Definição e conceito
A monitoração de fontes mnêmicas refere-se ao conjunto de processos cognitivos e executivos que permitem a um indivíduo identificar, com precisão, a origem temporal, contextual e modal de uma memória. Trata-se de uma função metacognitiva essencial para a atribuição correta de uma lembrança a um momento, lugar ou fonte de informação específicos (por exemplo, "vi isso na TV", "aconteceu comigo na semana passada", "meu amigo me contou"). O déficit nessa capacidade constitui um dos mecanismos centrais na gênese das confabulações, uma alteração qualitativa da memória.
Na semiologia psiquiátrica e neuropsicológica, as confabulações são definidas como produções de relatos, narrativas e ações que são involuntárias, não intencionalmente enganosas, e que preenchem lacunas da memória com informações falsas, mas geralmente plausíveis. Diferentemente da mentira patológica (pseudologia fantástica), a confabulação não é um ato voluntário de engano; o paciente acredita, no momento da produção, na veracidade do que está relatando. O modelo clássico, que via as confabulações como simples invenções da imaginação para preencher vazios amnésicos, foi complementado por teorias contemporâneas que destacam o papel central da falha na monitoração da fonte. Isso significa que o paciente pode estar acessando uma memória real (por exemplo, um evento pessoal que se repetiu várias vezes ou uma informação semântica), mas falha em atribuí-la ao contexto correto, transplantando-a erroneamente para um momento específico e recente, criando assim uma memória falsa, porém coerente.
Terminologia técnica relevante:
- Monitoração de Fontes Mnêmicas (Source Monitoring): Processo de atribuição da origem de uma memória.
- Confabulação (Confabulation): Relato ou ação involuntária baseada em memórias falsas, decorrente de déficit mnêmico.
- Memória Episódica (Episodic Memory): Memória de eventos autobiográficos específicos, contextualizados no tempo e no espaço.
- Memória Semântica (Semantic Memory): Memória de conhecimentos gerais e fatos descontextualizados.
- Paramnésia (Paramnesia): Termo mais amplo para distorções ou falsificações da memória, incluindo confabulações.
- Alomnésia (Alomnesia): Distorção do conteúdo de uma lembrança verdadeira.
- Hipomnésia de Fixação (Impairment of Registration): Dificuldade em armazenar novas informações.
Dados epidemiológicos específicos sobre o déficit de monitoração de fontes são escassos, pois ele é um mecanismo subjacente, não um diagnóstico. Sua manifestação clínica mais estudada, a síndrome confabulatória, ocorre mais frequentemente no contexto da síndrome de Wernicke-Korsakoff, secundária ao alcoolismo crônico com deficiência de tiamina (vitamina B1). No entanto, o déficit pode estar presente, em graus variados, em outras condições que afetam circuitos fronto-límbicos, como demências (especialmente as frontotemporais e em fases moderadas da doença de Alzheimer), estados confusionais (delirium), após traumatismo cranioencefálico, em aneurismas da artéria comunicante anterior e em algumas lesões vasculares.
Apresentação clínica
A apresentação clínica do déficit de monitoração de fontes é, por excelência, a confabulação. Esta se manifesta primariamente no domínio cognitivo, mas tem repercussões afetivas e comportamentais significativas.
Domínio Cognitivo:
- Produção Involuntária de Narrativas Falsas: O paciente relata eventos que não ocorreram, frequentemente em resposta a perguntas diretas sobre lacunas de sua memória (confabulações "provocadas" ou "de preenchimento"). Exemplo: Perguntado sobre o que fez no domingo anterior (período para o qual tem amnésia), ele descreve detalhadamente um passeio ao parque que, na verdade, é uma memória de um domingo ocorrido há vários anos, ou uma amalgamação de passeios genéricos.
- Plausibilidade: As narrativas não são bizarras ou fantásticas (o que as diferenciaria de delírios). São geralmente críveis e coerentes com a vida do paciente, o que pode dificultar a identificação por familiares desatentos. Podem basear-se em:
- Deslocamento temporal de memórias episódicas reais.
- Aplicação errônea de memórias semânticas ou de eventos pessoais genéricos a um contexto específico.
- Combinação de fragmentos de memórias diferentes em uma nova narrativa.
- Falta de Consciência do Déficit (Anosognosia): O paciente não percebe que está confabulando. A convicção é genuína no momento da fala, embora possa ser inconsistente ao longo do tempo.
- Desorientação Temporal: Dificuldade marcante em situar eventos no tempo, um correlato direto do déficit de monitoração da fonte temporal.
- Sugestionabilidade: A memória pode ser facilmente contaminada por sugestões do entrevistador, um fenômeno relacionado à falha nos mecanismos de verificação da origem da informação.
Domínio Afetivo:
- Falsa Tranquilidade: A confabulação pode gerar uma aparência de normalidade e integridade cognitiva, mascarando a angústia que um vazio de memória poderia causar. No entanto, essa é uma defesa não intencional, não uma simulação.
- Irritabilidade ou Perplexidade: Se confrontado com inconsistências em suas histórias, o paciente pode ficar irritado ou confuso, mas raramente abandona a convicção inicial.
Domínio Comportamental:
- Ações Baseadas em Memórias Falsas: Em casos mais graves (confabulações "espontâneas" ou comportamentais), o paciente pode agir de acordo com a memória falsa. Por exemplo, preparar-se para uma reunião de trabalho que não existe, ou sair procurando por um objeto que nunca esteve no local onde ele "se lembra" de tê-lo deixado.
- Repetição: Pode repetir as mesmas histórias confabuladas em diferentes momentos.
Exemplos Clínicos Concisos:
- Paciente com Síndrome de Korsakoff: Internado há três meses, é questionado sobre o que fez no final de semana. Ele relata com detalhes que foi pescar com seu filho, atividade comum em sua vida pregressa. Na verdade, o filho não o visitou naquele fim de semana.
- Paciente com Demência Frontotemporal: Durante a anamnese, ao ser perguntado sobre sua profissão (era contador aposentado), descreve vividamente ter ido ao escritório naquela manhã e resolvido um problema complexo para um cliente. A narrativa é uma confabulação baseada em memórias semânticas e episódicas remotas de sua carreira, deslocadas para o presente.
- Paciente em Recuperação de TCE: Ao visitar o hospital onde foi tratado meses antes, cumprimenta efusivamente um enfermeiro, dizendo que se lembrou dele das sessões de fisioterapia da semana anterior. O enfermeiro nunca trabalhou na fisioterapia.
Neurobiologia e fisiopatologia
A fisiopatologia das confabulações e do déficit de monitoração de fontes é complexa e envolve a desconexão ou lesão de circuitos neurais críticos para a memória episódica e as funções executivas de verificação.
Circuitos Neurais Envolvidos:
As evidências clássicas, principalmente da síndrome de Korsakoff, apontam para lesões em uma rede diencefálico-frontal:
- Corpos Mamilares e Núcleo Dorsomedial do Tálamo: Componentes essenciais do circuito de Papez, vital para a consolidação da memória episódica. Lesões aqui causam a amnésia anterógrada grave (déficit de fixação) que serve de substrato para as confabulações.
- Córtex Pré-Frontal, especialmente a região Orbitofrontal e Ventromedial: Esta área é crucial para a monitoração de fontes, a verificação da veracidade e contextualização das memórias, e a inibição de respostas irrelevantes ou incorretas. Danos a esta região prejudicam a capacidade de julgar se uma "lembrança" é verdadeira, recente e pertinente ao contexto atual. É a disfunção frontall que transforma uma simples lacuna de memória em uma confabulação.
Portanto, o modelo fisiopatológico integrado propõe que a amnésia (déficit diencefálico/hipocampal) cria os vazios de informação, enquanto a disfunção executiva frontal impede o processo de verificação e contextualização, permitindo que memórias deslocadas ou fabricadas preencham esses vazios sem crítica. Dalgalarrondo (2018) ressalta que cerca de 20 outras áreas cerebrais já foram associadas a confabulações, incluindo o giro do cíngulo anterior e o córtex pré-frontal dorsolateral, indicando a natureza distribuída e conectiva desse processo.
Sistemas de Neurotransmissão:
Embora menos específicos, os sistemas colinérgico e monoaminérgico (especialmente dopaminérgico) estão envolvidos. O sistema colinérgico, projetado do núcleo basal de Meynert para o córtex e hipocampo, é fundamental para a atenção e consolidação mnêmica. Seu déficit, central nas demências tipo Alzheimer, contribui para o prejuízo de fixação. A modulação dopaminérgica no córtex pré-frontal influencia as funções executivas, incluindo a monitoração e a inibição de respostas.
Modelos Explicativos Atuais:
O modelo de monitoração de fontes de Johnson e colaboradores é o mais diretamente aplicável. Ele postula que atribuímos uma memória a uma fonte com base em suas características qualitativas (riqueza sensorial, detalhes contextuais, operações cognitivas envolvidas) e em um processo de verificação executiva. No paciente confabulador, este processo de verificação está comprometido. Outros modelos, como o de déficit na coerência temporal (Dalla Barba), enfatizam a incapacidade de ordenar eventos no tempo. Já o modelo baseado em esquemas sugere que o paciente, diante de uma pergunta, ativa um esquema genérico de memória (ex.: "um domingo típico") e, por falha na verificação, apresenta-o como um evento específico.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Aparência e Comportamento: Pode parecer socialmente adequado e engajado. Em confabulações espontâneas, pode exibir comportamento direcionado por falsas memórias.
- Fala e Pensamento: O discurso é fluente e coerente, até que se toque em temas relacionados ao período amnésico. As confabulações surgem então como narrativas plausíveis. O pensamento é concreto, com prejuízo do julgamento e da auto-crítica.
- Humor e Afeto: Frequentemente eutímico, com afeto por vezes superficial e despreocupado (la belle indifférence do Korsakoff), ou irritável se confrontado.
- Funções Cognitivas:
- Orientação: Desorientação temporal acentuada (data, dia da semana), frequentemente também espacial.
- Atenção: Pode estar preservada em tarefas simples, mas a atenção sustentada e dividida costuma estar prejudicada.
- Memória:
- Fixação/Registro: Gravemente prejudicada. Teste de dígitos (curto prazo) pode estar relativamente preservado, mas a memória para novas informações após alguns minutos (com interferência) está ausente ou muito deficiente.
- Evocação de Longo Prazo: Amnésia anterógrada grave (não consegue aprender nada novo) e amnésia retrógrada variável, frequentemente seguindo a lei de Ribot (memórias recentes mais afetadas que as remotas).
- Memória Semântica: Pode estar relativamente preservada nas fases iniciais.
- Provocação de Confabulação: Perguntas diretas sobre o período amnésico ("O que você comeu no almoço?", "O que fizemos na consulta passada?") eliciam as narrativas confabuladas.
- Funções Executivas: Prejuízo em testes de fluência verbal (categoria semântica pode estar pior que a fonêmica), flexibilidade mental (Teste de Wisconsin), planejamento e inibição de respostas.
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
- Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) e MoCA: Úteis para rastrear déficit cognitivo global, mas não são específicos para confabulação. Um perfil com pontuação muito baixa em orientação e memória, com pontuação relativamente preservada em linguagem, é sugestivo.
- Testes Neuropsicológicos Formais:
- Memória: Teste de Aprendizado Auditivo-Verbal de Rey, Memória Lógica da WMS.
- Funções Executivas e Monitoração de Fontes: Testes que avaliam memória de fonte (ex.: apresentar informações de diferentes fontes – ditas pelo examinador, lidas em um cartão, ouvidas em uma gravação – e depois perguntar de onde vieram). Testes de falsas memórias (como o paradigma DRM) também podem ser sensíveis.
- Teste de Confabulação: Instrumentos como o Confabulation Battery (Dalla Barba) avaliam sistematicamente confabulações provocadas em diferentes domínios (memória pessoal, semântica, orientação).
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Fenômeno | Intencionalidade | Consciência do Déficit | Base Mnêmica | Plausibilidade | Contextos Típicos |
|---|---|---|---|---|---|
| Confabulação | Involuntária | Ausente (Anosognosia) | Memórias reais deslocadas ou combinadas | Alta (plausível) | Korsakoff, Demências, TCE, Estado Confusional |
| Pseudologia Fantástica (Mentira Patológica) | Voluntária | Presente | Fantasia, invenção | Variável (pode ser fantástica) | Transtornos de Personalidade (histriônica, borderline, antissocial) |
| Delírio | Involuntária | Ausente (Convicção delirante) | Interpretação errônea de percepções ou pensamentos | Baixa (bizarro, implausível) | Esquizofrenia, Transtorno Delirante, Episódios Afetivos Psicóticos |
| Alucinação Mnêmica | Involuntária | Geralmente ausente | Nenhuma (criação sensorial nova) | Variável (pode ter aparência de memória) | Esquizofrenia, Epilepsia do Lobo Temporal |
| Memória Falsa Normal | Involuntária | Pode estar presente após reflexão | Distorção de traços mnêmicos | Alta | População geral, sob sugestionabilidade |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Confundir com Simulação ou Mentira: Atribuir intencionalidade ao paciente, levando a abordagens confrontativas e prejudiciais à relação terapêutica.
- Superestimar a Capacidade Cognitiva: A fluência e plausibilidade das confabulações podem enganar o clínico inexperiente, subestimando a gravidade da amnésia e da disfunção executiva.
- Atribuir ao Envelhecimento Normal: Confabulações sutis em idosos podem ser erroneamente vistas como "exageros" ou "confusão benigna da idade", atrasando o diagnóstico de uma demência.
- Não Investigar a Causa Primária: Tratar a confabulação como um fenômeno isolado, sem buscar a etiologia subjacente (ex.: deficiência de B1, hidrocefalia, tumor).
Condições associadas
O déficit de monitoração de fontes e as confabulações são sinais focais de disfunção cerebral orgânica, não específicos de uma única doença. Sua presença orienta a investigação para condições que afetam os circuitos fronto-límbico-diencefálicos.
-
Transtornos Amnésticos (CID-11: 6D72, DSM-5-TR: Amnestic Disorder):
- Síndrome de Wernicke-Korsakoff: O protótipo clássico. A fase confabulatória (Korsakoff) segue geralmente a fase de encefalopatia aguda (Wernicke). A tríade é amnésia anterógrada grave, amnésia retrógada e confabulações.
- Amnésia Pós-Traumática.
- Amnésia Pós-encefalítica ou Pós-isquêmica.
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Demências (CID-11: 6D80-6D8Z, DSM-5-TR: Major Neurocognitive Disorder):
- Demência na Doença de Alzheimer: Confabulações podem aparecer em fases moderadas, à medida que a disfunção frontal se soma ao déficit hipocampal.
- Demência Frontotemporal (Variante Comportamental): A disfunção frontal proeminente pode levar a confabulações significativas, mesmo com memória episódica relativamente menos afetada no início.
- Demência Vascular: Especialmente com lesões estratégicas nos núcleos talâmicos ou territórios da artéria cerebral anterior (afetando córtex frontal medial).
- Demência por Corpos de Lewy: As flutuações cognitivas e os déficits atencionais podem se assemelhar e coexistir com fenômenos confabulatórios.
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Delirium (CID-11: 6D70, DSM-5-TR: Delirium): A desorganização aguda global da cognição, atenção e consciência pode incluir relatos confusos e confabulatórios sobre o período do episódio. A memória de fixação está gravemente prejudicada.
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Esquizofrenia (CID-11: 6A20, DSM-5-TR: Schizophrenia): Embora não seja o quadro típico, estudos neuropsicológicos detalhados mostram que alguns pacientes podem apresentar distúrbios de memória, incluindo alomnésias e paramnésias, em consonância com a temática delirante. A confabulação aqui é menos comum e deve ser diferenciada de delírios ou alucinações mnêmicas.
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Outras Condições: Aneurisma da artéria comunicante anterior, tumores da região frontal ou diencefálica, hidrocefalia de pressão normal, doenças metabólicas e tóxicas (ex.: intoxicação por monóxido de carbono).
Implicações terapêuticas
Não existe um tratamento farmacológico específico para o déficit de monitoração de fontes ou para confabulações. A abordagem é etiológica e sintomática, focada na condição de base e no manejo das consequências.
Abordagem Farmacológica:
- Tratamento da Causa Primária: Esta é a intervenção mais crucial.
- Síndrome de Wernicke-Korsakoff: Reposição urgente e em altas doses de Tiamina (vitamina B1) parenteral, seguida de suplementação oral crônica. Pode impedir a progressão e, em alguns casos, levar a melhora parcial.
- Demências: Inibidores da acetilcolinesterase (donepezila, rivastigmina, galantamina) e memantina podem melhorar globalmente a cognição, incluindo aspectos de memória e funções executivas, podendo indiretamente reduzir a frequência de confabulações.
- Delirium: Identificar e tratar a causa (infecção, metabólica, tóxica). Antipsicóticos atípicos em baixa dose (ex.: risperidona, quetiapina) podem ser usados com cautela para agitação, mas não tratam a confabulação per se.
- Sintomático/Modulador: A evidência é limitada e anedótica. Alguns relatos sugerem que agonistas colinérgicos ou agentes que modulam a função frontal (como alguns antidepressivos noradrenérgicos – ex.: atomoxetina, ou estimulantes – ex.: metilfenidato) podem, em casos selecionados, melhorar a atenção e funções executivas, reduzindo confabulações. O uso de antipsicóticos típicos é desencorajado, pois podem piorar a cognição.
Abordagens Psicoterapêuticas e de Reabilitação:
- Reabilitação Neuropsicológica: Foco em compensação e adaptação.
- Estratégias Mnemônicas Externas: Uso rigoroso de agenda, diário, calendários, quadros com informações básicas, alarmes e listas. O objetivo é reduzir a dependência da memória falha, minimizando as situações que eliciam confabulações.
- Treino de Rotinas: Estabelecer rotinas diárias muito estruturadas reduz a necessidade de tomada de decisões baseadas em memórias imprecisas.
- Terapia da Realidade Orientadora: Abordagens suaves e não-confrontativas para reorientar o paciente no tempo e espaço, usando pistas externas, sem confrontar diretamente as confabulações.
- Psicoeducação Familiar: É fundamental. A família deve entender que as confabulações são sintomas involuntários de uma lesão cerebral, e não mentiras ou "frescura". Deve-se orientar a:
- Não confrontar ou ridicularizar o paciente.
- Não fazer perguntas que exponham as lacunas de memória (ex.: "O que você fez hoje?").
- Fornecer informações de forma clara e factual quando necessário.
- Validar o sentimento, não o conteúdo falso (ex.: Se o paciente diz que precisa ir para casa cuidar do cachorro (que morreu há anos), responder: "Vejo que você está preocupado e se sente responsável. Fique tranquilo, o [nome do cachorro] está bem cuidado").
- Terapia Ocupacional: Adaptação do ambiente e das atividades para maximizar a funcionalidade e segurança, considerando os déficits de memória e julgamento.
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
O prognóstico está intimamente ligado à etiologia. Em condições estáticas (ex.: Korsakoff após tratamento com tiamina, sequelas de TCE), as confabulações podem diminuir de intensidade com o tempo, mas a amnésia costuma ser permanente. Em condições progressivas (demências), as confabulações podem aumentar ou se transformar em silêncio e apatia à medida que a doença avança. A resposta ao tratamento sintomático é geralmente modesta. O maior impacto no prognóstico funcional vem da reabilitação neuropsicológica e do suporte familiar adequado.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Como o Paciente Vivencia:
Para o paciente, as confabulações são memórias verdadeiras. Ele não experiencia um "processo de inventar"; ele experiencia o "processo de recordar". Portanto, sua vivência subjetiva é de estar relatando fatos reais. A desorientação e as lacunas podem causar uma sensação vaga de confusão ou estranhamento, que é rapidamente resolvida pela narrativa confabulada, restaurando uma sensação ilusória de continuidade e coerência autobiográfica. A confrontação gera perplexidade, irritação ou mesmo uma nova confabulação para justificar a inconsistência ("Ah, então eu devo ter sonhado com isso").
Orientações para Comunicação Clínica e Familiar:
- Estabeleça Rapport com Empatia: Reconheça a dificuldade sem focar no erro. "Sei que pode ser difícil se lembrar de algumas coisas."
- Evite Perguntas-Teste: Substitua "O que você fez hoje?" por afirmações informativas: "Bom dia, hoje é terça-feira, dia da sua sessão de fisioterapia."
- Use Pistas Contextuais e Não-Confrontação: Se o paciente confabula, não diga "Isso não é verdade". Redirecione suavemente com base no contexto real. Ex.: Paciente: "Meu irmão veio me visitar ontem." Clínico/Familiar: "Fico feliz que você tenha bons momentos com seu irmão. Ele ligou para você pela manhã, não foi? Ele manda lembranças."
- Foque no Sentimento, não no Fato: Responda ao componente emocional da narrativa.
- Mantenha um Ambiente Previsível: Rotinas e ambientes consistentes reduzem a ansiedade e a necessidade de confabular para dar sentido ao desconhecido.
- Comunicação entre a Equipe: Profissionais devem registrar e compartilhar informações precisas sobre o paciente (histórico, rotina) para garantir que todos forneçam as mesmas informações consistentes, evitando contaminar ainda mais a memória do paciente.
Impacto Funcional:
- Autonomia: Prejuízo grave. Incapacidade de gerenciar finanças, medicações, compromissos. Risco de se perder, de tomar decisões perigosas baseadas em memórias falsas.
- Relacionamentos: Podem se tornar tensos e confusos. Familiares podem se sentir enganados ou frustrados. O paciente pode acusar outros de roubo (quando ele mesmo esconde objetos e não se lembra) ou criar conflitos baseados em eventos inexistentes.
- Qualidade de Vida: A falsa sensação de normalidade pode ser um alívio ilusório a curto prazo, mas a incapacidade funcional real e o isolamento social progressivo levam a uma piora significativa da qualidade de vida. O risco de institucionalização é alto devido aos desafios de cuidado.
Perguntas frequentes
1. O paciente está mentindo para me manipular?
Não. A confabulação é um sintoma involuntário de uma disfunção cerebral, especificamente uma falha nos sistemas de verificação da memória. Não há intenção de enganar. Atribuir má-fé é um erro clínico que prejudica a relação terapêutica e o manejo adequado.
2. Devo corrigi-lo sempre que ele contar algo falso?
Geralmente não. A confrontação direta é ineficaz (pois ele não reconhece o erro) e costuma gerar angústia, vergonha ou agressividade. A estratégia mais eficaz é o redirecionamento suave e o foco na informação correta, sem discutir a falsidade da memória.
3. Confabulação tem cura?
A cura depende da causa de base. Em condições estáticas e não progressivas (ex.: Korsakoff estabilizado, algumas sequelas de AVC), as confabulações podem atenuar com o tempo, mas os déficits de memória costumam persistir. Em doenças progressivas (demências), o sintoma pode evoluir. O foco do tratamento é no manejo da causa e na reabilitação funcional.
4. Qual a diferença entre confabulação e delírio?
A confabulação é sempre sobre memórias (eventos passados, falsamente recordados). É plausível e o paciente está orientado (exceto no tempo). O delírio é uma crença falsa sobre o presente ou futuro (ex.: perseguição, grandeza, ciúme). É frequentemente implausível ou bizarro e pode ocorrer em um paciente com orientação preservada. Ambos envolvem convicção, mas o objeto da falsa crença é diferente.
5. É possível uma pessoa sem demência ou alcoolismo ter confabulações?
Sim, mas é incomum. Qualquer condição que lesione os circuitos fronto-límbico-diencefálicos pode causar confabulações. Isso inclui traumatismo cranioencefálico grave, tumores cerebrais, aneurismas, encefalites, hidrocefalia e algumas doenças metabólicas raras.
6. Como posso ajudar um familiar que confabula?
A principal ajuda é a psicoeducação e adaptação do ambiente. Entenda que é um sintoma. Evite perguntas que testem a memória. Use lembretes visuais (calendários, quadros). Mantenha rotinas. Forneça informações de forma clara. Busque avaliação médica para diagnóstico e tratamento da causa. Considere suporte com um neuropsicólogo ou terapeuta ocupacional especializado em reabilitação cognitiva.
7. Medicamentos para memória, como Ginkgo biloba, ajudam nas confabulações?
Não há evidência científica robusta de que suplementos como Ginkgo biloba ou outros "nutracêuticos" melhorem confabulações decorrentes de lesão cerebral orgânica. O tratamento deve ser direcionado à causa específica, sob supervisão médica.
8. As confabulações pioram à noite (como no sundowning)?
O fenômeno de sundowning (agitação e confusão no fim da tarde/noite) é comum em demências e delirium. Nele, a fadiga, redução da luminosidade e desorganização do ciclo sono-vigília podem exacerbar todos os déficits cognitivos, incluindo a tendência a confabular. Portanto, sim, em pacientes com predisposição, as confabulações podem se tornar mais frequentes ou mais desorganizadas nesses períodos.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- Dalla Barba, G. (1993). Confabulation: Knowledge and recollective experience. Cognitive Neuropsychology, 10(1), 1-20.
- Dalla Barba, G., & La Corte, V. (2015). The hippocampus, a time machine that makes errors. Trends in Cognitive Sciences, 19(6), 351-352.
- Johnson, M.K., Hashtroudi, S., & Lindsay, D.S. (1993). Source monitoring. Psychological Bulletin, 114(1), 3-28.
- Shakeel, M.K., & Docherty, N.M. (2015). Confabulations in schizophrenia. Cognitive Neuropsychiatry, 20(1), 1-13.
- Alonso-Fernández, F. (1976). Fundamentos de la Psiquiatría Actual. Madrid: Paz Montalvo.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.