Definição e epidemiologia
A modulação noradrenérgica do comportamento sexual refere-se à influência do neurotransmissor norepinefrina (noradrenalina) e de seu sistema neural correspondente sobre os componentes do desejo (libido), excitação, performance e satisfação sexual. Esta não constitui uma entidade diagnóstica isolada nos manuais DSM-5-TR ou CID-11, mas sim um eixo neurobiológico fundamental para a compreensão das disfunções sexuais (DSM-5-TR: Transtornos do Desejo Sexual e da Excitação Sexual, Transtorno Orgasmo, Transtorno de Dor Genito-Pélvica/Penetração) e de aspectos comportamentais como a hipersexualidade e a inibição sexual relacionada à ansiedade. A noradrenalina atua como um neuromodulador chave na interface entre estados de alerta, estresse, ansiedade e resposta sexual.
Dados epidemiológicos específicos sobre disfunções sexuais de origem predominantemente noradrenérgica são escassos, pois a etiologia é frequentemente multifatorial, envolvendo interações com sistemas dopaminérgico, serotoninérgico e colinérgico. Contudo, sabe-se que transtornos de ansiedade (especialmente o transtorno de ansiedade social e transtorno de pânico), que envolvem disfunção noradrenérgica, apresentam alta comorbidade com disfunções sexuais. Estudos populacionais brasileiros, como o Estudo Epidemiológico da Disfunção Sexual (Episex), indicam altas prevalências de disfunções sexuais na população geral, frequentemente associadas a condições psiquiátricas e ao uso de medicamentos que modulam catecolaminas. Fatores de risco incluem a presença de transtornos de ansiedade ou de humor, uso de medicamentos anti-hipertensivos (especialmente betabloqueadores), idade avançada (com alterações na sensibilidade adrenérgica) e estresse crônico. O curso clínico é variável, podendo ser episódico (relacionado a situações de estresse agudo) ou crônico (associado a transtornos psiquiátricos de base ou medicação contínua).
Etiopatogenia e neurobiologia
A etiologia é multifatorial, integrando vulnerabilidades genéticas, alterações neurobiológicas e fatores psicossociais. O modelo atual compreende um desequilíbrio na modulação fina entre os sistemas de neurotransmissores que regulam a resposta sexual.
O sistema noradrenérgico tem seus corpos celulares principais localizados no locus coeruleus no tronco cerebral. Este sistema é ativado em situações de alerta, estresse e medo, preparando o organismo para uma resposta de "luta ou fuga". Sua projeção é difusa, atingindo córtex cerebral, hipotálamo, amígdala e medula espinhal. A norepinefrina exerce seus efeitos através da ligação a receptores adrenérgicos alfa (α1, α2) e beta (β).
Na fisiologia sexual, a noradrenalina apresenta uma ação bifásica e contextual:
- Níveis Basais/Otimos: São necessários para um estado de alerta e motivação que sustenta o desejo sexual. A norepinefrina interage sinergicamente com a dopamina (que promove "wanting" ou motivação) em circuitos mesolímbicos e hipotalâmicos.
- Níveis Elevados/Excesso: Associados a estados de ansiedade de desempenho, estresse agudo ou pânico, a hiperatividade noradrenérgica inibe a resposta sexual. Isso ocorre através da ativação excessiva do sistema nervoso simpático, que é antagônico à fase de excitação (parassimpática) e necessária apenas para o orgasmo e resolução. A hiperatividade do locus coeruleus está ligada a sintomas como taquicardia, hipervigilância e tensão muscular, que são incompatíveis com o relaxamento necessário para a excitação.
A interação com outros sistemas é crucial:
- Dopamina (DA): A noradrenalina e a dopamina possuem vias metabólicas interligadas. Agentes que aumentam a disponibilidade de ambas, como algumas anfetaminas, podem inicialmente aumentar a libido. No entanto, o uso crônico pode levar a disfunção, possivelmente por esgotamento de precursores ou dessensibilização de receptores.
- Serotonina (5-HT): Geralmente inibitória para o desejo e a ejaculação/orgasmo. A interação noradrenalina-serotonina é complexa; por exemplo, a trazodona, um antidepressivo com potente bloqueio α1-adrenérgico e serotoninérgico, pode causar priapismo (ereção prolongada e dolorosa) como efeito adverso.
- Acetilcolina (ACh): O sistema parassimpático (colinérgico) é fundamental para a vasodilatação e ereção. O tônus simpático excessivo (noradrenérgico) antagoniza este efeito, podendo levar à disfunção erétil.
- Hormônios: A testosterona modula a libido, enquanto o estrogênio influencia a lubrificação e sensibilidade. O excesso de cortisol (hormônio do estresse) e prolactina suprime o desejo. A hiperprolactinemia pode ser um efeito adverso de antipsicóticos que bloqueiam a dopamina, levando a disfunções sexuais.
Achados de neuroimagem em transtornos de ansiedade mostram hiperatividade da amígdala e do locus coeruleus, circuitos que, quando ativados em contexto sexual, prejudicam a performance. Estudos genéticos apontam para polimorfismos em genes relacionados ao transporte e metabolismo da norepinefrina como fatores de vulnerabilidade para transtornos de ansiedade, que por sua vez impactam a função sexual.
Quadro clínico
As manifestações clínicas da desregulação noradrenérgica no comportamento sexual são predominantemente de dois tipos: inibição ou alteração qualitativa da resposta.
1. Inibição Sexual Relacionada à Ansiedade Noradrenérgica:
- Desejo/Apetite Sexual: Redução ou ausência de pensamentos/fantasias sexuais. O paciente pode relatar "falta de interesse" mas, na avaliação, este está vinculado a antecipação ansiosa ("medo de falhar", "preocupação com a performance").
- Excitação: Dificuldade em atingir ou manter a excitação fisiológica (ereção no homem, lubrificação/ingurgitamento vulvar na mulher). A queixa central é a "mente que interfere": o foco desloca-se da sensação prazerosa para a auto-observação crítica e catastrófica ("não está funcionando").
- Orgasmo: Ejaculação retardada ou anorgasmia, devido à incapacidade de "abandonar-se" ao reflexo orgásmico, mantendo um estado de hipercontrole e vigilância.
- Sintomas Somáticos de Ansiedade: Taquicardia, sudorese, tremor, boca seca, tensão muscular durante a tentativa sexual. Estes sintomas são frequentemente interpretados pelo paciente como prova de sua "deficiência".
- Comportamento: Evitação de situações sexuais, conflitos conjugais, baixa autoestima.
2. Hipersexualidade em Contextos Maníacos ou por Substâncias:
Em estados de ativação noradrenérgica e dopaminérgica exacerbada (ex.: episódio maníaco do transtorno bipolar, uso de psicoestimulantes), pode ocorrer um aumento desinibido do desejo sexual, com busca por múltiplos parceiros, comportamentos de risco e negligência das consequências. O lítio, usado no tratamento da mania, pode reduzir essa hipersexualidade, possivelmente através de sua atividade antagonista dopaminérgica.
Especificadores e Comorbidades:
- Especificadores (DSM-5-TR): "Adquirida" vs. "Ao Longo da Vida"; "Generalizada" vs. "Situacional"; "Grau de Gravidade".
- Comorbidades Frequentes: Transtorno de Ansiedade Social (Fobia Social), Transtorno de Pânico, Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Transtorno Depressivo Maior. A disfunção sexual pode ser tanto um sintoma da comorbidade quanto um efeito adverso de sua medicação (ex.: ISRS).
Avaliação e diagnóstico
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Entrevista Clínica: A anamnese deve investigar minuciosamente:
- História detalhada da queixa sexual: início, curso, contexto situacional.
- Relação com estados emocionais: Presença de ansiedade de desempenho, medo de avaliação negativa, pensamentos automáticos negativos durante o ato.
- História psiquiátrica pessoal e familiar, especialmente de transtornos de ansiedade e humor.
- História médica completa: doenças cardiovasculares, endócrinas (diabetes, tireoide), neurológicas.
- Farmácia detalhada: Uso de antidepressivos (especialmente ISRS/SNRIs), antipsicóticos, benzodiazepínicos, anti-hipertensivos (betabloqueadores, diuréticos), anticoncepcionais hormonais.
- Uso de substâncias: álcool, tabaco, estimulantes, cannabis.
- Fatores psicossociais e relacionamento conjugal.
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Exame do Estado Mental: Pode revelar humor ansioso ou depressivo, ideação de inferioridade ou culpa relacionada à performance, e possivelmente sintomas de transtorno de ansiedade generalizada ou social. O discurso pode ser marcado por evitação do tema ou por excesso de detalhes técnicos como forma de defesa intelectualizada.
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Escalas Validadas no Brasil:
- ISS (Índice de Satisfação Sexual) para avaliação global.
- HADS (Hospital Anxiety and Depression Scale) para rastrear ansiedade e depressão.
- MINI (Mini International Neuropsychiatric Interview) para diagnóstico psiquiátrico estruturado.
- Escalas específicas para disfunção erétil (IIEF) e função sexual feminina (FSFI).
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Exames Complementares:
- Laboratoriais: Dosagem de testosterona total e livre, prolactina, TSH, glicemia de jejum, perfil lipídico. Avaliar função tireoidiana e renal.
- Neuroimagem: Não é rotina, mas pode ser considerada se houver suspeita de lesão estrutural do SNC ou da medula espinhal.
- Avaliação Vascular/Endócrina Especializada: Em casos de disfunção erétil, pode ser necessária avaliação com Doppler peniano ou especialista em medicina sexual.
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Diagnóstico Diferencial Estruturado:
Condição Características Distintivas Relação com Noradrenalina Disfunção Sexual por Doença Médica (ex.: diabetes, hipogonadismo) Achados laboratoriais anormais, curso progressivo independente do contexto psicológico. Secundária a neuropatia autonômica ou deficiência hormonal. Disfunção Sexual Induzida por Substância/Medicamento Início temporalmente relacionado à introdução ou aumento de dose da medicação. Direta: Betabloqueadores, ISRS/SNRIs. Indireta: Antipsicóticos (via prolactina). Transtorno Depressivo Maior Humor deprimido e anedonia predominantes, perda de interesse generalizada (não apenas sexual). A hiperatividade noradrenérgica pode estar presente em alguns subtipos de depressão, contribuindo para a anedonia sexual. Transtorno de Ansiedade Social Medo acentuado de avaliação negativa em situações sociais diversas, não apenas sexuais. Hiperatividade noradrenérgica central e periférica é um substrato neurobiológico central. Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo Ausência de fantasias/desejo, sem necessariamente a presença de ansiedade de desempenho. A noradrenalina pode estar baixa ou desregulada, mas a etiologia é mais frequentemente multifatorial (hormonal, relacional). -
Armadilhas Diagnósticas: Atribuir toda disfunção sexual a fatores psicológicos sem rastrear causas médicas ou medicamentosas. Ignorar o papel da ansiedade de desempenho por focar apenas no aspecto biológico. Não investigar a satisfação e dinâmica do relacionamento, que podem ser o fator primário.
Tratamento farmacológico
O tratamento deve ser dirigido à causa primária. Quando a disfunção é um componente de um transtorno de ansiedade ou um efeito adverso medicamentoso, a estratégia difere.
Algoritmo Terapêutico Baseado em Evidências:
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1ª Linha (Disfunção como Sintoma de Transtorno de Ansiedade/Depressão):
- Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS) e Inibidores da Recaptação de Serotonina e Noradrenalina (IRSN): São a base do tratamento dos transtornos de ansiedade e depressão. Paradoxalmente, podem causar disfunção sexual (anorgasmia, redução da libido) como efeito adverso. A escolha deve considerar este perfil. Entre os ISRS, a paroxetina tem maior incidência de disfunção sexual; a fluoxetina e a sertralina são intermediárias. Entre os IRSN, a venlafaxina também apresenta risco significativo. A duloxetina pode ter um perfil ligeiramente melhor. O manejo deste efeito adverso é discutido abaixo.
- Psicoterapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Deve ser oferecida concomitantemente ou como primeira opção em casos leves a moderados.
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2ª Linha (Manejo de Efeitos Adversos Sexuais de Antidepressivos ou Tratamento Primário de Disfunções):
- Estratégias de Manejo de Efeitos Adversos:
- Ajuste de Dose: Reduzir para a dose mínima efetiva.
- Troca para Agente com Menor Risco: Bupropiona (inibidor da recaptação de noradrenalina e dopamina, sem ação serotoninérgica), Mirtazapina (antagonista α2-adrenérgico e serotonérgico), Agomelatina.
- "Drug Holiday" (Suspensão Temporária): Pode ser tentado com antidepressivos de meia-vida curta (ex.: sertralina, paroxetina), sob supervisão médica, mas arrisca recaída dos sintomas.
- Agentes Adicionais ("Augmentation"):
- Bupropiona: Em baixas doses (150mg/dia), pode reverter disfunção sexual induzida por ISRS.
- Amanstadina (100-300mg/dia): Seu efeito dopaminérgico pode reverter a disfunção orgástica induzida por ISRS.
- Sildenafil, Tadalafil, Vardenafil: Eficazes para disfunção erétil induzida por ISRS, mesmo na ausência de doença vascular. Agem aumentando o óxido nítrico (via parassimpática), contrabalançando a inibição serotoninérgica e noradrenérgica excessiva.
- Para Ejaculação Precoce: O uso de ISRS (especialmente paroxetina, sertralina, fluoxetina) em dose baixa ou "sob demanda" é tratamento de primeira linha, aproveitando-se justamente de seu efeito adverso de retardar a ejaculação.
- Estratégias de Manejo de Efeitos Adversos:
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3ª Linha e Situações Específicas:
- Betabloqueadores (ex.: Propranolol): Usados "sob demanda" para fobias de desempenho (ex.: falar em público). Em contexto sexual, seu uso para ansiedade de desempenho é limitado devido ao risco de causar ou piorar a disfunção erétil (bloqueio β-adrenérgico periférico). Devem ser usados com extrema cautela.
- Buspirona (agonista parcial 5-HT1A): Pode ser útil em baixas doses como agente adjunto para ansiedade generalizada com componente sexual, com menor risco de disfunção sexual.
- Antipsicóticos Atípicos (ex.: Aripiprazol em baixa dose): Como adjunto para depressão resistente, pode melhorar a libido em alguns pacientes via seu agonismo parcial dopaminérgico. Cuidado: a maioria dos antipsicóticos (especialmente típicos e risperidona) eleva a prolactina, inibindo o desejo e o orgasmo.
Monitoramento: Avaliar a função sexual na primeira consulta (linha de base) e a cada 4-6 semanas após início ou mudança de medicação. Utilizar escalas validadas. Monitorar sinais de síndrome serotoninérgica ao combinar agentes.
Contexto Brasileiro (SUS/RENAME): O SUS oferece vários ISRS (sertralina, fluoxetina), IRSN (venlafaxina), e bupropiona através do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica. Inibidores da fosfodiesterase-5 (sildenafil) têm restrição para prescrição. A Amanstadina está disponível. A TCC pode ser acessada via CAPS. A Resolução CFM nº 2.057/2013 regulamenta a abordagem da saúde sexual pelo médico.
Tratamento não farmacológico
- Psicoterapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Tratamento de primeira linha para disfunções sexuais de origem psicogênica, especialmente as relacionadas à ansiedade. Foca em:
- Psicoeducação: Explicar o ciclo da ansiedade de desempenho (medo -> hipervigilância corporal -> falha -> confirmação do medo).
- Reestruturação Cognitiva: Identificar e desafiar pensamentos disfuncionais ("Tenho que performar perfeitamente", "Se eu falhar, sou um fracasso").
- Técnicas de Exposição e Dessensibilização: Exposição gradual a situações íntimas sem a demanda de performance (ex.: exercícios sensoriais focados sem penetração).
- Técnicas de Mindfulness e Aceitação: Ajudar o paciente a focar nas sensações do momento presente, ao invés de julgar sua performance.
- Treinamento em Habilidades: Comunicação com o parceiro, manejo do estresse.
- Terapia de Casal/Sexual: Fundamental quando há problemas de comunicação, conflitos ou padrões disfuncionais no relacionamento que perpetuam a ansiedade sexual.
- Intervenções Psicossociais: Treinamento em habilidades sociais para pacientes com transtorno de ansiedade social generalizado.
- Procedimentos: A ECT (Eletroconvulsoterapia) e a TMS (Estimulação Magnética Transcraniana) são tratamentos para condições psiquiátricas graves de base (ex.: depressão resistente) e podem, indiretamente, melhorar a função sexual ao tratar a doença primária. Não são tratamentos diretos para disfunção sexual de origem noradrenérgica.
Manejo clínico prático
- Quando Iniciar Tratamento Farmacológico: Quando a disfunção sexual causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no relacionamento, e quando está claramente vinculada a um transtorno psiquiátrico (ansiedade, depressão) que requer farmacoterapia.
- Troca ou Combinação: Considere trocar o antidepressivo se os efeitos adversos sexuais forem intoleráveis e persistirem após 4-8 semanas. A estratégia de "augmentation" com bupropiona ou amantadina pode ser tentada antes da troca completa. A combinação com psicoterapia é sempre recomendada.
- Monitoramento da Resposta: Além de escalas, avaliar melhora na qualidade de vida, satisfação no relacionamento e redução da ansiedade antecipatória. A remissão não é apenas a performance bem-sucedida, mas a recuperação do prazer e da espontaneidade.
- Manejo de Resistência: Se não houver resposta à TCC e a uma ou duas tentativas farmacológicas, reavalie o diagnóstico. Considere encaminhamento para especialista em medicina sexual ou psiquiatria sexual para investigação mais profunda de causas hormonais, vasculares ou neurológicas.
- Contexto Brasileiro: No SUS, a abordagem deve ser integrada. O médico da Atenção Básica pode fazer o rastreio inicial, manejar casos leves e encaminhar para o CAPS ou especialista (psiquiatra, ginecologista, urologista) nos casos complexos. A falta de acesso a alguns medicamentos de nova geração e a psicoterapia especializada são barreiras reais, exigindo criatividade clínica e aproveitamento dos recursos disponíveis.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
O paciente vivencia o problema frequentemente com vergonha, culpa e sentimento de inadequação. A queixa pode ser mascarada ("estou cansado", "não estou mais a fim") ou apresentada como um problema puramente físico ("doutor, meu hormônio deve estar baixo"). A ansiedade de desempenho cria um ciclo vicioso: o medo de falhar gera hipervigilância corporal, que inibe a resposta natural, levando à falha e confirmando o medo inicial.
Psicoeducação: O médico deve:
- Normalizar: Explicar que a ansiedade sexual é comum e tratável.
- Explicar a Neurobiologia: Usar linguagem acessível: "O sistema de ‘alerta’ do seu cérebro (noradrenalina) está ficando muito ativo na hora H, como se você estivesse diante de um perigo. Isso ‘desliga’ o sistema do prazer e da excitação."
- Desfocar a Performance: Enfatizar que o objetivo é o prazer e a conexão, não a performance ou um resultado específico.
- Envolver o Parceiro: Com consentimento do paciente, incluir o parceiro na explicação para reduzir a pressão e promover suporte mútuo.
Impacto Funcional: Pode levar a evitação de intimidade, conflitos conjugais, isolamento social, baixa autoestima e, em alguns casos, depressão secundária.
Adesão ao Tratamento: Barreiras incluem vergonha de discutir o tema, medo de efeitos adversos das medicações, custo do tratamento e crenças de que o problema é "apenas psicológico" ou "sem solução". Estratégias: abordagem empática e não julgadora, explicar claramente o mecanismo de ação e os benefícios esperados da medicação e/ou terapia, fornecer materiais educativos e verificar a adesão de forma rotineira.
Perguntas frequentes
1. "Tomar antidepressivo vai acabar com minha vida sexual para sempre?"
Não. Muitos antidepressivos podem causar efeitos colaterais sexuais, mas isso não é inevitável nem irreversível. Existem várias estratégias para manejar esse efeito, desde a escolha de um antidepressivo com perfil mais favorável (como a bupropiona), ajuste de dose, até o uso de medicamentos corretivos. Além disso, para muitos pacientes, tratar a depressão ou ansiedade de base acaba por melhorar a função sexual a longo prazo.
2. "Minha ansiedade na hora do sexo é tão forte que parece um ataque de pânico. Isso é normal?"
É um fenômeno comum na ansiedade de desempenho sexual. Os sintomas (taquicardia, sudorese, tremor, medo intenso) são semelhantes aos de uma crise de pânico porque compartilham o mesmo substrato neurobiológico: uma ativação exagerada do sistema noradrenérgico e do sistema de "luta ou fuga". Tratar a ansiedade subjacente, muitas vezes com terapia e/ou medicação, é a abordagem mais eficaz.
3. "O médico me passou um remédio para ejaculação precoce, mas é um antidepressivo. Como isso funciona?"
Alguns antidepressivos, principalmente os ISRS, têm como efeito colateral retardar o reflexo da ejaculação. A medicina aproveita esse efeito de forma terapêutica. Em doses menores do que as usadas para depressão, eles aumentam o tempo até a ejaculação. É um uso "off-label" (fora da indicação principal) mas bem estabelecido e baseado em evidências.
4. "Existe algum ‘remédio natural’ ou suplemento que ajude a controlar a ansiedade sexual?"
A evidência científica para suplementos é limitada. Alguns estudos sugerem modesto benefício da L-arginina (precursor do óxido nítrico) para ereção, ou de ashwagandha para ansiedade geral. No entanto, sua eficácia e segurança não são comparáveis às terapias convencionais (TCC, medicamentos). É crucial discutir qualquer suplemento com seu médico, pois podem interagir com outros remédios.
5. "Meu parceiro(a) acha que o problema é falta de atração. Como explicar que é ansiedade?"
A psicoeducação conjunta é fundamental. Explique que a ansiedade é um inibidor físico e mental poderoso, que "desliga" a resposta sexual independente do sentimento de atração ou amor. Enfatize que é uma reação involuntária do sistema nervoso, não uma escolha ou rejeição. Encorajar a leitura conjunta de materiais sobre o tema e a participação em algumas sessões de terapia pode ser muito útil.
6. "Já fiz exames e está tudo normal. Por que o médico diz que é ‘psicológico’?"
"Dé psicológico" não significa "não é real" ou "é frescura". A ansiedade provoca mudanças reais e mensuráveis na química cerebral (como a liberação excessiva de noradrenalina), nos hormônios do estresse (cortisol) e na ativação do sistema nervoso autônomo, que de fato impedem a resposta sexual. O problema é funcional e biológico, mas seu gatilho inicial é emocional ou cognitivo.
7. "Betabloqueadores como propranolol podem ajudar na ansiedade de performance sexual?"
Embora sejam úteis para outras fobias de desempenho (ex.: tocar em público), seu uso para ansiedade sexual é controverso e geralmente não recomendado como primeira opção. Eles podem piorar a disfunção erétil ao bloquear os receptores beta-adrenérgicos necessários para alguns aspectos da resposta sexual. O foco deve ser no tratamento da ansiedade de base com terapias mais específicas.
8. "A disfunção sexual causada por remédio some se eu parar de tomar?"
Na grande maioria dos casos, sim. Os efeitos colaterais sexuais de medicamentos são geralmente reversíveis após a descontinuação da droga. No entanto, a retirada deve ser sempre feita sob supervisão médica, especialmente com antidepressivos, para evitar síndrome de descontinuação ou recaída da doença de base. Em um pequeno número de pacientes, pode persistir uma disfunção sexual pós-medicação, o que requer investigação adicional.
Referências
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. (Fonte principal dos trechos fornecidos sobre neurofisiologia, efeitos de medicamentos e interações hormonais).
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – Texto Revisado (DSM-5-TR). 5ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-11). Genebra: OMS, 2022.
- Abdo, C.H.N. Estudo Epidemiológico da Disfunção Sexual (Episex). São Paulo, 2004.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes para o Tratamento da Depressão. 2022.
- Ministério da Saúde (BR). Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para Transtornos de Ansiedade. 2022.
- Clayton, A.H., et al. Sexual Dysfunction Associated with Major Depressive Disorder and Antidepressant Treatment. Expert Opinion on Drug Safety, 2014.
- Segraves, R.T. Considerations for a Better Understanding of Sexual Medicine. The Journal of Sexual Medicine, 2007.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.