Lurasidona

O que é e para que serve?

A lurasidona é um antipsicótico de segunda geração — um tipo de remédio que age no cérebro para tratar condições como esquizofrenia e depressão bipolar. Quando os médicos falam em “antipsicótico”, muita gente se assusta com o nome, mas isso não significa que você está “louco” ou que o problema é mais grave do que parece. Esse nome técnico simplesmente descreve como o remédio funciona no cérebro, não quem deve usá-lo.

No Brasil, a lurasidona é comercializada principalmente com o nome Latuda®. Ela é aprovada para tratar dois grupos de condições: a esquizofrenia (em adultos e adolescentes a partir dos 13 anos) e a depressão bipolar — que é aquela fase de tristeza profunda que acontece em pessoas com transtorno bipolar (aprovada a partir dos 10 anos). Na depressão bipolar, ela pode ser usada sozinha ou junto com outros estabilizadores do humor, como o lítio ou o valproato, dependendo do que o seu médico avaliar como melhor para o seu caso.

Além dessas indicações principais, médicos também podem prescrevê-la em outras situações, como em transtornos psicóticos em geral ou como apoio em depressões difíceis de tratar. Se a sua situação não se encaixa exatamente nessas descrições, não se preocupe — converse com quem te prescreveu para entender o raciocínio por trás da escolha.


Como ele age no seu cérebro?

Pense no seu cérebro como uma cidade enorme, onde os neurônios são os moradores que se comunicam o tempo todo mandando mensagens uns para os outros. Essas mensagens são carregadas por substâncias chamadas neurotransmissores — os “entregadores” dessa cidade. Os dois principais entregadores que a lurasidona afeta são a dopamina e a serotonina.

Em condições como a esquizofrenia, alguns desses entregadores ficam hiperativados — é como se houvesse entregadores demais batendo na porta ao mesmo tempo, causando confusão. A lurasidona age como um porteiro seletivo: ela se posiciona na porta de certos neurônios (chamados de receptores D2 de dopamina e 5-HT2A de serotonina) e controla o fluxo dessas mensagens, deixando passar só o que precisa. Isso ajuda a reduzir sintomas como alucinações, pensamentos desorganizados e agitação.

Mas a lurasidona tem um diferencial interessante: ela também age em outro tipo de receptor de serotonina chamado 5-HT1A, e aqui ela não bloqueia — ela estimula levemente. É como se, além de controlar o trânsito caótico, ela também abrisse uma via expressa para mensagens que melhoram o humor e a cognição. Isso ajuda a explicar por que ela funciona bem também na depressão bipolar. Uma vantagem importante: ao contrário de muitos outros antipsicóticos, ela praticamente não mexe com os receptores de histamina (que causam sonolência excessiva) nem com os receptores muscarínicos (que causam boca seca e prisão de ventre) — o que torna o perfil de efeitos colaterais mais tolerável para muitas pessoas.


Quando começa a fazer efeito?

A resposta honesta é: depende do que você está tratando, e leva tempo. Pense em plantar uma árvore frutífera — você não colhe no dia seguinte ao plantio. O remédio precisa de semanas para ajustar os circuitos do cérebro de forma estável.

Para sintomas de agitação ou ansiedade intensa, algumas pessoas notam uma melhora mais rápida, já nas primeiras semanas. Mas para o efeito completo — especialmente na depressão bipolar — o benefício real costuma aparecer entre 4 e 6 semanas de uso contínuo. Em alguns casos, pode levar um pouco mais.

Nas primeiras semanas, é possível que você sinta alguns efeitos colaterais antes de sentir a melhora. Isso é normal e não significa que o remédio não está funcionando. O cérebro está se adaptando. Se algo incomodar muito, avise seu médico — mas não abandone o tratamento por conta própria antes de conversar com ele.


Como tomar corretamente

Com comida, sempre. Esse é o ponto mais importante sobre como tomar a lurasidona. Ela precisa ser ingerida junto com uma refeição de pelo menos 350 calorias — pode ser o almoço, o jantar, qualquer refeição principal. Quando tomada em jejum, o corpo absorve muito menos do remédio (até metade da quantidade), o que compromete o tratamento. Não precisa ser uma refeição gordurosa ou enorme — qualquer refeição normal já resolve.

Horário: Muitos médicos preferem indicar o uso à noite, junto com o jantar, porque a sonolência que pode ocorrer no início do tratamento vira aliada em vez de atrapalhar o dia. Mas siga a orientação específica do seu médico.

Doses: As doses variam bastante de pessoa para pessoa e dependem do que está sendo tratado. Em geral, começam em doses menores (como 20 ou 40 mg) e podem ser ajustadas ao longo do tempo. Não tente ajustar a dose por conta própria.

Esqueceu uma dose? Se lembrar no mesmo dia, tome junto com a próxima refeição. Se já passou para o dia seguinte, pule a dose esquecida e continue normalmente. Nunca tome duas doses de uma vez para compensar.

Não pare de tomar de repente. Interromper o uso sem orientação médica pode fazer os sintomas voltarem com força. Se quiser parar ou mudar o remédio, converse com seu médico para fazer isso de forma gradual e segura.


Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem

Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)

  • Sonolência: É um dos efeitos mais frequentes, especialmente no começo. Acontece porque o remédio age em alguns circuitos cerebrais que regulam o estado de alerta. Tomar à noite ajuda muito a contornar isso. Tende a diminuir nas primeiras semanas.

  • Náusea: Algumas pessoas sentem enjoo, especialmente no início. Acontece porque o remédio afeta receptores no trato digestivo. Tomar com uma refeição boa reduz bastante esse desconforto. Costuma passar em 1 a 2 semanas.

  • Acatisia: Esse é um efeito que merece atenção. É uma sensação de inquietação interna, como se você não conseguisse ficar parado — uma vontade de ficar mexendo as pernas ou se levantando. Não é ansiedade emocional, é uma sensação física causada pelo bloqueio dos receptores de dopamina. Se isso acontecer, avise seu médico — há formas de manejar, como ajuste de dose ou uso de outro medicamento de apoio.

  • Sintomas extrapiramidais (rigidez ou lentidão nos movimentos): Podem aparecer em algumas pessoas, pelo mesmo motivo da acatisia — o bloqueio da dopamina afeta o sistema que controla os movimentos. São mais raros com a lurasidona do que com antipsicóticos mais antigos, mas podem ocorrer. Avise o médico se notar.

Menos comuns

  • Tontura ao levantar rápido (hipotensão ortostática): O remédio pode baixar levemente a pressão ao mudar de posição. Levante devagar da cama ou da cadeira, especialmente de manhã. Beber água adequadamente ajuda.

  • Aumento de prolactina: A prolactina é um hormônio que pode aumentar com o bloqueio da dopamina. Em algumas pessoas, isso pode causar irregularidade menstrual, sensação de inchaço nos seios ou, raramente, saída de leite. Avise o médico se isso acontecer.

  • Alterações no sono: Algumas pessoas relatam insônia ou sonhos mais vívidos. Ajustar o horário da tomada pode ajudar.

Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)

  • Síndrome Neuroléptica Maligna: Muito rara, mas grave. Os sinais são: febre alta, rigidez muscular intensa, confusão mental e sudorese excessiva, tudo ao mesmo tempo. Se isso acontecer, vá à emergência imediatamente — não espere.

  • Reação alérgica grave (angioedema): Inchaço repentino no rosto, lábios, língua ou garganta. Procure emergência imediatamente.

  • Discinesia tardia: Com uso prolongado, raramente podem aparecer movimentos involuntários repetitivos (como movimentos da boca ou da língua). Avise o médico se notar qualquer movimento involuntário estranho.

  • Alterações no açúcar do sangue: Antipsicóticos atípicos como classe podem, raramente, elevar a glicose. A lurasidona tem um perfil mais favorável que muitos outros nesse sentido, mas se você tiver diabetes ou histórico familiar, seu médico vai monitorar isso.

  • Pensamentos de se machucar: Em jovens e adolescentes, especialmente no início do tratamento, pode haver piora temporária do humor ou pensamentos de automutilação. Família e pessoas próximas devem ficar atentas e comunicar o médico imediatamente se isso ocorrer.


O que fazer se tiver efeitos colaterais?

Primeiro: não entre em pânico e não pare o remédio por conta própria. A maioria dos efeitos colaterais é passageira e diminui nas primeiras semanas conforme o corpo se adapta.

Ligue ou mande mensagem para seu médico se:
– A sonolência ou a náusea estiverem atrapalhando muito sua rotina
– Você sentir aquela inquietação nas pernas (acatisia)
– Notar qualquer movimento involuntário estranho
– Seu humor piorar significativamente nas primeiras semanas

Vá a uma UPA ou emergência se:
– Tiver febre alta com rigidez muscular e confusão (pode ser síndrome neuroléptica maligna)
– Tiver inchaço no rosto, lábios ou garganta
– Tiver pensamentos de se machucar ou machucar alguém

O que NÃO fazer:
– Não dobre a dose achando que vai funcionar mais rápido
– Não pare de tomar de repente porque se sentiu mal — converse com o médico primeiro
– Não tome o remédio em jejum achando que “tanto faz”


Cuidados importantes

Álcool: Evite ou reduza bastante o consumo de álcool enquanto estiver tomando lurasidona. O álcool potencializa a sonolência e pode piorar os sintomas que você está tratando. Não é proibição absoluta para uma taça ocasional, mas beber em excesso é um problema real.

Remédios que não combinam — preste atenção nessa lista:
Cetoconazol (antifúngico), claritromicina (antibiótico), ritonavir (usado em HIV) e outros remédios similares: são proibidos junto com a lurasidona porque fazem o nível do remédio no sangue subir demais, aumentando o risco de efeitos colaterais graves.
Rifampicina (antibiótico para tuberculose), carbamazepina (anticonvulsivante), fenitoína e o popular Erva de São João (suplemento natural): fazem o efeito da lurasidona cair muito, deixando o tratamento ineficaz.
Remédios para pressão alta: A lurasidona pode potencializar o efeito deles, causando queda de pressão. Avise seu médico de todos os remédios que você toma.

Sempre informe seu médico e dentista sobre todos os remédios, suplementos e fitoterápicos que você usa.

Gravidez e amamentação: Não há dados suficientes sobre segurança na gravidez humana. Se você está grávida, planeja engravidar ou está amamentando, converse com seu médico — a decisão de continuar ou não o tratamento precisa ser feita junto, pesando riscos e benefícios para você e para o bebê.

Idosos: A lurasidona pode ser usada em idosos, mas com cuidado redobrado. Idosos com demência não devem usar esse remédio para controlar comportamentos, pois há risco aumentado de morte nessa população — isso é um alerta oficial para toda a classe de antipsicóticos atípicos.

Calor e desidratação: Em dias muito quentes ou se você estiver com diarreia/vômito, o risco de tontura e queda de pressão aumenta. Hidrate-se bem e evite exposição prolongada ao sol intenso.

Dirigir e operar máquinas: Especialmente no início do tratamento, a sonolência pode afetar sua capacidade de dirigir. Avalie com cuidado antes de pegar o carro nas primeiras semanas.


Perguntas frequentes

Vou engordar tomando lurasidona?
Essa é uma das vantagens da lurasidona em relação a muitos outros antipsicóticos. Nos estudos, o ganho de peso foi mínimo — em torno de meio quilo a um quilo nos primeiros meses — e em tratamentos mais longos, algumas pessoas até perderam um pouco de peso. Ela é considerada um dos antipsicóticos mais “neutros” em relação ao metabolismo. Isso não significa que você não vai engordar nunca, mas o risco é bem menor do que com remédios como olanzapina ou quetiapina.

Posso parar de tomar quando me sentir bem?
Não por conta própria. Sentir-se bem é exatamente o sinal de que o remédio está funcionando — não de que você não precisa mais dele. Parar de repente pode fazer os sintomas voltarem, às vezes com mais intensidade. A decisão de reduzir ou parar o tratamento precisa ser feita com seu médico, de forma gradual e planejada.

Vou ficar dependente desse remédio?
A lurasidona não causa dependência química no sentido de vício — ela não dá euforia nem faz o cérebro “pedir” mais. O que pode acontecer é que a condição que está sendo tratada precise de medicação por um tempo prolongado, assim como quem tem diabetes precisa de insulina. A duração do tratamento é algo que você e seu médico vão avaliar juntos ao longo do tempo.

Posso tomar com suco de toranja (grapefruit)?
Não é recomendado. O suco de toranja (grapefruit) interfere na enzima que processa a lurasidona no fígado, podendo fazer o nível do remédio no sangue subir mais do que deveria. Prefira outros sucos ou água para tomar o comprimido.

E se eu esquecer de tomar com comida?
Tome com a próxima refeição. Se já tomou em jejum por acidente uma vez, não é catástrofe — mas tente não fazer disso um hábito, porque o remédio funciona muito melhor quando tomado com alimento.


Referências

  • Stahl, S.M. Fundamentos de Psicofarmacologia, 3ª edição. Artmed, 2014. pp. 443–449.
  • U.S. Food and Drug Administration. Latuda (lurasidone hydrochloride) — Prescribing Information. Sunovion Pharmaceuticals, 2023. Disponível em: fda.gov
  • PubChem. Lurasidone — Compound Summary. National Library of Medicine. Disponível em: pubchem.ncbi.nlm.nih.gov

Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.

marque sua consulta

Cansado de consultas apressadas e respostas vagas?

Para adultos buscando respostas ou pais preocupados com os filhos: avaliação profunda de TDAH e Autismo que transformam vidas.

Médico Psiquiatra com foco em TDAH e Autismo.
Atendimento a adultos, adolescentes e crianças a partir de 6 anos.

CRM/UF · RQE 00000 · Psiquiatria

Atendimento

Credenciais

© 2026 Dr. Luigi Fernando - Psiquiatria. Todos os direitos reservados.

Site desenvolvido por: