O que é e para que serve?
A moclobemida é um antidepressivo. Ela pertence a uma família de remédios chamada IMAO — que significa “Inibidor da Monoamina Oxidase”. Dentro dessa família, ela é considerada um tipo mais moderno e mais seguro, chamado de RIMA (Inibidor Reversível da MAO-A). Se esses nomes parecem complicados, não se preocupe — o que importa saber é que ela age aumentando a quantidade de substâncias químicas ligadas ao humor no seu cérebro.
Ela é usada principalmente para tratar depressão maior e transtorno bipolar. Alguns médicos também a utilizam para fobia social (aquele medo intenso de situações sociais). No Brasil, a moclobemida é comercializada principalmente com o nome Aurorix®. Pode ser encontrada em comprimidos de 150 mg.
Por ser um IMAO de geração mais nova, ela tem algumas vantagens em relação aos IMAOs mais antigos — como ser mais segura em caso de overdose acidental e exigir menos restrições alimentares. Mesmo assim, alguns cuidados com a alimentação ainda são necessários, e vamos falar sobre isso mais adiante.
Como ele age no seu cérebro?
Imagine que o seu cérebro é uma cidade movimentada, e os neurônios (células do cérebro) são os moradores dessa cidade. Eles se comunicam o tempo todo jogando “mensageiros” de um para o outro — esses mensageiros são substâncias chamadas serotonina, noradrenalina e dopamina. Quando você está deprimido, é como se esses mensageiros fossem destruídos rápido demais antes de conseguir entregar o recado.
Existe uma “enzima” (uma espécie de tesoura química) chamada MAO-A, cuja função é destruir esses mensageiros depois que eles cumprem seu papel. O problema é que, em algumas pessoas, essa tesoura trabalha rápido demais — e os mensageiros somem antes de fazer efeito suficiente.
A moclobemida age bloqueando temporariamente essa tesoura. Com a MAO-A menos ativa, a serotonina, a noradrenalina e a dopamina ficam disponíveis por mais tempo no cérebro — e aí o humor começa a melhorar. O “temporariamente” aqui é importante: ao contrário dos IMAOs mais antigos, que bloqueavam essa tesoura de forma permanente, a moclobemida faz isso de forma reversível, ou seja, o bloqueio se desfaz sozinho ao longo do dia. Isso a torna mais segura e mais fácil de manejar.
Quando começa a fazer efeito?
Aqui vai uma verdade que todo mundo precisa ouvir: antidepressivos não funcionam da noite para o dia. A moclobemida não é diferente. O efeito completo costuma aparecer entre 2 a 4 semanas de uso contínuo — e em alguns casos pode levar até 6 semanas.
Pense assim: é como regar uma planta. Você não vê ela crescer no dia seguinte à primeira rega, mas isso não significa que nada está acontecendo. O remédio vai, aos poucos, reequilibrando a química do seu cérebro.
Nas primeiras semanas, é comum não sentir melhora no humor — e algumas pessoas até percebem um leve aumento de ansiedade ou agitação no começo. Isso é esperado e tende a passar. O que pode aparecer antes é uma melhora no sono ou na energia. Se depois de 4 a 6 semanas você não sentir nenhuma diferença, converse com seu médico — pode ser necessário ajustar a dose ou trocar o remédio.
Como tomar corretamente
A dose habitual começa em 300 mg por dia, geralmente dividida em 2 ou 3 tomadas. O médico pode aumentar até 600 mg por dia se necessário. A dose mínima costuma ser de 150 mg por dia.
Tome sempre depois das refeições. Isso não é capricho: comer antes de tomar o remédio ajuda a reduzir o risco de interação com alimentos ricos em tiramina (como queijos curados e embutidos). Falaremos mais sobre isso na seção de cuidados.
Se esquecer uma dose, tome assim que lembrar — desde que ainda não esteja perto do horário da próxima. Se já estiver quase na hora da próxima dose, pule a que esqueceu e siga normalmente. Nunca tome duas doses de uma vez para compensar.
Um ponto muito importante: não pare de tomar por conta própria, mesmo que esteja se sentindo bem. Diferente de alguns outros antidepressivos, a moclobemida geralmente não precisa de redução gradual para ser interrompida — mas a decisão de parar deve sempre ser do seu médico, não sua. Parar antes da hora pode fazer a depressão voltar.
Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem
Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)
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Insônia: A moclobemida aumenta a serotonina e a noradrenalina no cérebro — e isso pode “ativar” o sistema nervoso mais do que o desejado, dificultando o sono, especialmente nas primeiras semanas. Se acontecer, evite tomar o remédio à noite e avise seu médico.
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Tontura: Com o aumento de noradrenalina, pode haver uma pequena variação na pressão arterial, causando aquela sensação de cabeça leve ao levantar rápido. Levante devagar da cama ou da cadeira e isso costuma ajudar.
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Agitação e ansiedade: Pelo mesmo motivo da insônia — o sistema nervoso fica mais “ligado”. Geralmente passa nas primeiras semanas. Se for muito intensa, fale com seu médico.
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Náusea, diarreia ou constipação: O intestino tem muitos receptores de serotonina, e quando o nível dessa substância sobe, o intestino pode reagir de formas diferentes em cada pessoa. Tomar o remédio depois de comer ajuda bastante.
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Boca seca: Acontece porque o aumento de noradrenalina pode reduzir a produção de saliva. Beber água com frequência e manter uma boa higiene bucal ajudam.
Menos comuns
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Dor de cabeça: Pode aparecer no início do tratamento e costuma melhorar sozinha. Analgésicos comuns (como paracetamol) podem ser usados — mas evite ibuprofeno sem falar com seu médico, pois a moclobemida pode potencializar seus efeitos.
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Galactorreia (saída de leite pelo mamilo fora da amamentação): É raro, mas pode acontecer por alterações em hormônios ligados às monoaminas. Se ocorrer, avise seu médico imediatamente.
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Inquietação (acatisia): Uma sensação de não conseguir ficar parado, como se as pernas quisessem se mover o tempo todo. Avise seu médico se isso acontecer.
Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)
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Crise hipertensiva (pressão muito alta de repente): Pode acontecer se você comer alimentos muito ricos em tiramina ou tomar certos medicamentos junto com a moclobemida. Os sinais são dor de cabeça forte e repentina, visão turva, batimento cardíaco acelerado e sensação de que algo está muito errado. Vá a uma emergência imediatamente.
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Síndrome serotoninérgica: Acontece quando há serotonina em excesso no cérebro — geralmente por misturar a moclobemida com outros remédios que também aumentam serotonina (como fluoxetina, sertralina ou tramadol). Os sinais são agitação extrema, tremores, confusão mental, febre e rigidez muscular. É uma emergência médica — vá a uma UPA ou pronto-socorro.
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Pensamentos de se machucar: Especialmente nas primeiras semanas de tratamento, alguns pacientes — principalmente jovens — podem sentir um aumento temporário de pensamentos negativos ou suicidas. Se isso acontecer, não fique sozinho e ligue imediatamente para seu médico ou para o CVV (188).
O que fazer se tiver efeitos colaterais?
A maioria dos efeitos colaterais da moclobemida é leve e passa nas primeiras 2 a 3 semanas. Mas isso não significa que você precisa sofrer calado.
Ligue para seu médico se:
– Os efeitos colaterais estiverem atrapalhando muito seu dia a dia
– A insônia ou a ansiedade estiverem piorando depois de 2 semanas
– Você sentir qualquer coisa que pareça fora do comum
Vá a uma UPA ou emergência se:
– Sentir dor de cabeça muito forte e repentina
– Tiver tremores, febre e confusão ao mesmo tempo
– Sentir o coração disparado com pressão alta
O que NÃO fazer:
– Não pare o remédio de repente por conta própria sem falar com o médico
– Não tome uma dose dupla para compensar uma esquecida
– Não misture com outros remédios sem avisar seu médico — mesmo remédios “naturais” ou de venda livre
Cuidados importantes
Alimentos com tiramina
A tiramina é uma substância presente em alguns alimentos que, em condições normais, é destruída pela MAO-A no intestino. Como a moclobemida bloqueia essa enzima, a tiramina pode ser absorvida em excesso e causar um pico de pressão arterial. A boa notícia é que a moclobemida é mais segura que os IMAOs antigos nesse sentido — você não precisa fazer uma dieta rígida, mas deve evitar exageros com:
– Queijos muito curados (parmesão, gorgonzola, brie)
– Embutidos e frios (salame, presunto cru, linguiça)
– Vinho tinto, cerveja escura e bebidas fermentadas
– Molho de soja em grandes quantidades
Tomar o remédio depois das refeições ajuda a reduzir ainda mais esse risco.
Interações com outros remédios
Alguns remédios não podem ser usados junto com a moclobemida. Os mais importantes são:
– Antidepressivos serotoninérgicos (fluoxetina, sertralina, paroxetina, venlafaxina): risco de síndrome serotoninérgica — uma combinação perigosa
– Tramadol (analgésico comum): pode causar convulsões
– Sumatriptana (usada para enxaqueca): pode causar crise de pressão alta
– Cimetidina (para gastrite): aumenta a concentração da moclobemida no sangue
– Levodopa (para Parkinson): pode causar pico de pressão
Sempre avise todos os seus médicos e dentistas que você está tomando moclobemida — inclusive antes de qualquer cirurgia ou anestesia.
Álcool
Evite. O álcool é um depressor do sistema nervoso central e pode tanto reduzir o efeito do antidepressivo quanto aumentar a sedação e o risco de queda de pressão.
Gravidez e amamentação
A moclobemida passa em pequenas quantidades para o leite materno. Por segurança, ela não é recomendada durante a amamentação. Se você está grávida ou planejando engravidar, converse com seu médico — a decisão de continuar ou trocar o remédio precisa ser feita caso a caso, pesando riscos e benefícios.
Idosos
Pessoas mais velhas podem ser mais sensíveis aos efeitos da moclobemida, especialmente à tontura e à variação de pressão. O médico pode prescrever doses menores para começar.
Crianças e adolescentes
A moclobemida não é recomendada para menores de 18 anos. Se você é responsável por um adolescente, converse com o médico sobre as alternativas disponíveis.
Problemas no fígado
O fígado é responsável por processar a moclobemida. Se você tem alguma doença hepática, pode precisar de doses menores — o médico vai ajustar conforme necessário.
Perguntas frequentes
Vou ficar dependente da moclobemida?
Não. A moclobemida não causa dependência química nem síndrome de abstinência grave. Diferente de ansiolíticos como o clonazepam, você não vai precisar de doses cada vez maiores para sentir o mesmo efeito, e não vai ter “fissura” se parar. Dito isso, parar sem orientação médica pode fazer a depressão voltar — então sempre converse com seu médico antes de interromper.
Posso beber álcool enquanto tomo esse remédio?
O ideal é evitar. O álcool pode reduzir o efeito do antidepressivo, aumentar a sonolência e ainda interagir com a tiramina presente em bebidas fermentadas. Uma taça ocasional provavelmente não vai causar um desastre, mas beber com frequência ou em grandes quantidades é um problema real.
Posso parar de tomar quando me sentir bem?
Essa é uma das perguntas mais comuns — e a resposta é: não por conta própria. Sentir-se bem é sinal de que o remédio está funcionando, não de que você não precisa mais dele. A maioria dos médicos recomenda continuar por pelo menos 6 meses após a melhora dos sintomas para reduzir o risco de recaída. A decisão de parar é sempre do médico, junto com você.
E se eu esquecer de tomar um dia?
Tome assim que lembrar, se ainda não estiver perto da próxima dose. Se já estiver quase na hora da próxima, pule a esquecida e siga normalmente. Esquecer um dia raramente causa problemas — o que não pode acontecer é parar de tomar por vários dias sem avisar o médico.
A moclobemida vai me deixar “zumbi” ou sem personalidade?
Não. Antidepressivos bem ajustados não apagam quem você é — eles tiram o peso da depressão para que você consiga ser você mesmo de novo. Se você sentir que está se sentindo entorpecido, sem emoções ou “diferente de si mesmo” de um jeito ruim, avise seu médico. Pode ser necessário ajustar a dose.
Referências
- Stahl, S. M. Fundamentos de Psicofarmacologia de Stahl, 3ª ed. Artmed, 2014. (pp. 510–513)
- Sadock, B. J.; Sadock, V. A.; Sussman, N. Psicofarmacologia Prática, 5ª ed. Artmed. (p. 662)
- PubChem — National Library of Medicine. Moclobemide: Pharmacology and Biochemistry. Disponível em: https://pubchem.ncbi.nlm.nih.gov/compound/Moclobemide
Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.