Diagnóstico Diferencial de Psicose na Infância

Definição e epidemiologia

A psicose na infância não constitui um diagnóstico formal, mas sim um sintoma ou síndrome que pode estar presente em diversos transtornos psiquiátricos e condições médicas. Refere-se à presença de sintomas psicóticos, como delírios, alucinações, pensamento desorganizado ou comportamento gravemente desorganizado ou catatônico, em indivíduos antes dos 12 anos de idade. A presença de psicose em crianças representa um desafio diagnóstico significativo, pois fenômenos aparentemente psicóticos podem ser melhor explicados por imaturidade do desenvolvimento, transtornos do neurodesenvolvimento ou por respostas a traumas severos.

O principal diagnóstico psicótico formal com início na infância é a Esquizofrenia de Início Precoce (EIP), definida pelo DSM-5-TR e pela CID-11 pelos mesmos critérios da esquizofrenia do adulto, mas com início antes dos 13 anos (início muito precoce) ou entre 13 e 18 anos (início precoce). A prevalência da EIP é rara, estimada em cerca de 1 em 10.000 crianças, sendo ainda mais incomum antes dos 10 anos. A distribuição por sexo na infância é mais equilibrada do que no adulto (onde há predomínio masculino), podendo haver leve predomínio masculino ou igualdade. Dados epidemiológicos robustos no Brasil são escassos, mas a apresentação em serviços especializados como os Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSij) segue padrões internacionais de raridade.

O curso clínico da EIP é tipicamente crônico e contínuo, com prejuízos significativos no funcionamento acadêmico, social e familiar. Fatores de risco incluem história familiar de esquizofrenia ou transtorno do espectro psicótico, complicações perinatais, exposição a infecções virais pré-natais e antecedentes de atrasos ou anormalidades no desenvolvimento motor e de linguagem. É crucial diferenciar a EIP de outras condições que podem mimetizar psicose, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) com características psicóticas, Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) complexo, episódios psicóticos no Transtorno Bipolar, psicose induzida por substâncias e condições médicas gerais (ex.: tumores cerebrais, epilepsia, doenças metabólicas).

Etiopatogenia e neurobiologia

A etiologia da psicose na infância, particularmente na EIP, é multifatorial, envolvendo uma interação complexa de fatores genéticos, neurobiológicos e ambientais.

Fatores Genéticos: A herdabilidade é alta, com risco aumentado em parentes de primeiro grau. Polimorfismos em genes relacionados à neurogênese, migração neuronal, sinalização glutamatérgica e dopaminérgica (ex.: COMT, DISC1, NRG1) estão implicados. A EIP é frequentemente considerada uma forma mais grave e com maior carga genética da doença.

Neurobiologia e Neuroimagem: Achados consistentes incluem ventriculomegalia, redução do volume da substância cinzenta total e regional (especialmente nos lobos temporal e frontal), e anormalidades na conectividade estrutural e funcional. Estas alterações são mais pronunciadas do que na esquizofrenia de início na idade adulta, sugerindo um desvio mais severo no neurodesenvolvimento. Sistemas de neurotransmissores estão desregulados, com destaque para a hipótese dopaminérgica (hiperatividade mesolímbica) e a hipótese glutamatérgica (hipofunção dos receptores NMDA), que também está implicada em modelos de psicose por drogas alucinógenas.

Fatores Ambientais: Complicações obstétricas (hipóxia, baixo peso ao nascer), exposição pré-natal a infecções ou estresse materno severo, e adversidades psicossociais precoces (ex.: negligência, abuso) atuam como fatores de risco não específicos, possivelmente interagindo com vulnerabilidades genéticas.

No TEPT infantil, a psicose (alucinações auditivas ou visuais relacionadas ao trauma, ideação paranoide) pode surgir como parte da re-experimentação do trauma ou da dissociação severa. Alterações neurobiológicas incluem hiperatividade do eixo HPA, redução do volume do hipocampo e hiper-reatividade da amígdala. No TEA, sintomas psicóticos podem emergir em uma minoria, frequentemente na adolescência, e podem estar associados a uma sobreposição etiológica com a esquizofrenia ou a um estresse psicossocial avassalador em um cérebro com conectividade atípica.

Quadro clínico

A apresentação clínica varia conforme a condição de base.

Esquizofrenia de Início Precoce (EIP):

  • Sintomas Positivos: Alucinações auditivas são as mais comuns (vozes comentando ou conversando), seguidas por visuais. Delírios são menos sistematizados do que no adulto, frequentemente bizarros, envolvendo temas de perseguição, referência ou identidade corporal. Pensamento desorganizado manifesta-se como discurso incoerente, frouxidão de associações ou tangencialidade.
  • Sintomas Negativos: Embotamento afetivo, alogia (pobreza do discurso), avolia (falta de iniciativa), anedonia e retraimento social são proeminentes e causam grande impacto funcional.
  • Sintomas Desorganizados: Comportamento bizarro ou imprevisível, afeto inadequado (risos imotivados) e discurso desorganizado.
  • Prejuízo Cognitivo: Déficits acentuados em atenção, memória de trabalho, funções executivas e velocidade de processamento, que frequentemente precedem o início da psicose.
  • Curso: Frequentemente insidioso, com uma fase prodrômica de deterioração social e acadêmica, isolamento e declínio cognitivo.

Transtorno do Espectro Autista (TEA):

  • A psicose no TEA é um fenômeno sobreposto. Sintomas psicóticos agudos podem ocorrer, mas o quadro de base é dominado por déficits persistentes na comunicação e interação social (dificuldade na reciprocidade socioemocional, comportamentos não-verbais anormais) e padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades.
  • Alucinações ou delírios, quando presentes, podem ser menos complexos e mais ligados a interesses específicos. A distinção entre fantasias idiossincráticas, pensamento concreto e delírios genuínos pode ser desafiadora.
  • A história revela um desenvolvimento atípico desde os primeiros anos, ao contrário do período de desenvolvimento normal frequentemente visto na EIP.

Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT):

  • A psicose no TEPT infantil está tipicamente tematicamente ligada ao trauma. Alucinações podem ser revivências sensoriais do evento traumático (ex.: ouvir os gritos do agressor, ver flashes da cena). Ideação paranoide pode refletir hipervigilância extrema e desconfiança generalizada.
  • Outros sintomas centrais estão sempre presentes: re-experimentação (pesadelos, memórias intrusivas), evitação de estímulos associados ao trauma, alterações negativas de cognição e humor (culpa, medo, anedonia) e hiperativação autonômica (irritabilidade, resposta de sustento exagerada).
  • É fundamental investigar a história de exposição a um evento traumático definido (abuso físico/sexual, violência extrema, desastres).

Imaturidade do Desenvolvimento / Fenômenos Não-Patológicos:

  • Crianças pequenas, especialmente entre 3-8 anos, podem relatar "amigos imaginários" ou conversar com personagens, o que é parte do desenvolvimento normal da fantasia.
  • A fronteira entre realidade e fantasia é naturalmente mais permeável. "Alucinações" breves ao adormecer ou despertar (hipnagógicas/hipnopômpicas) podem ocorrer.
  • A chave diferencial é que estes fenômenos não são angustiantes, não são persistentes, não causam prejuízo funcional e a criança mantém o insight de que são produtos de sua mente quando questionada de forma adequada à idade.

Avaliação e diagnóstico

A avaliação de uma criança com suspeita de psicose deve ser abrangente, multidisciplinar e longitudinal.

1. Entrevista Clínica e Anamnese:

  • História Desenvolvimental Detalhada: Marcos motores, de linguagem e sociais. Qualquer regressão ou desvio é crucial.
  • História do Comportamento e Funcionamento: Funcionamento escolar pré-mórbido e atual, relações com pares, interesses.
  • História Psiquiátrica Pessoal e Familiar.
  • História de Trauma: Investigar de forma sensível e apropriada a possibilidade de abuso, negligência ou exposição à violência.
  • História Médica Completa e Uso de Substâncias: Incluindo medicamentos prescritos, fitoterápicos e drogas ilícitas.

2. Exame do Estado Mental (EEM) Infantil:

  • Avaliar a qualidade e conteúdo do pensamento (presença de delírios, frouxidão de associações).
  • Investigar alucinações de forma concreta ("Alguma vez você ouviu vozes quando não tinha ninguém por perto? O que elas diziam?").
  • Observar afeto e interação social (embotamento, inadequação, contato visual).
  • Avaliar comportamento e psicomotricidade (agitação, maneirismos, catatonia).
  • Testar funções cognitivas básicas (atenção, memória).

3. Instrumentos de Avaliação:

  • Entrevistas semiestruturadas: Schedule for Affective Disorders and Schizophrenia for School-Age Children (K-SADS) é o padrão-ouro.
  • Escalas para sintomas psicóticos: Positive and Negative Syndrome Scale (PANSS) adaptada para crianças.
  • Escalas para TEA: Autism Diagnostic Observation Schedule (ADOS-2), Autism Diagnostic Interview-Revised (ADI-R).
  • Escalas para trauma: Child PTSD Symptom Scale (CPSS).

4. Exames Complementares:

  • Laboratoriais: Hemograma, perfil metabólico, função tireoidiana, triagem toxicológica urinária e sanguínea (para excluir psicose induzida por substâncias).
  • Neuroimagem: Ressonância Magnética de encéfalo é indicada na primeira apresentação de psicose para excluir lesões estruturais (tumores, malformações).
  • Eletroencefalograma (EEG): Fundamental para excluir epilepsia do lobo temporal ou outras encefalopatias que podem cursar com psicose.
  • Avaliação Neuropsicológica: Para mapear perfil cognitivo e auxiliar no diagnóstico diferencial entre TEA, deficiência intelectual e EIP.

5. Diagnóstico Diferencial Estruturado (Tabela Comparativa)

Característica Esquizofrenia de Início Precoce (EIP) Transtorno do Espectro Autista (TEA) TEPT Infantil Imaturidade do Desenvolvimento
Idade de Início Fase prodrômica na infância; psicose franca na pré-adolescência/adolescência. < 3 anos (sinais precoces). Psicose sobreposta, se ocorrer, geralmente mais tarde. Qualquer idade após o evento traumático. Idade pré-escolar (3-8 anos).
Curso Crônico, com deterioração do funcionamento pré-mórbido. Crônico, estável, desenvolvimento atípico desde o início. Agudo ou crônico, ligado ao trauma. Sintomas flutuam. Transitório, não progressivo.
Sintomas Psicóticos Cardinais: Alucinações auditivas complexas, delírios bizarros, desorganização. Menos comuns. Se presentes, podem ser menos elaborados e ligados a interesses restritos. Ligados ao trauma: Alucinações relacionadas ao evento, paranoia contextual. Amigos imaginários, fantasia vívida. Não são angustiantes.
Sintomas Negativos Proeminentes (embotamento, avolia, retraimento social). Presentes como déficits sociais nucleares, mas sem deterioração de um nível prévio. Podem ocorrer (anedonia, embotamento) como parte das alterações de humor e cognição. Ausentes.
Desenvolvimento Pré-Mórbido Frequentemente normal ou com leves atrasos. Pode haver declínio acentuado. Atípico desde o início. Atrasos/desvios na comunicação e interação social. Normal até o evento traumático. Normal.
Relação com Estresse Pode ser desencadeada ou exacerbada por estresse, mas não é necessariamente ligada a um trauma único. Sintomas psicóticos podem ser exacerbados por mudanças ou demandas sociais. Causal e temática. Sintomas diretamente relacionados ao evento traumático. Fantasias podem aumentar em períodos de criatividade ou solidão.
Exame do Estado Mental Desorganização do pensamento, embotamento afetivo, alucinações. Dificuldade na reciprocidade, linguagem estereotipada ou ecolálica, afeto restrito. Hipervigilância, afeto constrito ou lábil, flashbacks dissociativos. Comportamento e pensamento apropriados para a idade, com insight sobre a fantasia.
História Familiar Forte para transtornos do espectro psicótico. Forte para TEA ou outros transtornos do neurodesenvolvimento. Pode haver história de trauma ou transtornos relacionados a estresse. Inespecífica.

6. Armadilhas Diagnósticas e Comorbidades:

  • Transtorno Bipolar com Características Psicóticas: Episódios maníacos podem incluir psicose grandiosa ou persecutória, mas são precedidos ou acompanhados por humor elevado/irritável, energia aumentada e redução da necessidade de sono.
  • Transtornos Depressivos com Características Psicóticas: A psicose é congruente com o humor (ex.: delírios de culpa, ruína).
  • Condições Médicas Gerais: Epilepsia (especialmente do lobo temporal), doenças autoimunes (LES), tumores cerebrais, doenças metabólicas hereditárias.
  • Psicose Induzida por Substâncias: Uso de canabinoides (especialmente cannabis de alta potência), alucinógenos, estimulantes ou medicamentos (corticoides, anticolinérgicos).
  • Deficiência Intelectual com Comportamento Desafiador: Comportamentos bizarros podem ser mal interpretados como psicóticos.

Tratamento farmacológico

O tratamento é multimodal, com a farmacoterapia visando o controle dos sintomas psicóticos positivos, negativos e a estabilização do humor.

Algoritmo Terapêutico Baseado em Evidências:

  1. Primeira Linha: Antipsicóticos atípicos (de segunda geração) são preferenciais devido ao perfil de efeitos adversos mais favorável em relação aos extrapiramidais.
    • Risperidona: Possui as melhores evidências para EIP e para irritabilidade no TEA. Dose inicial: 0.25-0.5 mg/dia, titulando lentamente até 1-3 mg/dia. Monitorar ganho de peso, perfil metabólico e prolactina.
    • Aripiprazol: Boa opção por menor risco de ganho de peso e dislipidemia. Dose inicial: 2-5 mg/dia, até 10-15 mg/dia. Pode causar agitação ou acatisia.
  2. Segunda Linha: Outros antipsicóticos atípicos como Quetiapina (útil se houver comorbidade de ansiedade/insônia, mas alto risco metabólico), Olanzapina (eficaz, mas com alto risco de ganho de peso e metabólico), Paliperidona (metabolito da risperidona, com dosagem diária).
  3. Terceira Linha/Resistência: Clozapina é o único antipsicótico com eficácia comprovada na esquizofrenia resistente ao tratamento. Seu uso em crianças é extremamente restrito devido aos riscos de agranulocitose, miocardite, convulsões e ganho de peso severo. Exige monitoramento hematológico semanal/quinzenal obrigatório. Só deve ser iniciada em centros especializados após falha de pelo menos dois antipsicóticos adequadamente conduzidos.

Monitoramento Obrigatório (Conforme Diretrizes da ABP e CFM):

  • Antes de Iniciar: Peso, altura, IMC, circunferência abdominal, pressão arterial, frequência cardíaca, perfil lipídico e glicêmico (incluindo HbA1c), prolactina, função hepática.
  • Durante o Tratamento: Monitorar peso e parâmetros metabólicos a cada 3 meses no primeiro ano, depois anualmente. Avaliar sintomas extrapiramidais (escala AIMS) regularmente.
  • Psicoeducação Familiar: Sobre a natureza da doença, necessidade de adesão a longo prazo, reconhecimento de efeitos adversos e sinais de recaída.

Contexto Brasileiro: O RENAME (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais) do SUS disponibiliza Risperidona e Haloperidol (típico, usado com cautela devido a efeitos extrapiramidais). Aripiprazol e Quetiapina estão disponíveis em alguns programas de assistência farmacêutica estadual/municipal. O acesso a Clozapina é via sistema de dispensação especial com monitoramento. O tratamento deve ser articulado com os CAPS Infantojuvenis (CAPSij), que oferecem cuidado multiprofissional.

Tratamento não farmacológico

É componente essencial e complementar à farmacoterapia.

Psicoterapias:

  • Terapia Cognitivo-Comportamental para Psicose (TCCp): Adaptada para crianças e adolescentes, ajuda a normalizar a experiência, desenvolver estratégias de coping com vozes e delírios, desafiar crenças distorcidas e prevenir recaídas.
  • Intervenções Familiares: Psicoeducação familiar, treinamento em comunicação e resolução de problemas. Reduzem o expressed emotion (emoção expressa elevada, crítica e hostilidade), um fator de risco conhecido para recaída.
  • Terapia Focada no Trauma (para TEPT): TF-CBT (Terapia Cognitivo-Comportamental Focada no Trauma) é o padrão-ouro para TEPT infantil. Envolve psicoeducação, regulação emocional, narrativa do trauma e reestruturação cognitiva.

Intervenções Psicossociais e Reabilitação:

  • Treinamento de Habilidades Sociais: Crucial para EIP e TEA, para mitigar o isolamento e melhorar a interação.
  • Suporte Educacional Especializado: Adaptações curriculares, sala de recursos, para minimizar o prejuízo acadêmico.
  • Reabilitação Neurocognitiva: Programas computadorizados ou em papel para treinar atenção, memória e funções executivas.

Procedimentos:

  • Eletroconvulsoterapia (ECT): Considerada em casos muito graves, refratários e com risco vital (ex.: catatonia maligna, depressão psicótica grave com recusa alimentar). Seu uso em crianças é raro, ético e legalmente regulado, exigindo consentimento informado rigoroso e avaliação multidisciplinar.

Manejo clínico prático

  • Quando Iniciar Tratamento Farmacológico: Após confirmação diagnóstica de um transtorno psicótico primário (EIP) ou quando os sintomas psicóticos causam sofrimento intenso ou prejuízo funcional significativo, independentemente do diagnóstico de base (ex.: TEPT com psicose grave).
  • Troca ou Combinação: Considerar troca após 4-6 semanas de dose terapêutica adequada com resposta inadequada ou intolerância. A combinação de antipsicóticos é geralmente desencorajada devido ao aumento de efeitos adversos sem evidência robusta de maior eficácia. A exceção pode ser a adição temporária de um benzodiazepínico para agitação aguda ou catatonia.
  • Monitoramento da Resposta: Usar escalas (PANSS, CGI) para avaliar objetivamente a melhora. A remissão sintomática é o objetivo inicial, seguida pela recuperação funcional.
  • Manejo da Resistência: Reavaliar diagnóstico, adesão, uso de substâncias e comorbidades. Considerar clozapina após falha de dois antipsicóticos de diferentes classes, em doses e tempo adequados.
  • Contexto do SUS: O fluxo ideal envolve a atenção primária (identificação) → encaminhamento para CAPSij (avaliação e projeto terapêutico) → ambulatórios especializados ou internação em hospital geral (para crises). A articulação com a escola e a assistência social é fundamental.

Perspectiva do paciente e comunicação clínica

A criança com psicose vive um mundo frequentemente aterrorizante e confuso. Vozes podem ser críticas ou ameaçadoras. Delírios podem gerar medo paralisante. A desorganização do pensamento impede a comunicação e o aprendizado. O estigma é uma carga pesada.

Psicoeducação para a Família:

  • Explicar que os sintomas são parte de uma doença, não "frescura" ou "mau comportamento".
  • Enfatizar a natureza crônica e a necessidade de tratamento contínuo, mesmo após a melhora dos sintomas agudos.
  • Ensinar a reconhecer sinais prodrômicos de recaída (aumento do isolamento, irritabilidade, distúrbios do sono).
  • Orientar sobre os efeitos adversos dos medicamentos e a importância do monitoramento.

Impacto Funcional: Prejuízos severos na escola (reprovação, evasão), na vida social (isolamento total), nas atividades de vida diária e na dinâmica familiar (sobrecarga, conflitos).

Adesão ao Tratamento:

  • Barreiras: Efeitos adversos (sono, ganho de peso), falta de insight (anosognosia), estigma, complexidade do regime.
  • Estratégias: Relação terapêutica de confiança, envolvimento da família, simplificação posológica, abordagem dos efeitos adversos de forma proativa, uso de estratégias de motivational interviewing.

Perguntas frequentes

1. Meu filho de 7 anos fala com um amigo imaginário. Isso é psicose?
Provavelmente não. Amigos imaginários são uma parte comum e saudável do desenvolvimento da fantasia na primeira infância. A psicose se diferencia por ser angustiante, intrusiva, persistente e causar prejuízo real (ex.: a criança se isola para ouvir vozes, fica com medo por causa de um delírio). Se houver dúvida, uma avaliação com psiquiatra infantil pode tranquilizar.

2. Autismo e esquizofrenia na infância são a mesma coisa?
Não. Historicamente já foram confundidos, mas hoje são transtornos distintos. O TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento com início muito precoce (<3 anos), caracterizado por déficits sociais e comportamentos repetitivos. A EIP tem um início mais tardio (geralmente após os 10 anos), com um período de desenvolvimento normal ou próximo do normal seguido por uma deterioração e o surgimento de alucinações, delírios e desorganização do pensamento.

3. Uma criança que sofreu um trauma grave pode desenvolver alucinações?
Sim. No TEPT complexo, as crianças podem apresentar alucinações relacionadas ao trauma (ex.: reviver sons ou imagens do evento) ou desenvolver uma desconfiança paranoide extrema (hipervigilância patológica). Estes sintomas são tratados abordando o trauma subjacente com terapias específicas, como a TF-CBT, podendo necessitar de antipsicóticos se forem muito graves.

4. O tratamento com antipsicóticos em crianças é seguro?
É seguro quando necessário, bem indicado e rigorosamente monitorado. Os benefícios do controle dos sintomas psicóticos graves (que trazem risco e sofrimento) devem superar os riscos dos medicamentos. O monitoramento regular de peso, parâmetros metabólicos e possíveis efeitos motores é obrigatório para minimizar riscos.

5. A esquizofrenia que começa na infância tem um pior prognóstico que a do adulto?
Geralmente sim. A EIP está associada a uma maior carga genética, anomalias neurodesenvolvimentais mais pronunciadas e um curso frequentemente mais grave, com prejuízos cognitivos e funcionais mais profundos. No entanto, o diagnóstico precoce e um tratamento intensivo e abrangente podem melhorar significativamente a qualidade de vida e o funcionamento a longo prazo.

6. O que fazer em uma crise psicótica aguda em uma criança?
Manter a calma e a segurança. Evitar confrontos ou tentativas de argumentar contra os delírios. Remover objetos perigosos do ambiente. Buscar atendimento médico imediato no pronto-socimento pediátrico ou em um serviço de saúde mental de crise (CAPS III, que funciona 24h). A internação pode ser necessária se houver risco de agressão a si ou a outros, ou grave desorganização.

7. O SUS oferece tratamento para essas condições?
Sim. A porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde (UBS), que pode encaminhar para o Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSij). Os CAPSij oferecem atendimento multiprofissional (psiquiatra, psicólogo, terapeuta ocupacional, assistente social), dispensação de medicamentos (conforme o RENAME) e projetos terapêuticos individuais. Casos complexos podem ser referenciados para ambulatórios especializados ou hospitais universitários.

8. A psicose na infância é hereditária?
Existe um componente genético que aumenta o risco. Ter um parente de primeiro grau com esquizofrenia aumenta a probabilidade, mas não é determinante. A maioria das crianças com familiar psicótico não desenvolverá a doença. A herança é poligênica e interage com fatores ambientais.

Referências

  • Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
  • American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2022.
  • Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. Genebra: OMS, 2022.
  • Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes para o Diagnóstico e Tratamento da Esquizofrenia. 2023 (ou versão mais recente).
  • Ministério da Saúde do Brasil. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). 2022.
  • Ministério da Saúde do Brasil. Política Nacional de Saúde Mental. 2023.

Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.

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