Definição e epidemiologia
A emergência psiquiátrica no paciente terminal é definida como a ocorrência aguda de sintomas psiquiátricos de gravidade suficiente para representar risco iminente à vida ou à integridade do paciente, no contexto de uma doença clínica incurável e em fase avançada. A manifestação mais crítica e frequente é a ideação suicida ativa ou a tentativa de suicídio, frequentemente associada a quadros de depressão maior, desesperança e dor física intratável ou mal controlada. Nos sistemas de classificação DSM-5-TR e CID-11, essa condição não constitui um diagnóstico isolado, mas sim uma complicação grave de transtornos mentais preexistentes (como Transtorno Depressivo Maior, Transtorno de Adaptação) ou uma reação psicológica aguda à condição médica (Fatores Psicológicos que Afetam Outras Condições Médicas, no DSM-5-TR). A posição nosológica situa-se na interface entre a psiquiatria de ligação, os cuidados paliativos e a medicina de emergência.
Dados epidemiológicos precisos são desafiadores devido à subnotificação e à complexidade da avaliação em pacientes gravemente enfermos. Estudos indicam que a prevalência de ideação suicida em pacientes com doenças terminais, como câncer avançado, pode variar de 8% a 22%, sendo a taxa de tentativas de suicídio significativamente maior do que na população geral. O risco é particularmente elevado em pacientes com diagnóstico de depressão maior, dor intratável, história prévia de tentativas de suicídio e sensação de ser um fardo para a família. A distribuição por sexo segue o padrão geral de suicídio, com maior número de tentativas entre mulheres, mas maior letalidade e consumação entre homens. Em relação à idade, pacientes terminais mais jovens e idosos apresentam picos de risco. Dados brasileiros específicos são escassos, mas a alta prevalência de câncer e doenças crônicas degenerativas, associada a barreiras no acesso a cuidados paliativos integrais e ao controle adequado da dor, sugere um cenário de vulnerabilidade significativa.
Os principais fatores de risco incluem: 1) História pré-mórbida de tentativas de suicídio (o fator de risco isolado mais potente); 2) Diagnóstico de Transtorno Depressivo Maior ou outros transtornos psiquiátricos; 3) Dor física severa e mal controlada; 4) Desesperança e sentimento de ser um fardo; 5) Déficit cognitivo secundário a metástases cerebrais, delirium ou efeitos de medicações; 6) Isolamento social e percepção de abandono; 7) Doença em fase terminal com prognóstico sombrio e perda de autonomia. O curso clínico é frequentemente agudo e flutuante, podendo exacerbar-se com picos de dor, notícias desfavoráveis sobre o prognóstico ou eventos de perda. A intervenção rápida e multimodal pode modificar favoravelmente este curso.
Etiopatogenia e neurobiologia
A etiologia da crise suicida no paciente terminal é multifatorial, resultante da complexa interação entre vulnerabilidades pré-existentes, o estresse psicológico extremo da terminalidade e alterações neurobiológicas diretas da doença de base e seus tratamentos.
Do ponto de vista neurobiológico, a dor física crônica e o sofrimento psicológico compartilham vias neurais sobrepostas. A dor mal controlada leva a uma ativação crônica do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, com elevação persistente de cortisol, que está associada a redução do volume hipocampal e prejuízo na neurogênese, mecanismos também implicados na depressão maior. Sistemas de neurotransmissão são profundamente afetados: a dor crônica e o estresse esgotam as reservas de serotonina e noradrenalina no sistema nervoso central, neurotransmissores críticos para a modulação do humor, da impulsividade e da própria percepção dolorosa. A disfunção serotoninérgica, em particular, está fortemente ligada à desinibição comportamental e à ideação suicida. O sistema glutamatérgico, envolvido na neuroplasticidade e no sofrimento neuronal, também se encontra alterado. Em pacientes com metástases cerebrais, compressão de estruturas límbicas ou frontais pode causar alterações diretas de personalidade, desinibição e ideação suicida.
Modelos psicológicos enfatizam a interseção entre a desesperança (expectativa negativa sobre o futuro) e a percepção de ser um fardo para os outros. A perda de autonomia, de papéis sociais e da identidade prévia gera um luto antecipatório complexo. A dinâmica psíquica pode envolver a identificação com figuras que cometeram suicídio ou a transformação de afetos opressivos como raiva e culpa em impulsos autoagressivos. O pedido de morte pode, em alguns casos, representar uma tentativa de recuperar o controle sobre uma situação de extrema vulnerabilidade.
Fatores sociais são determinantes: isolamento, suporte familiar frágil, dificuldades econômicas agravadas pela doença e acesso limitado a cuidados paliativos de qualidade (incluindo controle da dor e suporte psicossocial) criam um terreno fértil para a crise. No contexto brasileiro, as desigualdades no acesso aos serviços de saúde, incluindo a escassez de equipes de cuidados paliativos no SUS e a dificuldade em obter opioides para dor de forma ágil, são fatores ambientais críticos que exacerbam o risco.
Quadro clínico
O quadro clínico é dominado pela tríade clássica descrita no Compêndio: depressão, dor física intolerável e desesperança, que convergem para a ideação suicida. As manifestações devem ser avaliadas por domínios:
Humor e Afeto:
- Humor depressivo persistente, com choro fácil ou embotamento afetivo.
- Anedonia marcante, com perda de interesse pelas pessoas e atividades que antes traziam conforto.
- Sentimento profundo de desesperança ("não há saída", "isso nunca vai melhorar").
- Irritabilidade e labilidade emocional.
- Sentimento de ser um fardo para a família e cuidadores, podendo expressar frases como "seria melhor se eu morresse" ou "quero dar um fim a isso".
Cognição:
- Ideação suicida, que pode variar de pensamentos passivos ("eu preferia não acordar") a planos ativos e específicos (acumular medicamentos, pensar em métodos violentos).
- Prejuízos cognitivos podem estar presentes: se secundários a delirium (fluctuantes, com desorientação e alteração do ciclo sono-vigília) ou a metástases cerebrais (mais focais e progressivos, como afasia, apraxia).
- Ruminação sobre a morte, o processo de morrer e o sofrimento.
- Em alguns casos, podem surgir sintomas psicóticos, como delírios de ruína, culpa ou perseguição, ou alucinações auditivas de conteúdo auto-depreciativo ou imperativo.
Comportamento:
- Retraimento social, recusa de visitas ou interações.
- Negociação ou pedido explícito de suicídio assistido ou eutanásia.
- Em casos de agitação psicomotora, o paciente pode apresentar inquietação, incapacidade de permanecer deitado e verbalizações angustiadas.
- Tentativa de suicídio, que no ambiente hospitalar pode se manifestar como recusa de alimentação, hidratação ou medicações essenciais (suicídio passivo).
Sintomas Somáticos:
- Dor: É o sintoma somático cardinal. Pode ser somática/visceral (responsiva a opioides) ou neuropática (requer adjuvantes como antidepressivos e anticonvulsivantes). A dor "total" inclui componentes físicos, emocionais e existenciais.
- Fadiga incapacitante.
- Insônia ou hipersonia.
- Alterações do apetite e peso.
Especificadores diagnósticos relevantes (DSM-5-TR) para o transtorno depressivo subjacente incluiriam "Com características ansiosas", "Com características melancólicas" e, crucialmente, "Com pensamentos de morte ou ideação suicida".
Avaliação e diagnóstico
A avaliação deve ser urgente, compassiva e abrangente, priorizando a segurança do paciente.
Entrevista Clínica (Anamnese):
- Risco Suicida: Avaliar diretamente a presença, frequência, intensidade e letalidade da ideação suicida. Perguntar sobre planos específicos, intenção e acesso aos meios. É fundamental questionar sobre tentativas prévias, que são o maior fator de risco.
- Dor: Caracterizar completamente a dor (localização, intensidade em escala 0-10, qualidade, fatores de melhora/piora). Avaliar a eficácia e os efeitos adversos do esquema analgésico atual.
- História Psiquiátrica: Transtornos prévios, tratamentos e resposta. História familiar de suicídio.
- Condição Médica: Estadiamento da doença, prognóstico, presença de metástases cerebrais, medicações (corticoides, opioides, quimioterápicos que podem causar alterações neuropsiquiátricas).
- Fatores Psicossociais: Suporte familiar, rede social, crenças espirituais, conflitos não resolvidos, situação financeira.
Exame do Estado Mental:
- Aparência e Comportamento: Sinais de descuido, agitação ou retardo psicomotor.
- Humor e Afeto: Avaliar congruência, labilidade, desesperança.
- Conteúdo do Pensamento: Presença de ideação suicida, homicida, delírios (de culpa, ruína, perseguição).
- Percepção: Alucinações auditivas ou visuais.
- Cognição: Triagem para delirium (usando o CAM – Confusion Assessment Method) e para déficits focais sugestivos de envolvimento cerebral estrutural.
- Insight e Julgamento: Frequentemente comprometidos. Avaliar a capacidade de compreender as consequências de seus atos e de aceitar ajuda.
Escalas e Instrumentos Validados no Brasil:
- Para Depressão: Escala de Depressão Geriátrica (GDS-15) ou Inventário de Depressão de Beck (BDI-II), adaptados para o contexto de doença física.
- Para Dor: Escala Visual Analógica (EVA) ou Escala Numérica.
- Para Risco Suicida: Não há escala que substitua a avaliação clínica direta, mas perguntas estruturadas como a C-SSRS (Columbia-Suicide Severity Rating Scale) podem ser úteis.
Exames Complementares:
- Laboratoriais: Hemograma, eletrólitos, função renal e hepática, cálcio, TSH, vitamina B12, ácido fólico para descartar causas reversíveis de delirium ou agravamento de sintomas psiquiátricos.
- Neuroimagem: Ressonância magnética de encéfalo é indicada na suspeita de metástases cerebrais, acidente vascular cerebral ou outras lesões estruturais, especialmente se há alteração cognitiva focal ou nova-onset de sintomas psicóticos.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Características Distintivas | Como Distinguir |
|---|---|---|
| Transtorno Depressivo Maior | Humor deprimido, anedonia, culpa, desesperança. Pode ser comórbido. | A ideação suicida está ligada ao humor depressivo e à desesperança generalizada. |
| Delirium | Flutuação do nível de consciência, desorientação, atenção dispersa. Início agudo. | A ideação suicida pode ser impulsiva, desorganizada e flutuante com o nível de consciência. Avaliação cognitiva é crucial. |
| Dor Intratável | O foco do sofrimento é claramente físico. O pedido de morte visa ao alívio da dor. | A ideação suicida é explicitamente vinculada à presença da dor. "Se a dor passar, não quero morrer". |
| Reação de Adaptação | Sintomas depressivos/ansiosos desencadeados pelo diagnóstico/prognóstico. | Os sintomas são proporcionais ao estressor e a ideação suicida pode ser menos grave e mais reativa. |
| Sintomas Psicóticos | Delírios ou alucinações que comandam o ato. | A ideação suicida é derivada do conteúdo psicótico (ex.: voz que ordena se matar). |
Armadilhas Diagnósticas e Comorbidades:
- Armadilha: Atribuir a ideação suicida apenas a uma "reação compreensível" à doença terminal, negligenciando um transtorno depressivo maior tratável.
- Armadilha: Não investigar delirium em pacientes sob altas doses de opioides ou com múltiplas comorbidades.
- Comorbidade Frequente: A depressão e a ansiedade são altamente comórbidas. A presença de transtorno por uso de substâncias (incluindo uso inadequado de analgésicos) também deve ser considerada.
Tratamento farmacológico
O manejo farmacológico é agressivo e sintoma-dirigido, visando o alívio rápido do sofrimento que alimenta a ideação suicida. A colaboração com a equipe de cuidados paliativos ou clínica é mandatória.
Algoritmo Terapêutico Baseado em Evidências:
- Controle Imediato da Dor (Primeira Linha): A intervenção mais urgente. "Os pacientes terminais que estão em risco de suicídio de modo geral estão com dor. Quando ela é aliviada, é provável que a ideação suicida diminua."
- Tratamento da Depressão/Agitação Subjacente (Segunda Linha, iniciada concomitantemente): Uso de antidepressores ou psicoestimulantes para depressão, e antipsicóticos para agitação ou sintomas psicóticos.
- Tratamento de Condições Específicas (Terceira Linha): ECT para depressão grave, refratária ou com risco vital iminente.
Classes Farmacológicas:
1. Analgésicos (Manejo da Dor):
- Opiáceos (para dor somática/visceral): Morfina, oxicodona, fentanil transdérmico. Titulação rápida até o alívio da dor ou efeitos adversos limitantes (sedação, náusea, prurido). A via subcutânea ou intravenosa pode ser necessária para controle rápido.
- Adjuvantes para Dor Neuropática: Antidepressivos (Amitriptilina em baixas doses, Duloxetina) e anticonvulsivantes (Gabapentina, Pregabalina). A duloxetina tem a vantagem de tratar dor e depressão simultaneamente.
- Corticoides: Úteis para dor por compressão nervosa ou edema peritumoral.
2. Antidepressivos e Psicoestimulantes:
- Psicoestimulantes (Metilfenidato): Primeira escolha em muitos contextos de doença terminal. Efeito antidepressivo e de melhora da energia em 24-48 horas. Dose inicial: 2.5-5 mg pela manhã e ao meio-dia. Monitorar ansiedade, taquicardia e insônia.
- ISRS/SNRIs: Sertralina, Escitalopram, Venlafaxina, Duloxetina. Efeito em 2-4 semanas. Iniciar com metade da dose usual (ex.: sertralina 25 mg/dia) e titular lentamente. Atenção a interações medicamentosas (especialmente com tamoxifeno, metabolizado pelo CYP2D6).
- Antidepressivos Tricíclicos (Amitriptilina, Nortriptilina): Úteis para dor neuropática e insônia, mas efeitos adversos anticolinérgicos e cardíacos limitam o uso.
3. Antipsicóticos:
- Indicados para agitação, sintomas psicóticos ou delirium. "Tais pacientes respondem a medicamentos antipsicóticos."
- Haloperidol: Padrão-ouro para delirium e agitação. Dose baixa (0.5-2 mg VO/SC/IV) pode ser eficaz. Monitorar efeitos extrapiramidais e intervalo QT.
- Olanzapina, Quetiapina: Alternativas com menor risco de efeitos extrapiramidais, úteis para agitação com componente ansioso ou depressivo. A quetiapina em baixas doses (25-50 mg) é útil para insônia e agitação.
4. Ansiolíticos:
- Lorazepam: Útil para ansiedade aguda e como adjuvante no manejo do delirium. Evitar uso crônico devido ao risco de sedação excessiva e depressão respiratória.
Situações Especiais:
- Idosos e Fragilizados: Iniciar com doses ainda menores ("start low, go slow"). Preferir ISRS sobre tricíclicos. Monitorar síndrome da inapropriada secreção de hormônio antidiurético (SIHAD) e quedas.
- Comprometimento Hepático/Renal: Ajustar doses de medicamentos metabolizados no fígado (maioria dos psicotrópicos) ou excretados pelos rins (gabapentina, opioides).
- Gestação/Lactação: Raramente aplicável, mas requer consulta a especialista. ISRS (sertralina) são geralmente preferidos.
Protocolos Brasileiros: O RENAME (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais) do SUS inclui antidepressivos (amitriptilina, fluoxetina), antipsicóticos (haloperidol) e opioides (morfina, metadona) para dor oncológica, embora as barreiras de acesso persistam. A Resolução CFM nº 2.217/2018, que revoga a anterior, estabelece diretrizes para o tratamento da dor e os cuidados ao final da vida.
Tratamento não farmacológico
Intervenções não farmacológicas são coadjuvantes essenciais, direcionadas ao sofrimento psicológico, social e espiritual.
Psicoterapias com Evidência:
- Terapia de Suporte e de Crise: Foco imediato na contenção, validação do sofrimento e reforço dos mecanismos de coping. Ajudar o paciente a encontrar significado e a ressignificar o período final da vida. "A psicoterapia também pode ser útil."
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) Adaptada: Para pacientes com energia e cognição preservadas, pode ajudar a desafiar pensamentos automáticos de desesperança e a ser um fardo, e a desenvolver estratégias de enfrentamento.
- Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT): Útil para ajudar o paciente a conviver com a dor e a incerteza, focando nos valores que ainda podem ser vividos.
Intervenções Psicossociais e Suporte Familiar:
- Terapia Familiar: "Essa terapia também é útil porque alguns pacientes podem pedir para morrer por não querer ser um fardo para a família." Ajuda a comunicar necessidades, a redistribuir o estresse e a resolver conflitos. A família precisa de suporte para lidar com a culpa, a exaustão e o luto antecipatório.
- Aconselhamento Espiritual: Oferecido por capelães ou líderes religiosos conforme a crença do paciente, para lidar com questões de significado, culpa, perdão e transcendência.
- Intervenções de Cuidados Paliativos Integrais: Controle de sintomas físicos (náusea, dispneia, fadiga), que indiretamente melhora o estado psíquico.
Procedimentos:
- Eletroconvulsoterapia (ECT): Indicada para depressão grave, catatônica ou psicótica refratária a medicação, com risco vital iminente. "Pode ser necessária eletroconvulsoterapia (ECT) para alguns pacientes com depressão grave." Em pacientes terminais, os riscos da anestesia devem ser ponderados contra o benefício potencial de um alívio rápido.
Manejo clínico prático
Tomada de Decisão: Segurança como Prioridade
A primeira decisão é sobre o local de tratamento. Ao contrário de outros contextos, "Pacientes suicidas nem sempre têm de ser transferidos para um serviço psiquiátrico." A internação psiquiátrica pode ser desnecessariamente estigmatizante e desconectada dos cuidados clínicos. A alternativa é a observação contínua 24 horas por dia ("Pode lhe ser designado um atendente ou um enfermeiro 24 horas por dia"). Esta observação deve ser realizada por pessoal treinado, em turnos sucessivos, no próprio leito do paciente (hospital geral, domicílio com suporte). A relação terapêutica com o observador é crucial, especialmente para pacientes que se sentem abandonados.
O Contrato de Não Suicídio: Uma ferramenta útil. "Perguntar aos pacientes que são considerados suicidas se concordam em chamá-los quando não estiverem mais seguros de sua capacidade de controlar seus impulsos suicidas." Este acordo reforça a aliança terapêutica e a sensação de controle do paciente. Em troca, o clínico deve garantir disponibilidade 24h. Se o paciente não conseguir firmar este contrato, a necessidade de observação contínua ou internação é imperativa.
Monitoramento da Resposta:
- Dor: Avaliar diariamente com escala numérica. A meta é alívio adequado (EVA <4) sem sedação excessiva.
- Sintomas Psiquiátricos: Monitorar humor, ideação suicida e agitação diariamente. A melhora da ideação suicida costuma seguir o alívio da dor e o início do efeito dos psicofármacos.
- Critérios de Remissão: Redução ou desaparecimento da ideação suicida ativa, melhora do humor e do engajamento nos cuidados, e controle adequado da dor.
Manejo da Resistência Terapêutica:
Se não houver resposta ao esquema inicial em tempo razoável (ex.: 1-2 semanas para antidepressivos, 48h para controle da dor):
- Reavaliar o diagnóstico (há delirium não tratado? dor neuropática não identificada?).
- Otimizar a dose dos analgésicos e adjuvantes.
- Trocar ou associar antidepressivos (ex.: adicionar um psicoestimulante a um ISRS).
- Considerar ECT para depressão refratária com risco vital.
Contexto Brasileiro:
- SUS/CAPS: A rede de CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) pode oferecer suporte ambulatorial, mas a maioria não está estruturada para visitas domiciliares intensivas ou para o manejo integrado de pacientes terminais com alto risco suicida. A internação em enfermaria de hospital geral com suporte da equipe de psiquiatria de ligação é muitas vezes a opção mais viável.
- Acesso a Medicamentos: A burocracia para prescrição de opioides (notificação de receita) e a desinformação sobre seu uso ainda são barreiras significativas para o controle da dor. O médico deve advocar pelo paciente junto às farmácias e à equipe de saúde.
- Cuidados Paliativos Domiciliares: Programas incipientes no SUS. A contratação de cuidadores ou enfermeiros para observação 24h é geralmente custeada pela família, representando um ônus financeiro considerável.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente: O paciente vivencia um sofrimento total e multifacetado. A dor física é frequentemente o centro, mas é amplificada pelo medo, pela perda de dignidade, pela solidão e pela sensação de ser um peso. O pedido de morte ou a ideação suicida raramente é um desejo genuíno pela morte em si, mas um grito de desespero por alívio do sofrimento insuportável. O sentimento de abandono, seja real ou percebido, é um agravante profundo.
Psicoeducação:
- Para o Paciente: Explicar que a vontade de morrer é um sintoma comum do sofrimento intenso, não um defeito de caráter. Enfatizar que a dor e a depressão são tratáveis e que o objetivo da equipe é aliviar seu sofrimento para que ele possa viver o tempo que lhe resta com a melhor qualidade possível. Discutir francamente os planos de tratamento para dor e sintomas emocionais.
- Para a Família: Educar sobre os sinais de alerta de depressão e risco suicida (frases de desesperança, isolamento). Explicar que o pedido de morte do paciente é um sintoma de sofrimento, não uma rejeição à família. Ensinar a ouvir sem julgamento e a validar o sofrimento, enquanto direcionam para a equipe profissional. Aliviar a culpa da família, reforçando que o cuidado é uma responsabilidade compartilhada com a equipe de saúde.
Impacto Funcional: O sofrimento psíquico agudo paralisa a capacidade de se conectar com os entes queridos, de encontrar pequenos prazeres e de participar de decisões sobre seus cuidados, aprofundando a sensação de perda de controle.
Adesão ao Tratamento:
- Barreiras: Desesperança ("não vai adiantar"), efeitos adversos das medicações, fadiga extrema, déficit cognitivo.
- Estratégias: Iniciar com medicações de ação rápida (psicoestimulantes, ajuste de analgésicos) para demonstrar eficácia. Simplificar regimes (menor número de doses ao dia). Envolver a família na administração e monitoramento. Reforçar continuamente que o objetivo é o conforto, não a cura da doença de base.
Perguntas frequentes
1. Um paciente terminal que pede para morrer está sempre deprimido?
Não necessariamente, mas a depressão é altamente prevalente. O pedido pode ser motivado primariamente por dor intratável, falta de ar ou outros sintomas físicos angustiantes. No entanto, uma avaliação psiquiátrica cuidadosa é essencial para identificar e tratar uma depressão coexistente, que é um fator tratável de sofrimento.
2. É ético sedar um paciente terminal para controlar seu sofrimento psíquico e risco suicida?
A sedação paliativa para alívio de sofrimento refratário é um procedimento ético e aceito em diretrizes internacionais e pelo CFM, quando todos os outros tratamentos adequados falharam e o sofrimento (físico ou psicológico) é considerado intolerável pelo paciente. É um último recurso, não um tratamento de primeira linha. A intenção primária deve ser sempre o alívio do sintoma, não abreviar a vida.
3. A observação 24h não é uma forma de restrição de liberdade?
Em um contexto de risco suicida iminente, a observação contínua é uma medida de proteção, não de punição. Deve ser implementada da forma menos intrusiva possível, preferencialmente por um cuidador que estabeleça uma relação terapêutica. A comunicação clara com o paciente sobre o motivo (preocupação com seu sofrimento e segurança) é fundamental para sua aceitação.
4. E se o paciente tiver um plano de suicídio assistido em um país onde é legal?
O papel do psiquiatra, conforme o Compêndio, é tratar as condições tratáveis que levam ao pedido: depressão e dor. "Os psiquiatras encaram o suicídio como um ato irracional que é produto de doença mental, em geral depressão." A abordagem deve ser oferecer tratamento integral (antidepressivos, opioides, psicoterapia, suporte espiritual) antes de considerar qualquer pedido como um desejo autônomo e racional. A discussão sobre suicídio assistido deve ocorrer apenas após a máxima otimização desses cuidados.
5. Como diferenciar a ideação suicida de um desejo legítimo de interromper tratamentos fúteis?
O desejo de interromper tratamentos desproporcionais, que apenas prolongam o sofrimento sem chance de benefício, é um exercício de autonomia e pode ser racional. A ideação suicida ativa, por outro lado, é impulsionada por um sofrimento psíquico intolerável e desesperança. A avaliação psiquiátrica busca identificar e tratar este último, respeitando o primeiro.
6. O que fazer se a família não aceita a intervenção psiquiátrica, dizendo que "é normal estar triste"?
É necessário fazer psicoeducação com a família. Explicar a diferença entre tristeza adaptativa e depressão maior, destacando que a depressão é uma doença médica que causa sofrimento adicional e tratável. Enfatizar que tratar a depressão pode melhorar a qualidade da interação do paciente com a família nos momentos finais.
Referências
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. (páginas 767-788, 1382, 1388 citadas).
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. Texto Revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. Genebra: OMS, 2022.
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.217/2018. Aprova o Código de Ética Médica.
- Chochinov, H.M. Psiquiatria de Ligação em Cuidados Paliativos. In: Levenson, J.L. Psiquiatria de Ligação. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- Breitbart, W. (Ed.). Psiquiatria de Cuidados Paliativos. Oxford University Press, 2009.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.