O que é e para que serve?
A levomepromazina é um antipsicótico de primeira geração — um tipo de remédio que age principalmente no cérebro para reduzir sintomas como alucinações, delírios, agitação intensa e confusão mental. Ela pertence a uma família de medicamentos chamada fenotiazinas, a mesma da clorpromazina, um dos primeiros antipsicóticos criados pela medicina.
No Brasil, ela é usada principalmente para tratar esquizofrenia, episódios maníacos do transtorno bipolar e situações de agitação psicomotora intensa — quando a pessoa está muito agitada, agressiva ou fora de si. Por ter um efeito sedativo bastante pronunciado, também é usada em alguns casos para ajudar no controle da dor crônica severa e como calmante em situações específicas, como antes de procedimentos médicos.
No Brasil, você pode encontrar esse medicamento com os nomes comerciais Neozine® (o mais comum) e Levozine®. Ele existe em comprimidos, gotas e também em forma injetável, que é usada em ambiente hospitalar.
Como ele age no seu cérebro?
Pense no seu cérebro como uma cidade enorme, onde os neurônios são os moradores que se comunicam o tempo todo mandando mensageiros pelas ruas. Um desses mensageiros se chama dopamina — e ele é essencial para regular humor, percepção da realidade, movimento e prazer.
Em condições como a esquizofrenia, é como se houvesse dopamina demais circulando em certas ruas da cidade, causando um caos: os moradores começam a “ouvir” coisas que não existem, a ter medos intensos sem motivo real, a ficar muito agitados. A levomepromazina age como um bloqueador de portões: ela se encaixa nos receptores de dopamina (as “portas” pelos quais a dopamina entra nos neurônios) e impede que esse excesso de sinal cause confusão.
Além disso, ela também bloqueia outros mensageiros, como a histamina (a mesma substância envolvida nas alergias — por isso ela causa tanto sono) e a serotonina (outro mensageiro ligado ao humor). Esse conjunto de ações é o que explica tanto o efeito terapêutico quanto os efeitos colaterais que você pode sentir.
Quando começa a fazer efeito?
Depende do que estamos esperando. O efeito de acalmar e reduzir a agitação aparece rápido — às vezes já nas primeiras horas após tomar o remédio, especialmente a sonolência e o relaxamento.
Já o efeito sobre os sintomas mais profundos, como alucinações e delírios, é como reformar uma casa: você não vê a diferença no primeiro dia, mas semana a semana as coisas vão melhorando. Em geral, leva de 2 a 6 semanas para perceber uma melhora significativa nesses sintomas. Algumas pessoas levam um pouco mais.
Nas primeiras semanas, o que você provavelmente vai notar primeiro é o sono e a calma. Não interprete isso como “o remédio não está funcionando” — ele está trabalhando por dentro, ajustando os circuitos do cérebro aos poucos.
Como tomar corretamente
A levomepromazina costuma ser tomada 1 a 3 vezes ao dia, dependendo da dose que seu médico prescreveu. As doses variam bastante — de 25 mg até 300 mg por dia — e o médico vai ajustar conforme sua resposta e tolerância.
Tome com alimento. Comer alguma coisa antes de tomar o remédio ajuda a reduzir a irritação no estômago e pode diminuir um pouco a tontura.
Como ela causa bastante sono, muitos médicos preferem concentrar a dose maior à noite, antes de dormir. Converse com quem te prescreveu sobre o melhor horário para o seu caso.
Esqueceu uma dose? Se lembrar perto do horário, tome assim que puder. Se já estiver quase na hora da próxima dose, pule a esquecida e siga normalmente. Nunca tome duas doses de uma vez para compensar.
Não pare de tomar por conta própria. Mesmo que você esteja se sentindo bem — especialmente se estiver se sentindo bem. Parar de repente pode fazer os sintomas voltarem com força. Qualquer mudança no tratamento deve ser combinada com seu médico.
Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem
Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)
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Sonolência intensa: A levomepromazina bloqueia receptores de histamina no cérebro — os mesmos que os antialérgicos bloqueiam para te dar sono. Por isso, a sedação é um dos efeitos mais marcantes, especialmente no início. Com o tempo, o corpo costuma se adaptar. Evite dirigir ou operar máquinas até saber como o remédio te afeta.
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Tontura ao levantar (sensação de “escurecer a vista”): O remédio relaxa os vasos sanguíneos, o que faz a pressão cair um pouco quando você muda de posição — de deitado para sentado, ou de sentado para em pé. Levante devagar, segure em algo se precisar. Isso tende a melhorar com o tempo.
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Boca seca: A levomepromazina bloqueia receptores que controlam a produção de saliva (receptores muscarínicos, se quiser o nome técnico). O resultado é aquela sensação de boca ressecada. Beba água com frequência, use balas sem açúcar e cuide bem da higiene bucal — boca seca por muito tempo pode favorecer cáries.
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Constipação (intestino preso): Pelo mesmo motivo da boca seca — o bloqueio dos receptores muscarínicos também deixa o intestino mais lento. Capriche na água, nas frutas e nas fibras.
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Ganho de peso: Acontece por uma combinação de fatores: o remédio aumenta o apetite e diminui o gasto de energia. Não é inevitável, mas é comum. Atenção à alimentação e atividade física ajudam bastante.
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Visão embaçada: Também relacionada ao bloqueio dos receptores muscarínicos, que afetam a musculatura do olho. Geralmente é leve e passageira.
Menos comuns
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Movimentos involuntários ou rigidez muscular (efeitos extrapiramidais): O bloqueio da dopamina no cérebro não acontece só onde queremos — ele também afeta a região que controla os movimentos (chamada estriado). Isso pode causar tremores, rigidez, inquietação intensa (a pessoa não consegue ficar parada — isso se chama acatisia) ou movimentos involuntários. Se notar qualquer um desses sinais, avise seu médico — existem formas de tratar ou ajustar a dose.
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Aumento da prolactina: A prolactina é um hormônio produzido pela hipófise (uma glândula no cérebro). Quando a dopamina é bloqueada nessa região, a prolactina sobe. Isso pode causar, em mulheres, irregularidade menstrual ou saída de leite sem estar grávida; em homens, pode causar crescimento das mamas ou disfunção sexual. Avise seu médico se isso acontecer.
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Sensibilidade ao sol: A pele pode ficar mais sensível à luz solar, com risco de queimaduras mais fáceis. Use protetor solar e evite exposição prolongada ao sol.
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Pressão baixa: Além da tontura postural, em algumas pessoas a pressão pode cair de forma mais significativa. Fique atento a sintomas como fraqueza, palidez e coração acelerado.
Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)
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Síndrome Neuroléptica Maligna (SNM): É rara, mas grave. Os sinais são: febre alta, rigidez muscular intensa, confusão mental e suor excessivo aparecendo juntos. Se isso acontecer, vá a uma emergência imediatamente — é uma urgência médica.
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Discinesia tardia: Movimentos involuntários repetitivos, especialmente na boca, língua e rosto (como mastigar no vazio ou fazer caretas), que podem aparecer após uso prolongado. Avise seu médico se perceber qualquer movimento estranho que você não consegue controlar.
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Alterações no coração (prolongamento do QTc): A levomepromazina pode afetar o ritmo elétrico do coração. Isso é mais relevante se você já tem problemas cardíacos ou toma outros remédios que afetam o coração. Sintomas como palpitações, desmaio ou falta de ar devem ser avaliados com urgência.
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Problemas no fígado: Raro, mas possível. Fique atento a pele ou olhos amarelados, urina escura ou dor na barriga do lado direito.
O que fazer se tiver efeitos colaterais?
Primeiro: não entre em pânico. A maioria dos efeitos colaterais da levomepromazina é incômoda, mas não perigosa, e tende a diminuir nas primeiras semanas conforme o corpo se adapta.
Ligue ou mande mensagem para seu médico se:
– A sonolência estiver tão intensa que você não consegue funcionar no dia a dia
– Você notar movimentos involuntários, tremores ou rigidez muscular
– Sentir palpitações ou o coração batendo de forma estranha
– A pressão estiver caindo muito (tontura frequente, desmaios)
– Aparecerem sintomas hormonais (saída de leite, alteração menstrual)
Vá a uma UPA ou emergência se:
– Tiver febre alta com rigidez muscular e confusão — pode ser a Síndrome Neuroléptica Maligna
– Desmaiar ou tiver convulsões
– Pele ou olhos ficarem amarelados
O que NÃO fazer: Não pare o remédio de repente por conta própria, mesmo que esteja se sentindo mal. Parar abruptamente pode piorar os sintomas e causar uma reação de descontinuação. Converse com seu médico antes de qualquer mudança.
Cuidados importantes
Álcool: Evite completamente. O álcool potencializa o efeito sedativo da levomepromazina — a combinação pode causar sonolência perigosa, queda de pressão e até depressão respiratória. Não é exagero: essa mistura pode ser séria.
Outros remédios para dormir ou ansiedade: Se você tomar outros calmantes, ansiolíticos ou remédios para dormir junto com a levomepromazina, o efeito sedativo some. Sempre informe seu médico sobre tudo que você toma, incluindo remédios naturais e fitoterápicos.
Remédios para pressão: A levomepromazina pode potencializar o efeito de anti-hipertensivos (remédios para pressão alta), fazendo a pressão cair demais. Se você toma remédio para pressão, seu médico precisa saber.
Levodopa e remédios para Parkinson: A levomepromazina bloqueia a dopamina — o oposto do que os remédios para Parkinson fazem. Essa combinação pode ser problemática e geralmente é evitada.
Calor excessivo: Tome cuidado em dias muito quentes ou em ambientes abafados. O remédio pode prejudicar a capacidade do corpo de regular a temperatura, aumentando o risco de superaquecimento.
Gravidez e amamentação: O uso durante a gravidez deve ser avaliado com muito cuidado pelo médico — há riscos potenciais para o bebê, especialmente no terceiro trimestre. O remédio também pode passar para o leite materno. Se você está grávida, planeja engravidar ou está amamentando, converse com seu médico antes de qualquer decisão.
Idosos: Pessoas mais velhas são mais sensíveis aos efeitos de queda de pressão e sedação, o que aumenta o risco de quedas. O médico costuma usar doses menores nessa faixa etária.
Crianças: O uso em crianças é possível em situações específicas, mas com monitoramento cuidadoso. A decisão é sempre do médico especialista.
Perguntas frequentes
Vou ficar dependente da levomepromazina?
Não da forma que as pessoas costumam imaginar — ela não causa aquela sensação de “precisar cada vez mais” ou euforia. Mas o cérebro se adapta ao remédio com o tempo, então parar de repente pode causar desconforto. Por isso, qualquer redução de dose deve ser feita gradualmente, com orientação médica.
Posso beber álcool enquanto tomo esse remédio?
Não. A combinação de álcool com levomepromazina é perigosa — potencializa muito a sedação e pode causar queda de pressão séria. Enquanto estiver em tratamento, o ideal é evitar o álcool completamente.
Posso dirigir?
Nas primeiras semanas, provavelmente não com segurança — a sonolência pode ser intensa. Com o tempo, muitas pessoas se adaptam. Avalie honestamente como você está se sentindo antes de pegar o volante, e converse com seu médico sobre isso.
Posso parar de tomar quando me sentir bem?
Essa é uma das perguntas mais importantes. A resposta é: não por conta própria. Sentir-se bem muitas vezes é sinal de que o remédio está funcionando — não de que você não precisa mais dele. Parar sem orientação médica pode fazer tudo voltar, às vezes com mais intensidade. Quando chegar a hora de parar, seu médico vai te guiar nesse processo com segurança.
Esse remédio vai me deixar “zumbi” para sempre?
A sedação intensa costuma ser mais forte no começo do tratamento. Com o tempo e o ajuste da dose certa para você, a maioria das pessoas consegue funcionar bem no dia a dia. Se a sonolência estiver atrapalhando muito sua vida, converse com seu médico — a dose ou o horário podem ser ajustados.
Referências
- Stahl, S.M. Fundamentos de Psicofarmacologia, 3ª edição. Artmed, 2010.
- Miguel, E.C. et al. Clínica Psiquiátrica USP, 2ª edição, Volume 3. Manole, 2021.
- PubChem — National Library of Medicine. Methotrimeprazine (Levomepromazine). Disponível em: pubchem.ncbi.nlm.nih.gov
- Bula do Neozine® (levomepromazina). Sanofi-Aventis. Disponível no portal da ANVISA: bulario.anvisa.gov.br
Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.