Outros transtornos da personalidade e do comportamento do adulto (CID-10: F68)

Um guia completo para entender, reconhecer e lidar com essas condições


O que é?

Imagine que a personalidade é como o “sistema operacional” de uma pessoa — aquele conjunto de características que define como ela pensa, sente, age e se relaciona com o mundo. Para a maioria das pessoas, esse “sistema” funciona de forma flexível: elas conseguem se adaptar a diferentes situações, lidar com estresse sem desmoronar e manter relacionamentos estáveis. Mas, para algumas, esse sistema parece estar “travado” em certos padrões, como se sempre respondessem da mesma forma, mesmo quando isso traz sofrimento ou problemas na vida.

Os transtornos da personalidade (incluídos no grupo F68 da CID-10) são justamente isso: padrões rígidos, duradouros e mal-adaptativos de pensar, sentir e se comportar, que começam na adolescência ou no início da vida adulta e causam dificuldades significativas no trabalho, nos relacionamentos ou em outras áreas da vida. A diferença entre um traço de personalidade (como ser tímido ou perfeccionista) e um transtorno está na intensidade, na rigidez e no prejuízo que esses padrões causam. Por exemplo:
Normal: Uma pessoa pode ser desconfiada em situações de risco, como ao lidar com estranhos em um lugar desconhecido.
Transtorno: Alguém com Transtorno da Personalidade Paranóide desconfia sempre de todos, mesmo de familiares e amigos próximos, a ponto de não conseguir manter um emprego ou um relacionamento por achar que todos têm más intenções.

Por que “outros transtornos”?

O código F68 da CID-10 é uma categoria “guarda-chuva” que inclui transtornos da personalidade não especificados em outras categorias ou comportamentos adultos problemáticos que não se encaixam em diagnósticos mais conhecidos (como borderline, narcisista ou anti-social). Alguns exemplos do que pode estar aqui:
Transtorno da Personalidade Passivo-Agressiva: Padrão de resistência passiva a demandas sociais ou profissionais (ex.: concordar em fazer algo, mas “esquecer” ou fazer de má vontade).
Transtorno da Personalidade Depressiva: Humor persistentemente triste, pessimista e autocrítico, sem os episódios intensos de uma depressão maior.
Transtorno da Personalidade Negativista: Tendência a ver o lado ruim de tudo, reclamar constantemente e sabotar soluções.
Comportamentos adultos problemáticos: Como mentiras patológicas, roubo compulsivo (cleptomania) ou piromania (incendiar coisas por impulso), quando não se encaixam em outros diagnósticos.

Como isso se diferencia de outras condições?

Muitas pessoas confundem transtornos da personalidade com:
1. Transtornos de humor (depressão, bipolaridade):
Diferença: Nos transtornos de humor, os sintomas (tristeza, euforia) são episódicos — vêm e vão. Nos transtornos da personalidade, os padrões são estáveis e duradouros, como parte de quem a pessoa é.
Exemplo: Uma pessoa com depressão pode ter baixa autoestima durante um episódio, mas alguém com Transtorno da Personalidade Dependente sempre se sente incapaz de tomar decisões sozinha, mesmo quando está bem emocionalmente.

  1. Transtornos de ansiedade:
  2. Diferença: A ansiedade é uma reação a situações específicas (ex.: medo de falar em público). Nos transtornos da personalidade, a ansiedade é parte do jeito de ser da pessoa.
  3. Exemplo: Alguém com Transtorno da Personalidade Esquiva evita todas as situações sociais, não só as que geram ansiedade momentânea.

  4. Reações normais a estresse:

  5. Diferença: Todos podemos ficar desconfiados após uma traição ou agressivos após uma injustiça. Nos transtornos da personalidade, esses comportamentos persistem mesmo quando não há motivo e causam sofrimento.
  6. Exemplo: Após um divórcio, é normal ficar magoado e evitar novos relacionamentos por um tempo. Mas alguém com Transtorno da Personalidade Borderline pode alternar entre idealizar e demonizar parceiros em todos os relacionamentos, mesmo anos depois.

  7. Efeitos de substâncias ou doenças:

  8. Diferença: O uso de drogas, álcool ou doenças como hipotireoidismo podem mudar o comportamento temporariamente. Nos transtornos da personalidade, os padrões já existiam antes e continuam mesmo após tratar a causa física.

Quem é afetado? Dados e realidade brasileira

Os transtornos da personalidade são mais comuns do que se imagina. Estudos internacionais estimam que:
10 a 15% da população geral tem algum transtorno da personalidade.
– No Brasil, não há dados precisos, mas pesquisas em serviços de saúde mental sugerem números semelhantes.
Faixa etária: Os sintomas começam na adolescência ou início da vida adulta (entre 15 e 30 anos) e tendem a se estabilizar na meia-idade. Em idosos, novos padrões de personalidade podem indicar doenças neurológicas (como Alzheimer) ou efeitos de medicamentos.

Diferenças entre homens e mulheres

Alguns transtornos são mais diagnosticados em um gênero do que em outro, mas isso pode refletir preconceitos dos profissionais ou diferenças culturais em como homens e mulheres são socializados. Por exemplo:
Transtorno da Personalidade Anti-Social: Mais diagnosticado em homens (3% vs. 1% em mulheres). Isso pode acontecer porque comportamentos agressivos são mais tolerados (ou até incentivados) em homens, enquanto mulheres com o mesmo padrão podem ser rotuladas como “dramáticas” ou “histriônicas”.
Transtorno da Personalidade Borderline: Mais diagnosticado em mulheres (75% dos casos). Alguns pesquisadores argumentam que mulheres são mais propensas a buscar ajuda, enquanto homens com os mesmos sintomas podem ser diagnosticados com transtorno de conduta ou anti-social.
Transtorno da Personalidade Dependente: Mais comum em mulheres, possivelmente porque a sociedade encoraja mais a dependência emocional nelas do que em homens.

Contexto brasileiro

No Brasil, os transtornos da personalidade ainda são pouco diagnosticados e tratados, por vários motivos:
1. Falta de profissionais: Há poucos psiquiatras e psicólogos especializados em transtornos da personalidade, especialmente no SUS.
2. Estigma: Muitas pessoas (e até profissionais) acreditam que “personalidade não se trata” ou que quem tem esses transtornos é “difícil”, “manipulador” ou “sem jeito”.
3. Dificuldade de acesso: No SUS, o tratamento costuma ser focado em transtornos mais “visíveis” (como esquizofrenia ou depressão grave), e os transtornos da personalidade acabam sendo negligenciados.
4. Cultura do “jeitinho”: Alguns comportamentos problemáticos (como mentiras frequentes ou manipulação) podem ser vistos como “esperteza” ou “malandragem”, o que atrasa o reconhecimento do problema.


Um pouco de história

A ideia de que a personalidade pode ser “doente” não é nova. Desde a Grécia Antiga, filósofos como Hipócrates falavam em “temperamentos” (sanguíneo, melancólico, colérico, fleumático) que influenciavam o comportamento. Mas foi só no século XIX que médicos começaram a estudar padrões rígidos de personalidade como transtornos:
1801: O psiquiatra francês Philippe Pinel descreveu casos de pessoas com comportamentos “imorais” persistentes, que hoje seriam classificados como transtorno anti-social.
1923: O psicanalista Karl Abraham relacionou traumas na infância com o desenvolvimento de transtornos da personalidade.
1952: O DSM-I (primeiro manual diagnóstico americano) incluiu os transtornos da personalidade como uma categoria separada.
1990: A CID-10 (usada no Brasil) organizou os transtornos da personalidade em grupos (A, B e C), baseados em semelhanças de sintomas.

Hoje, sabe-se que esses transtornos não são “falta de caráter” ou “frescura”, mas sim condições complexas, com bases biológicas, psicológicas e sociais.


Quais são os sintomas?

Os transtornos da personalidade do grupo F68 são diversos, mas todos compartilham algumas características centrais:
1. Padrões rígidos: A pessoa age, pensa ou sente da mesma forma sempre, mesmo quando isso não faz sentido para a situação.
2. Dificuldade de adaptação: Ela tem problemas para mudar seu comportamento, mesmo quando percebe que ele está causando problemas.
3. Sofrimento ou prejuízo: Os padrões causam angústia (para a pessoa ou para quem convive com ela) ou dificuldades no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos ou em outras áreas da vida.
4. Início precoce: Os sintomas começam na adolescência ou início da vida adulta e persistem por anos.

Abaixo, vamos detalhar os sintomas mais comuns desses transtornos, com exemplos práticos para ajudar a reconhecê-los. Lembre-se: Ter um ou dois desses sintomas não significa ter um transtorno. O diagnóstico depende da combinação de vários sintomas, da intensidade deles e do impacto na vida da pessoa.


1. Padrões de pensamento distorcidos

Os transtornos da personalidade costumam envolver formas rígidas e pouco realistas de interpretar o mundo. Alguns exemplos:

a) Desconfiança excessiva (paranóia)

  • O que é: A pessoa interpreta as ações dos outros como mal-intencionadas, mesmo sem provas. Ela pode achar que estão tentando enganá-la, humilhá-la ou prejudicá-la.
  • Exemplos no dia a dia:
  • Um colega de trabalho faz uma crítica construtiva, e a pessoa imediatamente pensa: “Ele está querendo me sabotar para ficar com a minha vaga.”
  • O parceiro(a) chega 10 minutos atrasado do trabalho, e a pessoa acusa: “Você está me traindo, tenho certeza!”
  • Um amigo cancela um plano de última hora, e a pessoa conclui: “Ele não gosta de mim, só está me usando.”
  • Normal vs. Sintomático:
  • Normal: Desconfiar de um vendedor insistente ou de um estranho que pede dinheiro na rua.
  • Sintomático: Desconfiar sempre de todos, mesmo de pessoas próximas, e agir com base nessa desconfiança (ex.: revirar o celular do parceiro, recusar promoções no trabalho por medo de armadilhas).

b) Autocrítica excessiva e pessimismo

  • O que é: A pessoa sempre espera o pior, acredita que é incapaz ou que os outros são melhores que ela. Mesmo quando as coisas dão certo, ela acha que foi “sorte” ou que logo vai dar errado.
  • Exemplos no dia a dia:
  • Recebe um elogio no trabalho, mas pensa: “Eles só estão sendo legais, na verdade acham meu trabalho ruim.”
  • Consegue uma promoção, mas fica ansiosa: “Vão descobrir que não mereço e me demitir.”
  • Um amigo diz que gosta dela, mas duvida: “Ele só está dizendo isso por pena.”
  • Normal vs. Sintomático:
  • Normal: Ficar inseguro antes de uma apresentação importante.
  • Sintomático: Sentir-se um fracasso sempre, mesmo quando as coisas vão bem, e evitar oportunidades por medo de falhar.

c) Negativismo e resistência passiva

  • O que é: A pessoa sempre vê o lado ruim das coisas, reclama constantemente e sabota soluções de forma indireta (ex.: concordar em fazer algo, mas “esquecer” ou fazer de má vontade).
  • Exemplos no dia a dia:
  • O chefe pede para ela organizar um evento, e ela responde: “Tá bom, mas vai ser um desastre, como sempre.”
  • O parceiro(a) sugere um programa, e ela diz: “Ah, deve ser chato, mas se você insiste…”
  • Um amigo pede ajuda para mudar de casa, e ela concorda, mas chega atrasada e faz corpo mole.
  • Normal vs. Sintomático:
  • Normal: Ficar irritado com uma situação injusta e reclamar uma vez.
  • Sintomático: Reclamar de tudo, o tempo todo, e agir de forma a garantir que as coisas deem errado.

2. Dificuldades emocionais

As emoções de quem tem um transtorno da personalidade costumam ser intensas, instáveis ou inadequadas para a situação.

a) Raiva ou hostilidade frequentes

  • O que é: A pessoa fica irritada com facilidade, guarda rancor por muito tempo ou reage de forma agressiva a pequenas frustrações.
  • Exemplos no dia a dia:
  • O trânsito está lento, e ela grita com o motorista ao lado e xinga o mundo.
  • O parceiro(a) esquece de comprar algo no mercado, e ela faz um escândalo e não fala com ele por dias.
  • Um colega de trabalho comete um erro pequeno, e ela o humilha na frente de todos.
  • Normal vs. Sintomático:
  • Normal: Ficar bravo quando alguém corta sua fila no banco.
  • Sintomático: Explodir de raiva por qualquer frustração, guardar rancor por anos ou agredir fisicamente alguém por um motivo bobo.

b) Medo intenso de abandono

  • O que é: A pessoa tem pavor de ser deixada e faz de tudo para evitar isso, mesmo que suas ações afastem as pessoas.
  • Exemplos no dia a dia:
  • O parceiro(a) sai com amigos, e ela liga de 10 em 10 minutos perguntando onde ele está.
  • Um amigo demora para responder uma mensagem, e ela manda 20 mensagens seguidas perguntando se ele está bravo.
  • Ela ameaça se machucar se o parceiro(a) falar em terminar o relacionamento.
  • Normal vs. Sintomático:
  • Normal: Ficar triste quando um relacionamento termina.
  • Sintomático: Fazer qualquer coisa para evitar que alguém vá embora, mesmo que isso inclua chantagem emocional ou comportamentos autodestrutivos.

c) Vazio emocional crônico

  • O que é: A pessoa sente um vazio constante, como se algo estivesse faltando, mesmo quando tudo parece estar bem.
  • Exemplos no dia a dia:
  • Ela tem um bom emprego, amigos e família, mas sente que “não tem sentido” viver.
  • Ela busca sensações fortes (drogas, sexo casual, compras compulsivas) para tentar preencher esse vazio.
  • Ela muda de planos, amigos e objetivos o tempo todo, na esperança de encontrar algo que a faça se sentir “completa”.
  • Normal vs. Sintomático:
  • Normal: Sentir-se perdido após uma grande mudança (ex.: formatura, aposentadoria).
  • Sintomático: Sentir um vazio constante, mesmo quando não há motivo aparente, e buscar formas extremas de alívio.

3. Comportamentos problemáticos

Os transtornos da personalidade também envolvem ações que prejudicam a pessoa ou os outros, muitas vezes de forma impulsiva.

a) Impulsividade

  • O que é: A pessoa age sem pensar nas consequências, muitas vezes se arrependendo depois.
  • Exemplos no dia a dia:
  • Ela gasta todo o salário em uma noite em compras ou apostas, mesmo sabendo que não pode pagar as contas.
  • Ela termina um relacionamento de anos por uma briga boba, sem pensar nas consequências.
  • Ela dirige em alta velocidade ou faz manobras perigosas só para “sentir a adrenalina”.
  • Normal vs. Sintomático:
  • Normal: Comprar algo por impulso uma vez ou outra.
  • Sintomático: Agir impulsivamente sempre, mesmo quando isso traz prejuízos graves (ex.: perder o emprego, acabar com um relacionamento, se machucar).

b) Comportamentos autodestrutivos

  • O que é: A pessoa faz coisas que prejudicam a si mesma, muitas vezes sem perceber o motivo.
  • Exemplos no dia a dia:
  • Ela se corta ou se machuca quando está triste ou com raiva.
  • Ela abusa de álcool ou drogas para “esquecer os problemas”.
  • Ela se envolve em relacionamentos abusivos repetidamente.
  • Ela sabota oportunidades (ex.: não estuda para uma prova importante, mesmo querendo passar).
  • Normal vs. Sintomático:
  • Normal: Beber demais em uma festa ou se machucar acidentalmente.
  • Sintomático: Machucar-se de propósito ou repetir padrões que trazem sofrimento, mesmo sabendo que são ruins.

c) Dificuldade de seguir regras ou limites

  • O que é: A pessoa ignora regras sociais, leis ou limites dos outros, muitas vezes sem remorso.
  • Exemplos no dia a dia:
  • Ela mente constantemente, mesmo quando não há motivo.
  • Ela rouba coisas (mesmo que não precise delas) ou destroi propriedades alheias.
  • Ela manipula as pessoas para conseguir o que quer (ex.: fazer os outros se sentirem culpados, inventar histórias dramáticas).
  • Ela não consegue manter um emprego porque briga com chefes ou colegas.
  • Normal vs. Sintomático:
  • Normal: Contar uma mentira para evitar magoar alguém.
  • Sintomático: Mentir sempre, mesmo quando não há motivo, ou manipular as pessoas de forma sistemática.

4. Dificuldades nos relacionamentos

Os transtornos da personalidade afetam profundamente a forma como a pessoa se relaciona com os outros.

a) Relacionamentos intensos e instáveis

  • O que é: A pessoa idealiza ou demoniza as pessoas rapidamente, alternando entre amor e ódio.
  • Exemplos no dia a dia:
  • Ela conhece alguém e já acha que é a pessoa perfeita, mas depois de uma briga acha que é o pior ser humano do mundo.
  • Ela termina amizades ou relacionamentos por motivos bobos, mas depois implora para voltar.
  • Ela exige atenção constante do parceiro(a) e fica com ciúmes de tudo.
  • Normal vs. Sintomático:
  • Normal: Ter altos e baixos em um relacionamento longo.
  • Sintomático: Alternar entre amor e ódio em todos os relacionamentos, de forma intensa e frequente.

b) Isolamento social

  • O que é: A pessoa evita contato com os outros, mesmo quando deseja ter amigos ou relacionamentos.
  • Exemplos no dia a dia:
  • Ela recusa convites para festas ou encontros, mesmo querendo ir.
  • Ela inventa desculpas para não sair de casa (ex.: “Estou doente”, “Tenho que trabalhar”).
  • Ela passa horas sozinha em casa, mesmo se sentindo solitária.
  • Normal vs. Sintomático:
  • Normal: Preferir ficar em casa um final de semana para descansar.
  • Sintomático: Evitar sempre o contato social, mesmo quando isso traz sofrimento.

c) Dependência excessiva dos outros

  • O que é: A pessoa não consegue tomar decisões sozinha e depende demais dos outros para se sentir segura.
  • Exemplos no dia a dia:
  • Ela pede opinião para todo mundo antes de tomar uma decisão simples (ex.: que roupa usar, o que comer).
  • Ela não consegue ficar sozinha e entra em pânico se o parceiro(a) sai de casa.
  • Ela aceita relacionamentos abusivos porque tem medo de ficar sozinha.
  • Normal vs. Sintomático:
  • Normal: Pedir conselhos para amigos antes de uma decisão importante.
  • Sintomático: Não conseguir tomar nenhuma decisão sozinha, mesmo as mais simples, e sentir-se perdida sem alguém para guiá-la.

Um aviso importante

Ter alguns desses sintomas isoladamente não significa que você (ou alguém que você conhece) tenha um transtorno da personalidade. O que define o diagnóstico é:
1. O conjunto de sintomas: Vários deles acontecendo ao mesmo tempo.
2. A intensidade: Os sintomas são tão fortes que atrapalham a vida da pessoa.
3. A duração: Eles persistem por anos, não são passageiros.
4. O prejuízo: Causam sofrimento ou dificuldades no trabalho, nos relacionamentos ou em outras áreas.

Se você se identificou com vários desses pontos, não se desespere. Muitas pessoas com transtornos da personalidade levam vidas plenas e felizes com o tratamento certo. O primeiro passo é buscar ajuda profissional para entender o que está acontecendo e encontrar formas de lidar com isso.


Como se manifesta no dia a dia?

Os transtornos da personalidade do grupo F68 não afetam só a mente — eles influenciam todas as áreas da vida, desde o trabalho até os relacionamentos mais íntimos. Vamos ver como esses padrões aparecem na prática.


No trabalho ou na escola

O ambiente profissional ou acadêmico costuma ser um dos primeiros lugares onde os sintomas se tornam visíveis, porque exige adaptação, regras e convivência com outras pessoas.

Dificuldades comuns:

  1. Problemas com autoridade:
  2. A pessoa briga com chefes ou professores por achar que estão “pegando no pé” dela sem motivo.
  3. Ela desrespeita regras (ex.: chega atrasada constantemente, não cumpre prazos) porque acha que são “bobas” ou “injustas”.
  4. Ela sabota projetos por não concordar com a forma como estão sendo conduzidos.

  5. Relacionamentos conflituosos com colegas:

  6. Ela interpreta críticas construtivas como ataques pessoais e reage com raiva ou choro.
  7. Ela isola-se dos colegas por medo de ser rejeitada ou por achar que não é boa o suficiente.
  8. Ela manipula ou mente para conseguir vantagens (ex.: inventa desculpas para não trabalhar, culpa os outros por seus erros).

  9. Dificuldade de manter empregos ou cursos:

  10. Ela desiste de projetos no meio por achar que não vai dar certo.
  11. Ela é demitida ou reprovada por comportamentos impulsivos (ex.: faltar sem avisar, brigar com clientes).
  12. Ela muda de emprego ou curso constantemente, sem conseguir se fixar em nada.

  13. Perfeccionismo ou procrastinação extremos:

  14. Ela gasta horas em detalhes insignificantes e não consegue entregar nada no prazo.
  15. Ela deixa tudo para a última hora e depois entra em pânico.
  16. Ela evita começar tarefas por medo de falhar.

Exemplo real:

João, 28 anos, sempre teve dificuldade em manter empregos. No primeiro dia de trabalho, ele já discute com o chefe porque acha que as regras são “ridículas”. Quando um colega faz uma crítica, ele responde com grosseria e depois chora no banheiro, achando que todos o odeiam. Ele já foi demitido 5 vezes em 3 anos por faltas, atrasos e brigas. Quando consegue um novo emprego, fica ansioso e pensa: “Vão descobrir que sou um fracasso e me mandar embora.”


Nos relacionamentos

Os transtornos da personalidade afetam profundamente a forma como a pessoa se relaciona com familiares, amigos e parceiros românticos.

Com a família:

  1. Conflitos constantes:
  2. A pessoa briga por qualquer motivo, mesmo coisas pequenas (ex.: como lavar a louça, que programa assistir na TV).
  3. Ela guarda rancor por anos e traz à tona velhas mágoas em discussões.
  4. Ela culpa os pais ou irmãos por seus problemas, mesmo quando eles não têm culpa.

  5. Dependência ou afastamento:

  6. Ela não consegue tomar decisões sozinha e pede opinião para tudo (ex.: que roupa usar, que carreira seguir).
  7. Ela evita contato com a família por medo de ser julgada ou rejeitada.
  8. Ela exige atenção constante e fica magoada se os familiares não estão disponíveis.

  9. Comportamentos manipulativos:

  10. Ela faz chantagem emocional (ex.: “Se você não fizer isso por mim, nunca mais falo com você”).
  11. Ela mente ou inventa histórias para conseguir o que quer.
  12. Ela sabota a felicidade dos outros por inveja ou ciúme.

Com amigos:

  1. Amizades intensas e instáveis:
  2. Ela idealiza um novo amigo e quer passar todo o tempo com ele, mas depois de uma briga o corta da vida e fala mal dele para todo mundo.
  3. Ela exige lealdade absoluta e fica com ciúmes se o amigo tem outros amigos.
  4. Ela testa a amizade com jogos mentais (ex.: ignora o amigo por dias para ver se ele vai atrás dela).

  5. Isolamento social:

  6. Ela recusa convites para festas ou encontros, mesmo querendo ir.
  7. Ela inventa desculpas para não sair de casa (ex.: “Estou doente”, “Tenho que trabalhar”).
  8. Ela passa horas sozinha nas redes sociais ou jogando, mesmo se sentindo solitária.

  9. Dificuldade de confiar:

  10. Ela acha que os amigos estão falando mal dela pelas costas.
  11. Ela interpreta elogios como sarcasmo ou ironia.
  12. Ela evita se abrir por medo de ser traída ou ridicularizada.

Com parceiros românticos:

  1. Relacionamentos turbulentos:
  2. Ela idealiza o parceiro(a) no começo (“Você é perfeito!”), mas depois de uma briga o demoniza (“Você é o pior ser humano do mundo!”).
  3. Ela exige atenção constante e fica com ciúmes de tudo (ex.: amigos, trabalho, hobbies do parceiro).
  4. Ela ameaça terminar o relacionamento por motivos bobos, mas depois implora para voltar.

  5. Medo de abandono:

  6. Ela liga ou manda mensagens o tempo todo quando o parceiro(a) sai.
  7. Ela faz cenas de ciúme (ex.: revirar o celular do parceiro, seguir ele na rua).
  8. Ela ameaça se machucar se o parceiro(a) falar em terminar.

  9. Comportamentos autodestrutivos:

  10. Ela sabota o relacionamento quando as coisas estão indo bem (ex.: arrumar briga sem motivo, trair).
  11. Ela aceita relacionamentos abusivos por medo de ficar sozinha.
  12. Ela usa álcool ou drogas para lidar com a ansiedade do relacionamento.

Exemplo real:

Maria, 32 anos, já teve vários relacionamentos curtos e intensos. No começo, ela idealiza o parceiro (“Ele é o amor da minha vida!”), mas depois de algumas semanas, qualquer coisa a irrita. Se ele demora para responder uma mensagem, ela manda 20 mensagens seguidas perguntando se ele está bravo. Se ele sai com amigos, ela liga de 10 em 10 minutos. Quando eles brigam, ela ameaça se matar ou some por dias. Depois, ela implora para voltar e jura que vai mudar. Mas o ciclo se repete.


Na rotina (sono, alimentação, autocuidado)

Os transtornos da personalidade também afetam hábitos básicos, como sono, alimentação e cuidados pessoais.

Sono:

  • Insônia ou sono excessivo:
  • A pessoa não consegue dormir porque fica remoendo pensamentos ou ansiosa.
  • Ou dorme demais como forma de escapar dos problemas.
  • Rotina de sono irregular:
  • Ela vai dormir e acorda em horários diferentes todos os dias, o que deixa o corpo desregulado.
  • Ela fica acordada até tarde nas redes sociais ou jogando, mesmo sabendo que precisa acordar cedo.

Alimentação:

  • Comer demais ou de menos:
  • Ela come compulsivamente quando está ansiosa ou triste.
  • Ou pula refeições porque “não merece” ou está deprimida.
  • Dietas restritivas ou extremas:
  • Ela corta grupos alimentares inteiros (ex.: carboidratos, gorduras) por achar que está “gorda”, mesmo quando não está.
  • Ou come só junk food porque não tem energia para cozinhar.

Autocuidado:

  • Negligência:
  • Ela para de tomar banho, escovar os dentes ou trocar de roupa por dias.
  • Ela deixa a casa bagunçada porque não tem energia para arrumar.
  • Excesso de cuidados:
  • Ela gasta horas se arrumando e ainda acha que está feia.
  • Ela faz exercícios em excesso ou segue dietas extremas para “controlar” a ansiedade.

Lazer:

  • Dificuldade de relaxar:
  • Ela não consegue curtir um filme ou um livro porque fica ansiosa ou entediada.
  • Ela precisa estar sempre ocupada para não pensar nos problemas.
  • Comportamentos de risco:
  • Ela busca sensações fortes (ex.: dirigir em alta velocidade, usar drogas, fazer sexo sem proteção) para “sentir algo”.
  • Ela gasta dinheiro compulsivamente em compras ou apostas.

Exemplo real:

Carlos, 25 anos, tem dificuldade de manter uma rotina. Alguns dias, ele dorme 12 horas e não sai da cama. Outros, fica acordado até as 4h da manhã jogando videogame. Ele pula refeições quando está ansioso, mas depois come um pacote inteiro de biscoitos. Ele parou de ir à academia porque acha que “não adianta” e não toma banho por dias quando está deprimido. Quando tenta se cuidar, exagera: faz dieta restritiva por uma semana e depois desiste, ou corre 10 km mesmo estando machucado.


Na saúde física

Os transtornos da personalidade não afetam só a mente — eles também têm impacto no corpo. Alguns exemplos:

  1. Dores crônicas:
  2. A pessoa pode ter dores de cabeça, no estômago ou nas costas por causa do estresse constante.
  3. Ou somatizar (transformar problemas emocionais em sintomas físicos), como gastrite, enxaqueca ou fibromialgia.

  4. Problemas gastrointestinais:

  5. Síndrome do intestino irritável, gastrite ou refluxo por causa da ansiedade.
  6. Prisão de ventre ou diarreia frequentes.

  7. Doenças relacionadas ao estresse:

  8. Pressão alta, problemas cardíacos ou enfraquecimento do sistema imunológico.
  9. Queda de cabelo, unhas fracas ou problemas de pele (ex.: acne, psoríase).

  10. Comportamentos de risco:

  11. Uso excessivo de álcool ou drogas para lidar com as emoções.
  12. Sexo sem proteção ou relacionamentos abusivos.
  13. Automutilação (ex.: se cortar, se queimar) como forma de aliviar a dor emocional.

  14. Negligência com a saúde:

  15. A pessoa não vai ao médico por medo de ser julgada ou por achar que “não merece” cuidados.
  16. Ela não toma remédios para doenças crônicas (ex.: diabetes, hipertensão) porque “esquece” ou acha que não vai fazer diferença.

Exemplo real:

Ana, 30 anos, sempre teve problemas de estômago. Ela já fez vários exames, mas os médicos não encontram nada físico. Na verdade, suas dores pioram quando ela está estressada ou ansiosa. Ela também tem enxaquecas frequentes e já foi internada duas vezes por crises de pânico. Ela fuma e bebe para “relaxar”, mas isso só piora sua saúde. Ela evita ir ao médico porque acha que vão dizer que “é coisa da sua cabeça”.


O que causa essa condição?

Os transtornos da personalidade não têm uma causa única — eles são resultado de uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais. É como se várias peças de um quebra-cabeça se juntassem para formar o quadro. Vamos entender cada uma delas.


1. Fatores genéticos: “Vem de família?”

Sim, a genética tem um papel importante. Estudos com gêmeos e famílias mostram que:
– Se um gêmeo idêntico tem um transtorno da personalidade, há 50% de chance de o outro também ter.
– Se um parente de primeiro grau (pai, mãe, irmão) tem, o risco aumenta em 2 a 3 vezes em comparação com a população geral.

Como isso funciona?

Imagine que os genes são como receitas de bolo que herdamos dos nossos pais. Algumas receitas podem ter “ingredientes” que tornam a pessoa mais propensa a desenvolver certos padrões de personalidade. Por exemplo:
Gene da serotonina (5-HTTLPR): Pessoas com uma variação desse gene podem ter mais dificuldade para regular as emoções, o que aumenta o risco de transtornos como o borderline.
Gene do receptor de dopamina (DRD4): Variações nesse gene estão ligadas a comportamentos impulsivos e de busca por novidades, comuns em transtornos como o anti-social.

Mas atenção: Ter esses genes não significa que a pessoa vai desenvolver o transtorno. É como ter uma predisposição para diabetes: se a pessoa cuida da alimentação e faz exercícios, pode nunca manifestar a doença. Da mesma forma, o ambiente e as experiências de vida são fundamentais para determinar se os genes serão “ativados” ou não.


2. Fatores neurobiológicos: O que acontece no cérebro?

O cérebro de quem tem um transtorno da personalidade funciona de forma um pouco diferente em algumas áreas. Vamos entender as principais:

a) Amígdala: O “alarme” do cérebro

  • O que faz: A amígdala é responsável por processar emoções, especialmente o medo e a raiva.
  • O que acontece nos transtornos da personalidade?
  • Em pessoas com Transtorno da Personalidade Borderline, a amígdala é hiperativa — ou seja, ela dispara sinais de perigo mesmo quando não há motivo real, levando a reações emocionais intensas e impulsivas.
  • Em pessoas com Transtorno da Personalidade Anti-Social, a amígdala pode ser menos ativa, o que faz com que elas tenham menos medo de punições e menos empatia pelos outros.

b) Córtex pré-frontal: O “freio” do cérebro

  • O que faz: O córtex pré-frontal é responsável pelo controle de impulsos, planejamento e tomada de decisões.
  • O que acontece nos transtornos da personalidade?
  • Em pessoas com Transtorno da Personalidade Impulsiva, essa área é menos ativa, o que faz com que elas ajam sem pensar nas consequências (ex.: gastar todo o salário em uma noite, terminar um relacionamento por impulso).
  • Em pessoas com Transtorno da Personalidade Obsessiva, essa área pode ser hiperativa, levando a um perfeccionismo extremo e dificuldade de relaxar.

c) Serotonina e dopamina: Os “mensageiros” do cérebro

  • Serotonina: Regula o humor, o sono e a ansiedade.
  • Pessoas com Transtorno da Personalidade Borderline costumam ter níveis baixos de serotonina, o que contribui para a instabilidade emocional.
  • Dopamina: Está ligada à motivação, prazer e recompensa.
  • Pessoas com Transtorno da Personalidade Anti-Social podem ter um sistema de dopamina hiperativo, o que as leva a buscar sensações fortes (ex.: drogas, velocidade, comportamentos de risco) para se sentirem “vivas”.

d) Hipocampo: A “memória emocional”

  • O que faz: O hipocampo ajuda a regular as emoções e a memória.
  • O que acontece nos transtornos da personalidade?
  • Em pessoas que sofreram traumas na infância, o hipocampo pode ser menor, o que dificulta a regulação emocional e aumenta o risco de transtornos como o borderline.

3. Fatores ambientais: O que acontece na vida da pessoa?

As experiências de vida têm um papel enorme no desenvolvimento dos transtornos da personalidade. Alguns fatores de risco incluem:

a) Traumas na infância

  • Abuso físico, sexual ou emocional: Crianças que sofrem abuso têm 3 a 5 vezes mais chances de desenvolver um transtorno da personalidade na vida adulta.
  • Exemplo: Uma criança que apanha dos pais pode crescer acreditando que “o mundo é um lugar perigoso” e desenvolver Transtorno da Personalidade Paranóide.
  • Negligência: Crianças que são ignoradas ou não recebem afeto podem ter dificuldade de regular as emoções e desenvolver Transtorno da Personalidade Borderline.
  • Bullying: Ser vítima de bullying na escola pode levar a baixa autoestima, isolamento social e desconfiança, aumentando o risco de transtornos como o esquivo.

b) Ambiente familiar instável

  • Pais ausentes ou superprotetores: Ambos os extremos podem prejudicar o desenvolvimento emocional.
  • Exemplo: Uma criança que nunca teve limites pode crescer com dificuldade de seguir regras (comum no Transtorno da Personalidade Anti-Social).
  • Uma criança superprotegida pode crescer dependente dos outros (comum no Transtorno da Personalidade Dependente).
  • Conflitos familiares constantes: Crescer em um ambiente de brigas, traições ou violência pode levar a dificuldade de confiar nos outros (comum no Transtorno da Personalidade Paranóide).

c) Estresse crônico na vida adulta

  • Desemprego, pobreza ou violência urbana: Situações de estresse prolongado podem piorar os sintomas de um transtorno da personalidade.
  • Exemplo: Uma pessoa com Transtorno da Personalidade Borderline pode ter crises mais frequentes durante uma crise financeira.
  • Relacionamentos abusivos: Parceiros manipuladores ou violentos podem reforçar padrões disfuncionais (ex.: uma pessoa com Transtorno da Personalidade Dependente pode se submeter ainda mais a um parceiro abusivo).

d) Cultura e sociedade

  • Pressão social: Em uma sociedade que valoriza a perfeição, pessoas com Transtorno da Personalidade Obsessiva podem se sentir ainda mais pressionadas a controlar tudo.
  • Estigma: O preconceito contra transtornos mentais pode fazer com que as pessoas não busquem ajuda, piorando os sintomas.
  • Redes sociais: A comparação constante com vidas “perfeitas” pode aumentar a insegurança e o vazio emocional, especialmente em pessoas com Transtorno da Personalidade Borderline ou Narcisista.

4. Fatores da gestação e desenvolvimento

Alguns fatores antes mesmo do nascimento podem aumentar o risco de transtornos da personalidade:

a) Complicações na gravidez

  • Exposição a álcool ou drogas: Bebês cujas mães usaram álcool ou drogas durante a gravidez têm mais risco de desenvolver problemas de impulsividade e regulação emocional.
  • Estresse materno: Mulheres que passam por estresse extremo durante a gravidez (ex.: violência doméstica, perda de um ente querido) podem ter bebês com maior risco de transtornos da personalidade.

b) Complicações no parto

  • Falta de oxigênio (hipóxia): Pode afetar o desenvolvimento do cérebro, aumentando o risco de comportamentos impulsivos.
  • Prematuridade: Bebês prematuros têm mais chances de desenvolver problemas de atenção e regulação emocional.

c) Apego na primeira infância

  • Apego seguro vs. inseguro:
  • Crianças que desenvolvem um apego seguro (sentem-se amadas e protegidas pelos pais) tendem a ter relacionamentos mais saudáveis na vida adulta.
  • Crianças com apego inseguro (pais ausentes, negligentes ou superprotetores) podem desenvolver dificuldade de confiar nos outros ou medo de abandono.

5. Modelo biopsicossocial: A combinação de tudo

Os transtornos da personalidade não são causados por um único fator, mas sim pela interação entre biologia, psicologia e ambiente. É como uma receita em que cada ingrediente contribui para o resultado final.

Fator Exemplo no Transtorno Borderline Exemplo no Transtorno Anti-Social
Genética Predisposição a instabilidade emocional Predisposição a impulsividade e falta de empatia
Neurobiologia Amígdala hiperativa (emoções intensas) Córtex pré-frontal menos ativo (impulsividade)
Trauma na infância Abuso sexual ou emocional Negligência ou violência familiar
Ambiente familiar Pais ausentes ou superprotetores Pais agressivos ou ausentes
Cultura Pressão por perfeição nas redes sociais Sociedade que valoriza a “esperteza” em detrimento da ética

Mitos e verdades sobre as causas

Muitas pessoas têm ideias erradas sobre o que causa os transtornos da personalidade. Vamos desfazer alguns mitos:

Mito 1: “É falta de força de vontade ou frescura.”

Verdade: Os transtornos da personalidade não são escolha. Eles têm bases biológicas e psicológicas, assim como a diabetes ou a asma. Ninguém escolhe ter um cérebro que funciona de forma diferente.

Mito 2: “É culpa dos pais.”

Verdade: Os pais podem contribuir (ex.: com abuso ou negligência), mas não são os únicos responsáveis. Fatores genéticos e sociais também têm um papel enorme. Além disso, muitos pais fazem o melhor que podem com as ferramentas que têm.

Mito 3: “Só acontece com quem teve uma infância muito ruim.”

Verdade: Embora traumas na infância aumentem o risco, nem todo mundo que tem um transtorno da personalidade sofreu abuso. Algumas pessoas têm uma predisposição genética que é “ativada” por estresses comuns da vida (ex.: bullying, término de relacionamento).

Mito 4: “É coisa de gente fraca ou louca.”

Verdade: Os transtornos da personalidade não têm nada a ver com força ou fraqueza. Muitas pessoas com esses transtornos são inteligentes, criativas e resilientes — elas só precisam de ajuda para aprender a lidar com seus padrões. Além disso, “loucura” é um termo pejorativo que não ajuda em nada.

Mito 5: “Não tem cura, então não adianta tratar.”

Verdade: Embora os transtornos da personalidade sejam crônicos (ou seja, duram a vida toda), eles podem ser gerenciados. Com terapia e, em alguns casos, medicação, muitas pessoas conseguem reduzir os sintomas e levar uma vida plena.


Como é feito o diagnóstico?

Receber um diagnóstico de transtorno da personalidade pode ser assustador ou até um alívio — afinal, finalmente há uma explicação para o sofrimento. Mas como esse diagnóstico é feito? Vamos entender o processo passo a passo.


1. Quando suspeitar de um transtorno da personalidade?

Nem todo mundo que tem dificuldades emocionais ou comportamentais tem um transtorno da personalidade. Alguns sinais de alerta que podem indicar a necessidade de uma avaliação são:
Padrões rígidos de comportamento que se repetem há anos, mesmo quando trazem sofrimento.
Dificuldade de manter relacionamentos (amigos, família, parceiros) por causa de brigas, desconfiança ou dependência excessiva.
Problemas no trabalho ou nos estudos por causa de impulsividade, perfeccionismo ou dificuldade de seguir regras.
Sofrimento emocional constante (ansiedade, depressão, vazio) que não melhora com tratamentos comuns.
Comportamentos autodestrutivos (automutilação, abuso de substâncias, relacionamentos abusivos) que se repetem.

Se você (ou alguém que você conhece) se identifica com vários desses pontos, pode ser hora de buscar ajuda.


2. Quem pode fazer o diagnóstico?

No Brasil, o diagnóstico de transtorno da personalidade só pode ser feito por um profissional de saúde mental, como:
Psiquiatra: Médico especializado em transtornos mentais. Ele pode avaliar os sintomas, descartar outras condições (ex.: depressão, bipolaridade) e prescrever medicação, se necessário.
Psicólogo: Profissional que faz avaliação psicológica e pode diagnosticar transtornos da personalidade. Ele não pode prescrever remédios, mas pode indicar terapia.
Neurologista: Em alguns casos, pode ser necessário descartar doenças neurológicas (ex.: epilepsia, tumores cerebrais) que podem causar sintomas semelhantes.

Atenção: Nenhum teste de internet ou questionário online pode dar um diagnóstico preciso. Essas ferramentas podem dar uma ideia, mas só um profissional pode confirmar.


3. Como é a avaliação? Passo a passo

O diagnóstico de um transtorno da personalidade não é feito em uma única consulta. Geralmente, o processo envolve:

a) Primeira consulta: Anamnese (histórico da pessoa)

  • O profissional vai perguntar sobre:
  • Sintomas atuais: O que está acontecendo na sua vida agora? Quais são as principais dificuldades?
  • Histórico familiar: Alguém na família tem transtornos mentais? Como era o ambiente familiar na infância?
  • Histórico pessoal: Como foi a infância? Já teve traumas, abusos ou negligência? Como são seus relacionamentos?
  • Comportamentos ao longo da vida: Desde quando você percebe esses padrões? Eles mudaram com o tempo?
  • Uso de substâncias: Você usa álcool, drogas ou medicamentos? Isso afeta seus sintomas?
  • Saúde física: Tem alguma doença crônica? Já fez exames para descartar causas físicas (ex.: hipotireoidismo)?

b) Avaliação dos sintomas

  • O profissional vai comparar seus sintomas com os critérios diagnósticos do DSM-5 ou CID-10.
  • Ele pode usar questionários padronizados, como:
  • SCID-II (Structured Clinical Interview for DSM Disorders): Entrevista estruturada para avaliar transtornos da personalidade.
  • MMPI (Minnesota Multiphasic Personality Inventory): Teste psicológico que avalia traços de personalidade.
  • PAI (Personality Assessment Inventory): Outro teste que ajuda a identificar padrões disfuncionais.

c) Observação do comportamento

  • O profissional vai observar como você se comporta durante as consultas:
  • Você é desconfiado(a) e acha que ele está julgando você?
  • Você chora ou fica irritado(a) com facilidade?
  • Você minimiza seus problemas ou exagera nos sintomas?
  • Em alguns casos, o profissional pode pedir para falar com familiares ou amigos para ter uma visão mais completa.

d) Exames complementares (se necessário)

  • Exames de sangue: Para descartar doenças físicas (ex.: hipotireoidismo, deficiência de vitaminas).
  • Exames de imagem (ressonância, tomografia): Em casos raros, para descartar lesões cerebrais.
  • Avaliação neurológica: Se houver suspeita de doenças como epilepsia ou Alzheimer.

e) Diagnóstico diferencial

Um dos passos mais importantes é descartar outras condições que podem causar sintomas semelhantes. Alguns exemplos:

Condição Como se diferencia do transtorno da personalidade?
Depressão Os sintomas (tristeza, desânimo) são episódicos (vêm e vão). Nos transtornos da personalidade, os padrões são estáveis e duradouros.
Transtorno bipolar As oscilações de humor são extremas e cíclicas (mania/depressão). Nos transtornos da personalidade, as emoções são instáveis, mas não seguem um ciclo claro.
Transtorno de ansiedade A ansiedade é uma reação a situações específicas (ex.: medo de falar em público). Nos transtornos da personalidade, a ansiedade é parte do jeito de ser da pessoa.
TDAH A impulsividade e desatenção são desde a infância e afetam todas as áreas da vida. Nos transtornos da personalidade, os sintomas começam na adolescência ou início da vida adulta.
Esquizofrenia sintomas psicóticos (delírios, alucinações). Nos transtornos da personalidade, a pessoa não perde o contato com a realidade.
Efeitos de substâncias Os sintomas melhoram quando a pessoa para de usar álcool, drogas ou medicamentos. Nos transtornos da personalidade, os padrões persistem mesmo sem substâncias.

f) Diagnóstico final

Depois de todas essas etapas, o profissional vai:
1. Confirmar ou descartar o transtorno da personalidade.
2. Identificar qual tipo de transtorno (ex.: borderline, anti-social, dependente).
3. Avaliar a gravidade dos sintomas (leve, moderado, grave).
4. Indicar o tratamento mais adequado.


4. Quanto tempo leva para ser diagnosticado?

Não há um prazo exato, mas geralmente:
Primeiras consultas: 2 a 4 sessões (para coletar informações e observar o comportamento).
Avaliação psicológica: Pode levar mais algumas sessões, dependendo dos testes usados.
Exames complementares: Se necessário, podem levar semanas.
Diagnóstico final: Em média, 1 a 3 meses após o início da avaliação.

Por que demora?
– Os transtornos da personalidade não têm um exame específico (como um exame de sangue). O diagnóstico é feito com base em observação, entrevistas e questionários.
– É preciso descartar outras condições que podem causar sintomas semelhantes.
– Alguns sintomas só aparecem com o tempo, então o profissional precisa observar a pessoa em diferentes situações.


5. Onde buscar ajuda no Brasil?

No Brasil, você pode buscar ajuda:
SUS (Sistema Único de Saúde):
UBS (Unidade Básica de Saúde): O primeiro passo é marcar uma consulta com um clínico geral ou médico de família. Ele pode encaminhar para um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) ou psiquiatra.
CAPS: Oferece atendimento psicológico e psiquiátrico gratuito. Alguns CAPS têm grupos específicos para transtornos da personalidade.
Hospitais universitários: Alguns oferecem atendimento gratuito com psiquiatras e psicólogos em formação, supervisionados por profissionais experientes.
Particular:
Psiquiatras e psicólogos: Você pode procurar diretamente um profissional. O valor da consulta varia (em média, R$ 200 a R$ 500 por sessão).
Convênios médicos: A maioria dos planos de saúde cobre consultas com psiquiatras e psicólogos. Verifique sua cobertura.
Serviços de emergência:
CVV (Centro de Valorização da Vida): Oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188 ou chat online (www.cvv.org.br).
SAMU (192) ou UPA: Em casos de crise aguda (ex.: ideação suicida, automutilação), procure um serviço de emergência.


6. O que esperar da primeira consulta?

A primeira consulta pode gerar ansiedade, especialmente se você nunca foi a um psiquiatra ou psicólogo antes. Mas não se preocupe: o objetivo é entender o que está acontecendo e como ajudar.

O que o profissional vai perguntar?

  • “O que te traz aqui hoje?” (Para entender o motivo da consulta.)
  • “Como você está se sentindo?” (Para avaliar seu estado emocional.)
  • “Há quanto tempo você percebe esses sintomas?” (Para saber se são recentes ou antigos.)
  • “Como isso afeta sua vida?” (Trabalho, relacionamentos, rotina.)
  • “Alguém na sua família tem problemas semelhantes?” (Para avaliar fatores genéticos.)
  • “Você já teve algum trauma ou abuso na infância?” (Para entender possíveis causas.)
  • “Você usa álcool, drogas ou medicamentos?” (Para avaliar o impacto no quadro.)
  • “Você já pensou em se machucar ou tirar sua vida?” (Pergunta importante para avaliar risco.)

O que você pode perguntar?

  • “O que você acha que está acontecendo comigo?” (Para entender a hipótese diagnóstica.)
  • “Quais são as opções de tratamento?” (Terapia, medicação, mudanças no estilo de vida.)
  • “Quanto tempo leva para melhorar?” (Para ter uma ideia do prognóstico.)
  • “Posso trazer um familiar para as próximas consultas?” (Se você se sentir mais confortável.)
  • “O que eu posso fazer agora para aliviar os sintomas?” (Dicas práticas para o dia a dia.)

Dicas para a primeira consulta:

  • Seja honesto(a): Não minimize seus sintomas por vergonha. O profissional está ali para ajudar, não para julgar.
  • Anote seus sintomas: Antes da consulta, faça uma lista do que está te incomodando (ex.: “Brigas constantes com o parceiro”, “Dificuldade de manter empregos”).
  • Leve um acompanhante: Se você se sentir mais seguro(a), leve um familiar ou amigo de confiança.
  • Não tenha medo de perguntar: Se não entender algo, peça para o profissional explicar de outra forma.
  • Lembre-se: A primeira consulta é só o começo. O diagnóstico e o tratamento vão se ajustando com o tempo.

Tratamento

Receber um diagnóstico de transtorno da personalidade pode ser desafiador, mas a boa notícia é que esses transtornos podem ser tratados. Embora não haja uma “cura” no sentido tradicional (afinal, a personalidade é parte de quem somos), é possível reduzir os sintomas, melhorar a qualidade de vida e aprender a lidar com os padrões disfuncionais.

O tratamento geralmente envolve uma combinação de medicação, psicoterapia e mudanças no estilo de vida. Vamos entender cada uma dessas abordagens.


1. Medicamentos

Os medicamentos não tratam o transtorno da personalidade em si, mas podem aliviar sintomas específicos, como ansiedade, depressão, impulsividade ou instabilidade emocional. Eles funcionam como muletas: ajudam a pessoa a se sentir melhor enquanto trabalha nas causas do problema na terapia.

Classes de medicamentos mais usadas:

Classe Para que serve? Exemplos Efeitos colaterais comuns
Antidepressivos (ISRS) Reduzem depressão, ansiedade e impulsividade. Fluoxetina, Sertralina, Escitalopram Náusea, dor de cabeça, sonolência, diminuição da libido.
Estabilizadores de humor Controlam oscilações emocionais e impulsividade. Carbonato de lítio, Ácido valpróico, Lamotrigina Ganho de peso, tremores, sonolência, problemas renais (no caso do lítio).
Antipsicóticos atípicos Reduzem paranoia, agressividade e instabilidade emocional. Quetiapina, Olanzapina, Risperidona Ganho de peso, sonolência, tremores, aumento do açúcar no sangue.
Ansiolíticos Aliviam ansiedade e insônia (usados por curtos períodos). Clonazepam, Diazepam Sonolência, dependência, tontura.
Bloqueadores beta Reduzem sintomas físicos da ansiedade (ex.: taquicardia). Propranolol Pressão baixa, tontura.

Como os medicamentos funcionam?

  • Antidepressivos (ISRS): Aumentam a disponibilidade de serotonina no cérebro, o que ajuda a regular o humor e reduzir a impulsividade.
  • Exemplo: Uma pessoa com Transtorno da Personalidade Borderline pode tomar fluoxetina para reduzir as oscilações de humor.
  • Estabilizadores de humor: Regulam a atividade elétrica do cérebro, evitando “picos” emocionais.
  • Exemplo: O lítio pode ser usado para controlar a agressividade em pessoas com Transtorno da Personalidade Anti-Social.
  • Antipsicóticos atípicos: Bloqueiam receptores de dopamina, reduzindo paranoia e agressividade.
  • Exemplo: A quetiapina pode ser usada para aliviar a desconfiança em pessoas com Transtorno da Personalidade Paranóide.
  • Ansiolíticos: Potencializam o efeito do GABA (um neurotransmissor que acalma o cérebro), reduzindo a ansiedade.
  • Exemplo: O clonazepam pode ser usado em crises agudas de ansiedade, mas não é recomendado para uso prolongado por causa do risco de dependência.

Quanto tempo demora para fazer efeito?

  • Antidepressivos: 2 a 6 semanas para começar a fazer efeito.
  • Estabilizadores de humor: 1 a 2 semanas para começar a agir, mas podem levar meses para o efeito completo.
  • Antipsicóticos: Alguns dias para reduzir sintomas como paranoia ou agressividade.
  • Ansiolíticos: Fazem efeito em minutos ou horas, mas não devem ser usados por longos períodos.

Desmistificando medicações para transtornos da personalidade

Mito 1: “Remédio para transtorno da personalidade vicia.”
Verdade: A maioria dos medicamentos usados (como antidepressivos e estabilizadores de humor) não causa dependência. Os ansiolíticos (como o clonazepam) podem causar dependência se usados por muito tempo, por isso são prescritos em doses baixas e por curtos períodos.

Mito 2: “Remédio vai mudar minha personalidade.”
Verdade: Os medicamentos não mudam quem você é. Eles ajudam a controlar sintomas (ex.: reduzir a impulsividade, aliviar a ansiedade) para que você possa trabalhar nas causas do problema na terapia.

Mito 3: “Se eu tomar remédio, não preciso de terapia.”
Verdade: Os medicamentos aliviam os sintomas, mas não tratam as causas do transtorno. A terapia é fundamental para aprender a lidar com os padrões disfuncionais e construir uma vida mais saudável.

Mito 4: “Se eu parar de tomar, vou piorar.”
Verdade: Alguns medicamentos (como os antidepressivos) precisam ser retirados gradualmente para evitar efeitos de abstinência. Outros (como os estabilizadores de humor) podem ser reduzidos com acompanhamento médico. Nunca pare de tomar um remédio por conta própria — converse com seu psiquiatra.

Efeitos colaterais: O que fazer?

Todos os medicamentos podem causar efeitos colaterais, mas nem todo mundo os sente, e muitos deles melhoram com o tempo. Alguns exemplos e o que fazer:

Efeito colateral O que fazer?
Náusea (comum com antidepressivos) Tomar o remédio com comida ou antes de dormir. Geralmente melhora em 1-2 semanas.
Sonolência (comum com antipsicóticos e ansiolíticos) Tomar o remédio à noite. Se persistir, o médico pode ajustar a dose.
Ganho de peso (comum com antipsicóticos e estabilizadores de humor) Fazer exercícios e cuidar da alimentação. Alguns remédios têm menos risco de ganho de peso (ex.: aripiprazol).
Diminuição da libido (comum com antidepressivos) Conversar com o médico sobre alternativas (ex.: bupropiona, que tem menos efeito na libido).
Tremores (comum com lítio) Beber bastante água e evitar café. O médico pode ajustar a dose.

Dica: Anote os efeitos colaterais e converse com seu médico. Não pare de tomar o remédio por conta própria — muitos efeitos colaterais podem ser controlados com ajustes na dose ou troca de medicação.


2. Psicoterapia

A psicoterapia é a parte mais importante do tratamento para transtornos da personalidade. Enquanto os medicamentos aliviam os sintomas, a terapia ajuda a entender as causas dos padrões disfuncionais e aprender novas formas de pensar, sentir e agir.

Existem várias abordagens terapêuticas, e a escolha depende do tipo de transtorno, das necessidades da pessoa e da disponibilidade de profissionais. Vamos entender as principais:


a) Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)

Para quem é indicada? Pessoas com Transtorno da Personalidade Borderline, Esquiva, Dependente ou Obsessiva.

Como funciona?
A TCC parte do princípio de que nossos pensamentos influenciam nossas emoções e comportamentos. O objetivo é identificar pensamentos distorcidos (ex.: “Todo mundo me odeia”) e substituí-los por pensamentos mais realistas (ex.: “Algumas pessoas podem não gostar de mim, mas outras sim”).

Técnicas usadas:
1. Registro de pensamentos:
– A pessoa anota situações que a deixam ansiosa ou triste, junto com os pensamentos e emoções que surgem.
Exemplo:
Situação: O chefe não respondeu meu e-mail.
Pensamento: “Ele está bravo comigo e vai me demitir.”
Emoção: Ansiedade intensa.
Comportamento: Ficar remoendo o assunto por dias.
Pensamento alternativo: “Ele pode estar ocupado. Vou esperar mais um dia e, se não responder, pergunto pessoalmente.”

  1. Exposição gradual:
  2. Usada para medos irracionais (ex.: medo de rejeição no Transtorno da Personalidade Esquiva).
  3. A pessoa é exposta aos poucos à situação que a assusta, enquanto aprende a lidar com a ansiedade.
  4. Exemplo: Alguém que tem medo de falar em público pode começar falando para um espelho, depois para um amigo, e assim por diante.

  5. Treinamento de habilidades sociais:

  6. Ensina como se comunicar de forma assertiva, lidar com críticas e expressar emoções de forma saudável.
  7. Exemplo: Aprender a dizer “Não” sem se sentir culpado ou a pedir ajuda sem achar que está incomodando.

  8. Resolução de problemas:

  9. Ajuda a pessoa a enfrentar situações difíceis de forma estruturada, em vez de evitar ou agir por impulso.
  10. Exemplo: Em vez de terminar um relacionamento por uma briga boba, a pessoa aprende a identificar o problema, pensar em soluções e escolher a melhor opção.

Duração:
Curto prazo: 12 a 24 sessões (para sintomas leves).
Longo prazo: 1 a 2 anos (para transtornos mais graves).

Evidências:
A TCC é uma das terapias com mais evidências científicas para transtornos da personalidade, especialmente o Transtorno da Personalidade Borderline.


b) Terapia Dialética Comportamental (TDC)

Para quem é indicada? Principalmente para Transtorno da Personalidade Borderline, mas também pode ajudar em outros transtornos com impulsividade e instabilidade emocional.

Como funciona?
A TDC foi desenvolvida pela psicóloga Marsha Linehan especificamente para o Transtorno da Personalidade Borderline. Ela combina técnicas da TCC com mindfulness (atenção plena) e aceitação.

Os quatro módulos da TDC:
1. Mindfulness:
– Ensina a pessoa a viver o momento presente, em vez de ficar remoendo o passado ou ansiosa com o futuro.
Exemplo: Em vez de entrar em pânico porque o parceiro demorou para responder uma mensagem, a pessoa aprende a observar seus pensamentos sem julgá-los (“Estou ansiosa, mas isso vai passar”).

  1. Regulação emocional:
  2. Ajuda a pessoa a identificar e nomear suas emoções, em vez de agir por impulso.
  3. Exemplo: Quando sentir raiva, em vez de gritar ou se machucar, a pessoa aprende a respirar fundo e pensar em uma resposta mais adequada.

  4. Tolerância ao mal-estar:

  5. Ensina a lidar com crises (ex.: vontade de se machucar, pensamentos suicidas) sem agir de forma autodestrutiva.
  6. Exemplo: Quando sentir vontade de se cortar, a pessoa pode segurar gelo nas mãos, ouvir música alta ou ligar para um amigo.

  7. Efetividade interpessoal:

  8. Ajuda a pessoa a melhorar seus relacionamentos, aprendendo a pedir o que precisa e a lidar com conflitos.
  9. Exemplo: Em vez de explodir de raiva quando o parceiro faz algo que a incomoda, a pessoa aprende a expressar seus sentimentos de forma calma e assertiva.

Duração:
1 a 2 anos, com sessões semanais individuais e em grupo.

Evidências:
A TDC é o tratamento com mais evidências para o Transtorno da Personalidade Borderline. Estudos mostram que ela reduz automutilação, tentativas de suicídio e internações.


c) Terapia Baseada em Mentalização (TBM)

Para quem é indicada? Pessoas com Transtorno da Personalidade Borderline, Anti-Social ou Narcisista.

Como funciona?
A mentalização é a capacidade de entender os próprios sentimentos e os dos outros. Pessoas com transtornos da personalidade costumam ter dificuldade de mentalizar — ou seja, interpretam as ações dos outros de forma distorcida (ex.: achar que o parceiro está bravo quando, na verdade, ele está cansado).

Técnicas usadas:
1. Exercícios de mentalização:
– A pessoa aprende a parar e refletir antes de agir ou interpretar uma situação.
Exemplo: Se o chefe não cumprimenta a pessoa de manhã, em vez de pensar “Ele está bravo comigo”, ela aprende a considerar outras possibilidades (“Ele pode estar preocupado com algo”).

  1. Trabalho com relacionamentos:
  2. A terapia ajuda a pessoa a entender como suas ações afetam os outros e vice-versa.
  3. Exemplo: Se a pessoa costuma brigar com o parceiro por ciúmes, ela aprende a perguntar (“Você está bravo comigo?”) em vez de assumir (“Você está me traindo!”).

  4. Exploração de memórias:

  5. A pessoa revisita memórias dolorosas (ex.: traumas na infância) para entender como elas influenciam seus padrões atuais.
  6. Exemplo: Uma pessoa que foi abandonada pelo pai na infância pode aprender a não projetar esse medo em todos os relacionamentos.

Duração:
1 a 3 anos, com sessões semanais.

Evidências:
A TBM é eficaz para reduzir sintomas do Transtorno da Personalidade Borderline, como impulsividade e instabilidade emocional.


d) Terapia do Esquema

Para quem é indicada? Pessoas com Transtornos da Personalidade Borderline, Narcisista, Dependente ou Esquiva.

Como funciona?
A Terapia do Esquema foi desenvolvida pelo psicólogo Jeffrey Young e foca em esquemas mal-adaptativos — padrões de pensamento e comportamento que se desenvolvem na infância e persistem na vida adulta.

Exemplos de esquemas:
Abandono: “As pessoas que eu amo vão me abandonar.”
Defectividade: “Sou imperfeito e indigno de amor.”
Subjugação: “Preciso agradar os outros para ser aceito.”
Desconfiança: “As pessoas vão me machucar se eu me aproximar.”

Técnicas usadas:
1. Identificação de esquemas:
– A pessoa aprende a reconhecer seus esquemas e como eles influenciam sua vida.
Exemplo: Alguém com o esquema de “abandono” pode perceber que termina relacionamentos por medo de ser abandonado, mesmo quando o parceiro não dá motivos.

  1. Reestruturação cognitiva:
  2. A pessoa desafia seus esquemas com evidências da realidade.
  3. Exemplo: “Será que meu parceiro realmente vai me abandonar, ou estou projetando meus medos?”

  4. Trabalho com modos:

  5. Os “modos” são estados emocionais que a pessoa experimenta (ex.: “modo criança abandonada”, “modo protetor zangado”).
  6. A terapia ajuda a pessoa a reconhecer esses modos e escolher respostas mais saudáveis.
  7. Exemplo: Quando sentir raiva (modo protetor zangado), a pessoa aprende a respirar fundo e pensar antes de agir.

  8. Técnicas experienciais:

  9. A pessoa revive memórias da infância em um ambiente seguro, para ressignificá-las.
  10. Exemplo: Uma pessoa que foi humilhada na escola pode revisitar essa memória e aprender a se defender simbolicamente.

Duração:
2 a 5 anos, com sessões semanais.

Evidências:
A Terapia do Esquema é eficaz para transtornos da personalidade, especialmente os do Grupo C (ansiosos e temerosos), como o Transtorno da Personalidade Dependente.


e) Psicanálise e Terapias Psicodinâmicas

Para quem é indicada? Pessoas com Transtornos da Personalidade Narcisista, Histriônica ou Obsessiva.

Como funciona?
As terapias psicodinâmicas focam em conflitos inconscientes que se originam na infância e influenciam o comportamento adulto. O objetivo é trazer à consciência esses conflitos para que a pessoa possa lidar com eles de forma mais saudável.

Técnicas usadas:
1. Associação livre:
– A pessoa fala tudo o que vem à mente, sem filtrar, enquanto o terapeuta observa padrões.
Exemplo: Se a pessoa sempre fala sobre “não ser boa o suficiente”, o terapeuta pode explorar de onde vem esse sentimento.

  1. Análise da transferência:
  2. A pessoa projeta no terapeuta sentimentos que tem por outras pessoas (ex.: raiva, dependência).
  3. Exemplo: Se a pessoa trata o terapeuta como se ele fosse seu pai crítico, isso pode revelar padrões de relacionamento.

  4. Interpretação de sonhos:

  5. Os sonhos são vistos como mensagens do inconsciente e podem revelar conflitos ocultos.
  6. Exemplo: Sonhar repetidamente com quedas pode simbolizar medo de fracassar.

  7. Trabalho com defesas:

  8. A pessoa aprende a reconhecer seus mecanismos de defesa (ex.: negação, projeção) e a lidar com as emoções de forma mais direta.
  9. Exemplo: Alguém que nega sua raiva pode aprender a reconhecê-la e expressá-la de forma saudável.

Duração:
Anos, com sessões semanais ou mais frequentes.

Evidências:
As terapias psicodinâmicas têm menos evidências científicas do que a TCC ou a TDC, mas podem ser úteis para pessoas que querem entender as raízes profundas de seus padrões.


f) Terapia em Grupo

Para quem é indicada? Pessoas com Transtorno da Personalidade Borderline, Anti-Social ou Esquiva.

Como funciona?
A terapia em grupo oferece um ambiente seguro para a pessoa praticar habilidades sociais, receber feedback dos outros e perceber que não está sozinha.

Benefícios:
Reduz o isolamento: Muitas pessoas com transtornos da personalidade se sentem sozinhas. No grupo, elas percebem que outras pessoas têm dificuldades semelhantes.
Feedback imediato: Os outros participantes podem apontar padrões que a pessoa não percebe (ex.: “Você sempre interrompe os outros quando falam”).
Prática de habilidades: A pessoa pode treinar o que aprendeu na terapia individual (ex.: assertividade, regulação emocional).

Duração:
6 meses a 2 anos, com sessões semanais.

Evidências:
A terapia em grupo é eficaz para o Transtorno da Personalidade Borderline, especialmente quando combinada com a TDC.


g) Terapia Familiar

Para quem é indicada? Famílias de pessoas com Transtorno da Personalidade Borderline, Dependente ou Anti-Social.

Como funciona?
A terapia familiar ajuda a melhorar a comunicação entre os membros da família e a reduzir conflitos. Também ensina a família a lidar com os sintomas do transtorno de forma mais saudável.

Técnicas usadas:
1. Psicoeducação:
– A família aprende sobre o transtorno (o que é, como se manifesta, como ajudar).
Exemplo: Uma família que não entende o Transtorno da Personalidade Borderline pode achar que a pessoa está “dramatizando”. A psicoeducação ajuda a entender que as emoções são reais, mesmo que pareçam exageradas.

  1. Comunicação não violenta:
  2. Ensina a família a expressar sentimentos e necessidades sem culpar ou agredir.
  3. Exemplo: Em vez de dizer “Você é egoísta!”, a família aprende a dizer “Fico magoado quando você não me ouve”.

  4. Resolução de conflitos:

  5. Ajuda a família a lidar com brigas de forma construtiva.
  6. Exemplo: Em vez de gritar ou ignorar, a família aprende a ouvir, validar e buscar soluções juntos.

  7. Estabelecimento de limites:

  8. Ensina a família a definir limites saudáveis (ex.: não permitir agressões, não ceder a chantagens emocionais).
  9. Exemplo: Se a pessoa ameaça se machucar quando não consegue o que quer, a família aprende a não ceder, mas também a oferecer apoio emocional.

Duração:
6 meses a 1 ano, com sessões quinzenais ou mensais.

Evidências:
A terapia familiar é eficaz para reduzir conflitos e melhorar a qualidade de vida de pessoas com transtornos da personalidade e suas famílias.


3. Mudanças no dia a dia

Além da medicação e da terapia, pequenas mudanças no estilo de vida podem fazer uma grande diferença no manejo dos sintomas. Vamos ver algumas estratégias:


a) Exercício físico

Por que ajuda?
Reduz o estresse: O exercício libera endorfina, um neurotransmissor que melhora o humor e reduz a ansiedade.
Melhora o sono: Ajuda a regular o ciclo sono-vigília.
Aumenta a autoestima: Ver o próprio corpo ficando mais forte pode melhorar a imagem que a pessoa tem de si mesma.
Reduz a impulsividade: Atividades como yoga e artes marciais ensinam autocontrole e disciplina.

Quais exercícios são melhores?
Para ansiedade e estresse: Yoga, pilates, caminhada, natação.
Para impulsividade: Artes marciais (ex.: judô, jiu-jitsu), corrida, crossfit.
Para depressão: Exercícios aeróbicos (ex.: dança, ciclismo, corrida).
Para raiva e agressividade: Boxe, escalada, esportes de equipe.

Dica: Comece devagar. 10 minutos por dia já fazem diferença. O importante é criar o hábito, não se pressionar para ter resultados imediatos.


b) Sono

Por que é importante?
– A falta de sono piora a impulsividade, a irritabilidade e a instabilidade emocional.
– Pessoas com transtornos da personalidade costumam ter dificuldade para dormir (por ansiedade, pensamentos intrusivos ou rotina irregular).

Dicas para uma boa higiene do sono:
1. Rotina regular:
– Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias, mesmo nos fins de semana.
2. Ambiente adequado:
– O quarto deve ser escuro, silencioso e fresco (entre 18°C e 22°C).
– Evite eletrônicos (celular, TV) pelo menos 1 hora antes de dormir.
3. Rotina relaxante:
– Faça algo calmo antes de dormir (ex.: ler, meditar, tomar um chá).
– Evite cafeína, álcool e nicotina à noite.
4. Não force o sono:
– Se não conseguir dormir em 20 minutos, levante-se e faça algo relaxante até sentir sono.
5. Exposição à luz solar:
– Tome sol pela manhã para regular o relógio biológico.

Dica: Se você tem insônia crônica, converse com seu médico. Às vezes, é necessário um tratamento específico (ex.: terapia cognitivo-comportamental para insônia).


c) Alimentação

Como a alimentação afeta os transtornos da personalidade?
Açúcar e carboidratos refinados: Podem causar picos de energia seguidos de quedas, piorando a irritabilidade e a ansiedade.
Café e energéticos: Aumentam a ansiedade e a impulsividade.
Álcool e drogas: Podem piorar os sintomas e interagir com medicamentos.
Ômega-3: Ajuda a regular o humor (encontrado em peixes, nozes e sementes de linhaça).
Triptofano: Precursor da serotonina, ajuda a melhorar o humor (encontrado em banana, ovos, queijo).

Dicas para uma alimentação saudável:
Coma regularmente: Pular refeições pode aumentar a irritabilidade e a impulsividade.
Evite excesso de açúcar: Prefira frutas, castanhas e grãos integrais.
Beba água: A desidratação pode piorar a ansiedade e a fadiga.
Reduza cafeína: Substitua o café por chá de camomila ou chicória.
Inclua alimentos ricos em ômega-3: Salmão, sardinha, nozes, sementes de chia.

Dica: Se você tem compulsão alimentar, converse com um nutricionista. Às vezes, a fome emocional está ligada a traumas ou dificuldades de regulação emocional.


d) Rotina

Por que uma rotina ajuda?
– Pessoas com transtornos da personalidade costumam ter dificuldade de organização, o que aumenta o estresse e a sensação de descontrole.
– Uma rotina estruturada ajuda a reduzir a ansiedade e a melhorar a produtividade.

Como criar uma rotina saudável?
1. Defina horários fixos:
– Acordar, comer, trabalhar, se exercitar e dormir no mesmo horário todos os dias.
2. Priorize tarefas:
– Faça uma lista do que precisa ser feito e comece pelas tarefas mais importantes.
3. Inclua momentos de lazer:
– Reserve tempo para hobbies, amigos e descanso.
4. Use lembretes:
– Celular, agenda ou post-its podem ajudar a não esquecer compromissos.
5. Seja flexível:
– A rotina não precisa ser rígida. Adapte-se quando necessário.

Dica: Se você tem dificuldade de seguir uma rotina, comece com pequenas mudanças (ex.: acordar 15 minutos mais cedo, fazer uma caminhada de 10 minutos por dia).


e) Técnicas de manejo de sintomas

Algumas técnicas podem ajudar a lidar com sintomas específicos no dia a dia:

Sintoma Técnica
Ansiedade intensa Respiração diafragmática (inspirar pelo nariz por 4 segundos, segurar por 4, expirar pela boca por 6).
Raiva ou impulsividade Técnica do “10 segundos” (contar até 10 antes de agir ou falar).
Vazio emocional Escrever um diário, pintar, ouvir música ou fazer algo que dê prazer.
Pensamentos negativos Questionar o pensamento (“Isso é realmente verdade? Quais são as evidências?”).
Medo de abandono Lembrar-se: “As pessoas têm suas próprias vidas. Não preciso controlá-las.”
Autocrítica excessiva Escrever uma lista de qualidades e conquistas.

Dica: Pratique essas técnicas quando estiver calmo, para que elas sejam mais fáceis de usar em momentos de crise.


f) Tecnologia assistiva

Alguns aplicativos e ferramentas podem ajudar no tratamento:

Aplicativo Para que serve?
Daylio Registra humor e atividades diárias para identificar padrões.
Finch Ajuda a criar hábitos saudáveis (ex.: meditação, exercício) de forma lúdica.
Woebot Chatbot de terapia cognitivo-comportamental (TCC) para ansiedade e depressão.
Headspace Meditações guiadas para ansiedade, sono e regulação emocional.
Forest Ajuda a focar em tarefas e reduzir a procrastinação.

Dica: Use esses aplicativos como ferramentas complementares, não como substitutos da terapia.


Convivendo com o diagnóstico

Receber um diagnóstico de transtorno da personalidade pode trazer muitas emoções: alívio (“Finalmente sei o que tenho!”), medo (“Vou ser assim para sempre?”), vergonha (“As pessoas vão me julgar”) ou esperança (“Agora posso melhorar”). Não existe uma forma “certa” de se sentir — todas as emoções são válidas.

Nesta seção, vamos falar sobre como lidar com o diagnóstico, tanto para a pessoa que o recebeu quanto para familiares e amigos.


Para a pessoa com o diagnóstico

1. Aceitação: O primeiro passo

Aceitar o diagnóstico não significa se conformar com os sintomas, mas sim reconhecer que eles existem para poder trabalhar neles. Alguns passos para a aceitação:
Informe-se: Leia sobre o transtorno (mas cuidado com fontes não confiáveis). Este guia é um bom começo!
Converse com seu médico: Tire todas as suas dúvidas. Não tenha vergonha de perguntar.
Fale com outras pessoas: Grupos de apoio (presenciais ou online) podem ajudar a perceber que você não está sozinho.
Permita-se sentir: É normal sentir raiva, tristeza ou medo. Não se cobre para “aceitar logo”.

Lembre-se: Ter um transtorno da personalidade não define quem você é. Você é muito mais do que um diagnóstico.


2. Lidando com o estigma

Infelizmente, os transtornos da personalidade ainda são muito estigmatizados. Algumas pessoas podem:
Minimizar seus sintomas: “Isso é frescura, você só precisa se esforçar mais.”
Te rotular: “Você é manipulador(a)”, “Você é dramático(a).”
Te excluir: Amigos ou familiares podem se afastar por não entenderem o transtorno.

Como lidar com o estigma?
Escolha com quem falar: Nem todo mundo precisa saber do seu diagnóstico. Converse com pessoas de confiança.
Eduque as pessoas: Se alguém fizer um comentário preconceituoso, explique (se você se sentir confortável) o que é o transtorno.
Não internalize o preconceito: Lembre-se de que o problema não é você, é a falta de informação das pessoas.
Busque apoio: Grupos de apoio e terapia podem ajudar a lidar com o estigma.

Frase para lembrar: “Eu não sou meu transtorno. Eu sou uma pessoa que está aprendendo a lidar com ele.”


3. Cuidando de si mesmo

Viver com um transtorno da personalidade pode ser exaustivo. Por isso, é importante cuidar de si mesmo todos os dias.

Algumas dicas:
Seja gentil consigo mesmo: Você está fazendo o melhor que pode. Não se cobre perfeição.
Celebre pequenas vitórias: Conseguiu sair da cama hoje? Tomou banho? Parabéns! Pequenos passos também são conquistas.
Peça ajuda quando precisar: Não espere chegar ao fundo do poço para buscar apoio.
Faça coisas que te dão prazer: Mesmo que seja só por 10 minutos por dia.
Estabeleça limites: Não se force a fazer coisas que te machucam (ex.: relacionamentos abusivos, trabalhos estressantes).
Pratique a autocompaixão: Trate-se como trataria um amigo querido.

Dica: Crie um “kit de sobrevivência” para momentos de crise. Pode incluir:
– Uma lista de pessoas para ligar.
– Técnicas de regulação emocional (ex.: respiração, música).
– Um objeto que te acalma (ex.: um cobertor macio, um cheiro agradável).


4. Lidando com recaídas

Os transtornos da personalidade são crônicos, ou seja, os sintomas podem voltar em momentos de estresse. Isso não significa que o tratamento falhou — é parte do processo.

Como lidar com recaídas?
Não se culpe: Recaídas acontecem. O importante é aprender com elas.
Identifique os gatilhos: O que desencadeou a recaída? Estresse no trabalho? Uma briga? Falta de sono?
Volte às técnicas que funcionam: O que te ajudou antes? Terapia? Exercício? Meditação?
Peça ajuda: Converse com seu terapeuta ou psiquiatra. Às vezes, é necessário ajustar o tratamento.
Lembre-se: Uma recaída não apaga o progresso que você já fez.

Frase para lembrar: “Uma recaída é um desvio no caminho, não o fim da estrada.”


5. Construindo uma vida plena

Ter um transtorno da personalidade não significa que você não pode ter uma vida feliz e realizada. Muitas pessoas com esses transtornos:
Têm relacionamentos saudáveis (amigos, família, parceiros).
Conseguem manter empregos estáveis.
Desenvolvem hobbies e paixões.
Ajudam outras pessoas com suas experiências.

Algumas dicas para construir uma vida plena:
Defina metas realistas: Não tente mudar tudo de uma vez. Comece com pequenos objetivos (ex.: “Vou sair de casa 3 vezes por semana”).
Encontre um propósito: O que te faz sentir útil? Trabalho voluntário? Arte? Esportes?
Cultive relacionamentos saudáveis: Afaste-se de pessoas tóxicas e invista em quem te faz bem.
Aceite que a vida tem altos e baixos: Nem todo dia será perfeito, e está tudo bem.
Celebre sua jornada: Você está aprendendo e crescendo todos os dias.

História inspiradora:
Maria, 35 anos, foi diagnosticada com Transtorno da Personalidade Borderline aos 25. No começo, ela se sentia “quebrada” e achava que nunca teria uma vida normal. Hoje, ela é casada, tem um emprego que ama e dá palestras sobre saúde mental. “Eu não sou mais definida pelo meu transtorno. Ele faz parte da minha história, mas não é toda ela.”


Para familiares e amigos

1. Como ajudar?

Se alguém que você ama recebeu um diagnóstico de transtorno da personalidade, sua ajuda pode fazer uma grande diferença. Mas é importante saber como ajudar sem se esgotar.

O que fazer:
Informe-se: Leia sobre o transtorno para entender o que a pessoa está passando.
Ouça sem julgar: Às vezes, a pessoa só precisa desabafar. Não minimize seus sentimentos (“Isso é bobagem”).
Valide as emoções: “Eu entendo que você está sofrendo. Como posso te ajudar?”
Ofereça apoio prático: Ajude com tarefas do dia a dia (ex.: cozinhar, levar ao médico).
Incentive o tratamento: “Você já pensou em conversar com um terapeuta sobre isso?”
Seja paciente: A melhora leva tempo. Não espere mudanças da noite para o dia.
Estabeleça limites: Você não é responsável pela felicidade da pessoa. Cuide de si mesmo também.

O que NÃO fazer:
Não dê conselhos não solicitados: “Você só precisa se esforçar mais” não ajuda.
Não leve os comportamentos para o pessoal: Se a pessoa está irritada ou distante, não é culpa sua.
Não force a pessoa a falar: Respeite o tempo dela.
Não ignore comportamentos perigosos: Se a pessoa está se machucando ou falando em suicídio, busque ajuda profissional imediatamente.


2. Como cuidar de si mesmo

Cuidar de alguém com um transtorno da personalidade pode ser desgastante. É comum sentir:
Culpa: “Será que estou fazendo o suficiente?”
Raiva: “Por que ela não melhora?”
Exaustão: “Não aguento mais essa montanha-russa emocional.”
Isolamento: “Ninguém entende o que estou passando.”

Como evitar o esgotamento?
Não abandone sua vida: Continue com seus hobbies, amigos e rotina.
Busque apoio: Converse com outras pessoas que passam pela mesma situação (grupos de apoio para familiares).
Estabeleça limites: Você não precisa estar disponível 24 horas por dia.
Cuide da sua saúde: Durma bem, alimente-se e faça exercícios.
Procure terapia: Um terapeuta pode te ajudar a lidar com suas emoções e a encontrar formas saudáveis de apoiar seu familiar.

Frase para lembrar: “Você não pode encher o copo dos outros se o seu estiver vazio.”


3. Como explicar para outras pessoas

Se você quiser falar sobre o transtorno com outras pessoas (ex.: amigos, outros familiares), aqui estão algumas dicas:

Para crianças:
Use uma linguagem simples: “O papai/mamãe tem uma doença que faz ele(a) ficar muito triste ou bravo(a) às vezes. Não é culpa sua, e ele(a) está tentando melhorar.”
Explique que não é contagioso: “Você não vai pegar isso.”
Diga que a pessoa ainda ama a criança: “Mesmo quando ele(a) está bravo(a), ele(a) te ama muito.”

Para adultos:
Seja honesto, mas não dê detalhes desnecessários: “Meu filho tem um transtorno da personalidade. Isso faz com que ele tenha dificuldade de controlar as emoções, mas estamos buscando tratamento.”
Corrija informações erradas: Se alguém disser algo preconceituoso (ex.: “Isso é falta de vergonha na cara”), explique que não é uma escolha.
Peça apoio: “Se você quiser ajudar, pode perguntar como ele está de vez em quando.”

Dica: Se a pessoa com o transtorno não quiser que os outros saibam, respeite sua decisão.


Quando os sintomas podem piorar?

Os sintomas dos transtornos da personalidade podem piorar em situações de estresse. Alguns gatilhos comuns:
Mudanças na vida: Mudança de emprego, término de relacionamento, mudança de cidade.
Conflitos familiares ou no trabalho: Brigas, desentendimentos, assédio.
Doenças físicas: Dor crônica, doenças graves.
Uso de substâncias: Álcool, drogas, medicamentos sem prescrição.
Falta de sono ou má alimentação: O corpo desregulado piora os sintomas emocionais.
Isolamento social: Ficar muito tempo sozinho pode aumentar a ansiedade e a depressão.

O que fazer nesses momentos?
Aumente o autocuidado: Durma bem, alimente-se e faça exercícios.
Evite gatilhos: Se brigas em família pioram seus sintomas, limite o contato temporariamente.
Volte às técnicas que funcionam: O que te ajudou antes? Terapia? Meditação? Exercício?
Peça ajuda: Converse com seu terapeuta ou psiquiatra. Às vezes, é necessário ajustar o tratamento.
Lembre-se: Esses momentos vão passar. Você já superou crises antes e pode superar essa também.


Perguntas frequentes

1. “Transtorno da personalidade tem cura?”

Não existe uma “cura” no sentido tradicional, porque a personalidade é parte de quem somos. No entanto, os sintomas podem ser gerenciados com tratamento, e muitas pessoas levam vidas plenas e felizes.

  • Transtornos do Grupo A (excêntricos, como o paranóide): Costumam ser mais estáveis ao longo da vida, mas podem melhorar com terapia.
  • Transtornos do Grupo B (dramáticos, como o borderline e o anti-social): Os sintomas tendem a diminuir com a idade (especialmente após os 40 anos), mas o tratamento é fundamental para acelerar essa melhora.
  • Transtornos do Grupo C (ansiosos, como o dependente e o evitativo): Respondem muito bem à terapia, e muitas pessoas conseguem reduzir significativamente os sintomas.

O que importa não é a “cura”, mas a qualidade de vida. Muitas pessoas com transtornos da personalidade:
– Conseguem manter relacionamentos saudáveis.
Trabalham e estudam normalmente.
Desenvolvem hobbies e paixões.
Ajudam outras pessoas com suas experiências.


2. “Por que é tão difícil diagnosticar transtornos da personalidade?”

Os transtornos da personalidade são complexos e podem ser confundidos com outras condições. Alguns motivos para a dificuldade no diagnóstico:
Os sintomas são egossintônicos: Isso significa que a pessoa não percebe seus comportamentos como problemáticos. Por exemplo, alguém com Transtorno da Personalidade Narcisista pode achar que é “melhor que os outros”, e não ver isso como um sintoma.
Os sintomas se sobrepõem a outras condições: Depressão, ansiedade e bipolaridade podem ter sintomas semelhantes.
Falta de profissionais especializados: No Brasil, há poucos psiquiatras e psicólogos com experiência em transtornos da personalidade, especialmente no SUS.
Estigma: Muitos profissionais evitam dar esse diagnóstico por medo de “rotular” a pessoa.
Dificuldade de acesso: No SUS, o foco costuma ser em transtornos mais “visíveis” (como esquizofrenia ou depressão grave), e os transtornos da personalidade acabam sendo negligenciados.

O que fazer se suspeitar do diagnóstico?
Busque um profissional especializado: Psiquiatras e psicólogos com experiência em transtornos da personalidade são mais preparados para fazer o diagnóstico.
Seja honesto(a) nas consultas: Não minimize seus sintomas por vergonha.
Peça uma segunda opinião: Se você não se sentir confortável com o diagnóstico, procure outro profissional.


3. “Meu filho(a) tem transtorno da personalidade. O que eu fiz de errado?”

Essa é uma pergunta muito comum entre pais e mães, e a resposta é: você não fez nada de errado. Os transtornos da personalidade são causados por uma combinação de fatores, e nenhum pai ou mãe é perfeito.

  • Genética: Se há histórico de transtornos mentais na família, isso aumenta o risco.
  • Ambiente familiar: Conflitos, abuso ou negligência podem contribuir, mas não são a única causa.
  • Fatores individuais: Algumas pessoas são mais sensíveis a estresses do que outras.
  • Cultura e sociedade: Pressões sociais (ex.: redes sociais, bullying) também têm um papel.

O que você pode fazer agora?
Não se culpe: Você fez o melhor que pôde com as ferramentas que tinha.
Informe-se: Leia sobre o transtorno para entender como ajudar.
Busque apoio: Grupos de pais e terapia familiar podem ser muito úteis.
Cuide de si mesmo: Você não pode ajudar seu filho(a) se estiver esgotado.
Ame incondicionalmente: Seu filho(a) precisa do seu apoio, mesmo nos dias difíceis.

Frase para lembrar: “Você não é responsável pelo transtorno do seu filho, mas pode ser parte da solução.”


4. “Posso ter um relacionamento saudável com alguém que tem transtorno da personalidade?”

Sim! Relacionamentos saudáveis são possíveis, mas exigem paciência, compreensão e limites claros. Alguns desafios comuns e como lidar com eles:

Transtorno Desafios no relacionamento Como lidar
Borderline Oscilações de humor, medo de abandono, impulsividade. Estabeleça limites claros, valide as emoções da pessoa, incentive o tratamento.
Narcisista Falta de empatia, necessidade de admiração, manipulação. Não alimente o ego da pessoa, estabeleça limites firmes, não espere mudanças sem terapia.
Anti-Social Mentiras, manipulação, falta de remorso. Proteja-se emocionalmente e financeiramente, não tente “consertar” a pessoa.
Dependente Necessidade excessiva de aprovação, medo de tomar decisões. Incentive a autonomia, não tome decisões pela pessoa, estabeleça limites.
Esquiva Medo de rejeição, isolamento social. Seja paciente, não force interações sociais, incentive pequenos passos.

Dicas para um relacionamento saudável:
Comunique-se de forma clara: Evite mensagens ambíguas ou jogos mentais.
Estabeleça limites: Você não precisa aceitar comportamentos abusivos ou manipulativos.
Incentive o tratamento: A terapia é fundamental para a melhora.
Cuide de si mesmo: Não abandone seus hobbies, amigos e rotina por causa do relacionamento.
Busque apoio: Terapia de casal ou grupos de apoio podem ajudar.

Lembre-se: Um relacionamento saudável é uma via de mão dupla. Se você está sempre dando e a outra pessoa não faz nenhum esforço para mudar, reavalie se vale a pena.


5. “Transtorno da personalidade é a mesma coisa que psicopatia?”

Não! Psicopatia é um termo popular que não existe na psiquiatria. O que as pessoas chamam de “psicopata” geralmente se refere ao Transtorno da Personalidade Anti-Social, mas nem todo mundo com esse transtorno é um “psicopata” no sentido estereotipado (ex.: assassinos em série).

Diferenças importantes:
| Transtorno da Personalidade Anti-Social | Psicopatia (conceito popular) |
|———————————————|———————————–|
| Pode incluir comportamentos como mentiras, manipulação e falta de remorso. | Geralmente associado a violência extrema e falta de empatia. |
| Nem todo mundo com o transtorno é violento. | Nem todo mundo violento tem o transtorno. |
| Pode ser tratado com terapia (embora seja difícil). | Não há “cura” para a psicopatia, mas comportamentos podem ser gerenciados. |
| A pessoa pode ter relacionamentos, embora sejam problemáticos. | A pessoa tem dificuldade extrema de formar laços emocionais. |

Exemplo:
Transtorno da Personalidade Anti-Social: Um vendedor que mente para clientes para vender mais, mas sente remorso quando prejudica alguém próximo.
Psicopatia (conceito popular): Um assassino em série que não sente remorso por suas vítimas.

Importante: A maioria das pessoas com Transtorno da Personalidade Anti-Social não é violenta. Elas podem ter dificuldade de seguir regras, mentir ou manipular, mas não são “monstros”.


6. “Como explicar meu diagnóstico no trabalho?”

Falar sobre um transtorno da personalidade no trabalho é uma decisão pessoal. Você não é obrigado(a) a contar, mas se decidir fazê-lo, aqui estão algumas dicas:

Quando contar?
– Se o transtorno afeta seu desempenho (ex.: faltas frequentes, dificuldade de lidar com críticas).
– Se você precisa de adaptações (ex.: horários flexíveis para terapia, ambiente menos estressante).
– Se você confia no seu chefe ou nos RH e acha que eles podem te apoiar.

Como contar?
Escolha o momento certo: Não conte em um momento de estresse ou crise.
Seja direto(a), mas não dê detalhes desnecessários: “Tenho um transtorno da personalidade que às vezes me deixa ansioso(a). Estou em tratamento e gostaria de conversar sobre como podemos adaptar algumas coisas para que eu possa trabalhar melhor.”
Foque em soluções: “Posso precisar de pausas curtas durante o dia para me acalmar. Isso seria possível?”
Esteja preparado(a) para reações: Algumas pessoas podem não entender. Outras podem ser solidárias.

O que a lei diz?
No Brasil, a Lei 10.216/2001 garante direitos às pessoas com transtornos mentais, incluindo:
Não discriminação no trabalho.
Adaptações razoáveis (ex.: horários flexíveis, ambiente menos estressante).
Sigilo sobre o diagnóstico.

Se você sofrer discriminação, pode procurar:
Ministério Público do Trabalho.
Defensoria Pública.
Sindicatos.

Dica: Se você não se sentir confortável em contar, não precisa. Você pode pedir adaptações sem mencionar o diagnóstico (ex.: “Preciso de horários flexíveis por motivos de saúde”).


7. “Posso ter filhos se tenho transtorno da personalidade?”

Sim! Ter um transtorno da personalidade não impede ninguém de ser pai ou mãe. No entanto, é importante estar em tratamento e ter uma rede de apoio, porque a parentalidade pode ser desafiadora.

Desafios comuns:
Transtorno da Personalidade Borderline: Oscilações de humor podem afetar a paciência com a criança.
Transtorno da Personalidade Anti-Social: Dificuldade de empatia pode prejudicar o vínculo com o filho.
Transtorno da Personalidade Dependente: Medo de tomar decisões pode deixar a pessoa insegura na hora de educar.
Transtorno da Personalidade Narcisista: Dificuldade de reconhecer as necessidades da criança.

Como se preparar?
Esteja em tratamento: Terapia e, se necessário, medicação ajudam a controlar os sintomas.
Converse com seu médico: Ele pode te ajudar a avaliar os riscos e preparar um plano.
Tenha uma rede de apoio: Parceiro(a), familiares ou amigos que possam ajudar nos momentos difíceis.
Informe-se sobre parentalidade: Livros, cursos e terapia familiar podem ajudar.
Aceite que você não será perfeito(a): Nenhum pai ou mãe é. O importante é amar e proteger seu filho.

História inspiradora:
Joana, 30 anos, tem Transtorno da Personalidade Borderline. Quando descobriu que estava grávida, ficou com medo de não ser uma boa mãe. Com terapia e apoio do marido, ela aprendeu a reconhecer seus gatilhos e a pedir ajuda quando precisava. Hoje, ela é uma mãe dedicada e sua filha é sua maior motivação para continuar no tratamento.


8. “Como lidar com a automutilação ou pensamentos suicidas?”

A automutilação e os pensamentos suicidas são sintomas graves que exigem ajuda profissional imediata. Se você ou alguém que você conhece está passando por isso, procure ajuda agora.

Para a pessoa que está se machucando ou pensando em suicídio:

  • Você não está sozinho(a): Muitas pessoas passam por isso e conseguem superar.
  • Isso não é frescura: A dor emocional é tão real quanto a dor física.
  • Busque ajuda profissional: Um psiquiatra ou psicólogo pode te ajudar a encontrar outras formas de lidar com a dor.
  • Ligue para o CVV: O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188 ou chat online (www.cvv.org.br).
  • Vá para um pronto-socorro: Se você está em crise, não espere. Procure um hospital ou UPA.

Técnicas para momentos de crise:
Segure gelo nas mãos (o choque térmico pode aliviar a vontade de se machucar).
Escreva ou desenhe o que está sentindo.
Ligue para alguém de confiança.
Ouça música alta para distrair a mente.
Faça exercícios físicos intensos (ex.: correr, pular corda).

Frase para lembrar: “Essa dor não é para sempre. Você merece ajuda e pode melhorar.”


Para familiares e amigos:

  • Não minimize: “Isso é só para chamar atenção” não ajuda. A pessoa está sofrendo de verdade.
  • Não julgue: A automutilação é uma forma de aliviar a dor emocional, não uma escolha.
  • Ofereça apoio: “Estou aqui para te ouvir. Como posso te ajudar?”
  • Incentive o tratamento: “Vamos procurar um médico juntos?”
  • Tire objetos perigosos do alcance (ex.: facas, remédios, cordas).
  • Não deixe a pessoa sozinha em momentos de crise.
  • Busque ajuda profissional: Se a pessoa está em risco imediato, ligue para o SAMU (192) ou leve-a para um pronto-socorro.

Lembre-se: Você não pode “consertar” a pessoa, mas pode estar ao lado dela e incentivá-la a buscar ajuda.


9. “Como encontrar um bom profissional no Brasil?”

Encontrar um bom psiquiatra ou psicólogo no Brasil pode ser desafiador, especialmente no SUS. Aqui estão algumas dicas:

No SUS:

  1. Comece na UBS: Marque uma consulta com um clínico geral ou médico de família. Ele pode encaminhar para um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) ou psiquiatra.
  2. CAPS: Oferece atendimento psicológico e psiquiátrico gratuito. Alguns CAPS têm grupos específicos para transtornos da personalidade.
  3. Hospitais universitários: Muitos oferecem atendimento gratuito com psiquiatras e psicólogos em formação, supervisionados por profissionais experientes.
  4. Programas de residência: Alguns hospitais têm programas de residência em psiquiatria que oferecem atendimento gratuito ou de baixo custo.

Dica: Se você não conseguir vaga, persista. Ligue regularmente para a UBS ou CAPS e pergunte sobre a lista de espera.

Particular:

  1. Peça indicações: Amigos, familiares ou grupos de apoio podem indicar bons profissionais.
  2. Verifique a formação: Procure psiquiatras e psicólogos com especialização em transtornos da personalidade (ex.: formação em TDC, Terapia do Esquema).
  3. Agende uma consulta experimental: Marque uma primeira consulta para ver se você se sente confortável com o profissional.
  4. Convênios médicos: A maioria dos planos de saúde cobre consultas com psiquiatras e psicólogos. Verifique sua cobertura.

Dica: Se você não se sentir à vontade com o profissional, não hesite em procurar outro. A relação terapêutica é fundamental para o sucesso do tratamento.

Online:

  • Psicologia Viva: Plataforma que oferece terapia online com psicólogos cadastrados.
  • Telessaúde: Alguns estados oferecem atendimento psicológico online gratuito.
  • Aplicativos: Alguns aplicativos (como o Woebot) oferecem terapia guiada por inteligência artificial.

Dica: A terapia online pode ser uma boa opção se você mora em uma cidade pequena ou tem dificuldade de locomoção.


10. “Quanto custa o tratamento no Brasil?”

Os custos variam muito dependendo do tipo de tratamento e se é pelo SUS ou particular.

Serviço SUS Particular Convênio
Consulta com psiquiatra Gratuito R$ 200 a R$ 500 Coberto (com coparticipação em alguns planos)
Consulta com psicólogo Gratuito R$ 100 a R$ 300 Coberto (com limite de sessões em alguns planos)
Terapia em grupo Gratuito (CAPS) R$ 50 a R$ 150 por sessão Coberto em alguns planos
Internação psiquiátrica Gratuito R$ 500 a R$ 2.000 por dia Coberto (com limite de dias em alguns planos)
Medicamentos Gratuitos (alguns) R$ 30 a R$ 300 por mês Coberto (com coparticipação em alguns planos)

Dicas para reduzir custos:
SUS: Persista na busca por atendimento. Alguns CAPS oferecem medicamentos gratuitos.
Farmácias populares: Alguns medicamentos (ex.: fluoxetina, carbamazepina) são distribuídos gratuitamente.
Universidades: Clínicas-escola de psicologia oferecem terapia gratuita ou de baixo custo.
Programas sociais: Alguns municípios têm programas de assistência psicológica gratuita.
Negocie com o profissional: Alguns psiquiatras e psicólogos oferecem descontos para pacientes de baixa renda.

Lembre-se: Sua saúde mental não tem preço. Se você não pode pagar pelo tratamento, não desista. Existem opções gratuitas e de baixo custo.


Quando procurar ajuda urgente

Alguns sintomas dos transtornos da personalidade exigem ajuda imediata. Se você ou alguém que você conhece apresentar qualquer um dos sinais abaixo, procure um serviço de emergência imediatamente:

Sinais de alerta vermelho (procure ajuda AGORA):

  • Ideação suicida: Falar em se matar, fazer planos ou ter tentativas anteriores.
  • Automutilação grave: Cortes profundos, queimaduras ou outros ferimentos que exigem atendimento médico.
  • Agressividade extrema: Ameaçar ou agredir fisicamente outras pessoas.
  • Psicose: Delírios (acreditar em coisas que não são reais) ou alucinações (ver ou ouvir coisas que não existem).
  • Intoxicação por substâncias: Overdose de álcool, drogas ou medicamentos.
  • Comportamentos de risco graves: Dirigir em alta velocidade, praticar sexo sem proteção com desconhecidos, gastar todo o dinheiro em apostas.

Onde procurar ajuda:

  • SAMU (192): Para emergências médicas.
  • Corpo de Bombeiros (193): Para situações de risco imediato.
  • CVV (188): Para apoio emocional (não é emergência, mas pode ajudar em momentos de crise).
  • Pronto-socorro psiquiátrico: Alguns hospitais têm alas psiquiátricas para emergências.
  • UPA (Unidade de Pronto Atendimento): Para avaliação inicial.

Lembre-se: Não espere “melhorar sozinho”. Se você está em crise, procure ajuda agora.


Referências

Este guia foi baseado em fontes científicas confiáveis. Se você quiser se aprofundar, consulte:

  1. Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10). 10ª ed. São Paulo: EDUSP, 1997.
  2. American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
  3. Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
  4. Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
  5. Linehan, Marsha M. Terapia Cognitivo-Comportamental para Transtorno da Personalidade Borderline. Porto Alegre: Artmed, 2010.
  6. Young, Jeffrey E.; Klosko, Janet S.; Weishaar, Marjorie E. Terapia do Esquema: Guia de Técnicas Cognitivo-Comportamentais Inovadoras. Porto Alegre: Artmed, 2008.
  7. Bateman, Anthony; Fonagy, Peter. Psychotherapy for Borderline Personality Disorder: Mentalization-Based Treatment. Oxford: Oxford University Press, 2004.
  8. Gabbard, Glen O. Psiquiatria Psicodinâmica na Prática Clínica. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.
  9. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Borderline Personality Disorder: Recognition and Management. Londres, 2009.
  10. Mayo Clinic. Personality Disorders. Disponível em: https://www.mayoclinic.org.

Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.

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