O que é e para que serve?
O levetiracetam é um anticonvulsivante — ou seja, um remédio usado para controlar crises epilépticas. Ele pertence a uma geração mais nova de medicamentos para epilepsia e tem um jeito de agir bastante diferente dos anticonvulsivantes mais antigos, o que o torna uma opção interessante para muitas pessoas.
No Brasil, ele é vendido principalmente com o nome Keppra® (nas versões de liberação imediata e de liberação prolongada, chamada Keppra XR®). Também existem versões genéricas disponíveis em farmácias, com o próprio nome “levetiracetam”, que são equivalentes ao original e costumam ser mais acessíveis.
Ele é usado principalmente para tratar três tipos de crise epiléptica: as crises de início focal (que começam em uma parte específica do cérebro), as crises mioclônicas (aqueles “solavancos” involuntários que acontecem, por exemplo, de manhã cedo em pessoas com epilepsia mioclônica juvenil) e as crises tônico-clônicas generalizadas (o que muita gente chama de “convulsão com queda e tremores no corpo todo”). Na maioria das vezes, ele é prescrito junto com outro anticonvulsivante, funcionando como um reforço no tratamento. Fora da epilepsia, alguns médicos também o utilizam em casos de dor neuropática (aquela dor em queimação ou choque elétrico causada por nervo lesado) e em situações específicas de transtorno bipolar, embora esses usos sejam menos comuns.
Como ele age no seu cérebro?
Imagine que os neurônios do seu cérebro são como músicos numa orquestra. Numa crise epiléptica, é como se vários músicos começassem a tocar ao mesmo tempo, fora do ritmo, criando um barulho caótico — e esse “barulho elétrico” se espalha pelo cérebro causando a convulsão.
O levetiracetam age em uma proteína chamada SV2A, que fica nas “caixinhas” onde os neurônios guardam os mensageiros químicos que usam para se comunicar. Pense nessas caixinhas como os instrumentos dos músicos: o levetiracetam segura um pouco o gatilho que libera esses instrumentos, reduzindo a chance de todos dispararem juntos de forma descontrolada. Com isso, ele não apaga a comunicação normal entre os neurônios — só impede aquela “bagunça sincronizada” que caracteriza a crise epiléptica.
O que é curioso é que esse mecanismo é bem diferente do que a maioria dos outros anticonvulsivantes usa, o que faz dele uma boa opção quando outros remédios não funcionaram bem.
Quando começa a fazer efeito?
Diferente de alguns remédios que demoram semanas para agir (como os antidepressivos), o levetiracetam começa a trabalhar de forma relativamente rápida — em geral, o efeito anticonvulsivante já está presente desde os primeiros dias de uso, conforme a dose vai sendo ajustada.
Dito isso, o médico costuma começar com uma dose menor e ir aumentando aos poucos ao longo de semanas. Isso não é porque o remédio demora para agir, mas porque subir a dose devagar ajuda o seu corpo a se adaptar e reduz a chance de efeitos colaterais. Pense como aprender a usar um equipamento novo: você não coloca na potência máxima logo de cara.
Nas primeiras semanas, é normal sentir um pouco mais de sono ou cansaço — isso tende a melhorar conforme o corpo se acostuma. O controle das crises vai sendo avaliado pelo médico ao longo do tempo, e ajustes de dose são comuns até encontrar o ponto ideal para você.
Como tomar corretamente
O levetiracetam é tomado geralmente duas vezes ao dia — de manhã e à noite, com intervalo de aproximadamente 12 horas entre as doses. A versão de liberação prolongada (XR) pode ser tomada uma vez ao dia.
Com ou sem comida? Pode tomar das duas formas. Comer junto com o remédio não prejudica a absorção, mas pode deixar o pico de ação um pouquinho mais lento — nada que faça diferença prática no dia a dia. Se sentir enjoo no começo, tomar com um lanchinho pode ajudar.
Esqueceu uma dose? Se lembrar logo depois, tome assim que possível. Se já estiver perto do horário da próxima dose, pule a que esqueceu e siga normalmente — nunca tome duas doses de uma vez para compensar.
As doses variam bastante de pessoa para pessoa (geralmente entre 500 mg e 3.000 mg por dia, divididos em duas tomadas), e quem tem problema nos rins pode precisar de doses menores. Não ajuste a dose por conta própria.
Nunca pare de tomar de repente. Interromper qualquer anticonvulsivante de forma abrupta pode provocar crises de rebote — inclusive em pessoas que estavam bem controladas. Se quiser ou precisar parar, converse com seu médico para fazer isso de forma gradual e segura.
Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem
Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)
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Sonolência e cansaço: São os efeitos mais frequentes, especialmente nas primeiras semanas. Acontecem porque o remédio age no sistema nervoso central, que controla o estado de alerta. A boa notícia é que a maioria das pessoas se adapta com o tempo. Tomar a dose maior à noite pode ajudar a reduzir o sono durante o dia.
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Tontura: Também relacionada à ação do remédio no cérebro. Costuma aparecer no início do tratamento ou após aumento de dose. Levantar devagar da cama ou do sofá ajuda a evitar aquela sensação de “cabeça girando”.
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Dor de cabeça: Relativamente comum, especialmente no começo. Geralmente passa sozinha e responde bem a analgésicos comuns, se necessário.
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Fraqueza ou sensação de corpo pesado: Alguns pacientes descrevem uma sensação de cansaço muscular ou falta de energia. Tende a melhorar nas primeiras semanas.
Menos comuns
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Alterações de humor e comportamento: Esse é um ponto que merece atenção. Algumas pessoas ficam mais irritadas, ansiosas, agitadas ou com humor mais instável durante o uso do levetiracetam. Isso acontece porque o remédio age em circuitos cerebrais que também regulam o comportamento e as emoções. Não é sinal de “loucura” — é um efeito colateral conhecido. Se perceber mudanças significativas no seu jeito de ser, avise o médico.
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Dificuldade de coordenação motora: Pode aparecer como uma leve dificuldade para andar em linha reta ou movimentos menos precisos. Acontece porque o remédio reduz a excitabilidade de circuitos que também participam do controle motor.
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Perda de apetite: Algumas pessoas comem menos durante o tratamento. Não é preocupante na maioria dos casos, mas vale mencionar ao médico se for intensa.
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Infecções (como resfriados e faringite): Foram relatadas com mais frequência em estudos clínicos, embora a relação direta com o remédio não seja totalmente clara.
Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)
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Pensamentos de se machucar ou suicídio: Todos os anticonvulsivantes carregam um alerta sobre esse risco, que é raro mas real. Se você ou alguém próximo perceber pensamentos de se machucar, tristeza muito intensa ou comportamento estranho, procure atendimento médico imediatamente — não espere a próxima consulta.
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Reações alérgicas graves na pele: Em casos muito raros, pode surgir uma reação chamada Síndrome de Stevens-Johnson, que começa com manchas vermelhas na pele, bolhas e feridas na boca ou nos olhos. Se aparecer qualquer erupção na pele junto com febre, vá a uma emergência sem demora.
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Reação alérgica generalizada (anafilaxia): Inchaço no rosto, lábios ou garganta, dificuldade para respirar logo após tomar o remédio são sinais de emergência. Ligue para o SAMU (192) ou vá imediatamente a uma UPA.
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Alterações no sangue: Raramente, o remédio pode afetar a contagem de células do sangue. Seu médico pode pedir exames de sangue de rotina para monitorar isso.
O que fazer se tiver efeitos colaterais?
A maioria dos efeitos colaterais do levetiracetam aparece nas primeiras semanas e melhora sozinha conforme o corpo se adapta. A orientação geral é: espere um pouco antes de concluir que o remédio não está te servindo.
Ligue para o seu médico se:
– A sonolência ou o cansaço estiverem atrapalhando muito sua vida diária e não melhorarem após algumas semanas.
– Você perceber mudanças significativas no seu humor, comportamento ou personalidade.
– Aparecer qualquer mancha ou irritação na pele.
– As crises epilépticas piorarem ou ficarem mais frequentes.
Vá a uma UPA ou emergência se:
– Surgir inchaço no rosto, lábios ou garganta, ou dificuldade para respirar.
– Aparecer bolhas ou feridas na pele junto com febre.
– Você tiver pensamentos de se machucar.
O que NÃO fazer: Não pare o remédio por conta própria, mesmo que esteja se sentindo mal. Parar de repente pode desencadear crises epilépticas graves. Se precisar interromper o tratamento, o médico vai orientar como fazer isso de forma gradual e segura.
Cuidados importantes
Álcool: Evite ou reduza bastante o consumo de bebidas alcoólicas enquanto estiver tomando levetiracetam. O álcool também deprime o sistema nervoso central, e a combinação pode aumentar muito a sonolência e o risco de acidentes. Além disso, o álcool pode baixar o limiar para crises epilépticas — ou seja, facilitar que uma crise aconteça.
Outros remédios: Uma das vantagens do levetiracetam é que ele praticamente não interfere com outros medicamentos, porque não passa pelo sistema de enzimas do fígado que a maioria dos remédios usa. Mesmo assim, sempre informe seu médico e farmacêutico sobre tudo que você toma, incluindo suplementos e remédios naturais.
Gravidez: Se você está grávida ou planeja engravidar, converse com seu médico antes de qualquer mudança. Epilepsia não controlada durante a gravidez também traz riscos sérios para a mãe e o bebê, então a decisão de manter ou trocar o remédio precisa ser feita com cuidado e acompanhamento médico.
Amamentação: O levetiracetam passa para o leite materno em quantidades que podem ser significativas. Alguns bebês amamentados ficaram mais sonolentos ou com dificuldade para mamar. Se você está amamentando, o médico vai avaliar o risco e benefício e orientar o que fazer — não é necessariamente proibido, mas o bebê precisa ser monitorado.
Problemas nos rins: O levetiracetam é eliminado principalmente pelos rins. Se você tiver insuficiência renal, a dose precisa ser ajustada pelo médico para evitar acúmulo do remédio no organismo.
Direção e máquinas: Até você saber como o remédio te afeta, evite dirigir ou operar máquinas pesadas — a sonolência e a tontura do início do tratamento podem ser um risco.
Perguntas frequentes
Vou ficar dependente do levetiracetam?
Não, o levetiracetam não causa dependência química nem vício. Seu corpo não vai “pedir” o remédio da mesma forma que acontece com substâncias como benzodiazepínicos ou opioides. O que pode acontecer é que, se você parar de repente, as crises epilépticas podem voltar — mas isso é diferente de dependência, é simplesmente o retorno da condição que o remédio estava controlando.
Posso beber álcool de vez em quando?
O ideal é evitar. O álcool aumenta a sonolência causada pelo remédio e pode facilitar a ocorrência de crises epilépticas. Uma taça ocasional pode não causar problema para todo mundo, mas isso é algo para discutir com o seu médico, que conhece o seu caso específico.
Posso parar de tomar quando me sentir bem e sem crises?
Não por conta própria. A ausência de crises é sinal de que o remédio está funcionando — não de que você não precisa mais dele. A decisão de reduzir ou parar o tratamento é do médico, feita com base em quanto tempo você ficou sem crises, no tipo de epilepsia que você tem e em outros fatores individuais. Parar de repente pode provocar crises graves.
O levetiracetam vai me deixar “lerdo” ou afetar minha memória?
Comparado a anticonvulsivantes mais antigos, o levetiracetam tem um perfil bastante favorável em relação às funções cognitivas. A sonolência do início do tratamento pode dar uma sensação de “cabeça pesada”, mas isso tende a melhorar. Se você perceber que está com dificuldade de concentração ou memória que não melhora, avise o médico.
E se eu esquecer de tomar uma dose?
Tome assim que lembrar, desde que não esteja muito perto do horário da próxima dose. Se estiver, pule e siga o horário normal. Nunca dobre a dose para compensar. Se os esquecimentos forem frequentes, converse com o médico sobre estratégias para ajudar — como alarmes no celular ou organizadores de comprimidos.
Referências
- Bula do Keppra® (levetiracetam) — UCB Biopharma. Disponível na base de dados da ANVISA: bulario.anvisa.gov.br
- Stahl, S.M. Fundamentos de Psicofarmacologia de Stahl, 3ª edição. Artmed, 2014. (Capítulo sobre Levetiracetam, p. 393–396)
- FDA Drug Label — Levetiracetam Tablets. U.S. Food and Drug Administration. Disponível em: dailymed.nlm.nih.gov
Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.