O que é e para que serve?
A imipramina é um antidepressivo da família dos tricíclicos — um grupo de remédios que existe desde os anos 1950 e que, apesar de ser mais antigo, ainda tem um papel importante no tratamento de algumas condições. No Brasil, ela é vendida principalmente com o nome Tofranil®, e também está disponível em versão genérica.
Ela é usada principalmente para tratar a depressão, especialmente nos casos mais graves ou quando outros antidepressivos não funcionaram bem. Mas não é só isso: a imipramina também é prescrita para ansiedade, dor crônica (como a dor dos nervos no diabetes ou após uma herpes), transtorno do pânico e, em crianças acima de 6 anos, para ajudar no tratamento da enurese noturna — o famoso “xixi na cama”.
Vale saber que, hoje em dia, ela não costuma ser a primeira escolha para depressão — os médicos geralmente começam com antidepressivos mais novos, que têm menos efeitos colaterais. Mas a imipramina continua sendo uma opção valiosa em situações específicas, e se o seu médico a prescreveu, há uma boa razão para isso.
Como ele age no seu cérebro?
Pense no seu cérebro como uma cidade cheia de vizinhos (os neurônios) que se comunicam o tempo todo jogando mensageiros químicos de uma janela para a outra. Dois desses mensageiros são especialmente importantes para o humor, a energia e o bem-estar: a serotonina e a noradrenalina.
Em pessoas com depressão, esses mensageiros são “recolhidos de volta” rápido demais — antes de conseguirem fazer o trabalho deles direito. A imipramina age como se colocasse um obstáculo nessa “recolha precoce”, deixando a serotonina e a noradrenalina circulando por mais tempo entre os neurônios. Com isso, a comunicação entre as células do cérebro melhora, e aos poucos o humor, a energia e a motivação começam a se recuperar.
Além disso, a imipramina tem um efeito levemente sedativo — ela “acalma” alguns circuitos do cérebro — o que pode ajudar quem tem dificuldade para dormir ou muita ansiedade. Esse mesmo efeito, porém, é responsável por parte dos efeitos colaterais que vamos falar mais adiante.
Quando começa a fazer efeito?
Aqui vai uma informação importante para não se frustrar nas primeiras semanas: a imipramina não age de um dia para o outro. É como plantar uma semente — você rega, cuida, e o broto só aparece depois de um tempo. O efeito antidepressivo completo geralmente leva de 2 a 4 semanas para aparecer, e em alguns casos até um pouco mais.
Nas primeiras semanas, é comum sentir alguns efeitos colaterais (como boca seca ou sonolência) antes de sentir qualquer melhora no humor. Isso pode ser desanimador, mas é normal — o corpo está se adaptando. O sono e a ansiedade costumam melhorar um pouco antes do humor propriamente dito.
Se depois de 4 a 6 semanas você não sentir nenhuma diferença, converse com seu médico — pode ser necessário ajustar a dose ou repensar o tratamento. Mas não abandone o remédio antes disso por conta própria.
Como tomar corretamente
A dose habitual para adultos fica entre 50 mg e 150 mg por dia, mas o médico geralmente começa com uma dose baixa (25 mg) e vai aumentando aos poucos, de semana em semana, para o seu corpo se adaptar.
Horário: Como a imipramina pode causar sonolência, ela costuma ser prescrita para tomar à noite, na hora de dormir. Isso ajuda a “aproveitar” a sedação para melhorar o sono e reduz o incômodo durante o dia.
Com ou sem comida: Pode tomar com ou sem alimento — a alimentação não interfere na absorção do remédio.
Esqueceu uma dose? Se lembrar no mesmo dia, tome assim que possível. Se já for quase a hora da próxima dose, pule a que esqueceu e siga normalmente. Nunca tome duas doses de uma vez para compensar.
Não pare por conta própria. Esse é um ponto muito importante. Parar a imipramina de repente pode causar sintomas desagradáveis de retirada (mal-estar, tontura, irritabilidade). Quando chegar a hora de parar, o médico vai orientar uma redução gradual e segura.
Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem
A imipramina é um remédio eficaz, mas tem um perfil de efeitos colaterais mais intenso do que os antidepressivos mais modernos. Conhecer esses efeitos ajuda a não se assustar e a saber o que é passageiro e o que merece atenção.
Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)
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Boca seca: A imipramina bloqueia receptores que controlam a produção de saliva. É chato, mas inofensivo. Ajuda manter um copo d’água por perto, chupar balas sem açúcar ou mascar chiclete sem açúcar.
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Sonolência e cansaço: O remédio tem efeito sedativo, especialmente no início. Por isso costuma ser tomado à noite. Tende a melhorar com o tempo, conforme o corpo se adapta.
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Tontura ao levantar rápido: A imipramina pode baixar a pressão arterial quando você muda de posição (deitado para em pé). Levante devagar, especialmente de manhã. Isso é mais comum em idosos.
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Constipação (intestino preso): O mesmo bloqueio que causa boca seca também deixa o intestino mais lento. Beber bastante água e comer fibras ajuda. Se ficar muito incômodo, avise o médico.
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Ganho de peso e fissura por doces: A imipramina pode aumentar o apetite, especialmente por carboidratos. Não é universal, mas acontece com uma parte das pessoas.
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Visão levemente embaçada: Especialmente para perto, por causa do mesmo mecanismo anticolinérgico (que bloqueia certos sinais nervosos). Costuma ser leve e passageiro.
Menos comuns
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Disfunção sexual: Pode reduzir o desejo sexual ou dificultar o orgasmo, tanto em homens quanto em mulheres. Se isso acontecer, converse com seu médico — há formas de contornar.
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Suor excessivo: Algumas pessoas transpiram mais, especialmente à noite.
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Tremores leves nas mãos: Podem aparecer, especialmente em doses mais altas. Avise o médico se incomodar.
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Dificuldade para urinar: O bloqueio dos sinais nervosos pode dificultar o esvaziamento da bexiga. Homens com próstata aumentada têm mais risco.
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Batimento cardíaco acelerado (taquicardia): O coração pode bater um pouco mais rápido. Geralmente é leve, mas merece atenção.
Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)
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Dor no peito, batimento cardíaco irregular ou muito acelerado: A imipramina pode afetar o ritmo elétrico do coração. Se sentir palpitações fortes, dor no peito ou sensação de que o coração está “pulando”, procure atendimento.
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Convulsões: Raras, mas possíveis, especialmente em doses altas. Vá imediatamente a uma emergência.
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Confusão mental intensa, alucinações ou agitação: Mais raro, mas pode acontecer, especialmente em idosos. Procure o médico.
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Pensamentos de se machucar ou suicídio: Nos primeiros dias ou semanas de tratamento, especialmente em jovens, pode haver piora temporária da depressão ou surgimento de pensamentos perturbadores. Se isso acontecer, ligue imediatamente para o médico ou vá a uma emergência. Isso não significa que o remédio não vai funcionar, mas precisa de avaliação urgente.
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Amarelamento da pele ou olhos (icterícia): Sinal raro de problema no fígado. Procure atendimento imediatamente.
O que fazer se tiver efeitos colaterais?
A maioria dos efeitos colaterais da imipramina aparece nas primeiras semanas e tende a diminuir conforme o corpo se adapta. A orientação geral é: espere um pouco, antes de desistir.
Ligue para o seu médico se:
– Os efeitos colaterais estiverem muito intensos ou atrapalhando sua vida
– Aparecerem batimentos cardíacos irregulares ou acelerados
– Tiver dificuldade para urinar
– Sentir confusão mental ou agitação intensa
– Surgirem pensamentos de se machucar
Vá a uma UPA ou emergência imediatamente se:
– Tiver convulsões
– Sentir dor no peito ou desmaiar
– Ingerir uma dose muito maior do que a prescrita (acidental ou não) — a imipramina é perigosa em superdose
O que NÃO fazer:
– Não pare o remédio de repente sem falar com o médico, mesmo que esteja se sentindo mal. A retirada abrupta pode piorar os sintomas.
– Não aumente a dose por conta própria achando que vai melhorar mais rápido.
Cuidados importantes
Álcool: Evite. O álcool potencializa o efeito sedativo da imipramina, pode causar tontura intensa e aumenta o risco de problemas cardíacos. Além disso, o álcool piora a depressão — é uma combinação que não ajuda em nada.
Erva de São João (Hypericum): Não use junto com a imipramina. Esse suplemento natural interfere no metabolismo do remédio e pode causar uma reação chamada síndrome serotoninérgica (agitação, tremores, confusão, febre). Sempre avise seu médico sobre qualquer suplemento ou chá que esteja tomando.
Outros remédios: Alguns medicamentos comuns podem aumentar ou diminuir o nível de imipramina no sangue. Avise sempre seu médico se estiver tomando outros antidepressivos (especialmente fluoxetina ou paroxetina), antipsicóticos, remédios para pressão, anticonvulsivantes ou até omeprazol. Nunca use junto com remédios chamados IMAOs (como a tranilcipromina) — essa combinação pode ser fatal. É necessário um intervalo mínimo de 14 dias entre um e outro.
Gravidez: A imipramina não deve ser usada no primeiro trimestre de gravidez pelo risco de malformações. Se você engravidar durante o tratamento, avise o médico imediatamente para avaliar os riscos e benefícios.
Amamentação: O remédio passa para o leite materno. Converse com seu médico sobre os riscos antes de amamentar.
Idosos: São mais sensíveis aos efeitos da imipramina — especialmente à tontura, à queda de pressão e à confusão mental. Doses menores costumam ser usadas nesse grupo.
Problemas cardíacos: Se você tiver histórico de infarto, arritmia ou insuficiência cardíaca, avise seu médico antes de começar o tratamento. A imipramina pode afetar o coração e precisa de cuidado especial nesses casos.
Glaucoma e próstata aumentada: O efeito anticolinérgico do remédio pode piorar essas condições. Informe seu médico se tiver alguma delas.
Perguntas frequentes
Vou ficar dependente da imipramina?
Não no sentido de vício. Você não vai sentir “fissura” pelo remédio nem precisar de doses cada vez maiores para sentir o mesmo efeito. Mas o corpo se adapta à presença dele, então parar de repente pode causar sintomas desconfortáveis de retirada — por isso a suspensão deve ser feita gradualmente, com orientação médica.
Posso beber álcool enquanto tomo imipramina?
Não é recomendado. A combinação aumenta a sedação, pode causar tontura intensa e prejudica o tratamento da depressão. Se for a uma ocasião especial, converse antes com seu médico.
Posso parar de tomar quando me sentir bem?
Não por conta própria. Sentir-se bem é sinal de que o remédio está funcionando — não de que você não precisa mais dele. Parar cedo demais aumenta muito o risco de recaída. A duração do tratamento é definida pelo médico, e a retirada deve ser feita aos poucos.
A imipramina vai me deixar “dopado” ou mudar minha personalidade?
Ela pode causar sonolência no início, especialmente nas primeiras semanas. Mas o objetivo do tratamento é justamente que você se sinta mais você mesmo — com mais energia, humor estável e disposição. Se sentir que está se sentindo “apagado” ou diferente de um jeito que não gosta, converse com seu médico.
É perigoso tomar imipramina em doses maiores do que o prescrito?
Sim, e esse é um ponto sério. A imipramina é um dos antidepressivos com maior risco em caso de superdose — pode causar problemas graves no coração e no sistema nervoso. Por isso, guarde o remédio em local seguro, longe do alcance de crianças, e nunca tome mais do que o prescrito. Se houver ingestão acidental de uma quantidade grande, vá imediatamente a uma emergência.
Referências
- Stahl, S.M. Fundamentos de Psicofarmacologia de Stahl, 3ª ed. Artmed, 2014.
- Miguel, E.C. et al. Clínica Psiquiátrica USP, 2ª ed., Volume 3. Manole, 2021.
- Bula do Tofranil® (imipramina) — aprovada pela ANVISA. Disponível em: bulario.anvisa.gov.br
Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.