Um guia completo para entender, reconhecer e lidar com a dependência de opiáceos
O que é?
Imagine que você está com uma dor forte — talvez uma dor de dente insuportável, uma fratura exposta ou uma crise de pedra nos rins. O médico te receita um remédio que, em minutos, faz a dor sumir. Você se sente aliviado, leve, quase como se estivesse flutuando. Essa sensação de bem-estar é tão poderosa que, sem perceber, você começa a querer tomar o remédio não só quando a dor volta, mas também para lidar com o estresse do trabalho, uma briga em casa ou até mesmo para dormir melhor.
Os opiáceos são justamente esses remédios — ou drogas — que agem no cérebro para aliviar a dor e, muitas vezes, produzir uma sensação de prazer intenso. Eles incluem desde medicamentos prescritos, como codeína, morfina e oxicodona, até substâncias ilegais, como a heroína. O problema começa quando o uso se torna frequente, o corpo se acostuma e a pessoa passa a precisar de doses cada vez maiores para sentir o mesmo efeito. É aí que surge o transtorno por uso de opiáceos, uma condição em que a pessoa perde o controle sobre o consumo, mesmo sabendo dos riscos para a saúde, os relacionamentos e a vida como um todo.
Como isso se diferencia de um uso normal?
Todo mundo já tomou um remédio para dor em algum momento, certo? A diferença está na frequência, na quantidade e no impacto na vida. Se você toma um comprimido de codeína uma vez por mês para uma dor de cabeça forte e não sente vontade de repetir a dose no dia seguinte, isso é um uso normal. Agora, se você:
– Toma o remédio todos os dias, mesmo sem dor;
– Esconde dos outros o quanto está usando;
– Deixa de fazer coisas que gosta (como sair com amigos ou trabalhar) porque prefere ficar em casa usando a substância;
– Sente ansiedade ou irritação quando não consegue a próxima dose;
… então, pode ser um sinal de que o uso saiu do controle.
Quem é afetado?
No Brasil, não temos números exatos sobre o uso problemático de opiáceos, mas dados internacionais dão uma ideia do tamanho do problema:
– Nos Estados Unidos, a chamada “epidemia de opiáceos” matou mais de 500 mil pessoas entre 1999 e 2020, segundo o CDC (Centro de Controle de Doenças).
– No Brasil, o uso de opiáceos prescritos (como tramadol e codeína) vem crescendo, especialmente entre pessoas com dores crônicas ou câncer. Um estudo da Fiocruz mostrou que, entre 2014 e 2019, as internações por intoxicação por opiáceos aumentaram 120% no país.
– Homens são mais afetados do que mulheres, mas a diferença vem diminuindo, especialmente porque mulheres são mais propensas a receber prescrições de opiáceos para dores crônicas.
– A faixa etária mais comum é entre 25 e 44 anos, mas o problema também atinge adolescentes (que podem ter acesso a remédios em casa) e idosos (que usam opiáceos para dores da idade).
Um pouco de história
Os opiáceos não são uma invenção moderna. O ópio, extraído da papoula, é usado há milhares de anos para aliviar a dor e induzir o sono. Na Grécia Antiga, Hipócrates já recomendava seu uso medicinal. No século XIX, a morfina foi isolada e passou a ser usada em larga escala — inclusive na Guerra Civil Americana, onde soldados ficavam dependentes após receberem doses para ferimentos.
No início do século XX, a heroína foi criada (sim, pela mesma empresa que hoje produz a aspirina!) e vendida como um “remédio milagroso” para tosse e dores. Só depois se descobriu seu potencial devastador de dependência. Hoje, os opiáceos sintéticos, como o fentanil, são até 50 vezes mais fortes que a heroína e estão por trás de muitas overdoses.
No Brasil, o problema ganhou mais atenção nos últimos anos por dois motivos:
1. O aumento de prescrições de opiáceos para dores crônicas (como fibromialgia e câncer).
2. O tráfico de drogas, especialmente de heroína e fentanil, que chegam ao país principalmente pela fronteira com a Bolívia e o Paraguai.
Quais são os sintomas?
Os transtornos por uso de opiáceos não aparecem do dia para a noite. Eles começam com um uso recreativo ou medicinal e, aos poucos, vão tomando conta da vida da pessoa. Para entender se o uso se tornou um problema, os médicos usam critérios do CID-10 e do DSM-5. Vamos traduzir cada um deles para o dia a dia, com exemplos concretos.
1. Tolerância: o corpo pede mais
O que é?
Seu corpo se acostuma com a substância e, para sentir o mesmo efeito, você precisa de doses cada vez maiores.
Como aparece no dia a dia?
– Você começou tomando 1 comprimido de tramadol para uma dor nas costas e, depois de alguns meses, precisa de 3 ou 4 para o mesmo alívio.
– No começo, uma carreira de heroína (uma pequena quantidade aspirada) te deixava relaxado. Agora, você precisa de duas ou três para sentir algo.
– Você percebe que, mesmo tomando a dose prescrita pelo médico, a dor ou a ansiedade não passam mais.
Normal vs. Problemático:
✅ Normal: Tomar um remédio para dor por alguns dias e parar quando a dor melhora.
❌ Problemático: Aumentar a dose por conta própria porque a anterior “não está fazendo efeito”.
2. Abstinência: o corpo entra em crise quando para
O que é?
Quando você para de usar o opiáceo (ou reduz a dose), seu corpo reage com sintomas físicos e emocionais intensos, como se estivesse gripado, ansioso e com dores por todo o corpo.
Como aparece no dia a dia?
– Físicos:
– Suor frio, calafrios e tremores (como uma gripe forte).
– Diarreia, náuseas e vômitos (você passa o dia no banheiro).
– Dores musculares e nas articulações (como se tivesse sido atropelado).
– Nariz escorrendo e olhos lacrimejando (parece alergia, mas não é).
– Emocionais:
– Ansiedade extrema (como se algo muito ruim fosse acontecer).
– Irritabilidade (qualquer coisa te deixa nervoso).
– Insônia (você não consegue dormir de jeito nenhum).
– Depressão (você se sente vazio, sem vontade de nada).
Exemplo real:
“Eu parei de tomar oxicodona depois de 6 meses usando para uma hérnia de disco. No segundo dia sem o remédio, comecei a suar frio, vomitar e sentir dores nas pernas. Meu marido achou que eu estava com dengue, mas era abstinência. Voltei a tomar só para aliviar.”
Normal vs. Problemático:
✅ Normal: Sentir um pouco de desconforto ao parar um remédio que você tomou por alguns dias (como um antibiótico).
❌ Problemático: Ter sintomas tão fortes que você prefere voltar a usar a substância do que aguentar mais um dia sem ela.
3. Perda de controle: você usa mais do que pretendia
O que é?
Você planeja usar uma quantidade pequena, mas acaba exagerando, mesmo sabendo que não deveria.
Como aparece no dia a dia?
– Você diz: “Vou tomar só um comprimido hoje”, mas acaba tomando três ou quatro.
– Você promete para si mesmo que não vai usar heroína no fim de semana, mas não resiste quando vê a droga na sua frente.
– Você esconde dos outros o quanto está usando porque sabe que é demais, mas não consegue parar.
Exemplo real:
“Minha médica me receitou codeína para uma cirurgia no joelho. No começo, eu tomava só quando a dor estava forte. Depois, comecei a tomar antes de dormir, porque me deixava relaxado. Um dia, tomei três comprimidos de uma vez só para ‘aproveitar’ o efeito. No dia seguinte, me senti culpado, mas não consegui parar.”
Normal vs. Problemático:
✅ Normal: Tomar um remédio a mais porque a dor estava insuportável.
❌ Problemático: Sempre acabar usando mais do que planejou, mesmo sabendo que vai se arrepender depois.
4. Desejo intenso (fissura): a mente não para de pedir
O que é?
Uma vontade incontrolável de usar a substância, como se fosse uma coceira no cérebro que você não consegue ignorar.
Como aparece no dia a dia?
– Você está no trabalho e só consegue pensar no comprimido que deixou em casa.
– Você vê uma seringa ou um frasco de remédio e sente água na boca, como se estivesse com fome.
– Você cancela planos com amigos porque prefere ficar em casa usando.
– Você sonha com a substância e acorda com vontade de usar.
Exemplo real:
“Eu trabalhava como motorista de aplicativo e, toda vez que passava perto de uma farmácia, sentia uma vontade absurda de parar e comprar codeína. Às vezes, eu parava o carro no acostamento só para tomar um comprimido, mesmo sabendo que podia perder a corrida.”
Normal vs. Problemático:
✅ Normal: Sentir vontade de tomar um remédio quando está com dor.
❌ Problemático: Não conseguir pensar em outra coisa além da substância, mesmo quando não há dor.
5. Tempo gasto: a substância toma conta da sua rotina
O que é?
Você passa muito tempo conseguindo, usando ou se recuperando dos efeitos da substância.
Como aparece no dia a dia?
– Você viaja para outra cidade só para comprar o remédio sem receita.
– Você mente para o médico para conseguir uma nova receita.
– Você deixa de trabalhar ou estudar porque está dopado ou se recuperando de uma overdose.
– Você gasta todo o seu dinheiro com a substância, mesmo sabendo que não pode pagar as contas.
Exemplo real:
“Eu vendia meu celular, meu videogame e até as roupas da minha irmã para comprar heroína. Cheguei a dormir na rua porque gastei todo o aluguel. Minha família achava que eu estava doente, mas eu só queria mais uma dose.”
Normal vs. Problemático:
✅ Normal: Tomar um remédio por alguns dias e seguir com a vida.
❌ Problemático: Priorizar a substância acima de tudo, mesmo quando isso destrói sua vida.
6. Abandono de atividades: você para de fazer o que gostava
O que é?
Você deixa de lado hobbies, trabalho, família e amigos porque a substância se torna mais importante.
Como aparece no dia a dia?
– Você para de jogar futebol com os amigos porque prefere ficar em casa usando.
– Você deixa de ir ao aniversário do seu filho porque está dopado.
– Você não cuida mais da sua aparência (não toma banho, não escova os dentes).
– Você perde o emprego porque falta ou chega atrasado.
Exemplo real:
“Eu era professor de música e adorava dar aulas. Depois que comecei a usar oxicodona, parei de me importar com os alunos. Chegava atrasado, esquecia as partituras e, um dia, simplesmente não apareci. Fui demitido e nem liguei.”
Normal vs. Problemático:
✅ Normal: Faltar a um compromisso porque está doente.
❌ Problemático: Abandonar tudo o que você amava por causa da substância.
7. Uso apesar dos problemas: você sabe que faz mal, mas continua
O que é?
Você sabe que a substância está te prejudicando (na saúde, nos relacionamentos, no trabalho), mas não consegue parar.
Como aparece no dia a dia?
– Você continua usando mesmo depois de uma overdose.
– Você briga com a família por causa do uso, mas não muda.
– Você perde a guarda dos filhos, mas não consegue parar.
– Você tem problemas no fígado ou no coração, mas continua usando.
Exemplo real:
“Minha esposa me deu um ultimato: ou eu parava com a heroína, ou ela me deixava. Eu prometi que ia parar, mas, no dia seguinte, usei de novo. Ela me expulsou de casa, e eu fui morar na rua. Mesmo assim, não consegui parar.”
Normal vs. Problemático:
✅ Normal: Tomar um remédio mesmo sabendo que ele dá sono, porque a dor é pior.
❌ Problemático: Continuar usando mesmo quando a substância está destruindo sua vida.
Um aviso importante
Ter um ou dois desses sintomas não significa que você tem um transtorno por uso de opiáceos. O diagnóstico só é feito quando vários desses sinais aparecem juntos, duram por meses e prejudicam sua vida.
Se você se identificou com três ou mais desses pontos, pode ser hora de procurar ajuda. Não precisa ser perfeito para merecer tratamento — ninguém escolhe ser dependente.
Como se manifesta no dia a dia?
O transtorno por uso de opiáceos não afeta só o corpo — ele muda a forma como você vive. Vamos ver como isso aparece em diferentes áreas da vida.
No trabalho ou na escola
- Faltas e atrasos: Você perde dias de trabalho porque está dopado, em abstinência ou procurando a substância.
- Queda no desempenho: Você não consegue se concentrar, comete erros bobos ou entrega tarefas incompletas.
- Problemas com colegas: Você fica irritado, briga por qualquer coisa ou isola-se dos outros.
- Demissão ou reprovação: Você é demitido por justa causa ou é reprovado na escola por faltas e notas baixas.
Exemplo real:
“Eu trabalhava em um escritório e, no começo, usava codeína só para dormir. Depois, comecei a tomar antes do trabalho para ‘aguentar o dia’. Um dia, dormi na mesa e meu chefe me pegou. Fui demitido e, em vez de procurar outro emprego, passei a usar ainda mais.”
Nos relacionamentos
- Brigas constantes: Sua família e amigos ficam preocupados e você reage com raiva ou indiferença.
- Mentiras: Você esconde o uso, inventa desculpas e quebra promessas.
- Isolamento: Você para de atender ligações, evita encontros e prefere ficar sozinho.
- Traição: Você rouba dinheiro ou objetos de casa para comprar a substância.
Exemplo real:
“Minha mãe descobriu que eu estava usando heroína quando encontrou seringas no meu quarto. Ela chorou, gritou, ameaçou me internar. Eu prometi que ia parar, mas continuei usando escondido. Hoje, ela não fala mais comigo.”
Na rotina (sono, alimentação, autocuidado)
- Sono desregulado: Você dorme demais (por causa do efeito sedativo) ou não dorme nada (por abstinência).
- Alimentação irregular: Você perde o apetite (e emagrece muito) ou come compulsivamente (e engorda).
- Falta de higiene: Você para de tomar banho, escovar os dentes ou trocar de roupa.
- Negligência com a saúde: Você deixa de tomar outros remédios, não vai ao médico e ignora doenças.
Exemplo real:
“Eu pesava 90 kg e, em seis meses usando oxicodona, emagreci 20 kg. Parei de comer, só tomava café e fumava. Meus dentes começaram a cair porque eu não escovava mais. Minha mãe dizia que eu parecia um zumbi.”
Na saúde física
Os opiáceos não afetam só a mente — eles destroem o corpo. Alguns problemas comuns:
– Overdose: Respiração lenta ou parada, pele azulada, perda de consciência. Pode matar.
– Infecções: Hepatite, HIV (por compartilhar seringas), abscessos na pele.
– Problemas digestivos: Prisão de ventre severa, náuseas, vômitos.
– Dores crônicas: Paradoxalmente, o uso prolongado de opiáceos aumenta a sensibilidade à dor (hiperalgesia).
– Problemas cardíacos: Pressão baixa, batimentos irregulares.
– Disfunção sexual: Perda de libido, impotência.
Exemplo real:
“Eu usei heroína por cinco anos e, um dia, acordei com o braço inchado e vermelho. Era um abscesso. Fui ao hospital e o médico disse que, se eu não parasse, ia perder o braço. Mesmo assim, voltei a usar no dia seguinte.”
O que causa essa condição?
Não existe uma única causa para o transtorno por uso de opiáceos. É como uma receita com vários ingredientes: genética, cérebro, ambiente e experiências de vida. Vamos entender cada um deles.
1. Fatores genéticos: “isso vem de família?”
Como funciona?
Se seus pais ou avós tiveram problemas com álcool, drogas ou até mesmo depressão, você pode ter uma predisposição genética para a dependência. Não é uma sentença, mas uma maior vulnerabilidade.
Analogia:
Imagine que seu cérebro é um carro. Algumas pessoas nascem com um freio mais fraco — quando experimentam uma substância que dá prazer, o cérebro delas tem mais dificuldade para “pisar no freio” e parar.
Exemplo real:
“Meu pai era alcoólatra e minha mãe usava calmantes. Quando eu tive minha primeira crise de ansiedade, o médico me receitou clonazepam. Em três meses, eu estava tomando o dobro da dose. Depois, passei para a codeína. Acho que herdei essa facilidade de me viciar.”
2. Fatores neurobiológicos: o que acontece no cérebro?
Os opiáceos sequestram o sistema de recompensa do cérebro, que é responsável por nos fazer sentir prazer com coisas boas (como comer, transar ou receber um elogio).
Como funciona?
– Quando você usa um opiáceo, ele libera uma enxurrada de dopamina (o “hormônio do prazer”) no cérebro.
– Com o tempo, o cérebro para de produzir dopamina sozinho e passa a depender da substância.
– Quando você para de usar, o cérebro entra em greve e você sente dor, ansiedade e depressão (abstinência).
Analogia:
É como se seu cérebro fosse uma fábrica de felicidade. Os opiáceos são funcionários temporários que trabalham muito bem no começo, mas depois quebram as máquinas e vão embora. Quando eles saem, a fábrica não consegue mais produzir felicidade sozinha.
3. Fatores ambientais: o mundo ao seu redor
Alguns ambientes facilitam o desenvolvimento da dependência:
– Fácil acesso: Se você trabalha em um hospital, farmácia ou tem um familiar que usa opiáceos, o risco aumenta.
– Traumas: Abuso sexual, violência doméstica, bullying ou perdas importantes podem levar ao uso como forma de escapar.
– Pressão social: Se seus amigos usam, você pode experimentar para “pertencer”.
– Estresse crônico: Trabalho exaustivo, desemprego ou problemas financeiros podem levar ao uso como válvula de escape.
Exemplo real:
“Eu comecei a usar oxicodona depois que meu filho morreu em um acidente. No começo, era só para dormir. Depois, passei a tomar de manhã para não pensar nele. Hoje, não consigo viver sem.”
4. Fatores da gestação e desenvolvimento
- Exposição na gravidez: Bebês de mães que usaram opiáceos na gestação podem nascer com síndrome de abstinência neonatal (choro excessivo, tremores, dificuldade para mamar).
- Traumas na infância: Crianças que sofrem negligência ou abuso têm mais chances de desenvolver dependência na vida adulta.
Mitos e verdades sobre as causas
❌ Mito: “Dependência é falta de força de vontade.”
✅ Verdade: A dependência é uma doença do cérebro, não uma escolha. Ninguém acorda pensando: “Hoje vou me viciar e destruir minha vida.”
❌ Mito: “Só pessoas fracas se viciam.”
✅ Verdade: Pessoas fortes, inteligentes e bem-sucedidas também desenvolvem dependência. Não tem a ver com caráter.
❌ Mito: “Se eu usar só uma vez, não vou me viciar.”
✅ Verdade: Algumas pessoas se viciam na primeira dose, especialmente se tiverem predisposição genética.
❌ Mito: “Remédios receitados não viciam.”
✅ Verdade: Qualquer opiáceo pode viciar, mesmo os receitados por médicos. O risco é maior se usado por mais de duas semanas.
Como é feito o diagnóstico?
Se você ou alguém que você ama está mostrando sinais de transtorno por uso de opiáceos, o primeiro passo é procurar ajuda. Mas como funciona o diagnóstico?
1. Onde procurar ajuda?
- SUS (Sistema Único de Saúde):
- UBS (Unidade Básica de Saúde): O médico de família pode fazer uma primeira avaliação e encaminhar para um especialista.
- CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas): Oferece tratamento gratuito, incluindo psicoterapia e medicamentos.
- Hospitais psiquiátricos: Em casos graves, pode ser necessária internação.
- Particular:
- Psiquiatra: Especialista em dependência química.
- Psicólogo: Ajuda a entender as causas emocionais do uso.
- Clínicas de reabilitação: Para casos mais graves.
Dica: Se você não sabe por onde começar, ligue para o CVV (188). Eles podem te orientar sobre onde buscar ajuda na sua cidade.
2. O que esperar na primeira consulta?
O médico ou psicólogo vai fazer perguntas detalhadas sobre:
– Seu histórico de uso: Quando começou? Com que frequência? Qual a dose?
– Sintomas de abstinência: O que acontece quando você para?
– Impacto na vida: Como o uso afetou seu trabalho, relacionamentos e saúde?
– Histórico familiar: Alguém na sua família tem problemas com álcool ou drogas?
– Doenças físicas: Você tem HIV, hepatite ou outras infecções?
Exemplo de perguntas:
– “Você já tentou parar e não conseguiu?”
– “Você usa mais do que pretendia?”
– “Você já mentiu para alguém sobre seu uso?”
– “Você já teve problemas legais por causa da substância?”
Não tenha vergonha de responder com sinceridade. O profissional está ali para ajudar, não para julgar.
3. Exames complementares
Além da conversa, o médico pode pedir:
– Exame de urina ou sangue: Para confirmar o uso recente da substância.
– Exames de imagem (tomografia, ressonância): Para verificar danos no cérebro.
– Exames de sangue: Para checar o funcionamento do fígado, rins e coração.
Importante: Um exame negativo não descarta o diagnóstico. Algumas substâncias saem do corpo em poucos dias, mas os sintomas de dependência continuam.
4. Diagnóstico diferencial: o que pode ser confundido?
Algumas condições têm sintomas parecidos com o transtorno por uso de opiáceos:
– Depressão: A pessoa pode usar opiáceos para aliviar a tristeza.
– Transtorno de ansiedade: O uso pode ser uma forma de “se acalmar”.
– Dor crônica: O uso prolongado de opiáceos para dor pode levar à dependência.
– Transtorno de personalidade borderline: A impulsividade pode levar ao uso de substâncias.
O médico vai avaliar o que veio primeiro: o uso da substância ou os outros sintomas. Por exemplo:
– Se a depressão apareceu antes do uso de opiáceos, pode ser que a pessoa esteja usando para aliviar a depressão.
– Se a dependência veio primeiro, pode ser que o uso tenha causado a depressão.
5. Quanto tempo leva para ser diagnosticado?
Depende. Em alguns casos, o diagnóstico é feito na primeira consulta. Em outros, o médico pode precisar de algumas semanas para observar o padrão de uso.
Não espere “bater no fundo do poço” para buscar ajuda. Quanto antes você procurar tratamento, mais fácil será a recuperação.
Tratamento
O transtorno por uso de opiáceos tem tratamento. Não é fácil, mas é possível recuperar o controle da sua vida. O tratamento geralmente combina medicamentos, psicoterapia e mudanças no estilo de vida.
1. Medicamentos
Os remédios ajudam a:
– Reduzir a fissura (vontade de usar).
– Aliviar os sintomas de abstinência.
– Prevenir recaídas.
Principais medicamentos usados:
| Medicamento | Como funciona? | Efeitos colaterais comuns | Duração do tratamento |
|---|---|---|---|
| Metadona | Substitui o opiáceo, aliviando a abstinência sem causar euforia. | Sonolência, prisão de ventre, sudorese. | Meses a anos (às vezes, por toda a vida). |
| Buprenorfina | Bloqueia os receptores de opiáceos, reduzindo a fissura. | Dor de cabeça, náuseas, insônia. | Meses a anos. |
| Naltrexona | Bloqueia o efeito dos opiáceos, prevenindo recaídas. | Ansiedade, dor de cabeça, náuseas. | Meses a anos. |
| Lofexidina | Alivia sintomas de abstinência (ansiedade, suor, tremores). | Pressão baixa, tontura, sonolência. | Curto prazo (dias a semanas). |
Mitos sobre os medicamentos:
❌ “Tomar metadona é trocar um vício por outro.”
✅ Verdade: A metadona não causa euforia e ajuda a pessoa a reconstruir sua vida. É como usar insulina para diabetes — um tratamento, não um vício.
❌ “Se eu tomar naltrexona, nunca mais vou sentir prazer na vida.”
✅ Verdade: A naltrexona bloqueia o efeito dos opiáceos, mas não impede que você sinta prazer com outras coisas (comida, sexo, hobbies).
❌ “Posso parar o remédio quando quiser.”
✅ Verdade: Nunca pare um medicamento sem orientação médica. A abstinência pode ser perigosa.
2. Psicoterapia
Os remédios ajudam o corpo, mas a psicoterapia ajuda a mente. Ela é essencial para entender por que você usa e aprender novas formas de lidar com a vida.
Abordagens com mais evidência:
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
- Como funciona? Ajuda a identificar pensamentos e comportamentos que levam ao uso e a substituí-los por outros mais saudáveis.
- Exemplo: Se você usa opiáceos quando está estressado, a TCC ensina técnicas de relaxamento e resolução de problemas.
-
Duração: 12 a 24 sessões (1x por semana).
-
Entrevista Motivacional
- Como funciona? Ajuda a pessoa a encontrar motivação interna para mudar, em vez de ser pressionada por outros.
- Exemplo: O terapeuta pergunta: “O que você ganha e o que perde com o uso?” para ajudar a refletir.
-
Duração: 4 a 6 sessões.
-
Terapia de Prevenção de Recaída
- Como funciona? Ensina a reconhecer situações de risco (como estar perto de pessoas que usam) e a desenvolver estratégias para evitá-las.
- Exemplo: Se você costuma usar quando vai a uma festa, a terapia ajuda a criar um plano de ação (como ir embora mais cedo ou levar um amigo de apoio).
-
Duração: Pode ser usada por meses ou anos.
-
Terapia Familiar
- Como funciona? Envolve a família no tratamento para melhorar a comunicação e reduzir conflitos.
- Exemplo: Se sua família não entende a dependência, a terapia ajuda a explicar que não é falta de força de vontade.
-
Duração: 12 a 20 sessões.
-
Grupos de Apoio (como Narcóticos Anônimos – NA)
- Como funciona? Você compartilha suas experiências com outras pessoas em recuperação e recebe apoio.
- Exemplo: Em uma reunião, alguém pode dizer: “Eu também já roubei da minha mãe para comprar droga. Hoje, estou limpo há 5 anos.”
- Duração: Pode participar por toda a vida.
O que acontece em uma sessão de terapia?
– Você conversa com o terapeuta sobre seus sentimentos, medos e desafios.
– O terapeuta não julga, apenas escuta e ajuda a encontrar soluções.
– Vocês criam metas (como reduzir o uso ou melhorar relacionamentos).
– Você aprende ferramentas para lidar com a fissura e o estresse.
3. Mudanças no dia a dia
O tratamento não é só remédio e terapia — seu estilo de vida também precisa mudar. Pequenas mudanças fazem uma grande diferença.
Exercício físico
- Por que ajuda? Libera endorfina (o “hormônio da felicidade”), reduz a ansiedade e melhora o sono.
- O que fazer? Caminhada, natação, musculação, yoga ou dança. 30 minutos por dia já fazem diferença.
- Exemplo: “Eu comecei a caminhar 20 minutos por dia e, em um mês, minha fissura diminuiu pela metade.”
Sono
- Por que é importante? A abstinência de opiáceos bagunça o sono. Dormir bem ajuda a reduzir a fissura.
- Dicas:
- Horário fixo: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias.
- Ambiente escuro e silencioso: Evite telas (celular, TV) antes de dormir.
- Rotina relaxante: Um banho quente ou um chá de camomila podem ajudar.
Alimentação
- Por que é importante? Os opiáceos diminuem o apetite e causam prisão de ventre. Uma alimentação saudável ajuda o corpo a se recuperar.
- O que comer?
- Fibras (frutas, verduras, aveia) para melhorar o intestino.
- Proteínas (carne, ovos, feijão) para recuperar os músculos.
- Água (2 a 3 litros por dia) para hidratar o corpo.
- O que evitar?
- Café em excesso (pode aumentar a ansiedade).
- Açúcar (dá energia rápida, mas depois causa cansaço).
Rotina
- Por que é importante? Quando você está em recuperação, o tédio e a falta de propósito podem levar à recaída.
- Como estruturar o dia?
- Manhã: Acorde cedo, tome café da manhã, faça exercício.
- Tarde: Trabalhe, estude ou faça um curso.
- Noite: Jante, faça algo relaxante (ler, meditar) e durma cedo.
- Exemplo de rotina:
7h - Acordar e tomar café
8h - Caminhada de 30 minutos
9h - Trabalho/estudo
12h - Almoço
14h - Terapia ou grupo de apoio
18h - Jantar
20h - Ler ou assistir a um filme
22h - Dormir
Técnicas de manejo da fissura
A fissura (vontade intensa de usar) vai aparecer. Mas você pode aprender a controlá-la:
– Distração: Ligue para um amigo, assista a um filme, faça um quebra-cabeça.
– Respiração: Inspire profundamente pelo nariz (4 segundos), segure (4 segundos), expire pela boca (6 segundos). Repita 5 vezes.
– Autoconversa: Diga para si mesmo: “Isso vai passar. Eu já aguentei antes e vou aguentar de novo.”
– Fuga: Se estiver em um lugar onde há droga, vá embora.
Exemplo real:
“Eu sentia fissura toda vez que passava em frente à farmácia onde comprava codeína. Um dia, decidi mudar meu caminho para o trabalho. Parece bobagem, mas isso me ajudou a não recair.”
Convivendo com o diagnóstico
Receber o diagnóstico de transtorno por uso de opiáceos pode ser assustador, mas também é o primeiro passo para a recuperação. Vamos falar sobre como lidar com isso — tanto para a pessoa com o diagnóstico quanto para familiares e amigos.
Para a pessoa com o diagnóstico
- Não se culpe.
- A dependência não é culpa sua. É uma doença, não uma falha de caráter.
- Aceite ajuda.
- Você não precisa fazer isso sozinho. Terapia, grupos de apoio e medicamentos podem te ajudar.
- Tenha paciência.
- A recuperação não é linear. Você pode ter dias bons e ruins. Não desista.
- Celebre as pequenas vitórias.
- Ficar um dia sem usar? Parabéns! Uma semana? Isso é incrível!
- Encontre novos propósitos.
- O que te faz feliz? Arte, esporte, trabalho voluntário? Invista nisso.
Exemplo real:
“No começo, eu me sentia um fracasso. Depois, entendi que a dependência é uma doença, como diabetes. Hoje, estou limpo há dois anos e trabalho ajudando outras pessoas em recuperação. Isso me deu um novo sentido para a vida.”
Para familiares e amigos
- Não julgue.
- Seu familiar não escolheu ser dependente. Apoie, não critique.
- Informe-se.
- Leia sobre a doença, participe de grupos de apoio para familiares (como Nar-Anon).
- Estabeleça limites.
- Você pode amar a pessoa e, ao mesmo tempo, não aceitar comportamentos destrutivos (como roubar ou mentir).
- Cuide de si mesmo.
- Você não pode ajudar se estiver exausto ou doente. Terapia e grupos de apoio também são para você.
- Não desista.
- A recuperação leva tempo. Recaídas fazem parte do processo, mas não significam fracasso.
O que NÃO fazer:
❌ Cobrar perfeição: “Você prometeu que não ia usar mais!” → Isso só aumenta a culpa.
❌ Fazer ameaças vazias: “Se você usar de novo, eu te deixo!” → Se não cumprir, a pessoa perde a confiança.
❌ Cobrir as consequências: Pagar dívidas, mentir para o chefe ou limpar a bagunça não ajuda. A pessoa precisa enfrentar as consequências para mudar.
O que FAZER:
✅ Oferecer apoio: “Estou aqui para te ajudar. O que você precisa?”
✅ Incentivar o tratamento: “Vamos marcar uma consulta com o médico?”
✅ Celebrar as vitórias: “Fiquei orgulhoso de você ter ficado uma semana sem usar!”
Exemplo real:
“Minha filha usava heroína e eu vivia chorando e gritando com ela. Um dia, fui a uma reunião do Nar-Anon e aprendi que precisava cuidar de mim também. Hoje, ela está em recuperação e nós duas fazemos terapia. A relação melhorou muito.”
Quando os sintomas podem piorar?
Algumas situações aumentam o risco de recaída:
– Estresse: Problemas no trabalho, brigas em casa, perdas.
– Exposição à substância: Estar perto de pessoas que usam ou em lugares onde você costumava usar.
– Solidão: Isolamento social aumenta a fissura.
– Doenças físicas ou mentais: Depressão, ansiedade ou dor crônica podem levar ao uso.
Como se proteger?
– Evite gatilhos: Se você costumava usar em festas, não vá a festas por um tempo.
– Tenha um plano: Se sentir fissura, ligue para um amigo, faça exercício ou vá a uma reunião de NA.
– Peça ajuda: Se estiver difícil, volte ao médico ou terapeuta.
Perguntas frequentes
1. “Posso me curar sozinho, sem tratamento?”
Resposta curta: Não é recomendado.
Resposta longa:
Algumas pessoas conseguem parar sozinhas, mas o risco de recaída é alto. A abstinência de opiáceos pode ser perigosa (causar convulsões, depressão grave ou até morte). Além disso, parar sem tratamento não resolve as causas emocionais do uso.
Exemplo real:
“Eu parei de usar heroína sozinho três vezes. Na quarta, tive uma overdose e quase morri. Hoje, faço tratamento com metadona e terapia. É mais seguro e eficaz.”
2. “Quanto tempo leva para me recuperar?”
Resposta curta: Depende.
Resposta longa:
– Abstinência física: 1 a 2 semanas (os sintomas mais fortes passam nesse período).
– Abstinência emocional: Meses a anos (a fissura e a vontade de usar podem voltar em momentos de estresse).
– Recuperação completa: Nunca acaba. A dependência é uma doença crônica, como diabetes. Você precisa cuidar dela pelo resto da vida.
Exemplo real:
“Fiquei limpo por um ano e achei que estava curado. Um dia, tive uma briga com minha esposa e usei de novo. Hoje, sei que a recuperação é um processo contínuo.”
3. “Posso tomar opiáceos de novo no futuro, só que de forma controlada?”
Resposta curta: Não é seguro.
Resposta longa:
Depois de desenvolver dependência, seu cérebro nunca mais será o mesmo. Mesmo uma pequena dose pode desencadear a fissura e levar à recaída. Além disso, os opiáceos perdem o efeito analgésico com o tempo, então você precisaria de doses cada vez maiores para aliviar a dor.
Exemplo real:
“Eu parei de usar oxicodona por dois anos. Um dia, tive uma dor de dente forte e tomei um comprimido. Em uma semana, estava usando todos os dias de novo.”
4. “O que fazer se eu recair?”
Resposta curta: Não desista.
Resposta longa:
Recaída não é fracasso — é parte do processo. O importante é:
1. Pare imediatamente e procure ajuda.
2. Entenda o que levou à recaída (estresse? exposição à substância?).
3. Volte ao tratamento (médico, terapia, grupos de apoio).
4. Não se culpe. A recuperação é uma jornada, não uma linha reta.
Exemplo real:
“Eu recaí depois de seis meses limpo. Fiquei tão envergonhado que quase não voltei ao NA. Mas meu padrinho disse: ‘Uma recaída não apaga seis meses de esforço’. Hoje, estou limpo há três anos.”
5. “Como explicar para meu chefe que estou em tratamento?”
Resposta curta: Seja honesto, mas estratégico.
Resposta longa:
– Se você confia no seu chefe: Explique que está em tratamento para uma condição de saúde e que precisa de flexibilidade (como sair mais cedo para terapia).
– Se não confia: Diga que está com um problema de saúde e que o médico recomendou tratamento. Não precisa dar detalhes.
– Conheça seus direitos: A Lei 10.216 garante que você não pode ser demitido por estar em tratamento para dependência química.
Exemplo real:
“Falei para meu chefe que estava com um problema de saúde e que precisava de algumas semanas para me tratar. Ele me apoiou e até me indicou um psicólogo da empresa. Hoje, estou de volta ao trabalho e mais produtivo do que nunca.”
6. “Meu familiar não admite que tem um problema. O que fazer?”
Resposta curta: Intervenção profissional.
Resposta longa:
Se a pessoa não reconhece o problema, uma intervenção (reunião com familiares, amigos e um profissional) pode ajudar. O objetivo não é forçar, mas mostrar como o uso está afetando a vida dela e das pessoas ao redor.
Como fazer:
1. Reúna pessoas importantes (família, amigos, colegas de trabalho).
2. Contrate um profissional (psicólogo ou assistente social) para mediar.
3. Cada um fala como o uso afetou sua vida (sem julgamentos).
4. Ofereça ajuda concreta (marcar uma consulta, ir junto ao médico).
Exemplo real:
“Meu irmão não admitia que usava heroína. Fizemos uma intervenção com a ajuda de um psicólogo. No começo, ele ficou bravo, mas depois aceitou ir a uma clínica. Hoje, está em recuperação.”
7. “O tratamento pelo SUS é bom?”
Resposta curta: Sim, mas depende da cidade.
Resposta longa:
O SUS oferece tratamento gratuito para dependência química, incluindo:
– CAPS AD: Centros especializados em álcool e drogas, com psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais.
– Internação: Em casos graves, é possível ser internado em hospitais psiquiátricos.
– Medicamentos: Metadona e buprenorfina são distribuídos gratuitamente em alguns lugares.
Desafios:
– Fila de espera: Em algumas cidades, pode demorar para conseguir consulta.
– Falta de profissionais: Nem todos os CAPS AD têm psiquiatras.
– Preconceito: Alguns profissionais ainda tratam a dependência como “falta de vergonha na cara”.
Dica: Se o tratamento no SUS estiver demorando, procure ONGs (como o Cruz Azul) ou comunidades terapêuticas (como a Fazenda da Esperança).
8. “Posso tomar outros remédios enquanto estou em tratamento?”
Resposta curta: Só com orientação médica.
Resposta longa:
Alguns remédios interagem com os medicamentos para dependência (como metadona e buprenorfina) e podem causar overdose ou abstinência. Nunca tome remédios por conta própria.
Exemplos de interações perigosas:
– Benzodiazepínicos (como diazepam, clonazepam) → Aumentam o risco de overdose.
– Antidepressivos (como fluoxetina) → Podem aumentar os efeitos colaterais.
– Álcool → Pode causar depressão respiratória (parar de respirar).
O que fazer?
– Informe seu médico sobre todos os remédios que você toma.
– Leve a bula dos medicamentos para a consulta.
9. “Como lidar com a vergonha e o estigma?”
Resposta curta: Lembre-se: você não é sua doença.
Resposta longa:
A dependência química ainda é muito estigmatizada. As pessoas podem te chamar de “vagabundo”, “fraco” ou “sem vergonha”. Mas lembre-se:
– Você é uma pessoa em recuperação, não um “viciado”.
– A dependência é uma doença, não uma escolha.
– Você merece respeito, assim como qualquer outra pessoa.
Como lidar com o preconceito?
– Não se isole. Converse com pessoas que te apoiam.
– Informe-se. Quanto mais você souber sobre a doença, mais fácil será explicar para os outros.
– Participe de grupos de apoio. Lá, você verá que não está sozinho.
Exemplo real:
“No começo, eu tinha vergonha de dizer que era dependente. Depois, comecei a ir ao NA e vi que tinha médicos, advogados e professores lá. Hoje, falo abertamente sobre minha recuperação. Quem não entende, problema é deles.”
10. “O que fazer se eu tiver pensamentos suicidas?”
Resposta curta: Procure ajuda IMEDIATAMENTE.
Resposta longa:
A abstinência de opiáceos pode causar depressão grave e pensamentos suicidas. Isso é uma emergência.
O que fazer?
1. Ligue para o CVV (188) — eles atendem 24 horas por dia.
2. Vá a um pronto-socorro — peça para ser avaliado por um psiquiatra.
3. Converse com alguém de confiança — não guarde isso para você.
4. Não fique sozinho — peça para um amigo ou familiar ficar com você.
Exemplo real:
“Depois de parar a heroína, eu me senti tão vazio que pensei em me matar. Liguei para o CVV e eles me ajudaram a ir ao hospital. Hoje, estou em tratamento e esses pensamentos passaram.”
Quando procurar ajuda urgente
Alguns sinais indicam que você ou alguém que você ama precisa de ajuda IMEDIATA. Não espere — procure um hospital ou ligue para o SAMU (192).
Sinais de overdose (risco de morte)
- Respiração lenta ou parada (menos de 8 respirações por minuto).
- Pele azulada ou cinzenta (especialmente nos lábios e unhas).
- Pupilas muito pequenas (como pontinhos).
- Perda de consciência (não acorda quando chamado ou sacudido).
- Ronco ou ruídos estranhos (sinal de que a respiração está obstruída).
O que fazer?
1. Ligue para o SAMU (192) ou leve a pessoa ao hospital.
2. Se tiver naloxona (Narcan) em casa, aplique. (Esse remédio reverte a overdose e pode salvar vidas.)
3. Não deixe a pessoa dormir. Tente mantê-la acordada até a ajuda chegar.
Sinais de abstinência grave
- Convulsões (corpo tremendo, perda de consciência).
- Alucinações (ver ou ouvir coisas que não existem).
- Dor intensa no peito (pode ser sinal de infarto).
- Vômitos incontroláveis (risco de desidratação).
O que fazer?
1. Vá a um pronto-socorro.
2. Não tente “aguentar em casa” — a abstinência pode ser perigosa.
Sinais de depressão grave ou risco de suicídio
- Falar em morte ou suicídio (“Eu preferia estar morto”, “Vocês estariam melhor sem mim”).
- Dar objetos de valor (“Pode ficar com meu relógio”).
- Isolamento extremo (não sai do quarto, não fala com ninguém).
- Comportamento impulsivo (dirigir em alta velocidade, usar drogas em excesso).
O que fazer?
1. Não deixe a pessoa sozinha.
2. Ligue para o CVV (188) ou leve-a a um hospital.
3. Tire objetos perigosos do alcance (remédios, armas, facas).
Referências
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças (CID-10). 10ª ed. São Paulo: EDUSP, 1997.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
- Fiocruz. Relatório sobre o uso de opiáceos no Brasil. Rio de Janeiro, 2020.
- Centro de Controle de Doenças dos EUA (CDC). Dados sobre a epidemia de opiáceos. 2023.
- Narcóticos Anônimos (NA). Literatura de recuperação. Disponível em: www.na.org.br.
- Nar-Anon. Apoio a familiares de dependentes químicos. Disponível em: www.naranon.org.br.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.