Manifestações Psiquiátricas da Porfiria Intermitente Aguda

Definição e epidemiologia

A Porfiria Intermitente Aguda (PIA) é um distúrbio metabólico hereditário da biossíntese do heme, caracterizado por uma deficiência da enzima porfobilinogênio desaminase (também conhecida como hidroximetilbilano sintase). Trata-se de uma condição autossômica dominante que resulta no acúmulo excessivo de precursores tóxicos do heme, principalmente ácido delta-aminolevulínico (ALA) e porfobilinogênio (PBG). Esses metabólitos neurotóxicos são responsáveis pelas crises agudas, que envolvem predominantemente o sistema nervoso e o sistema gastrointestinal.

Nos sistemas de classificação psiquiátrica, a PIA é reconhecida como uma condição médica geral que pode causar sintomas psiquiátricos. No DSM-5-TR, as manifestações psiquiátricas da PIA podem ser codificadas como Transtorno Psicótico Devido a Outra Condição Médica (F06.0), Transtorno do Humor Devido a Outra Condição Médica (F06.30-F06.34), ou Transtorno de Ansiedade Devido a Outra Condição Médica (F06.4), dependendo da apresentação predominante. A CID-11 utiliza a categoria Distúrbios mentais ou do comportamento secundários a distúrbios, doenças ou lesões classificados em outra parte (6E60-6E6Z), especificando a porfiria como a condição etiológica.

A epidemiologia da PIA é marcada por sua raridade e variabilidade geográfica. A prevalência geral é estimada entre 1 a 5 casos por 100.000 habitantes em populações europeias, sendo mais comum em países do norte da Europa, como Suécia e Finlândia, onde a prevalência pode chegar a 1 em 10.000. No Brasil, dados epidemiológicos precisos são escassos, mas a condição é reconhecida, e sua identificação é crucial em contextos de emergência psiquiátrica com sintomas atípicos. A PIA afeta mais mulheres do que homens, com uma proporção aproximada de 3:1 a 5:1. O início dos sintomas ocorre tipicamente entre os 20 e 50 anos de idade, sendo raro antes da puberdade. A maioria dos portadores do defeito genético permanece assintomática por toda a vida (penetrância incompleta), e as crises são frequentemente precipitadas por fatores desencadeantes.

Os principais fatores de risco para desencadear uma crise aguda incluem: uso de medicamentos (especialmente barbitúricos, sulfonamidas, anticonvulsivantes hidantoinados, contraceptivos hormonais e álcool), jejum prolongado, infecções, estresse psicológico ou físico, e alterações hormonais (como as relacionadas ao ciclo menstrual). O curso clínico é tipicamente episódico, com crises agudas intercaladas por períodos de completa remissão. No entanto, crises repetidas e graves podem levar a sequelas neuropsiquiátricas persistentes, incluindo uma demência residual.

Etiopatogenia e neurobiologia

A etiopatogenia da PIA está diretamente ligada ao bloqueio na via de síntese do heme. A deficiência da porfobilinogênio desaminase leva ao acúmulo dos precursores ALA e PBG. Acredita-se que a neurotoxicidade seja mediada principalmente pelo ALA, que possui estrutura análoga ao neurotransmissor inibitório GABA e ao neurotransmissor excitatório glutamato. O ALA pode atuar como um agonista pró-convulsivante e neuroexcitatório, gerando estresse oxidativo, disfunção mitocondrial e dano neuronal.

Os mecanismos neuropsiquiátricos específicos não são completamente elucidados, mas envolvem múltiplos sistemas de neurotransmissão:

  • Sistema Dopaminérgico e Serotoninérgico: O acúmulo de precursores pode interferir na síntese ou função desses neurotransmissores, contribuindo para sintomas psicóticos (alucinações, delírios), labilidade do humor e ansiedade.
  • Sistema GABAérgico: A semelhança estrutural do ALA com o GABA pode levar a uma modulação anormal deste sistema, relacionada a sintomas de ansiedade, agitação e convulsões.
  • Sistema Glutamatérgico: A excitação excessiva mediada pelo glutamato, potencializada pelo ALA, pode estar na base da neurotoxicidade e dos sintomas psicóticos e confusional.

A disfunção do sistema nervoso autônomo, comum nas crises, explica sintomas como taquicardia, hipertensão, sudorese e dor abdominal. A polineuropatia motora característica resulta da degeneração axonal, possivelmente por mecanismos isquêmicos ou tóxicos diretos.

Achados de neuroimagem na PIA aguda são geralmente inespecíficos, mas podem mostrar alterações de sinal transitórias em regiões como o tronco cerebral e os gânglios da base em casos graves. O diagnóstico definitivo repousa na bioquímica (dosagem de ALA e PBG na urina) e na genética (identificação de mutações no gene HMBS).

Quadro clínico

A apresentação clássica da crise aguda de PIA é a tríade de sintomas: dor abdominal aguda do tipo cólica, polineuropatia motora e psicose. No entanto, as manifestações psiquiátricas podem ser prodrômicas ou dominantes, levando a erros diagnósticos.

Manifestações Psiquiátricas:

  • Sintomas Prodrômicos e de Humor: Frequentemente são os primeiros a aparecer. Incluem ansiedade intensa, irritabilidade, labilidade emocional, insônia grave e inquietude. Um estado depressivo com apatia e prostração também pode ocorrer.
  • Sintomas Psicóticos: Com a progressão da crise, podem emergir sintomas psicóticos típicos de um transtorno psicótico orgânico. Estes incluem alucinações (especialmente auditivas e visuais), delírios (frequentemente persecutórios ou bizarros), desorganização do pensamento e comportamento desorganizado ou catatônico.
  • Alterações Cognitivas: A confusão mental e a desorientação temporoespacial são centrais, podendo evoluir para um delirium (estado confusional agudo). Em crises prolongadas ou repetidas, pode haver evolução para um quadro demencial residual, com déficits de memória, atenção e funções executivas.

Manifestações Neurológicas e Somáticas:

  • Dor Abdominal: É o sintoma mais comum (85-95% dos casos), intensa, difusa, do tipo cólica, mas sem sinais peritoneais. Náuseas, vômitos e constipação são frequentes.
  • Neuropatia: Uma polineuropatia motora aguda ascendente, semelhante à Síndrome de Guillain-Barré, é uma complicação grave. Pode começar com fraqueza proximal nos membros superiores e evoluir para paralisia flácida, envolvendo músculos respiratórios (risco de insuficiência respiratória).
  • Sistema Nervoso Autônomo: Taquicardia, hipertensão, sudorese, tremores e retenção urinária.
  • Outros: Convulsões generalizadas podem ocorrer em 10-20% das crises.

Especificadores Diagnósticos (DSM-5-TR): Ao codificar o transtorno psiquiátrico secundário, deve-se especificar se Com início no curso da condição médica. O especificador de gravidade aplica-se ao transtorno psiquiátrico em si (leve, moderado, grave).

Avaliação e diagnóstico

A avaliação de um paciente com possível crise psiquiátrica por PIA exige um alto índice de suspeição, especialmente diante de uma combinação atípica de sintomas psiquiátricos, dor abdominal e sinais neurológicos.

1. Entrevista Clínica e Anamnese:

  • História Pessoal e Familiar: Investigar história familiar de "doenças nervosas", dores abdominais inexplicadas, sensibilidade a medicamentos ou diagnóstico prévio de porfiria.
  • História Medicamentosa: Questionar minuciosamente o uso recente de barbitúricos, sulfas, anticonvulsivantes, contraceptivos hormonais, álcool e outros desencadeantes.
  • Cronologia dos Sintomas: Estabelecer a sequência de aparecimento dos sintomas psiquiátricos em relação aos somáticos.
  • Características dos Sintomas Psiquiátricos: Psicose de início agudo, especialmente com confusão mental concomitante, é um forte indicador de etiologia orgânica.

2. Exame do Estado Mental:

  • Aparência e Comportamento: Agitação psicomotora, inquietude ou, em fases avançadas, estupor.
  • Humor e Afeto: Labilidade marcante, ansiedade intensa, irritabilidade ou achatamento afetivo.
  • Pensamento e Conteúdo: Delírios, desorganização do pensamento. A desorientação é um sinal crucial.
  • Percepção: Alucinações visuais ou auditivas.
  • Cognição: Avaliar orientação, memória recente e atenção. O teste do desenho do relógio pode revelar déficits executivos.

3. Exames Complementares:

  • Exames Laboratoriais de Triagem (Urina de Crises):
    • PBG Urinário Qualitativo (Teste de Hoesch ou de Watson-Schwartz): Rápido, mas pode ter falsos positivos. Um resultado positivo é altamente sugestivo durante uma crise.
    • Dosagem Quantitativa de ALA e PBG na Urina de 24h: O exame definitivo. Níveis elevados de ALA e PBG durante uma crise confirmam o diagnóstico. A amostra deve ser protegida da luz e refrigerada.
    • Dosagem de Porfobilinogênio Desaminase em Eritrócitos: Útil para confirmar o diagnóstico e identificar portadores assintomáticos, mas pode ser normal em alguns pacientes com a doença ativa.
  • Exames para Avaliação de Complicações:
    • Eletrólitos (hiponatremia é comum).
    • Função Hepática.
    • Eletroneuromiografia (para confirmar polineuropatia axonal motora).
    • Ressonância Magnética de Encéfalo (para excluir outras causas de sintomas neurológicos/psiquiátricos).

4. Diagnóstico Diferencial Estruturado:
O diagnóstico diferencial é amplo e deve ser abordado sistematicamente:

Categoria de Condição Exemplos Específicos Pontos de Diferenciação da PIA
Transtornos Psiquiátricos Primários Esquizofrenia, Transtorno Esquizoafetivo, Transtorno Bipolar com características psicóticas, Transtorno Psicótico Breve. Ausência da tríade clínica completa (dor abdominal, neuropatia). Sintomas psicóticos geralmente sem desorientação ou confusão proeminente. História familiar diferente.
Condições Médicas com Sintomas Psiquiátricos Encefalite Autoimune/Límbica, Neoplasias do SNC (especialmente lobo frontal/temporal), Doença de Wilson, Deficiência de Vitamina B12, Neurossífilis, Lúpus Eritematoso Sistêmico com envolvimento do SNC. Neuroimagem, sorologias e exames específicos (ceruloplasmina, B12, FTA-ABS) são diagnósticos. A dor abdominal cólica é menos característica.
Transtornos Induzidos por Substâncias Psicose por Anfetaminas/Cocaína, Abstinência de Barbitúricos/Benzodiazepínicos, Intoxicação por Anticolinérgicos, Psicose Alcoólica (Alucinose). História de uso da substância. Sintomas de intoxicação/abstinência típicos. PBG urinário normal.
Condições Metabólicas/Tóxicas Cetoacidose Diabética, Insuficiência Hepática/Renal, Encefalopatia Hipertensiva, Envenenamento por Metais Pesados (chumbo, arsênico). Exames metabólicos alterados (glicose, ureia, amônia). História de exposição tóxica.
Outras Porfirias Agudas Porfiria Variegata, Coproporfiria Hereditária. Apresentação clínica semelhante, mas podem ter fotossensibilidade cutânea. Diagnóstico diferencial por perfil de porfirinas nas fezes e urina.

5. Armadilhas Diagnósticas:

  • Foco Exclusivo nos Sintomas Psiquiátricos: O paciente pode ser internado em enfermaria psiquiátrica por psicose aguda, e a dor abdominal ser atribuída a somatização ou efeito colateral de medicação.
  • Uso de Medicamentos que Agravam a Crise: A administração de barbitúricos para sedação ou anticonvulsivantes para tratar convulsões pode precipitar uma piora catastrófica.
  • Interpretação Incorreta de Exames: Um teste de PBG urinário falso-negativo se a amostra não for coletada durante a crise ou for mal conservada.

Tratamento farmacológico

O tratamento da crise aguda de PIA com manifestações psiquiátricas é uma emergência médica e psiquiátrica e requer abordagem em ambiente hospitalar, preferencialmente em unidade de terapia intensiva.

1. Tratamento Específico da Crise Aguda:

  • Hemina (Hem arginato): É o tratamento de primeira linha e específico. Age fornecendo heme exógeno, que retroalimenta negativamente a via de síntese, reduzindo drasticamente a produção dos precursores neurotóxicos ALA e PBG. Dose: 3-4 mg/kg/dia, por via intravenosa, por 4 dias consecutivos. A administração precoce (nas primeiras 48h dos sintomas) é crucial para prevenir dano neurológico permanente.
  • Glicose/Hidratação Endovenosa: A "inibição por repressão" com altas doses de glicose (pelo menos 300-400g/dia) pode suprimir a síntese de ALA em crises leves ou como medida adjuvante. Deve-se monitorar a glicemia para evitar hiperglicemia.

2. Manejo dos Sintomas Psiquiátricos (COM EXTREMA CAUTELA):
A escolha de psicofármacos é crítica, pois muitos são absolutamente contraindicados. A regra é: evitar qualquer medicamento que induza o sistema enzimático citocromo P450 (CYP450), pois isso pode exacerbar a crise.

  • Antipsicóticos:
    • Preferência: Antipsicóticos de baixo potencial para induzir o CYP450. A Clorpromazina (25-50 mg IM/IV, repetível) tem sido usada historicamente para agitação e sintomas psicóticos, com relativo perfil de segurança na PIA, mas requer monitoramento de hipotensão.
    • Alternativas Modernas: Risperidona (baixo indutor de CYP) e Aripiprazol podem ser considerados com cautela, iniciando com doses baixas. Olanzapina também é uma opção, mas seu metabolismo envolve múltiplas vias.
    • Contraindicados: Antipsicóticos típicos potentes (Haloperidol) são metabolizados pelo CYP e devem ser evitados, especialmente em altas doses.
  • Ansiolíticos e Hipnóticos:
    • Benzodiazepínicos: São seguros e considerados de primeira linha para ansiedade e agitação na PIA. Lorazepam (1-2 mg IV/IM/oral) e Diazepam são boas opções. Eles não induzem as enzimas hepáticas da porfiria.
    • Absolutamente Contraindicados: Barbitúricos são precipitantes potentes de crises e seu uso é proibido.
  • Antidepressivos:
    • A maioria dos antidepressivos (ISRS, ISRSN, tricíclicos) é metabolizada pelo CYP450 e seu uso durante uma crise aguda é geralmente desencorajado. Se necessário para depressão residual após a crise controlada, Sertralina ou Paroxetina (ISRS) podem ser tentados com extrema cautela e monitorização.
  • Estabilizadores de Humor:
    • Contraindicados: Todos os anticonvulsivantes (Valproato, Carbamazepina, Fenitoína, Lamotrigina) são fortes indutores enzimáticos e altamente perigosos.
    • Alternativa Possível: O Lítio não é metabolizado pelo fígado e pode ser considerado para tratamento de manutenção em pacientes com transtorno bipolar secundário à PIA, mas requer monitoramento rigoroso da função renal e dos níveis séricos.

Protocolos Brasileiros: O RENAME (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais) do SUS inclui a Hemina para o tratamento das porfirias agudas. O manejo deve seguir diretrizes de centros de referência, como os hospitais universitários. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) mantém listas de medicamentos seguros e inseguros para porfiria.

Tratamento não farmacológico

Durante a crise aguda, as intervenções não farmacológicas são coadjuvantes e focadas no suporte.

  • Suporte Psicoeducacional e Familiar: Explicar a natureza da doença, os desencadeantes e a importância da adesão às medidas preventivas para o paciente e a família reduz ansiedade e promove o manejo a longo prazo.
  • Intervenções Ambientais: Em um quadro confusional ou psicótico, um ambiente calmo, com iluminação adequada, orientação temporal (relógio, calendário) e presença de um familiar conhecido pode reduzir a agitação.
  • Reabilitação Psiquiátrica: Após a crise, pacientes com sequelas cognitivas (déficits de memória, atenção) ou demenciais podem beneficiar-se de programas de reabilitação neuropsicológica e terapia ocupacional para melhorar o funcionamento diário.
  • Psicoterapia de Suporte: Para lidar com o impacto psicológico de uma doença crônica, imprevisível e potencialmente incapacitante, psicoterapias de suporte ou cognitivo-comportamentais podem auxiliar no manejo da ansiedade e na adaptação à doença.

Procedimentos: A Eletroconvulsoterapia (ECT) pode ser considerada em casos extremos de catatonia maligna ou psicose refratária que não responde aos antipsicóticos seguros, desde que a crise metabólica esteja controlada. É um procedimento geralmente seguro na PIA, pois não envolve medicações porfírico-inductoras.

Manejo clínico prático

Tomada de Decisão no Dia a Dia:

  1. Suspensão Imediata de Desencadeantes: Primeira ação em qualquer paciente com suspeita de PIA: suspender todos os medicamentos porfírico-indutores.
  2. Início Rápido do Tratamento Específico: Não aguardar confirmação laboratorial definitiva se a suspeita clínica é alta. Iniciar hemina e glicose endovenosa.
  3. Controle dos Sintomas com Medicamentos Seguros: Para agitação/ansiedade, preferir benzodiazepínicos. Para psicose, considerar clorpromazina ou risperidona em baixa dose.
  4. Monitoramento Intensivo: Monitorar função respiratória (risco de neuropatia motora), eletrólitos (hiponatremia), e estado mental.

Monitoramento da Resposta e Critérios de Remissão:

  • Resposta clínica à hemina pode ser vista em 48-72h, com melhora da dor abdominal e dos sintomas autonômicos. A melhora psiquiátrica e neurológica pode ser mais lenta.
  • Critérios de remissão: desaparecimento da dor abdominal, melhora da força muscular, resolução do delirium e dos sintomas psicóticos agudos.
  • Dosar ALA/PBG urinários após o tratamento para confirmar a normalização bioquímica.

Manejo de Resistência Terapêutica: Se não houver resposta à hemina em 4-5 dias, revisar o diagnóstico. Considerar plasmaférese em casos selecionados para remover precursores tóxicos.

Contexto Brasileiro:

  • SUS: O diagnóstico e tratamento da PIA são realizados em hospitais de referência, muitas vezes vinculados a universidades. O acesso à hemina pode ser feito via Sistema Único de Saúde.
  • CAPS: Podem ter um papel no acompanhamento a longo prazo de pacientes com sequelas neuropsiquiátricas, oferecendo suporte psicossocial.
  • Acesso a Medicamentos: A hemina é um medicamento de alto custo e disponível em centros especializados. A lista de medicamentos seguros/inseguros deve ser fornecida ao paciente em formato de carteirinha.

Perspectiva do paciente e comunicação clínica

Vivência do Paciente: A experiência é frequentemente aterrorizante. O paciente pode passar por dor abdominal excruciante inexplicada, seguida por um estado mental alterado com alucinações, medo e confusão, muitas vezes sendo interpretado como "louco". A falta de um diagnóstico claro e a administração de medicamentos que pioram o quadro (como barbitúricos) aumentam o trauma. O medo de novas crises e as restrições medicamentosas impõem um fardo significativo na qualidade de vida.

Psicoeducação (O que Explicar):

  1. Natureza da Doença: "O senhor(a) tem uma condição genética que, em certas situações, faz com que o corpo acumule substâncias que intoxicam o sistema nervoso, causando esses sintomas."
  2. Desencadeantes: Fornecer uma lista por escrito de medicamentos proibidos (antibióticos sulfas, barbitúricos, muitos anticonvulsivantes, alguns hormônios) e fatores de risco (jejum, álcool, infecções, estresse).
  3. Plano de Ação: "Em caso de dor abdominal forte com alteração do comportamento, deve procurar imediatamente o hospital de referência, informar que tem porfiria e mostrar sua carteirinha."
  4. Aconselhamento Genético: Explicar o padrão de herança autossômico dominante e a possibilidade de testar familiares.

Impacto Funcional: Crises frequentes podem levar a incapacidade temporária ou permanente (por neuropatia ou demência), afetando trabalho, estudos e relações familiares. O estigma de uma doença "invisível" que causa sintomas psiquiátricos é uma barreira adicional.

Adesão ao Tratamento:

  • Barreiras: Complexidade do manejo, medo de crises, restrições medicamentosas, custo de consultas especializadas e descrença no diagnóstico.
  • Estratégias: Cartão de identificação da doença, lista de medicamentos seguros no celular, vínculo com um centro de referência, grupos de apoio (se disponíveis) e envolvimento da família no plano de cuidados.

Perguntas frequentes

1. Um paciente com diagnóstico de esquizofrenia pode, na verdade, ter porfiria?
Sim. Estudos citados no Compêndio de Kaplan & Sadock indicam que entre 0,2 e 0,5% dos pacientes psiquiátricos crônicos podem ter porfirias não diagnosticadas. Por isso, é mandatório considerar causas orgânicas, especialmente em psicoses de início agudo ou atípicas, com flutuação do nível de consciência ou sintomas somáticos associados (como dor abdominal).

2. Quais são os medicamentos mais perigosos que devem ser evitados?
Os barbitúricos são os mais perigosos e absolutamente contraindicados. Outras classes de alto risco incluem: sulfonamidas, anticonvulsivantes (carbamazepina, fenitoína, valproato), contraceptivos hormonais combinados, alguns antibióticos (como eritromicina), álcool em excesso e drogas ilícitas que ativam o sistema CYP450.

3. A porfiria tem cura?
Não tem cura, pois é uma doença genética. No entanto, pode ser controlada. A prevenção de crises através da evitação de desencadeantes e o tratamento precoce e agressivo das crises quando elas ocorrem permitem que a maioria dos pacientes tenha uma vida normal e sem sequelas.

4. Os sintomas psiquiátricos são permanentes?
Durante uma crise, os sintomas psiquiátricos (psicose, ansiedade) são geralmente reversíveis com o tratamento adequado da crise. No entanto, crises repetidas, graves ou mal tratadas podem levar a dano neuronal permanente, resultando em uma demência residual ou alterações cognitivas persistentes.

5. Meu filho pode herdar a porfiria?
Sim. A PIA é autossômica dominante. Cada filho de um portador da mutação tem 50% de chance de herdar o gene. Herdar o gene não significa que a doença se manifestará (penetrância incompleta). É recomendado aconselhamento genético e teste para familiares de primeiro grau.

6. Onde devo buscar ajuda no Brasil?
Procure um centro de referência em doenças metabólicas ou um hospital universitário com serviço de neurologia ou clínica médica especializada. A Associação Brasileira de Porfiria (se existente) pode fornecer orientação e listas de médicos e serviços de referência.

7. Posso fazer uso de medicamentos para ansiedade comuns?
Benzodiazepínicos (como diazepam, lorazepam, clonazepam) são geralmente seguros e podem ser usados para ansiedade. Já os barbitúricos são proibidos. Sempre consulte seu médico especialista antes de usar qualquer novo medicamento, mesmo os de venda livre.

8. O tratamento com hemina é para sempre?
Não. A hemina é usada apenas para tratar crises agudas. O tratamento de manutenção ou prevenção consiste principalmente em evitar os fatores desencadeantes. Em casos selecionados de crises muito frequentes (porfiria recorrente), pode-se considerar protocolos de hemina em intervalos regulares, mas isso é individualizado.

Referências

  • Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. (Fonte primária para os dados clínicos sobre a tríade sintomática, epidemiologia, sintomas psiquiátricos e contraindicações).
  • American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. revisada. Porto Alegre: Artmed, 2022. (Para critérios de Transtorno Psicótico/Humor/Ansiedade Devido a Outra Condição Médica Geral).
  • Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. Genebra: OMS, 2022.
  • Pischik, E., & Kauppinen, R. (2015). An update of clinical management of acute intermittent porphyria. The Application of Clinical Genetics, 8, 201–214.
  • Stein, P.E., Badminton, M.N., & Rees, D.C. (2017). Update review of the acute porphyrias. British Journal of Haematology, 176(4), 527–538.
  • Conselho Federal de Medicina (CFM). Diretrizes Brasileiras para o Manejo das Porfirias Agudas (consultar diretrizes específicas se disponíveis).
  • Ministério da Saúde. RENAME – Relação Nacional de Medicamentos Essenciais. 2022. (Para disponibilidade da Hemina no SUS).

Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.

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