Definição e conceito
A identidade de gênero refere-se à experiência interna, profunda e individual de uma pessoa em relação ao seu gênero, que pode ou não corresponder ao sexo designado ao nascimento (baseado na morfologia genital externa). A incongruência de gênero, termo adotado pela CID-11 (Classificação Internacional de Doenças, 11ª revisão), ou a disforia de gênero, categoria do DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição, revisão de texto), descrevem o sofrimento clinicamente significativo que pode surgir dessa incongruência. A etiologia da identidade de gênero é multifatorial, envolvendo uma complexa interação de fatores biológicos, psicológicos e socioculturais.
Dentro do espectro etiológico, o papel dos hormônios pré-natais (ou intrauterinos) refere-se à hipótese de que a exposição a níveis atípicos de hormônios sexuais (principalmente andrógenos, como a testosterona) durante períodos críticos do desenvolvimento fetal pode influenciar a diferenciação sexual do cérebro, predispondo a uma identidade de gênero que não se alinha com o sexo biológico designado. Este fenômeno situa-se na interface entre a neurobiologia do desenvolvimento, a endocrinologia e a psicopatologia, sendo um dos principais modelos biológicos investigados para compreender as bases da diversidade de gênero.
É crucial distinguir conceitos adjacentes:
- Identidade de gênero (Gender Identity): Experiência subjetiva de ser homem, mulher, ambos, nenhum ou outro gênero.
- Orientação sexual (Sexual Orientation): Padrão duradouro de atração emocional, romântica e/ou sexual por pessoas de um gênero específico ou gêneros. É um construto distinto, embora possa correlacionar-se com a identidade de gênero em alguns casos.
- Papel/Expressão de gênero (Gender Role/Expression): Manifestação externa do gênero, através de comportamento, vestimenta, corte de cabelo, voz, entre outros, que varia conforme o contexto cultural e social.
- Comportamento de gênero não conforme (Gender Nonconforming Behavior): Comportamentos que não se alinham com as normas sociais estereotipadas para o gênero designado. É mais comum na infância e não é preditivo definitivo de incongruência de gênero persistente.
- Condições intersexo (Diferenças do Desenvolvimento Sexual): Condições congênitas nas quais o desenvolvimento cromossômico, gonadal ou anatômico sexual é atípico. Oferecem janelas naturais para estudar os efeitos da exposição hormonal pré-natal.
Dados epidemiológicos precisos sobre a prevalência da incongruência de gênero são variáveis, mas estimativas recentes sugerem que cerca de 0.5% a 1.3% da população adulta pode se identificar como transgênero ou não binária. Estudos com gêmeos, como citado nas fontes, apontam para uma contribuição genética substancial. Thede e Young (2002) estimaram que a genética contribuiu com cerca de 62% para a vulnerabilidade à disforia de gênero em uma amostra de gêmeos, enquanto 38% adviriam de fatores ambientais não compartilhados. Outro estudo holandês com registros de gêmeos encontrou que 70% da vulnerabilidade para comportamento transgênero (não identidade em si) foi de ordem genética.
Apresentação clínica
A influência dos fatores pré-natais não se manifesta como um "sintoma" isolado na avaliação clínica. Em vez disso, ela constitui um substrato biológico subjacente que pode se expressar através de uma trajetória de desenvolvimento específica. A apresentação clínica da incongruência de gênero é diversa e varia conforme a idade.
Domínio Cognitivo:
- Identificação de Gênero Precoce: Evidências sugerem que a identidade de gênero se firma entre 18 meses e três anos de idade. A criança desenvolve uma cognição estável sobre si mesma como pertencente a uma categoria de gênero ("sou um menino", "sou uma menina"). Em casos de incongruência, essa autopercepção é incongruente com o sexo designado.
- Narrativa Interna: Adolescentes e adultos frequentemente descrevem uma sensação persistente e consistente de "estar no corpo errado" ou de que seu gênero interno não corresponde às características físicas. Podem relatar que essa sensação existe desde a mais tenra infância, mesmo que não tenham tido linguagem para expressá-la.
- Insight e Sofrimento: O grau de insight sobre a incongruência e o sofrimento associado (disforia) variam. A disforia pode focar-se em características sexuais primárias (genitais) ou secundárias (mamas, barba, voz, distribuição de gordura), ou no papel social atribuído.
Domínio Afetivo:
- Disforia de Gênero: Angústia clinicamente significativa diretamente relacionada à incongruência. Pode se manifestar como ansiedade, depressão, irritabilidade, aversão ao próprio corpo, e em casos graves, ideação ou comportamento suicida.
- Alívio com a Expressão de Gênero Afirmativa: Sensações de euforia, autenticidade, redução da ansiedade e melhora do humor quando a pessoa pode viver e ser reconhecida de acordo com sua identidade de gênero (socialmente, através de hormônios ou cirurgias).
Domínio Comportamental:
- Expressão de Gênero Não Conforme: Na infância, pode incluir preferência persistente por roupas, brinquedos, atividades e companhias tipicamente associadas ao outro gênero. É fundamental diferenciar isso da exploração típica de gênero na infância.
- Comportamentos de Afirmação: Busca por transição social (uso de nome e pronomes sociais), terapia hormonal afirmativa (hormonioterapia) e cirurgias de afirmação de gênero (redesignação sexual).
- Evitação: Comportamentos para esconder ou minimizar características sexuais indesejadas (ex.: binder para achatar os seios, roupas largas).
Domínio Somático:
- O desconforto não é com o corpo como um todo, mas especificamente com as características sexuais. Pode haver uma hipervigilância em relação a essas características. Não há alterações somáticas diretamente causadas pelos hormônios pré-natais na vida adulta; seu efeito é organizacional no desenvolvimento cerebral.
Exemplos Clínicos Concisos:
- Criança (AMAB – Atribuído Menino ao Nascer): Aos 4 anos, insiste persistentemente que é uma menina, escolhe apenas vestidos e bonecas, fica angustiada quando chamada pelo nome de registro, e diz aos pais que "Deus errou" e que seu "pênis vai cair". Seu comportamento é consistente e causa sofrimento.
- Adolescente (AFAB – Atribuída Menina ao Nascer): Aos 14 anos, com o desenvolvimento das mamas e a menarca, desenvolve um quadro depressivo grave com isolamento social. Relata ao psiquiatra um profundo nojo de seu corpo, uma sensação de "estranhamento" desde a infância, e um alívio imenso quando cortou o cabelo curto e passou a usar binder. Não se identifica como mulher, nem totalmente como homem, usando o termo "não-binárie".
- Adulto (AMAB): Homem de 30 anos, bem-sucedido profissionalmente, busca avaliação psiquiátrica por ansiedade crônica. Na anamnese, revela um histórico de fantasia, desde a adolescência, de "ser mulher". Mantém esse desejo em segredo, com intenso sentimento de vergonha. Relata que a exposição a níveis mais altos de estrogênio em certos períodos críticos do desenvolvimento poderia ter contribuído para sua condição, conforme leu em artigos.
Neurobiologia e fisiopatologia
O modelo principal investigado é o da exposição hormonal diferencial pré-natal. A diferenciação sexual do cérebro (dimorfismo sexual cerebral) ocorre em fases distintas da diferenciação sexual geral.
- Sequência do Desenvolvimento: O período genético de diferenciação das gônadas (determinado pelos cromossomos X e Y) precede o de diferenciação cerebral. As gônadas fetais (testículos ou ovários) começam a produzir hormônios que atuam como organizadores do sistema nervoso central.
- Ação Organizacional dos Hormônios: Em fetos com cromossomo Y (XY), os testículos em desenvolvimento produzem testosterona e outras substâncias (como o hormônio anti-mülleriano) durante um período crítico, geralmente entre a 8ª e a 24ª semana de gestação. A testosterona, convertida em diidrotestosterona (DHT) em alguns tecidos, promove a masculinização dos genitais externos. No cérebro, a testosterona é aromatizada a estradiol em regiões específicas, promovendo a masculinização/desfeminização de circuitos neurais. Em fetos XX, na ausência de altos níveis de andrógenos, o desenvolvimento segue uma linha feminina por padrão.
- Hipótese da Exposição Atípica: A teoria propõe que variações nos níveis ou na sensibilidade aos hormônios sexuais durante essa janela crítica podem levar a um "cruzamento" entre a diferenciação genital e a cerebral. Por exemplo:
- Feto XY: Uma exposição abaixo do esperado a andrógenos, ou uma sensibilidade tissular reduzida a eles (como na Síndrome de Insensibilidade Parcial aos Andrógenos), poderia resultar em genitália masculina (ou ambígua) mas com um cérebro que seguiu um padrão de diferenciação mais feminino.
- Feto XX: Uma exposição acima do esperado a andrógenos (como na Hiperplasia Adrenal Congênita – HAC) poderia resultar em genitália masculinizada, mas com um cérebro que, em alguns aspectos, seguiu um padrão de diferenciação mais masculino.
- Evidências Estruturais Cerebrais: Estudos post-mortem identificaram que núcleos específicos do hipotálamo, como o núcleo central da estria terminal (BSTc) e o núcleo intersticial do hipotálamo anterior (INAH-3), apresentam tamanho e número de neurônios que, em pessoas transgênero, são mais compatíveis com o gênero da identidade do que com o sexo biológico designado ao nascimento. Por exemplo, o BSTc em mulheres trans (homens designados ao nascer) tem um volume e contagem neuronal semelhantes ao de mulheres cisgênero. Diferenças estruturais na área do cérebro que controla os hormônios sexuais masculinos são observadas em pessoas com disforia de gênero masculino para feminino.
- Correlações com Comportamento: Pesquisas mostram que a exposição fetal a níveis mais altos de testosterona está associada a comportamentos que envolvem mais brincadeiras masculinas (brincadeiras mais vigorosas, preferência por brinquedos tipicamente masculinos) tanto em meninos como em meninas. No entanto, este comportamento na infância não é um preditor direto de incongruência de gênero persistente. O resultado mais provável desse comportamento masculinizado em meninas (ex.: com HAC) ou de comportamento feminizado em meninos parece ser uma maior probabilidade de desenvolvimento de orientação homossexual ou bissexual.
- Limitações do Modelo: Como destacado nas fontes, o elo causal direto entre exposição hormonal pré-natal e identidade de gênero posterior ainda não está definitivamente estabelecido. Estudos com meninas com HAC criadas como meninas mostraram comportamento masculinizado, mas não diferenças significativas na identidade de gênero (a maioria identifica-se como mulher). Isso indica que a exposição androgênica pré-natal influencia mais fortemente a expressão e os interesses de gênero do que a identidade de gênero nuclear. A identidade de gênero é provavelmente um fenômeno emergente de múltiplos fatores, onde a biologia pré-natal estabelece uma predisposição que interage com fatores genéticos, epigenéticos e experiências psicossociais ao longo do desenvolvimento.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental:
A avaliação é fundamentalmente clínica e baseada na entrevista. O foco está na história detalhada da experiência de gênero ao longo da vida (anamnese de gênero), no sofrimento atual (disforia) e no impacto funcional. O exame do estado mental pode revelar:
- Humor: Ansioso, deprimido, ou eufórico/aliviado quando fala sobre viver em seu gênero afirmativo.
- Pensamento: Conteúdo focado na incongruência de gênero, no desejo de transição, ou em preocupações somáticas relacionadas ao corpo. O curso do pensamento é geralmente lógico e organizado.
- Percepção: Sem alterações psicóticas. Delírios de transformação corporal são raros e devem ser diferenciados da convicção não-delirante da identidade transgênero.
- Insight: Geralmente preservado e ampliado sobre a própria condição. Pacientes frequentemente são bem informados.
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
Não existem exames laboratoriais ou de imagem para "diagnosticar" a identidade de gênero. Escalas podem auxiliar na quantificação da disforia:
- Escala de Disforia de Gênero de Utrecht (UGDS): Versões para adolescentes e adultos.
- Questionário de Identidade de Gênero (GIQ): Avalia múltiplas dimensões da experiência de gênero.
- Escala de Congruência de Gênero (GCS): Foca na congruência entre a identidade interna e a expressão externa.
No Brasil, a avaliação segue protocolos multidisciplinares, muitas vezes em serviços especializados (como os Ambulatórios Trans dos CAPS III ou hospitais universitários), envolvendo psiquiatra, psicólogo, endocrinologista e assistente social.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Características Distintivas | Relação com a Identidade de Gênero |
|---|---|---|
| Esquizofrenia / Transtorno Delirante | Presença de delírios bizarros de transformação corporal (ex.: "meu corpo está sendo controlado por alienígenas e virou mulher"), alucinações, desorganização do pensamento. A convicção de gênero é fixa, não plausível e parte de um sistema delirante mais amplo. | A identidade transgênero não é um delírio. É uma convicção não-psicótica, estável ao longo do tempo, e não acompanhada de outros sintomas psicóticos. |
| Transtorno de Personalidade Borderline | Identidade difusa e instável em múltiplos domínios (autoimagem, objetivos, relações). A "confusão de gênero" pode ser um entre vários temas de instabilidade, flutuante e reativa a crises interpessoais. | A identidade de gênero na pessoa trans é tipicamente persistente e consistente, não flutuante com o humor ou contexto. |
| Transtorno Parafílico (ex.: Transvestismo Fetichista) | Excitação sexual intensa e recorrente associada ao ato de vestir roupas do outro gênero. O foco é na excitação erótica, não na identificação com o gênero. O indivíduo não deseja viver permanentemente como outro gênero. | Para pessoas trans, vestir-se de acordo com sua identidade é sobre conforto, autenticidade e expressão, não sobre excitação sexual (que pode ou não estar presente). |
| Homossexualidade com Disforia Internalizada | Angústia relacionada à atração por pessoas do mesmo sexo em um contexto de homofobia internalizada. Pode haver desejo de "ser do outro sexo" para tornar a atração heterossexual. | A identidade de gênero é sobre quem se é, não sobre por quem se sente atração. Muitas pessoas trans são homossexuais em relação ao seu gênero afirmado. |
| Condições Intersexo (DSD) | Evidência biológica de desenvolvimento sexual atípico (cariótipo, hormônios, anatomia). A incongruência de gênero pode surgir quando a identidade não se alinha com o sexo designado, muitas vezes após intervenções médicas precoces. | A avaliação deve sempre incluir a possibilidade de uma DSD não diagnosticada, especialmente em histórias atípicas. A experiência de gênero é semelhante, mas o contexto etiológico é diferente. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Patologizar a Identidade: Tratar a identidade transgênero em si como um sintoma patológico, em vez de focar no sofrimento (disforia) que pode ou não acompanhá-la.
- Confundir com Orientação Sexual: Pressupor que um homem trans atraído por homens é uma "mulher lésbica confusa", ou vice-versa.
- Ignorar Comorbidades: Não diagnosticar adequadamente transtornos de humor, ansiedade ou TEPT, que são comorbidades frequentes devido ao estresse minoritário, atribuindo todos os sintomas à disforia.
- Supervalorizar Comportamentos da Infância: Assumir que toda criança com comportamento de gênero não conforme será transgênero na vida adulta, ou desconsiderar a história de infância de um adulto trans que não se encaixa no estereótipo.
- Falta de Conhecimento sobre Não-Binaridade: Tentar enquadrar experiências não-binárias em categorias binárias (homem/mulher trans).
Condições associadas
A incongruência de gênero não é em si um transtorno mental, mas a disforia de gênero associada pode coexistir com várias condições psiquiátricas, majoritariamente relacionadas ao estresse crônico de viver em um corpo e/ou ambiente social não afirmativos (estresse minoritário).
- Transtornos Depressivos e de Ansiedade: São as comorbidades mais frequentes. A prevalência de depressão e ideação suicida é significativamente maior na população trans comparada à população geral.
- Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT): Pode decorrer de experiências de violência, discriminação, rejeição familiar ou assédio (transfobia).
- Transtornos Alimentares: Especialmente em pessoas AFAB que desejam suprimir características femininas (seios, curvas), podendo haver uso de restrição alimentar para interromper a menstruação ou alterar a silhueta.
- Uso de Substâncias: Pode ser uma estratégia de enfrentamento mal-adaptativa para lidar com a disforia e o estigma.
- Transtorno da Personalidade Borderline: A prevalência pode estar aumentada, e o diagnóstico diferencial é crucial, como mencionado.
Correlações com Manuais Diagnósticos:
- DSM-5-TR: Inclui o "Transtorno de Disforia de Gênero" (F64.1). Requer uma incongruência marcante e persistente entre o gênero experienciado/expresso e o sexo designado, por pelo menos 6 meses, associada a sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento. Possui critérios específicos para crianças, adolescentes e adultos.
- CID-11: Despatologizou a condição, removendo-a do capítulo de transtornos mentais. A "Incongruência de Gênero" (HA60) está no capítulo "Condições relacionadas à saúde sexual". A ênfase está na incongruência em si e na necessidade de cuidados de saúde, não no sofrimento como requisito central.
Implicações terapêuticas
O entendimento da influência biológica pré-natal reforça a abordagem de que a identidade de gênero não é uma escolha ou um capricho, mas uma característica profundamente arraizada da pessoa. Isso tem implicações diretas no modelo de tratamento, que é de afirmação de gênero.
Abordagem Psicoterapêutica:
- Psicoterapia de Afirmação: O objetivo não é alterar a identidade de gênero (abordagem considerada ineficaz e potencialmente nociva), mas ajudar o paciente a explorar, aceitar e integrar sua identidade, desenvolver estratégias de enfrentamento para a disforia e o estigma, e tomar decisões informadas sobre transição. A terapia é de suporte e exploratória.
- Preparação para Transição: Ajudar na tomada de decisão sobre os diferentes passos da transição (social, hormonal, cirúrgica), trabalhando expectativas realistas, impacto nas relações e preparação para os desafios.
- Terapia Familiar: Fundamental, especialmente com adolescentes. Visa educar a família, reduzir a rejeição, promover o suporte e mediar conflitos.
Abordagem Farmacológica e Médica:
- Não há medicação para "tratar" a identidade de gênero. A farmacoterapia é direcionada às comorbidades (antidepressivos, ansiolíticos) ou é parte da transição afirmativa.
- Terapia Hormonal Afirmativa (TH): Administrada por endocrinologista ou médico treinado, tem como objetivo alinhar as características sexuais secundárias com a identidade de gênero. Para homens trans: testosterona. Para mulheres trans: estrogênios e bloqueadores de andrógenos. A TH é altamente eficaz na redução da disforia e na melhora do bem-estar psicológico.
- Cirurgias de Afirmação de Gênero (Redesignação Sexual): Procedimentos como mastectomia (para homens trans), vaginoplastia, faloplastia, entre outros. Exigem preparação psicológica rigorosa, laudos (conforme resoluções do CFM) e estabilidade financeira e social. São tratamentos médicos necessários para muitas pessoas, com altas taxas de satisfação e melhora na qualidade de vida.
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
O prognóstico é significativamente melhorado quando a pessoa tem acesso a cuidados afirmativos e a um ambiente social de suporte. A transição social e/ou médica está associada a:
- Redução drástica dos sintomas de disforia de gênero.
- Melhora nos sintomas depressivos e ansiosos.
- Redução do risco de suicídio.
- Melhora na funcionalidade global, autoestima e qualidade de vida.
A resistência ou negação do acesso a esses cuidados está associada à persistência e piora do sofrimento psíquico.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente:
Pacientes frequentemente descrevem uma sensação de "estranhamento" ou "não pertencimento" que os acompanha desde a memória mais remota. Na infância, pode ser uma certeza simples ("eu sou uma menina"). Na adolescência e vida adulta, pode ser uma angústia difusa que se cristaliza em torno das mudanças corporais da puberdade ou das expectativas sociais de gênero. O alívio ao serem chamados pelo nome social e pronomes corretos é frequentemente descrito como "finalmente poder respirar". A disforia corporal pode ser vivida como um nojo, uma desconexão, uma dor constante ou uma simples incongruência.
Orientações para Comunicação Clínica:
- Uso de Nome e Pronomes: Sempre pergunte e utilize o nome pelo qual a pessoa prefere ser chamada (nome social) e os pronomes correspondentes (ele/dele, ela/dela, elu/delu, etc.). Atualize os registros do prontuário.
- Linguagem Não-Patologizante: Evite termos como "transexualismo", "opção sexual", "nasceu no corpo errado" (a menos que o paciente use). Prefira "pessoa trans", "identidade de gênero", "incongruência", "transição".
- Anamnese Sensível: Faça perguntas abertas: "Como você entende e experiencia seu gênero?", "Desde quando você tem essa sensação?", "O que causa mais sofrimento para você atualmente?", "De que forma você gostaria que seu corpo fosse diferente?".
- Validação: Valide a experiência do paciente como real e legítima. Evite atitudes de desconfiança ou questionamento excessivo.
- Inclusão de Familiares: Eduque os familiares sobre a natureza da identidade de gênero, os riscos da rejeição e a importância do suporte. Forneça recursos e encaminhamento para grupos de apoio.
Impacto Funcional:
Sem tratamento afirmativo, a disforia e o estigma podem levar a:
- Trabalho: Dificuldade de concentração, absenteísmo, discriminação no ambiente laboral, desemprego.
- Relacionamentos: Isolamento social, conflitos familiares, dificuldade em estabelecer relacionamentos íntimos por vergonha ou disforia.
- Qualidade de Vida: Prejuízo global, baixa autoestima, comportamentos de risco, altas taxas de ideação e tentativa de suicídio.
Com tratamento adequado e suporte, a funcionalidade é restaurada, e os pacientes podem levar vidas plenas e produtivas.
Perguntas frequentes
1. A identidade de gênero é uma escolha ou uma condição biológica?
É fundamentalmente entendida como uma variação natural do desenvolvimento humano com fortes bases biológicas, incluindo influências genéticas e hormonais pré-natais. Não é uma escolha consciente, assim como a orientação sexual não o é. A pessoa descobre e compreende sua identidade, não a escolhe.
2. Se é biológica, por que só se manifesta claramente na adolescência ou vida adulta em algumas pessoas?
A identidade pode estar presente desde a infância, mas a capacidade de articulá-la e a pressão social para conformidade podem suprimir sua expressão. A puberdade, ao desenvolver características sexuais contrárias à identidade interna, frequentemente torna a incongruência mais evidente e angustiante (disforia), levando a uma busca por ajuda.
3. Crianças com comportamento de gênero não conforme sempre serão transgênero?
Não. A maioria das crianças com comportamento não conforme (especialmente meninos com interesses femininos) não desenvolve uma identidade transgênero persistente. Muitas crescem como adultos gays ou lésbicas. A persistência, consistência e insistência da identidade ("eu sou uma menina", não apenas "eu gosto de coisas de menina") são indicadores mais fortes.
4. Os hormônios pré-natais explicam tudo sobre ser trans?
Não. O modelo hormonal é uma peça importante do quebra-cabeça etiológico, mas não é determinista. Fatores genéticos (estudos com gêmeos mostram alta herdabilidade), epigenéticos (como a expressão dos genes é regulada) e a complexa interação com o ambiente psicossocial ao longo do desenvolvimento são igualmente cruciais. É um fenômeno multifatorial.
5. É possível "curar" ou mudar a identidade de gênero através de terapia?
Não. Intervenções psicossociais com o objetivo de mudar a identidade de gênero (as chamadas "terapias de conversão") são consideradas antiéticas, ineficazes e profundamente nocivas, podendo levar a graves danos psicológicos, incluindo aumento do risco de suicídio. São condenadas por todas as associações médicas e psicológicas majoritárias, incluindo o CFM e o CFP.
6. Qual é a diferença entre ser transgênero e ter uma condição intersexo?
Pessoas transgênero têm uma identidade de gênero que difere do sexo designado ao nascer, mas geralmente não apresentam variações cromossômicas, gonadais ou anatômicas atípicas evidentes (embora possam existir variações cerebrais). Pessoas intersexo têm uma variação biológica congênita em uma dessas características sexuais. Algumas pessoas intersexo também podem ser transgênero se sua identidade não coincidir com o sexo que lhes foi designado (muitas vezes após cirurgias não consentidas na infância).
7. O tratamento hormonal e cirúrgico é seguro e eficaz?
Sim, quando realizado por equipe médica qualificada e com acompanhamento adequado. A terapia hormonal e as cirurgias de afirmação de gênero são intervenções médicas estabelecidas, com protocolos claros. Os benefícios na redução da disforia e melhora da saúde mental são bem documentados e superam amplamente os riscos para a maioria dos pacientes que os buscam.
8. Como os profissionais de saúde no SUS podem acolher melhor essa população?
Capacitando-se em saúde da população trans, implementando o uso do nome social em todos os sistemas, garantindo o acesso aos ambulatórios especializados (como os Ambulatórios Trans), seguindo os protocolos do Ministério da Saúde para hormonioterapia, e adotando uma postura de respeito, não-julgamento e afirmação em todos os pontos de atenção.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Barlow, D.H.; Durand, V.M. Psicopatologia: Uma Abordagem Integrada. Tradução da edição norte-americana. São Paulo: Cengage Learning, (data da edição utilizada nas fontes).
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR). Washington, DC: APA, 2022.
- World Health Organization. International Classification of Diseases, 11th Revision (ICD-11). Genebra: WHO, 2019/2021.
- Zhou, J.N., Hofman, M.A., Gooren, L.J., & Swaab, D.F. (1995). A sex difference in the human brain and its relation to transsexuality. Nature, 378, 68-70.
- Meyer-Bahlburg, H.F.L., et al. (2004). Prenatal androgenization affects gender-related behavior but not gender identity in 5–12-year-old girls with congenital adrenal hyperplasia. Archives of Sexual Behavior, 33(2), 97-104.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.