Transtorno de Personalidade e Uso de Maquiagem

Definição e conceito

O uso da maquiagem, enquanto elemento de autoexpressão e cuidado pessoal, pode se apresentar como um marcador semiológico relevante na avaliação psiquiátrica. Na psicopatologia, a observação da aparência — incluindo o estilo, a quantidade, a adequação e o investimento na maquiagem — integra a avaliação do hábito e da atitude do paciente, fornecendo indícios sobre seu estado afetivo, seu funcionamento cognitivo, seus traços de personalidade e a possível presença de sintomas psicóticos. O fenômeno transcende a mera estética, refletindo a relação do indivíduo consigo mesmo (autoimagem), com seu corpo e com o meio social.

Conceitualmente, distingue-se:

  • Aparência descuidada/negligência: Diminuição ou ausência de investimento em cuidados pessoais, incluindo não usar maquiagem quando isso era um hábito prévio. Associada a quadros depressivos, apáticos (esquizofrenia deficitária) ou demenciais.
  • Aparência bizarra: Qualitativamente destoante do usual no contexto sociocultural do indivíduo. Pode manifestar-se no uso de maquiagem de cores improváveis, aplicação assimétrica ou com significados idiossincráticos (ex.: pintura facial relacionada a um delírio). É um sinal de possível desorganização do pensamento ou atividade delirante.
  • Aparência exibicionista/sedutora: Exposição excessiva do corpo e uso de elementos (como maquiagem carregada, roupas decotadas) com clara intenção de chamar atenção e seduzir. Associada ao aumento da libido (mania) ou a traços de personalidade específicos (histriônica).
  • Autoexpressão patológica: Quando o uso da maquiagem deixa de ser uma escolha estética contextualizada e passa a ser um sintoma direto de um transtorno mental (ex.: cobrir o rosto com tinta branca devido a um delírio de ser um fantasma) ou um comportamento rigidamente vinculado a um traço de personalidade disfuncional (ex.: necessidade compulsiva de maquiagem perfeita para enfrentar qualquer interação social, no transtorno obsessivo-compulsivo da personalidade).

A terminologia técnica em português alinha-se aos manuais: negligência do hábito (ou descuido da aparência), aparência bizarra (bizarre appearance) e comportamento sedutor/gestualidade sedutora (seductive behavior). Não há dados epidemiológicos específicos sobre a prevalência do uso de maquiagem como marcador psicopatológico, pois trata-se de um sinal semiológico, não de um diagnóstico. Sua relevância é qualitativa e contextual, devendo ser interpretada dentro da totalidade do exame do estado mental.

Apresentação clínica

A manifestação clínica do uso da maquiagem como fenômeno psicopatológico varia conforme o transtorno de base. A análise deve considerar os domínios cognitivo, afetivo e comportamental.

1. Transtornos do Espectro da Esquizofrenia e Outros Transtornos Psicóticos:

  • Domínio Cognitivo: Presença de delírios (de grandeza, persecutórios, de referência) ou desorganização grave do pensamento. A maquiagem pode ser incorporada ao sistema delirante (ex.: usar sombra verde para "camuflar-se dos perseguidores" ou pintar o rosto como um "rei"). Na hebefrenia, a desorganização mental se reflete em uma aparência e maquiagem bizarras, despropositadas e pueris.
  • Domínio Afetivo: Apatia, embotamento afetivo ou incongruência afetiva. Na síndrome apático-abúlica, há ausência total de maquiagem e descuido geral, decorrente da perda de volição e interesse.
  • Domínio Comportamental: Comportamento desorganizado ou maneirismos. A aplicação da maquiagem pode ser estereotipada, assimétrica ou realizada de forma ritualística.
  • Exemplo Clínico: Paciente do sexo feminino, 32 anos, com diagnóstico de esquizofrenia paranóide, comparece à consulta com o rosto inteiramente pintado de dourado. Relata, de forma eufórica e desconexa, que é "a estátua viva de um deus solar" e que a tinta a protege das "ondas malignas". A maquiagem aqui é um acessório do delírio.

2. Transtornos do Humor:

  • Episódio Depressivo Maior:
    • Domínio Afetivo: Humor deprimido, anedonia.
    • Domínio Comportamental: Retardo ou agitação psicomotora. Negligência do hábito é comum. Mulheres que antes se maquiavam regularmente deixam de fazê-lo, relatando "não ter energia", "não ver sentido" ou "não se importar". Pode haver preferência por roupas escuras, combinando com a desistência de qualquer adorno.
  • Episódio Maníaco/Hipomaníaco:
    • Domínio Afetivo: Humor eufórico ou irritável, aumento da libido.
    • Domínio Comportamental: Agitação psicomotora, desinibição social e sexual. A aparência, conforme descrito por Cheniaux e Dalgalarrondo, é frequentemente chamativa e exibicionista: excesso de maquiagem (cores vibrantes, aplicação generosa), perfume em excesso, combinado com roupas coloridas, decotadas ou curtas. Em casos de agitação extrema, paradoxalmente, a aparência pode estar descuida devido à incapacidade de concluir qualquer tarefa sequencial, como a aplicação de maquiagem.
    • Exemplo Clínico: Paciente do sexo feminino, 28 anos, em início de tratamento para transtorno bipolar tipo I, chega à emergência agitada, usando cílios postiços volumosos, blush intenso, lábios vermelho-vivo e sombras com glitter. Veste uma camiseta brilhante e shorts curtos, inadequados para o ambiente. Sua fala é pressionada sobre seus "projetos de sucesso" e sua "beleza irresistível". A maquiagem reflete a elevação do humor, a grandiosidade e a desinibição.

3. Transtornos da Personalidade (Foco no Grupo B – Dramáticos):

  • Transtorno da Personalidade Histriônica:

    • Domínio Cognitivo: Pensamento impressionístico, excessivamente influenciado por modismos e pela opinião alheia. A autoimagem é centrada na capacidade de atrair atenção.
    • Domínio Afetivo: Emotividade exagerada e lábil, busca constante de novidade e excitação.
    • Domínio Comportamental: Comportamento sedutor e teatral constante, mesmo em contextos inadequados. O uso da maquiagem é um instrumento central nesta apresentação: sempre presente, frequentemente em excesso e com o claro objetivo de ser notado e admirado. Não é necessariamente bizarra, mas é acentuada e deliberadamente chamativa. A vestimenta complementa este padrão (roupas decotadas, justas, coloridas).
    • Exemplo Clínico: Paciente do sexo feminino, 35 anos, em psicoterapia, nunca comparece sem uma maquiagem completa e impecável, mesmo para sessões às 8h da manhã. Muda frequentemente o estilo (do "smokey eyes" ao "glamour anos 50") e busca validação constante do terapeuta sobre sua aparência. Relata gastar horas vendo tutoriais e uma grande parte de sua renda em cosméticos. A maquiagem é parte de uma identidade construída em torno da sedução e da necessidade de atenção.
  • Transtorno da Personalidade Borderline:

    • Domínio Cognitivo: Perturbação da identidade (autoimagem instável).
    • Domínio Afetivo: Instabilidade afetiva intensa, sentimentos crônicos de vazio.
    • Domínio Comportamental: Impulsividade e comportamentos autodestrutivos (automutilações). A maquiagem pode variar drasticamente conforme o estado de humor e a identidade momentânea: desde uma aparência andrógena ou desleixada em momentos de depressão ou despersonalização, até um estilo extravagante, pesado ou até mesmo bizarro em momentos de euforia ou como forma de expressar uma identidade fragmentada. Piercings e tinturas de cabelo chamativas são comuns. A maquiagem também pode ser usada para camuflar marcas de automutilação no rosto (ex.: cortes superficiais).
  • Transtorno da Personalidade Esquizoide (Contraponto):

    • Domínio Cognitivo: Preferência por fantasias e atividades solitárias.
    • Domínio Afetivo: Embotamento afetivo, frieza, indiferença a elogios ou críticas.
    • Domínio Comportamental: Distanciamento social, ausência de desejo por relacionamentos íntimos. A aparência é tipicamente negligente ou indiferente. A maquiagem é quase sempre ausente, não por depressão, mas por desinteresse completo na impressão social que causa ou em adornos voltados para a atratividade. A vestimenta é funcional, sem estilo pessoal marcante.

Neurobiologia e fisiopatologia

Não existem modelos neurobiológicos específicos para o "uso de maquiagem". O fenômeno deve ser compreendido como um comportamento final decorrente de disfunções em sistemas cerebrais mais amplos, relacionados à autoimagem, à regulação emocional, à motivação e ao controle inibitório.

  1. Sistema de Recompensa e Busca por Atenção (Histriônica/Mania): O comportamento sedutor e a busca por atenção, que se expressam no uso de maquiagem chamativa, podem estar ligados a uma disfunção no sistema de recompensa mesolímbico dopaminérgico. Em analogia com modelos de busca por novidade (novelty-seeking), indivíduos com traços histriônicos ou em mania podem apresentar uma sensibilidade aumentada a recompensas sociais (como admiração, olhares), levando a comportamentos exibicionistas. A maquiagem atua como um tool para maximizar essa recompensa. A desinibição observada na mania também envolve disfunção no córtex pré-frontal orbital e ventromedial, áreas críticas para o controle de impulsos e a adequação social.

  2. Apatia e Abulia (Esquizoide/Depressão/Deficit Esquizofrênico): A ausência de maquiagem e o descuido pessoal refletem um déficit na motivação e na iniciação de comportamentos dirigidos a objetivos. Isso está associado a uma hipofunção do sistema dopaminérgico mesocortical, particularmente nas projeções para o córtex pré-frontal dorsolateral. Na depressão, há também envolvimento de sistemas serotoninérgicos e noradrenérgicos. No transtorno esquizoide, a indiferença social sugere uma baixa ativação de circuitos relacionados à mente social (junção temporoparietal, córtex pré-frontal medial).

  3. Desorganização e Bizarrices (Esquizofrenia Hebefrênica/Psicótica): A maquiagem bizarra e despropositada reflete uma desorganização do pensamento e da atividade cognitiva. Modelos apontam para uma disfunção integrativa em redes neuronais amplas, envolvendo conectividade anômala entre regiões frontais, temporais e do córtex cingulado. A perda da coerência interna do pensamento se externaliza em uma perda da coerência na autoapresentação. Quando a maquiagem é parte de um delírio, sistemas de crenças e saliência (envolvendo a ínsula e o córtex pré-frontal) estão profundamente alterados, atribuindo significados idiossincráticos a elementos comuns.

  4. Instabilidade da Autoimagem (Borderline): A variação extrema no estilo de maquiagem no TPB pode estar ligada à instabilidade da autoimagem, que por sua vez está relacionada a alterações na integração de informações autobiográficas e emocionais. Estruturas como a amígdala (hiperreatividade emocional) e o córtex pré-frontal (déficit no controle de impulsos e na modulação emocional) apresentam funcionamento desregulado, contribuindo para as mudanças rápidas na autoexpressão.

Avaliação clínica e diagnóstico diferencial

Achados ao Exame do Estado Mental:

  • Aparência e Higiene Pessoal: Observar atentamente. "Paciente vestida com roupas esportivas sujas, cabelos oleosos, rosto sem qualquer vestígio de maquiagem ou hidratante, unhas sujas." vs. "Paciente entra no consultório com vestido vermelho justo, maquiagem carregada com olho esfumado e lábios brilhantes, perfume intenso que preenche a sala."
  • Comportamento e Atitude: Sedutora, teatral, desinibida (histriônica/mania) vs. retraída, indiferente, com pobre contato visual (esquizoide/depressão) vs. desorganizada ou com maneirismos (esquizofrenia).
  • Humor e Afeto: Eufórico, expansivo (mania) vs. deprimido, irritável (depressão) vs. lábil, reativo (borderline) vs. embotado, restrito (esquizoide/esquizofrenia).
  • Pensamento: Acelerado, fuga de ideias (mania) vs. lentificado, com conteúdo de desvalia (depressão) vs. desorganizado, tangencial (esquizofrenia) vs. com delírios de grandeza ou referência (psicose). Perguntar sobre a maquiagem pode revelar o pensamento: "Por que você escolheu essa cor de batom hoje?" Respostas podem variar de "Para combinar com a blusa" (normális) a "É a cor do sangue do dragão que me protege" (delirante).
  • Percepção: Normal ou com alterações (alucinações que podem influenciar a autoimagem).

Instrumentos e Escalas: Não há escalas específicas. A avaliação é clínica e qualitativa. Entrevistas semiestruturadas para transtornos da personalidade (SCID-5-PD, IPDE) e escalas para sintomas de humor (YMRS para mania, MADRS para depressão) e psicose (PANSS) ajudam a contextualizar o achado.

Diagnóstico Diferencial Estruturado:
A tabela abaixo sintetiza as principais características diferenciadoras.

Característica da Maquiagem/Aparência Transtornos Primários a Considerar Características Distintivas (Além da Aparência)
Excesso, chamativa, sedutora 1. TP Histriônica Padrão crônico e pervasivo de busca de atenção, teatralidade, emocionalidade exagerada. Comportamento sedutor é estilo de vida.
2. Episódio Maníaco Episódio agudo/recorrente. Presença de sintomas nucleares: humor eufórico/irritável, aumento de energia, redução da necessidade de sono, grandiosidade, fuga de ideias.
3. Uso de Substâncias (estimulantes) Intoxicação aguda. Associado a taquicardia, midríase, agitação. História de uso.
Bizarra, destoante, idiossincrática 1. Esquizofrenia (Hebefrênica, Paranóide) Sintomas psicóticos positivos (delírios, alucinações) e/ou desorganização grave do pensamento e do comportamento. A maquiagem pode ter significado delirante.
2. Transtorno Delirante Delírios sistematizados não-bizarros ou bizarros, sem outros sintomas proeminentes de esquizofrenia. A maquiagem pode ser um acessório do delírio.
Ausente, descuidada, negligente 1. Episódio Depressivo Maior Humor deprimido, anedonia, alterações de sono/apetite, fadiga, sentimentos de culpa/desvalia. O descuido é secundário à anedonia e à falta de energia.
2. Esquizofrenia (Síndrome Deficitária) Sintomas negativos proeminentes e persistentes: apatia, alogia, embotamento afetivo, abulia. O descuido é por perda de volição e interesse.
3. Transtorno da Personalidade Esquizoide Padrão vitalício de distanciamento social e restrição afetiva. O descuido reflete desinteresse genuíno em impressão social, não tristeza ou falta de energia.
Variável, extravagante, associada a marcas corporais 1. TP Borderline Instabilidade afetiva intensa, relacionamentos caóticos, impulsividade, automutilações, sentimentos crônicos de vazio. A maquiagem flutua com a identidade instável.
Ausente por perfeccionismo/rigidez 1. TP Obsessivo-Compulsiva Pode evitar maquiagem por medo de não aplicá-la "perfeitamente" ou por considerar frívola. Preocupação com regras, ordem, controle e produtividade.

Armadilhas Diagnósticas Comuns:

  1. Confundir Cultura com Psicopatologia: Estilos alternativos, drag, expressões artísticas ou contextos socioculturais específicos (ex.: maquiagem carregada em uma balada) envolvem escolhas conscientes e contextualizadas, não refletindo necessariamente um transtorno. A avaliação deve considerar o contexto, a funcionalidade e a presença de sofrimento ou prejuízo.
  2. Viés de Gênero: Como apontado na fonte (Psicopatologia – Uma Abordagem Integrada, p.490), traços como vaidade, sedução e preocupação com a aparência são socialmente associados ao "estereótipo de mulher". Diagnosticar uma mulher como histriônica apenas por usar maquiagem carregada e roupas chamativas é um erro grave. É necessário avaliar a pervasividade, a inflexibilidade e o prejuízo causado por esses traços em múltiplos contextos de vida.
  3. Supervalorizar um Único Sinal: A maquiagem é um sinal, não um sintoma patognomônico. Deve ser integrado a uma constelação de outros achados (humor, pensamento, comportamento) para formar um diagnóstico.
  4. Ignorar a Linha de Base: É crucial perguntar sobre os hábitos prévios do paciente. Uma mulher que sempre se maquiou de forma discreta e passa a usar maquiagem excessiva pode estar hipomaníaca. Outra que sempre se maquiou com esmero e passa a se descuidar pode estar deprimida.

Condições associadas

O fenômeno do uso da maquiagem como marcador psicopatológico está mais frequentemente e classicamente associado às seguintes condições:

  1. Transtorno da Personalidade Histriônica (CID-11: 6D11.5; DSM-5-TR: 301.50): A associação é direta e constitutiva. O "excesso de maquiagem" e "roupas chamativas" são citados explicitamente nos manuais de semiologia como característicos.
  2. Transtorno Bipolar – Episódio Maníaco (CID-11: 6A60; DSM-5-TR: 296.4x): A aparência chamativa e exibicionista, incluindo excesso de maquiagem, é um sinal comum durante a fase de exaltação do humor e desinibição.
  3. Esquizofrenia (CID-11: 6A20; DSM-5-TR: 295.90): Associada a duas apresentações opostas: a) Aparência bizarra (hebefrenia, paranóia com delírios), onde a maquiagem pode ser parte da desorganização ou do conteúdo psicótico; b) Aparência descuidada/negligente (síndrome deficitária crônica), com ausência total de investimento em cuidados estéticos.
  4. Episódio Depressivo Maior (CID-11: 6A70; DSM-5-TR: 296.2x): A negligência do hábito, incluindo a desistência da maquiagem, é um sinal frequente de abulia e anedonia.
  5. Transtorno da Personalidade Esquizoide (CID-11: 6D11.0; DSM-5-TR: 301.20): A ausência de maquiagem e o descuido são expressões do desinteresse geral por relacionamentos e pela impressão social.
  6. Transtorno da Personalidade Borderline (CID-11: 6D11.8; DSM-5-TR: 301.83): A autoexpressão através da maquiagem pode ser marcadamente instável, extravagante ou utilizada para camuflar marcas de automutilação, refletindo a perturbação da identidade.

Correlação importante, citada nas fontes, é a comorbidade entre Transtorno da Personalidade Histriônica e Antissocial, sugerindo possíveis substratos etiológicos compartilhados no Grupo B.

Implicações terapêuticas

A abordagem do uso da maquiagem como fenômeno psicopatológico não é direta; o foco está no tratamento do transtorno de base.

Abordagens Farmacológicas:

  • Para Episódios Agudos (Mania/Depressão/Psicose): O tratamento farmacológico adequado (estabilizadores de humor, antipsicóticos, antidepressivos) que leve à remissão dos sintomas nucleares frequentemente normaliza os comportamentos associados à maquiagem. Um paciente maníaco tratado com lítio ou valproato tenderá a reduzir a maquiagem exagerada; um paciente deprimido que responde a um ISRS pode retomar o interesse por cuidados pessoais.
  • Para Transtornos da Personalidade: A farmacoterapia é sintomática e coadjuvante. Em pacientes histriônicos ou borderline com labilidade afetiva marcante, estabilizadores de humor ou antipsicóticos atípicos em baixa dose podem ajudar na regulação emocional, possivelmente modulando a impulsividade na autoexpressão. Não há medicação para "traços histriônicos".

Abordagens Psicoterapêuticas:

  • Terapia Focada em Esquemas ou Dialético-Comportamental (DBT) para TPB: Essas abordagens são fundamentais para trabalhar a instabilidade da autoimagem. Através de técnicas de autovalidação, regulação emocional e construção de uma identidade mais coesa, a paciente pode aprender a expressar-se de forma menos impulsiva e caótica, o que pode se refletir em uma relação mais estável com a maquiagem e a aparência.
  • Psicoterapia Psicodinâmica e Cognitivo-Comportamental para TP Histriônica: O objetivo é ajudar o paciente a entender a função do comportamento sedutor e da busca por atenção. Trabalha-se a baixa autoestima subjacente, a dificuldade em tolerar não ser o centro das atenções e a desenvolver formas mais adaptativas de obter validação e relacionar-se intimamente. A redução da necessidade de maquiagem exagerada surge como um resultado natural deste processo, não como uma meta direta.
  • Terapias de Reabilitação Psicossocial (Esquizofrenia): Para pacientes com síndrome deficitária, programas de treinamento em habilidades de vida diária, incluindo cuidados pessoais e higiene, são essenciais. A retomada de uma aparência cuidada (que pode ou não incluir maquiagem) é um objetivo terapêutico válido, ligado à recuperação da autoestima e do funcionamento social.

Impacto Prognóstico: A persistência de uma aparência bizarra ou profundamente descuidada em transtornos psicóticos crônicos está associada a pior funcionamento social e maior carga de sintomas negativos. Na histriônica, a rigidez do comportamento sedutor pode ser um fator de manutenção de relacionamentos superficiais e conflituosos. A capacidade de modular a autoexpressão de acordo com o contexto é um sinal de boa adaptação e resposta ao tratamento.

Perspectiva do paciente e comunicação clínica

Vivência do Paciente:

  • No TP Histriônica: A maquiagem é vivenciada como uma ferramenta essencial de sobrevivência social, uma "armadura" ou um "superpoder" para conquistar atenção, admiração e controle sobre os outros. Pacientes podem relatar sentir-se "nuas", "invisíveis" ou "sem valor" se saírem de casa sem maquiagem. A ideia de reduzir o uso é ameaçadora, pois toca no núcleo de sua estratégia de funcionamento no mundo.
  • Na Depressão/Abulia: A ausência de maquiagem é sentida como mais uma evidência de sua falência. "Nem para isso eu tenho força". Pode gerar sentimentos de culpa e afastamento social ("não quero que me vejam assim"). Não é uma escolha, mas uma consequência da inércia.
  • Na Esquizofrenia (com delírio): A maquiagem bizarra pode ser vivenciada com convicção plena e seriedade. Para o paciente, não é "bizarra", é necessária e lógica dentro de seu sistema de crenças (ex.: proteção, identificação). Questionar pode ser percebido como uma ameaça ou incompreensão.
  • No TP Esquizoide: A ausência de maquiagem é simplesmente irrelevante. O paciente não pensa sobre isso. Perguntas sobre sua aparência podem ser recebidas com perplexidade ou respostas curtas ("Não gosto", "Pra quê?").

Comunicação Clínica e Orientações:

  1. Evite Julgamentos Estéticos: Nunca inicie com comentários como "Sua maquiagem está muito carregada" ou "Você deveria se cuidar mais". Isso gera defensividade ou vergonha.
  2. Use a Curiosidade Neutra: Aborde o tema como um dado clínico. "Notei que você sempre vem com uma maquiagem muito elaborada. Isso é algo importante para você? Como se sente quando não está maquiada?" ou "Percebi que você parou de usar maquiagem, algo que antes fazia. Consegue me dizer o que mudou?"
  3. Para Familiares (em casos de descuido grave): Orientar a focar no cuidado, não na estética. Em vez de "Está feia assim", sugerir "Vamos tomar um banho juntas?", "Que tal hidratarmos a pele?". São passos concretos e menos ameaçadores para reconstruir o hábito.
  4. Contextualize no Tratamento: No TP histriônica, pode-se trabalhar na terapia: "Vamos explorar o que acontece com você quando experimenta passar um dia sem chamar tanta atenção através da sua aparência? Que outros sentimentos ou habilidades podem surgir?"
  5. Respeito à Autonomia: Em casos de bizarrice não perigosa e em pacientes estáveis, o clínico deve pesar o benefício de confrontar uma expressão idiossincrática versus o risco de desestabilizar a relação terapêutica. A prioridade é sempre o engajamento no tratamento.

Impacto Funcional: Pode ser significativo. O excesso pode prejudicar em ambientes profissionais conservadores. A ausência pode levar ao isolamento social. A bizarrice pode causar estigmatização e dificultar a reinserção social. A instabilidade no estilo pode ser um sinal externo da disfunção interna, afetando a constância em empregos e relacionamentos.

Perguntas frequentes

1. Todo mundo que usa muita maquiagem tem transtorno histriônico?
Absolutamente não. O uso de maquiagem é uma expressão cultural, artística e pessoal. O diagnóstico de TP Histriônica requer um padrão pervasivo e inflexível de busca de atenção, emocionalidade exagerada e comportamento sedutor que cause sofrimento ou prejuízo significativo em várias áreas da vida (relacionamentos, trabalho). A maquiagem é apenas um possível indicador entre muitos outros.

2. A ausência de maquiagem é sempre sinal de depressão?
Não. Pode ser uma escolha pessoal, um estilo de vida (naturalidade), uma condição financeira, ou um traço de personalidade (esquizoide). Na depressão, a ausência vem acompanhada de outros sintomas nucleares: humor deprimido, perda de interesse, alterações no sono e apetite, fadiga, sentimentos de culpa. É a mudança em relação ao padrão anterior (uma pessoa que se maquiava e parou subitamente) que tem maior valor semiológico.

3. Como diferenciar um estilo excêntrico/artístico de uma bizarrice patológica?
A diferença crucial está na coerência interna, no contexto e na funcionalidade. Um artista de performance com maquiagem extravagante em um palco está sendo coerente e funcional. Uma pessoa com esquizofrenia desorganizada que pinta listras verdes no rosto para ir a um compromisso burocrático, sem conseguir explicar o motivo de forma lógica ou atribuindo a um delírio, está apresentando uma bizarrice patológica. O prejuízo no funcionamento social e ocupacional é um demarcador fundamental.

4. Homens também podem apresentar esses marcadores?
Sim, embora a apresentação possa ser diferente. O equivalente masculino do "excesso de maquiagem" no TP Histriônico pode ser um investimento exagerado e sedutor na musculatura (vigorexia), uso excessivo de acessórios caros e chamativos, ou um comportamento gestual e discursivo profundamente teatral e sedutor. A negligência na aparência nos transtornos esquizoides ou depressivos se manifesta da mesma forma.

5. Devo obrigar meu familiar com esquizofrenia a se arrumar e se maquiar?
A imposição geralmente é contraproducente e gera conflitos. A abordagem deve ser gradual, incentivadora e focada na reabilitação. Programas em CAPS que incluem oficinas de cuidado pessoal, em um ambiente acolhedor e não ameaçador, são mais eficazes. O objetivo é reconstruir o hábito e a autoestima, não impor um padrão estético.

6. A maquiagem pode ser usada como uma "máscara" para esconder problemas psicológicos?
Totalmente. Este é um conceito comum, especialmente em transtornos como a depressão (a "depressão sorridente") ou o TPB. Pacientes podem relatar usar maquiagem para "esconder o cansaço", "parecer normal" ou "proteger os outros" de sua dor interna. Na avaliação, é importante olhar além da aparência cuidadosa e investigar o estado afetivo e cognitivo subjacente.

7. O tratamento com medicamentos vai fazer a pessoa perder seu estilo pessoal?
O objetivo do tratamento não é uniformizar ou apagar a personalidade. Em transtornos como a mania ou a psicose, o tratamento visa reduzir sintomas que causam sofrimento e prejuízo (agitação, delírios, desorganização). Com a estabilização, a expressão pessoal (incluindo o uso de maquiagem) tende a se tornar mais consciente, contextualizada e menos impulsiva ou ditada por sintomas. A pessoa mantém seu estilo, mas com maior controle e adaptabilidade.

8. Quando a preocupação excessiva com a maquiagem (ex.: perfeccionismo, horas aplicando) vira um problema?
Quando este comportamento se torna rígido, compulsivo e causador de prejuízo. Exemplos: chegar constantemente atrasada ao trabalho porque "a maquiagem não ficou perfeita"; gastar uma parcela exorbitante da renda em cosméticos, negligenciando outras necessidades; evitar sair de casa ou ter crises de ansiedade se não puder fazer a maquiagem completa. Nesses casos, pode estar associado a um Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) ou a traços rígidos de personalidade, necessitando de avaliação especializada.

Referências

  • Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
  • Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
  • American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-11). 2022.
  • Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
  • Barlow, D.H.; Durand, V.M. Psicopatologia: Uma Abordagem Integrada. Tradução da 7ª ed. americana. São Paulo: Cengage Learning, 2021.

Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.

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