Lamotrigina no transtorno da personalidade borderline

Definição e epidemiologia

O transtorno da personalidade borderline (TPB) é uma condição psiquiátrica grave e complexa, caracterizada por um padrão persistente de instabilidade nas relações interpessoais, na autoimagem, nos afetos e por uma marcada impulsividade. A desregulação emocional é o núcleo psicopatológico do transtorno. Nos sistemas classificatórios atuais, o TPB mantém sua posição como um transtorno de personalidade distinto. O DSM-5-TR preserva os critérios da seção II, que exigem um padrão invasivo de instabilidade, com início na adolescência ou início da idade adulta, manifestado por pelo menos cinco de nove critérios: esforços frenéticos para evitar abandono real ou imaginado; padrão de relações interpessoais instáveis e intensas caracterizado pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização; perturbação da identidade; impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente autodestrutivas; recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou de automutilação; instabilidade afetiva devido a uma acentuada reatividade do humor; sentimentos crônicos de vazio; raiva intensa e inapropriada ou dificuldade em controlá-la; e ideação paranoide transitória relacionada ao estresse ou sintomas dissociativos graves. A CID-11, por sua vez, adota uma abordagem dimensional, classificando o TPB sob a categoria "Transtorno da Personalidade com Desregulação do Limiar", caracterizado por limiar reduzido para experimentar e expressar emoções negativas (especialmente raiva), controle deficiente dos impulsos comportamentais, e um padrão de relacionamentos instáveis.

Epidemiologicamente, o TPB tem uma prevalência estimada na população geral entre 1% e 3%. É diagnosticado predominantemente em mulheres (cerca de 75% dos casos em contextos clínicos), embora estudos populacionais sugiram uma distribuição mais equitativa entre os sexos, indicando possíveis vieses de diagnóstico. No Brasil, dados epidemiológicos precisos são escassos, mas a prevalência em serviços de saúde mental, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), é significativamente alta, frequentemente representando uma parcela considerável dos casos atendidos em psicoterapia de longa duração. O curso do transtorno é crônico, porém com flutuações na intensidade dos sintomas. A impulsividade e os comportamentos autodestrutivos tendem a ser mais proeminentes na adolescência e na terceira década de vida, podendo atenuar-se com o avançar da idade. No entanto, a desregulação emocional e a instabilidade interpessoal frequentemente persistem. Fatores de risco incluem história de negligência, abuso emocional, físico ou sexual na infância, predisposição genética (com herdabilidade estimada em torno de 40%), e presença de transtornos do humor ou por uso de substâncias em familiares de primeiro grau.

Etiopatogenia e neurobiologia

A etiologia do TPB é multifatorial, integrando vulnerabilidades biológicas com experiências ambientais adversas, particularmente no contexto do desenvolvimento. Modelos atuais, como o modelo biosocial de Linehan, propõem que o transtorno surge da transação entre uma predisposição biológica inata para a desregulação emocional (vulnerabilidade emocional) e um ambiente invalidante, onde as experiências emocionais da criança são desconsideradas, punidas ou trivializadas.

Neurobiologicamente, evidências apontam para disfunções em circuitos cerebrais envolvidos no processamento emocional, no controle de impulsos e na integração cognitivo-afetiva. Estudos de neuroimagem funcional frequentemente mostram hiperreatividade da amígdala e de outras estruturas límbicas diante de estímulos emocionais negativos, combinada com um funcionamento reduzido ou ineficiente do córtex pré-frontal (especialmente o córtex pré-frontal ventromedial e o córtex cingulado anterior), responsável pela modulação emocional, tomada de decisão e inibição de impulsos. Esta desconexão funcional entre o "freio" cortical e o "acelerador" límbico é um substrato neural plausível para a labilidade emocional e a impulsividade características.

Em relação aos sistemas de neurotransmissores, a serotonina (5-HT) tem um papel central. A disfunção serotoninérgica, particularmente em circuitos que envolvem o córtex pré-frontal, está associada à impulsividade agressiva e à desregulação do humor. O trecho do Compêndio de Kaplan & Sadock (p.997) menciona que a lamotrigina "aumenta com moderação as concentrações plasmáticas de serotonina, possivelmente por meio da inibição da recaptação desse neurotransmissor, e é um fraco inibidor dos receptores 5-HT3". Esta modulação serotoninérgica é um dos mecanismos propostos para seus efeitos no TPB. Outros sistemas implicados incluem o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA), frequentemente hiperativo, levando a níveis elevados de cortisol; o sistema opioide endógeno, ligado à sensação de vazio e à automutilação; e o sistema glutamatérgico, onde a lamotrigina exerce seu efeito primário como estabilizador de membrana neuronal através do bloqueio de canais de sódio voltagem-dependentes, modulando a liberação de glutamato, um neurotransmissor excitatório.

Quadro clínico

O quadro clínico do TPB é marcado por uma instabilidade pervasiva que atravessa múltiplos domínios da experiência do indivíduo. Os pacientes quase sempre parecem estar em crise, com mudanças de humor rápidas e intensas (p.766).

Domínio do Humor/Afetividade: A desregulação emocional é cardinal. Os afetos são intensos, reativos e de curta duração, com mudanças abruptas entre ansiedade, raiva, desespero e euforia. Episódios de disforia intensa, irritabilidade ou ansiedade podem durar de algumas horas a poucos dias. Sentimentos crônicos de vazio são uma queixa comum e angustiante.

Domínio Cognitivo: A instabilidade se estende à autoimagem, que é fragmentada e inconsistente. Podem ocorrer episódios psicóticos transitórios e relacionados ao estresse (micropsicóticos), com sintomas como ideação paranoide, desrealização ou despersonalização. A cognição é frequentemente polarizada ("tudo ou nada", idealização/desvalorização), prejudicando a avaliação de situações e pessoas.

Domínio Comportamental/Interpessoal: A impulsividade se manifesta em comportamentos potencialmente autodestrutivos: gastos financeiros excessivos, sexo desprotegido, abuso de substâncias, compulsão alimentar. Comportamentos suicidas (gestos, ameaças, tentativas) e automutilação não suicida (cortes, queimaduras) são graves e frequentes, muitas vezes funcionando como uma estratégia (desadaptativa) de regulação emocional. As relações são intensas, caóticas e temáticas pelo medo do abandono, real ou imaginado, levando a esforços frenéticos para evitá-lo e a reações extremas de raiva quando a separação é percebida.

Sintomas Somáticos: Queixas somáticas inespecíficas são comuns. Perturbações do sono, como redução da latência REM e fragmentação, são observadas (p.766).

Avaliação e diagnóstico

Entrevista Clínica: A anamnese deve ser detalhada, focando na história do desenvolvimento, padrões relacionais ao longo da vida, história de traumas, e flutuações do humor e do comportamento. É crucial investigar a presença, frequência, método e intencionalidade de comportamentos suicidas e automutilantes. A avaliação do funcionamento interpessoal atual e da autoimagem é central.

Exame do Estado Mental: Pode revelar afeto lábil, intenso e incongruente. O discurso pode ser caótico ou dramático. O conteúdo do pensamento pode mostrar insegurança, desconfiança transitória e autorreferência. A avaliação da impulsividade e do julgamento é fundamental. Episódios dissociativos breves podem ser relatados.

Escalas e Instrumentos: No Brasil, instrumentos como a Entrevista Clínica Estruturada para os Transtornos do DSM (SCID-5-PD) e o Inventário de Personalidade Borderline (BPI) são utilizados para avaliação dimensional e diagnóstica. Escalas como a Escala de Impulsividade de Barratt (BIS-11) e a Escala de Desregulação Emocional (DERS) podem auxiliar no dimensionamento de sintomas-alvo.

Exames Complementares: Não há exames laboratoriais ou de neuroimagem diagnósticos para o TPB. Sua indicação é para exclusão de condições médicas que possam mimetizar ou agravar os sintomas (ex.: disfunções tireoidianas, lesões cerebrais) e para rastreio de comorbidades.

Diagnóstico Diferencial (Estruturado):

Condição Pontos de Diferenciação
Transtorno Bipolar Episódios de humor (mania/hipomania, depressão) são mais duradouros (dias/semanas), com início e fim mais claros. A instabilidade no TPB é reativa e de curta duração (horas).
Transtorno Depressivo Maior A depressão é mais persistente e menos reativa a eventos circunstanciais. Faltam os padrões crônicos de instabilidade relacional e identitária.
Transtorno de Estresse Pós-Traumático A instabilidade afetiva está mais ligada a triggers traumáticos específicos. Sintomas de revivência, evitação e hipervigilância são proeminentes.
Outros Transtornos de Personalidade Transtorno Histriônico (busca de atenção sem automutilação grave); Transtorno Narcisista (instabilidade derivada de ameaças à autoestima grandiosa); Transtorno de Personalidade Esquiva (medo de crítica sem raiva intensa).
Transtornos por Uso de Substâncias A impulsividade e a instabilidade afetiva são secundárias à intoxicação ou abstinência. A melhora com a abstinência sustentada ajuda a diferenciar.

Armadilhas e Comorbidades: O TPB raramente se apresenta de forma isolada. Comorbidades frequentes incluem transtornos depressivos, transtornos de ansiedade (especialmente pânico e social), transtorno de estresse pós-traumático, transtornos alimentares (principalmente bulimia) e transtornos por uso de substâncias. A superposição sintomática com o transtorno bipolar, em particular, é uma grande armadilha diagnóstica, podendo levar a tratamentos farmacológicos inadequados (ex.: uso excessivo de antipsicóticos ou estabilizadores sem indicação clara).

Tratamento farmacológico

O tratamento farmacológico do TPB é sintomático e adjuvante à psicoterapia, que é a intervenção de primeira linha. Não há medicamentos aprovados pela ANVISA especificamente para o TPB. O uso é off-label, visando sintomas-alvo específicos: agressividade/impulsividade, desregulação do humor (especialmente a disforia), sintomas cognitivo-perceptivos transitórios e comorbidades.

O trecho do Compêndio (p.776) fornece um guia sintoma-alvo para transtornos da personalidade. Para "Agressividade ou impulsividade" do tipo "Agressividade afetiva (temperamento explosivo com EEG normal)", são recomendados, entre outros, anticonvulsivantes. Para "Desregulação do humor" do tipo "Labilidade emocional", o lítio e os antipsicóticos são citados. A lamotrigina, um anticonvulsivante, posiciona-se, portanto, como uma opção principalmente para o controle da agressividade impulsiva e, por extensão, da desregulação emocional subjacente.

Evidências para Lamotrigina: O Compêndio menciona explicitamente (p.997): "Há relatos de benefício terapêutico no transtorno da personalidade borderline". A referência citada (Tritt et al., 2005, p.999) é um estudo duplo-cego controlado por placebo que investigou especificamente o tratamento da agressividade em pacientes borderline do sexo feminino, encontrando benefício para a lamotrigina. Este é um dos principais suportes empíricos para seu uso. Seu perfil de ação, descrito como "estabilizar o humor a partir de baixo" (p.997), com maior impacto no componente depressivo e propriedades ansiolíticas potenciais, é teoricamente interessante para a disforia e a instabilidade afetiva do TPB.

Algoritmo Terapêutico Farmacológico (Focado em Sintomas-Alvo):

  • 1ª Linha para Sintomas Cognitivo-Perceptivos Transitórios (Paranoia, Dissociação): Antipsicóticos de segunda geração (ex.: olanzapina, quetiapina, aripiprazol) em baixas doses.
  • 1ª Linha para Agressividade/Agressividade Afetiva/Impulsividade: Antipsicóticos de 2ª geração ou estabilizadores de humor como o lítio. Os anticonvulsivantes como lamotrigina ou valproato são opções de 1ª/2ª linha, dependendo do perfil do paciente.
  • 1ª Linha para Desregulação do Humor/Labilidade Emocional: Pode-se iniciar com um estabilizador de humor (lítio, lamotrigina, valproato) ou um antipsicótico.
  • Para Comorbidades (ex.: Depressão Maior): ISRS são frequentemente usados, mas com cautela devido ao risco inicial de aumento da impulsividade.

Lamotrigina: Mecanismo, Doses e Monitoramento:

  • Mecanismo de Ação: Bloqueador de canais de sódio voltagem-dependentes, modulando a liberação de glutamato. Também aumenta moderadamente a serotonina extracelular (p.997).
  • Posologia e Titulação: A titulação deve ser muito lenta para minimizar o risco de erupção cutânea grave, como a síndrome de Stevens-Johnson. Um esquema comum: 25 mg/dia por 2 semanas, depois 50 mg/dia por 2 semanas, depois aumentar 50 mg a cada 1-2 semanas até a dose alvo. No TPB, a dose eficaz costuma estar na faixa de 100 a 200 mg ao dia (p.998). Doses acima de 200 mg/dia geralmente não conferem benefício adicional consistente.
  • Efeitos Adversos e Precauções: É "impressionantemente bem tolerada" (p.997), com ausência de sedação significativa e ganho de peso. O efeito adverso mais temido é a erupção cutânea, que pode evoluir para condições graves como a síndrome de Stevens-Johnson (incidência estimada em ~2/10.000, p.395). O risco é maior com titulação rápida e em coadministração com valproato (que dobra a meia-vida da lamotrigina). O paciente deve ser instruído a interromper o medicamento e contactar o médico imediatamente ante qualquer rash. Outros efeitos incluem tontura, cefaleia, diplopia e náusea, geralmente transitórios.
  • Interações Medicamentosas: A concentração da lamotrigina é reduzida em 40-50% por carbamazepina, fenitoína ou fenobarbital (p.998). O valproato aumenta suas concentrações, exigindo ajuste de dose (geralmente metade da dose habitual). Contraceptivos hormonais combinados podem reduzir seus níveis.
  • Situações Especiais: Em gestação (categoria C do FDA), deve-se pesar riscos e benefícios; há registro no Latmed (Brasil). Em idosos ou em pacientes com comorbidades clínicas, iniciar com doses ainda mais baixas e titulação mais lenta.

Contexto Brasileiro: A lamotrigina está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) através da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) para o tratamento da epilepsia e do transtorno bipolar. Seu uso para TPB é off-label, o que exige prescrição por nome comercial (não pelo nome genérico no receituário do SUS) e justificativa clínica robusta no prontuário, conforme orientações do Conselho Federal de Medicina (CFM). O acesso pode variar entre municípios.

Tratamento não farmacológico

A psicoterapia é o pilar do tratamento do TPB, com várias modalidades demonstrando eficácia em ensaios controlados.

  • Terapia Comportamental Dialética (DBT): Desenvolvida por Marsha Linehan especificamente para o TPB. É o tratamento com maior evidência de eficácia para redução de comportamentos suicidas e automutilantes. Combina treinamento de habilidades em grupo (regulação emocional, tolerância ao mal-estar, eficácia interpessoal, mindfulness) com psicoterapia individual focada na motivação e na generalização das habilidades.
  • Terapia Baseada em Mentalização (MBT): Foca em melhorar a capacidade do paciente de "mentalizar", isto é, entender os estados mentais próprios e alheios por trás do comportamento. Isso ajuda a quebrar ciclos de reações emocionais intensas e desreguladas.
  • Psicoterapia Focada na Transferência (PFT): Uma psicoterapia psicodinâmica estruturada, baseada na teoria das relações objetais de Kernberg. O terapeuta utiliza clarificação e confrontação de forma ativa para analisar as distorções na transferência, tornando o paciente rapidamente consciente de seus padrões relacionais disfuncionais (p.767).
  • Terapia Focada no Esquema (SFT): Combina elementos cognitivo-comportamentais, psicodinâmicos e de attachment. Trabalha na modificação de esquemas desadaptativos precoces (ex.: abandono, desconfiança/abuso) que sustentam os sintomas do TPB.
  • Intervenções Psicossociais e Suporte Familiar: A psicoeducação familiar é crucial para reduzir o estresse no ambiente e melhorar o suporte. Programas de reabilitação psicossocial, oferecidos em CAPS, podem focar no treino de habilidades sociais e vocacionais.

Procedimentos como a Eletroconvulsoterapia (ECT) não têm indicação de rotina para o TPB, sendo reservados para episódios depressivos graves comórbidos e refratários.

Manejo clínico prático

A decisão de iniciar a lamotrigina no TPB deve ser baseada na predominância de sintomas-alvo de agressividade/impulsividade e desregulação emocional que não responderam adequadamente à psicoterapia e a outras intervenções farmacológicas iniciais (ex.: um antipsicótico de baixa dose). É uma medicação de ação lenta; os efeitos na impulsividade e na estabilidade do humor podem levar semanas a meses para serem plenamente observados.

Monitoramento: Além do monitoramento padrão para rash, a avaliação da resposta deve ser feita com base em relatos do paciente, observação clínica e, se possível, uso de escalas (ex.: BIS-11, DERS). A melhora esperada é na redução da frequência e intensidade dos episódios de raiva explosiva, da impulsividade destrutiva e da labilidade emocional disfórica.

Manejo da Resistência Terapêutica: Se não houver resposta após 2-3 meses na dose alvo de 200 mg/dia, considera-se a falha ao medicamento. As opções incluem: 1) Revisar o diagnóstico e aderência; 2) Aumentar a dose para até 400 mg/dia, monitorando cuidadosamente a relação benefício-risco; 3) Trocar por outro estabilizador (ex.: valproato, topiramato); 4) Adicionar um segundo agente (ex.: combinar lamotrigina com um antipsicótico de baixa dose), lembrando das interações potenciais.

Contexto Brasileiro Prático: No SUS, o manejo do TPB é centrado nos CAPS, que oferecem psicoterapia individual e em grupo, atendimento multiprofissional e acompanhamento médico. A prescrição de lamotrigina off-label nesse contexto deve ser feita por um psiquiatra, com documentação clara da indicação (sintomas-alvo refratários) e do plano de monitoramento. A comunicação com a equipe de farmácia do serviço é essencial para garantir a dispensação. A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) não tem diretrizes específicas para o TPB, mas endossa o uso de psicoterapias especializadas e o manejo farmacológico sintoma-alvo.

Perspectiva do paciente e comunicação clínica

O paciente com TPB vivencia uma tormenta interna constante. Suas queixas principais giram em torno de um sofrimento emocional avassalador e incontrolável ("sinto tudo de forma muito intensa"), sentimentos de vazio crônico, medo paralisante de ser abandonado e vergonha/culpa após episódios de impulsividade ou raiva. A automutilação é frequentemente descrita como um alívio temporário de uma dor emocional insuportável.

Psicoeducação: É fundamental explicar que o TPB é um transtorno legítimo do neurodesenvolvimento, não uma falha de caráter. Deve-se esclarecer o modelo da desregulação emocional e como a lamotrigina pode atuar como um "amortecedor" para as oscilações emocionais rápidas e intensas, facilitando o aprendizado e a aplicação das habilidades de regulação emocional aprendidas na psicoterapia. É imperativo educar paciente e familiares sobre o risco de rash, instruindo sobre a interrupção imediata e contato médico.

Impacto Funcional: O TPB causa grave prejuízo nas áreas acadêmica, profissional e social. A instabilidade dificulta a manutenção de empregos e relacionamentos saudáveis. A melhora com o tratamento visa aumentar a capacidade de funcionamento estável nessas áreas.

Adesão: Barreiras incluem a impulsividade que leva a abandonos súbitos, desesperança quanto à eficácia, efeitos colaterais (o medo do rash pode ser uma barreira) e dificuldades na relação terapêutica (transferência negativa). Estratégias para melhorar a adesão incluem: titulação muito lenta para minimizar efeitos colaterais, contrato terapêutico claro, envolvimento da família na psicoeducação e uma relação médico-paciente validante e com limites firmes.

Perguntas frequentes

1. A lamotrigina é aprovada para tratar o transtorno borderline?
Não. A lamotrigina é aprovada pela ANVISA para epilepsia e transtorno bipolar. Seu uso no transtorno borderline é off-label, ou seja, baseado em evidências científicas preliminares e na prática clínica especializada para o controle de sintomas específicos como a agressividade impulsiva e a desregulação emocional.

2. Quanto tempo leva para a lamotrigina fazer efeito no TPB?
Diferente de um ansiolítico, a lamotrigina não tem efeito agudo. Como estabilizador de humor, seus efeitos na modulação emocional e no controle de impulsos podem começar a ser percebidos após 4 a 8 semanas de uso na dose terapêutica. O efeito pleno pode levar 3 meses ou mais.

3. O risco de rash é muito alto? Como posso me prevenir?
O risco de rash grave (como a síndrome de Stevens-Johnson) é baixo (cerca de 2 em 10.000 pacientes), mas real. A principal forma de prevenção é a titulação extremamente lenta da dose, conforme orientação médica. O paciente deve ser instruído a interromper o medicamento imediatamente e contactar o médico ao primeiro sinal de qualquer erupção na pele, coceira ou ferida na boca, especialmente nos primeiros meses de tratamento.

4. A lamotrigina causa ganho de peso ou sonolência?
Um dos benefícios da lamotrigina é seu perfil favorável nesses aspectos. Ela é considerada "impressionantemente bem tolerada" e, de modo geral, não causa ganho de peso significativo nem sedação pronunciada, o que a diferencia de outros estabilizadores de humor e antipsicóticos.

5. Posso tomar lamotrigina junto com o anticoncepcional?
Sim, mas a interação é importante. Contraceptivos hormonais combinados (pílula, adesivo, anel) podem reduzir pela metade a concentração da lamotrigina no sangue, potencialmente diminuindo sua eficácia. Seu médico deve ser informado sobre o uso de anticoncepcionais para ajustar a dose da lamotrigina se necessário. A lamotrigina não interfere na eficácia do anticoncepcional.

6. A lamotrigina substitui a psicoterapia no tratamento do TPB?
Absolutamente não. A psicoterapia especializada (como DBT, MBT ou TFT) é o tratamento de primeira linha e fundamental para o TPB. A lamotrigina é um coadjuvante. Ela pode ajudar a "acalmar o terreno emocional", reduzindo a intensidade dos sintomas para que o paciente consiga se engajar de forma mais efetiva no processo psicoterapêutico e aplicar as habilidades aprendidas.

7. Para quais sintomas do borderline a lamotrigina é mais indicada?
As evidências e a prática clínica sugerem que ela é mais útil para os sintomas de agressividade afetiva (explosões de raiva), impulsividade e desregulação do humor (labilidade emocional, especialmente a disforia). Ela tem menos evidência para sintomas crônicos como sentimento de vazio ou problemas de identidade, e não é a primeira escolha para sintomas psicóticos transitórios.

8. O que fazer se eu esquecer uma dose?
Se o esquecimento for percebido em até algumas horas, tome a dose assim que lembrar. Se já estiver próximo do horário da dose seguinte, pule a dose esquecida e tome apenas a próxima no horário habitual. Nunca tome duas doses de uma vez para compensar, pois isso aumenta o risco de efeitos colaterais, incluindo o rash. Mantenha uma rotina para minimizar esquecimentos.

Referências

  • Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. (Trechos das páginas 395, 766, 767, 776, 997, 998, 999).
  • American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
  • Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. Genebra: OMS, 2022.
  • Tritt K, Nickel C, Lahmann C, Leiberich PK, Rother WK. Lamotrigine treatment of aggression in female borderline-patients: A randomized, double-blind, placebo-controlled study. J Psychopharmacol. 2005;19(3):287-291.
  • Conselho Federal de Medicina (Brasil). Resoluções e notas técnicas sobre prescrição off-label e uso de medicamentos.
  • Ministério da Saúde (Brasil). Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). 2022.

Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.

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