Lamotrigina no transtorno bipolar: estabilização “a partir de baixo”

Definição e epidemiologia

A lamotrigina é um fármaco anticonvulsivante da classe dos bloqueadores de canais de sódio, aprovado para uso como estabilizador do humor na profilaxia de episódios de humor no transtorno bipolar tipo I. Sua posição nosológica é singular: não é um antimaníaco clássico, como o lítio ou o ácido valproico, nem um antidepressivo tradicional. O Compêndio de Psiquiatria de Kaplan & Sadock define seu papel como um agente que "parece ‘estabilizar o humor a partir de baixo’", exercendo seu impacto máximo no componente depressivo dos transtornos bipolares. Esta característica a diferencia dos demais estabilizadores, que tipicamente têm maior potência na prevenção da mania.

O transtorno bipolar, sua principal indicação, é uma condição crônica e recorrente caracterizada por oscilações patológicas do humor, energia e atividade, compreendendo episódios de mania/hipomania e depressão. De acordo com o DSM-5-TR, o diagnóstico do transtorno bipolar tipo I requer a ocorrência de pelo menos um episódio maníaco, que pode ser precedido ou seguido por episódios hipomaníacos ou depressivos maiores. A CID-11 classifica os transtornos bipolares e afins em categorias distintas, com especificadores para o curso atual (episódio depressivo, maníaco, etc.) e características sintomáticas.

Epidemiologicamente, o transtorno bipolar tipo I tem uma prevalência mundial ao longo da vida estimada entre 0,6% e 1,0%. No Brasil, estudos populacionais sugerem uma prevalência de transtorno bipolar (tipos I e II) ao longo da vida em torno de 1,5% a 2,5%, alinhada com as estimativas globais. A distribuição por sexo é equitativa no tipo I, embora o curso possa diferir, com mulheres apresentando maior risco de episódios depressivos e ciclagem rápida. O início típico ocorre no final da adolescência ou início da vida adulta (entre 15 e 30 anos). Fatores de risco incluem história familiar de transtorno bipolar (com herdabilidade estimada em 60-85%), eventos de vida estressantes, abuso de substâncias e comorbidades psiquiátricas. O curso clínico é variável, mas sem tratamento, os episódios tendem a se tornar mais frequentes e graves ao longo do tempo. A depressão bipolar é a fase mais prevalente ao longo da vida do transtorno e está associada ao maior prejuízo funcional e risco de suicídio, constituindo um alvo terapêutico crítico.

Etiopatogenia e neurobiologia

A etiopatogenia do transtorno bipolar é multifatorial, envolvendo uma complexa interação entre predisposição genética, alterações neurobiológicas e fatores ambientais. Modelos atuais propõem disfunções nos sistemas de regulação do estresse, ritmos circadianos e processamento emocional.

Do ponto de vista neurobiológico, a ação da lamotrigina oferece pistas sobre os sistemas potencialmente envolvidos na depressão bipolar. Seu mecanismo de ação primário é o bloqueio de canais de sódio voltagem-dependentes, inibindo a liberação de neurotransmissores excitatórios, principalmente o glutamato. A hiperatividade glutamatérgica tem sido implicada na fisiopatologia da mania e da depressão bipolar. Ao modular essa excitação neuronal excessiva, a lamotrigina pode exercer um efeito estabilizador. Além disso, conforme descrito no Compêndio, a lamotrigina "aumenta com moderação as concentrações plasmáticas de serotonina, possivelmente por meio da inibição da recaptação desse neurotransmissor, e é um fraco inibidor dos receptores 5-HT3". Esta modulação serotoninérgica pode contribuir para suas propriedades antidepressivas. Diferente dos antidepressivos tradicionais, seu efeito sobre a noradrenalina e a dopamina é mínimo, o que pode explicar sua baixa propensão a induzir virada para mania.

Achados de neuroimagem em transtorno bipolar frequentemente mostram alterações em circuitos fronto-límbicos envolvidos no processamento emocional e na regulação do humor, como o córtex pré-frontal, a amígdala e o estriado ventral. Estudos genéticos identificaram múltiplos loci de risco, muitos relacionados à função sináptica, canais iônicos e sinalização intracelular. A lamotrigina, ao atuar em canais iônicos e modular a transmissão sináptica, pode corrigir parcialmente essas vias disfuncionais. A eficácia da lamotrigina no transtorno bipolar de ciclagem rápida sugere ainda um possível papel na modulação de sistemas de ritmicidade biológica, embora este mecanismo não esteja completamente elucidado.

Quadro clínico

O quadro clínico do transtorno bipolar é polimorfo, mas o foco aqui recai sobre a fase depressiva, alvo principal da lamotrigina. Um episódio depressivo maior no transtorno bipolar pode ser indistinguível da depressão unipolar em sua apresentação fenotípica, mas frequentemente apresenta características atípicas ou específicas.

Domínio do Humor: Humor depressivo persistente, vazio ou desesperança. Irritabilidade significativa é comum. Anedonia (perda de interesse ou prazer) é um sintoma cardinal.
Domínio Cognitivo: Lentificação do pensamento (retardo psicomotor) ou, menos comumente, agitação. Dificuldades de concentração, memória e tomada de decisões. Pensamentos de culpa inapropriada, desvalia e ideação suicida (o risco é particularmente alto na depressão bipolar).
Domínio Comportamental: Retraimento social, isolamento. Diminuição acentuada da atividade e energia. Pode haver hipersonia (dormir em excesso) ou insônia. Alterações no apetite (geralmente aumento com craving por carboidratos, mas pode haver redução).
Sintomas Somáticos: Queixas inespecíficas de dor, fadiga crônica, sensação de peso no corpo.

Especificadores Relevantes (DSM-5-TR):

  • Com características ansiosas: Muito comum na depressão bipolar.
  • Com características mistas: Sintomas depressivos e hipomaníacos leves coexistem. A lamotrigina pode ser uma opção útil neste cenário devido ao baixo risco de exacerbar os sintomas (hipo)maníacos.
  • Com características atípicas: Reatividade do humor, hipersonia, aumento de apetite/peso, sensação de membros pesados e sensibilidade à rejeição.
  • Com ciclagem rápida: Pelo menos quatro episódios de humor no ano anterior. A lamotrigina tem eficácia comprovada nesta subpopulação de difícil tratamento.

A depressão bipolar é frequentemente mais crônica, com maior taxa de suicídio e pior resposta a antidepressivos convencionais isolados do que a depressão unipolar.

Avaliação e diagnóstico

Entrevista Clínica: A anamnese deve buscar a história de vida dos episódios de humor, com foco na identificação de episódios hipomaníacos ou maníacos passados (frequentemente sub-relatados ou vistos como períodos de "bom funcionamento"). É crucial entrevistar um informante próximo. Deve-se perguntar diretamente sobre: períodos de energia excessiva, redução da necessidade de sono, gastos excessivos, comportamentos impulsivos ou sexualmente desinibidos, fala acelerada e ideação grandiosa.

Exame do Estado Mental: Durante um episódio depressivo bipolar, pode-se observar: humor deprimido ou irritável, afeto restrito ou lábil, retardo psicomotor ou agitação, discurso lento e de baixo volume. O pensamento pode revelar conteúdo de desvalia, culpa e ideação suicida. A percepção e a orientação geralmente estão preservadas.

Escalas e Instrumentos (Validados no Brasil):

  • Escala de Avaliação de Mania de Young (YMRS): Para rastrear sintomas (hipo)maníacos.
  • Inventário de Depressão de Beck (BDI-II) ou Escala de Depressão de Montgomery-Åsberg (MADRS): Para quantificar a gravidade depressiva.
  • Questionário de Transtorno do Humor (MDQ – Mood Disorder Questionnaire): Útil como ferramenta de rastreio para histórico de sintomas bipolares.
  • Escala de Impressão Clínica Global para Transtorno Bipolar (CGI-BP): Avaliação global do clínico.

Exames Complementares: Não há exames diagnósticos. A avaliação laboratorial (hemograma, função tireoidiana, perfil metabólico, função renal e hepática) e neuroimagem (para excluir causas orgânicas) são indicados no diagnóstico diferencial e para basear a segurança do tratamento farmacológico.

Diagnóstico Diferencial (Estruturado):

Condição Pontos de Diferenciação
Transtorno Depressivo Maior (Unipolar) Ausência de história de episódios maníacos ou hipomaníacos. Resposta diferente a antidepressivos.
Transtorno de Personalidade Borderline A instabilidade afetiva é reativa, de curta duração (horas/dias), com medo de abandono e problemas de identidade. A lamotrigina pode ter benefício adjuvante.
Transtorno por Uso de Substâncias Sintomas de humor diretamente induzidos por intoxicação ou abstinência.
Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) A desatenção e impulsividade são crônicas, não episódicas. A hipomania envolve um aumento claro e episódico da energia e direcionamento de objetivos.
Condições Médicas (e.g., tireoidopatias, tumores, epilepsia do lobo temporal) Sintomas explicados por achados laboratoriais ou de imagem.

Armadilhas Diagnósticas: O maior erro é diagnosticar depressão unipolar em um paciente bipolar, pois o tratamento com antidepressivos isolados pode desencadear virada para mania, ciclagem rápida ou piora do curso da doença. A "mania disfórica" ou episódios mistos podem ser confundidos com depressão agitada ou transtorno de personalidade.

Tratamento farmacológico

A lamotrigina ocupa um nicho específico no algoritmo terapêutico do transtorno bipolar, principalmente voltado para a fase depressiva e a profilaxia de recaídas depressivas.

Algoritmo Terapêutico Baseado em Evidências:

  • Depressão Bipolar Aguda (1ª linha): Combinação de um estabilizador do humor (lítio ou valproato) com um antidepressivo (com cautela) ou um antipsicótico atípico com propriedades antidepressivas (como quetiapina ou lurasidona). A combinação fixa olanzapina-fluoxetina é aprovada. A lamotrigina, conforme o Compêndio, demonstrou utilidade potencial na depressão bipolar aguda, mas a magnitude do efeito foi moderada demais para render um desempenho consistentemente superior comparada com placebo. Portanto, não recebeu aprovação para o tratamento desse transtorno. Na prática clínica, é frequentemente usada como opção de segunda ou terceira linha neste cenário, ou como primeira escolha em perfis onde o ganho de peso ou sedação são preocupações primárias.
  • Profilaxia de Episódios Depressivos (1ª linha): A lamotrigina é uma terapia de primeira linha para a prevenção de recaídas depressivas no transtorno bipolar tipo I. É mais eficaz em prolongar os intervalos entre episódios depressivos do que maníacos. Para pacientes com predomínio de fases depressivas ou ciclagem rápida, pode ser a escolha inicial.
  • Profilaxia de Episódios Maníacos (1ª linha): Lítio, valproato ou certos antipsicóticos atípicos são superiores. A lamotrigina não é eficaz como intervenção principal em mania aguda e tem efeito profilático antimaníaco modesto.

Mecanismo de Ação: Bloqueio de canais de sódio voltagem-dependentes, modulando a liberação de neurotransmissores excitatórios (glutamato). Também modera a recaptação de serotonina.

Dosagem e Titulação (CRÍTICO):
A titulação lenta é imperativa para minimizar o risco de erupções cutâneas graves, como a síndrome de Stevens-Johnson.

  • Esquema padrão (sem valproato): Semana 1-2: 25 mg/dia. Semana 3-4: 50 mg/dia. Semana 5: 100 mg/dia. Semana 6 em diante: Aumentar para 200 mg/dia. A dose alvo de manutenção é tipicamente 100-200 mg/dia. "Nos experimentos clínicos… não houve aumento da eficácia consistente associado a doses acima de 200 mg diários."
  • Esquema com valproato (que inibe o metabolismo): Titulação ainda mais lenta. Iniciar com 12,5 mg (ou 25 mg em dias alternados) por 2 semanas, depois 25 mg/dia por 2 semanas, com aumentos posteriores lentos. A dose de manutenção é frequentemente metade da dose padrão (50-100 mg/dia).
  • Administração: A dose total pode ser tomada uma vez ao dia (manhã ou noite), dependendo se o paciente percebe um efeito levemente ativador ou sedativo.

Monitoramento e Efeitos Adversos:

  • Erupções Cutâneas: O efeito adverso mais temido. A incidência de erupções graves (síndrome de Stevens-Johnson, necrólise epidérmica tóxica) é de aproximadamente 2 em 10.000 adultos. O risco é maior nas primeiras 8 semanas, com titulação rápida, em crianças e com uso concomitante de valproato. Qualquer rash deve ser avaliado imediatamente, e a medicação suspensa se houver suspeita de gravidade (rash mucocutâneo, febre, mal-estar, bolhas).
  • Tolerabilidade Geral: É "impressionantemente bem tolerada. A ausência de sedação, ganho de peso e de outros efeitos" metabólicos é uma vantagem distinta. Efeitos comuns e geralmente transitórios incluem cefaleia, tontura, sonolência, náusea e visão turva.
  • Monitoramento Laboratorial: Não há correlação comprovada entre concentrações sanguíneas e eficácia. Testes de rotina não são necessários para monitorar eficácia, mas exames de função hepática podem ser considerados no início do tratamento.

Situações Especiais:

  • Gestação e Lactação: Categoria de risco C (FDA). Há registro de um risco aumentado de fenda oral no feto. Decisão deve ser individualizada, pesando risco de recaída materna. É excretada no leite materno.
  • Idosos: Iniciar com doses mais baixas e titulação mais lenta devido a possíveis alterações no metabolismo e maior sensibilidade.
  • Insuficiência Renal/Hepática: Ajuste de dose necessário. Em insuficiência hepática grave, evitar ou usar com extrema cautela.

Protocolos Brasileiros: A lamotrigina consta no RENAME (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais) para epilepsia e está disponível no SUS. Para transtorno bipolar, seu acesso pode variar conforme protocolos locais e programas de assistência. A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em suas diretrizes reconhece a lamotrigina como opção eficaz para a profilaxia de episódios depressivos no transtorno bipolar.

Tratamento não farmacológico

O manejo do transtorno bipolar é fundamentalmente biopsicossocial. A lamotrigina é um pilar farmacológico, mas deve ser integrada a intervenções não farmacológicas.

Psicoterapias com Evidência:

  • Psicoeducação: Estrutura essencial. Ensina o paciente e a família sobre a doença, desmistifica o tratamento, reconhece pródromos, promove adesão e desenvolve planos de ação para crises.
  • Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) para Transtorno Bipolar: Foca na identificação e modificação de pensamentos e comportamentos disfuncionais que podem precipitar ou exacerbar episódios. Trabalha adesão, regulação do sono e manejo do estresse.
  • Terapia Focada na Família (FFT): Melhora a comunicação familiar, reduz o estresse no ambiente doméstico e cria uma rede de suporte para o manejo da doença.
  • Terapia de Ritmo Interpessoal e Social (IPSRT): Auxilia na estabilização dos ritmos sociais e circadianos (padrões de sono, alimentação, atividade), um fator chave na estabilização do humor.

Intervenções Psicossociais e Reabilitação: Suporte vocacional, treinamento de habilidades sociais e manejo financeiro são cruciais, dado o impacto funcional da doença, especialmente durante as fases depressivas.

Procedimentos:

  • Eletroconvulsoterapia (ECT): Indicada para depressão bipolar grave, catatônica, psicótica ou resistente a tratamento farmacológico. É altamente eficaz. O Compêndio a menciona como útil para pacientes que não respondem a lítio ou outros estabilizadores.
  • Estimulação Magnética Transcraniana (TMS): Pode ser uma opção para depressão bipolar não psicótica e resistente, com menor risco de indução de mania comparado a antidepressivos.
  • Estimulação do Nervo Vago (VNS): Opção para casos crônicos e resistentes de depressão (incluindo bipolar).

Manejo clínico prático

Tomada de Decisão: Iniciar Lamotrigina

  • Quando: 1) Paciente bipolar tipo I ou II com predomínio de fases depressivas recorrentes, iniciando na eutimia para profilaxia. 2) Paciente em depressão bipolar aguda que não respondeu ou não tolerou outras terapias. 3) Paciente com diagnóstico de ciclagem rápida. 4) Paciente com comorbidade de obesidade ou risco metabólico onde outros estabilizadores são contraindicados.
  • Como: Enfatizar a necessidade absoluta de titulação lenta. Fornecer por escrito o esquema posológico. Educar sobre o rash. Considerar interações medicamentosas no início (especialmente com valproato).

Monitoramento da Resposta e Remissão:

  • Resposta Aguda (na depressão): Melhora pode começar após 3-5 semanas na dose alvo. Monitorar sintomas com escalas (MADRS, BDI) e avaliação clínica.
  • Remissão/Estabilização Prolongada: Ausência de episódios de humor significativos por pelo menos 2-3 meses. O objetivo é a eutimia sustentada. A lamotrigina "prolonga o tempo entre episódios de depressão e mania".
  • Critérios para Troca/Combinação: Se houver recaída depressiva na dose máxima tolerada, adicionar um segundo estabilizador (e.g., lítio para reforço antimaníaco) ou um antipsicótico atípico. Se houver recaída maníaca, a lamotrigina sozinha é insuficiente; adicionar/otimizar um antimaníaco.

Manejo de Resistência Terapêutica: Em depressão bipolar resistente, estratégias incluem: otimizar a dose de lamotrigina (até 400 mg/dia, off-label), combinar com lítio, usar quetiapina ou lurasidona, ou considerar ECT/TMS.

Contexto Brasileiro:

  • SUS/CAPS: A prescrição de lamotrigina para transtorno bipolar pode ser feita no âmbito do SUS, muitas vezes via CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). A disponibilidade do medicamento pode depender de protocolos estaduais/municipais e de solicitação via processos de dispensação excepcional.
  • Acesso: O custo da lamotrigina no setor privado pode ser uma barreira. Genéricos estão disponíveis e são amplamente utilizados. O médico deve conhecer os mecanismos locais de acesso para garantir a continuidade do tratamento.

Perspectiva do paciente e comunicação clínica

Vivência do Paciente: O paciente em depressão bipolar vivencia um sofrimento profundo, com lentidão, falta de energia, desesperança e alto risco suicida. Muitos relatam a frustração de antidepressivos "não funcionarem" ou piorarem sua condição ("me deixam acelerado e depois pior"). A proposta de um medicamento "estabilizador" que não cause sedação ou ganho de peso é frequentemente recebida com alívio e esperança.

Psicoeducação (O que Explicar):

  1. Conceito de "Estabilizar a Partir de Baixo": "Este remédio age principalmente para prevenir e tratar as fases de depressão da sua doença. Ele é como um alicerce que fortalece o ‘piso’ do seu humor, impedindo que ele caia muito. Para proteger contra a elevação excessiva (mania), às vezes precisamos combiná-lo com outra medicação."
  2. Titulação Lenta e Rash: "Vamos aumentar a dose muito devagar, ao longo de várias semanas. Isso é fundamental para sua segurança. Se aparecer qualquer mancha ou coceira na pele, especialmente com febre ou mal-estar, você deve me contactar imediatamente e parar de tomar o remédio até nossa avaliação."
  3. Expectativas Realistas: "Ele não é um antidepressivo de efeito rápido. Seu papel principal é prevenir novas crises a longo prazo. Pode levar alguns meses para percebermos seu efeito protetor completo."
  4. Vantagens: "Uma grande vantagem é que ele geralmente não causa ganho de peso, sonolência diurna ou interferência na sua capacidade de pensar com clareza."

Impacto Funcional: A estabilização do polo depressivo permite a retomada de atividades laborais, acadêmicas, sociais e de autocuidado, com impacto direto na qualidade de vida.

Adesão ao Tratamento:

  • Barreiras: Titulação complexa, medo do rash, custo, demora para efeito profilático, necessidade de uso crônico.
  • Estratégias: Fornecer calendário posológico escrito, reforçar a segurança da titulação lenta, associar a tomada a um hábito diário, agendar consultas de seguimento regulares para ajustes e reforço motivacional.

Perguntas frequentes

1. A lamotrigina é um antidepressivo?
Não, pelo menos não no sentido tradicional. Ela é um estabilizador do humor com propriedades antidepressivas agudas e, principalmente, profiláticas. Diferente dos antidepressivos comuns, ela tem um risco muito baixo de induzir virada para mania ou ciclagem rápida em pacientes bipolares.

2. Por que a dose precisa ser aumentada tão devagar?
A titulação lenta (ao longo de 5 a 8 semanas) é a estratégia mais importante para reduzir o risco de uma reação cutânea grave, porém rara, chamada síndrome de Stevens-Johnson. Seguir o esquema prescrito à risca é uma questão de segurança.

3. A lamotrigina causa ganho de peso ou sonolência?
Uma das principais vantagens da lamotrigina é sua excelente tolerabilidade metabólica e cognitiva. Ela geralmente não causa ganho de peso significativo, sedação diurna ou embotamento mental, sendo bem diferenciada de outros estabilizadores e antipsicóticos.

4. Ela trata a mania?
Não como tratamento agudo. A lamotrigina não é eficaz para controlar um episódio maníaco em curso. Para a prevenção (profilaxia) de mania, seu efeito é modesto. Por isso, em pacientes com histórico de manias graves, ela é frequentemente combinada com outro estabilizador de maior potência antimaníaca, como o lítio.

5. Posso parar de tomar se me sentir bem?
Absolutamente não. O transtorno bipolar é uma condição crônica. A lamotrigina age como um "protetor" contra novas crises. A interrupção abrupta, além de aumentar drasticamente o risco de recaída (principalmente depressiva), pode precipitar crises de rebote e aumentar o risco de rash em uma eventual reintrodução.

6. É verdade que ela é a melhor opção para "ciclagem rápida"?
Sim, a lamotrigina tem eficácia comprovada no transtorno bipolar de ciclagem rápida (4 ou mais episódios por ano), uma condição de difícil tratamento. Ela é frequentemente uma medicação de primeira escolha nesse subtipo.

7. O que faço se esquecer uma dose?
Se lembrar dentro de algumas horas, tome a dose esquecida. Se estiver perto do horário da dose seguinte, ignore a dose esquecida e retome o esquema normal no horário seguinte. Nunca tome uma dose dupla para compensar. Mantenha uma rotina para evitar esquecimentos.

8. A lamotrigina pode ser usada com outros medicamentos?
Sim, mas existem interações importantes. O ácido valproico (valproato) praticamente dobra os níveis de lamotrigina, exigindo uma titulação ainda mais lenta e doses de manutenção mais baixas. Já a carbamazepina reduz pela metade os níveis de lamotrigina, podendo exigir doses mais altas. Sempre informe seu psiquiatra sobre todos os medicamentos que você usa.

Referências

  • Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. (Fonte técnica primária para as citações sobre lamotrigina).
  • American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2022.
  • Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. Genebra: OMS, 2022.
  • Calabrese, J.R., et al. Lamotrigine in the acute treatment of bipolar depression: Results of five double-blind, placebo-controlled clinical trials. Bipolar Disord. 2008.
  • Geddes, J.R., et al. Lamotrigine for treatment of bipolar depression: Independent meta-analysis and meta-regression of individual patient data from five randomised trials. Br J Psychiatry. 2009.
  • Yatham, L.N., et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders (ISBD) 2018 guidelines for the management of patients with bipolar disorder. Bipolar Disord. 2018.
  • Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes para o Tratamento do Transtorno Bipolar. (Acessar diretrizes mais recentes no site da ABP).
  • Ministério da Saúde do Brasil. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). 2022.

Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.

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