Definição e conceito
Micrografia é um sinal psicomotor caracterizado pela produção de uma escrita progressivamente menor, com redução do tamanho das letras e da amplitude dos traços ao longo de um texto ou frase. É um fenômeno de hipocinesia (redução dos movimentos) específico do ato motor complexo da escrita, inserido no domínio das alterações qualitativas da psicomotricidade. Na semiologia psiquiátrica e neurológica, a micrografia é classicamente considerada um sinal de parkinsonismo, seja de origem idiopática (Doença de Parkinson), secundária (parkinsonismo medicamentoso) ou associada a outras condições neuropsiquiátricas, como a síndrome catatônica.
O termo deriva do grego mikrós (pequeno) e graphía (escrita). Em inglês, utiliza-se o mesmo termo: micrographia. É fundamental distingui-la de outros distúrbios da escrita:
- Macrografia: Escrita com letras anormalmente grandes, associada a quadros de hipercinesia ou lesões cerebelares.
- Disgrafia: Distúrbio mais amplo da habilidade de escrever, envolvendo problemas de ortografia, organização espacial e formação de letras, frequentemente ligado a transtornos de aprendizagem ou déficits cognitivos.
- Agraphia: Perda completa da capacidade de escrever, geralmente por lesão cerebral focal (ex.: afasia de Broca).
- Tremor de escrita: Oscilação rítmica que interfere na linha, mas não reduz progressivamente o tamanho dos caracteres.
A micrografia não é um diagnóstico, mas um sinal semiológico de valor localizatório. Sua presença aponta para um comprometimento dos circuitos fronto-subcorticais, particularmente dos gânglios da base e suas conexões com o córtex pré-motor e suplementar, responsáveis pela iniciação, automatização e modulação da amplitude dos movimentos sequenciais finos, como a escrita.
Dados epidemiológicos específicos sobre a prevalência da micrografia isolada são escassos, pois ela é geralmente estudada como parte do espectro de sinais parkinsonianos. Na Doença de Parkinson (DP) clássica, estima-se que a micrografia esteja presente em 60% a 80% dos pacientes, podendo ser um dos primeiros sinais motores. No parkinsonismo induzido por neurolépticos (antipsicóticos), sua ocorrência depende da dose, potência e tempo de uso da medicação, sendo um componente da chamada "impregnação neuroléptica". Na catatonia, sua frequência é menos documentada, mas sua ocorrência é reconhecida como parte do espectro de alterações motoras complexas.
Apresentação clínica
A manifestação clínica da micrografia é puramente motora e observável. Ela se insere no domínio comportamental/somático da avaliação, sendo um achado objetivo ao exame.
Descrição detalhada:
O fenômeno é melhor observado quando se solicita ao paciente que escreva uma frase ou sequência de palavras em uma linha horizontal, sem pauta. Inicialmente, as primeiras letras ou palavras podem ter um tamanho próximo do normal ou já reduzido. À medida que a escrita progride, ocorre uma diminuição gradual e involuntária do tamanho das letras. Os traços tornam-se mais estreitos, a distância entre letras e palavras diminui, e a escrita pode ficar progressivamente mais apretada e ilegível. Em casos graves, a linha de escrita pode inclinar-se para cima ou para baixo, e o paciente pode relatar que a mão "fica travada" ou "cansa muito rápido". É comum que o paciente tente compensar o fenômeno escrevendo mais devagar, o que pode levar a uma maior tensão muscular e piora da legibilidade. A micrografia é tipicamente progressiva dentro do ato motor (da esquerda para a direita, em línguas ocidentais), o que a diferencia de uma letra simplesmente pequena, que mantém seu tamanho constante.
Exemplos clínicos concisos:
- Paciente com Doença de Parkinson: Ao escrever "O rato roeu a roupa do rei de Roma", as palavras "O rato roeu" são legíveis, mas "a roupa do" já apresenta letras menores e mais juntas, e "rei de Roma" torna-se um amontoado de traços quase indistinguíveis. O paciente comenta: "Doutor, minha letra está sumindo no papel".
- Paciente com Parkinsonismo Medicamentoso: Indivíduo em uso crônico de haloperidol para esquizofrenia. Durante a consulta de rotina, ao assinar o nome no documento, produz uma assinatura radicalmente diferente da sua habitual, com letras extremamente pequenas e contraídas. A família relata que ele evita escrever cartas, que antes gostava de fazer.
- Paciente com Estado Catatônico: Em um paciente com estupor catatônico que apresenta flexibilidade cerácea e mutismo, ao ser passivamente colocado para segurar uma caneta e guiado para escrever, produz uma sequência de letras que rapidamente se reduz a pequenos pontos ou riscos no papel, sem formar palavras coerentes, refletindo a extrema inibição psicomotora.
Neurobiologia e fisiopatologia
A micrografia é um marcador de disfunção nos circuitos dos gânglios da base, especificamente na via direta e indireta que modula o córtex motor. O modelo fisiopatológico central envolve a deficiência de dopamina na via nigroestriatal.
Mecanismos Neurobiológicos:
- Déficit Dopaminérgico Nigroestriatal: Na Doença de Parkinson idiopática, há degeneração dos neurônios dopaminérgicos da pars compacta da substância negra. Este déficit leva a uma alteração no equilíbrio de atividade entre as vias direta (facilitatória) e indireta (inibitória) dos gânglios da base. O resultado final é uma inibição excessiva do tálamo e, consequentemente, uma redução da ativação do córtex pré-motor e suplementar. Essas áreas são cruciais para o planejamento, a iniciação e a manutenção da amplitude de movimentos sequenciais aprendidos e automatizados, como a escrita. A hipoativação cortical leva à hipocinesia (redução da amplitude do movimento), que se manifesta na escrita como micrografia.
- Bloqueio Dopaminérgico D2: No parkinsonismo medicamentoso, antipsicóticos típicos (e, em menor grau, alguns atípicos) bloqueiam os receptores D2 pós-sinápticos no estriado. Isso farmacologicamente mimetiza o déficit dopaminérgico da DP, desequilibrando as vias dos gânglios da base da mesma forma e produzindo sinais parkinsonianos, incluindo a micrografia. A tabela de Dalgalarrondo (2018, p.353) sobre "Alterações motoras associadas ao uso de psicofármacos" lista o parkinsonismo medicamentoso, com seus componentes de rigidez e hipocinesia, quadro no qual a micrografia se insere.
- Disfunção GABAérgica e Cortico-Subcortical na Catatonia: A fisiopatologia da catatonia é menos clara, mas envolve uma desregulação complexa nos circuitos córtico-subcorticais, com provável envolvimento de disfunções nos sistemas GABA (ácido gama-aminobutírico), glutamatérgico e dopaminérgico. A inibição psicomotora extrema (hipocinesia ou acinesia) observada no estupor catatônico pode se manifestar também na esfera da escrita. Cheniaux (p.255) descreve a síndrome catatônica como um conjunto de alterações da psicomotricidade, incluindo hipocinesia. A micrografia na catatonia refletiria, portanto, esta inibição motora global afetando um ato motor complexo.
Evidências de Neuroimagem:
Estudos de ressonância magnética funcional (fMRI) e tomografia por emissão de pósitrons (PET) em pacientes com DP e micrografia mostram:
- Redução da ativação no córtex pré-motor, córtex suplementar motor e áreas parietais envolvidas no planejamento motor durante tarefas de escrita.
- Hipometabolismo ou redução do fluxo sanguíneo nessas regiões corticais, correlacionando-se com a gravidade da hipocinesia.
- Em PET com fluorodopa, evidência de depleção dopaminérgica no putâmen (parte posterior do estriado), que se correlaciona com a gravidade dos sinais motores axiais, como a hipocinesia.
Modelo Explicativo Integrado:
A escrita é um ato motor fino, sequencial e altamente automatizado. Requer um "modelo interno" de amplitude que é constantemente atualizado e executado. O circuito dos gânglios da base, atuando como um "modulador de ganho" cortical, é responsável por calibrar a força e a extensão de cada submovimento da sequência. Na DP ou no parkinsonismo, este "modulador de ganho" está com defeito, resultando em uma subestimação progressiva da amplitude necessária para cada traço subsequente. É como se o comando motor fosse sendo emitido com intensidade cada vez menor. Na catatonia, o modelo é de uma inibição global do output motor, que sufoca a expressão do ato motor em sua amplitude.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental:
A avaliação da micrografia é parte do exame neurológico e do exame do estado mental (especificamente no item "comportamento e atividade psicomotora"). Deve-se solicitar:
- Tarefa Padronizada: "Por favor, escreva uma frase completa nesta linha, por exemplo, ‘O céu está azul hoje’, e continue escrevendo a mesma frase até o final da linha."
- Observação: Analisar visualmente a amostra de escrita. Medir a altura média das letras no início, meio e fim da linha. Observar a redução progressiva. Notar também a presença de tremor, rigidez ao segurar a caneta, ou lentificação (bradicinesia) no ato de escrever.
- Contexto: Avaliar outros sinais psicomotores concomitantes: expressão facial (hipomimia), velocidade e volume da fala (hipofonia), velocidade dos movimentos de membros (bradicinesia), presença de rigidez ou tremor de repouso.
Instrumentos e Escalas:
- Unified Parkinson’s Disease Rating Scale (UPDRS) – Parte III: Avalia os sinais motores. O item 3.8 ("Escrita da mão") especificamente avalia micrografia, sendo pontuado de 0 (normal) a 4 (incapaz de escrever, letra ilegível).
- Teste do Desenho da Espiral de Arquimedes: Não é específico para escrita, mas avalia tremor e controle motor fino. A micrografia pode ser inferida por uma espiral que se torna progressivamente mais apertada e de menor amplitude.
- Exame de Escrita Serial: Pedir para escrever repetidamente "la" ou "le" em uma linha. A redução progressiva do tamanho é facilmente quantificável.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
A micrografia é um sinal de parkinsonismo. O diagnóstico diferencial reside em identificar a etiologia do parkinsonismo.
| Condição | Características Distintivas | Relação com a Micrografia |
|---|---|---|
| Doença de Parkinson Idiopática | Tremor de repouso, assimetria inicial, resposta sustentada à levodopa. Sur gimento insidioso e progressão gradual (conforme critérios do DSM-5, p.607). | Sinal clássico e frequentemente precoce. Parte do tripé hipocinesia-rigidez-tremor. |
| Parkinsonismo Medicamentoso | História de uso de agente bloqueador D2 (neurolépticos, antieméticos como metoclopramida). Sintomas simétricos. Pode haver outros EPS (distonia, acatisia). | Sinal de "impregnação neuroléptica" (Dalgalarrondo, p.353). Reversível com a retirada/ajuste da medicação. |
| Demência com Corpos de Lewy (DCL) | Alucinações visuais recorrentes, bem formadas e detalhadas; cognição oscilante; parkinsonismo espontâneo (DSM-5, p.607). Declínio cognitivo precede ou coincide com parkinsonismo. Parkinsonismo é frequentemente simétrico e axial (Dalgalarrondo, p.794). | Pode estar presente como parte do parkinsonismo. A presença de micrografia com alucinações visuais e flutuações cognitivas é altamente sugestiva de DCL. |
| Demência na Doença de Parkinson (DDP) | Diagnóstico de DP estabelecido há anos, seguido por declínio cognitivo progressivo (Dalgalarrondo, p.456). | Micrografia preexistente da DP pode piorar com o declínio cognitivo e déficits visuoespaciais. |
| Síndrome Catatônica | Contexto de transtorno psiquiátrico agudo (esquizofrenia, transtorno do humor). Presença de outros sinais catatônicos: estupor, excitação, negativismo, maneirismos, estereotipias, ecolalia, ecopraxia (Cheniaux, p.255; Dalgalarrondo, p.346). | Micrografia como expressão da inibição psicomotora extrema (hipocinesia/estupor). Pode ser um sinal entre muitos outros. |
| Outras Causas de Parkinsonismo | Vascular, hidrocefalia de pressão normal, atrofia de múltiplos sistemas (MSA), paralisia supranuclear progressiva (PSP). | Pode ocorrer, mas geralmente há outros sinais proeminentes (ataxia, paralisia do olhar vertical na PSP, disautonomia na MSA). |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Atribuir à Depressão: A lentificação psicomotora da depressão pode tornar a escrita mais lenta e menos fluente, mas não causa redução progressiva do tamanho das letras ao longo da linha. A letra pode ser pequena, mas é constante.
- Confundir com Letra Pequena Habitual: Algumas pessoas têm letra naturalmente pequena. A chave é a progressão. Solicitar a escrita repetitiva ou de uma linha longa é crucial.
- Ignorar a História Medicamentosa: Não investigar o uso de neurolépticos, mesmo em baixas doses ou por curto período, ou de outros fármacos com potencial parkinsonizante (ex.: alguns antidepressivos, anticonvulsivantes).
- Supervalorizar o Sinal Isolado: A micrografia isolada, sem outros sinais parkinsonianos ou contexto clínico, tem baixa especificidade. Deve sempre ser integrada a uma avaliação completa.
- Não Avaliar em Contexto Catatônico: Em um paciente agitado ou mutístico, pode-se negligenciar a avaliação da escrita. Tentar obter uma amostra, mesmo que guiada, pode ser um dado valioso.
Condições associadas
A micrografia ocorre com importância clínica nas seguintes condições, conforme as fontes:
- Doença de Parkinson (DP): A condição clássica e mais prevalente. A micrografia é um dos sinais motores proeminentes e pode ser um marcador precoce. Está inserida no transtorno neurocognitivo (maior ou leve) devido à DP (critérios DSM-5, p.607).
- Parkinsonismo Induzido por Medicamentos (Neurolépticos): Principal efeito extrapiramidal dos antipsicóticos. Faz parte do quadro de parkinsonismo medicamentoso, descrito por Dalgalarrondo (p.353) como envolvendo rigidez, hipocinesia e tremores. É uma causa reversível e iatrogênica crucial a ser lembrada em psiquiatria.
- Demência com Corpos de Lewy (DCL): O parkinsonismo é uma característica central ou sugestiva para o diagnóstico (DSM-5, p.607). Dalgalarrondo (p.794) descreve que na DCL os sintomas parkinsonianos são frequentemente simétricos, bilaterais e predominantemente axiais (rigidez e hipocinesia), contexto em que a micrografia pode se manifestar.
- Demência na Doença de Parkinson (DDP): Quando um paciente com DP estabelecida desenvolve declínio cognitivo (Dalgalarrondo, p.456). A micrografia pré-existente pode persistir ou se modificar.
- Síndrome Catatônica: Presente em subtipos de esquizofrenia (catatônica) e em episódios graves de transtornos do humor (mania ou depressão com características catatônicas). Cheniaux (p.255) lista a catatonia como um conjunto de alterações da psicomotricidade, incluindo hipocinesia e acinesia (estupor), das quais a micrografia pode ser uma expressão específica.
Correlações nos sistemas de classificação:
- CID-11:
- Micrografia como sinal é codificada no contexto da condição subjacente (ex.: 8A00.0 Doença de Parkinson; 8A00.1 Demência com corpos de Lewy; MB24.6 Síndrome catatônica).
- Parkinsonismo induzido por medicamento pode ser codificado sob "Efeitos adversos de drogas" (QC90).
- DSM-5-TR:
- É um sinal observado no Transtorno Neurocognitivo Maior ou Leve Devido à Doença de Parkinson (critérios na p.607 dos dados).
- É um dos possíveis sintomas motores no Transtorno Neurocognitivo Maior ou Leve com Corpos de Lewy (característica central ‘c’ – parkinsonismo espontâneo, p.607).
- Pode ser observado como parte das alterações psicomotoras no episódio depressivo maior ou no episódio maníaco, especialmente se com características catatônicas.
- É um efeito colateral potencial dos antipsicóticos, enquadrado nos Efeitos Adversos da Medicação.
Implicações terapêuticas
A abordagem da micrografia é a abordagem da condição subjacente que a causa. O sinal em si raramente é o alvo primário, mas sua melhora ou piora é um marcador útil da resposta ao tratamento.
Abordagens Farmacológicas:
- Na Doença de Parkinson e DCL: A base é a reposição dopaminérgica.
- Levodopa/Carbidopa: É a terapia mais eficaz para os sinais motores da DP, incluindo a hipocinesia. A melhora da micrografia pode ser dramática após a dose, mas pode "desaparecer" durante os períodos off.
- Agonistas Dopaminérgicos (pramipexol, ropinirol): Podem ser usados como monoterapia inicial ou em associação.
- Inibidores da MAO-B (selegilina, rasagilina) e Inibidores da COMT (entacapona): Aumentam a disponibilidade de dopamina.
- No Parkinsonismo Medicamentoso:
- Reajuste da Terapia Antipsicótica: Primeira e principal intervenção. Reduzir a dose, trocar para um antipsicótico atípico com menor afinidade pelo receptor D2 (ex.: quetiapina, clozapina) ou com propriedades anticolinérgicas intrín. (ex.: olanzapina).
- Agentes Anticolinérgicos (biperideno, triexifenidil): São a terapia sintomática clássica para parkinsonismo induzido por drogas. São eficazes para tremor e rigidez, com efeito variável na micrografia/hipocinesia. Uso limitado pelo perfil de efeitos colaterais (confusão, boca seca, constipação, prejuízo cognitivo), especialmente em idosos.
- Amantadina: Agente antiviral com propriedades anticolinérgicas e moduladora glutamatérgica. Pode ser útil para alívio dos sintomas parkinsonianos.
- Na Síndrome Catatônica:
- Benzodiazepínicos (lorazepam): Tratamento de primeira linha para catatonia, independente da etiologia. Uma dose de desafio (ex.: 1-2 mg de lorazepam IM/IV) pode levar a uma melhora rápida e dramática dos sintomas, incluindo a inibição motora. A micrografia, se presente, pode melhorar concomitantemente.
- Terapia Eletroconvulsiva (TEC): Altamente eficaz para catatonia refratária aos benzodiazepínicos. A resolução da síndrome catatônica levará à normalização dos sinais motores.
- Tratamento do Transtorno de Base: Antipsicóticos para esquizofrenia catatônica, estabilizadores de humor ou antidepressivos para transtornos do humor com catatonia.
Abordagens Não-Farmacológicas (Reabilitativas):
- Terapia Ocupacional: Fundamental. Envolve treino de escrita com estratégias compensatórias: uso de pautas mais largas, canetas com grip mais grosso para facilitar a preensão, exercícios para aumentar a amplitude do movimento do punho e dos dedos.
- Fisioterapia: Exercícios de amplitude de movimento, alongamento e fortalecimento podem ajudar na rigidez associada, melhorando indiretamente a fluência da escrita.
- Adaptações e Tecnologia Assistiva: Para casos graves, o uso de dispositivos digitais (tablets com caneta stylus, que pode exigir menos força) ou ditadores de voz pode ser necessário para manter a comunicação escrita.
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
- A micrografia na DP é um sinal progressivo. Sua resposta à levodopa é um bom indicador prognóstico da responsividade motora geral. A perda da resposta ou o reaparecimento precoce da micrografia após a dose pode indicar o avanço da doença e o desenvolvimento de complicações motoras.
- No parkinsonismo medicamentoso, a resolução da micrografia após a retirada ou troca do antipsicótico confirma o diagnóstico etiológico e é um marcador de recuperação.
- Na catatonia, a melhora da micrografia após lorazepam ou TEC é parte da resolução global da síndrome e está associada a um melhor prognóstico do episódio agudo.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivenciando a Micrografia:
Para o paciente, a micrografia é frequentemente experimentada como uma frustração prática e uma perda de autonomia. Relatos comuns incluem: "Minha letra está desaparecendo", "Não consigo mais assinar meu nome no banco", "Escrever um cartão de aniversário se tornou uma tarefa exaustiva e o resultado é vergonhoso", "Parece que minha mão trava depois de algumas palavras". Há um componente de estranhamento ("minha mão não me obedece") e, muitas vezes, de embaraço social. Em pacientes psiquiátricos com parkinsonismo induzido por medicação, pode haver a queixa de que "os remédios para a cabeça estão travando meu corpo".
Comunicação Clínica com o Paciente e Família:
- Explicação Clara: "A senhora está notando que sua letra vai ficando cada vez menor. Isso tem um nome, chama-se micrografia. É um sinal comum relacionado à mesma condição que causa a lentidão dos movimentos e a rigidez. Não é preguiça nem falta de atenção; é um sintoma da doença que afeta o controle fino dos movimentos da sua mão."
- Contextualização no Tratamento: "Este sinal nos ajuda a monitorar como o tratamento está funcionando. Vamos observar se a sua letra melhora com o novo medicamento." Ou, no caso de efeito colateral: "A letra pequena pode ser um efeito do remédio que você toma para as vozes. Vamos ajustar a dose/trocar o medicamento para ver se isso melhora."
- Envolvimento Prático: Solicitar amostras de escrita em consultas periódicas pode ser uma forma tangível para o paciente e a família acompanharem a evolução. "Traga na próxima vez a lista de compras que você escreveu, pode nos ajudar."
- Encaminhamento para Reabilitação: "Além do remédio, um terapeuta ocupacional pode te ensinar truques e exercícios para facilitar a escrita no dia a dia. Vou te encaminhar para o CAPS ou para a terapia ocupacional do ambulatório."
Impacto Funcional:
- Trabalho: Profissões que dependem da escrita manual (professores, assinaturas em documentos, cheques) são gravemente impactadas. Pode levar a incapacidade laboral.
- Relacionamentos: Dificuldade em escrever cartas, bilhetes, cartões. A perda da assinatura pessoal pode ter um impacto simbólico profundo na identidade.
- Atividades da Vida Diária (AVDs): Escrever listas, anotar recados, preencher formulários, assinar documentos legais ou bancários tornam-se tarefas difíceis ou impossíveis, aumentando a dependência.
- Qualidade de Vida: A frustração, a perda de independência e o constrangimento social contribuem para uma piora na qualidade de vida e podem exacerbar sintomas depressivos.
Perguntas frequentes
1. A micrografia é sempre sinal de Doença de Parkinson?
Não. Embora seja um sinal clássico da DP, ela é um marcador de parkinsonismo, que pode ter várias causas. A mais comum em psiquiatria é o efeito colateral de medicamentos antipsicóticos. Também pode ocorrer em outras demências (como por Corpos de Lewy) e em estados catatônicos. A investigação do contexto clínico é essencial.
2. Minha letra sempre foi pequena. Tenho micrografia?
Provavelmente não. A característica definidora da micrografia é a redução progressiva do tamanho ao longo de uma linha de texto. Se a sua letra é uniformemente pequena desde sempre, trata-se de um traço pessoal. O médico pode fazer um teste simples durante a consulta para diferenciar.
3. O tratamento para Parkinson vai fazer minha letra voltar ao normal?
Os medicamentos para DP, especialmente a levodopa, podem melhorar significativamente a micrografia, muitas vezes normalizando-a durante o período de efeito da medicação ("período on"). No entanto, com a progressão da doença, a resposta pode se tornar menos completa ou durar menos tempo. A terapia ocupacional é crucial para estratégias de manutenção.
4. Meu familiar idoso, em uso de remédio para agitação, começou com a letra muito pequena. O que pode ser?
É um sinal de alerta para parkinsonismo induzido por medicamento, um efeito extrapiramidal comum dos antipsicóticos (usados para agitação). Deve-se relatar imediatamente ao psiquiatra ou geriatra que prescreve a medicação. Ajustes na dose ou troca do medicamento podem reverter o quadro.
5. A micrografia dói ou causa outros sintomas físicos?
Ela em si não é dolorosa. No entanto, o esforço excessivo para tentar controlar a escrita ou a rigidez muscular associada ao parkinsonismo podem causar desconforto, cansaço ou câimbra na mão e no antebraço.
6. Existe algum exercício que eu possa fazer em casa para melhorar a micrografia?
Sim, sob orientação de um terapeuta ocupacional. Exercícios gerais de amplitude de movimento para punho e dedos, e a prática de escrita em pautas largas, focando conscientemente em fazer letras grandes e com traços amplos, podem ajudar. O objetivo é "reprogramar" o cérebro para um padrão de amplitude maior. Nunca force a ponto de causar dor.
7. A micrografia pode ser o primeiro e único sinal de um problema neurológico?
É possível, mas incomum. Geralmente, ela vem acompanhada de outros sinais sutis: lentidão para realizar tarefas (vestir-se, lavar a louça), redução do balanço dos braços ao andar, expressão facial menos animada (hipomimia). Uma avaliação neurológica é necessária mesmo na micrografia aparentemente isolada.
8. Na catatonia, a micrografia é reversível?
Sim. A catatonia, especialmente quando tratada precocemente com benzodiazepínicos ou terapia eletroconvulsiva (TEC), tem alto potencial de reversibilidade. Com a resolução do estado catatônico, as alterações motoras, incluindo a micrografia se presente, tendem a normalizar-se.
Referências
- American Psychiatric Association. (2014). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5 (5ª ed.). Artmed.
- Cheniaux, E. (2021). Manual de Psicopatologia (6ª ed.). Guanabara Koogan.
- Dalgalarrondo, P. (2018). Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais (3ª ed.). Artmed.
- Sadock, B. J., Sadock, V. A., & Ruiz, P. (2017). Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica (11ª ed.). Artmed.
- Fink, M., Taylor, M. A., & Ghaziuddin, N. (2010). Catatonia in DSM-5. Schizophrenia Research, 118(1-3), 122-125.
- Kane, J. M. (2006). Tardive Dyskinesia: Epidemiological and Clinical Presentation. In Tardive Dyskinesia and Akathisia. J. M. Kane & J. A. Lieberman (Eds.). PMA Publishing.
- Nunes, A. L., & Cheniaux, E. (2012). A síndrome catatônica: aspectos clínicos e neurobiológicos. Revista de Psiquiatria Clínica, 39(1), 21-27.
- Ransmayr, G., et al. (2000). Dementia with Lewy bodies: prevalence, clinical spectrum and natural history. Journal of Neural Transmission Supplementum, (60), 303-14.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.