Pseudocrises Epilépticas

Definição e conceito

Pseudocrises epilépticas, também conhecidas como crises dissociativas, crises conversivas ou, em nomenclaturas mais antigas, "crises histéricas", são episódios paroxísticos que mimetizam crises epilépticas, mas que ocorrem na ausência de descargas neuronais síncronas e anormais características da epilepsia. O termo "pseudocrise" (ou PNES – Psychogenic Non-Epileptic Seizures, em inglês) é preferível por ser descritivo e menos estigmatizante, embora ainda carregue o peso histórico de uma longa tradição nosográfica. Trata-se de um fenômeno clínico que se situa na interface entre a neurologia e a psiquiatria, sendo fundamentalmente um transtorno dissociativo da consciência, conforme apontado por Dalgalarrondo (2018), e não um transtorno conversivo, como erroneamente classificado pelo DSM-5 sob a rubrica "transtorno de sintomas neurológicos funcionais".

O mecanismo central é a dissociação, um processo psicobiológico no qual há uma desregulação integrativa normal da consciência, memória, identidade, emoção, percepção, controle motor e comportamento. O indivíduo experimenta uma ruptura ou descontinuidade na integração subjetiva de suas funções psíquicas. Na pseudocrise, há uma dissociação paroxística que se manifesta predominantemente no domínio motor e do nível de consciência, produzindo um espetáculo clínico que pode ser indistinguível, para o leigo e para o clínico desatento, de uma crise epiléptica verdadeira.

Epidemiologicamente, estima-se que 5 a 20% dos pacientes encaminhados a centros de epilepsia de difícil controle apresentem, na verdade, pseudocrises. A prevalência é maior em mulheres, numa proporção de aproximadamente 3:1. É frequente a comorbidade com outros transtornos psiquiátricos, especialmente transtornos de sintomas somáticos e dissociativos, transtornos de personalidade (com destaque para o tipo borderline e histriônico), transtornos de estresse pós-traumático e transtornos depressivos e ansiosos. É comum encontrar antecedentes pessoais de outros sintomas conversivos ou dissociativos e a ocorrência dos episódios em contexto de conflitos psicológicos significativos.

Apresentação clínica

A apresentação clínica das pseudocrises é heterogênea e pode simular diversos tipos de crises epilépticas, desde as crises tônico-clônicas generalizadas ("grande mal") até as crises parciais complexas com automatismos. No entanto, uma observação cuidadosa e sistemática revela padrões característicos que divergem da semiologia epiléptica clássica.

Domínio Comportamental/Motor:

  • Padrão de Movimentos: Os movimentos tendem a ser mais bizarros, desorganizados e asincrônicos. Enquanto uma crise tônico-clônica apresenta uma sequência estereotipada de fase tônica (rigidez sustentada) seguida de fase clônica (abalos rítmicos e simétricos), a pseudocrise frequentemente carece dessa organização. Pode apresentar movimentos de "vai-e-vem" da cabeça, bater de pernas de forma alternada e não rítmica, opistótono (arqueamento do tronco), ou movimentos pélvicos de empuxo. A fase tônica que precede a clônica é rara.
  • Resposta a Estímulos: É comum observar uma reatividade parcial ao ambiente durante o episódio. O paciente pode resistir à abertura passiva das pálpebras (sinal fortemente sugestivo), ou os movimentos podem se intensificar ou modificar-se na presença de observadores.
  • Olhos: O paciente quase sempre mantém os olhos fechados durante toda a crise. Tentativas de abri-los encontram resistência ativa. Em contraste, nas crises epilépticas, os olhos costumam estar abertos, com o olhar fixo ou revirado.
  • Vocalização: Gemidos, gritos ou verbalizações com conteúdo emocional (palavras soltas, frases) são frequentes e prolongados. Na epilepsia, o grito ocorre no início, devido à contração tônica dos músculos respiratórios, sendo breve e não articulado.
  • Autolesão: A verdadeira lesão corporal (mordedura lateral profunda da língua, fraturas, luxações) é extremamente rara nas pseudocrises. Pode haver escoriações superficiais ou pequenas mordeduras na ponta da língua ou lábios. A liberação de esfíncteres (perda de urina) também é um evento incomum.

Domínio da Consciência e Cognitivo:

  • Nível de Consciência: Há uma turvação mais ou menos profunda da consciência, mas raramente há uma perda completa e abrupta como no coma ictal da crise generalizada. O paciente pode parecer não responsivo, mas demonstra percepção preservada do entorno de forma flutuante.
  • Período Pós-Ictal: Este é um dos achados mais discriminativos. Após uma pseudocrise, o paciente geralmente recupera-se de forma rápida e completa, sem os fenômenos clássicos do estado pós-ictal epiléptico: confusão mental, obnubilação, desorientação temporo-espacial, cefaleia intensa, hipotonia muscular (fraqueza) ou sonolência profunda. É frequente que o paciente se levante rapidamente, parecendo relativamente lúcido, ou então apresente um comportamento emocional (choro, ansiedade) diretamente relacionado ao conteúdo psicológico do episódio.
  • Memória: A amnésia, quando presente, é do tipo dissociativa e reversível. Diferente da amnésia lacunar orgânica da crise do grande mal, que abrange o período imediatamente pré-ictal (devido à interferência no processo de consolidação da memória), o período ictal e o pós-ictal confusional, na pseudocrise a amnésia pode ser seletiva e flutuar.

Domínio Afetivo e Contextual:

  • Desencadeantes: Os episódios são tipicamente precipitados por estressores psicológicos identificáveis, sejam agudos (discussão, notícia ruim) ou crônicos (conflitos familiares, laborais). A relação temporal entre o estressor e a crise é muitas vezes evidente.
  • Modo de Ocorrência: As crises tendem a ocorrer na presença de uma audiência e raramente durante o sono verdadeiro (embora possam ser relatadas ao despertar). A instalação pode ser mais gradual e a duração tende a ser mais longa que a de uma crise epiléptica, podendo se estender por vários minutos ou mesmo horas.

Exemplo Clínico Conciso:
Paciente do sexo feminino, 32 anos, encaminhada por "epilepsia refratária". Durante a consulta, relata que as crises ocorrem quase exclusivamente após discussões com o marido. Descreve episódios em que cai no chão, arqueia o tronco, move os braços e pernas de forma descoordenada e "bate a cabeça no chão" sem causar traumatismo significativo. Grita palavras como "pare!". A crise dura cerca de 10 minutos. Após, senta-se no sofá e chora copiosamente, relatando lembrança fragmentada do evento. O marido relata que, durante a crise, ela mantém os olhos fortemente cerrados e resiste quando ele tenta abri-los. Nunca houve perda urinária ou mordedura grave da língua. O EEG de 24 horas foi normal, inclusive durante um episódio típico.

Neurobiologia e fisiopatologia

A fisiopatologia das pseudocrises não está totalmente elucidada, mas é compreendida dentro do modelo biopsicossocial, com ênfase nos mecanismos dissociativos. Não há uma lesão estrutural ou uma descarga elétrica paroxística primária no cérebro, como na epilepsia. Em vez disso, acredita-se que haja uma desregulação nos circuitos cerebrais envolvidos no processamento emocional, na integração senso-perceptiva e no controle motor voluntário e automático.

Modelos Explicativos:

  1. Modelo Dissociativo: É o modelo central. A dissociação é entendida como uma falha na integração de informações entre diferentes sistemas cerebrais. Em situações de estresse psicológico avassalador (especialmente traumático precoce), o indivíduo pode "desconectar" a experiência consciente de aspectos da memória, identidade ou controle motor. A pseudocrise seria uma expressão motora e comportamental dessa desconexão, um estado dissociativo paroxístico. Funcionaria como um mecanismo de defesa primitivo para lidar com afetos ou memórias intoleráveis.
  2. Modelo da Desregulação Emocional: Envolve circuitos límbicos, particularmente a amígdala e o córtex pré-frontal. Uma hiperativação da amígdala em resposta a estressores emocionais, associada a uma hipofunção do córtex pré-frontal medial (responsável pela regulação emocional e inibição de respostas), poderia levar a uma "descarga" através de vias motoras, sem o controle cortical superior. É uma espécie de "curto-circuito" psicomotor.
  3. Modelo de Aprendizagem e Condicionamento: Em alguns casos, especialmente onde há exposição a modelos de doença (p.ex., um familiar com epilepsia) ou onde comportamentos de doença foram inadvertidamente reforçados (p.ex., com atenção, fuga de responsabilidades), pode ocorrer um aprendizado inconsciente. O comportamento da crise torna-se uma forma de comunicação não-verbal de sofrimento ou uma estratégia de coping mal-adaptativa.

Evidências de Neuroimagem e Neurofisiologia:

  • Eletroencefalograma (EEG): É a ferramenta diagnóstica crucial. Durante uma pseudocrise, o EEG de superfície permanece normal, mostrando o ritmo de fundo habitual do paciente, sem qualquer padrão ictal (pontas, ondas agudas, descargas rítmicas) ou interictal epiléptico. Um EEG vídeo monitorado prolongado, que capture um evento típico, é considerado o padrão-ouro para o diagnóstico diferencial.
  • Neuroimagem Funcional (fMRI, SPECT): Estudos com SPECT ictal mostram padrões de perfusão cerebral distintos entre epilepsia e pseudocrises. Enquanto na epilepsia há hiperfluxo focal na região do foco epiléptico, nas pseudocrises têm sido observados padrões de ativação mais difusos, envolvendo áreas límbicas e paralisação de áreas associadas ao controle motor voluntário e integração senso-motora. Estudos de fMRI sugerem uma conectividade alterada entre redes cerebrais de saliência, controle executivo e padrão default.
  • Neuroimagem Estrutural (RM): Geralmente normal. Não há achados estruturais específicos associados às pseudocrises, a não ser os relacionados a comorbidades.

Avaliação clínica e diagnóstico diferencial

O diagnóstico é clínico e baseado na integração da história, observação do episódio e exclusão de etiologia epiléptica ou outra orgânica. Deve ser feito de forma colaborativa entre psiquiatra e neurologista.

Achados ao Exame do Estado Mental:
Na entrevista, é fundamental investigar:

  • Descrição detalhada da crise: Peça ao paciente e a testemunhas que descrevam o episódio minuciosamente (movimentos, olhos, sons, duração, recuperação).
  • Contexto psicossocial: História de traumas (especialmente na infância), estressores atuais, conflitos interpessoais, ganhos primários e secundários.
  • História psiquiátrica: Sintomas dissociativos (despersonalização, desrealização), conversivos, ansiosos, depressivos e traços de personalidade.
  • Atitude frente à doença: Pacientes com epilepsia verdadeira frequentemente expressam frustração e medo em relação às crises. Pacientes com pseudocrises podem apresentar uma atitude mais ambivalente, de "la belle indifférence" (indiferença aparente) ou, ao contrário, uma dramatização excessiva. No entanto, a la belle indifférence não é um sinal confiável ou patognomônico.

Instrumentos e Escalas:

  • EEG Vídeo Monitorado Prolongado: Padrão-ouro para diagnóstico diferencial. A captura de um evento típico com EEG normal é diagnóstica.
  • Escala de Sugestibilidade (Teste de Indução): Procedimento controverso que deve ser realizado apenas por especialistas experientes em ambiente controlado. Envolve a indução de um episódio sugestivo através de técnicas como estimulação salina ou estimulação luminosa, com monitoramento por EEG. A reprodução da crise sem alterações no EEG é altamente sugestiva. Requer consentimento informado cuidadoso e abordagem terapêutica imediata.
  • Entrevistas Estruturadas: A entrevista clínica semi-estruturada focada em sintomas dissociativos e conversivos é a ferramenta principal. Escalas como a Dissociative Experiences Scale (DES) podem ser úteis para rastrear dissociação.

Diagnóstico Diferencial Estruturado (Baseado em Dalgalarrondo, 2018):

Característica Clínica Pseudocrise (Crise Dissociativa) Crise Epiléptica Tônico-Clônica Generalizada
Distribuição por Sexo Mais comum em mulheres. Equilibrada entre os sexos.
Antecedentes Personalidade histriônica/borderline, conflitos psicológicos, outros sintomas conversivos/dissociativos. Pode ou não haver comorbidade psiquiátrica; estigma social da epilepsia.
Desencadeante Estressor psicológico identificável. Pode ser espontânea ou por fatores como privação de sono, estresse físico.
Instalação Pode ser mais gradual. Geralmente abrupta.
Movimentos Bizarros, desorganizados, asincrônicos. Fase tônica rara. Sequência estereotipada: fase tônica seguida de fase clônica rítmica e simétrica.
Olhos Fechados, com resistência à abertura passiva. Abertos, revirados ou com olhar fixo.
Vocalização Gemidos, palavras, frases prolongadas. Grito breve no início (tônico).
Consciência Turvação flutuante, reatividade parcial ao ambiente. Perda completa (coma).
Autolesão/Liberação Raríssima (pequenas escoriações). Comum (mordedura lateral da língua, fraturas, perda urinária).
Duração Mais longa (minutos a horas). Mais curta (segundos a poucos minutos).
Período Pós-Ictal Recuperação rápida, sem confusão ou sonolência; pode chorar. Confusão mental, obnubilação, cefaleia, hipotonia, sonolência (minutos a horas).
EEG Ictal Normal (ritmo de fundo preservado). Anormal (padrão ictal específico: descarga rítmica generalizada).
EEG Interictal Normal. Pode mostrar atividade epileptiforme (pontas, ondas agudas).

Outros Diagnósticos Diferenciais Importantes:

  • Crises Parciais Complexas (do Lobo Temporal): Podem ter apresentação bizarra com automatismos (mastigação, esfregar as mãos), alterações emocionais (medo, déjà vu) e alteração da consciência. O EEG ictal é crucial para diferenciar.
  • Síncope (Desmaio): Perda de consciência breve com perda do tônus postural, geralmente precedida por pródromos (visão turva, sudorese, náusea). Recuperação é rápida. Pode haver breves movimentos clônicos mioclônicos ("convulsões anóxicas") que não caracterizam epilepsia.
  • Síncopes Reflexas (Miccional, por Tosse, por Dor): Mediada por estímulo vagal, ocorre em contexto específico (ao urinar, durante acesso de tosse). Recuperação rápida.
  • Movimentos Paroxísticos Não-Epilépticos de Outra Origem: Tiques, distonias paroxísticas, mioclonias, ataques de pânico com sintomas dissociativos proeminentes (desrealização, despersonalização).
  • Simulação: Produção intencional de sintomas para ganho externo identificável (e.g., evadir serviço militar, obter compensação). Difere da pseudocrise por ser consciente e voluntária.

Armadilhas Diagnósticas Comuns:

  1. Diagnosticar por Exclusão: O diagnóstico de pseudocrise não deve ser um "diagnóstico de exclusão". Deve-se buscar evidências positivas da natureza dissociativa do fenômeno (história, observação, EEG vídeo).
  2. Confiar Excessivamente no EEG Interictal Normal: Um EEG interictal normal não exclui epilepsia. Apenas um EEG ictal normal durante um evento típico é conclusivo.
  3. Interpretar Erroneamente a Sugestibilidade: A indução de uma crise não prova que todas as crises do paciente sejam pseudocrises. Pacientes com epilepsia verdadeira também podem ser sugestionáveis.
  4. Subestimar Comorbidades: É frequente a coexistência de epilepsia e pseudocrises no mesmo paciente ("crises mistas"). O tratamento inadequado de uma condição pode agravar a outra.
  5. Comunicação Inadequada do Diagnóstico: Dizer ao paciente "não é nada", "é coisa da sua cabeça" ou "é fingimento" é iatrogênico. O diagnóstico deve ser comunicado como uma condição médica real, de origem psicofisiológica, que causa sofrimento genuíno e é passível de tratamento.

Condições associadas

As pseudocrises raramente ocorrem como um fenômeno isolado. Estão profundamente imbricadas em um espectro de transtornos psiquiátricos:

  • Transtornos Dissociativos (CID-11: 6B60): A pseudocrise é conceptualmente um Transtorno Dissociativo de Sintomas Neurológicos (uma categoria na CID-11). É a manifestação mais dramática de um processo dissociativo que pode incluir amnésia dissociativa, fuga dissociativa, estupor dissociativo e transtorno de despersonalização/desrealização.
  • Transtornos de Sintomas Somáticos e Relacionados (DSM-5-TR): O DSM-5 agrupa as pseudocrises no Transtorno de Sintomas Neurológicos Funcionais (anteriormente Transtorno de Conversão). Esta classificação é criticada por muitos especialistas por não capturar adequadamente o mecanismo dissociativo central.
  • Transtornos de Personalidade: Os transtornos de personalidade Borderline e Histriônica são altamente comórbidos. A desregulação emocional, a impulsividade, o medo do abandono e os padrões de relacionamento instáveis do borderline criam um terreno fértil para crises dissociativas como forma de expressão de angústia ou manipulação do ambiente.
  • Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT): A dissociação é um sintoma central do TEPT. Pseudocrises podem ser uma expressão de flashbacks dissociativos ou uma reação a gatilhos traumáticos.
  • Transtornos Depressivos e de Ansiedade: O sofrimento psíquico intenso e crônico pode se somatizar ou dissociar. Ataques de pânico graves podem evoluir para estados dissociativos com manifestações motoras.
  • História de Trauma ou Negligência: Uma história de abuso físico, sexual ou emocional na infância é um fator de risco robusto para o desenvolvimento de transtornos dissociativos na vida adulta, incluindo pseudocrises.

Implicações terapêuticas

O tratamento é desafiador e requer uma abordagem integrada, multidisciplinar e centrada no paciente. O primeiro e mais crucial passo terapêutico é a comunicação adequada do diagnóstico.

Abordagem Psicoterapêutica (Tratamento de Primeira Escolha):

  1. Psicoterapia Focada no Trauma/Dissociação: Terapias como a Terapia Cognitivo-Comportamental Focada no Trauma (TF-CBT) e a Terapia de Processamento Cognitivo (CPT) são eficazes, especialmente quando há história de trauma.
  2. Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) Específica para PNES: Protocolos estruturados que visam: (a) psicoeducação sobre dissociação; (b) identificação de gatilhos emocionais e situacionais; (c) treinamento em técnicas de regulação emocional (mindfulness, relaxamento); (d) reestruturação cognitiva de crenças sobre a doença e o self; (e) prevenção de resposta (aprender a interromper a cadeia que leva à crise); (f) enfrentamento gradual de situações evitadas.
  3. Terapia Familiar/Sistêmica: Fundamental para reestruturar dinâmicas familiares que possam estar mantendo o comportamento de doença (p.ex., superproteção, atenção contingente às crises). Educa a família a responder de forma adaptativa, sem reforçar as crises.
  4. Terapias de Terceira Onda: A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e a Terapia Comportamental Dialética (DBT) são particularmente úteis para pacientes com comorbidade de transtorno de personalidade borderline, focando na aceitação do sofrimento, regulação emocional e efetividade interpessoal.

Abordagem Farmacológica:

  • Não há medicação específica para pseudocrises. A farmacoterapia é adjuvante e direcionada às condições comórbidas.
  • Antidepressivos (ISRS/SNRI): São a base para tratar depressão e ansiedade comórbidas, que são frequentes. Podem, indiretamente, reduzir a frequência das crises ao melhorar a regulação emocional.
  • Estabilizadores de Humor/Anticonvulsivantes: Em pacientes com traços marcantes de desregulação emocional, impulsividade ou labilidade afetiva (como no borderline), medicamentos como lamotrigina, valproato ou topiramato podem ser considerados por suas propriedades estabilizadoras de humor. É crucial lembrar que eles não estão tratando uma epilepsia subjacente.
  • Antipsicóticos Atípicos em Baixa Dose: Podem ser úteis para ansiedade grave, insônia ou sintomas dissociativos muito intrusivos.
  • Desafio Principal: A retirada gradual e cuidadosa de antiepilépticos desnecessários. Pacientes diagnosticados tardiamente costumam estar polimedicados com altas doses de antiepilépticos, que são ineficazes e causam efeitos colaterais significativos. A desprescrição deve ser lenta, monitorada e explicada ao paciente.

Prognóstico:
O prognóstico é variável. Fatores de bom prognóstico incluem: diagnóstico precoce, aceitação do diagnóstico pelo paciente, ausência de transtorno de personalidade grave, motivação para engajamento psicoterapêutico e bom suporte social. Fatores de mau prognóstico incluem: diagnóstico tardio (anos de "epilepsia refratária"), múltiplas comorbidades psiquiátricas, transtorno de personalidade grave, litígios trabalhistas/previdenciários em andamento e família desestruturada ou não colaborativa. Com tratamento adequado, uma parcela significativa dos pacientes pode alcançar remissão completa ou redução substancial na frequência das crises.

Perspectiva do paciente e comunicação clínica

Vivência do Paciente: Para o paciente, a experiência é aterradora e genuína. Ele não está "fingindo". A perda de controle, a imprevisibilidade e o estigma de uma suposta "epilepsia" causam profundo sofrimento. Frequentemente, há uma longa e frustrante jornada por múltiplos especialistas, exames normais e tratamentos ineficazes, levando a sentimentos de descrença, raiva e desesperança. O paciente pode se sentir invalidado quando profissionais sugerem uma causa "psicológica", interpretando isso como uma acusação de fraude.

Comunicação Clínica (Como Dar a Notícia): Esta é uma intervenção terapêutica em si.

  1. Contextualize Positivamente: "Seus exames, especialmente o EEG feito durante a crise, trouxeram uma informação muito importante e positiva: seu cérebro não apresenta a atividade elétrica anormal da epilepsia. Isso significa que o risco de dano cerebral é extremamente baixo."
  2. Nomeie a Condição: "O que você tem são chamadas de pseudocrises ou crises dissociativas. É uma condição médica real, reconhecida, onde o sistema de ‘alarme’ do cérebro, ligado ao estresse e às emoções, dispara de forma intensa, causando esses sintomas físicos. É como um curto-circuito no sistema de gerenciamento do estresse, não no sistema elétrico básico do cérebro."
  3. Valide o Sofrimento: "Sei que os sintomas são reais, assustadores e debilitantes. O fato de terem uma origem no funcionamento psicofisiológico não os torna menos sérios. Muito pelo contrário, mostra que precisamos tratar a causa raiz."
  4. Apresente o Modelo de Tratamento: "O tratamento eficaz não é com remédios para epilepsia, mas com terapias que ajudam a regular melhor as emoções e o estresse, e a entender os gatilhos desses episódios. É um trabalho que faremos juntos."
  5. Envolva a Família: Eduque a família com a mesma linguagem. Ensine-os a responder durante uma crise com calma, garantindo segurança física sem alimentar o drama, e a redirecionar a atenção para estratégias de regulação emocional após a crise.

Impacto Funcional: O impacto é comparável ao da epilepsia refratária. Pode haver: perda do emprego, dificuldades financeiras, dependência de benefícios sociais, isolamento social (medo de ter uma crise em público), restrição da mobilidade (medo de dirigir), conflitos conjugais e familiares, e baixa qualidade de vida. A intervenção terapêutica visa restaurar a funcionalidade e a autonomia.

Perguntas frequentes

1. Se não é epilepsia, é fingimento?
Absolutamente não. O paciente não tem controle voluntário sobre o início da crise. É um processo dissociativo inconsciente, uma forma de o cérebro expressar um sofrimento emocional que não consegue processar de outra maneira. A intenção não é enganar.

2. O que causa uma pseudocrise?
Não há uma causa única. É a interação de fatores: uma vulnerabilidade biológica ao estresse, frequentemente associada a experiências traumáticas ou estresse crônico, e a presença de gatilhos emocionais ou situacionais no presente. O cérebro "desliga" (dissocia) a integração normal entre emoção, consciência e controle motor.

3. O EEG é sempre normal em quem tem pseudocrises?
Durante a crise (período ictal), o EEG deve ser normal para confirmar o diagnóstico. Fora das crises (interictal), o EEG também é normal. Se houver alterações epilépticas no EEG, o diagnóstico deve ser revisado, pois pode ser epilepsia verdadeira ou crises mistas.

4. Posso morrer durante uma pseudocrise?
O risco de morte direta por uma pseudocrise é praticamente nulo, pois não há a atividade elétrica cerebral caótica da epilepsia que pode levar a arritmias cardíacas ou parada respiratória prolongada. O risco está em acidentes durante a crise (queda, queimadura) se o ambiente não for seguro.

5. O tratamento é com remédios?
O tratamento principal não é farmacológico, mas psicoterapêutico. Remédios podem ser usados como coadjuvantes para tratar condições associadas, como depressão ou ansiedade grave, mas não são a base do tratamento das pseudocrises em si.

6. Meu filho adolescente foi diagnosticado. Como a família deve agir durante uma crise?
Mantenha a calma. Garanta a segurança (afaste móveis, coloque algo macio sob a cabeça). Não tente conter os movimentos. Não dê atenção excessiva, nem fale alto tentando "acordá-lo". Após a crise, em vez de perguntar "o que foi isso?", ofereça suporte emocional de forma neutra: "Foi intenso, você está se sentindo melhor agora? Vamos fazer uma respiração lenta juntos?". Evite reforçar o comportamento de crise com cuidados extras.

7. Uma pessoa pode ter epilepsia e pseudocrises ao mesmo tempo?
Sim. Esta é uma condição desafiadora chamada "crises mistas". É mais comum em pessoas com epilepsia de longa data, que desenvolvem padrões dissociativos em resposta ao estresse da doença crônica. O diagnóstico diferencial requer captura de diferentes tipos de crise no EEG vídeo.

8. O diagnóstico de pseudocrise pode ser um erro, e eu realmente ter epilepsia?
O diagnóstico baseado no EEG vídeo monitorado, que captura uma crise típica sem alterações elétricas, é considerado altamente confiável. No entanto, a medicina não é infalível. Se novas crises com características radicalmente diferentes surgirem, ou se houver forte discordância clínica, uma reavaliação com um especialista em epilepsia de difícil controle é recomendada.

Referências

  • Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
  • Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
  • Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
  • American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR). Washington, DC: APA, 2022.
  • Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – 11ª Edição (CID-11). Genebra: OMS, 2022.
  • LaFrance Jr., W.C., & Baker, G.A. Psychogenic Nonepileptic Seizures: A Guide. Oxford: Oxford University Press, 2021.
  • Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Projetos Diretrizes. Disponível em: [https://www.abp.org.br/] (Para protocolos nacionais de referência).

Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.

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