Definição e epidemiologia
O Inventário de Depressão Infantil (Children’s Depression Inventory – CDI) é um instrumento psicométrico de autorrelato, desenvolvido por Maria Kovacs em 1992, com base no Inventário de Depressão de Beck (BDI) para adultos. Sua função primária é a avaliação quantitativa da presença e gravidade de sintomas depressivos em crianças e adolescentes. O CDI não é uma ferramenta diagnóstica categórica, mas um instrumento de rastreamento e monitoramento que fornece uma medida dimensional do sofrimento depressivo, útil para a triagem inicial, avaliação de gravidade e acompanhamento da resposta terapêutica.
O instrumento é indicado para a faixa etária dos 7 aos 17 anos, abrangendo o final da infância e toda a adolescência. Conforme descrito no Compêndio de Psiquiatria de Kaplan & Sadock, a forma longa do CDI contém 27 itens de múltipla escolha. Cada item apresenta três afirmações graduadas em severidade (0 a 2), e a criança ou adolescente seleciona aquela que melhor descreve como se sentiu nas duas últimas semanas. O CDI avalia cinco áreas-chave ou subescalas: humor negativo (ex.: tristeza, choro), sentimentos de ineficácia (ex.: dificuldade para tomar decisões, realizar tarefas), anedonia (perda de prazer em atividades), autoestima negativa (sentimentos de desvalor, culpa) e problemas interpessoais (isolamento, conflitos).
A versão curta do CDI, também mencionada, consiste em 10 itens extraídos da versão longa, sendo uma alternativa mais rápida para contextos de triagem onde o tempo é limitado. Além das versões de autorrelato, existem formulários paralelos para pais e professores (CDI: P e CDI: T), que avaliam o comportamento da criança nas Escalas de Problemas Emocionais e Problemas Funcionais, permitindo uma visão multimodal do funcionamento da criança em diferentes ambientes (casa e escola).
A epidemiologia da depressão infantil e adolescente, contexto no qual o CDI é aplicado, mostra uma prevalência que aumenta com a idade. Estimativas apontam que cerca de 1-2% das crianças pré-púberes e 3-8% dos adolescentes preenchem critérios para um Transtorno Depressivo Maior. A distribuição por sexo é equilibrada na infância, mas a partir da adolescência há uma predominância no sexo feminino, padrão que se mantém na vida adulta. Dados epidemiológicos robustos específicos para o Brasil são escassos, mas estudos regionais sugerem prevalências similares às internacionais, com fatores socioeconômicos adversos atuando como agravantes. O curso clínico da depressão na infância e adolescência é frequentemente episódico, com risco significativo de recorrência. Episódios não tratados podem evoluir com prejuízos acadêmicos, sociais e aumento do risco de comportamentos suicidas.
Etiopatogenia e neurobiologia
A depressão na infância e adolescência é entendida através de um modelo biopsicossocial, no qual fatores genéticos, neurobiológicos, psicológicos e ambientais interagem. O CDI, ao avaliar sintomas cognitivos, afetivos e somáticos, capta a expressão fenotípica dessa complexa interação.
Do ponto de vista genético, há uma herdabilidade moderada para transtornos depressivos. Crianças com história familiar de depressão apresentam risco duas a quatro vezes maior de desenvolver o transtorno. No entanto, a genética não é determinista; interage com fatores ambientais, como estresse psicossocial, adversidades na infância (maus-tratos, negligência) e eventos vitais negativos, que podem ativar vulnerabilidades biológicas subjacentes.
A neurobiologia da depressão pediátrica envolve sistemas de neurotransmissão semelhantes aos do adulto, mas com a particularidade de um cérebro em desenvolvimento. Disfunções nos sistemas serotoninérgico, noradrenérgico e dopaminérgico estão implicadas na regulação do humor, motivação (anedonia) e psicomotricidade. O eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) também apresenta relevância, com evidências de hiperatividade em uma subpopulação de jovens deprimidos, refletindo uma resposta crônica ao estresse.
Achados de neuroimagem estrutural e funcional em adolescentes com depressão apontam para alterações em circuitos fronto-límbicos envolvidos no processamento emocional e na regulação afetiva. São comuns observações de redução de volume no hipocampo (relacionado à memória e estresse), na amígdala (processamento de emoções negativas) e em áreas do córtex pré-frontal (regulação executiva e cognitiva do humor). A conectividade funcional entre essas regiões também pode estar alterada.
Modelos psicológicos, como a teoria cognitiva de Beck, são centrais para a compreensão dos sintomas avaliados pelo CDI. Padrões cognitivos disfuncionais (visão negativa de si mesmo, do mundo e do futuro), vieses atencionais para estímulos negativos e déficits em habilidades de resolução de problemas contribuem para a manutenção do quadro depressivo. A avaliação de "autoestima negativa" e "ineficácia" no CDI captura diretamente esses construtos cognitivos.
Quadro clínico
O CDI mapeia sintomas depressivos que se manifestam em diversos domínios do funcionamento da criança e do adolescente. É crucial reconhecer que a apresentação clínica pode diferir da do adulto, com maior proeminência de irritabilidade (que pode substituir o humor deprimido), queixas somáticas e alterações comportamentais.
Domínio do Humor/Afetivo:
- Humor Deprimido ou Irritável: Tristeza persistente, sentimento de vazio ou, com frequência, irritabilidade marcante e explosões de raiva.
- Anedonia: Perda de interesse ou prazer em atividades antes consideradas agradáveis, incluindo brincadeiras, hobbies e interações sociais.
- Humor Negativo: Avaliado diretamente pelo CDI, engloba sentimentos de infelicidade e choro fácil.
Domínio Cognitivo:
- Autoestima Negativa: Sentimentos de desvalia, culpa inadequada ("tudo é culpa minha") e baixa autoimagem.
- Sentimentos de Ineficácia: Dificuldade de concentração, indecisão, sentimentos de fracasso e desesperança em relação ao futuro.
- Pensamentos de Morte/Ideiação Suicida: Podem estar presentes, variando de um desejo passivo de "não estar aqui" a planos suicidas ativos. É uma emergência psiquiátrica.
Domínio Comportamental e Interpessoal:
- Problemas Interpessoais: Retraimento social, isolamento, conflitos frequentes com familiares e pares, e recusa escolar.
- Alterações Psicomotoras: Agitação ou retardo psicomotor. Em crianças, pode se manifestar como hiperatividade desorganizada ou, ao contrário, lentificação extrema.
- Alterações no Funcionamento: Queda no rendimento escolar, abandono de atividades extracurriculares.
Domínio Somático/Neurovegetativo:
- Alterações no Sono: Insônia (especialmente de manutenção) ou hipersônia.
- Alterações no Apetite/Peso: Perda ou aumento significativo, não associado a dieta intencional.
- Fadiga ou Perda de Energia: Queixas constantes de cansaço, "não ter força para nada".
- Queixas Somáticas Inespecíficas: Dores de cabeça, abdominais, musculares, sem causa orgânica clara.
O DSM-5-TR mantém os critérios diagnósticos principais para o Transtorno Depressivo Maior, permitindo que a irritabilidade seja o humor predominante em crianças e adolescentes. Especificadores como "com características ansiosas", "com características mistas" ou "com catatonia" são aplicáveis. A CID-11 classifica o "Transtorno Depressivo" com especificadores de gravidade e presença de sintomas psicóticos.
Avaliação e diagnóstico
A avaliação da depressão infantojuvenil é multimodal, e o CDI é uma peça dentro de um processo mais amplo. Seu uso isolado não é suficiente para um diagnóstico.
1. Entrevista Clínica e Anamnese:
A entrevista é a ferramenta fundamental. Deve ser conduzida separadamente com a criança/adolescente e com os pais/responsáveis. Pontos-chave incluem:
- História da Doença Atual: Descrição detalhada dos sintomas, início, duração, gravidade, fatores desencadeantes e prejuízos funcionais.
- História Psiquiátrica Pregressa e Familiar: Episódios anteriores, tratamentos, e história de transtornos mentais ou suicídio na família.
- História do Desenvolvimento e Psicossocial: Marcos do desenvolvimento, desempenho escolar, relacionamentos familiares e com pares, história de traumas ou adversidades.
2. Exame do Estado Mental:
Avaliação direta da criança/adolescente, observando:
- Aparência e Comportamento: Higiene, postura, contato visual, agitação ou retardo.
- Humor e Afeto: Expressão de tristeza, irritabilidade, labilidade emocional. Congruência entre humor relatado e afeto expresso.
- Conteúdo do Pensamento: Presença de ideias de desvalia, culpa, desesperança ou suicídio.
- Cognição: Atenção, concentração e memória.
3. Escalas e Instrumentos de Avaliação:
O CDI é um dos principais instrumentos de autorrelato. Outros, citados no Compêndio, incluem:
- Escala de Depressão Infantil de Reynolds (RCDS): Para crianças do 3º ao 6º ano, com 30 itens em nível de leitura de 2º ano.
- Escala de Depressão Adolescente de Reynolds – 2ª edição (RADS-2): Para adolescentes de 11-20 anos, avalia humor disfórico, anedonia, autoavaliação negativa e queixas somáticas.
- Children’s Depression Rating Scale-Revised (CDRS-R): Entrevista semiestruturada conduzida pelo clínico com a criança e os pais separadamente. É considerada um gold standard para avaliação da gravidade. Uma pontuação ≥40 indica depressão moderada e ≥45, depressão grave.
- Instrumentos Diagnósticos Estruturados: Como a Entrevista Diagnóstica para Crianças (DISC-IV) e a Diagnostic Interview for Children and Adolescents (DICA), que buscam diagnosticar categorias do DSM de forma sistemática.
- Instrumentos de Relato dos Pais: Como a Child Behavior Checklist (CBCL), que fornece um perfil amplo de problemas emocionais e comportamentais.
4. Exames Complementares:
Não existem exames laboratoriais ou de neuroimagem para diagnosticar depressão. Sua indicação visa afastar condições médicas que possam mimetizar ou causar sintomas depressivos.
- Exames Laboratoriais: Hemograma, perfil tireoidiano (TSH, T4 livre), perfil metabólico (eletrólitos, função renal e hepática), dosagem de vitamina B12 e ácido fólico. O exame da função tireoidiana é particularmente relevante se houver sintomas sugestivos de hipotireoidismo.
- Neuroimagem: Não é rotina. Pode ser considerada em apresentações atípicas, com sintomas neurológicos focais ou suspeita de lesão estrutural.
5. Diagnóstico Diferencial (Tabela):
| Condição | Porque se confunde | Diferenciação Chave |
|---|---|---|
| Transtorno de Ajustamento com Humor Deprimido | Sintomas depressivos reativos a um estressor identificável. | Sintomas surgem dentro de 3 meses do estressor e não excedem 6 meses após seu término. Menor gravidade e ausência de critérios completos para TDM. |
| Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) | Irritabilidade, baixa tolerância à frustração, queda no rendimento escolar. | No TDAH, os sintomas de desatenção, hiperatividade e impulsividade são crônicos (desde a infância) e presentes em múltiplos contextos. A anedonia e o humor deprimido persistentes não são centrais. |
| Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) | Inquietação, dificuldade de concentração, irritabilidade, fadiga. | A ansiedade e a preocupação excessiva são o núcleo do TAG. Na depressão, o humor deprimido e a anedonia são predominantes. Alta comorbidade. |
| Transtorno Bipolar (fase depressiva) | Episódio depressivo idêntico. | História pregressa ou familiar de episódios de (hipo)mania. A presença de sintomas psicóticos, início precoce ou resposta paradoxal a antidepressivos são red flags. |
| Condições Médicas (Hipotireoidismo, Mononucleose, LES) | Fadiga, letargia, alterações de apetite e sono. | Exame físico e laboratorial positivo para a condição médica. Os sintomas depressivos são secundários e melhoram com o tratamento da doença de base. |
| Uso de Substâncias | Sintomas depressivos induzidos por drogas (ex.: álcool, cannabis) ou durante a abstinência. | História de uso de substâncias precede o início dos sintomas. Os sintomas melhoram com a abstinência sustentada. |
6. Armadilhas Diagnósticas e Comorbidades:
- Armadilhas: Subestimar a irritabilidade como sintoma cardinal de depressão; atribuir sintomas apenas a "crise da adolescência"; confiar exclusivamente no autorrelato (crianças podem ter dificuldade de introspecção) ou apenas no relato dos pais (que podem não perceber o sofrimento interno).
- Comorbidades Frequentes: Transtornos de ansiedade (especialmente TAG e fobia social), TDAH, transtornos de conduta/oposicional-desafiador e, em adolescentes, transtornos por uso de substâncias.
Tratamento farmacológico
O tratamento farmacológico da depressão em crianças e adolescentes deve ser sempre parte de um plano terapêutico multimodal, que inclua psicoterapia e intervenções psicossociais. A decisão de iniciar medicação baseia-se na gravidade, no prejuízo funcional, na resposta à psicoterapia e na presença de comorbidades.
Algoritmo Terapêutico Baseado em Evidências:
- Psicoeducação e Intervenções Psicossociais: Para todos os casos.
- Psicoterapia de Primeira Escolha (Leve a Moderada): Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) ou Terapia Interpessoal (TIP) são as modalidades com maior evidência.
- Farmacoterapia (Moderada a Grave): Considerar o início de um antidepressivo, preferencialmente em conjunto com a psicoterapia.
- Combinação e Estratégias de Potencialização: Em casos de resposta parcial ou resistência.
Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS): São a primeira linha farmacológica.
- Fluoxetina: É o único antidepressivo aprovado pelo FDA para depressão em crianças (≥8 anos) e adolescentes. Possui evidência robusta de eficácia.
- Mecanismo: Inibição da recaptação de serotonina.
- Dose: Início com 10 mg/dia, titulação semanal para 20 mg/dia. Doses de 20-40 mg/dia são comuns. Meia-vida longa (ativa e do metabólito).
- Monitoramento: Avaliar ativação/agitação inicial, risco de virada maníaca e ideação suicida (especialmente nas primeiras 4 semanas). Monitorar interações medicamentosas.
- Escitalopram e Sertralina: Também possuem evidências de eficácia e são frequentemente utilizados.
- Escitalopram: Início com 5 mg/dia, titulação para 10-20 mg/dia.
- Sertralina: Início com 25 mg/dia, titulação para 50-200 mg/dia.
Efeitos Adversos e Aviso de Caixa Preta:
Todos os ISRS carregam um aviso (caixa preta) sobre o potencial aumento do risco de ideação e comportamento suicida em crianças, adolescentes e jovens adultos (até 24 anos) nas primeiras semanas de tratamento. Isso não significa que não devam ser usados, mas que exigem monitorização muito próxima (consultas semanais ou quinzenais no início) e psicoeducação da família. Outros efeitos adversos comuns: sintomas gastrintestinais (náusea, diarreia), cefaleia, insônia ou sedação, agitação e disfunção sexual.
Segunda e Terceira Linhas:
- Outros ISRS/SNRIs: Venlafaxina, duloxetina podem ser considerados, mas com menor base de evidências em pediatria e perfil de efeitos adversos potencialmente mais desafiador.
- Antidepressivos Atípicos: Bupropiona (inibidor da recaptação de noradrenalina e dopamina) pode ser útil em casos com proeminência de anedonia, fadiga ou comorbidade com TDAH, mas é contraindicado em pacientes com risco elevado de convulsões.
Contexto Brasileiro:
No Sistema Único de Saúde (SUS), o acesso a psicoterapias especializadas é limitado, frequentemente disponível nos Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi). A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) inclui fluoxetina, sertralina e amitriptilina. A fluoxetina, por seu custo-benefício e evidência, é a opção mais acessível. A atuação em rede, envolvendo CAPSi, equipes de Saúde da Família e escolas, é fundamental.
Tratamento não farmacológico
Psicoterapias com Evidência:
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): É a psicoterapia com maior número de estudos em depressão pediátrica. Foca na identificação e modificação de pensamentos automáticos negativos e crenças disfuncionais, no aumento de atividades prazerosas (ativação comportamental) e no desenvolvimento de habilidades de enfrentamento. Formato individual ou em grupo, com duração média de 12-20 sessões.
- Terapia Interpessoal para Adolescentes (TIP-A): Baseia-se na premissa de que a depressão ocorre em um contexto interpessoal. Foca na resolução de problemas em uma de quatro áreas: luto, disputas interpessoais, transições de papel e déficits interpessoais. É particularmente útil para adolescentes.
Intervenções Psicossociais e Suporte Familiar:
- Psicoeducação Familiar: Explicar a natureza do transtorno, o plano de tratamento, os efeitos dos medicamentos e o risco de suicídio. Envolver a família é crucial para a adesão e para a criação de um ambiente de suporte.
- Intervenções na Escola: Contato com a coordenação/orientação escolar para adaptações acadêmicas temporárias, monitoramento do bullying e inclusão da criança em atividades de suporte.
- Treinamento de Habilidades Parentais: Em casos onde dinâmicas familiares disfuncionais contribuem para a manutenção dos sintomas.
Procedimentos:
- Eletroconvulsoterapia (ECT): Reservada para casos extremamente graves, com risco vital (ex.: recusa alimentar grave, catatonia), psicóticos ou refratários a múltiplas intervenções farmacológicas. Seu uso em adolescentes é menos comum e requer rigorosa avaliação ética e legal.
- Estimulação Magnética Transcraniana (TMS): Evidências em adolescentes são emergentes, podendo ser uma opção para depressão resistente, mas ainda não é um tratamento estabelecido nesta população.
Manejo clínico prático
- Quando Iniciar Farmacoterapia: Em episódios moderados a graves (ex.: pontuação no CDRS-R >40), quando há prejuízo funcional significativo (evasão escolar, isolamento), história de episódios anteriores ou resposta inadequada à psicoterapia bem conduzida (6-8 semanas).
- Monitoramento da Resposta: Usar escalas como o CDI ou CDRS-R de forma seriada (ex.: a cada 2-4 semanas) para quantificar a resposta. A meta é a remissão (ausência ou mínima presença de sintomas e retorno ao funcionamento pré-mórbido), não apenas a resposta (melhora de >50% nos sintomas).
- Manejo da Resposta Parcial ou Nula (Resistência): Após 6-8 semanas em dose terapêutica adequada:
- Reavaliar diagnóstico e adesão.
- Otimizar a dose do ISRS.
- Trocar para outro ISRS ou para um SNRI.
- Considerar a adição de um segundo agente (ex.: bupropiona para anedonia/resíduo cognitivo; um antipsicótico atípico em baixa dose para depressão psicótica ou com forte ansiedade/agitação – com extrema cautela devido aos efeitos metabólicos).
- Duração do Tratamento: Após a remissão do primeiro episódio, o tratamento antidepressivo deve ser mantido por pelo menos 6-12 meses para prevenir recaída. Em casos de múltiplos episódios ou gravidade extrema, pode ser necessário tratamento de manutenção por anos.
- Descontinuação: Deve ser lenta e gradual (ex.: reduzir 25% da dose a cada 4-6 semanas) para minimizar sintomas de descontinuação (tontura, náusea, "sensação de choque").
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
A criança ou adolescente deprimido frequentemente vivencia um sofrimento intenso e incompreensível. Podem sentir-se sobrecarregados por uma tristeza ou irritabilidade constante, culpa, e uma sensação de que são "defeituosos" ou um fardo. A anedonia torna o mundo sem cor, e a fadiga transforma tarefas simples em obstáculos intransponíveis. A perspectiva deles é marcada pelo isolamento ("ninguém me entende") e pela desesperança ("nunca vai melhorar").
Psicoeducação Efetiva:
- Para o Paciente: Explicar que a depressão é uma doença médica real, não uma fraqueza ou falta de força de vontade. Usar analogias como "a depressão é como um óculos escuros que faz tudo parecer pior" pode ajudar. Validar seu sofrimento e oferecer esperança: "Existem tratamentos eficazes, e eu vou te ajudar a passar por isso."
- Para a Família: Enfatizar que sintomas como irritabilidade, isolamento e queda no rendimento são parte da doença, não "mau comportamento" ou "preguiça". Instruir sobre os sinais de alerta de suicídio (falar sobre morte, desfazer-se de pertences, isolamento abrupto) e criar um plano de segurança (ter um número de crise, remover meios letais de casa).
Impacto Funcional: A depressão afeta todas as esferas: a vida acadêmica (repetência, abandono), as relações familiares (conflitos) e sociais (perda de amigos). O desenvolvimento de habilidades sociais e acadêmicas pode ser interrompido.
Adesão ao Tratamento: Barreiras incluem efeitos adversos iniciais dos medicamentos, estigma, desesperança ("não vai adiantar") e, em adolescentes, o desejo de autonomia. Estratégias: discutir abertamente os efeitos adversos (muitos são transitórios), envolver o adolescente nas decisões, usar lembretes e associar a medicação a uma rotina.
Perguntas frequentes
1. O CDI dá o diagnóstico de depressão?
Não. O CDI é um instrumento de rastreamento e avaliação de gravidade. Um escore elevado indica a presença significativa de sintomas depressivos, mas o diagnóstico de Transtorno Depressivo Maior (ou outro) deve ser feito por um profissional qualificado através de uma entrevista clínica abrangente, usando critérios estabelecidos (DSM-5-TR ou CID-11).
2. Meu filho está muito irritável e bravo. Pode ser depressão?
Sim. Especialmente em crianças e adolescentes, a irritabilidade persistente e marcante pode ser o sintoma de humor predominante no lugar da tristeza clássica. É um dos critérios do DSM-5-TR para a faixa etária. Outros sintomas como anedonia, alterações no sono e apetite, e sentimentos de desvalia costumam estar presentes.
3. Os antidepressivos são viciantes?
Não. Antidepressivos como os ISRS não causam dependência química ou "fissura". No entanto, a interrupção abrupta pode causar sintomas de descontinuação (como tontura, náusea, ansiedade), o que reforça a necessidade de desmame lento e supervisionado.
4. É verdade que antidepressivos podem aumentar o risco de suicídio em jovens?
Existe um aviso regulatório baseado em estudos que mostraram um pequeno aumento no risco de ideação e comportamento suicida (não suicídio consumado) em uma minoria de crianças, adolescentes e jovens adultos nas primeiras semanas de tratamento. Isso torna o monitoramento próximo absolutamente essencial, mas não contraindica o uso quando indicado. A depressão não tratada carrega um risco de suicídio muito maior. O benefício, na maioria dos casos de depressão moderada a grave, supera o risco.
5. Quanto tempo leva para o remédio fazer efeito?
Os efeitos no humor geralmente começam a ser percebidos após 2 a 4 semanas de tratamento com dose adequada. A melhora completa pode levar 6 a 12 semanas. Sintomas como energia e sono podem melhorar primeiro.
6. A psicoterapia é realmente necessária se já está tomando remédio?
Sim, na maioria dos casos a combinação é superior a qualquer uma das modalidades isoladamente. A medicação ajuda a aliviar os sintomas biológicos, enquanto a psicoterapia (como a TCC) ensina habilidades para lidar com pensamentos negativos, resolver problemas e prevenir novas crises, abordando fatores psicológicos e ambientais.
7. Depressão na infância passa sozinha?
Episódios leves e reativos podem ser transitórios. No entanto, um episódio depressivo maior que preenche critérios diagnósticos tem alta probabilidade de persistir por meses e causar prejuízos significativos. Sem tratamento, aumenta o risco de recorrência, cronificação e de complicações como o suicídio.
8. O que posso fazer como pai/mãe para ajudar?
Oferecer suporte emocional incondicional ("estou aqui por você"), validar os sentimentos da criança ("deve ser muito difícil se sentir assim"), incentivar (sem forçar) atividades prazerosas e de autocuidado, manter rotinas, participar ativamente do tratamento e, acima de tudo, buscar ajuda profissional qualificada.
Referências
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – Texto Revisado (DSM-5-TR). Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – 11ª edição (CID-11). Genebra: OMS, 2022.
- Kovacs, M. Children’s Depression Inventory (CDI): Technical Manual. North Tonawanda, NY: Multi-Health Systems, 1992.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes e Manuais. Disponível em: https://www.abp.org.br/.
- Ministério da Saúde do Brasil. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.