?
Uma "bad trip" (experiência desagradável com alucinógenos) geralmente envolve alterações perceptivas e ansiedade, mas o indivíduo mantém a consciência de que os efeitos são causados pela droga (teste de realidade intacto). Na psicose induzida por substância, há perda desse discernimento: a pessoa acredita plenamente que as alucinações ou delírios são reais, configurando um transtorno psicótico.
2. Remédios para gripe ou alergia podem causar isso?
Sim. Anti-histamínicos de primeira geração (como a difenidramina) e descongestionantes simpaticomiméticos (como a pseudoefedrina) têm propriedades anticolinérgicas e estimulantes, respectivamente. Em doses altas ou em indivíduos susceptíveis, podem desencadear delírios, alucinações visuais e agitação.
3. A psicose por maconha é real?
Sim. O THC, principal composto psicoativo da cannabis, pode precipitar um episódio psicótico agudo, especialmente com variedades de alta potência ("skunk"), doses elevadas ou em adolescentes e jovens adultos com vulnerabilidade genética. Pode ser classificada como TPISM.
4. Uma vez tendo tido psicose por droga, vou desenvolver esquizofrenia?
Não é uma regra. A maioria se recupera completamente após a desintoxicação. No entanto, um episódio psicótico induzido por substância é um fator de risco para o desenvolvimento futuro de um transtorno psicótico primário, como a esquizofrenia, principalmente em indivíduos com predisposição genética. A abstinência contínua é a melhor estratégia preventiva.
5. Quanto tempo dura o tratamento com antipsicóticos nesses casos?
Diferente dos transtornos psicóticos primários, o tratamento costuma ser de curta a média duração (semanas a alguns meses). O objetivo é controlar a crise aguda e proteger o paciente enquanto a substância é eliminada. A medicação deve ser reavaliada periodicamente e descontinuada de forma gradual após a remissão sustentada dos sintomas.
6. Se foi causado por um remédio prescrito pelo médico, posso processá-lo?
A responsabilidade médica é apurada caso a caso. Muitos medicamentos têm potencial psicotogênico conhecido e descrito na bula. A responsabilidade do médico está em informar sobre possíveis efeitos adversos, monitorar o paciente e intervir se eles surgirem. O não cumprimento dessas etapas pode configurar negligência. No entanto, reações idiossincráticas imprevisíveis podem ocorrer mesmo com a prática adequada.
7. Meu familiar está com sintomas psicóticos após parar de beber. O que fazer?
A abstinência alcoólica grave pode evoluir para delirium tremens (com obnubilação da consciência) ou, menos comumente, para uma alucinose alcoólica (com consciência clara). Ambas são emergências médicas com risco de morte. Busque atendimento hospitalar imediatamente. O tratamento envolve benzodiazepínicos, reposição hidroeletrolítica e vitaminas.
8. No SUS, para onde devo levar uma pessoa nessa situação?
Procure um Pronto-Socorro Geral ou uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) para a estabilização clínica inicial. A partir daí, o serviço deve fazer o encaminhamento para um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), preferencialmente um CAPS AD (se a relação com álcool/drogas for clara) ou um CAPS III (que funciona 24h e atende crises de qualquer natureza). Os CAPS são a porta de entrada especializada em saúde mental no SUS.
Referências
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. Texto Revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. Genebra: OMS, 2022.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes para o tratamento do transtorno por uso de substâncias. [Disponível em site da ABP].
- Ministério da Saúde do Brasil (SUS). Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). Brasília, 2022.
- Kaplan & Sadock. Synopsis of Psychiatry. 11th Edition. Wolters Kluwer, 2015.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.