Midazolam

O que é e para que serve?

O midazolam é um sedativo e ansiolítico da família dos benzodiazepínicos — a mesma família do diazepam (Valium) e do clonazepam (Rivotril). Em termos simples, é um remédio que desacelera a atividade do cérebro, causando sonolência, relaxamento e, em doses maiores, sono. Ele age rápido e sai do organismo relativamente rápido também, o que o torna muito útil em situações pontuais e controladas.

No Brasil, o midazolam é encontrado principalmente nas formas injetável e líquida oral, e é usado quase sempre dentro de hospitais, clínicas e prontos-socorros — não é um remédio para uso em casa de forma rotineira. Os nomes comerciais mais comuns no Brasil são Dormicum® e Dormonid®, além das versões genéricas com o próprio nome “midazolam”. Existe também a formulação nasal (spray), usada em crises convulsivas.

As situações em que ele é prescrito incluem: sedação antes de procedimentos médicos (como endoscopia, cateterismo, pequenas cirurgias), indução de anestesia geral, tratamento de crises convulsivas prolongadas (como o estado de mal epiléptico), sedação em UTI para pacientes em ventilação mecânica, e ocasionalmente no manejo de catatonia (um estado de rigidez e imobilidade que pode ocorrer em algumas doenças psiquiátricas graves). Em crianças, o xarope oral é usado para deixá-las mais calmas e relaxadas antes de procedimentos.


Como ele age no seu cérebro?

Pense no seu cérebro como uma cidade movimentada, cheia de carros (sinais elétricos) trafegando em alta velocidade. Existe um sistema de semáforos nessa cidade chamado GABA — ele é o principal “freio” do cérebro, responsável por dizer “calma, vai devagar” para os neurônios. O midazolam não cria novos semáforos, mas faz os que já existem funcionarem muito melhor e por mais tempo. O resultado é que o trânsito cerebral desacelera: a ansiedade cai, o corpo relaxa, o sono vem, e a pessoa pode até não guardar memória do que aconteceu durante o efeito do remédio.

Esse efeito de “apagar a memória” durante o procedimento é, na verdade, intencional e bem-vindo em muitos casos. Imagine fazer uma endoscopia e não lembrar de nada — para a maioria das pessoas, isso é um alívio enorme. Estudos mostram que mais de 70% dos pacientes que recebem midazolam antes de uma endoscopia não guardam nenhuma lembrança do procedimento.

O midazolam age muito rápido (em minutos, quando injetado) e também é eliminado pelo organismo com relativa rapidez, o que o diferencia de outros benzodiazepínicos mais “pesados” e duradouros.


Quando começa a fazer efeito?

O midazolam é um dos remédios de ação mais rápida que existem na medicina. Não é como um antidepressivo que você toma por semanas esperando resultado — aqui o efeito é quase imediato:

  • Pela veia (intravenoso): o efeito começa em 3 a 5 minutos
  • Pelo músculo (intramuscular): o efeito aparece em 15 minutos, com pico entre 30 e 60 minutos
  • Pelo nariz (spray nasal): início em torno de 5 minutos
  • Pela boca (xarope): um pouco mais lento, mas ainda assim rápido para um remédio oral

Depois que o efeito passa, a pessoa pode ficar com sonolência residual por algumas horas. A recuperação completa — conseguir ficar de pé, caminhar com segurança, raciocinar normalmente — geralmente leva de 2 a 6 horas após acordar. Por isso, após procedimentos com midazolam, você não pode dirigir ou tomar decisões importantes no mesmo dia.


Como tomar corretamente

O midazolam quase sempre é administrado por um profissional de saúde em ambiente hospitalar — você raramente vai se medicar sozinho com ele. Mas há algumas situações em que a família de uma pessoa com epilepsia recebe o spray nasal para usar em casa durante uma crise. Nesses casos, o médico dá instruções detalhadas sobre quando e como usar.

Orientações gerais:

  • Nunca use por conta própria sem orientação médica — a dose certa depende do seu peso, idade, condição de saúde e do que vai ser feito
  • Se você recebeu o spray nasal para emergências em casa, guarde-o em local acessível e certifique-se de que alguém da família sabe como usar
  • Não tome álcool no dia em que receber midazolam — o risco é sério (veja a seção de cuidados)
  • Após o procedimento, não dirija, não assine documentos importantes e não tome decisões grandes nas próximas 12 a 24 horas — sua memória e julgamento podem estar afetados mesmo que você se sinta bem

Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem

Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)

  • Sonolência excessiva: É o efeito principal do remédio, então faz sentido que persista por algumas horas. O cérebro ainda está “desacelerado” mesmo depois do procedimento. Passa sozinho com o tempo.

  • Tontura e falta de equilíbrio: O midazolam relaxa não só a ansiedade, mas também os músculos e os reflexos. Isso pode fazer você se sentir “bêbado” por algumas horas. Fique sentado ou deitado até passar.

  • Náusea e vômito: Acontece em cerca de 3% das pessoas. O cérebro, ao ser sedado, pode ativar o centro do vômito como resposta. Geralmente é leve e passa rápido.

  • Soluço: Parece estranho, mas acontece em quase 4% dos pacientes. O relaxamento muscular pode irritar o diafragma temporariamente.

  • Dor ou vermelhidão no local da injeção: A solução pode irritar a veia ou o músculo. É passageiro.

  • Memória apagada do procedimento: Tecnicamente é um efeito desejado, mas pode assustar quem não estava esperando. É normal não lembrar de nada — o remédio interfere na formação de novas memórias enquanto está ativo.

Menos comuns

  • Queda de pressão arterial: O midazolam relaxa os vasos sanguíneos, o que pode fazer a pressão cair um pouco. Por isso você é monitorado durante o procedimento.

  • Respiração mais lenta: O cérebro controla a respiração, e ao ser sedado, pode “esquecer” de respirar tão rápido quanto deveria. Em doses normais e com monitoramento, isso é controlado. É por isso que o midazolam só é dado em ambientes com equipamento de suporte.

  • Agitação paradoxal: Em algumas pessoas — especialmente crianças e idosos — o midazolam pode causar o efeito oposto ao esperado: agitação, choro, movimentos descoordenados. Parece contraditório, mas acontece porque o freio cerebral, ao ser ativado, pode liberar comportamentos que normalmente ficam inibidos. Se isso ocorrer, avise a equipe imediatamente.

  • Visão turva ou dupla: O relaxamento dos músculos dos olhos pode causar dificuldade de foco temporária. Passa com o efeito do remédio.

Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)

  • Parada ou dificuldade grave de respirar (apneia): O risco maior acontece quando o midazolam é combinado com opioides (morfina, fentanil) ou outros sedativos. A respiração pode ficar tão lenta que precisa de intervenção. É por isso que esse remédio só é dado com monitoramento e com equipamento de ressuscitação por perto.

  • Reação alérgica grave: Urticária, inchaço no rosto, dificuldade de respirar logo após a aplicação. Raro, mas requer atendimento imediato.

  • Queda grave de pressão com desmaio: Mais comum em idosos e pessoas com problemas cardíacos. A equipe médica está preparada para isso.


O que fazer se tiver efeitos colaterais?

Durante o procedimento: você está monitorado — a equipe vai perceber qualquer problema antes de você. Não precisa se preocupar com isso.

Depois de ir para casa:

  • Se sentir tontura, fique deitado e peça ajuda para se movimentar — não tente andar sozinho até se sentir estável
  • Sonolência nas primeiras horas é esperada — durma se precisar, é o corpo se recuperando
  • Vá a uma UPA ou emergência se: tiver dificuldade para respirar, sentir o coração acelerado ou irregular, desmaiar, ou se a sonolência for tão intensa que não consegue ser acordado normalmente
  • Não tome outros remédios sedativos, álcool ou drogas nas horas seguintes sem falar com o médico

Existe um antídoto para o midazolam chamado flumazenil — ele reverte o efeito do remédio rapidamente. Hospitais e prontos-socorros têm esse medicamento disponível para situações de emergência.


Cuidados importantes

Álcool e outras substâncias sedativas: Misturar midazolam com álcool, morfina, codeína, tramadol ou qualquer outro sedativo é perigoso de verdade. Os dois juntos podem fazer a respiração parar. Não é exagero — é um risco real e documentado. Evite completamente.

Outros remédios que interagem:
Antibióticos como eritromicina e antifúngicos como cetoconazol fazem o midazolam durar mais tempo no sangue, aumentando o risco de sedação excessiva
Alguns antidepressivos (como fluvoxamina) têm efeito parecido — sempre informe ao médico todos os remédios que você usa

Gravidez: O midazolam atravessa a placenta e pode chegar ao bebê. Bebês de mães que usaram benzodiazepínicos durante a gravidez podem nascer com fraqueza muscular. Se você está grávida ou pode estar, informe o médico antes de qualquer procedimento.

Amamentação: Pequenas quantidades do remédio passam para o leite materno. Se você amamentou recentemente ou vai amamentar, converse com o médico — pode ser necessário aguardar algumas horas antes de dar o peito.

Idosos: O organismo de pessoas mais velhas elimina o midazolam mais devagar, então o efeito dura mais e o risco de queda de pressão e de respiração lenta é maior. Doses menores são usadas nessa faixa etária.

Pessoas com obesidade: A gordura corporal “guarda” o midazolam por mais tempo, fazendo o efeito durar além do esperado.

Glaucoma de ângulo fechado: Se você tem esse tipo específico de glaucoma, o midazolam é contraindicado — informe o médico antes.


Perguntas frequentes

Vou ficar dependente do midazolam?
Quando usado pontualmente para um procedimento, o risco de dependência é praticamente zero. A dependência de benzodiazepínicos acontece com uso prolongado e repetido — dias ou semanas seguidos. Uma ou duas doses para uma cirurgia ou exame não criam dependência.

Por que não vou lembrar do procedimento?
O midazolam tem um efeito chamado amnésia anterógrada — ele bloqueia temporariamente a capacidade do cérebro de gravar novas memórias. É como se o “gravador” fosse desligado por algumas horas. Isso é intencional: procedimentos médicos podem ser desconfortáveis, e não guardar essa memória é, na maioria das vezes, um benefício.

Posso dirigir depois do procedimento?
Não. Mesmo que você se sinta bem, seu tempo de reação e seu julgamento podem estar comprometidos por horas sem que você perceba. Organize transporte com antecedência — um familiar ou aplicativo de transporte. Essa regra vale para o dia todo do procedimento.

O remédio vai me deixar inconsciente?
Depende da dose. Em doses menores, você fica sedado mas ainda responde a estímulos — é a chamada “sedação consciente”. Em doses maiores, usadas para anestesia geral, a perda de consciência é completa. O médico ajusta a dose conforme o que precisa ser feito.

Tenho medo de não acordar — isso pode acontecer?
É uma preocupação muito comum e completamente compreensível. O risco existe, mas é muito pequeno quando o midazolam é usado por profissionais treinados, com monitoramento adequado e equipamento de suporte disponível. Hospitais e clínicas sérias têm protocolos exatamente para isso. O antídoto (flumazenil) também fica disponível durante todo o procedimento.


Referências

  • Stahl, S.M. Fundamentos de Psicofarmacologia de Stahl, 3ª ed. Artmed, 2014. pp. 493–495.
  • PubChem — National Library of Medicine. Midazolam: Pharmacology and Biochemistry. Disponível em: pubchem.ncbi.nlm.nih.gov
  • FDA. Midazolam Injection — Full Prescribing Information. U.S. Food and Drug Administration. Disponível em: fda.gov

Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.

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