Definição e conceito
O fenômeno clínico caracterizado pela presença de sintomas ou déficits funcionais que afetam o sistema nervoso voluntário ou sensorial, sem que uma condição médica neurológica ou outra condição física possa explicá-los plenamente, constitui um dos núcleos históricos da psicopatologia. Sua conceituação passou por uma profunda transformação nos últimos 150 anos, refletindo mudanças paradigmáticas na psiquiatria.
O termo histeria de conversão (ou neurose histérica) é um construto psicopatológico clássico, cimentado na obra de Sigmund Freud e Pierre Janet no final do século XIX e início do XX. Freud propôs que sintomas físicos inexplicáveis representavam a conversão de conflitos emocionais inconscientes e inaceitáveis (geralmente de natureza sexual ou agressiva) em uma expressão somática. Neste modelo, a ansiedade gerada pelo conflito seria "convertida" em um sintoma físico (como uma paralisia ou cegueira), permitindo ao indivíduo "descarregar" a ansiedade sem ter que experimentá-la conscientemente. O termo "histeria" (do grego hystera, útero) carregava uma longa história de associação ao sexo feminino e a noções preconceituosas, sendo considerado estigmatizante.
O Transtorno Conversivo (TC), conforme categorizado no DSM-5 (sob o título "Transtorno de Sintomas Neurológicos Funcionais"), representa a atualização descritiva e ateórica desse fenômeno. O DSM-5, seguindo uma tendência iniciada no DSM-III (1980), desmontou o amplo e complexo construto da "histeria" em várias condições distintas. O TC é definido pela presença de um ou mais sintomas de alteração da função motora ou sensitiva voluntária, que são incompatíveis com patologias neurológicas ou médicas reconhecidas e causam sofrimento ou prejuízo significativo. A palavra "funcional" no subtítulo refere-se precisamente a um sintoma sem uma causa orgânica estrutural identificável, implicando uma disfunção na forma como o sistema nervoso opera.
A CID-11 adota uma abordagem ligeiramente diferente, agrupando os transtornos conversivos e os dissociativos sob uma única rubrica: "Transtornos Dissociativos". Esta classificação mantém, de certa forma, uma unidade histórica entre os fenômenos de conversão e dissociação, que eram pilares da histeria clássica. No entanto, tanto o DSM-5 quanto a CID-11 separaram definitivamente esses sintomas do Transtorno da Personalidade Histriônica, que era uma característica frequentemente associada ao conceito psicanalítico de personalidade histérica.
Terminologia Técnica:
- Histeria de Conversão / Neurose Histérica: Conceito psicodinâmico histórico. Em desuso na nomenclatura diagnóstica oficial devido a seu caráter teórico e estigmatizante.
- Transtorno Conversivo (Conversion Disorder – DSM-5): Diagnóstico atual baseado em critérios descritivos.
- Transtorno de Sintomas Neurológicos Funcionais (Functional Neurological Symptom Disorder – DSM-5): Termo alternativo e preferencial no DSM-5, especialmente em contextos neurológicos, por ser menos teorizado e mais aceitável para pacientes.
- Sintomas Funcionais Neurológicos: Termo descritivo amplamente utilizado na prática clínica, particularmente em neurologia.
- Dissociação: Fenômeno relacionado, mas distinto, envolvendo descontinuidade na integração normal de consciência, memória, identidade e percepção.
Epidemiologia: A prevalência do transtorno conversivo em ambientes clínicos é variável. É mais frequentemente diagnosticado em serviços de neurologia e em contextos de pronto-socorro. Historicamente associado ao sexo feminino, estudos mais recentes mostram uma distribuição mais equilibrada entre os gêneros. É mais comum em adolescentes e adultos jovens. A taxa de diagnósticos errôneos (onde um problema físico orgânico é inicialmente classificado como conversivo) é atualmente estimada em cerca de 4%, um índice significativamente menor do que em décadas passadas, graças aos avanços nas técnicas de investigação médica.
Apresentação clínica
A apresentação do transtorno conversivo é marcada pela heterogeneidade e pela semelhança com condições neurológicas. O sintoma central é a alteração da função motora ou sensitiva voluntária, que não segue padrões anatômicos ou fisiológicos consistentes. A avaliação clínica cuidadosa revela frequentemente incongruências e uma certa indiferença afetiva (la belle indifférence) diante do sintoma, embora esta não seja uma característica universal ou patognomônica.
Domínio Motor:
- Fraqueza ou Paralisia: Envolvendo um membro (monoparesia/plegia), metade do corpo (hemiparesia/plegia) ou todos os membros (quadriparesia/plegia). A fraqueza frequentemente "dá way" (cede) durante testes de resistência ou muda de padrão quando o paciente é distraído.
- Distúrbios do Movimento: Tremores, movimentos coreiformes, distonia, mioclonias, dificuldades de marcha (ataxia, arrastar de perna, quedas dramáticas sem lesão). Os tremores podem iniciar e cessar abruptamente, variar em frequência, ou cessar quando o paciente é solicitado a realizar um movimento rítmico com o membro contralateral.
- Crises Dissociativas (Pseudocrises): Episódios que mimetizam crises epilépticas, mas sem atividade epileptiforme no EEG concomitante. Podem envolver movimentos assimétricos, balanço pélvico, arqueamento de costas, vocalizações emocionais e períodos prolongados de imobilidade com resistência à abertura ocular.
- Afonia/Disfonia: Perda total ou parcial da voz, com tosse ou pigarro mantidos em volume normal.
- Disfagia: Sensação de nódulo na garganta ("globus hystericus") sem causa física identificada.
Domínio Sensitivo-Sensorial:
- Anestesia ou Parestesias: Perda de sensibilidade ou sensações anormais (formigamento, queimação). Frequentemente apresentam distribuições não-dermatoméricas (ex.: "perda em luva" na mão ou "em meia" no pé, demarcação nítida na linha média do corpo).
- Perda Visual: Cegueira unilateral ou bilateral, visão tubular (campo visual que não se amplia com a distância), diplopia.
- Perda Auditiva: Surdez unilateral ou bilateral.
- Anosmia: Perda do olfato.
Domínio Cognitivo e da Consciência:
- Sugestionabilidade Patológica: Aspecto central descrito por Cheniaux, onde o paciente parece altamente influenciável por sugestões, tanto para o surgimento quanto para a remissão dos sintomas.
- Indiferença Afetiva (La Belle Indifférence): Atitude de relativa tranquilidade ou falta de preocupação diante de um sintoma aparentemente grave. Não está presente em todos os casos; muitos pacientes apresentam ansiedade e angústia genuínas.
- Alterações Dissociativas: Podem coexistir, como estreitamento do campo da consciência ou estados crepusculares, onde o indivíduo parece estar em transe.
Exemplos Clínicos Concisos:
- Paciente A: Mulher de 22 anos, após discussão familiar intensa, desenvolve paralisia completa da perna direita. Ao exame neurológico, os reflexos estão normais, não há sinal de Babinski e, quando distraída conversando sobre um assunto emocional, move a perna involuntariamente para se ajustar na cadeira.
- Paciente B: Homem de 35 anos, envolvido em acidente de trânsito sem lesões físicas graves, começa a apresentar tremores grosseiros e intermitentes no braço esquerdo que cessam completamente durante o sono e quando ele está concentrado em uma tarefa com a mão direita.
- Paciente C: Adolescente de 17 anos, durante prova escolar importante, perde subitamente a visão bilateral. O exame oftalmológico é normal, as pupilas reagem à luz e ele evita habilmente obstáculos ao caminhar pela sala.
Neurobiologia e fisiopatologia
A fisiopatologia do transtorno conversivo permanece incompletamente elucidada, mas modelos contemporâneos integram fatores psicológicos, neurobiológicos e sociais, abandonando a explicação psicanalítica pura da "conversão de conflitos".
Modelos Neurobiológicos Integrativos:
O modelo predominante propõe uma desregulação nos circuitos cerebrais que integram emoção, cognição, auto-percepção e controle motor/sensitivo voluntário. Não se trata de uma simulação consciente ("fingimento"), mas de uma produção de sintoma genuína e involuntária, mediada por processos cerebrais anormais.
- Desconexão Funcional entre Córtex Pré-Frontal e Sistemas Motores/Sensitivos: Evidências de neuroimagem funcional (fMRI, PET) sugerem uma hiperativação de regiões límbicas (como a ínsula anterior e o cíngulo anterior) associadas ao processamento de emoção, conflito e saliência, concomitantemente a uma diminuição da ativação do córtex motor primário (M1) ou do córtex pré-motor quando o paciente tenta mover um membro paralisado. Isso indica que a intenção de mover não consegue ativar adequadamente a via motora executiva final, possivelmente "inibida" por sinais emocionais ou de conflito.
- Processamento Anormal da Atenção e da Auto-percepção: Há indícios de alteração no processamento da atenção voltada para o corpo e na integração dos sinais proprioceptivos. O sintoma conversivo pode emergir quando a atenção está excessivamente focada em uma parte do corpo em um contexto de alto estresse ou conflito psicológico.
- Papel da Sugestionabilidade e das Expectativas: A alta sugestionabilidade, um traço frequentemente presente, pode estar relacionada a alterações nos circuitos envolvidos no monitoramento da ação e na sensação de agência (a sensação de ser o autor de uma ação). Em indivíduos predispostos, uma expectativa ou crença ("minha perna não vai funcionar") pode, através desses circuitos, inibir efetivamente a função motora.
- Mecanismos de Aprendizagem Implícita: Em alguns casos, especialmente após uma lesão ou doença neurológica real, os sintomas podem persistir como um padrão mal-adaptativo aprendido, mesmo após a resolução da condição original. O cérebro continua a produzir a resposta sintomática em contextos específicos.
Neurotransmissão: Não há um perfil específico de neurotransmissores identificado. Supõe-se que sistemas envolvidos no estresse (eixo HPA, noradrenalina), na modulação da dor e da emoção (serotonina, opioides endógenos) e na inibição/iniciação motora (GABA, dopamina) possam estar implicados de forma complexa e variável.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
O diagnóstico de transtorno conversivo é fundamentalmente clínico e por exclusão, mas também por identificação de sinais positivos de inconsistência que o corroboram.
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Aparência e Comportamento: Pode haver dramatização ou, inversamente, indiferença. Durante a avaliação, o paciente pode apresentar os sintomas de forma inconsistente.
- Afeto e Humor: La belle indifférence pode estar presente, mas ansiedade, depressão ou labilidade emocional são comuns.
- Conteúdo do Pensamento: Pode haver foco obsessivo no sintoma. É crucial investigar estressores psicossociais recentes, traumas, conflitos e ganhos primários ou secundários (inconscientes ou conscientes) sem assumir uma postura acusatória.
- Cognição: Orientação e memória geralmente preservadas, a menos que haja comorbidade dissociativa.
Exame Neurológico "Positivo" para Sintomas Funcionais:
- Teste de Hoover: Para fraqueza funcional da perna. A extensão da perna fraca é fraca à voluntariedade, mas a força retorna (pela extensão contralateral) quando o paciente flexiona a perna saudável contra resistência.
- Sinal da Roda Dentada: Na fraqueza funcional, ao testar a força contra resistência, o paciente pode "ceder" de forma irregular, como uma roda dentada, ao invés de uma fraqueza constante.
- Tremor que Cessa com Distração: O tremor funcional tipicamente muda de padrão ou cessa quando o paciente é distraído (ex.: realizar tarefas cognitivas complexas com a outra mão).
- Anestesia em "Luva" ou "Meia": Perda sensitiva que termina abruptamente no punho ou tornozelo, não seguindo a distribuição de nervos periféricos ou raízes nervosas.
- Afonia com Tosse Sonora: O paciente não consegue falar, mas a tosse é forte e clara, indicando integridade das cordas vocais.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Pontos de Diferenciação |
|---|---|
| Doença Neurológica Orgânica (Esclerose Múltipla, Miastenia Gravis, AVC raro) | Sintomas seguem padrões anatômicos consistentes; achados objetivos no exame neurológico e em exames complementares (ressonância, EEG, EMG). É o principal diferencial. |
| Crises Epilépticas | Padrão estereotipado de início e evolução; alterações no EEG ictal; período pós-ictal confusional típico. |
| Transtorno de Sintomas Somáticos | O foco está na preocupação excessiva com sintomas somáticos (ex.: dor, fadiga), não em déficits motores/sensitivos específicos que mimetizam neurologia. |
| Transtorno Factício / Simulação | Produção consciente e intencional de sintomas para assumir o papel de doente (factício) ou para ganho externo claro como indenização (simulação). No TC, a produção é involuntária. |
| Transtornos Dissociativos (Amnésia Dissociativa, Transtorno de Identidade Dissociativa) | O prejuízo principal é na memória, identidade ou consciência, não na função motora/sensitiva, embora possam coexistir. |
| Transtorno Depressivo Maior / Transtorno de Ansiedade | Podem apresentar sintomas como fadiga, dor ou agitação, mas sem as características específicas de déficit neurológico funcional. São comorbidades frequentes. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Diagnóstico por Exclusão Precipitado: Fazer o diagnóstico apenas porque "os exames são normais", sem buscar os sinais positivos de inconsistência.
- Ignorar Comorbidades Orgânicas: O transtorno conversivo pode coexistir com uma doença neurológica real. Um diagnóstico não exclui o outro.
- Confrontação Inadequada: Dizer ao paciente "isso é coisa da sua cabeça" ou "você está inventando" é clinicamente incorreto, anti-terapê,utico e pode causar dano. Os sintomas são reais e involuntários para o paciente.
- Supervalorizar La Belle Indifférence: Sua ausência não afasta o diagnóstico. Muitos pacientes estão genuinamente angustiados.
- Não Investigar Contexto Psicossocial: Ignorar estressores, traumas ou conflitos que possam estar associados à gênese ou manutenção dos sintomas.
Condições associadas
O transtorno conversivo raramente ocorre de forma isolada. Sua apresentação está frequentemente entrelaçada com outras condições psiquiátricas e médicas.
- Transtornos de Ansiedade: O Transtorno de Pânico e o Transtorno de Ansiedade Generalizada são comorbidades extremamente frequentes. A ansiedade pode ser tanto um fator predisponente quanto uma consequência dos sintomas conversivos.
- Transtornos Depressivos: Episódios depressivos maiores estão presentes em uma parcela significativa dos pacientes.
- Transtornos de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e Relacionados a Trauma: Histórico de trauma físico, emocional ou sexual é um fator de risco significativo. Os sintomas conversivos podem ser uma expressão dissociativa do trauma.
- Outros Transtornos Dissociativos: Amnésia Dissociativa, Transtorno de Despersonalização/Desrealização e Transtorno de Identidade Dissociativa frequentemente compartilham mecanismos etiopatogênicos com o TC.
- Transtornos de Personalidade: Embora o Transtorno da Personalidade Histriônica tenha sido separado nosológicamente, traços de personalidade dependente, borderline ou com tendência à dramatização podem estar presentes.
- Condições Neurológicas: Como mencionado, doenças neurológicas (epilepsia, enxaqueca, neuropatias) podem coexistir, sendo crucial uma avaliação neurológica cuidadosa e contínua.
Correlações nos Sistemas Diagnósticos:
- DSM-5: O Transtorno Conversivo está classificado no capítulo "Transtornos de Sintomas Somáticos e Transtornos Relacionados", separado dos "Transtornos Dissociativos". O código é F44.4 (para déficit motor) ou F44.5 (para crises ou convulsões).
- CID-11: Classifica o transtorno conversivo dentro do capítulo "Transtornos Dissociativos" (Código: 6B60). Especificadores indicam o tipo de sintoma predominante (ex.: 6B60.0 com sintoma motor, 6B60.1 com crises dissociativas).
Implicações terapêuticas
O tratamento do transtorno conversivo é multimodal e deve ser conduzido de forma colaborativa, idealmente entre psiquiatra, neurologista, psicólogo e fisioterapeuta/terapeuta ocupacional especializados.
Abordagem Psicoterapêutica (Tratamento de Primeira Escolha):
- Psicoterapia com Base Cognitivo-Comportamental (TCC): A TCC é a modalidade com maior evidência de eficácia. Foca em:
- Psicoeducação: Explicar o diagnóstico de forma não estigmatizante, usando analogias como "um problema de software do cérebro, não do hardware".
- Identificação e Modificação de Gatilhos: Reconhecer pensamentos, emoções e situações que precipitam ou exacerbam os sintomas.
- Técnicas de Dessensibilização e Exposição: Expor gradualmente o paciente às situações temidas relacionadas ao sintoma (ex.: tentar mover o membro paralisado em um contexto seguro).
- Treinamento de Habilidades de Enfrentamento: Estratégias para manejar estresse, ansiedade e conflitos de forma adaptativa.
- Psicoterapia Dinâmica Breve: Pode ser útil para pacientes cujos sintomas estão claramente ligados a conflitos emocionais inconscientes ou traumas passados. O foco é na elaboração desses conflitos, não na busca por "significados" simbólicos específicos para cada sintoma.
- Terapia Familiar/Sistêmica: Indicada quando os sintomas estão envolvidos em dinâmicas familiares disfuncionais ou quando há ganhos secundários significativos no sistema familiar.
Abordagem Farmacológica:
Não existem medicamentos específicos para o transtorno conversivo. A farmacoterapia é adjuvante e direcionada às comorbidades.
- Antidepressivos (ISRS/SNRI): Para tratar sintomas depressivos e de ansiedade comórbidos, que podem reduzir a vulnerabilidade geral e melhorar a adesão à psicoterapia.
- Ansiolíticos: Uso cauteloso e de curta duração para crises de ansiedade aguda, devido ao risco de dependência.
Reabilitação Física (Fisioterapia/ Terapia Ocupacional):
Essencial para sintomas motores. Deve ser realizada por profissionais que compreendam a natureza funcional do problema.
- Abordagem de "Reaprendizagem" do Movimento: Foca na atenção externa ("observe este movimento") ao invés da interna ("tente sentir sua perna").
- Exercícios Graduais e de Distração: Realizar movimentos enquanto o paciente está distraído em uma conversa ou tarefa cognitiva.
- Evitar Reforço do Comportamento de Doença: Não tratar o paciente como um doente orgânico grave; incentivar a autonomia e a retomada gradual das atividades.
Prognóstico: É variável. Um início agudo, associado a um estressor identificável, em um paciente com boa funcionalidade prévia e poucas comorbidades, tem um prognóstico favorável, com remissão em semanas ou meses. Sintomas crônicos (com duração > 1 ano), presença de comorbidades psiquiátricas complexas, transtornos de personalidade e ganhos secundários significativos estão associados a um prognóstico mais reservado e a maior cronicidade.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente: Para o paciente, a experiência é de sofrimento real e perplexidade. Ele sente genuinamente que não consegue mover o braço, enxergar ou que está tendo convulsões. Receber uma série de exames normais pode gerar frustração e a sensação de não ser levado a sério ("acham que eu estou louco ou fingindo"). A angústia é agravada pela incerteza e pelo impacto funcional.
Orientações para Comunicação Clínica (Médico-Paciente-Família):
- Comunicação do Diagnóstico (Passo Crucial):
- Validar o Sofrimento: "Seus sintomas são reais, causam sofrimento real e nós levaremos isso muito a sério."
- Usar Linguagem Desestigmatizante: Evitar "histeria", "psicológico" de forma pejorativa. Preferir: "transtorno de sintomas neurológicos funcionais", "um problema na forma como o cérebro está enviando ou recebendo sinais", "um distúrbio do funcionamento do sistema nervoso".
- Explicar com Analogias Úteis: "É como se o computador do cérebro (o software) tivesse um bug que impede o comando de mover a perna de chegar até os músculos, mesmo que o hardware (os nervos e músculos) esteja perfeito."
- Enfatizar a Involuntariedade: Deixar claro que não se trata de fingimento ou fraqueza de caráter.
- Apresentar um Plano Concreto: "A boa notícia é que esse tipo de problema tem tratamento e muitas pessoas se recuperam completamente. O tratamento envolve uma reabilitação específica (fisioterapia) e estratégias para ajudar o cérebro a ‘reprogramar’ esses circuitos (psicoterapia)."
- Com a Família: Educar a família sobre a natureza do problema, orientando-a a não superproteger o paciente nem a duvidar de sua experiência. Incentivar o apoio à autonomia e à participação no tratamento.
- No Contexto do SUS/CAPS: O manejo ideal requer articulação entre a atenção secundária/terciária (neurologia, psiquiatria em hospital geral) e a rede de atenção psicossocial (CAPS). O CAPS pode oferecer acompanhamento psicoterapêutico contínuo, terapia ocupacional e suporte social, fundamentais para a reabilitação.
Impacto Funcional: Pode ser devastador. Paralisias, cegueira ou crises incapacitam para o trabalho, estudos e atividades de vida diária. Podem levar a licenças médicas prolongadas, perda do emprego, isolamento social e dependência familiar. A intervenção precoce e multidisciplinar é crucial para minimizar este impacto.
Perguntas frequentes
1. O transtorno conversivo é a mesma coisa que "frescura" ou fingimento?
Não. É uma condição médica legítima onde o cérebro produz involuntariamente sintomas que o paciente não controla conscientemente. No fingimento (simulação), há uma intenção consciente de enganar para obter um ganho externo claro.
2. Por que os médicos usam termos diferentes: conversivo, funcional, dissociativo?
São ênfases diferentes. "Conversivo" é o termo histórico. "Funcional" é descritivo (disfunção na função). "Dissociativo" (na CID-11) enfatiza a possível desconexão entre funções mentais. Todos se referem ao mesmo núcleo de sintomas motores/sensitivos inexplicáveis por doença orgânica.
3. Se é um problema "da mente", por que a fisioterapia ajuda?
Porque o sintoma se expressa no corpo. A fisioterapia especializada ajuda a "reaprender" os padrões de movimento normais, usando técnicas que contornam os bloqueios funcionais no cérebro, muitas vezes através da distração e do foco externo.
4. O paciente com transtorno conversivo precisa de remédios para psiquiatria?
Não necessariamente para o sintoma conversivo em si, mas frequentemente sim para tratar condições que acompanham o quadro, como depressão ou ansiedade grave, que pioram o prognóstico. O medicamento é um coadjuvante à psicoterapia e à reabilitação.
5. É possível ter uma doença neurológica "de verdade" e transtorno conversivo ao mesmo tempo?
Sim. É uma situação complexa, mas possível. Por exemplo, uma pessoa com epilepsia leve pode desenvolver crises dissociativas (pseudocrises) em resposta ao estresse. Por isso, a avaliação neurológica cuidadosa e contínua é essencial.
6. Qual a diferença entre uma crise conversiva (pseudocrise) e uma crise epiléptica?
As pseudocrises geralmente têm um início mais gradual, movimentos assimétricos e não estereotipados (como balançar a pelve), duração prolongada, ausência de mordedura de língua grave ou incontinência urinária, e a recuperação da consciência pode ser imediata ou com queixas emocionais. O EEG durante o evento é normal. O diagnóstico definitivo requer avaliação em vídeo-EEG.
7. O transtorno conversivo tem cura?
Muitos pacientes, especialmente com início agudo e tratamento adequado e precoce, alcançam remissão completa dos sintomas. Em casos crônicos, o objetivo é a redução dos sintomas, a melhora da funcionalidade e a qualidade de vida.
8. Como a família deve agir?
Apoiando o tratamento, evitando críticas ou atitudes de descrença ("levanta dessa cadeira!"), mas também evitando a superproteção que reforça o papel de doente. Deve-se incentivar a participação nas terapias e a retomada gradual, mas constante, das atividades normais.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). 5ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – 11ª edição (CID-11). 2022.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- Stone, J., LaFrance, W.C., Levenson, J.L., Sharpe, M. (2010). Issues for DSM-5: Conversion Disorder. The American Journal of Psychiatry, 167(6), 626-627.
- Bègue, I., Adams, C., Stone, J., Perez, D.L. (2019). Structural alterations in functional neurological disorder and related conditions: a software and hardware problem? NeuroImage: Clinical, 22, 101798.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.