O que é?
Imagine que o cérebro é como uma cidade movimentada, cheia de ruas, avenidas e vielas por onde circulam informações o tempo todo. Essas “ruas” são os vasos sanguíneos, responsáveis por levar oxigênio e nutrientes para todas as partes do cérebro. Agora, pense que, de repente, algumas dessas ruas começam a ficar bloqueadas — como se fossem buracos, entupimentos ou até mesmo desabamentos. Quando isso acontece, as áreas do cérebro que dependem dessas “ruas” param de funcionar direito. É mais ou menos isso que ocorre na demência vascular.
A demência vascular é um tipo de demência causada por problemas nos vasos sanguíneos do cérebro. Diferente da doença de Alzheimer, que é uma degeneração progressiva das células cerebrais, a demência vascular acontece quando o cérebro sofre pequenos (ou grandes) “infartos” — como mini-derrames — que danificam áreas importantes para a memória, o raciocínio, a linguagem e até o controle das emoções. Esses danos podem acontecer de uma vez só (como em um derrame grave) ou aos poucos, como se fossem pequenos “apagões” no cérebro.
Como ela se diferencia de outras condições?
Muitas pessoas confundem demência vascular com “esclerose” ou até mesmo com o envelhecimento normal. Mas há diferenças importantes:
- Envelhecimento normal: É comum esquecer onde deixou as chaves ou o nome de alguém que não vê há anos. Mas na demência vascular, os esquecimentos são mais frequentes, graves e interferem na vida diária. Por exemplo: esquecer como voltar para casa, não reconhecer um filho ou não saber mais usar o fogão.
- Doença de Alzheimer: Na Alzheimer, a perda de memória é o sintoma mais marcante e costuma piorar de forma lenta e constante. Na demência vascular, os sintomas podem variar muito — às vezes a pessoa tem dificuldade para falar, outras vezes para se movimentar, e os esquecimentos podem vir em “ondas”, dependendo de onde o cérebro foi afetado.
- Depressão: A tristeza e a falta de energia da depressão podem ser confundidas com demência, mas na depressão a pessoa geralmente consegue se lembrar das coisas quando se esforça, enquanto na demência o esquecimento é persistente e não melhora com estímulo.
Quem é afetado?
A demência vascular é a segunda causa mais comum de demência no mundo, perdendo apenas para a doença de Alzheimer. No Brasil, estima-se que cerca de 20 a 30% dos casos de demência sejam do tipo vascular. Ela costuma aparecer depois dos 65 anos, mas pode surgir mais cedo em pessoas com fatores de risco, como pressão alta, diabetes ou histórico de derrames.
- Homens x Mulheres: Os homens têm um risco ligeiramente maior de desenvolver demência vascular, principalmente porque doenças como hipertensão e problemas cardíacos são mais comuns neles. No entanto, as mulheres vivem mais, então acabam sendo mais afetadas na velhice.
- Fatores de risco no Brasil: O país tem altas taxas de hipertensão não controlada, diabetes e obesidade — todos fatores que aumentam o risco de demência vascular. Além disso, o acesso desigual a tratamentos médicos faz com que muitas pessoas só descubram o problema quando já está avançado.
Um pouco de história
A demência vascular não é uma doença nova. Há registros antigos de médicos descrevendo pacientes que, após um derrame, perdiam a capacidade de falar ou se movimentar. No século XIX, com o avanço da medicina, os médicos começaram a perceber que pequenos derrames repetidos podiam causar uma deterioração gradual da mente. O termo “demência arteriosclerótica” (hoje chamado de demência vascular) foi cunhado para descrever essa relação entre os vasos sanguíneos e a perda cognitiva.
Hoje, sabemos que a demência vascular não é apenas uma consequência do envelhecimento, mas sim de doenças que podem ser prevenidas — como pressão alta, colesterol elevado e diabetes. Isso significa que, com cuidados adequados, muitas pessoas podem evitar ou retardar o aparecimento dessa condição.
Quais são os sintomas?
A demência vascular não é igual para todo mundo. Os sintomas dependem de quais partes do cérebro foram danificadas e com que rapidez os danos aconteceram. Por exemplo:
– Se os vasos sanguíneos afetados forem os que irrigam a parte do cérebro responsável pela fala, a pessoa pode ter dificuldade para se comunicar.
– Se os danos forem na região que controla os movimentos, ela pode ficar mais lenta ou ter dificuldade para andar.
– Se os problemas forem em áreas ligadas à memória, os esquecimentos serão mais evidentes.
Vamos entender cada um dos principais sintomas, como eles aparecem no dia a dia e como diferenciar o que é normal do que é preocupante.
1. Problemas de memória (mas não como na Alzheimer)
O que diz o CID-10/DSM-5:
“Comprometimento da memória, especialmente para fatos recentes, com dificuldade de aprender novas informações.”
Como isso aparece na prática?
- Esquecimentos frequentes e que atrapalham a rotina:
- A pessoa esquece compromissos importantes, como consultas médicas ou aniversários de familiares.
- Repete a mesma pergunta várias vezes em pouco tempo, como “Que horas é o almoço?” ou “Onde está minha carteira?”.
-
Esquece o que acabou de fazer, como desligar o fogão ou trancar a porta.
-
Dificuldade para aprender coisas novas:
- Não consegue memorizar um número de telefone novo, mesmo depois de repetir várias vezes.
- Esquece o nome de pessoas que acabou de conhecer.
-
Tem dificuldade para seguir instruções simples, como uma receita de bolo ou o manual de um aparelho eletrônico.
-
Confusão com datas e lugares:
- Não sabe em que dia da semana está, mesmo olhando o calendário.
- Se perde em lugares conhecidos, como o caminho para casa ou dentro do próprio bairro.
- Esquece onde guardou objetos importantes, como documentos ou remédios.
O que é normal?
Todo mundo esquece onde deixou as chaves ou o nome de um conhecido de vez em quando. O problema na demência vascular é quando esses esquecimentos começam a atrapalhar a vida — por exemplo, se a pessoa não consegue mais trabalhar, cuidar da casa ou se virar sozinha.
2. Dificuldade para planejar e resolver problemas (funções executivas)
O que diz o CID-10/DSM-5:
“Perturbação do funcionamento executivo (ou seja, planejamento, organização, sequenciamento, abstração).”
Como isso aparece na prática?
- Problemas para organizar tarefas simples:
- Não consegue mais fazer uma lista de compras ou seguir uma sequência lógica, como lavar a louça antes de guardar.
- Tem dificuldade para lidar com dinheiro, como calcular troco ou pagar contas.
-
Não consegue planejar um almoço para a família, esquecendo etapas como comprar os ingredientes ou ligar o forno.
-
Dificuldade para tomar decisões:
- Fica paralisada diante de escolhas simples, como o que vestir ou o que comer.
- Não consegue resolver problemas do dia a dia, como o que fazer quando a luz acaba ou o carro não liga.
-
Pode tomar decisões impulsivas ou sem lógica, como gastar todo o dinheiro em uma compra desnecessária.
-
Lentidão no raciocínio:
- Demora muito mais tempo para entender uma conversa ou responder a uma pergunta.
- Tem dificuldade para acompanhar programas de TV, filmes ou notícias.
- Parece “perder o fio da meada” no meio de uma atividade, como cozinhar ou se vestir.
Exemplo concreto:
Imagine que você está acostumado a fazer um bolo todo domingo. Antes, você seguia a receita sem problemas, media os ingredientes e sabia exatamente quando tirar o bolo do forno. Agora, com a demência vascular, você pode:
– Esquecer de colocar o fermento.
– Não saber mais em que ordem misturar os ingredientes.
– Deixar o bolo queimar porque não lembra de ajustar o timer.
3. Dificuldade para falar ou entender a linguagem (afasia)
O que diz o CID-10/DSM-5:
“Afasia (dificuldade para falar, compreender, ler ou escrever).”
Como isso aparece na prática?
- Fala arrastada ou confusa:
- A pessoa sabe o que quer dizer, mas as palavras não saem direito. Pode trocar sílabas (“patela” em vez de “panela”) ou inventar palavras que não existem.
-
Fala frases sem sentido, como “Eu quero o azul que está na mesa” quando não há nada azul por perto.
-
Dificuldade para entender o que os outros dizem:
- Não consegue acompanhar uma conversa, especialmente se houver mais de uma pessoa falando.
- Pede para repetir várias vezes a mesma coisa, como se não tivesse ouvido.
-
Responde coisas que não têm a ver com a pergunta, como perguntar “Que horas são?” e ela responder “O céu está azul”.
-
Problemas para ler e escrever:
- Não consegue mais ler um livro ou entender uma receita.
- Escreve palavras com erros ou de forma ilegível.
- Assina documentos sem entender o que está assinando.
Exemplo concreto:
Se você perguntar: “Você quer café ou suco?”, a pessoa pode:
– Responder “Sim” (sem escolher uma opção).
– Repetir a pergunta em vez de responder.
– Ficar olhando para você sem entender.
4. Problemas de movimento (apraxia e dificuldades motoras)
O que diz o CID-10/DSM-5:
“Apraxia (incapacidade de executar atividades motoras apesar de ter a capacidade física e o desejo de realizá-las).”
Como isso aparece na prática?
- Dificuldade para realizar tarefas que antes eram fáceis:
- Não consegue mais abotoar uma camisa, amarrar os sapatos ou usar talheres.
- Tem dificuldade para usar o controle remoto da TV ou o celular.
-
Não sabe mais como escovar os dentes ou pentear o cabelo.
-
Andar mais devagar ou com passos arrastados:
- Parece que está “deslizando” os pés no chão, como se tivesse medo de cair.
- Tropeça com frequência em tapetes ou degraus.
-
Precisa de apoio para se levantar de uma cadeira.
-
Tremores ou movimentos descontrolados:
- As mãos tremem ao tentar pegar um copo ou escrever.
- Derruba objetos com frequência.
- Tem dificuldade para segurar um lápis ou uma xícara.
Exemplo concreto:
Antes, a pessoa conseguia tricotar, costurar ou consertar objetos sem problemas. Agora, ela pode:
– Não saber mais como segurar as agulhas de tricô.
– Tentar colocar a linha na agulha várias vezes sem sucesso.
– Ficar frustrada e desistir da atividade.
5. Mudanças de personalidade e comportamento
O que diz o CID-10/DSM-5:
“Deterioração do controle emocional, do comportamento social ou da motivação.”
Como isso aparece na prática?
- Irritabilidade e impaciência:
- Fica brava com facilidade, mesmo por coisas pequenas, como um barulho ou uma pergunta simples.
- Grita ou xinga sem motivo aparente.
-
Não tolera esperar, como em uma fila ou no trânsito.
-
Apatia (falta de interesse em tudo):
- Perde o interesse por hobbies que antes adorava, como ler, assistir a novelas ou passear.
- Fica horas sentada sem fazer nada, como se estivesse “desligada”.
-
Não quer mais sair de casa ou receber visitas.
-
Comportamentos inadequados:
- Faz comentários ofensivos ou sem noção, como chamar alguém de “gordo” ou “feio”.
- Perde a vergonha de falar sobre assuntos íntimos em público.
-
Pode ter atitudes impulsivas, como comprar coisas desnecessárias ou comer demais.
-
Depressão e ansiedade:
- Chora com frequência sem motivo claro.
- Fica muito preocupada com coisas simples, como se a casa vai pegar fogo.
- Diz frases como “Não sirvo para nada” ou “Queria morrer”.
Exemplo concreto:
Antes, a pessoa era calma e paciente. Agora, ela pode:
– Gritar com o neto por derrubar um copo de suco.
– Chorar porque não consegue abrir uma embalagem.
– Recusar-se a tomar banho ou trocar de roupa por dias.
6. Dificuldade para reconhecer pessoas e objetos (agnosia)
O que diz o CID-10/DSM-5:
“Agnosia (incapacidade de reconhecer ou identificar objetos, apesar da função sensorial estar intacta).”
Como isso aparece na prática?
- Não reconhece pessoas conhecidas:
- Olha para o filho ou o cônjuge e não sabe quem é.
- Chama as pessoas pelo nome errado ou diz “aquele homem” em vez de “meu marido”.
-
Fica confusa ao ver o próprio reflexo no espelho, achando que é outra pessoa.
-
Não reconhece objetos comuns:
- Não sabe mais para que serve uma escova de dentes ou um garfo.
- Tenta usar um pente como se fosse uma colher.
-
Olha para um telefone e não sabe como atender.
-
Dificuldade para reconhecer lugares:
- Não reconhece a própria casa ou o quarto.
- Se perde dentro de casa, como não saber onde fica o banheiro.
- Fica confusa em lugares que frequentava antes, como a igreja ou o mercado.
Exemplo concreto:
A pessoa pode:
– Pegar uma chave de fenda e tentar escovar os dentes com ela.
– Olhar para o neto e perguntar: “Quem é você?”.
– Tentar entrar em uma casa que não é a dela, achando que é.
7. Delírios e alucinações (em alguns casos)
O que diz o CID-10/DSM-5:
“Delírios (crenças falsas e fixas) ou alucinações (percepções sem estímulo externo) podem ocorrer em alguns casos.”
Como isso aparece na prática?
- Delírios (ideias falsas que a pessoa acredita piamente):
- Acha que alguém está roubando suas coisas (quando na verdade ela mesma guardou em outro lugar).
- Acredita que o cônjuge está tendo um caso (sem nenhuma evidência).
-
Pensa que está sendo perseguida ou espionada.
-
Alucinações (ver, ouvir ou sentir coisas que não existem):
- Vê pessoas ou animais que não estão lá.
- Ouve vozes que a mandam fazer coisas.
- Sente cheiros estranhos, como de queimado, quando não há nada queimando.
Exemplo concreto:
A pessoa pode:
– Acusar o cuidador de roubar seu dinheiro, mesmo que ele nunca tenha mexido em nada.
– Ver um cachorro no quarto e tentar afugentá-lo, mesmo que não haja nenhum animal ali.
– Ouvir o telefone tocar e atender, mesmo que ele não tenha tocado.
Um alerta importante: nem todo esquecimento é demência
Ter um ou dois desses sintomas não significa que a pessoa tenha demência vascular. Por exemplo:
– Esquecer onde deixou as chaves de vez em quando é normal.
– Ter dificuldade para encontrar uma palavra às vezes também é comum.
– Ficar irritado em um dia ruim não é sinal de demência.
O que diferencia a demência vascular é:
✅ A frequência: Os sintomas acontecem quase todos os dias.
✅ A intensidade: Eles atrapalham a vida da pessoa (trabalho, relacionamentos, autonomia).
✅ A progressão: Os sintomas pioram com o tempo, não melhoram.
✅ O conjunto: Não é só um sintoma isolado, mas vários deles juntos.
Se você ou alguém que você ama está apresentando esses sinais, o ideal é procurar um médico para uma avaliação completa. Quanto antes o diagnóstico for feito, melhores são as chances de retardar a progressão e melhorar a qualidade de vida.
Como se manifesta no dia a dia?
A demência vascular não afeta só a memória — ela muda toda a rotina da pessoa e de quem convive com ela. Vamos ver como ela aparece em diferentes áreas da vida.
No trabalho ou na escola
Se a pessoa ainda trabalha ou estuda, os sintomas podem aparecer assim:
- Dificuldade para acompanhar tarefas:
- Não consegue mais fazer relatórios ou planilhas que antes fazia com facilidade.
- Esquece reuniões importantes ou prazos de entrega.
-
Tem dificuldade para aprender novas funções no trabalho.
-
Problemas de comunicação:
- Não entende instruções simples do chefe ou dos colegas.
- Fala coisas sem sentido em reuniões.
-
Escreve e-mails confusos ou com erros graves.
-
Lentidão e erros frequentes:
- Demora muito mais tempo para realizar tarefas que antes fazia rápido.
- Comete erros bobos, como enviar um e-mail para a pessoa errada ou calcular valores incorretos.
- Precisa de ajuda constante para coisas que antes fazia sozinha.
Exemplo concreto:
Um contador que sempre foi organizado pode:
– Esquecer de lançar dados importantes em uma planilha.
– Não conseguir mais fechar o balanço no fim do mês.
– Ficar confuso com sistemas novos de computador.
Nos relacionamentos
A demência vascular pode mudar a personalidade da pessoa, o que afeta muito os relacionamentos:
- Familiares:
- O cônjuge pode se sentir como um “cuidador” em vez de um parceiro.
- Os filhos podem ficar frustrados porque a pessoa não reconhece os netos.
-
Brigas podem acontecer por causa de esquecimentos ou acusações infundadas.
-
Amigos:
- A pessoa pode parar de atender telefonemas ou recusar convites para sair.
- Amigos podem se afastar porque ela repete as mesmas histórias várias vezes.
-
Pode fazer comentários ofensivos sem perceber.
-
Parceiros amorosos:
- A intimidade pode diminuir porque a pessoa perde o interesse em atividades que antes gostava.
- O parceiro pode se sentir sobrecarregado com as novas responsabilidades.
- Ciúmes e desconfianças podem surgir sem motivo.
Exemplo concreto:
Um casal que sempre viajou junto pode:
– A pessoa com demência se recusar a sair de casa.
– Esquecer os nomes dos lugares que visitaram juntos.
– Ficar irritada durante a viagem porque não entende o que está acontecendo.
Na rotina diária
As atividades mais simples podem se tornar um desafio:
- Sono:
- A pessoa pode dormir de dia e ficar acordada à noite.
- Ter pesadelos ou acordar assustada.
-
Dormir demais ou de menos.
-
Alimentação:
- Esquecer de comer ou comer várias vezes seguidas.
- Não saber mais como preparar refeições simples.
-
Perder o interesse por comida ou, ao contrário, comer compulsivamente.
-
Autocuidado:
- Esquecer de tomar banho ou trocar de roupa.
- Não escovar os dentes ou pentear o cabelo.
-
Ter dificuldade para usar o banheiro sozinha.
-
Lazer:
- Perder o interesse por hobbies que antes adorava.
- Não conseguir mais assistir a um filme até o fim porque não entende a história.
- Ficar frustrada ao tentar ler um livro ou fazer palavras cruzadas.
Exemplo concreto:
Uma pessoa que sempre gostou de cozinhar pode:
– Deixar o fogão ligado e causar um incêndio.
– Esquecer de temperar a comida ou colocar sal demais.
– Não saber mais como usar o micro-ondas.
Na saúde física
A demência vascular está ligada a problemas nos vasos sanguíneos, então é comum que a pessoa também tenha:
- Pressão alta ou diabetes não controlados.
- Dores de cabeça frequentes.
- Tonturas ou desmaios.
- Fraqueza em um lado do corpo (como após um derrame).
- Problemas de visão ou audição.
Exemplo concreto:
A pessoa pode:
– Tropeçar com frequência porque não levanta os pés direito ao andar.
– Ter dificuldade para engolir e engasgar com líquidos.
– Sentir dormência nas mãos ou nos pés.
O que causa a demência vascular?
A demência vascular não tem uma única causa — ela é resultado de uma combinação de fatores que danificam os vasos sanguíneos do cérebro. Vamos entender cada um deles.
1. Fatores genéticos (a herança familiar)
Imagine que os vasos sanguíneos são como canos de água. Se na sua família há pessoas com “canos frágeis” (que entopem ou estouram com facilidade), você pode ter uma tendência maior a desenvolver problemas semelhantes.
- Histórico familiar de derrames ou demência: Se seus pais, avós ou irmãos tiveram derrames, pressão alta ou demência, seu risco é maior.
- Genes específicos: Alguns genes aumentam a chance de ter problemas nos vasos sanguíneos, como o gene APOE-e4 (que também está ligado à doença de Alzheimer).
- Doenças genéticas raras: Algumas condições, como a CADASIL (uma doença que afeta os vasos sanguíneos do cérebro), podem causar demência vascular em pessoas mais jovens.
Mas atenção:
Ter histórico familiar não significa que você vai desenvolver demência vascular. Muitos fatores de risco podem ser controlados com hábitos saudáveis.
2. Fatores neurobiológicos (o que acontece no cérebro)
O cérebro é como uma rede elétrica complexa. Quando os vasos sanguíneos que o alimentam são danificados, algumas “luzes” começam a piscar ou se apagam. Isso acontece de duas formas principais:
A. Infartos cerebrais (derrames)
- O que é? Um derrame acontece quando um vaso sanguíneo no cérebro entope ou se rompe, interrompendo o fluxo de sangue para uma área.
- Como isso causa demência?
- Se o derrame for grande, pode matar uma parte do cérebro de uma vez, causando sintomas graves (como paralisia ou perda da fala).
- Se forem muitos derrames pequenos (chamados de “infartos silenciosos”), eles vão acumulando danos até que a pessoa comece a ter sintomas de demência.
B. Doença dos pequenos vasos (subcortical)
- O que é? Os vasos sanguíneos menores do cérebro ficam rígidos, estreitos ou danificados, como canos enferrujados.
- Como isso causa demência?
- O sangue não chega direito às áreas profundas do cérebro, causando pequenos danos que se acumulam.
- A pessoa pode ter dificuldade para andar, falar ou controlar as emoções, mesmo que a memória não seja tão afetada no começo.
Analogia:
Pense no cérebro como um jardim. Os vasos sanguíneos são as mangueiras que regam as plantas. Se algumas mangueiras entopem ou estouram, partes do jardim começam a murchar. Se muitas mangueiras tiverem problemas, o jardim inteiro sofre.
3. Fatores ambientais (o que você pode controlar)
Alguns hábitos e condições de vida aumentam muito o risco de demência vascular. A boa notícia é que muitos deles podem ser mudados:
A. Pressão alta (hipertensão)
- Por que é perigosa? A pressão alta danifica os vasos sanguíneos, deixando-os mais frágeis e propensos a entupir ou romper.
- Como controlar? Com alimentação saudável, exercícios, remédios (se necessário) e acompanhamento médico.
B. Diabetes
- Por que é perigosa? O excesso de açúcar no sangue danifica os vasos sanguíneos, incluindo os do cérebro.
- Como controlar? Com dieta, exercícios, remédios e monitoramento da glicemia.
C. Colesterol alto
- Por que é perigoso? O colesterol em excesso forma placas nas artérias, que podem entupir os vasos do cérebro.
- Como controlar? Com alimentação pobre em gorduras ruins, exercícios e, se necessário, remédios.
D. Tabagismo
- Por que é perigoso? O cigarro enrijece as artérias e aumenta o risco de derrames.
- Como controlar? Parar de fumar (nunca é tarde!).
E. Sedentarismo
- Por que é perigoso? A falta de exercício enfraquece o coração e os vasos sanguíneos.
- Como controlar? Caminhar, nadar, dançar — qualquer atividade física ajuda.
F. Obesidade
- Por que é perigosa? O excesso de peso sobrecarrega o coração e aumenta o risco de pressão alta e diabetes.
- Como controlar? Com alimentação equilibrada e exercícios.
G. Estresse crônico
- Por que é perigoso? O estresse prolongado aumenta a pressão arterial e inflama os vasos sanguíneos.
- Como controlar? Com técnicas de relaxamento, terapia e atividades prazerosas.
4. Mitos sobre as causas da demência vascular
❌ Mito 1: “Demência vascular é só coisa de velho.”
✅ Verdade: Embora seja mais comum depois dos 65 anos, pessoas mais jovens também podem desenvolver demência vascular, especialmente se tiverem pressão alta, diabetes ou histórico de derrames.
❌ Mito 2: “Se meus pais tiveram, eu também vou ter.”
✅ Verdade: A genética aumenta o risco, mas não é uma sentença. Muitos fatores de risco (como pressão alta e diabetes) podem ser controlados com hábitos saudáveis.
❌ Mito 3: “Demência vascular não tem cura, então não adianta fazer nada.”
✅ Verdade: Não existe cura, mas o tratamento pode retardar a progressão e melhorar a qualidade de vida. Quanto antes começar, melhor!
❌ Mito 4: “Só quem teve derrame pode ter demência vascular.”
✅ Verdade: Muitas pessoas desenvolvem demência vascular sem nunca terem tido um derrame evidente. Os danos podem acontecer aos poucos, com pequenos infartos que não causam sintomas imediatos.
❌ Mito 5: “Demência vascular é a mesma coisa que Alzheimer.”
✅ Verdade: São doenças diferentes! Na Alzheimer, as células cerebrais morrem por causa de placas de proteína. Na demência vascular, o problema é nos vasos sanguíneos. Os sintomas podem ser parecidos, mas as causas e os tratamentos são diferentes.
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico de demência vascular pode ser assustador, mas é o primeiro passo para entender o que está acontecendo e buscar o melhor tratamento. Vamos ver como funciona esse processo.
1. O caminho até o diagnóstico
O diagnóstico não é feito em uma única consulta. Geralmente, envolve vários passos:
A. Primeira consulta: conversa e exame físico
- O que acontece? O médico (geralmente um neurologista, geriatra ou psiquiatra) vai:
- Perguntar sobre os sintomas (quando começaram, como estão evoluindo).
- Investigar o histórico médico (pressão alta, diabetes, derrames, etc.).
- Fazer um exame físico para verificar sinais de problemas nos vasos sanguíneos (como pressão alta, sopros no coração ou fraqueza em um lado do corpo).
-
Aplicar testes simples de memória e raciocínio (como pedir para lembrar três palavras ou desenhar um relógio).
-
Quanto tempo dura? Cerca de 40 a 60 minutos.
B. Exames de sangue
- Para que servem? Para descartar outras causas de esquecimento, como:
- Falta de vitaminas (como B12).
- Problemas na tireoide.
- Infecções.
- Efeitos colaterais de remédios.
C. Exames de imagem do cérebro
- Tomografia computadorizada (TC) ou ressonância magnética (RM):
- Mostram se houve derrames, infartos ou danos nos vasos sanguíneos.
- Ajudam a diferenciar a demência vascular de outras condições, como Alzheimer ou tumores.
- Doppler de carótidas:
- Verifica se há entupimentos nas artérias do pescoço (que levam sangue para o cérebro).
D. Avaliação neuropsicológica
- O que é? Um teste mais detalhado, feito por um psicólogo ou neuropsicólogo, para avaliar:
- Memória.
- Linguagem.
- Raciocínio.
- Habilidades motoras.
- Como é? A pessoa faz tarefas como:
- Lembrar uma lista de palavras.
- Resolver problemas simples.
- Copiar desenhos.
- Nomear objetos.
E. Outros exames (se necessário)
- Eletroencefalograma (EEG): Para verificar a atividade elétrica do cérebro.
- Punção lombar: Em casos raros, para descartar infecções ou outras doenças.
2. Quanto tempo leva para ter o diagnóstico?
O processo pode levar de algumas semanas a alguns meses, dependendo da disponibilidade de exames e da complexidade do caso. Em alguns lugares do Brasil, especialmente no SUS, pode haver fila de espera para exames como ressonância magnética.
Dica:
Se os sintomas estiverem piorando rápido, é importante insistir com o médico para agilizar os exames. Em casos urgentes, o diagnóstico pode ser feito em poucas semanas.
3. Quem pode diagnosticar?
- Neurologista: Especialista em doenças do cérebro e dos nervos.
- Geriatra: Médico especializado em idosos.
- Psiquiatra: Pode ajudar, especialmente se houver sintomas como depressão ou alucinações.
- Clínico geral: Em cidades pequenas, pode ser o primeiro a suspeitar do diagnóstico e encaminhar para um especialista.
No SUS:
– O diagnóstico pode começar na UBS (Unidade Básica de Saúde).
– O médico da UBS pode encaminhar para um neurologista ou geriatra no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) ou em um hospital público.
– Exames como tomografia e ressonância são feitos pelo SUS, mas pode haver fila de espera.
No particular:
– O diagnóstico costuma ser mais rápido, mas pode ser caro (uma ressonância magnética custa entre R$ 500 e R$ 1.500).
– Alguns planos de saúde cobrem os exames, mas é importante verificar a cobertura.
4. Diagnóstico diferencial: o que pode ser confundido com demência vascular?
Muitas condições podem causar sintomas parecidos com os da demência vascular. O médico precisa descartar todas elas antes de confirmar o diagnóstico. As principais são:
A. Doença de Alzheimer
- Como diferenciar?
- Na Alzheimer, a perda de memória é o sintoma mais marcante e piora de forma lenta e constante.
- Na demência vascular, os sintomas podem variar mais (às vezes a pessoa tem dificuldade para falar, outras vezes para andar) e podem piorar em “degraus” (após um derrame, por exemplo).
B. Depressão
- Como diferenciar?
- Na depressão, a pessoa pode ter esquecimentos, mas consegue se lembrar quando se esforça.
- Na demência, os esquecimentos são persistentes e não melhoram com estímulo.
- A depressão costuma vir com tristeza profunda, enquanto a demência pode causar apatia (falta de interesse em tudo).
C. Delirium (confusão mental aguda)
- Como diferenciar?
- O delirium é repentino (começa de um dia para o outro) e pode ser causado por infecções, desidratação ou remédios.
- A demência é progressiva (piora aos poucos).
- No delirium, a pessoa pode ficar muito agitada ou sonolenta, enquanto na demência os sintomas são mais estáveis.
D. Hidrocefalia de pressão normal
- Como diferenciar?
- Causa dificuldade para andar, incontinência urinária e esquecimentos.
- É tratável com uma cirurgia para drenar o excesso de líquido do cérebro.
E. Tumores cerebrais
- Como diferenciar?
- Os sintomas costumam piorar muito rápido.
- Podem causar dores de cabeça fortes, náuseas e convulsões.
F. Deficiência de vitaminas (como B12)
- Como diferenciar?
- Causa esquecimentos, mas melhora com a reposição da vitamina.
- Exames de sangue confirmam o diagnóstico.
G. Efeitos colaterais de remédios
- Como diferenciar?
- Alguns remédios (como calmantes, antidepressivos ou remédios para pressão) podem causar esquecimentos.
- O médico pode ajustar a medicação para ver se os sintomas melhoram.
Tratamento
Receber o diagnóstico de demência vascular pode ser um baque, mas é importante saber que existem tratamentos que podem ajudar a retardar a progressão da doença e melhorar a qualidade de vida. O tratamento é multidisciplinar, ou seja, envolve remédios, terapia, mudanças no estilo de vida e apoio da família.
Vamos entender cada parte do tratamento.
1. Medicamentos
Os remédios não curam a demência vascular, mas podem:
– Melhorar os sintomas (como memória, linguagem e humor).
– Retardar a progressão da doença.
– Prevenir novos derrames (que piorariam os sintomas).
A. Remédios para melhorar a circulação cerebral
- O que fazem? Aumentam o fluxo de sangue no cérebro e protegem os vasos sanguíneos.
- Exemplos:
- Pentoxifilina: Melhora a circulação.
- Cilostazol: Ajuda a prevenir novos infartos cerebrais.
- Nimodipina: Protege os vasos sanguíneos após um derrame.
- Efeitos colaterais: Dor de cabeça, tontura, náusea.
B. Remédios para melhorar a memória e o raciocínio
- O que fazem? Ajudam a proteger as células cerebrais e melhoram a comunicação entre elas.
- Exemplos:
- Donepezila, Rivastigmina, Galantamina: Usados também na doença de Alzheimer, podem ajudar em alguns casos de demência vascular.
- Memantina: Protege as células cerebrais do excesso de glutamato (uma substância que, em excesso, pode danificar o cérebro).
- Efeitos colaterais: Náusea, diarreia, insônia, agitação.
C. Remédios para controlar fatores de risco
- Pressão alta: Remédios como losartana, enalapril, hidroclorotiazida.
- Diabetes: Metformina, insulina.
- Colesterol alto: Sinvastatina, atorvastatina.
- Anticoagulantes (se houver risco de derrames): Varfarina, rivaroxabana.
Importante:
– Nunca pare de tomar um remédio sem falar com o médico. Alguns remédios, como os para pressão alta, precisam ser tomados para sempre.
– Os remédios não fazem efeito imediatamente. Pode levar semanas ou meses para notar melhora.
– Eles não “curam” a demência, mas podem retardar a progressão e melhorar a qualidade de vida.
2. Psicoterapia
A terapia não vai “consertar” os danos no cérebro, mas pode ajudar a pessoa e a família a lidar com as mudanças e melhorar a qualidade de vida.
A. Terapia cognitivo-comportamental (TCC)
- Para quem é indicada? Para pessoas com demência vascular que estão deprimidas, ansiosas ou com dificuldade para aceitar o diagnóstico.
- Como funciona?
- O terapeuta ajuda a identificar pensamentos negativos (como “Não sirvo para nada”) e substituí-los por pensamentos mais realistas.
- Ensina técnicas de relaxamento para lidar com a ansiedade.
- Ajuda a estabelecer metas realistas (como retomar um hobby ou fazer pequenas tarefas em casa).
- Duração: Geralmente de 12 a 20 sessões, mas pode ser mais longa se necessário.
B. Terapia de estimulação cognitiva
- Para quem é indicada? Para pessoas com sintomas leves a moderados de demência vascular.
- Como funciona?
- São atividades em grupo ou individuais para exercitar o cérebro, como:
- Jogos de memória.
- Exercícios de linguagem (como contar histórias).
- Atividades manuais (como pintura ou artesanato).
- O objetivo é manter as funções cerebrais ativas pelo maior tempo possível.
- Onde encontrar? Em CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), clínicas de reabilitação ou grupos de apoio.
C. Terapia familiar
- Para quem é indicada? Para familiares e cuidadores que estão sobrecarregados ou não sabem como lidar com a situação.
- Como funciona?
- O terapeuta ajuda a família a entender a doença e a lidar com as mudanças de comportamento.
- Ensina estratégias para se comunicar com a pessoa com demência (por exemplo, usar frases curtas e simples).
- Ajuda a dividir as tarefas de cuidado para evitar sobrecarga.
- Duração: Pode ser pontual (algumas sessões) ou contínua, dependendo da necessidade.
D. Terapia ocupacional
- Para quem é indicada? Para pessoas com dificuldade para realizar atividades do dia a dia (como se vestir, cozinhar ou tomar banho).
- Como funciona?
- O terapeuta ensina adaptações para tornar as tarefas mais fáceis, como:
- Usar roupas com velcro em vez de botões.
- Colocar etiquetas nos armários para identificar o que tem dentro.
- Usar utensílios adaptados (como talheres com cabos grossos).
- Também ajuda a organizar a rotina para reduzir a confusão.
- Onde encontrar? Em clínicas de reabilitação, CAPS ou hospitais.
3. Mudanças no dia a dia
Além dos remédios e da terapia, pequenas mudanças no estilo de vida podem fazer uma grande diferença na qualidade de vida e na progressão da doença.
A. Exercício físico
- Por que ajuda? Melhora a circulação sanguínea, reduz a pressão arterial e estimula o cérebro.
- Quais exercícios são melhores?
- Caminhada: 30 minutos por dia, 5 vezes por semana.
- Natação: Ótima para quem tem problemas nas articulações.
- Dança: Combina movimento e memória (a pessoa precisa lembrar os passos).
- Tai chi chuan: Melhora o equilíbrio e reduz o risco de quedas.
- Dica: Comece devagar e escolha uma atividade que a pessoa goste. O importante é manter a regularidade.
B. Alimentação
- Dieta mediterrânea: É a mais recomendada para a saúde do cérebro. Inclui:
- Peixes (salmão, sardinha, atum): Ricos em ômega-3, que protege os vasos sanguíneos.
- Azeite de oliva: Reduz a inflamação no cérebro.
- Frutas e vegetais: Ricos em antioxidantes, que protegem as células cerebrais.
- Nozes e castanhas: Melhoram a memória.
- Grãos integrais: Fornecem energia de forma constante.
- O que evitar?
- Açúcar refinado: Piora o diabetes e danifica os vasos sanguíneos.
- Gorduras trans (encontradas em frituras e alimentos industrializados): Aumentam o colesterol ruim.
- Sal em excesso: Aumenta a pressão arterial.
- Álcool: Pode piorar os sintomas e interagir com os remédios.
C. Sono
- Por que é importante? Durante o sono, o cérebro “limpa” toxinas e consolida memórias.
- Dicas para dormir melhor:
- Rotina: Tente dormir e acordar sempre no mesmo horário.
- Ambiente: Mantenha o quarto escuro, silencioso e fresco.
- Evite telas: Desligue TV, celular e computador 1 hora antes de dormir.
- Luz solar: Tome sol pela manhã para regular o relógio biológico.
- Café da tarde: Evite café, chá preto e refrigerantes à tarde e à noite.
- Se a pessoa acorda muito à noite:
- Verifique se ela não está com dor, fome ou vontade de ir ao banheiro.
- Evite cochilos longos durante o dia.
D. Estimulação cognitiva
- O que é? Atividades que exercitam o cérebro e ajudam a manter as funções cognitivas.
- Exemplos:
- Jogos de memória: Como jogo da memória, palavras cruzadas ou sudoku.
- Leitura: Livros, jornais ou revistas (mesmo que seja só algumas páginas por dia).
- Música: Tocar um instrumento ou cantar músicas antigas (a música ativa várias áreas do cérebro).
- Artesanato: Pintura, tricô, crochê ou marcenaria.
- Cozinhar: Seguir uma receita simples pode ser um ótimo exercício.
- Dica: Escolha atividades que a pessoa goste e que sejam desafiadoras, mas não frustrantes.
E. Tecnologia assistiva
- O que é? Dispositivos que ajudam a pessoa a manter a independência por mais tempo.
- Exemplos:
- Relógios e calendários com alarmes: Para lembrar de tomar remédios ou de compromissos.
- Celulares com botões grandes: Para facilitar o uso.
- GPS para idosos: Ajuda a pessoa a se localizar se ela se perder.
- Sensores de movimento: Alertam a família se a pessoa cair ou sair de casa à noite.
- Assistentes virtuais: Como Alexa ou Google Home, que podem lembrar a pessoa de tarefas ou tocar músicas.
Convivendo com o diagnóstico
Receber o diagnóstico de demência vascular é um choque — tanto para a pessoa quanto para a família. Mas é possível viver bem com a doença, especialmente se houver apoio, informação e adaptações.
Vamos ver como lidar com essa nova realidade.
Para a pessoa com o diagnóstico
1. Aceitar as mudanças (sem se culpar)
- É normal sentir raiva, tristeza ou medo. Essas emoções fazem parte do processo de adaptação.
- Não é sua culpa. A demência vascular é uma doença, não uma fraqueza ou falta de esforço.
- Fale sobre seus sentimentos. Converse com um terapeuta, um amigo ou um grupo de apoio.
2. Manter a independência pelo maior tempo possível
- Faça pequenas tarefas sozinho. Mesmo que demore mais, é importante manter a autonomia.
- Use lembretes. Anote compromissos, coloque alarmes no celular ou use um quadro de avisos em casa.
- Peça ajuda quando precisar. Não tenha vergonha de pedir para alguém repetir uma informação ou ajudar com uma tarefa.
3. Cuidar da saúde física e mental
- Tome os remédios corretamente. Use uma caixinha de remédios com divisórias para não esquecer.
- Faça exercícios. Mesmo uma caminhada curta ajuda a melhorar o humor e a circulação.
- Alimente-se bem. Uma dieta saudável pode retardar a progressão da doença.
- Durma bem. O sono é essencial para a saúde do cérebro.
4. Manter a vida social
- Não se isole. Mesmo que seja difícil, tente manter contato com amigos e familiares.
- Participe de grupos de apoio. Conhecer outras pessoas na mesma situação pode ser reconfortante.
- Faça atividades prazerosas. Pintura, música, jardinagem — o que você gostava antes, continue fazendo!
5. Planejar o futuro
- Converse com a família sobre seus desejos. Onde quer morar? Quem vai cuidar de você? Como quer ser tratado?
- Organize documentos importantes. Procuração, testamento, plano de saúde — deixe tudo em ordem.
- Pense em cuidados paliativos. Se a doença avançar, é importante ter um plano para garantir conforto e dignidade.
Para familiares e amigos
Cuidar de uma pessoa com demência vascular pode ser desafiador e emocionalmente desgastante. É normal sentir culpa, raiva, tristeza e exaustão. Mas lembre-se: você não está sozinho, e existem formas de cuidar do outro sem se esquecer de si mesmo.
1. Como ajudar de forma efetiva (e o que NÃO fazer)
✅ O que fazer:
– Seja paciente. A pessoa pode demorar para responder ou repetir a mesma pergunta várias vezes.
– Use frases curtas e simples. Em vez de “Vamos almoçar e depois você pode descansar um pouco”, diga “Vamos almoçar agora”.
– Mantenha uma rotina. Isso reduz a confusão e a ansiedade.
– Dê opções limitadas. Em vez de “O que você quer comer?”, pergunte “Quer arroz ou macarrão?”.
– Use pistas visuais. Coloque etiquetas nos armários ou fotos nas portas para ajudar a pessoa a se localizar.
– Elogie os esforços. Mesmo que ela não consiga fazer algo perfeitamente, reconheça o que ela conseguiu fazer.
– Distraia em vez de confrontar. Se ela estiver agitada ou confusa, mude de assunto ou sugira uma atividade prazerosa.
❌ O que NÃO fazer:
– Não discuta ou corrija. Se ela disser que é 1990, não insista que é 2024. Isso só vai deixá-la mais confusa e irritada.
– Não trate como uma criança. Mesmo que ela precise de ajuda, ela ainda é um adulto com sentimentos e memórias.
– Não leve para o pessoal. Se ela ficar irritada ou agressiva, lembre-se de que é a doença falando, não ela.
– Não faça tudo por ela. Deixe que ela faça o que ainda consegue, mesmo que demore mais.
– Não ignore seus próprios sentimentos. Cuidar de alguém com demência é difícil, e é normal se sentir sobrecarregado.
2. Como cuidar de si mesmo enquanto cuida do outro
Cuidar de uma pessoa com demência vascular pode ser fisicamente e emocionalmente exaustivo. Se você não cuidar de si mesmo, não vai conseguir cuidar bem do outro.
- Peça ajuda. Não tente fazer tudo sozinho. Divida as tarefas com outros familiares ou contrate um cuidador.
- Tire um tempo para si. Mesmo que sejam só 30 minutos por dia, faça algo que goste: ler, caminhar, tomar um café.
- Converse com outras pessoas. Falar sobre o que está sentindo pode aliviar o peso. Procure grupos de apoio para cuidadores.
- Aceite que você não é perfeito. Você vai cometer erros, e tudo bem. O importante é tentar fazer o seu melhor.
- Procure ajuda profissional. Se estiver se sentindo deprimido ou ansioso, converse com um psicólogo ou psiquiatra.
3. Como explicar para outras pessoas
Muitas pessoas não entendem o que é demência vascular e podem fazer comentários inadequados. Veja como explicar:
- Para crianças:
- “O vovô/vovó está doente, e por isso às vezes esquece as coisas. Não é culpa dele, e ele ainda ama muito você.”
-
“Às vezes ele pode ficar bravo ou confuso, mas não é com você. Vamos ser pacientes e ajudá-lo.”
-
Para amigos e familiares:
- “A demência vascular é uma doença que afeta o cérebro. Ela não tem cura, mas podemos retardar a progressão e melhorar a qualidade de vida.”
- “Às vezes ele pode repetir a mesma pergunta ou não reconhecer vocês. Não é falta de educação, é a doença.”
-
“Precisamos de paciência e compreensão. Se vocês quiserem ajudar, podem vir visitar ou ligar para ele.”
-
Para vizinhos e conhecidos:
- “Meu pai/minha mãe tem uma doença que afeta a memória. Às vezes ele pode se perder ou ficar confuso. Se vocês o virem sozinho na rua, podem me ligar?”
Quando os sintomas podem piorar?
A demência vascular não tem uma progressão linear — os sintomas podem piorar em “degraus”, especialmente após novos derrames ou infartos cerebrais. Alguns sinais de que a doença está avançando:
- Piora súbita dos sintomas: Após um derrame, a pessoa pode perder habilidades que já tinha (como falar ou andar).
- Aumento da confusão: Ela pode não reconhecer mais familiares ou se perder em lugares conhecidos.
- Dificuldade para engolir: Pode engasgar com líquidos ou alimentos.
- Incontinência urinária ou fecal: Perda do controle da bexiga ou do intestino.
- Dificuldade para se movimentar: Pode precisar de cadeira de rodas ou ficar acamada.
- Alucinações ou delírios: Ver ou acreditar em coisas que não existem.
- Apatia extrema: Perda total de interesse em atividades e pessoas.
O que fazer nesses casos?
– Procure o médico imediatamente se houver uma piora súbita (pode ser um novo derrame).
– Adapte o ambiente para garantir segurança (barras no banheiro, tapetes antiderrapantes, remoção de objetos perigosos).
– Considere cuidados paliativos se a doença estiver em estágio avançado. O objetivo é garantir conforto e dignidade, não prolongar o sofrimento.
Perguntas frequentes
1. Demência vascular tem cura?
Não, a demência vascular não tem cura, mas tem tratamento. Os remédios e as mudanças no estilo de vida podem retardar a progressão da doença e melhorar a qualidade de vida. Quanto antes o diagnóstico for feito, melhores são as chances de controlar os sintomas.
2. Quanto tempo uma pessoa com demência vascular vive?
Isso varia muito. Algumas pessoas vivem 10 anos ou mais após o diagnóstico, enquanto outras podem ter uma progressão mais rápida. O tempo de vida depende de:
– Idade (pessoas mais jovens tendem a viver mais).
– Saúde geral (pressão alta, diabetes e problemas cardíacos pioram o prognóstico).
– Cuidados recebidos (tratamento adequado e apoio familiar fazem diferença).
3. Demência vascular é hereditária?
Ter histórico familiar de demência vascular aumenta o risco, mas não significa que você vai desenvolver a doença. Muitos fatores de risco (como pressão alta e diabetes) podem ser controlados com hábitos saudáveis. Se você tem casos na família, é importante fazer check-ups regulares e adotar um estilo de vida saudável.
4. Quais são os primeiros sinais de demência vascular?
Os primeiros sinais podem ser sutis e variam de pessoa para pessoa. Os mais comuns são:
– Esquecimentos frequentes (como não lembrar onde deixou as chaves ou o que comeu no café da manhã).
– Dificuldade para planejar tarefas (como fazer uma lista de compras ou seguir uma receita).
– Lentidão no raciocínio (demorar mais para entender uma conversa ou responder a uma pergunta).
– Mudanças de humor (ficar mais irritado, ansioso ou apático).
– Dificuldade para andar ou se equilibrar (tropeçar com frequência ou andar arrastando os pés).
Se você notar esses sinais em si mesmo ou em alguém próximo, procure um médico.
5. Como diferenciar demência vascular de Alzheimer?
Embora os sintomas possam ser parecidos, há diferenças importantes:
| Demência Vascular | Doença de Alzheimer |
|---|---|
| Causada por problemas nos vasos sanguíneos do cérebro (derrames, infartos). | Causada pela morte de células cerebrais por placas de proteína. |
| Os sintomas podem piorar em “degraus” (após um derrame, por exemplo). | Os sintomas pioram de forma lenta e constante. |
| Pode afetar mais a linguagem, o movimento ou o raciocínio do que a memória. | A perda de memória é o sintoma mais marcante. |
| É mais comum em pessoas com pressão alta, diabetes ou histórico de derrames. | O principal fator de risco é a idade (mais comum depois dos 65 anos). |
| Pode ser prevenida com controle da pressão arterial, diabetes e colesterol. | Não há prevenção comprovada, mas hábitos saudáveis podem retardar o início. |
Importante: Algumas pessoas têm as duas doenças ao mesmo tempo (demência mista). Nesse caso, os sintomas podem ser uma combinação dos dois tipos.
6. Quais remédios são usados para demência vascular?
Os remédios mais usados são:
– Para melhorar a circulação cerebral: Pentoxifilina, cilostazol, nimodipina.
– Para melhorar a memória e o raciocínio: Donepezila, rivastigmina, galantamina, memantina.
– Para controlar fatores de risco: Remédios para pressão alta, diabetes e colesterol.
– Para prevenir novos derrames: Anticoagulantes (como varfarina ou rivaroxabana).
Nunca tome remédios sem orientação médica. Alguns podem interagir com outros medicamentos ou piorar os sintomas.
7. Como é a evolução da demência vascular?
A evolução varia muito, mas geralmente segue este padrão:
- Fase inicial (leve):
- Esquecimentos leves (como não lembrar onde deixou as chaves).
- Dificuldade para planejar tarefas (como fazer uma lista de compras).
- Mudanças de humor (irritabilidade, apatia).
-
A pessoa ainda consegue viver sozinha, mas pode precisar de ajuda para algumas tarefas.
-
Fase moderada:
- Esquecimentos mais graves (como não reconhecer familiares ou se perder em lugares conhecidos).
- Dificuldade para falar ou entender a linguagem.
- Problemas de movimento (andar mais devagar, tropeçar).
- Comportamentos inadequados (como fazer comentários ofensivos).
-
A pessoa precisa de ajuda para atividades do dia a dia (como se vestir ou tomar banho).
-
Fase avançada (grave):
- Perda total da memória (não reconhece mais ninguém).
- Dificuldade para engolir (risco de engasgar).
- Incontinência urinária e fecal.
- Dificuldade para se movimentar (pode ficar acamada).
- Necessidade de cuidados 24 horas por dia.
Importante: Nem todas as pessoas passam por todas as fases, e a progressão pode ser mais lenta com tratamento adequado.
8. Como prevenir a demência vascular?
A demência vascular pode ser prevenida em muitos casos, porque está ligada a fatores de risco controláveis. As principais medidas são:
- Controlar a pressão arterial: Meça a pressão regularmente e tome os remédios prescritos.
- Controlar o diabetes: Faça exames de glicemia e siga a dieta recomendada.
- Controlar o colesterol: Faça exames de sangue e evite gorduras ruins.
- Não fumar: O cigarro danifica os vasos sanguíneos.
- Fazer exercícios físicos: Pelo menos 30 minutos por dia, 5 vezes por semana.
- Ter uma alimentação saudável: Dieta mediterrânea (rica em peixes, azeite, frutas e vegetais).
- Manter o cérebro ativo: Leia, faça palavras cruzadas, aprenda coisas novas.
- Controlar o estresse: Pratique meditação, yoga ou outras técnicas de relaxamento.
- Dormir bem: Durma de 7 a 9 horas por noite.
Mesmo que você já tenha alguns fatores de risco, nunca é tarde para começar a se cuidar!
9. Como lidar com a agressividade da pessoa com demência vascular?
A agressividade é comum na demência vascular e não é pessoal — é a doença falando. Algumas dicas para lidar com isso:
- Mantenha a calma. Se você ficar irritado, a situação pode piorar.
- Não discuta. Se ela disser que é 1980, não insista que é 2024. Isso só vai deixá-la mais confusa.
- Distraia. Mude de assunto ou sugira uma atividade prazerosa (como ouvir uma música ou tomar um café).
- Dê espaço. Se ela estiver muito agitada, deixe-a sozinha por alguns minutos (desde que esteja segura).
- Identifique gatilhos. Algumas coisas podem desencadear a agressividade, como:
- Fome ou sede.
- Dor ou desconforto.
- Barulho ou aglomeração.
- Mudanças na rotina.
- Peça ajuda. Se a agressividade for frequente ou perigosa, converse com o médico sobre remédios ou outras estratégias.
10. O que fazer se a pessoa com demência vascular se perder?
Se a pessoa sair de casa e não souber voltar, siga estas dicas:
- Mantenha a calma. A maioria das pessoas é encontrada em poucas horas.
- Procure em lugares conhecidos. Ela pode ter ido para a casa de um familiar, uma igreja ou um mercado que frequentava.
- Peça ajuda. Avise vizinhos, amigos e a polícia.
- Use tecnologia. Se ela tiver um celular com GPS, tente localizá-la. Alguns relógios e pulseiras também têm essa função.
- Prevenção:
- Coloque uma pulseira de identificação com o nome e o telefone de um familiar.
- Ensine-a a pedir ajuda para um policial ou uma pessoa de confiança.
- Evite que ela saia sozinha em estágios mais avançados da doença.
Quando procurar ajuda urgente
Alguns sinais indicam que a pessoa precisa de atendimento médico imediato. Procure um pronto-socorro se ela apresentar:
Sinais de alerta vermelho (procure ajuda IMEDIATA)
- Piora súbita dos sintomas: Como não conseguir falar, andar ou reconhecer familiares (pode ser um novo derrame).
- Convulsões: Movimentos involuntários, perda de consciência ou salivação excessiva.
- Dificuldade para engolir: Engasgos frequentes com líquidos ou alimentos.
- Queda com suspeita de fratura: Dor intensa, inchaço ou incapacidade de se movimentar.
- Febre alta: Pode indicar uma infecção (como pneumonia ou infecção urinária).
- Comportamento violento: Agressividade que coloca a pessoa ou os outros em risco.
- Tentativa de suicídio: Frases como “Queria morrer” ou “Não aguento mais” devem ser levadas a sério.
Sinais de alerta amarelo (marque uma consulta o mais rápido possível)
- Piora gradual dos sintomas: Esquecimentos mais frequentes, dificuldade para realizar tarefas do dia a dia.
- Depressão ou ansiedade graves: Choro frequente, isolamento, perda de interesse em tudo.
- Perda de peso sem motivo: Pode indicar dificuldade para se alimentar ou depressão.
- Incontinência urinária ou fecal: Perda do controle da bexiga ou do intestino.
- Dificuldade para dormir: Insônia ou sono excessivo.
Lembre-se: Em casos de emergência, ligue para o SAMU (192) ou vá para o pronto-socorro mais próximo.
Referências
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças (CID-10). 10ª ed. São Paulo: EDUSP, 1997.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
- Alzheimer’s Association. 2023 Alzheimer’s Disease Facts and Figures. Disponível em: alz.org.
- Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Demência Vascular: Diretrizes Clínicas. 2020.
- National Institute on Aging. Vascular Dementia: Causes, Symptoms, and Treatments. Disponível em: nia.nih.gov.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.