Pseudociese como Transtorno Psicossomático

Definição e epidemiologia

A pseudociese, também conhecida como falsa gravidez ou gravidez fantasma, é um transtorno psicossomático raro caracterizado pela crença delirante de estar grávida, acompanhada por sinais e sintomas físicos objetivos de gestação, na ausência de um feto. Trata-se de um delírio somático verdadeiro, onde a convicção da paciente é fixa, inabalável e não suscetível a testes de realidade, apesar de evidências médicas contrárias. A condição demonstra a capacidade da psique em influenciar profundamente a fisiologia corporal, provavelmente através de vias neuroendócrinas centrais no hipotálamo.

Nos sistemas de classificação atuais, a pseudociese não constitui um diagnóstico isolado. No DSM-5-TR, ela pode ser classificada dentro de categorias como Transtorno Delirante, Tipo Somático (quando a crença na gravidez é a única manifestação psicótica e persiste por mais de um mês) ou Transtorno de Sintomas Somáticos com Predominância de Sintomas Somáticos Graves (quando o sofrimento e o prejuízo estão mais focados nos sintomas físicos em si). A distinção crucial, conforme o Compêndio, reside no grau de comprometimento da realidade: no transtorno delirante, a convicção é absoluta, enquanto em outras condições hipocondríacas pode haver algum grau de dúvida. Na CID-11, encontra-se sob a categoria de Transtornos de Sintomas Somáticos (6C20), podendo ser especificada como "com grau elevado de preocupação com os sintomas somáticos".

Dados epidemiológicos robustos são escassos devido à raridade do quadro. A prevalência é estimada como baixa, com maior incidência em mulheres em idade fértil, tipicamente entre os 20 e 40 anos. Casos em homens são extremamente raros e podem estar associados a contextos psicóticos mais amplos. Não há dados epidemiológicos específicos para o Brasil, mas a condição é reconhecida na prática clínica nacional. Fatores de risco incluem histórico de infertilidade, perdas gestacionais recorrentes (aborto espontâneo), histerectomia ou ligadura tubária recente, desejo intenso ou medo patológico de engravidar, e conflitos profundos relacionados à identidade de gênero, sexualidade ou papel materno. O curso clínico é variável: em muitos casos, a apresentação de um teste de gravidez negativo ou um ultrassom pélvico normal leva à resolução abrupta dos sintomas físicos, embora a disfunção psicológica subjacente persista. Em outros, o delírio pode ser mais resistente, integrando-se a um quadro psicótico mais complexo.

Etiopatogenia e neurobiologia

A etiologia da pseudociese é multifatorial, envolvendo uma intrincada interação entre fatores psicológicos, neuroendócrinos e socioculturais.

Modelos Psicológicos: O Compêndio de Kaplan & Sadock aponta processos psicológicos predisponentes centrais: 1) Desejo patológico e medo da gravidez, uma ambivalência extrema onde o anseio e o terror coexistem; 2) Ambivalência ou conflito quanto a gênero, sexualidade ou ideia de ter filhos, frequentemente relacionado a pressões familiares, sociais ou religiosas; 3) Reação de luto patológica a uma perda reprodutiva real, como aborto espontâneo, ligadura tubária ou histerectomia. A pseudociese pode funcionar como um mecanismo de defesa psicossomático, onde um conflito intrapsíquico inconsciente e intolerável é convertido e expresso através do corpo, "realizando" simbolicamente o desejo ou reparando a perda.

Neurobiologia e Neuroendocrinologia: A manifestação de sintomas físicos objetivos (amenorreia, náusea, aumento mamário, distensão abdominal, sensações de movimento fetal) sugere uma disfunção no eixo hipotálamo-hipófise-gonadal. Acredita-se que estímulos psicológicos centrais (crença delirante, forte desejo ou medo) possam modular a secreção de hormônios como a prolactina (explicando galactorreia e alterações mamárias) e o cortisol, e interferir no ciclo de liberação de gonadotrofinas (LH/FSH), levando à anovulação e amenorreia. O sistema dopaminérgico, envolvido na regulação da prolactina e na formação de delírios, pode estar implicado. Embora não haja achados de neuroimagem específicos para pseudociese, estudos em transtornos de sintomas somáticos e conversão sugerem alterações na conectividade entre o córtex pré-frontal (envolvido no controle executivo e teste de realidade), a ínsula (processamento interoceptivo) e o sistema límbico (processamento emocional).

Fatores Socioculturais: A pressão social para a maternidade, o estigma da infertilidade e crenças culturais específicas sobre o corpo feminino podem atuar como fatores precipitantes ou perpetuantes. Um fenômeno cultural relacionado é a couvade (ou "recolhimento"), onde o parceiro da gestante desenvolve sintomas semelhantes aos da gravidez e do parto. Diferente da pseudociese, a couvade em certas sociedades é um ritual culturalmente sancionado e não um transtorno psicopatológico.

Quadro clínico

O quadro clínico da pseudociese é uma simulação notavelmente fiel de uma gestação, abrangendo domínios somáticos, cognitivos e comportamentais.

Sintomas Somáticos (Cardinais):

  • Amenorreia: Ausência de ciclos menstruais.
  • Distensão Abdominal: Progressiva, devido a alterações na distribuição de gordura, gases, constipação ou contração dos músculos abdominais e da lordose lombar. Pode simular um abdome gravídico.
  • Alterações Mamárias: Aumento de volume, sensibilidade, pigmentação da aréola e, ocasionalmente, galactorreia (secreção láctea).
  • Sintomas Gastrointestinais: Náuseas, vômitos matinais, alterações no apetite.
  • Sensações Subjetivas: Percepção de "movimentos fetais", geralmente atribuídos a gases ou contrações intestinais.
  • Dores de Parto (Trabalho de Parto Falso): Ocorrem próximo à "data prevista do parto", com contrações uterinas ou abdominais dolorosas.

Sintomas Cognitivos e Perceptivos:

  • Delírio Somático: Crença inabalável, não psicótica (em casos de transtorno delirante) ou psicótica, de estar grávida. É o sintoma nuclear.
  • Interpretações Erróneas: Atribuição de significados gestacionais a sensações corporais normais (ex.: borborigmo = chute do bebê).
  • Ausência de Alucinações: Geralmente não há alucinações auditivas ou visuais confirmando a gravidez, o que ajuda a diferenciar de outras psicoses.

Sintomas Comportamentais e Emocionais:

  • Comportamentos de Gravidez: Preparação do enxoval, escolha de nomes, consultas pré-natais frequentes.
  • Labilidade Emocional: Alegria, ansiedade, irritabilidade compatíveis com o estado gestacional percebido.
  • Apego ao "Feto": Desenvolvimento de um vínculo emocional com a "criança".

Especificadores e Curso: O quadro pode ser agudo (resolvido rapidamente com evidência médica) ou crônico (delírio persistente). A apresentação pode ser isolada (transtorno delirante tipo somático) ou integrar um quadro psicótico mais amplo (esquizofrenia, transtorno bipolar com características psicóticas). Após a "descoberta" da não-gravidez, é comum uma reação de luto agudo, desespero ou raiva, exigindo suporte imediato.

Avaliação e diagnóstico

A avaliação deve ser cuidadosa, empática e abrangente, visando confirmar a ausência de gravidez, estabelecer o diagnóstico de pseudociese e investigar suas causas psicológicas.

1. Entrevista Clínica e Anamnese:

  • História dos Sintomas: Cronologia detalhada do início e progressão dos "sintomas de gravidez". Perguntar sobre a data da última menstruação, percepção de movimentos fetais.
  • História Psiquiátrica Pessoal e Familiar: Buscar transtornos do humor, psicóticos, de ansiedade ou somáticos.
  • História Ginecológica e Obstétrica: Infertilidade, abortos espontâneos ou provocados, gestações anteriores, histerectomia, ligadura tubária. Desejo de engravidar.
  • História Psicossocial: Conflitos conjugais, pressão familiar por filhos, crenças religiosas/culturais sobre maternidade, eventos estressores recentes.
  • Uso de Substâncias e Medicamentos: Especialmente aqueles que podem causar amenorreia ou sintomas psicóticos.

2. Exame do Estado Mental:

  • Aparência e Comportamento: Pode apresentar-se com roupas maternidade, postura de grávida.
  • Humor e Afeto: Lábil, ansioso, eufórico ou posteriormente deprimido.
  • Pensamento: Presença de um delírio somático fixo sobre a gravidez. O pensamento é geralmente não-bizarro e circunscrito a este tema. Avaliar insight (geralmente ausente).
  • Percepção: Ausência de alucinações é o esperado.
  • Cognição: Orientada. A memória e a atenção podem estar focadas no tema da gravidez.

3. Exames Complementares:

  • Confirmatórios de Não-Gravidez: Beta-HCG sérico ou urinário (exame definitivo). Ultrassonografia pélvica/transvaginal (evidência visual da ausência de feto e possivelmente de alterações ovarianas/ciclo anovulatório).
  • Exames para Excluir Causas Orgânicas: Hemograma, perfil hormonal (TSH, prolactina, FSH, LH, estradiol), perfil metabólico. A investigação de condições como hipotireoidismo, hiperprolactinemia ou tumores pélvicos é mandatória antes de atribuir a causa à psicogênese.
  • Neuroimagem e EEG: Não são rotineiros, mas indicados se houver suspeita de transtorno psicótico devido a condição médica geral (ex.: tumor cerebral).

4. Instrumentos de Avaliação (Contexto Brasileiro):
* Entrevista Clínica Estruturada para DSM-5 (SCID-5).
* Escala de Avaliação de Sintomas Positivos e Negativos (PANSS) – se houver suspeita de psicose.
* Escala de Hamilton para Depressão (HAM-D) ou Inventário de Depressão de Beck (BDI) – para rastrear comorbidades.

5. Diagnóstico Diferencial (Estruturado):

Condição Características Distintivas Como Diferenciar da Pseudociese
Gravidez Real Presença de feto viável. Beta-HCG positivo, ultrassom confirmatório.
Transtorno Delirante Tipo Somático Delírio não-bizarro fixo (ex.: gravidez, infestação) por >1 mês, sem outros sintomas psicóticos proeminentes. A pseudociese pode ser a manifestação deste transtorno. A avaliação do curso e de outros sintomas define.
Esquizofrenia/ Transtorno Esquizoafetivo Delírios bizarros, alucinações, desorganização, sintomas negativos. Delírio de gravidez na esquizofrenia tende a ser mais bizarro (ex.: "engravidei de um alienígena") e acompanhado de outros sintomas psicóticos.
Transtorno de Sintomas Somáticos Preocupação excessiva com sintomas, alto nível de ansiedade sobre a saúde. O paciente pode temer ou acreditar estar grávida, mas há mais dúvida e busca por reasseguração do que uma convicção delirante fixa.
Transtorno Factício Produção intencional de sintomas para assumir o papel de doente. Na pseudociese, a paciente realmente acredita e sente os sintomas; não há intenção consciente de enganar.
Condição Médica Geral Tumores ovarianos/produtores de HCG, molas hidatiformes, distúrbios endócrinos. Causam sintomas físicos reais. Investigação clínica e laboratorial minuciosa é essencial.
Transtorno Psicótico Pós-Parto Ocorre após um parto real. Sintomas psicóticos floridos (delírios, alucinações) com risco de suicídio/infanticídio. A pseudociese ocorre sem um parto real prévio. O risco agudo é menor, a não ser em quadros psicóticos superpostos.

Armadilhas Diagnósticas: 1) Diagnosticar por exclusão prematuramente: Causas orgânicas (ex.: tumor pélvico pequeno) devem ser rigorosamente descartadas. 2) Subestimar o sofrimento: A descoberta da falsa gravidez é um evento traumático. 3) Ignorar comorbidades: Depressão maior e transtornos de ansiedade são frequentes.

Tratamento farmacológico

Não existe um protocolo farmacológico específico para a pseudociese. O tratamento medicamentoso é sintomático e adjuvante, direcionado a condições psiquiátricas comórbidas identificadas e sempre após (ou em conjunto com) a abordagem psicoterapêutica e a apresentação das evidências médicas.

1. Abordagem Inicial e Fundamentação: A primeira intervenção "terapêutica" é a confrontação sensível da realidade. A apresentação do resultado negativo do Beta-HCG e do ultrassom, feita por um profissional empático e em um setting de suporte, frequentemente leva à resolução dos sintomas somáticos. A partir daí, avalia-se a necessidade de farmacoterapia.

2. Algoritmo Baseado em Comorbidades:

  • Pseudociese no contexto de Transtorno Delirante (Tipo Somático):

    • 1ª linha: Antipsicóticos de segunda geração (atípicos). Risperidona (1-4 mg/dia) ou Olanzapina (5-15 mg/dia) têm evidência para delírios somáticos. Iniciar com dose baixa.
    • Mecanismo: Bloqueio de receptores dopaminérgicos D2 (reduzindo a convicção delirante) e serotoninérgicos 5-HT2A (melhorando humor e ansiedade).
    • Monitoramento: Ganho de peso, perfil metabólico (glicemia, lipídios), sintomas extrapiramidais (mais comuns com risperidona).
  • Pseudociese no contexto de Transtorno Depressivo Maior ou Transtorno de Ansiedade:

    • 1ª linha: Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS). Sertralina (50-200 mg/dia) ou Escitalopram (10-20 mg/dia) são boas opções por seu perfil de tolerabilidade.
    • Mecanismo: Aumento da disponibilidade sináptica de serotonina, melhorando humor, ansiedade e componentes obsessivos do pensamento sobre gravidez.
  • Pseudociese no contexto de Transtorno Bipolar (fase depressiva ou mista):

    • Estabilizadores de humor são a base. Lítio (dose ajustada por níveis séricos: 0.6-1.2 mEq/L) ou Valproato (500-1500 mg/dia, níveis: 50-100 µg/mL).
    • Cuidado: O Compêndio alerta que a psicose pós-parto está intimamente ligada ao transtorno bipolar. Se houver histórico pessoal ou familiar, essa possibilidade deve ser considerada no manejo a longo prazo.
  • Pseudociese no contexto de Psicose Aguda (esquizofreniforme, esquizofrenia):

    • Seguir protocolos padrão para primeira crise psicótica, com antipsicóticos atípicos.

3. Situações Especiais:

  • Gestação/Lactação: Este tópico é paradoxal na pseudociese, mas se a paciente com pseudociese estiver realmente grávida (coincidência rara) ou lactando, o princípio é evitar farmacoterapia não essencial. Se indispensável, usar a medicação mais segura na menor dose eficaz (ex.: sertralina na lactação). Nenhum agente deve ser prescrito sem avaliação rigorosa do risco-benefício.
  • Idosos: Considerar interações medicamentosas, clearance renal reduzido e maior sensibilidade a efeitos adversos. Iniciar com metade da dose usual.
  • Contexto Brasileiro (RENAME/SUS): A maioria dos medicamentos citados (risperidona, olanzapina, sertralina, lítio) está disponível no Componente Especializado da Assistência Farmacêutica e pode ser prescrita em CAPS II ou III, com acompanhamento psiquiátrico. A ABP e o CFM não possuem diretrizes específicas para pseudociese, mas as diretrizes para transtornos delirantes, somáticos e do humor se aplicam.

Tratamento não farmacológico

A psicoterapia é o pilar fundamental do tratamento da pseudociese, indicada durante ou após a resolução do episódio agudo para tratar a disfunção psicológica subjacente.

1. Psicoterapias com Evidência:

  • Psicoterapia Psicodinâmica/Psicanalítica: A mais indicada pela natureza simbólica e conversiva do transtorno. Objetiva explorar os conflitos inconscientes identificados no Compêndio: desejo/medo da gravidez, conflitos de gênero/sexualidade, luto não elaborado. Ajuda o paciente a reconhecer a ligação entre emoções e sintomas físicos, encontrar formas simbólicas alternativas de expressão e elaborar perdas.
  • Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Útil para desafiar crenças disfuncionais sobre maternidade, infertilidade e identidade. Trabalha a reestruturação cognitiva do delírio (após a fase aguda) e o manejo da ansiedade e depressão comórbidas. Técnicas de exposição e prevenção de resposta podem ser usadas para comportamentos de busca por reasseguramento.
  • Terapia Familiar Sistêmica: Fundamental quando há pressão familiar explícita por netos/herdeiros, ou conflitos conjugais graves. Ajuda a realinhar expectativas, melhorar a comunicação e criar um ambiente de suporte, reduzindo fatores estressores perpetuantes.

2. Intervenções Psicossociais e Reabilitação:

  • Psicoeducação: Para paciente e família, sobre a natureza psicossomática do transtorno, desmistificando a ideia de "fingimento" ou "loucura".
  • Grupos de Apoio: Para mulheres com infertilidade ou que sofreram perdas gestacionais, podem oferecer suporte emocional e reduzir o isolamento.
  • Intervenções em Caso de Luto: Se a pseudociese for uma reação a aborto ou histerectomia, encaminhamento para terapia de luto é crucial.

3. Procedimentos:

  • Eletroconvulsoterapia (ECT): Não é indicada para pseudociese isolada. Pode ser considerada em casos extremamente raros onde a pseudociese é parte de uma depressão maior grave com características psicóticas ou catatonia que não responde a medicamentos.
  • Estimulação Magnética Transcraniana (TMS): Sem evidência para esta indicação específica.

Manejo clínico prático

  1. Primeiro Contato/Acute Care: Realizar testes para excluir gravidez (Beta-HCG, US) com sensibilidade. Comunicar os resultados de forma clara, mas empática, em ambiente privativo e com tempo. Oferecer suporte emocional imediato para a desilusão.
  2. Encaminhamento: Encaminhar para avaliação psiquiátrica e psicológica especializada. No Brasil, o CAPS é a porta de entrada preferencial no SUS para tal acompanhamento.
  3. Início do Tratamento: A psicoterapia deve ser iniciada o mais breve possível. A farmacoterapia só é iniciada se houver diagnóstico claro de comorbidade (ex.: depressão moderada a grave, transtorno delirante).
  4. Monitoramento: Acompanhar a resolução dos sintomas somáticos, o estado de humor, o insight e o funcionamento psicossocial. Consultas iniciais podem ser semanais ou quinzenais.
  5. Critérios de Remissão: Desaparecimento dos sinais e sintomas somáticos, abandono da crença delirante na gravidez, melhora do humor e retorno ao funcionamento social/ocupacional pré-mórbido.
  6. Manejo de Resistência: Se o delírio persistir após evidência médica e psicoterapia, reavaliar o diagnóstico (transtorno delirante ou psicótico primário) e considerar introdução/otimização de antipsicótico.
  7. Contexto Brasileiro (SUS):
    • Acesso: O diagnóstico pode ser feito na Atenção Básica, mas o manejo deve ser no CAPS II (para casos moderados) ou CAPS III (para casos com maior gravidade ou comorbidade psicótica).
    • Medicamentos: Disponíveis via Componente Especializado.
    • Desafios: Longas filas para psicoterapia no SUS. Parcerias com universidades (clínicas-escola de psicologia) podem ser um caminho complementar.

Perspectiva do paciente e comunicação clínica

Vivência do Paciente: A paciente vivencia uma gravidez real em todos os aspectos. Ela sente os sintomas, acredita piamente na existência do bebê, planeja o futuro e desenvolve um vínculo afetivo. A descoberta de que é uma falsa gravidez é um trauma profundo, frequentemente vivenciado como a morte de um filho. Sentimentos de vergonha, culpa ("enlouqueci"), raiva e vazio são comuns. O medo do julgamento social ("fingiu uma gravidez") é um sofrimento adicional.

Psicoeducação (O que explicar):

  • Ao Paciente: "A senhora passou por uma condição real chamada pseudociese, onde a mente, sob um estresse emocional muito grande, consegue produzir mudanças reais no corpo, simulando uma gravidez. Isso não é fingimento, nem ‘loucura’ no sentido pejorativo. É um sinal de que algo emocionalmente muito importante e talvez doloroso precisa ser cuidado. Os exames mostram que não há um bebê, mas a sua experiência de gravidez foi genuína para o seu corpo e sua mente. Precisamos entender juntos o que isso significa para você."
  • À Família: "Ela não está mentindo. É uma condição médica reconhecida, de origem psicológica. Ela precisa de nosso apoio, não de cobranças ou críticas. O foco agora é ajudá-la a superar essa desilusão muito dolorosa e a entender as emoções que levaram a isso."

Impacto Funcional: Pode ser grave: abandono de emprego, isolamento social, conflitos familiares, endividamento com a compra de artigos infantis. A qualidade de vida fica severamente comprometida.

Adesão ao Tratamento:

  • Barreiras: Estigma, falta de insight inicial, desespero que leva a buscar "segundas opiniões" médicas incessantemente, custo de psicoterapia particular.
  • Estratégias: Aliança terapêutica forte e empática. Envolver a família no processo de psicoeducação. No SUS, vincular a paciente a uma equipe multiprofissional no CAPS (psiquiatra, psicólogo, assistente social).

Perguntas frequentes

1. A pseudociese é a mesma coisa que uma "gravidez psicológica"?
Sim, são termos sinônimos. "Pseudociese" (falsa gravidez) é o termo médico técnico preferível.

2. A paciente está fingindo conscientemente?
Não. Na pseudociese, a paciente tem uma crença delirante genuína e experimenta sintomas físicos reais. É diferente do transtorno factício ou da simulação, onde há intenção consciente de enganar.

3. Um simples exame de farmácia não resolveria o problema?
Frequentemente resolve os sintomas físicos e a crença imediata, mas não trata a causa psicológica subjacente. Muitas pacientes, em seu estado de convicção, podem duvidar do exame caseiro ou atribuí-lo a um erro. A confirmação por um profissional de saúde é crucial.

4. Homens podem ter pseudociese?
É raríssimo. Quando ocorre, está quase sempre dentro de um quadro psicótico mais amplo (ex.: esquizofrenia com delírio bizarro de gravidez). O fenômeno cultural da couvade em alguns povos não é considerado uma doença.

5. A pseudociese pode voltar?
Sim, especialmente se os conflitos psicológicos de base não forem tratados. Mulheres com forte desejo de engravidar, histórico de perdas ou conflitos não resolvidos estão em risco de recorrência.

6. Qual o risco de suicídio na pseudociese?
O risco agudo é considerado menor do que na psicose pós-parto real (onde há risco de 5% de suicídio, segundo o Compêndio). No entanto, no período que segue a descoberta da falsa gravidez, a paciente pode experimentar um luto severo e uma depressão reativa com potencial suicida. Uma avaliação de risco é mandatória.

7. Depois da pseudociese, a paciente poderá ter uma gravidez real no futuro?
Sim. A pseudociese em si não causa infertilidade orgânica. Muitas vezes, o tratamento psicológico bem-sucedido pode até melhorar as condições emocionais para uma gestação futura, se desejada.

8. Como a família deve agir?
Oferecer apoio incondicional, evitar acusações ("você nos enganou") ou minimização ("era só nervoso"). Incentivar e facilitar a adesão ao acompanhamento psicológico/psiquiátrico. Participar de sessões de psicoeducação familiar, se oferecido pela equipe.

Referências

  • Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. (Fonte primária para as citações sobre processos psicológicos predisponentes, definição e sintomas da pseudociese, e distinção de outras psicoses).
  • American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
  • Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. Genebra: OMS, 2022.
  • Kaplan & Sadock’s Comprehensive Textbook of Psychiatry, 8th edition. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins; 2005. (Fonte original das citações do Compêndio).
  • Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes para o tratamento do transtorno depressivo, transtorno bipolar e esquizofrenia. Acessíveis no site da ABP.
  • Ministério da Saúde do Brasil. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). 2022.

Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.

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