Pimozida

O que é e para que serve?

A pimozida é um antipsicótico — um tipo de remédio que age no cérebro para controlar sintomas como tiques, alucinações e comportamentos que fogem do controle da pessoa. Ela pertence a uma geração mais antiga de antipsicóticos, chamados de “típicos” ou “convencionais”, e é usada há décadas em situações bem específicas.

No Brasil, a pimozida é comercializada principalmente com o nome Orap®. Ela não é um remédio de primeira escolha para quase nada — os médicos costumam recorrê-la quando outros tratamentos já foram tentados e não funcionaram bem o suficiente.

A principal indicação dela é para a Síndrome de Tourette: uma condição em que a pessoa tem tiques motores (movimentos involuntários, como piscar os olhos, sacudir a cabeça ou encolher os ombros) e tiques vocais (sons ou palavras que saem sem querer). Quando esses tiques são intensos a ponto de atrapalhar a vida escolar, o trabalho ou os relacionamentos, e outros remédios não resolveram, a pimozida pode ser uma opção. Em alguns casos, ela também pode ser usada para sintomas psicóticos em pessoas que não responderam a outros antipsicóticos.


Como ele age no seu cérebro?

Pense no cérebro como uma cidade enorme, cheia de ruas e semáforos. As mensagens entre os neurônios (as células do cérebro) são como carros que circulam por essas ruas, usando “combustíveis” chamados neurotransmissores. Um desses combustíveis é a dopamina — ela está envolvida no controle dos movimentos, nas emoções e na sensação de recompensa.

Na Síndrome de Tourette, é como se houvesse um semáforo quebrado em certas ruas: a dopamina fica passando em excesso por alguns cruzamentos, causando os tiques involuntários. A pimozida age como um guarda de trânsito que fecha temporariamente esses cruzamentos problemáticos — ela bloqueia os pontos de encaixe da dopamina (chamados de receptores D2) em regiões específicas do cérebro, reduzindo esse tráfego excessivo e, com isso, diminuindo os tiques.

O problema é que esses mesmos cruzamentos existem em várias partes do cérebro ao mesmo tempo. Então, ao fechar o trânsito num lugar, o remédio pode acabar atrapalhando outras vias também — e é daí que vêm boa parte dos efeitos colaterais.


Quando começa a fazer efeito?

A pimozida não age como um analgésico que alivia a dor em minutos. O efeito dela é mais parecido com o de uma fisioterapia: você começa a notar melhora gradualmente, ao longo de dias a semanas.

Em geral, alguma redução nos tiques pode ser percebida nas primeiras 1 a 2 semanas, mas o efeito mais completo costuma aparecer depois de algumas semanas de uso regular, com a dose ajustada pelo médico. Nas primeiras semanas, é normal sentir alguns efeitos colaterais antes de sentir o benefício — isso não significa que o remédio não está funcionando.

O médico vai aumentar a dose aos poucos, justamente para dar tempo ao seu corpo de se adaptar e para encontrar a menor dose que funcione bem para você.


Como tomar corretamente

A pimozida vem em comprimidos de 1 mg e 2 mg, e a dose é sempre definida individualmente pelo médico. Em geral, as doses ficam abaixo de 10 mg por dia, e o tratamento começa com doses baixas (1 a 2 mg por dia), que são aumentadas gradualmente.

Horário: Pode ser tomada com ou sem alimentos. Se causar sonolência, tomar à noite pode ajudar. Siga o horário que o seu médico indicou.

Se esquecer uma dose: Tome assim que lembrar — a menos que já esteja perto do horário da próxima dose. Nesse caso, pule a dose esquecida e continue normalmente. Nunca tome dose dupla para compensar.

Não pare por conta própria. Esse é um ponto muito importante. Parar a pimozida de repente pode fazer os tiques voltarem com força, ou até causar outros sintomas desagradáveis. Quando chegar a hora de parar o tratamento, o médico vai reduzir a dose aos poucos, ao longo de 6 a 8 semanas, para que o seu organismo se adapte com segurança.


Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem

Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)

  • Rigidez muscular e lentidão nos movimentos: A pimozida bloqueia a dopamina em uma região do cérebro que controla os movimentos (o estriado). É como se o “lubrificante” dos movimentos diminuísse. Pode parecer que você está se movendo mais devagar ou com os músculos mais tensos. Isso é chamado de efeito parkinsoniano. O médico pode prescrever outro remédio para aliviar isso, se necessário.

  • Boca seca: O remédio tem uma ação anticolinérgica — ele interfere em sinais que controlam a produção de saliva. Beber água com frequência, chupar balas sem açúcar e manter boa higiene bucal ajudam bastante.

  • Sonolência e cansaço: Acontece porque o remédio tem efeito sedativo. Costuma melhorar com o tempo. Evite dirigir ou operar máquinas até saber como o remédio te afeta.

  • Constipação (intestino preso): Pelo mesmo mecanismo da boca seca — o remédio reduz a movimentação do intestino. Beber bastante água e comer fibras ajuda.

  • Visão um pouco embaçada: Também relacionado à ação anticolinérgica. Geralmente é leve e passageiro.

  • Inquietação (acatisia): Uma sensação desconfortável de não conseguir ficar parado, vontade de ficar se mexendo. Avise o médico se isso acontecer — ele pode ajustar a dose ou indicar algo para aliviar.

Menos comuns

  • Aumento da prolactina (hormônio do leite): A dopamina normalmente “freia” a produção de prolactina. Com o bloqueio da dopamina, esse freio some e a prolactina sobe. Isso pode causar, em mulheres, alterações no ciclo menstrual ou saída de leite pelo seio sem estar grávida. Em homens, pode causar crescimento das mamas ou disfunção sexual. Avise o médico se isso acontecer.

  • Ganho de peso: Pode ocorrer com o uso prolongado. Manter uma alimentação equilibrada e praticar atividade física ajuda a controlar.

  • Alterações no ECG (eletrocardiograma): A pimozida pode prolongar um intervalo no ritmo cardíaco chamado de QTc — pense nisso como um “compasso” do coração que fica um pouco mais lento entre uma batida e outra. Na maioria das pessoas, isso não causa problema, mas em algumas pode aumentar o risco de arritmia (batimento irregular). Por isso, o médico vai pedir exames de coração antes e durante o tratamento.

Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)

  • Discinesia tardia: Com o uso prolongado, pode surgir movimentos involuntários — especialmente na boca, língua e rosto (como mastigar no ar, fazer caretas). Esse efeito pode ser irreversível em alguns casos. É um dos motivos pelos quais a pimozida é usada com muito cuidado e na menor dose possível. Se notar qualquer movimento estranho que você não controla, avise o médico imediatamente.

  • Síndrome Neuroléptica Maligna: É rara, mas grave. Os sinais são: febre alta, rigidez muscular intensa, confusão mental e suor excessivo. Se isso acontecer, vá à emergência imediatamente — é uma urgência médica.

  • Queda nos glóbulos brancos (neutrófilos): O remédio pode, raramente, reduzir as células de defesa do sangue. Por isso, o médico pode pedir exames de sangue periódicos. Fique atento a infecções frequentes, febre sem causa aparente ou feridas que demoram a cicatrizar.

  • Arritmia cardíaca: Se sentir palpitações, coração acelerado ou irregular, tontura intensa ou desmaio, procure atendimento médico urgente.


O que fazer se tiver efeitos colaterais?

Primeiro: não entre em pânico. Muitos efeitos colaterais são passageiros e melhoram nas primeiras semanas, conforme o corpo se adapta ao remédio.

Ligue para o seu médico se:
– Os efeitos colaterais estiverem atrapalhando muito sua rotina
– Você notar movimentos involuntários que não consegue controlar
– Tiver febre, rigidez muscular e confusão ao mesmo tempo
– Sentir palpitações ou o coração batendo de forma estranha

Vá a uma UPA ou emergência se:
– Tiver febre alta com rigidez muscular intensa (pode ser síndrome neuroléptica maligna)
– Sentir desmaio ou perda de consciência
– Tiver dificuldade para respirar

O que NÃO fazer:
– Não pare o remédio de repente por conta própria, mesmo que os efeitos colaterais incomodem. Parar abruptamente pode piorar os sintomas. Fale com o médico antes de qualquer mudança.
– Não aumente a dose por conta própria achando que vai funcionar melhor mais rápido.


Cuidados importantes

Coração em dia: Antes de começar a pimozida, o médico vai pedir um eletrocardiograma (ECG) — um exame que “fotografa” o ritmo do coração. Isso é feito porque o remédio pode alterar o ritmo cardíaco. Esse exame pode ser repetido durante o tratamento.

Interações com outros remédios — atenção redobrada:

  • Antidepressivos como fluoxetina (Prozac®), sertralina (Zoloft®) e fluvoxamina: Podem aumentar a quantidade de pimozida no sangue, elevando o risco de problemas cardíacos. Avise sempre o médico sobre todos os remédios que você toma.
  • Antibióticos como claritromicina, eritromicina e azitromicina: São contraindicados junto com a pimozida — essa combinação pode causar arritmias graves.
  • Antifúngicos como cetoconazol e itraconazol: Também aumentam os níveis de pimozida no sangue e devem ser evitados.
  • Citalopram (Celexa®) e escitalopram (Lexapro®): Combinação proibida — aumenta o risco de arritmia.
  • Remédios para pressão alta: A pimozida pode potencializar o efeito deles, causando queda de pressão.
  • Álcool e outros depressores do sistema nervoso: Aumentam a sedação. Evite bebidas alcoólicas durante o tratamento.

Suco de toranja (grapefruit): Pode parecer inofensivo, mas o suco de toranja interfere na forma como o fígado processa a pimozida, fazendo o remédio se acumular mais no sangue. Evite consumir toranja ou seu suco enquanto estiver usando esse medicamento.

Gravidez e amamentação: Não há estudos suficientes sobre o uso da pimozida na gravidez. Se você está grávida, planeja engravidar ou está amamentando, converse com o médico — provavelmente ele vai considerar outras opções mais seguras.

Idosos: São mais sensíveis aos efeitos colaterais, especialmente os motores e os cardíacos. O médico costuma usar doses menores nessa faixa etária.

Crianças: A pimozida pode ser usada em crianças com Tourette, mas com cuidado redobrado e acompanhamento frequente.

Problemas no fígado ou nos rins: Se você tiver alguma dessas condições, avise o médico — pode ser necessário ajustar a dose ou monitorar com mais frequência.


Perguntas frequentes

Vou ficar dependente da pimozida?
Não. A pimozida não causa dependência química — você não vai sentir fissura ou necessidade compulsiva de tomar o remédio. Mas isso não significa que pode parar de repente: o corpo precisa de tempo para se readaptar quando o tratamento termina, por isso a retirada é feita aos poucos, com orientação médica.

Posso beber álcool enquanto tomo esse remédio?
Não é recomendado. O álcool potencializa a sonolência causada pela pimozida e pode aumentar outros efeitos colaterais. Se for a alguma ocasião especial, converse antes com o seu médico.

Posso parar de tomar quando os tiques melhorarem?
Não por conta própria. A melhora dos tiques é sinal de que o remédio está funcionando — mas parar de repente pode fazer tudo voltar, às vezes com mais intensidade. Qualquer decisão de reduzir ou parar o tratamento deve ser tomada junto com o médico, que vai fazer isso de forma gradual e segura.

Por que o médico pediu um exame de coração antes de começar?
Porque a pimozida pode alterar o ritmo cardíaco de uma forma específica (prolongamento do intervalo QTc). O eletrocardiograma serve para verificar se o seu coração está em condições de receber esse remédio com segurança. Não é motivo de alarme — é só uma precaução padrão.

Esse remédio vai me deixar “zumbi” ou sem personalidade?
Esse é um medo comum com antipsicóticos, e faz sentido ter essa dúvida. A pimozida pode causar alguma lentidão ou sonolência, especialmente no início ou em doses altas. Se você sentir que está “apagado” demais ou perdendo a vivacidade, fale com o médico — isso pode ser sinal de que a dose precisa ser ajustada.


Referências

  • Stahl, S. M. Fundamentos de Psicofarmacologia, 3ª edição. Artmed, 2014. (pp. 612–615)
  • U.S. Food and Drug Administration (FDA). Pimozide Tablets USP — Prescribing Information (Label). Disponível em: www.fda.gov
  • National Library of Medicine — PubChem. Pimozide: Compound Summary. Disponível em: pubchem.ncbi.nlm.nih.gov

Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.

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